quinta-feira, 24 de abril de 2014

Um comunista que ama

          Inaugurou-se no país a era da desavergonhada e descarada manipulação dos institutos de pesquisa. Dois alvos já se tornaram conhecidos: - o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Dessa forma, doravante os dados sobre taxa de desemprego, renda per capita, crescimento econômico, habitação, inflação e outros importantíssimos dados utilizados no planejamento e tomada de decisões com a intenção de melhorar a vida dos brasileiros são manuseados a bem dos interesses escusos e projeto de poder de seus manipuladores. É mais uma intervenção do Partido dos Trabalhadores (PT), através do governo que ocupa, no intuito de esconder a tragédia que é o seu governo e, mais ainda, divulgar falsos dados com propósitos eleitoreiros. A nuvem do obscurantismo se enegrece ainda mais, prenunciando a procela. À pesada propaganda mentirosa dos feitos do governo alia-se, agora, a adulteração ou omissão dos dados sobre a real situação do país. 
          Outro dia, há duas semanas, bati o telefone para o meu amigo Danúzio Carneiro a fim de agradecer-lhe imensamente o favor que me prestou. Brincando, disse-lhe: -“Você tem um único defeito: - é comunista”! Ele riu-se, mas fez questão de ressalvar: -“Sim, mas sou um comunista que ama. Não sou comunista do tipo que trucida e come criancinhas... Sou um comunista do bem". 
          Se analisarmos o que disse o meu amigo, colheremos algumas assustadoras conclusões. Em primeiro lugar, o "comunista" assume que os comunistas não têm amor, não nutrem amor pelo ser humano. Depois, em segundo lugar, os comunistas odeiam tanto que até comem crianças de colo. Observem que não amar não significa necessariamente odiar. Pode-se não amar sem odiar. O comunista, no dizer de meu amigo, não só não ama como também odeia. Por último, assegurou o meu amigo: - é um homem de bem que, sem querer, como num ato falho, revelou o verdadeiro caráter da ideologia que tanto aprecia. 
          Não sei se souberam das palavras da senhora Marilena Chauí. Em alto e bom som declarou publicamente, outro dia, em conluio com outros comunistas de peso: -“Odeio a classe média”! O “Barba”, codinome do senhor Luis Inácio Lula da Silva ao tempo em que funcionava de informante do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) durante o regime militar, riu-se às gargalhadas da confissão de ódio da senhora Chauí, como que a concordar, a se acumpliciar com ela em seu sentimento.
          (A tragicomédia petista onde foi feita a declaração de ódio seguida das cúmplices gargalhadas foi filmada e gravada e está disponível na rede mundial de computadores. A história do “Barba” está relatada em seus mínimos e sórdidos detalhes nos primeiros capítulos do livro “Assassinato de Reputações – um crime de Estado”, de autoria do senhor Romeu Tuma Júnior.)
          Esta declaração de ódio da senhora Marilena Chauí, suspeito, foi incompleta e de modo algum expôs todo o seu pensamento e sentimentos. Ela concentrou, desconfio, todo o seu canhoneiro na classe média porque ela é, ela própria, um membro da referida classe. Vê-se que esta senhora é um caso psiquiátrico/psicológico semelhante a tantos outros. Darei um exemplo através de um breve relato sobre o que sucedeu a uma amiga.
          Ela tomou conhecimento da homossexualidade de seu então ex-marido passados quase cinco anos da separação do casal. Tão logo soube e comprovou o fato, saiu a lembrar-se de episódios ocorridos que então começaram a fazer sentido: - quando era seu marido, o homem era um homofóbico de carteirinha e sindicato, desses que seriam capazes de fazer apologia ao extermínio dos homossexuais pelo simples fato de serem homossexuais. Às escondidas, por detrás de seu círculo de amizades e de seus familiares, permitia-se dar vazão às suas preferências sexuais e levava como que uma vida dupla. O ex-marido de minha amiga nutria o mais profundo ódio pelo que ele próprio era: - um homossexual.
          Por analogia, é fácil concluir que a socióloga e filósofa Marilena Chauí odeia aquilo que ela própria é: - uma senhora de classe média. E ainda mais. Odeia a classe média como odeia os pobres e os ricos. A verdade é uma só: - ela odeia o ser humano, desde as criancinhas aos idosos e passando por ela própria. Para ela, ninguém é merecedor de amor e é bem possível que não exista tal sentimento. A destilação de seu ódio por um determinado estrato do povo, definido apenas por uma faixa de renda e padrão de consumo, é mera casualidade. 
          A galhofa e o escárnio da senhora Chauí para com a classe média são uma espécie de marketing contra aqueles que pagam impostos, trabalham duro e lutam para viver em paz num país de políticos safados e oportunistas eleitos por uma maioria ignara e autoflagelada que se vendeu barato. Ela e seus comparsas não dão a mínima para essa maioria. Essa arraia miúda é, para esses tubarões, apenas um meio. Falar mal da classe média ajuda a pregar, no coração do povaléu, o ódio por quem constrói, por quem anela o funcionamento pleno das instituições, por quem ama a lei, por quem é a favor do mérito, por quem quer uma justiça ágil e dura, enfim, por quem deseja ardentemente viver num país de verdade. Em suma, o que a senhora Marilena Chauí prega é exatamente aquilo que sente: - o infinito ódio.
          O meu amigo Danúzio esforçou-se por me asseverar, repito, que é um homem de bem. Desnecessário, já que disso não tenho a menor sombra de dúvida. Tudo isso prova que o meu amigo nutre um genuíno e até ingênuo desejo por uma sociedade justa e harmônica. Por isso se julga "comunista". Assim, ele não passa de mais um falso comunista a pulular pela vida sem ter com quem do bem se apegar. É um solitário sonhador que julga que os meios não justificam os fins, mas é aos que pensam o oposto que ele ouve e admira(http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/09/os-falsos-petistas.html). Esses senhores e senhoras que tanto odeiam o ser humano estão absolutamente dispostos a utilizar-se de quaisquer meios a fim de lograr seus objetivos. Para eles não há o bem ou o mal. E que não me venham taxar de maniqueísta. 
          Seja como for, tudo isso ficou implícito na última frase proferida por meu amigo em nossa conversa. Se ele é um "comunista" do bem, então os outros são os do mal, quero crer. (Meu amigo admite os conceitos de "bem" e de "mal". Só em fazê-lo prova ser um comunista falsificado, adulterado, de meia tigela: - um comunista entre aspas.) O diabo é que, como ele, muitos e muitos e muitos falsos comunistas existem neste vasto rincão. No geral são pessoas sensíveis e amorosas, justamente como Danúzio. Difícil é remover deles o ressentimento pelo que eles entendem ser de "direita" quando, de fato, nunca por aqui houve tal coisa. (O que sempre houve foi a exploração, e isso é bem diferente.)
          Assim, aos amigos recomendo doravante classificar os comunistas que vêem ou que conhecem em simulados ou legítimos. Os primeiros amam; os outros odeiam e vociferam. Fiquemos bem longe desses últimos.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Quedê? e daí?

          O que salva o ser humano é a vergonha, a capacidade de se envergonhar, dizia o Nelson. Se a perdemos, não há salvação para nós. De fato, é a vergonha do flagrante o que nos reprime os instintos. Se o sujeito não se envergonha de ser flagrado pilhando cinco reais do bolso do vizinho, de que se envergonhará? Provavelmente de nada. Assim, se o indivíduo não se acanha em ser surpreendido roubando míseros cinco reais, que quantia lhe envergonhará?, já que o ato em si nada representa para ele? Seguramente nenhuma quantia que furte será capaz de lhe ruborizar.
           Quinta passada deu no jornal o seguinte. Em Ibiapina, uma cidade deste inglório e pobre Ceará, que muitos gastam o tempo a tentar ressaltar-lhe a grandeza inexistente, o sujeito morreu, no hospital, à espera de uma ambulância. O sujeito, vítima de acidente de motocicleta, morreu porque não havia, ao momento de sua entrada no "hospital", uma ambulância que o transportasse a outro hospital, na capital. A matéria não foi clara, talvez de propósito, já que nossos jornais são comprados e vendidos pelas várias e inúmeras vertentes do poder. Suas matérias são verdadeiras afrontas ao verdadeiro, sério e descompromissado jornalismo. O jornalismo que se ruboriza é aquele que se comprometeu unicamente e exclusivamente com a verdade, o que não é o caso com o jornalismo de nossa terra. Em síntese, nossos jornais informam sem nada informar, tudo parte de nossa generalizada corrupção e prática indiscriminada do faz-de-conta. 
          (Meu amigo Ciro Ciarlini participou-me, outro dia, que o O Povo é um periódico falido. Funcionaria, hoje, segundo ele, numa espelunca cujo endereço é desconhecido, sabe-se lá onde. A falência do diário teria sido a causa imediata do suicídio de seu mais conhecido e decantado sócio, o senhor Demócrito Dummar, há cerca de seis anos, se não me falha a memória. Para conferir, bati o telefone para o contato do jornal e perguntei o endereço da redação. O funcionário respondeu, sem hesitar: -"Avenida Aguanambi, 282". Quem terá se enganado? O Ciro ou o funcionário? Ainda assim, percebe-se que o jornal, no seu todo, hoje em dia está contaminado com as idéias esquerdistas e o indevido alinhamento governista de seus vários jornalistas. Um ou outro escapa. As idéias comunistas e populistas invadiram a redação do O Povo, de modo que está explicada a péssima qualidade de seu jornalismo. Tudo isso pura e simplesmente a bem da manutenção da vigência de seu principal interesse: - sua sobrevivência.)
           Segundo a matéria sobre a morte em Ibiapina, o único médico de plantão havia se deslocado para outro hospital no intuito de acompanhar paciente transferido em ambulância e em estado gravíssimo, o que está de acordo com as obrigações de um plantonista solitário em hospital primário. Assim, o desafortunado e politraumatizado motociclista encontrou um hospital sem médico e sem ambulância. (Bem feito. Quem mandou nascer no Ceará e morar em Ibiapina? Morreu sem ser socorrido, coitado...)
           Antes que se ergam de lá os críticos da motocicleta, façamos algumas básicas considerações sobre ela. É verdade que a motocicleta não é transporte que se preze. Em nosso meio, muitos de seus usuários, a maioria, julgam que ela é uma bicicleta com motor quando, de fato, ela é um carro sobre duas rodas. A diferença entre os dois conceitos é enorme. Um carro sobre duas rodas nos dá, nitidamente, a idéia da necessidade de atenção redobrada que deve ter seu condutor e de sua maior responsabilidade legal. 
          Para pilotar uma motocicleta o sujeito há de ser, em primeiríssimo lugar, um medroso de marca maior. Piloto de motocicleta que não tem medo está, desde já, mortinho da silva. É uma questão de tempo. Não sei se seria esse o caso do motociclista de Ibiapina, mas, a julgar pelo perfil dos motociclistas mortos no interior deste inglório e desprezado Estado da federação, o infeliz motociclista há de ter sido vítima de sua própria imprudência e negligência. A única forma de salvar um motociclista "corajoso" e "arrojado", característica mais marcante dos nossos, é salvá-lo de si mesmo, é tirá-lo das ruas. Para isso, há duas alternativas infalíveis: - tomar-lhe a licença e/ou pô-lo atrás das grades. Para levar a cabo essas duas eficazes medidas, é preciso apenas um Código de Trânsito claro com leis e punições severas. (O diabo é se escrever um Código sério num país em que deputados e senadores são a escória produzida do povo.)
          Mas, o que dizer da ambulância? Faltou a ambulância salvadora? Vejam os caros amigos como uma notícia de jornal escrita em dois ou três diminutos parágrafos pode conter muitíssimo mais do que sua pobreza informativa. Uma matéria como esta traz em seu bojo muito pano pras mangas. Iniciemos pelas cuecas da notícia, partindo do pressuposto que uma notícia, embora seja uma palavra do gênero feminino, tenha mais características varonis do que a princípio se suponha. Uma notícia é pra ser macho até debaixo d'água. Afinal, informar a verdade é coisa de homem e de gente corajosa, ao contrário do que se possa pensar. Fuxicos e mexericos são coisas de comadres desocupadas, ao passo que dizer a verdade na cara dos poderosos é tarefa resguardada a homens e mulheres de caráter e consciência. 
          Assim, a notícia do Diário do Nordeste – o jornal que veiculou a morte do motoqueiro – está mais pra fofoca de madame do que pra matéria jornalística séria. A notícia parece ter sido o resultado de um telefonema. O sujeito, morador de Ibiapina e eventual informante do jornal, bateu o telefone aqui pro repórter de plantão e lhe passou a informação do inusitado e trágico fato. E ponto final. O jornalista, supostamente um sujeito pensante e letrado, antes de escrever a matéria não fez a si mesmo uma meia dúzia de perguntas pertinentes a fim de esclarecer detalhes sobre essa morte, como sugestão da própria manchete, por responsabilidade da falta de uma ambulância. 
          (Percebo que estou esticando o assunto em demasia e que, na verdade, não há aqui um assunto claro.) O que eu queria saber desde o início dessa lengalenga era se, no hospital, a ambulância é mais importante do que o próprio hospital. Sim, porque, pelo que sugere a matéria em seus minimíssimos três ou quatro parágrafos, o que matou o doente foi a falta da ambulância e não a falta do hospital. Não havia ambulância para transportar o paciente para um hospital, e por isso morreu o pobre coitado. Conclui-se, então, sem a menor sombra de dúvida: - o que faltou, de fato, foi o hospital e não a ambulância. Tanto isso é verdade que a ambulância lá não estava porque havia saído para transferir outro grave doente. Portanto, fica a certeza: - não há hospital em Ibiapina.
          Não faço a menor idéia de quantos habitantes tem a gloriosa cidade, mas o que ficou claro é que ela, repito, não tem hospital que salve. Seu hospital pode até angariar votos, vacinar criancinhas, dar remédio para dor de cabeça, baixar a febre de velhinhos com gripes e resfriados e outras pequenas coisas mais, mas salvar vidas que é bom, necas de pitibiriba. 
          Dirá alguém que o hospital que salva vidas é o grande hospital, a casa de saúde de maior porte, repleta de equipamentos de última geração e alta complexidade; e direi que não, que o diminuto hospital também tem, ou deveria ter, toda a capacidade de salvar vidas, inda mais vidas ameaçadas pelos efeitos dos traumatismos, como no caso do desafortunado motoqueiro. Os leitores hão de lembrar-se do caso do médico que salvou a vida de um passageiro a bordo de um jato intercontinental há poucos anos, quando o avião cruzava o Oceano Índico. Ocorreu o seguinte.
          O passageiro apresentou um quadro respiratório superagudo, de prognóstico fatal se não resolvido em poucos minutos. Que fez o discípulo de Hipócrates? Encostou o ouvido no tórax do homem e viu-lhe no pescoço as veias túrgidas. Concluiu de imediato: - era um pneumotórax hipertensivo. Sem demora, introduziu-lhe uma agulha grossa abaixo da clavícula e transformou o pneumotórax ameaçador da vida em pneumotórax simples, que foi tratado em definitivo quando o avião pousou. Vejam que um exame clínico básico e uma agulha salvaram uma vida a 40 mil pés de altitude. 
          Esse tal de pneumotórax hipertensivo é uma condição relativamente comum em pessoas politraumatizadas. Se o motoqueiro de Ibiapina apresentasse um quadro semelhante, poderia ter sido salvo lá mesmo, sem precisão de ambulância. (Vejam que não estou afirmando que foi este o caso. É apenas uma conjectura.) Há também outras condições e distúrbios fisiológicos graves conseqüentes ao trauma que podem ser resolvidos através de medidas e equipamentos simples, mas a ambulância segue sendo a menina dos olhos dos "hospitais" do interior. 
          Assim, a matéria informaria mais e melhor se expusesse as circunstâncias do dia-a-dia desses diminutos hospitais e seus recursos materiais e humanos. Isso e a questão do trânsito mexem com os políticos e com o governo. Para que mexer com nossos patrocinadores? Deixemo-los quietos e sossegados, para que tenham tempo de maquinar sua eterna permanência no poder. O PIB do Estado cresce, há anos seguidos, mais do que o PIB brasileiro, segundo a imprensa local noticia. Pergunto: - quedê? Pergunto: - e daí?
          Encerro por aqui porque nem eu suporto mais tanta conversa... A minha e a desse povo enganador.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Omissão criminosa

          É bem sabido que o homem é o conjunto de suas atitudes. É sabido também que palavras e atitudes são frequentemente inconciliáveis. O que são palavras? Resposta: - palavras nada são. Principalmente se emitidas por políticos e por gestores de instituições públicas. E mais. Palavras não são ouvidas por todos, ao passo que a atitude gera ondas de admiração, ou de indignação, que alcançam os mais remotos pontos do globo terrestre. Por exemplo, o caso do segundo assassinato perpetrado ontem nas dependências do hospital público administrado pela Prefeitura de Fortaleza, o Instituto Dr. José Frota (IJF). 
          A título de fazer um assustador exercício de memória, lembro aos pouquíssimos leitores de além-mar que no dia 31 de julho do ano passado um menor invadiu as dependências desse mesmo IJF e assassinou a tiros um desafeto que lá se encontrava internado (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/08/saudades-da-paz.html). À época, a publicação de meu texto gerou, entre alguns amigos que se alinham inteiramente com a gente do poder estadual e municipal por conta da manutenção de seus cargos, uma particular "indignação". Um deles ligou-me para me cobrar uma postura mais amena, mais amistosa para com o prefeito. Afinal, ele estaria imbuído dos melhores propósitos e intenções, e estaria fazendo o que pode, um esforço hercúleo, com o propósito de solucionar os problemas desta paupérrima e desafortunada cidade. Disse mais o meu amigo, a respeito do assassinato em plena repartição pública; disse que o assassino alvejou sua vítima fora do hospital e não lá dentro, como afirmei em meu texto. Ficou comprovado: - o crime ocorreu nas dependências do hospital. Vejam, então, que a atitude de meu amigo nada mais é do que a atitude de meio Brasil. Meio Brasil tem interesse unicamente e exclusivamente em seus próprios interesses, como é o caso com os nossos políticos. Vê-se bem que meio Brasil age exatamente da mesma forma que os políticos que elege. Assim, não admira que um seja a cara do outro, políticos e eleitores.
          Agora, precisamente ontem, um homem adentrou calmamente o ambiente da Emergência do IJF e sapecou cinco – repito: - cinco – tiros de revólver naquele que queria ver morto. O resultado, segundo os propósitos do agressor, foi o melhor possível. A vítima, que ao que consta estava sendo socorrida devido a lesões sofridas em acidente automobilístico, não teve a mínima e a menor chance. Morreu quase instantaneamente.
          É digno de nota o seguinte: - este é o fato. Tergiversar sobre ele é um exercício rotundo de canalhice e mau-caratismo. O sujeito não entrou atirando, nem fez reféns, nem veio acompanhado de sua gangue. 
          Os cinco tiros podem ser questionados. O médico legista há de contar no cadáver o número de orifícios, enquanto o pessoal da balística dirá quantas cápsulas foram deflagradas. Dirá alguém que o homem morreu em consequência das lesões causadas pelo acidente, o que é uma possibilidade, mas as testemunhas, seus socorristas, hão de contribuir para provar se prestavam atendimento a um defunto ou a uma vítima de lesões decorrentes de um abalroamento. 
         O meu amigo, que não é nem besta e quer defender seus interesses, assim como ametade do Brasil, há de fuçar em suas opiniões aquela que apele a meu coração, numa demonstração de boa vontade para com os administradores municipais. O diabo é conciliar os malditos, persistentes e incômodos fatos às mais diversas e recalcitrantes opiniões. (Diz o Robert Kiyosaki que, se não se pode demonstrar que algo é um fato, então é apenas e tão-somente uma opinião.)
          Nada disso tem a menor importância, eis a grande verdade. A grande verdade é que esse elemento, o assassino, entrou pela porta da frente do hospital levando consigo uma arma de fogo na intenção de atirar, na intenção de matar. E logrou êxito. Temos um cadáver, mas poderíamos ter mais de um, inclusive o de um funcionário público em pleno exercício de suas funções. 
          Não é de agora, nem de hoje, nem de há uma semana, nem de há meses que o pessoal da enfermagem deste hospital IJF vem, reiteradas vezes, comunicando a seus chefes e superiores, senhoras e senhores sisudos e compenetrados, as agressões verbais e atitudes hostis de que têm sido vítimas, durante seus turnos de plantão, por parte dos pacientes-bandidos e acompanhantes-bandidos que ocupam as enfermarias deste horroroso hospital. (Atente-se que há pacientes lá internados que não se enquadram na categoria "bandido". São pessoas doentes "de doença" ou vítimas dos criminosos.)
           O Código Penal brasileiro, em seu artigo 331, diz que é crime "desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela", e comina uma pena de "detenção de seis meses a dois anos ou multa" para o criminoso. As agressões e desacatos são diários, horários, quase contínuos, mas nenhum funcionário dignou-se a fazer uma queixa-crime na delegacia distrital. Por quê?, perguntarão os mais inocentes e os mais diabólicos. A resposta é simples: - o Estado não tem poder para oferecer proteção ao cidadão comum e, por conseguinte, ao funcionário público agredido e ameaçado em pleno exercício de suas funções. Esses funcionários temem, com toda razão, serem alvos fáceis à vendeta desses facínoras. Transpostos os muros do hospital, cada um que se cuide.
          A partir de 31 de julho de 2013 os muros do hospital nada mais puderam deter. Aquela data – hoje tomamos plena consciência desta terrível verdade – marcou o início do impensável: - as ruas de Fortaleza transitam nos corredores do Instituto Dr. José Frota. Em menos de 1 ano dois crimes de morte por arma de fogo ocorreram nas dependências deste indigno nosocômio. Se havia alguma dúvida sobre a postura da Superintendência e da Direção do IJF quanto às queixas e súplicas de seus funcionários em seus reclames por segurança, já hoje não há mais: - covarde e abjeta é a atitude desses sisudos e compenetrados senhores e senhoras. Promessas, e promessas, e promessas... Reuniões, e reuniões, e reuniões, e reuniões... Uma atitude própria de canalhas. 
          A Secretaria de Saúde do Município, à qual o IJF se liga no organograma da gestão municipal, e a própria Prefeitura menos ainda fazem ou fizeram. Quiçá jamais tenham sequer tomado conhecimento dos terríveis e diários fatos que estão a ocorrer no cerne desta repartição. Se sabem e nenhuma atitude resolvente tomam, só se pode concluir o seguinte: - são criminosamente omissos. (Quem sabe de um crime em andamento e não o denuncia ou o impede tendo poderes para fazê-lo, é cúmplice.) Se os órgãos superiores nada sabem em razão da omissão dos gestores do hospital, ainda assim teriam a obrigação de saber. Em ambos os casos, os gestores do hospital são igualmente criminosos por terem conhecimento dos crimes e nada fazerem para impedi-lo. 
          Não chegam a ser surpresa os assassinatos nas dependências do IJF. Do jeito que vão as coisas nesta horrível cidade, com a omissão criminosa e coletiva de seus gestores; com a completa falta de segurança em ruas, avenidas, praças, transporte público, praias, shopping centers, lojas, bancos, condomínios, edifícios comerciais, hospitais particulares, etc.; com a atitude passiva da população como vaca em corredor da morte para o abate, nada há de diferente a se esperar. O crime tornou-se ubíquo; ultrapassou limites até há pouco impensáveis e intransponíveis. Ninguém está a salvo; ninguém está seguro. Este cenário se transporta ao IJF porque, sendo ele um hospital que atende vítimas da violência, ela, a violência, lá "deságua" em toda sua plenitude, em toda sua ferocidade, em toda sua nudez e hediondez. 
          Os gestores do IJF saibam: - seu caráter e sua consciência estão sendo testados.  Caráter e consciência são diretamente proporcionais. Dos gestores públicos nada esperemos. Afinal, eles são os maiores canalhas de toda essa tragédia. Sua consciência não lhes amola nem um pouco...

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Vergonha e silêncio

          NÃO sei se sabem que moro ali, pertinho ao aterro da Praia de Iracema. Antigamente, o referido aterro era conhecido como "Praia do Ideal". Eis que ontem, mais uma vez, a antiga Praia do Ideal foi palco de mais um furdunço, de mais um incômodo aos moradores de seu entorno. Contudo, devo admitir: - o rega-bofe foi menos intenso, menos perceptível. A bem da verdade verdadeira, a balbúrdia era tão discreta que nem chegou a incomodar, de modo que o referido transtorno nem chegou a se concretizar plenamente. Depois, já avançada a noite, descobri do que se tratava: - comemoravam-se os 288 anos desta decadente e rendida cidade.
          A Praia do Ideal é, anualmente, palco do Réveillon local, com sua queima de fogos e shows de artistas consagrados que cobram cachês milionários.
          (Alguém dirá que não chega a tanto, que estou a exagerar, que a coisa não é bem assim, e por aí vai... O fato é que, todo ano, durante a administração da petista loira desvairada, questionavam-se os valores que o poder público gastava nessas rapiocas. Como de praxe, o quiproquó em torno dos custos das festas resultava em absolutamente nada.) 
          A festa mobiliza todo um contingente do serviço público do estado e do município. E mais: - fecham-se ruas, desvia-se o trânsito; o barulho do equipamento de som é ensurdecedor; a multidão ensandecida, inebriada pela ilusão do novo ano e sob efeito do álcool, promove toneladas de sujeira material e biológica, e, ao dia seguinte, o cenário desolador é a mais nítida evidência de nossa insensatez coletiva.
          (Ano passado, em julho, antes do 14, mas já fazendo parte das comemorações do aniversário da revolta de 1789, vínhamos, Bella e eu, pela Av. de la République em direção à praça. O show musical estava para começar e a multidão ocupava todo o espaço do logradouro, à exceção das ruas do entorno. Sim, as ruas e avenidas que passam ao lado da Praça da República, em Paris, estavam abertas e o fluxo de veículos era perfeitamente normal. Os restaurantes e bares estavam lotados. Inúmeros veículos da autoridade policial estavam posicionados ali perto e, pelo que vi, não tiveram muito trabalho. A festa acontecia na praça, mas a cidade se movia sem transtornos. O único espaço público “cedido” foi o espaço da praça que, por incrível que pareça, já é de domínio público. A festa não atrapalhou a cidade, não impediu os moradores de se locomover com seus veículos, nem alterou o itinerário dos transportes públicos. Ninguém ocupou indevidamente as ruas e avenidas, que se mantiveram em sua utilidade e função de manter a fluidez do trânsito. Ao início da música, estávamos a degustar a deliciosa culinária parisiense em restaurante próximo e quase não se ouvia o som. O pessoal da sonoplastia regulou a intensidade e a altura deste a fim de que não ultrapassasse os limites da praça e às 22 horas tudo estava terminado.)
          POIS ontem, confesso, por aqui a coisa foi pífia, encabulada, quase imperceptível. Coisa de se estranhar, já que gostamos mesmo é de incomodar e azucrinar o sossego e a paciência alheia. Por exemplo, a lei do silêncio. Que diz a lei do silêncio? Diz a tal lei em seu artigo 617 que "é proibido perturbar o bem-estar e o sossego público ou da vizinhança com ruídos, algazarras, barulhos ou sons de qualquer natureza, produzidos por qualquer forma que ultrapassem os níveis máximos de intensidade fixados por Lei".
         Ontem, posso jurar, o ruído da festa de aniversário desta paupérrima Fortaleza no aterro da Praia do Ideal era o menor que meus ouvidos já ouviram em todos esses mais de 14 anos em que moro aqui. Mesmo o mais irritadiço ser a viver por essas bandas conseguiria conciliar o sono durante a "balbúrdia", algo bem diferente das festas de Ano Novo que aqui se comemoram. Ontem os estertores estavam de acordo com o citado artigo da lei. Para o Réveillon recorre-se a um artifício da mesma lei, digamos, uma "exceção" na mesma. (É sabido que neste arremedo de país as leis têm, todas, artigos, parágrafos e alíneas que servem a atenuar seu arroubo inicial ou a amenizar a sanção cominada ao eventual infrator, de modo que a lei torna-se uma peça cômica e destituída da força necessária a coagir. Pois o mesmo ocorre com a "lei do silêncio".)
          Em seu artigo 622, diz a patética lei: - "Não se compreendem nas proibições desta Lei os ruídos produzidos por III-Bandas de músicas em procissões, cortejos ou desfile públicos"; e em seu artigo 624 ela assevera: - "Somente durante os festejos carnavalescos e em outras festas folclóricas serão toleradas, em caráter especial, as manifestações já tradicionais". Ou seja: - não é permitido fazer barulho porque não se pode perturbar o sossego público ou da vizinhança, mas é permitido, como exceção, fazer barulho e perturbar o sossego público e da vizinhança no carnaval e no Réveillon. Eis aí tudo. A vizinhança e o entorno do local dessas festas que se virem para tolerar o barulho ensurdecedor e os transtornos do trânsito. 
          Mas eu dizer da festa de ontem. A festa de ontem comemorou sem comemorar. Pelo menos aqui no aterro. Pouca gente, trânsito livre, ruas liberadas e – por que não dizer? – um sossego bem ao gosto dos que apreciam uma boa sesta. Afinal, comemorar o quê? Comemorar o aniversário de uma cidade horrível de se habitar e viver? Comemorar o aniversário de uma cidade que mais se assemelha a um ajuntamento caótico de gente? como se fora um campo de refugiados a fugir de, e sem abandonar, a guerra já não tão silenciosa e cada vez mais cruel que está a dizimar sua presumida dignidade? Comemorar os milhares de assassinatos anuais e crescentes que nos acumpliciam uns aos outros como numa corja de malfeitores insensíveis e bestiais? Comemorar nossas negras e silenciosas madrugadas diárias, que tornam nossa pólis uma cidade fantasma como uma Gotham City sem Batman, sem heróis, sem mocinhos, sem homens da lei que nos protejam? Não há o que comemorar. Não temos face. Não temos rosto. Não temos caráter. Nosso grau de prostituição atingiu o limiar e já não há como retroceder: - fomos longe demais. E nem saberíamos aonde ir. Nossos gênios nunca existiram.
          As comemorações do aniversário de Fortaleza, ontem, não fizeram barulho, um salutar ruído, porque só o silêncio pode manifestar o nosso mais profundo pesar e nossa mais incontida vergonha pela podridão em que nos tornamos.

domingo, 13 de abril de 2014

PROGNÓSTICOS

         EIS que hoje tomei o táxi aqui, defronte ao prédio, para ir ao hospital. Ia visitar minha mãe, ainda internada. Uma inquebrantável sensação de impotência acercara-se de mim após sua última piora. A avalanche de pensamentos técnicos que se misturava à minha crescente afeição ferida tomava proporções gigantescas, e já não seria capaz de pensar com clareza. Chorar vinha bem a calhar, mas começo a pensar que sequei. Meu coração está despedaçado por vê-la assim, num leito de CTI, coberta com edredões e lençóis que escondem a contínua violação de seu frágil corpo. Ainda assim me fogem as lágrimas. Não será possível que as tenha derramado todas. Devo a ela, em grande parte, as poucas vezes que chorei na vida: - criou-me para não chorar. E, nessas poucas vezes, foi ela quem me ajudou a secá-las. Devo, então, ainda ter bastantes lágrimas.
Assim, olhava pela janela e imaginava o calor implacável lá fora, tentando pôr asas em meu pensamento. Julgava que contribuíra para a gripe que contraíra, mais uma. Fiquei imaginando se não estava a chorar através de meus débeis leucócitos, a me tornar tão vulnerável neste último mês em que ela adoecera.
         Que fazem conosco, os médicos, quando nos ensinam esses critérios prognósticos atrozes? Seus espessos tratados nos ensinam, na frieza e na rudeza de suas expressões pétreas, esses malditos critérios prognósticos a traduzir o exaurimento de nossos recursos. São deuses de barro, os médicos, vestidos em seus longos jalecos cerzidos impecavelmente, a lhes servir de scutum contra a humanidade, sua própria humanidade. Ah!... serve talvez a lhes secar as lágrimas, ainda que a dor pungente e inexorável de suas estatísticas lhes não poupe nem a eles próprios! Como agora acontece comigo.
           O trânsito infernal - que muitos imputam ao progresso, mas que nada mais é do que a cristalização de nossa imensa e crescente mediocridade  é silencioso. Os vidros estão fechados, o condicionador de ar está ligado. O trânsito agora é apenas uma ilusão, como a tela de um cinema a passar uma fita muda de categoria duvidosa. Minha janela me separa daquele mundo como um caleidoscópio gigante. Carlão, o motorista, resmunga qualquer coisa sobre o bairro onde mora. Uma de suas intermináveis histórias tem início.
          Só ouço quando diz que tem de pagar pedágio para entrar e sair do bairro. Que os traficantes mandam em tudo por lá. Que ontem viu quando desembarcaram um carregamento de marijuana em terreno baldio próximo à sua casa. Que, por coincidência, vira tudo pela fresta da janela da cozinha quando fora beber água. Qua sua luz acesa chamou a atenção dos bandidos. Que, no outro dia, cedinho, numa motocicleta, dois facínoras lhe vieram perguntar se vira algo, para intimidá-lo. Que respondeu que nada via porque não tinha tempo de ver nada. Que sua mulher, que fica sozinha em casa, muitas vezes lhe chama ao celular pedindo-lhe que volte para casa, sem admitir que passe o dia a morrer de medo porque todo o bairro é refém do crime. Que todos os dias lá aparecem carros de luxo, roubados e lá levados para a “entrega”. Que a polícia lá vai, mas para receber a sua parte. Que sua única filha casou recentemente e alugou um apartamento lá mesmo. Que quer vender a casa e sair de lá o mais rápido possível. Que tem um revólver e que os bandidos não deveriam nem pensar em mexer com um dos seus. Que os seis vigilantes contratados pela vizinhança para lhes dar segurança foram todos – repito: todos! – assassinados.
           À minha sensação de impotência somou-se a de terror. Esta é a cidade em que nasci, mas soube hoje que aqui não quero deitar meus ossos.
           Adentrei o hospital pelos fundos. A mais serôdia a morrer é a esperança.

Fernando Cavalcanti, 07.04.2010

DOR DA VIDA


        Ah... a dor da vida! Dói em demasia a vida. Todos os nossos dias são de dores, está escrito no Eclesiastes de Salomão. E, contudo, nos agarramos desesperadamente a ela, à vida. Queremos viver, queremos a vida. Dia após dia vivemos à espera do grande dia, do melhor dia, do dia feliz, que nunca chega, que nunca vem. Dia após dia fazemos o que não queremos fazerconvivemos com quem não queremos conviver, vivemos como não queríamos viver. Mas vivemos. Dia após dia.
E nos tornamos tristes. À espera do grande dia que nunca vem, seguimos vivendo. Da semana esperamos o final, do ano as festas e dias ociosos, dos meses o salário, enquanto a vida se esvai lentamente sob o efeito da mais poderosa anestesia jamais inventada pelo homem – o tempo. Anestesiados pelo tempo, esperamos. Esperamos covardemente enquanto a vida que queremos não chega. Enquanto ela não chega, vivemos mesmo a que não queremos. Tristes seguimos.
Como são pobres os dias que vivemos, nos extasiamos nos momentos, como bem disse o Borges. Pagamos pesado tributo por viver. O amor que sentimos hoje é a dor de amanhã. A impotência diante do inevitável amor só não é maior que a impotência diante da dor inevitável. Como foi cruel conosco a natureza! Após uma enorme inexistência, dá-nos breve vida com a consciência do fim inexorável, regado ao apartamento categórico dos amores construídos desde a essência! Sim, é cruel a natureza.
Que nos restou? No efêmero tempo que temos, corremos a construir nossos deuses que, se existissem, nos aliviariam sem demora dessa dor excruciante. Pagamos pesado tributo à evolução na inteligência e na consciência. São elas a nos ligar a essa dor interminável, que dura enquanto dura a vida. Que nos restou, a não ser concluir que, no não-ser prévio, na eternidade do universo que nos precedeu a vida, seguíamos sem dor na materialidade das partículas a ebulir indefinidamente, destituídos da memória da separação de nossos amores?
Quando se vai eternamente, para sempre, um amor visceral, é como se nos apartássemos daquilo que nos dava vida, nos emanava luz, nos fornia da energia fundamental para o viver. É como se o coração parasse e seguíssemos como zumbis, mortos-vivos condenados a uma existência insossa e sem viço. Quando desce à campa esse amor visceral, o corpo que fica quer acompanhá-lo, como se o permanecer afrontasse uma ordem imperiosa. O ímpeto é deitar-se junto a ele e lá permanecer, de volta ao não-ser eterno, de onde nunca devíamos ter saído.
Ah... é imensurável a dor da separação de um amor visceral! Já não me bastam essas reflexões ao estilo schopenhaueriano, nem a promessa de Gabriel em Daniel capítulo 8, verso 14. Só mesmo uma vida breve para suportar a espera interminável. Como seria se vivêssemos mil anos? Pobres de nós! Suportaríamos as dores de tantas e tantas perdas irreparáveis? Onde se revela a crueldade da natureza revela-se também sua justeza. Uma vida longa à espera da mesma morte não havia de aplacar o sofrimento de quem vive.

Fernando Cavalcanti, 16.04.2010

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Geração Y?

          Outro dia pedi ou, melhor, ordenei que não me amassem (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/09/nao-me-amem-em-18062009-ainda.html). E o fiz por várias e boas razões. À época sentia que me amavam com o amor que exigia a paga ou a troca, o amor negociado; ou amavam-me com o amor que demandava-me a punição após minucioso exame de minhas culpas; ou amavam-me com o amor que me extorquia a partir da noção amplamente aceita de que tais amores tudo podem... Enfim, cansado de tais amores, decretei em alto e bom som: -"Não me amem"!
          Hoje, passados alguns anos, descobri o inusitado, o impensável, o terror maior sobre o amor: - não há amor. E há, sim, o amor. Hoje, claro feito a límpida água dos igarapés inexplorados, o objeto do amor não é o ser humano ou um ser humano em especial. Ama-se tudo, menos o ser humano. Mesmo o chavão "amor só de mãe" encontra-se sob tremenda suspeita. Tal suspeita emerge no esteio da evidência de amores outros, objetos diversos das crianças que as mães trazem ao ventre. Ama-se o "sucesso" em detrimento do rebento, eis o que quero dizer. Por isso os filhos das creches e das babás.
          Nunca me esqueci do que ocorreu entre o meu amigo Edísio Camacho e sua esposa Lucídia. Estudavam juntos desde o início do curso superior. Planejaram tudo desde o princípio. Eles seriam dois grandes médicos em especialidades afins. Essa afinidade visava a colaboração mútua que, esperava-se, resultaria em bons dividendos financeiros. Cada um deles tinha a mais sólida noção do que queriam. Digamos, a título de exemplo, que ele quisesse ser neurocirurgião e ela neurologista. Quem os visse em estudantes, já em estágio no hospital, poderia jurar que aquele casal realizaria todos os seus planos e seriam uma família feliz, ele neurocirurgião, ela neurologista. Zoando com eles, eu dizia: -"Deixem pra casar após a Residência"... Eles batiam pé; diziam: -"Não, senhor... Vamos casar antes"!
          Eis que, passados poucos anos após o estágio no hospital, formaram-se e foram especializar-se em escolas médicas de renome no sul do país. Eram, então, marido e mulher. 
          Ah, o jovem, o jovem...! O que seria capaz de demover o jovem em seus propósitos? mesmo e principalmente aqueles considerados centrados e perfeitos? Resposta: - nada. Ali à frente, virando-se a esquina da vida, está o que não se conhece quando jovem; está o imponderável; estão os fatores desconhecidos que não se colocam em suas mais equilibradas equações para o futuro. Entretanto, o jovem – inda mais o jovem inteligente – tudo sabe. Mas nada conhece, eis a grande verdade. E mais: - não conhece nem mesmo a si próprio. 
          Aconteceu, então, o seguinte. Certa noite, após três dias de trabalho extenuante no hospital onde era Residente, Edísio pensou, pensou, pensou... e decidiu. Virou-se para a jovem Lucídia e disse: -"Não quero isso pra mim". E largou a Residência Médica. Não mais queria se especializar em Neurocirurgia, ainda que essa fosse sua vontade desde o momento em que entrou para a faculdade de medicina. Enumerou à mulher várias das razões que o levavam a tomar aquela decisão. Já tinha em mente planos para outra área, mais adequada ao estilo de vida que queria para si. A especialidade de seus sonhos não o fazia feliz agora e, provavelmente, não o faria um profissional feliz no futuro. Os dois primeiros anos na área já o habilitavam a pelo menos uma certeza: - não era o que ele queria. Em outras palavras, meu amigo assumia seu erro ao escolher para si algo que não estava gostando de fazer. Vira, à escolha inicial, somente o status, a pompa, os cifrões, a empáfia, o respeito talvez... Agora, vivendo o dia-a-dia da especialidade, suas obrigações futuras, seu futuro estilo de vida, não restava nenhuma dúvida: - não iria até o fim. As piores vítimas seriam seus futuros pacientes. Podia ter certeza disso. 
          A mulher, oriunda de família conservadora, tradicional, de posses e quereres, recebeu com enorme desconforto o comunicado do jovem esposo. Tratou incontinenti de dividir seu drama com os pais e os irmãos: - o marido desistira da Residência. Os meses que se seguiram foram de embates e bate-bocas. Ele entrou para o programa Médicos de Família aguardando as provas para a nova Residência Médica ao final do ano. Com isso, chegava à casa mais cedo, o que era bom porque ficava com a pequerrucha do casal a dar-lhe toda a assistência. A mulher, ao contrário, irritava-se com isso. Como ele poderia estar em casa já às 4 da tarde? Um absurdo! Certo o dia o cunhado lhe bateu o telefone. Que queria? Passar-lhe um pito, ora essa!  
          O resultado de tudo isso foi o divórcio. Camacho não era o homem que a mulher queria. Não era ele o objeto de seu amor. Seu amor amava o estereótipo, um tipo imutável, perfeito e só desejável se portador de todos os atributos, diplomas e posições que haviam planejado adquirir previamente. Meu amigo, destituído de seu futuro como neurocirurgião, não mais era objeto da admiração, querer e amor de sua esposa. Lucídia não amava o homem Edísio Camacho. Talvez nem ela própria soubesse que não o amava. Com a revisão dos planos do marido, ficou claro: - Lucídia amava um sonho, um projeto, um futuro bom negócio, seu futuro ao lado de um homem de sucesso na especialidade que ela sonhara para ele. E para ela. Tendo resolvido se tornar psiquiatra, digamos, a mulher o descartava como um desejável e respeitável marido. Ela amava o futuro neurocirurgião, não o futuro psiquiatra. Eis aí tudo. 
          Edísio era nada mais nada menos que um espelho que refletia para Lucídia seu ideal de personalidade masculina. Ele não era uma pessoa: - era uma personalidade; ele não era um caráter: - era um tipo; ele não era um homem: - era apenas uma idéia... Lucídia não foi capaz nem mesmo de lobrigar no marido a coragem por tomar decisão autêntica e independente, desprovida de quaisquer influências externas; não foi capaz de entrever o sólido caráter do marido por assumir publicamente que estava errado; foi incapaz de perceber que ao seu lado dormia um homem de verdade. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Retumbante fracasso

          ERA no tempo da Constituinte. Nesse tempo ainda havia os hospitais-escolas. (Quando se fala em escola, pressupõe-se o que ensina e o que aprende.) Até ao tempo da Constituinte, o que aprende respeitava e venerava aquele que o ensinava. Era quase uma relação de pai e filho. Dir-se-ia que o mestre era uma espécie de pai intelectual e moral, que ensinava aos discípulos não somente o conhecimento técnico, mas o comportamento e a postura correta para com o ser humano que sofre e sua família; ensinava a respeitar e a compreender o drama alheio; ensinava a ser sereno diante da derrota imposta pela morte e a ser humilde diante do sucesso no alívio do sofrimento. O discípulo queria beber da sabedoria de seu mestre e, por fim, queria imitá-lo. 
          ATÉ ao tempo da Constituinte, a punição fazia parte do processo educacional como forma de corrigir distorções e inadaptabilidades inviabilizantes. Para isso havia as regras, as normas, os protocolos, as rotinas. Por exemplo, ao discípulo, médico residente do hospital, impunha-se a seguinte norma: - vestir branco. Os homens deveriam vestir camisa e calça branca, usar um cinto branco e caçar meias e sapatos brancos; às mulheres eram permitidos vestidos variados condizentes com a irrefreável diversidade do figurino feminino, desde que fossem de cor branca.
          Eis que, certo dia, ocorreu o seguinte. Doutor fulaninho chegou ao Serviço usando cinto e sapatos pretos. A calça e a blusa eram brancas, mas os sapatos e o cinto eram pretos. Estava na enfermaria vendo os doentes quando a secretária do chefe veio chamá-lo. Em seu gabinete o chefe disse: -“Queira fechar a porta, por favor”... E então, com toda a educação do mundo, com toda a firmeza e autoridade de chefe, continuou:
          -“Sabes que o uso do branco é a norma aqui, não sabes”?
          Fulaninho sorriu meio sem graça e respondeu:
          -“Sim, senhor. Mas os sapatos brancos estavam sujos”...
          -“Volte para casa e só me apareça aqui amanhã; por hoje estás suspenso”.
          E o assunto deu-se por encerrado. À desobediência da norma seguiu-se, quase que automaticamente, a suspensão. Sem réplicas, tréplicas, argumentações inúteis. Fulaninho não era mais uma criança do ensino básico, nem um adolescente cheio de vontades e rebeldias. Ao dia seguinte, ele voltou ao hospital para sua rotina normal de trabalho e aprendizado trazendo consigo a pecha e a vergonha da punição. Aos outros serviu o exemplo; a si serviu a lição.
          Hoje, quase trinta anos depois da Constituinte, já sob os auspícios da Constituição “cidadã”, não há mais, nas Residências Médicas, o chefe. Ou, melhor, o chefe tornou-se uma figura absolutamente decorativa e desautorizada. Não mais exige, não mais pune. Com efeito, o Chefe de Clínica de algumas Residências Médicas não tem nenhuma autoridade. E tem, sim, alguma autoridade, qual seja, a de “proteger” seus residentes daqueles que querem pô-los a trabalhar e, forçoso dizer, daqueles que querem pô-los a aprender. Diria até mais; diria que, hoje, o chefe limita o que o médico residente deve, por dever de ofício, aprender.
          Certo é que só se ensina o que se sabe, e só se aprende o que é ensinado. É pertinente, então, as perguntas seguintes: - alguns chefes limitam o ensino porque têm conhecimento limitado daquilo que, por dever de ofício, deveriam conhecer? Ou: - os chefes limitam o que ensinam por temerem a “concorrência”? Sabe-se lá... O fato observável e constatável é que as chamadas especialidades estão cada vez mais especializadas. Senão vejamos.
         Hoje pela manhã o Traumatologista, após avaliar o jovem paciente atropelado por uma motocicleta quando pedalava sua bicicleta, pediu, com urgência, o parecer do Cirurgião Vascular. Para ele, o caso era uma síndrome compartimental, uma condição que eqüivale a uma isquemia crítica de grupos musculares e que deve ser tratada com urgência através de uma fasciotomia. Falando assim, os leigos leitores imaginarão um procedimento altamente especializado que só o Cirurgião Vascular estará apto a realizar. E mais. Que a fasciotomia é um procedimento somente realizável em hospital de elevada complexidade por necessitar de material e equipamento sofisticado. 
          A verdade, leigo e paciente leitor, é que a fasciotomia é um procedimento que qualquer médico minimamente treinado é capaz de realizar utilizando-se de material básico em hospital primário lá no Ipaumirim ou no Jati. Mais que qualquer médico minimamente treinado, a fasciotomia deve ser de domínio das especialidades que lidam com os traumas dos membros como cirurgiões plásticos, traumatologistas, cirurgiões vasculares e cirurgiões gerais. Veja-se como é simples e fácil toda a coisa. 
          Então, estamos em plena capital, em hospital de nível terciário e que se diz hospital-escola e o traumatologista precisa urgentemente de um cirurgião vascular que trate uma síndrome compartimental. (É verdade que a coisa poderia ser bem pior: - há traumatologistas que não sabem reconhecer a síndrome compartimental.) Se o nobre colega não sabe lidar com a síndrome compartimental, e sou obrigado a admiti-lo já que se valeu de outro especialista, como se sairão os residentes de Traumatologia deste hospital quando estiverem de plantão no Ipaumirim ou no Jati? A fórmula é bastante conhecida: - uma ambulância rumo a Fortaleza a fim de realizar a fasciotomia no hospital de alta complexidade. O profissional formado em nossa instituição vai pôr o paciente numa ambulância para rodar mais de 500 quilômetros a fim de realizar um procedimento que é possível fazer à beira do leito com anestesia local em qualquer diminuto hospital. E nem falemos na importância que tem o timing para esse procedimento. 
          Além disso, se o hospital de alta complexidade está abarrotado de casos de alta complexidade, como ficará com a chegada de casos que poderiam e deveriam ser tratados em suas cidades de origem? Em suma: - o não ensinar aos médicos em treinamento procedimentos simples acabará, num futuro bem aí às portas, contribuindo para onerar ainda mais o que já está operando acima de sua capacidade. 
          Cadê os chefes? Onde estão os chefes? Onde estão as normas? Onde está a vontade desses "discípulos" de aprender? Seguramente os chefes consideram que esses meninos já têm muito trabalho, coitadinhos... Ou talvez imaginem que nada disso é problema deles. Eles não necessitam aprender a realizar a fasciotomia. Ainda é possível que, ao concluir a Residência Médica, esses garotos abram um consultório e já tenham bastantes pacientes da rede "particular" para atender e jamais se verão às voltas com uma síndrome compartimental. Eles não farão plantões e, se fizerem, será ali nos frotinhas, bem pertinho dos hospitais maiores e a ambulância será a salvadora da pátria. Como já acontece hoje. 
          Antes ao discípulo era exigido a mínima disciplina. Hoje deles nada se exige. Nossa geração fracassou retumbantemente na atividade de formar médicos completos. Uma vergonhosa e inevitável constatação.