domingo, 19 de abril de 2015

CLODOALDO'S INN EM SOBRAL

Há muito não via o querido amigo Olimar, Casoba. Foi ele quem disse, numa dessas constatações irretocáveis, que a diáspora sobralense só é menor do que a dos judeus. Numa dessas coincidências que o destino trama, encontrei-o na manhã da última sexta no hospital poucos instantes antes de eu embarcar para a Princesa do Norte. E – olha bem, Casoba – fazia um monte de tempo que eu não via o Olimar. Como é possível que justamente naquele dia eu o encontrasse? Levei comigo, após um esfuziante cumprimento de parte a parte, um abraço do amigo à sua amada cidade. Prometemos um ao outro trocar, doravante, figurinhas literárias.
Como disse antes em correspondência anterior, fui a Sobral a negócios. Diz um velho ditado que não se deve mostrar o fundo da alma nem o fundo do bolso, ao que acrescentaria que não se deve também detalhar nada dos acordos, sob pena de se ferir de morte ao que reza o outro adágio quando diz que o segredo é a alma do negócio. Posso, entretanto, dissertar sobre outras amenidades e coincidências, umas felizes, como o encontro com meu amigo, outras nem tanto, como verás a seguir.
Para minha sorte chovia em Sobral. Sabias, Casoba, que também chove em Sobral? Não é apenas aquela canícula insuportável a pairar no ar. Vez ou outra vem a chuva e com ela a amenização daquela. Ainda bem, já que o excesso de calor deixa-nos irritadiços e impacientes, o que não vem bem aos negócios, sejam eles quais forem. Pois eu diria que esta foi outra feliz coincidência, se me perdoarem a ignorância dos dados e fenômenos do tempo que predispõem àquelas precipitações. Num lugar em que parece imperar absoluto o disco solar implacável, a chuva vem como uma benção ou uma feliz coincidência.
Os negócios não foram tão bem quanto desejávamos, mas nada que não se resolva com alguns pequenos ajustes e algumas conversas telefônicas ou internáuticas. Não foi qualquer outra coincidência a responsável por tal desfecho. A verdade é que faltou profissionalismo de uma das partes. A boa vontade é a mãe da paciência, de modo que com aquela se consegue esta, e com esta o sucesso nas negociações.
Tu, que gostas em demasia do futebol e de suas crônicas, deves já estar a pensar que lá fui parar justamente no fim de semana em que o Ceará foi jogar com o Guarani (ou será Guarany?). Pois é verdade. Eu lá estava. E antes não estivesse, devo confessar. Não invoco aqui o meu desapreço por futebol, que esse é bem conhecido de todos. Há, aliás, os que dizem não acreditar que isso seja verdade, já que falo tanto de e em futebol. Explico: não gosto de futebol, mas adoro suas crônicas. Sou, portanto, cinqüenta por cento semelhante a ti. Não tentarei explicar como seja isso possível, e já antevejo argumentos aparentemente incompreensíveis e irreconciliáveis. Peço apenas àqueles que duvidam que acreditem em mim: detesto futebol.
Tentarei explicar, isso sim, como uma outra coincidência durante esta viagem me foi feliz por um lado e infeliz por outro. Ora, o lado feliz de tal fortuidade é a possibilidade de doravante todos acreditarem em mim quando digo que detesto futebol, ao passo que o viés infeliz foi o acontecimento em si. Devo dizer que preferiria continuar desacreditado a ter passado pelo que passei. Aconteceu precisamente o seguinte, Casoba.
Estava hospedado no hotel do padre. (Presumo que saibas de quem falo. O homem é sobejamente conhecido.) É um imóvel agradável e simpático, com aposentos amplos e confortáveis. Oferece um delicioso e bem servido desjejum. Passamos o dia fora, em atividades de trabalho. Um amigo, que retornou ao hotel mais cedo, bateu o telefone e deu a notícia: o time do Ceará havia chegado e se hospedado no hotel, e seu restaurante, dali em diante e até depois da partida com o time da casa, estava reservado ao almoço e jantar exclusivamente para o escrete e sua comissão técnica.
Incrédulo, voltei à estalagem. Guardava em meu íntimo a esperança de ser uma brincadeira do amigo. Chegamos, pagamos o táxi e adentramos. O que vi, Casoba? Digo o que vi: na recepção, logo à entrada, estava sentado ao sofá, com as pernas esticadas sobre uma mesa de centro, o Clodoaldo. Uma senhora ou senhorita feiíssima alisava-lhe os crespos cabelos e uma outra, de cabelos aloirados à moda artificial, observava a ambos como se a boca se lhe enchesse d’água. (O Clodoaldo, tu bem o sabes, é aquele com nariz de cachaceiro.) Contive a custo uma gargalhada, e segui adiante. À porta do elevador, na sala contígua à primeira, estava estampado o anúncio da interdição do restaurante.
Vês agora porque detesto futebol? O futebol extravasa do campo, dos estádios, das sedes dos clubes e invade as ruas, as lojas, as casas, os restaurantes e, como pude constatar por experiência própria, os hotéis. Meu medo é chegar à casa e encontrar o maior pagode com o Ronaldinho carioca deitado em minha cama na companhia de algum homem vestido de mulher. O futebol tem essa capacidade de impor o desrespeito, a falta de consideração e - quem sabe? - futuramente a ameaça à propriedade privada. Não vai faltar mais nada em nome do futebol, Casoba.

Fernando Cavalcanti, 21.02.2011