quarta-feira, 9 de março de 2011

Abandonados

Há um ano Marcela Montenegro, uma belíssima jovem empresária desta cidade, levou um tiro na cabeça e faleceu três dias depois. Foi num assalto. Os assaltantes eram, e presumo que ainda sejam, pobres. Em meio ao grupo uma criança de onze anos, usada para se jogar diante do carro e provocar sua parada a fim de que o crime fosse perpetrado. Como Marcela reagiu à abordagem não parando o veículo e imprimindo-lhe maior velocidade para evadir-se, um dos homens detonou sua arma de fogo e a bala atingiu-lhe o crânio, ceifando-lhe a vida.
            Uma onda de perplexidade varreu a cidade, como um terremoto de magnitude 3,0. É sabido da sismologia que um tremor de tal intensidade é sentido, mas raramente causa danos. Nenhum dano foi registrado na sociedade causado pela forma brutal, covarde e inconseqüente com que Marcela Montenegro foi morta. Perplexidade é como uma intenção – em nada contribui. O único verdadeiro distúrbio se deu no seio da família da moça. Um ano depois ninguém sabe como estão se sentindo seus familiares, mas presume-se que ainda estejam zonzos com o excepcional evento.
            Noticiou-se hoje em jornal de grande circulação no estado que o garoto que estava com o grupo que assaltou e matou Marcela foi “apreendido” por assalto no mesmo local em que a jovem foi executada. Ao que parece ele estava na companhia de um jovem de 25 anos, e ambos estavam armados de faca.
            Não acusemos precipitadamente o garoto. A única coisa que podemos dizer sobre ele é que não costuma andar em boa companhia. O problema é o que o Johann Goethe disse: “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és; saiba eu com que te ocupas e saberei também no que te poderás tornar.” Segundo ele, nosso “menino”, hoje lá com seus 12 anos de idade, é um facínora semelhante aos que acompanha e está em vias de se tornar um exímio profissional do crime. Quem diz é o Goethe, não sou eu.
            Não sejamos tão duros. É perfeitamente possível que o garoto só tenha estado em atividades ilícitas justamente essas duas vezes no último ano – na noite em que Marcela foi baleada, em 09.03.2010, e no último domingo em que foi “apreendido”, 07.03.2011. Nesse intervalo de tempo ele devia estar envolvido com a escola onde estuda, ou com a família ajudando sua mãe, pai e irmãos.
            Estou indo longe demais. O “menino” é pobre e deve ter sido gerado no seio de uma família desestruturada. Não vai à escola há anos e por tudo isso entrou bem cedo para o mundo do crime. Não se explica como, num país cujo governo de “esquerda” que já dura mais de oito anos – o garoto devia ter três a quatro quando ascendeu ao poder –, esse garoto permanece nessa vida devassa, sem esperança, sem futuro, sem ninguém que lhe socorra. Não é mesmo possível explicar. Os correligionários estão todos os dias mostrando e explicando como os pobres estão menos pobres, como sua educação melhorou e como, por se ter alcançado esses índices, a criminalidade decaiu vertiginosamente.
            Fui ver o que ocorre na Grã-Bretanha. Além de Sobral, sou um obcecado pela Grã- Bretanha. Por ter 23 crianças presas por 100.000 habitantes (cerca de 200 mil crianças atrás das grades), a maior taxa da Europa, os ingleses estão buscando alternativas. Entretanto, “os políticos parecem relutantes em adotar qualquer medida que dê a impressão de que eles estão sendo pouco severos com o crime. Eles estão presos ao ‘complexo do pânico’, à politização do crime e à preocupação de que podem perder votos por não parecerem rígidos o suficiente.” Os políticos ingleses parecem estar ressabiados com os grandes criminosos da história. Têm pavor ao crime. Compreende-se.
            Por outro lado, é provável que aqui fosse como lá, ou seja, “as crianças detidas vêm, com freqüência, das classes sociais mais baixas, que em 1980 representavam 10% da população da Inglaterra e subiu para 34% em 2002. Um estudo conduzido em 2001 pelo órgão que coordena as prisões britânicas descobriu que 84% das crianças encarceradas foram excluídas da escola, 25% tinham conhecimentos de matemática e capacidade de leitura equivalentes aos de uma criança de sete anos, e 37% descreviam seu nível educacional como nulo.” Parece que lá eles não falseiam as estatísticas. São sérios demais para isso.
Contudo, há casos que ficaram famosos e cuja decisão judicial pareceu justa ao país e ao resto do mundo, como o dos “dois irmãos de 10 e 12 anos que torturaram e espancaram brutalmente dois garotos da mesma idade. Foram condenados pela Justiça inglesa a permanecer na prisão por tempo indeterminado”. Na sentença o juiz escreveu: “Foi uma violência sádica e prolongada apenas para que vocês se divertissem machucando e humilhando eles. Estou certo de que os dois representam um alto risco de causar sérios danos a outros”. O mais velho deles justificou sua violência por “estar entediado por não ter nada para fazer”. Um relatório do Conselho de Segurança das Crianças do país mostrou que os irmãos apresentavam um histórico de agressões. Os ingleses adoram os históricos. Tudo indica que, para eles, têm uma importância tremenda.
            Parece que, sem levar em conta o problema social de que o nosso “menino” é vítima, e não querendo minimizar tal dado, parece que ele tem um mesmo e semelhante histórico de agressões. Os dois meninos ingleses foram condenados a ficar no mínimo 5 anos atrás das grades.
            A pergunta que fica no ar é: por que esse “menino” está solto entre nós? E outra: se o Estado entende, através de seus doutos legisladores, que não se o deve prender, por que ele não indeniza as vítimas desses reincidentes criminosos que não são criminosos sendo criminosos? Parece ser uma prática regulamentar soltar facínoras e monstros, como, por exemplo, o que estuprou e matou a linda menina Alanis. O monstro era condenado e estava solto por um indulto estatal.
            Continua nos faltando a guerra que nos transformaria dos medíocres que somos no país glorioso que ansiamos ser. Na guerra em andamento em solo pátrio estão vencendo os criminosos. É uma guerra suja e covarde em que até as armas nos confiscaram. Ela gera em nós esse sentimento de frustração e abandono que sinto agora. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma saudade sem fim - a rua de minha infância

(No tempo daquela rua a vida era pura magia, em tudo, por tudo, por todos.)
Tenho uma enorme dificuldade em entender os motivos que levam tantas pessoas ao divã. O que me está claro é a razão dessa dificuldade. Dela eu bem sei.
A razão de minha dificuldade em entender o desperdício na vida das pessoas deitadas ao divã é justamente a magia do tempo da rua de minha infância e tudo o que a ela se refere. Ainda agora, nessa madrugada serena, quente e pouco iluminada, a visão desse conjunto move em mim algo sagrado, indescritível, imponderável. Uma única palavra pode traduzir esse encanto: saúde. Afetiva e psíquica. Aquele tempo me herdou saúde afetiva e saúde psíquica.
Devo ser um sujeito muito pretensioso por julgar que somente naquele tempo se pôde herdar saúde afetiva e psíquica. É óbvio que estou errado. Digo então, após reconhecer meu erro crasso, que, talvez por sorte ou qualquer outro motivo que não atino no momento, por obra e arte do acaso, aconteceu de, depois daquele tempo, ganharmos saúde afetiva e psíquica.
(Ah, eu bem sei que aqui não há acaso!... aqui há família, princípios, moral.)
Saúde afetiva é a consciência da importância maior do amor próprio e o exercício do amor que faz crescer para com outras pessoas. O amor que faz crescer não é, ao contrário do que possa parecer, um amor passivo, estático, permissivo; ele é, acima de tudo, o amor que ao outro questiona, que ao outro expõe. Por isso é possível que gere conflitos e iras. Ele pode representar o divã onde se deitam os pacientes da psicoterapia, hoje tão procurada. Quem tem pelo outro o amor que gera crescimento diz a verdade e está sujeito a também ouvi-la. Pena é que muitas vezes, ao ouvir a verdade que ninguém diz, quem diz se vê na iminência de ser alvo de verdades que são inverdades, revides do que julgam agressões aqueles que imputam infâmia naquilo que sabem ser de fato a verdade. Portanto, maturidade é necessária ao exercício do amor que faz crescer.
O amor que faz crescer não é tolerante com a fraqueza, com a indulgência, com a pusilanimidade nem, e principalmente, com a falta de amor próprio. Não vêem com bons olhos aqueles cujo amor próprio é elevado aos que não o têm ou o têm ao mínimo. Daí se pensar, como conseqüência, que não seja possível a amizade e a convivência destes com aqueles. A recíproca é absolutamente verdadeira. Os que não têm amor próprio detestam os que o têm e neles vêem um quê de petulância e pedantismo. Bem se vê como tende a ser conflituoso o relacionamento de uns com os outros.
Um exemplo de saúde afetiva debilitada é o do adulto que se origina da criança que tudo tem, tudo recebe e a quem tudo é permitido. Cresce cada vez mais nessa criança a sensação de que não é amada, de que é, na verdade, temida. Sem o amor que cuida e que limita, não tem amor por si mesma, não desenvolve amor próprio. Sem ele não tem por outros o amor das relações, o amor que contribui para o engrandecimento do outro.
    Saúde psíquica é – não pretendo escrever um tratado discordando ou apoiando os estudiosos da mente e do comportamento humano – ter intactos e bem desenvolvidos os mecanismos mentais que protegem o ser dos ataques que visam diminuir-lhe o amor próprio. Em outras palavras, é saber minuto a minuto dos ataques que lhe são desferidos ao amor próprio e repeli-los incontinênti. Os seres humanos estão sempre empenhados em humilhar, diminuir e assustar o outro porque assim julgam conseguir “cooperação” ou subserviência; não se importam que tal  manobra seja, no outro, causa de tristeza, frustração, culpa, dependência e medo. De fato, é precisamente o que querem que aconteça, pois somente assim conseguirão tê-lo como refém. Tais estratagemas, quando usados na infância, criam na adultícia verdadeiros ratos de consultórios de psicoterapia. O resultado é amplamente conhecido: são doentes crônicos cuja cura está sempre além dos conhecimentos do pobre e empenhado terapeuta. E nem digamos que esses senhores não exercem para com seu paciente o amor que faz crescer, única chance real de eles se curarem definitivamente.
Aquele adulto que brota da criança que não desenvolveu seu amor próprio é facilmente manipulado e dependente, e carrega no fundo de seu ser a culpa que lhe corrói a alma, a de ter nascido. Não desenvolve a saúde psíquica que lhe preserva o amor próprio pois não o tem para ser preservado.
Aquela foi minha rua por quase onze anos. Dali saí para a vida de adulto repleto das ilusões e certezas que habitam a alma dos jovens. A vida comigo fez o que sempre faz a todos: esmagou-me as ilusões e as certezas com sua natural frieza e passividade. A mim restou o início da compreensão de tudo o que me impelia ao desequilíbrio, à insanidade, à ansiedade, à angústia e ao menosprezo pela vida. Mais; anos depois tive que aprender a me perguntar com freqüência o que a vida estava querendo me ensinar com as peças que me pregava e com as sucessivas perdas que me abatiam. As respostas eram fáceis de descobrir, e sempre me impeliram a polir ainda mais minha saúde afetiva e psíquica. O mais eram considerações filosóficas e religiosas que a ninguém há de interessar. As ruas ensinam coisas em cada casa e em cada esquina.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Paz e liberdade – ingredientes da felicidade

Perguntou-me hoje o meu amigo Ciro Ciarlini, no hospital, se eu achava que o dinheiro é fundamental para se ter felicidade.
            Nesses tempos de gurus e livros de auto-ajuda, do coaching e dos pastores digitais, das palestras budistas e espíritas para casas lotadas e em grandes auditórios, o que mais se tenta ensinar é como obter felicidade. Falam, falam, falam, e ninguém ouve; ou, se ouve, não aplica o que é ensinado. Ensinam, por exemplo, que o apego ao material só traz dissabores e sofrimento; que o ciúme é fonte de angústia e dor; que o ter não importa, o que importa é o ser; e por aí muitos vão enchendo os bolsos do dinheiro que dizem não ser importante.
Impossível é ensinar uma lição que não se aprendeu na prática. O que se faz fala tão alto que o que se diz ninguém escuta, diz o adágio. O inverso é mais verdadeiro ainda: o que se não faz fala tão alto que o que se diz para fazer ninguém escuta. Vejam a mordacidade do Falcão na letra de uma de suas músicas: dinheiro não é tudo, mas é cem por cento. Traduz bem na medida a hipocrisia desses que estão aí a tentar ensinar o povo.
O Ciro me perguntava se é possível ao pobre ser feliz. E lhe respondi: e ao rico também. É possível a um e a outro. Por que não seria? O dinheiro nada tem a ver com felicidade. Comumente se pensa que o dinheiro é necessário à alegria e à felicidade. Tal concepção é uma tolice sem tamanho. Outro dia, viajando por uma dessas estradas federais esburacadas, vi o que todos vêem. À beira da estrada mora gente pobre. Suas casinhas são feitas por Deus sabe quem. Ao lado há uma árvore frondosa cuja sombra provocante é um convite ao ócio e lazer. Pois bem. É isso mesmo o que faz o pobre que tem essa frondosa árvore como vizinho – põe sob a copa da árvore uma mesinha, umas cadeiras, uma fogueira; sobre a mesa distribui meia dúzia de copos de geléia de mocotó vazios. A garrafa de aguardente sai barato, e o frango assado sai de graça, escolhido do meio de sua criação pessoal. Chama os vizinhos pobretões e a farra vai até sabe-se lá quando. São felizes? Não tenho a mínima idéia, mas têm tudo para ser.   
Diz o Kiyosaki que o dinheiro gera problema quando em falta e quando em excesso. Na verdade o dinheiro causa problema como tudo aquilo que muito se deseja ter e não se consegue. Há coisa que faça sofrer mais do que o desejo incontrolável de ter uma montanha de dinheiro? O pobre da beira da estrada tem a mais absoluta certeza de que jamais terá algum dinheiro, mas é feliz com o que tem. Portanto, não sofre por querer o que julga impossível obter. Porque não quer, não sofre. Se quisesse sofreria. Simples assim.
Vê-se que dentre o pobre da cidade ou o pobre que se contamina com as idéias que vicejam nas cidades existem os que querem ter. Há os que são como o da beirada da estrada, mas cresce nas cidades aqueles que cobiçam, que sonham, que imaginam, e com isso cresce-lhes o sofrimento e a vontade de ter. Uma vontade não satisfeita é sempre uma fonte de infelicidade e tristeza. A historieta que conto abaixo é bem ilustrativa.
Certa vez um rico empresário viajando a beira-mar parou seu carro com tração nas quatro rodas à porta da casa de um humilde pescador. O pescador, deitado fora da casa na rede presa a duas árvores (esse pescador tinha duas e não uma árvore fora de casa), balançava-se e fumava um cigarro desses que se fazem comprando o papel e o fumo. Mais distante, à frente da casinha, a jangada do pescador secava ao sol. O empresário veio puxar conversa: - Aquela é vossa jangada? O pescador respondeu que sim. “O senhor pesca para si e para a família?”, continuou perguntando o empresário. “Sim, é o suficiente pra gente viver.”, respondeu o humilde homem. O empresário começou então a ensinar ao pescador como ele poderia fazer fortuna rapidamente: - Se o senhor sair a pegar bastante peixe para vender poderá comprar outras jangadas e colocar outros pescadores a pescar para o senhor. Em breve terá barcos e barcos que pescarão mais peixe ainda e o senhor ficará bem rico. O homem olhou para o empresário e perguntou: - E pra que tudo isso? Ele respondeu: - Ora, para o senhor ficar deitado aí em vossa rede despreocupadamente! O pescador então respondeu: - Mas eu já não estou aqui deitado despreocupadamente?!
Se o humilde pescador “comprasse” a idéia do rico empresário, iniciaria ali sua desgraça e seu sofrimento. Iria querer mais e mais dinheiro e nunca saberia quando parar de querer.
Ter qualquer coisa em excesso, ou nutrir demasiado amor pelo que se tem, é ainda um mais sério problema. Para ser feliz com o excesso é necessária certa dose de desprezo pelo objeto da posse. É preciso enganar a mente dizendo-lhe todos os dias: -“Esse objeto não me serve de nada. É só um meio e uma ferramenta para atingir meus objetivos” É como se não quisesse ter o que tem, ou que o que tem nada representasse. É como se lhe fosse fácil mudar as metas caso o meio de alcançá-las fosse perdido. O mesmo se faz com o excesso de dinheiro. Não se deve, contudo, no que tange ao dinheiro, fazer com ele peripécias e estripulias, posto que não aceitasse desaforos. Ainda assim é preciso a ele dizer todo dia: - Quem manda aqui sou eu!, a fim de estabelecer quem é o senhor e quem é o escravo. Faz-se, então, necessário, para quem tem excesso de dinheiro, um aprendizado contínuo sobre formas de pôr o dinheiro para trabalhar para seu dono. Quem trabalha? O escravo ou o senhor? Então, que o escravo trabalhe. Não se conseguirá que o escravo trabalhe enquanto o senhor não for senhor. O medo de perder é outro problema dos donos do excesso. Há que aprender a perder o medo de perder se quiser ser feliz com o excesso. Diz o Kiyosaki: você recebe o que você teme. Portanto, se tiver medo de perder, perderá, certo como dois e dois são quatro.   
A conclusão de tudo isso é que falta de dinheiro não traz infelicidade simplesmente porque não existe a falta de dinheiro; o que existe é o desejo insaciável de tê-lo mais, sempre mais. Acabando-se o desejo, acaba-se também o que faz sofrer. O que traz infelicidade é a falta de paz e liberdade. A paz é fruto das boas relações com os outros; a liberdade cresce na árvore que está no jardim da alma: dentro do próprio ser, com saúde afetiva, emocional e psíquica.
Respondi, então, ao meu amigo Ciro Ciarlini: é possível ser feliz sem o dinheiro, assim como é possível ser feliz sozinho. (O amigo está doido que eu case!)      

quinta-feira, 3 de março de 2011

Nem Freud

Vocês não sabem da maior: Amorim reapareceu. Preciso confessar – perdera todas as esperanças de revê-lo um dia. O motivo é simples. O homem some quando está amando. É tudo muito fácil de entender. Deixem-me explicar.
            Amorim ama tanto e tão diversamente que a nova amada precisa ser mantida a uma distância segura de tudo e de todos. Entende-se. Amorim teme que a mais recente amada tome conhecimento de quem ele é de fato. Por isso some. Diria que o homem se traveste. Seria uma nova personagem, com novo temperamento, novo modo de falar, novo figurino, e até novas idéias. Não sei se me faço entender. E, assim, nesse palco particular onde se inicia seu novo relacionamento, Amorim é um novo homem. A amada estará prestes a conhecer a fundo o homem que ele quer de fato ser.
            O problema é que ele ainda não adquiriu, do alto de seus mais de cinqüenta, a maturidade suficiente para entender o que até minha sobrinha de sete já percebeu: por detrás da personagem há, imutável, a essência do verdadeiro homem, assim como por detrás do fantoche há o homem de carne e osso.
             O querido amigo é um tipo tão singular que merece análise mais acurada. Se ele quer ser alguém que não é, significa que o amigo não gosta de quem é; em outras palavras, não gosta de si mesmo. Tal possibilidade é indício ominoso – falta-lhe amor próprio, tem baixa auto-estima.
            Há ainda a possibilidade de ele preferir o relacionamento fechado com a amada por desejar dela toda a atenção e zelo que ela puder lhe dar. É tão carente de afetividade que dela demanda todo o seu tempo, toda a sua vida, todo o seu ser. A amada precisa nutrir por ele adoração e dependência afetiva completa, tal como ele nutre por ela. A vida a dois passa a ser um círculo muito fechado, estreito, quase um ponto, quase uma singularidade cósmica. Disso resulta o efeito colateral mais aberrante e danoso – o ciúme. Nem me perderei nos meandros, sótãos e porões do ciúme que é assunto a exigir tratados e mais tratados.
            Alguém certamente perguntará por que some tanto tempo o Amorim, já que relacionamentos firmados sobre tais alicerces ruem tão rápido quanto indubitavelmente. Simples – o homem os coleciona há anos. São tantos e tantos os casos e amores do Amorim que não lhe resta tempo para outra coisa. O homem está sempre às voltas com um rabo de saia e nós, seus amigos, até dele esquecemos tamanho o chá de sumiço que o homem toma. Pior do que ele só o Padilha, agarrado aos equipamentos de última geração que adquire. O que sei é que entre os dois, Amorim e Padilha, a parada é dura, cada um mais doido que o outro.

Torcedor sem vergonha

Eu até que tentei. Nem que fosse para ter depois sobre o que falar, tentei ver o jogo. Só consegui por quinze minutos, interrompidos constantemente por outros afazeres que julgava importantes. No frigir dos ovos, se se somassem os verdadeiros minutos que me prendi à tela não dariam nem cinco. Então, fui ler minhas correspondências.
Sou do tempo das cartas, que chegavam em envelopes brancos de beirada verde-amarela trazidas pelo carteiro. Hoje as cartas que se escrevem e se enviam desta maneira entraram para o rol das coisas que não mais existem, como os sapatos Conga, ou o Ford Galaxie. Não se vê mais nada disso. As correspondências chegam hoje via computador pessoal, através de um endereço eletrônico. Nosso endereço residencial, hoje em dia, serve apenas à entrega das contas a pagar e das cobranças do imposto de renda. Serve também para que se comprove onde se mora na hora de abrir um crediário. Fora isso, desconheço qualquer outra utilidade de se ter um endereço residencial.
Antigamente sabia-se se o sujeito era importante pelo volume de cartas que lhe enviavam. Nas festas de fim de ano media-se a importância de alguém pelo número de cartões de boas festas que recebia. E eram todos, os cartões, colocados sob a copa da árvore de Natal, junto dos presentes. Hoje qualquer borra-botas recebe uma enxurrada de correspondência em seu endereço eletrônico, a maioria, quase todas, de utilidade nula ou superficial. E – o pior! – sabe-se de antemão que aquela correspondência não é pessoal, que é coletiva.
Vejam vocês. Eu aqui sentando a pua na correspondência eletrônica e é justamente ela que me permite enviar o que escrevo para uma penca de amigos e leitores. Pois era aí onde queria chegar: o que faz rir faz também chorar. Tudo tem seus prós e seus contras. E é bem provável que haja alguém que ache o que escrevo justamente de utilidade zero e tão profundo que, usando uma do Nelson, uma formiguinha atravessaria andando com água pelas canelas. Ainda que escreva essas coisas que me servem de catarse e onde demonstre quão infeliz estou quanto a meu país, há sempre alguém, uma multidão, que não se importa com nada disso, que não dá a mínima. Talvez essa multidão esteja justamente no estádio de futebol vendo o jogo e torcendo por seu time.
Ora, é precisamente isso o que não entendo. O sujeito não torce por si mesmo, mas torce por um time de futebol. Aqui devo fazer uma ressalva a evitar ser mal interpretado. O sujeito, qualquer sujeito, pode torcer por um time de futebol, mas não sem antes torcer por si mesmo. Eu diria que o torcedor inglês, por exemplo, pode se esgoelar, pular, apupar o juiz e o adversário. O torcedor inglês adquiriu esse direito posto que já construiu o seu país. Torceu primeiro por si mesmo ao erguer suas fortes e robustas instituições. Já o brasileiro...
Vamos lembrar o que houve comigo em Sobral, quando me hospedei no hotel do padre. Simplesmente fecharam o restaurante do hotel a todos os hóspedes para dá-lo em exclusividade a um time de futebol. Eis aqui o brasileiro a torcer pelo seu time e a apupar-se a si mesmo. (Devo ser um sujeito corajoso por me aventurar a falar contra o futebol justamente no país dito do futebol.)
Para minha felicidade de Robson Crusoé, recebi de meu amigo Lineu Jucá a prova que me faltava para demonstrar quão pouco torce o brasileiro por si mesmo e pelos seus. Enviou-me o Lineu a tabela do Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS). (Devo ser também um sujeito importante para ser contemplado com o envio de documento tão esclarecedor e prova documental da total e completa idiotice e estultice do brasileiro.) O documento mostra os valores que o Sistema (entenda-se o governo) paga ao médico cirurgião, seu auxiliar, anestesiologista e hospital conveniado em alguns – apenas alguns – procedimentos cirúrgicos comumente realizados em pacientes que não têm plano de saúde. Ela também mostra os valores que os planos de saúde pagam aos médicos credenciados nos mesmos procedimentos, discriminando se o paciente paga um plano mais barato ou mais caro (enfermaria ou apartamento), segundo a tabela da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM).
Tomemos a operação para a correção de uma hérnia inguinal. Na tabela do SUS o cirurgião ganha R$ 74,00 (setenta e quatro reais), o anestesiologista R$ 44,00 (quarenta a quatro reais), o auxiliar R$ 30,00 (trinta reais) e o hospital particular conveniado ao SUS ganha R$ 298,00 (duzentos e noventa e oito reais) para cobrir despesas diárias, alimentação, medicação, drogas anestésicas, etc., ou sejam elas quais forem (é um valor fixo). Um plano de saúde privado paga os seguintes valores à equipe cirúrgica, para o caso de um paciente portador de hérnia inguinal com plano de enfermaria: R$ 308,00 (trezentos e oito reais) para o cirurgião, R$ 100,00 (cem reais) para o anestesiologista, R$ 277,00 (duzentos e setenta e sete reais) para o auxiliar, e os custos hospitalares serão pagos segundo a conta apresentada pelo hospital.
Não há necessidade de comentário.
É uma vergonha. Ambas as tabelas. Só está verdadeiramente livre para cobrar o que quiser o hospital particular não credenciado ao SUS.

terça-feira, 1 de março de 2011

Tempo, música, suor e salada

O sistema nos empurra como manada a paradigmas seculares. Pensando melhor, não tão seculares assim; apareceram em seguida à revolução industrial e tecnológica. Com o capitalismo vieram eles. E, com a “vitória” daquele, mais paradigmas surgiram.
            Longe de mim combater o sistema, posto que ele encerra oportunidades e idéias bem interessantes. Nem me aponham o epíteto de comunista, que não é o caso. E, a propósito, basta se ler o Manifesto para perceber que nunca, em tempo algum após Marx e Engels, puseram-se em prática as idéias ali pregadas. Os anarquistas queriam a abolição de toda forma de governo sem passar pela ditadura do proletariado, ao passo que os social-democratas queriam a manutenção do estado e das classes pela remediação do que chamavam males sociais. Marx e Engels pregavam a conquista do poder por parte do proletariado, numa revolução sangrenta, como uma forma de transição a uma sociedade sem classes.
O que eu acho? Quem sou eu para achar alguma coisa? O que sei é que nos estados comunistas implantaram a pobreza. A China é caso à parte, capitalista nas relações comerciais com outros países, comunista na supressão das liberdades e exploração de sua mão de obra. Ao que consta, há uma casta, uma viçosa e pujante burguesia chinesa bem ao centro do estado “comunista”.
Bem se vê que o que parecia ter dois extremos tem na verdade uma gama de formas, vários matizes combinados em feitios convenientes aos seus idealizadores e donos. Paremos de pensar que existam comunistas. É provável que somente os autores do Manifesto o tenham sido de fato. Os demais se aproveitam até hoje do que ele tem de belo e utópico para destilar suas más intenções no exercício do poder.
Voltemos aos paradigmas não tão seculares do capitalismo. Que fizeram eles conosco? Vejam, por exemplo, o Padilha. Não tem tempo para nada que não seja o trabalho. Minto. Tem tempo para ver as novelas televisivas. Devo dizer que, não fossem as novelas, a vida do Padilha seria somente o trabalho. Por causa do trabalho não faz ginástica, e é bem provável que se alimente mal. Talvez – e isso é uma suposição de minha inteira responsabilidade – coma dos produtos fast food, um subproduto da pressa capitalista. É digno de nota que quem não se exercita e não se alimenta para se nutrir está a viver mal, não resta dúvida. É irônico pensar que nos porões do mesmo capitalismo funcionam os laboratórios de pesquisa que descobrem que quem mal se alimenta e quem não se exercita vive mal. Ao Padilha faltam, além do tempo, o suor e a salada para ser feliz.
É exagero, é exagero, não é? Não, não é. Falta-lhe também o lazer, para dizer a verdade. Dirão que as novelas são sua catarse. Não digo que não. É verdade. Novelas são um excelente passatempo, inda mais quando seu enredo encerra alguma lição importante. Não sei se é o caso com as de hoje, mas o comentário que li outro dia sobre elas não foi muito animador quanto a este aspecto. Presumi que as novelas ensinam muita coisa... de ruim. Se for esse o caso, que tem aprendido o Padilha? Que catarse é essa que ensina o que não se aproveita?
Falta ao meu amigo, com efeito, aprender a tocar um instrumento. Essa, sim, é a catarse das catarses; faz desenvolver novas e indeléveis conexões neuronais que colocam o cérebro dois níveis acima; alivia o stress e as tensões; libera serotonina pelo prazer que causa ao corpo e à alma; eleva o espírito a mais perto do Criador, em cuja Casa nasceu a música. E, para falar nas saladas, estão cheias de varredores de oxigênio reativo, lesivo às células do corpo e altamente suspeito na fisiopatologia do câncer e da aterosclerose, as doenças que mais matam no mundo ocidental.
O suor é o da ginástica. Padilha só tem suado em função da canícula que precede a chuva. A ginástica, todos sabem, contribui para controlar e/ou prevenir a hipertensão, o diabetes, a osteoporose, além de melhor condicionar as funções respiratória e cardiovascular e liberar serotonina, o hormônio do prazer e do bem estar. A ginástica queima calorias e é fundamental em programas de controle de peso, além de resultar num aspecto saudável e belo do corpo.
Então, ao Padilha aconselho tempo, música, suor e saladas. A vida é mais feliz com eles. O dinheiro é só o tempero.

Uma saudade sem fim

Estive na rua, a rua de minha infância. Há muito lá não ia.
         Foi tudo obra das coincidências da vida. Um convite para uma festa e ali estava ela, a rua de minha infância, onde cheguei numa data redonda – o dia primeiro de janeiro de 1970.
          Naqueles instantes – foram dois: a chegada e a saída – tudo parou.
          É uma rua de um só quarteirão, poucas casas, pouca gente. Eu seria capaz de falar de todos. Preferiria não guardar comigo essa saudade, essa nostalgia, essa dor pelo passar do tempo, que tudo leva, tudo suprime, tudo tira, tudo apaga; só não apaga da memória dos que ainda vivem e têm algum laço com essa bendita rua. Eu sou esse; sou o que estava ali, naqueles instantes.
         Era tarde, alta madrugada. Fazia um silêncio sepulcral. Nenhum barulho das pessoas entrando e saindo, as crianças brincando na rua, uma vitrola tocando mais alto uma música, as mães conversando com as vizinhas... Não se viam aqueles meninos, adolescentes, que ficavam até tarde na calçada defronte de casa, conversando sobre seus planos, seus namoricos despretensiosos, seus méritos na escola, seus pequenos problemas com os pais... Não se viam, ainda mais cedo, naqueles terrenos baldios que logo mais seriam transformados em novas casas, os arbustos farfalharem as suas folhas e galhos, enquanto um vento frio e macio lhes acariciava a face jovem e feliz... Não se viam os meninos e meninas brincando juntos, irmãos e irmãs, de esconde-esconde, corrida maluca, carimba, jogo da velha, circo, soltando arraia depois de fabricar o “encerol” para passar na linha na intenção de cortar outra linha de outra arraia na briga do “corte”. Diziam assim: -“Vamos brincar o “corte”?
          Ah, quem me dera poder escrever um romance...! mas não posso, não conseguiria.
      Mais tarde os namoricos, que de tão sadios e puros embeberam nossas vidas dessa saudade excruciante, como uma dor que dói e dá prazer, como uma dor que dói e faz gemer.
       E entre tudo e todos, os que viviam e já não vivem, e que amávamos com todas as nossas forças porquanto por eles nossa admiração era tamanha e nossa ânsia de aprender tinha um sabor especial, uma saudade especial. Ali, naquela rua, naquela casa diante da qual parei, conheci, há mais de quarenta anos, a primeira morte, a de um amigo, um adolescente, uma criança que tudo tinha à frente e que, subitamente, deixou de existir. Seu desaparecimento me causou tão grave e negra impressão que pulava à rede de minha tia-avó e com ela dormia. Ela, sábia e amorosa, me acolhia em seu seio como a minha última salvaguarda, a minha última esperança diante do terror da morte de meu pequeno e jovem amigo. Enquanto seu pequeno corpo jazia sem vida na casa defronte a minha, velado por seus desesperados e consternados familiares, eu lutava contra aquele terror que me sufocava no seio de minha tia, e me apertava a seu corpo robusto como a uma tábua de náufrago perdido em meio a oceano revolto.
            Foram dias difíceis pelos quais, hoje eu sei, meus pais me permitiram que passasse sem leviandades ou mentiras tolas. Observavam-me, como o pastor cuidadoso, e se furtavam em me acolher ou poupar, permitindo que as verdades cruéis da vida se me apresentassem. Eu não podia compreender. Eram todos – mesmo os velhos como minha idosa e carinhosa tia-avó – imortais, imutáveis, infinitos. Para mim a vida nos congelava como éramos, como estávamos, para sempre, como em paraíso eterno. Eu não sabia que cresceria, que perderia todos eles, os que amava, como acabei por perder.
            Súbito fui interrompido desses devaneios por alguém a me chamar.
            Ainda bem e ainda mal. Há algo de masoquista em reviver um passado tão gostoso, tão perfeito, mesmo à lembrança da primeira morte de alguém que se ama. Mesmo essa morte encerra um quê de pureza e inocência que nos faz desejar o tempo de volta. Em meio ao que a adultícia nos traz isso pode ser considerado um prêmio, um presente de Deus.
            Ainda não acabei. Hei de permitir que essas lágrimas rebeldes busquem seu caminho nesta face marcada por essa rua...

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...