sexta-feira, 24 de abril de 2026

TERROR COM ALEGRIA E FESTAS

                 Deixava-me particularmente estarrecido, à medida que as cenas na tela progrediam, o filme “Zona de Interesse”. Diz uma sinopse do filme o seguinte: “O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, e sua esposa Hedwig, que tentam construir uma vida aparentemente tranquila e bucólica em uma casa com jardim, localizada ao lado do campo. Por trás dessa fachada, o casal convive com os terrores do holocausto, sendo diretamente responsáveis pelos crimes cometidos no local. A narrativa explora a tensão entre a vida doméstica e a brutalidade do regime nazista...”

              Observem que destaquei algumas poucas palavras desta inverídica sinopse – basta assistir ao filme para isso constatar – a fim de pontuá-la.

              O casal Höss não tem uma vida aparentemente tranquila – sua vida é tranquila de fato. Se não, vejamos.

              A casa é um palacete de dois pavimentos com vários quartos e aposentos e, além do jardim, ela tem uma piscina e um parquinho onde seus quatro filhos brincam como se estivessem no Céu enquanto a fumaça negra da queima de 500 judeus a cada “sessão” ganha o ar do entorno. E, notem, a fumaça é visível nos momentos de lazer da família e seus convidados, que se divertem tomando drinques e experimentando petiscos. Além disso, este palacete fica à beira de um rio ou lago onde fazem piqueniques e pescam com frequência

              E a tensão? Ora, não há tensão de forma alguma. Estão sempre sorrindo e se divertindo com algum passa-tempo na enorme área de lazer da casa. Além disso, a família tem pelo menos quatro funcionárias do lar. Sim! Quatro empregadas que cozinham, fazem a limpeza, servem os convidados, recebem as compras que o serviçal militar traz para abastecer sua despensa, etc. Detalhe aterrador, se isso tudo ainda não bastasse – dentre os quatro filhos está um bebê de colo, de seus 3 a 4 meses de idade, cuidado na maioria do tempo por uma babá.             

Em dado momento, o casal recebe a visita da mãe da senhora Hedwig Höss, a avó das crianças. Ele lá foi se hospedar para curtir uma temporada com eles. E tudo corre na mais perfeita ordem, paz e tranquilidade possível, a fumaça da torra de corpos vivos de judeus sempre subindo pela chaminé.

Noutro trecho da película, o senhor Höss aparece em reunião com engenheiros a fim de tratar de um assunto que visa melhorar a “produção” do campo – a construção de crematórios de funcionamento “sequencial”, ou seja, enquanto um torra vivos 350 a 500 seres humanos por vez, homens, mulheres e crianças, o outro esfria a fim de estar limpo e preparado para a “queima” seguinte. Entre estes senhores estão senhores de idade, homens vestidos em paletós negros impecavelmente passados e brilhantes.

O único momento de tensão entre o casal ocorre quando ficam sabendo que o comando nazista resolve transferir Höss para outra função noutro lugar. Sua esposa se nega a ir com ele e ele pede a seus superiores que deixem-na ficar na casa ao lado do campo com as crianças e as mordomias de que gozam, no que é prontamente atendido, visto que sua “produção” teria sido invejável, segundo eles.

É verdade que, às vezes, ouvem-se gritos de terror e dor vindos do campo. Eles parecem vir de grande distância, visto que provavelmente os crematórios foram equipados com abafadores de sons. Mas, vejam – isto não toma a atenção de nenhum dos membros da família. Em nada os afeta.

Ao final, Rudolf – ele é militar, mas agora me foge qual o seu posto de oficial nazista – está numa festa glamurosa a acontecer numa espécie de mansão ricamente decorada e iluminada com lustres riquíssimos e brilhantes. O mundo lá fora não importa. Ele tem centenas de amigos canalhas.


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