segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

COBRANÇAS

Cinqüenta e três mensagens me chegaram à noite de Natal e outras tantas ao dia seguinte. Ainda outras chegaram aqui e ali no interregno da semana seguinte. Contem-se também ligações e mensagens por correio eletrônico. Estou devendo a todas uma resposta. Não respondi a qualquer uma delas. Estou em falta com todas essas pessoas. Sou obrigado a presumir que muitas delas estão alimentando reservas para comigo.
            Ontem uma linda e querida amiga me enviou mensagem queixando-se que dela esqueci na noite de ano novo. Outra me cobrou uma ligação que não fiz “para agradecer”. Devo, mais uma vez, presumir que devo algo. Em suma: devo, não nego; pago quando puder. Pensei a princípio dizer que nada devo, mas seria uma petulância de minha parte. Quem não deve algo? É o que me pergunto. Cobram-se amor, atenção, zelo, lembrança, agradecimento, e toda sorte de sentimento e atitude imaginável.
            Em minha defesa declaro em alto e bom som: amo todos vocês com a fibra mais intensa da profundeza de minh’alma. A todos sou grato e reconheço tudo que eventualmente tenham feito em prol de meu crescimento e autoconhecimento. Receio apenas que, cada vez mais, eu esteja necessitado das relações reais em algum detrimento das virtuais. Para terem uma idéia, vejam o que acontece. Como todos devem saber, aproximam-se as eleições da Unimed Fortaleza. E o que ocorre? Recebo telefonemas de amigos que nunca – ou quase nunca – me ligam. Somos mais amigos no plano virtual dos cabos e ondas físicas que no contato da palavra dita na bucha, na lata, ali no bar da esquina ou no boteco da praia. Se deles cobrasse que evitassem essa demonstração incauta e pouco polida de interesse em meu voto para a consecução de seus objetivos, me faria um poço de amargura e ranço. E minha leveza – erguida a custo de transformações viscerais que a vida sugere – não me permite essa pouco inteligente reação. Nem reativo ainda sou. Não mais. Nunca mais.
            O que quero dizer é que quero encontrá-los em regime de urgência. Preciso vê-los, abraçá-los, trocar consigo ainda que sejam umas poucas palavras. Preciso, necessito, anelo beijar-lhes a face, sentir-lhes o cheiro, estar juntos em silêncio pelo simples prazer de estar. Hão de me entender. Ainda que assuma uma modernidade necessária, não me adeqüei à distância das relações virtuais. Confesso que sua aparente durabilidade me traz a sensação e a nítida percepção da enormidade da distância que nos separa. Quem pode ser feliz assim? Que mensagens de festas de fim de ano podem aplacar minha saudade de vocês? Que resposta posso dar-lhes que não seja a confissão assinada do vazio que suas ausências têm me causado? Não vejo outra possibilidade: as mensagens estão a servir a uma tradição superficial e destituída de pujança. Recuso-me a fomentá-la.
            Sei, sei, sou co-responsável. Não pretendo responsabilizá-los somente. Faço o mea-culpa. Em troca, deixo esta confissão - muitas vezes o passo mais difícil. Quando o distanciamento contamina uma relação, a reaproximação é o ônus mais pesado e freqüentemente um passo jamais dado. Este ano perdi um amigo para a eternidade. Estou em sua lista de amigos num desses sites de relacionamento. Quando ele partiu já havia um longo tempo que não nos encontrávamos. Continuo lá em sua lista. Mas jamais o verei novamente. Não sei o que estávamos esperando. Nossa amizade continua virtual. Mas ele não existe mais. Fomos estúpidos.

Fernando Cavalcanti, 10.01.2010       

O INFERNO DO IJF


       São três as principais causas do inferno em que se tornou o Instituto Dr. José Frota (IJF) – Unidade Central. Alguém há de achar que exagero.
O inferno é um lugar desconhecido, é verdade. Que se saiba, ninguém jamais lá esteve. É bem provável que não exista de fato. Se existir, será o IJF. Ele é suplício para os pacientes e para seus funcionários. Arrisco até dizer que representa também um suplício para seus gestores, para a classe política municipal e para o ministério público. Em suma, o IJF é nosso grande problema, nosso grande carma.  
            Para quem não lembra, transcrevo do Aurélio o que seria carma: lei segundo a qual o homem está sujeito à causalidade moral e, portanto, todas as ações, boas ou más, geram reações correspondentes que retornam àquele que as praticou nesta vida ou em encarnações passadas, e determinam seu aperfeiçoamento ou sua regressão. Portanto, como o IJF tornou-se um inferno, sendo o inferno o clímax da punição e do sofrimento, ele representa a paga por más ações passadas, praticadas por todos aqueles atormentados neste inferno: pacientes, funcionários, gestores e políticos do município desta decadente Fortaleza. Dito de outra forma, todos têm sua parcela de responsabilidade sobre o inferno em que se tornou o IJF, e somente todos juntos, cada um cumprindo o seu devido papel nesta equação, poderão algum dia transformá-lo naquilo a que se propõe.
            Dizem os sábios que problema não se administra nem se carrega ao longo da vida; problema se resolve, se enfrenta, se neutraliza, se soluciona. O IJF tem sido, já há muito tempo e por longo tempo, o problema que se administra e se carrega como um piano às costas. De todos os responsáveis pelo bom funcionamento do hospital, ninguém até agora foi capaz de fazer a sua parte. E – pior – é provável que esta seja uma situação em que os bons frutos só apareçam quando aplicado o princípio do tudo-ou-nada. Todos, sem exceção, devem fazer a sua parte simultaneamente. Caso contrário, inferno, inferno e inferno.
            As causas? Primeiro, as prefeituras do interior, cujo melhor hospital é a ambulância. Não têm hospitais que tratem nem uma broncopneumonia. Não costumam ter médicos. Não costumam ter recursos. Não costumam ter médicos no programa de saúde da família. Não costumam ter remédios. Ou seja, no interior nada parece funcionar em matéria de saúde. O hipertenso segue hipertenso e vem bater às portas do IJF com seu acidente vascular cerebral hemorrágico. Não é a exceção – é a regra. Quem pode obrigar os prefeitos a cumprir seu papel? Não parece haver quem possa.
            Segundo, a violência que grassa na sociedade. Nossa grande favela parece servir apenas para ser objeto do “apoio” do político que a loteia para angariar seus tão preciosos votos na próxima eleição. O assistencialismo redunda na ignorância, no analfabetismo político, no analfabetismo funcional, no analfabetismo da ambição que empreende. Daí a mais um passo está o crime e o tráfico de drogas ilícitas com seu falso glamour na ilha high society, enquanto o crack subjuga os miseráveis da periferia. É uma fornalha a gerar mais e mais violência. Uma sociedade cada vez mais imbecilizada não valoriza a ordem, as instituições, o outro. Nada tem valor. A vida do outro nada importa. O hospital passou a ser depósito de nossa tralha social, com criminosos atendidos ao lado de suas vítimas. Dentro do hospital há tráfico, roubo e agressões a funcionários. Ninguém está seguro. A Emergência já foi palco de tiroteio. 
            Terceiro, o aviltamento dos profissionais de saúde que trabalham no IJF. A desumanização dos profissionais por parte da prefeitura de Fortaleza é a marca notável da atual administração. Negociações arrastadas para a implantação de planos de cargos e carreiras, palavras e promessas não cumpridas, má vontade explícita, menosprezo declarado são as mais gritantes evidências do tipo de trato escolhido pelo gestor público para com os funcionários do IJF. Acumula-se mais e mais rancor, inviabilizando acordos e minando a credibilidade. Eu diria que a questão salarial é muito importante, mas o destrato e o maltrato ergueram muros enormes a separar o poder público da empatia e zelo de seus funcionários no IJF. Durante certo tempo, e ainda hoje, muitos funcionários receberam salário elevado, por força judicial. Nem assim estavam satisfeitos por trabalhar na instituição IJF. O sentimento de mágoa e tristeza pela maneira como as negociações haviam sido conduzidas plantaram em seus corações a mancha da inimizade e do ranço. As humilhações impostas são inesquecíveis. Os gestores mostraram-se a anos-luz da moderna administração e liderança.
            Bem se vê que estamos muito longe de uma solução para o IJF. O problema das prefeituras do interior parece ser insolúvel, até porque eles não se consideram um problema. O IJF para eles é um céu, provando certa a relatividade de Einstein. Recentemente, matéria publicada em jornal local anunciou em letras garrafais: 43% dos pacientes do IJF vieram do interior do Ceará ou de outros estados. Eles devem estar economizando um bocado.
            A violência é conjuntural. Não há educação nem oportunidades de qualidade. Ainda há quem acredite que é o Estado, e não a livre iniciativa, quem pode tirar o povo da miséria. Daí o nosso pseudo-capitalismo e nosso real socialismo incompetente, e daí o nosso atraso e falta de expectativas para nossos jovens. Mesmo na imprensa ainda há jurássicos defensores do assistencialismo estatal. Aliado ao Estado que provê sem prover de fato está o Estado que não pune o criminoso que não educou. Assume sua responsabilidade sobre seus crimes e por isso lhe é brando ao punir. Negou-lhe a oportunidade. É seu cúmplice, pois não?
            A lida da prefeitura com os servidores do IJF selou o fim inexorável de um namoro que poderia resultar em casamento, não fosse a truculência da noiva. Quando se amassa uma folha de papel, não é mais possível torná-la lisa como antes. Assim é o coração do homem. Ao amassá-lo criam-se as arestas mais indeléveis. Tudo estará perdido. Há filmes que não têm um final feliz. Temo que este seja um deles.

C. Amorim, 29.10.2009

PROLE MALDITA

O garoto de vinte anos, estudante de Direito, angustiava-se com o dilema: contrariar o pai, ou contrariar a mãe. Ainda beneficiário de pensão alimentícia do pai, sofria com a falta de recursos para complementar o pagamento da faculdade particular onde estudava. Por sua vez, a mãe o pressionava a que fosse às barras da Justiça litigar com o pai. Era objeto do amor de ambos e o retribuía a ambos, não querendo desgostar nem a um nem a outro.
            Por alguma estranha razão, não passava pela cabeça da mãe orientar o filho a que fosse conversar com seu pai, de homem para homem, a fim de resolverem a questão de forma altiva, madura, à moda do olho no olho. Ou por outra, isso não lhe passava pela cabeça porque a mãe já tentara do pai a que fizesse o que ela queria, da forma que ela queria, e ele não assentira. Não passava, talvez, pela cabeça da mãe que o garoto pudesse trabalhar, ou que o pai o pudesse ajudar complementando com algum dinheiro para o pagamento da faculdade sem a necessidade da batuta de um juiz. E por quê?
            A mulher é um ser adorável, mas muitas vezes detestável. Tive, infelizmente, a pouca sorte de conhecer mulheres aglutinadoras, diplomatas e diplomáticas, apaziguadoras e sábias. Coube a Salomão decidir com quem ficaria a criança objeto da discórdia visceral de duas mulheres que se diziam sua mãe. Propôs o rei partir a criança ao meio e a cada uma delas dar metade. Descobriu a verdadeira mãe quando esta implorou que se desse à outra a criança, para que não lhe fizessem mal. Uma verdadeira e sábia mãe renuncia a guarda de um filho para não vê-lo sofrer.
Hoje vemos muitas mães lançarem seus filhos em revolta declarada contra seus pais, aparentemente sem terem a noção do que estão fazendo. Não percebem que fazem seus filhos sofrer? Se não percebem é porque elas próprias não tiveram pai, ou, se tiveram, a eles não amaram nem por eles foram amadas. Elas próprias foram vítimas da alienação paterna, talvez. Se percebem e insistem, são detestáveis. Se insistem, estão a patrocinar seu rancor utilizando a quem deveriam proteger da angústia.
            Antigamente a mulher se permitia anular a bem da família. As famílias sofriam da relação perde-ganha entre a mulher e seu marido. Ao contrário, hoje as mulheres querem ganhar. Nada mais justo. Todos querem ganhar. É lícito. Entretanto, elas querem uma nova modalidade: a relação ganha-perde. Invertem-se os papéis. Melhor dizendo, a mulher quer ganhar para que o outro, o marido - que já nem o é mais - perca. E, para o outro perder, custe o que custar. Rolam-se as cabeças da prole. Não pensam na possibilidade de uma relação ganha-ganha. Pode haver algo mais insensato? Pode haver algo mais continuista e a lembrar a antiga relação imposta pelo senhor marido todo-poderoso?
            A mulher desabraçou a família. Digo melhor, porque assim parece que estou a defender a submissão feminina: a mulher quer ser reconhecida por outros valores, quer ser independente, e não mais quer ser o saco de pancadas da família. Quer trabalhar, contribuir com idéias, comandar, liderar, ser alguém. Nada mais natural. Nada mais justo. O estado anterior da mulher foi cria das religiões, que a condenaram sem dar-lhe o direito de defesa. Como cada vez mais se questionam as religiões, a mulher passou a exigir sua absolvição da culpa inexistente. E é também natural que o fizesse com certo ímpeto, certa pressa, certa violência e exasperação. Afinal, são séculos e séculos de escravidão e subserviência. Quem duvidar do que afirmo, vá à Somália ou à Arábia Saudita, ou a qualquer outro lugar onde, ainda hoje, a mulher é menos que nada. Quem duvidar do que digo, leia o relato de Ayaan Hirsi Ali em seu livro My Life, e terrifique-se com os relatos lá contidos sobre sua trajetória de vida num país miserável, onde os costumes são ditados pela religião, até sua atividade política no parlamento holandês.
            Ora, a mulher ocidental se emancipou. No Brasil, onde a marca do atraso ainda persiste nas mentes mais brilhantes do país, à mulher foi permitido votar apenas a partir de 24 de fevereiro de 1932, e ainda somente com a autorização do marido, para as casadas. O voto feminino passou a ser obrigatório em 1946, há 63 anos. Ainda hoje há quem queira impor à mulher deveres monstruosos que só suas vítimas podem aquilatar. Em suma, ainda hoje, ser mulher não parece uma tarefa fácil. E aqui é que me pergunto: se é tão difícil ser mulher, por que a sabedoria não vem para a maioria delas? Por que ainda são capazes de atitudes tão estúpidas? Por que não percebem que ao atingirem seus ex-cônjuges, atingem, colateralmente e com mais intensidade e mais severos danos, a seus supostos amados filhos?
            O pai, após conversar com seu filho, se sensibilizou e complementou os recursos para a faculdade de seu próprio bolso, de acordo com suas possibilidades, e deitando-lhe no espírito a consciência da necessidade de começar, ele próprio, a ganhar o seu próprio dinheiro.
Neste país de mentes brilhantes abomina-se o trabalho. A classe média e os abastados deploram o trabalho. O que eles gostam é do status da posiçãoou do diploma. O único trabalho que permitem a seus filhos é quando os mandam para a América. Lá são frentistas em postos de gasolina, ou garçons, ou coisa que o valha. Afinal, é na América. Não permitem que aqui seus queridos filhos sirvam às forças armadas. Fosse possível, os mandariam à América para servir no exército ianque. Afinal, é na América. Na América dá status, tem glamour, é chique, sinal de qualquer coisa que não somos ou não temos por aqui.
É possível que a mãe do garoto não quisesse vê-lo trabalhando. O pai, um self made man, não o reprovaria ao trabalho. É coisa da mãe, egressa da classe que não é mas quer ser. Quer ensinar ao filho lição errada sobre a vida. Quer atingir o pai em sua vingançazinha menor, para aplacar sua frustração por sua derrota pessoal. Tem a auto-estima da altura de uma gilete deitada, e exige que seu filho pague por isso.

Fernando Cavalcanti, 21.10.2009  

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A GESTAÇÃO DO SILÊNCIO... E DA PALAVRA

     A vontade era pedir ao amigo que parasse com as postagens. Mas - vejam - o amigo é quase um irmão, uma dessas amizades ferrenhas e inquestionáveis. Ele, ignorante em sua vacina anti-lucidez, permanecia irredutível em sua crença cega, inabalável, imutável. "Só Deus não muda", ouvi alguém dizer não sei quando nem onde. Só a perfeição não muda. Só a perfeição não se aperfeiçoa. Também eu já fui ignorante sobre isto. Sigo ainda em minha completa ignorância sobre muitos e muitos temas e coisas. Sigo buscando. 
     Diria um ignorante - desculpem-me os estudiosos da psicologia - que "realidade é percepção". E direi que não. Se o fosse, como alguém conseguiria modificá-la? Seríamos todos resultado de um determinismo cruel? Contudo, vejam que interessante, o que se vê é justamente o oposto. Incontáveis "vítimas" de uma realidade atroz negaram-se a percebê-la como tal e, arregaçando as mangas, modificaram-na completamente. Conclui-se que a realidade não é, em hipótese alguma, percepção. Realidade é, isso sim, uma situação pontual, um contexto, um cenário e, como tal, é algo influenciável, mutável, plástico, deformável, sobre o qual se pode atuar para transformar. A realidade, convenhamos, é apenas um conjunto de fatos que evoluem segundo-a-segundo, estando sujeita a intervenções que, se levadas a cabo, podem, como enfatizei, alterá-la. O mais lindo em tudo isso é que é a própria realidade a dar a si mesma o aval ao que digo.
     Nove meses se passaram desde a última vez que deitei algumas palavras aqui. 
   Olhando para trás, me parece claro que houve razões para esse silêncio: calar era sumamente imperioso a bem da paz. 


"Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem."

Nelson Rodrigues
     

domingo, 15 de abril de 2018

UMA ESPADA DE DÂMOCLES

                Outro dia desses – com efeito, foi há mais de 6 anos – perguntei “quem há de punir o Estado?”(http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/11/quem-ha-de-punir-o-estado.html).
Minha tese era a seguinte: se alguém fiscaliza, mas está impedido ou não tem poder para punir, então não fiscaliza de fato. E invoquei o fiscal da AMC, Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania, para exemplificar. Ao que interessar os detalhes da tese, que leia lá o que escrevi. Adianto que o negócio de fiscalizar vale muito a pena... se você puder punir o infrator. Se não puder, você estará a enxugar gelo. Mas, vamos ao que vim.
                Eis que, recentemente, ao dia 25 de janeiro do corrente, saiu a sentença condenatória proferida por juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública do Estado do Ceará, em que o Instituto Doutor José Frota (IJF), uma autarquia municipal, é réu. Assim, a instituição foi condenada a cumprir a lei.
                Parece que estou a encher linguiça, a tomar o tempo do ocupado e açodado leitor, mas, afirmo peremptoriamente – não é esse o caso. Estou apenas, embora não pareça, e pareça justamente o contrário, simplificando as coisas. Todos sabem que o Direito é uma ciência cheia do jargão incompreendido e elegante em que seus paletós e togas se embrenham docemente, e repleto da linguagem erudita que os reles mortais não compreendem. Por isso me delongo e repito: o IJF foi condenado a cumprir a lei.
                Todos sabem também – nem todo condenado é condenado a cumprir a lei. Alguns condenados são, ou deveriam ser, punidos, mais ou menos severamente, por terem ferido a lei, como, por exemplo, os que matam pessoas, e os que roubam o erário público. Como tais crimes são fatos pregressos ao tempo de sua constatação, e como ainda não dominamos a tecnologia das viagens no tempo, resta à sociedade punir esses malfeitores. Quanto mais deles forem punidos e tirados de circulação, redunda que se diminuem tais crimes, tanto por inibição dos que intentam perpetrá-los no futuro, como por evitar que já conhecidos criminosos voltem a agir. Mas isso é outra história. Estou aqui, numa simplificação e indo direto ao ponto, falando do crime em que o ente estatal nega ao servidor público um direito constitucional límpido e claro: o direito ao gozo de férias e sua respectiva remuneração.  
                Devo dizer que considero, da “rasteirice” de meus conhecimentos jurídicos, a Constituição de 1988 uma bela porcaria utópica. Se um plebiscito viesse, a condenaria sumariamente à extinção. Entretanto, sob ela vivo e pago, relutantemente, sua exorbitância em direitos a terceiros. Assim, a ela recorro quando nela me tiram o que ela assegura a outrem.
                Foi com todas as referências possíveis e imagináveis à Lei Maior e a outros instrumentos legais, incluindo aí decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal, a chamada jurisprudência, que o Exmo. Sr. Juiz de Direito condenou o órgão a reverter sua decisão, ao que parece arbitrária e à revelia do Estado de Direito, de negar o gozo e a remuneração adicional de férias a um de seus servidores.
                Caberiam várias indagações, à luz do terror da constatação do que entendo como “crime de má fé” perpetrado ou cometido, como queiram, por instituição do porte do Instituto Dr. José Frota – Unidade Central. “Crime de má fé” seria uma dessas tautologias inimagináveis e incogitáveis, mas esse seria o exato termo. Seria mais ou menos assim: a instituição pública sabe, de antemão e ainda que conte com uma Procuradoria Jurídica (PROJUR), que, ao negar o direito de férias a qualquer um de seus servidores, estará cometendo um crime contra a Carta Magna e, ainda assim, o perpetra. E por que perpetra? Há três possíveis respostas: incompetência de sua PROJUR; ou má fé da instituição como uma prática contumaz – há relatos de outros casos semelhantes cujas “vítimas” não se deram ao trabalho de litigar –; ou ambas.
                O terror do qual falei antes inclui a não consideração dos custos e gastos relacionados ao trâmite de tal ação judicial, e ao desprezo do ente estatal pelos impostos pagos por contribuintes já escorchados por tributos de toda natureza num Estado incompetente e incapaz, gerido por pessoas corruptas e, devo repetir, incompetentes. Derrotado na ação judicial que o apontou como réu – e nem assim foi capaz de recorrer dessa decisão, indicando ainda seu provável desprezo pelo dinheiro do contribuinte ou ciente de sua evidente culpa – o ente estatal capitula após sua “farra” temporal cuja consequência é a paga onerada com multas, juros e correção monetária.
                Há, ainda, outro terror: os “colegas”. Aos chamados “colegas” há uma bem apropriada ideia a lhes pender como uma espada de Dâmocles: “se você testemunha uma fraude e não a denuncia, então você também é uma fraude”. Os assim chamados são pessoas. Quando se diz "IJF", desaparecem as pessoas. Instituições são pessoas. Escrever ou pronunciar o nome da instituição esconde as pessoas, sua essência, suas vísceras. Exponho "colegas" porque são eles as pessoas. São funcionários que ora estão, ora são. A espada paira sobre suas cabeças, e o tempo se encarrega do resto. Não é um vaticínio: é a vida.
                  Cumpra-se a sentença judicial e rogo a que fique clara a natureza do caráter da instituição que atende pelo nome de Instituto Dr. José Frota. 
                                      
                                                                        
Para conferir o original, acesse o site http://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0147445-84.2017.8.06.0001 e código 32E1FEB.     




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

UM GRANDE E INTERMINÁVEL CABARÉ

Morreu antes de ontem o Carlos Antunes. No hospital militar, nós, seus colegas, o chamávamos simplesmente “Antunes”. Foi no início dos anos ’90.
                E de que morreu o Antunes? Morreu de um ataque cardíaco. Alguém completará e dirá “fulminante”. Seria um adjetivo mais ou menos apropriado ao fato, já que os infartos “fulminantes” são entendidos como fatais. O “fulminante” é simplesmente um sinônimo a constar no pai-dos-burros. Diz lá sobre “fulminante: “que mata instantaneamente”.
No relato dos que presenciaram sua morte, na companhia dos amigos que o socorreram – eram médicos –, foi dito claramente por um deles que tentaram reanimá-lo com massagem cardíaca e respiração boca-a-boca por um período de 20 a 25 minutos, sem sucesso, até decidirem levarem-no ao hospital local. Nos ataques cardíacos fulminantes o insulto atinge uma extensa área do miocárdio ventricular levando a uma fibrilação e parada cardíaca. Se foi o caso, Antunes possivelmente teria morrido ainda que estivesse dentro do hospital, e apesar de toda a parafernália e cuidados de um atendimento de excelência.
Por outro lado, este atendimento de excelência ter-lhe-ia dado uma chance, ainda que mínima. A massagem cardíaca com a respiração boca-a-boca serve a bombear o sangue oxigenado a partir de um músculo que se contrai desordenadamente até que, por exemplo, o choque de um desfibrilador ponha a casa em ordem, por assim dizer. O “fulminante” não teria sido tão “fulminante” assim, mas um ataque que apenas iniciou uma fibrilação ventricular, essa sim, grave o bastante para necessitar de uma reversão com o aparelho sob pena de se seguir a parada cardíaca inexorável.
Contudo, Antunes não teve essa chance. E por que não teve? Por uma lista de razões absolutamente grotescas, a primeira delas o fato de o evento sinistro ter ocorrido durante o carnaval na cidade de Guaramiranga, Ceará. Explicando melhor, e com outras palavras: a dificuldade de se chegar ao hospital com o paciente. “Não há uma rota emergencial de acesso ao hospital durante esse período”, disse Tadeu Feijão, o médico que era anfitrião do amigo à hora sinistra. Disse ele ainda mais sobre isso: “[Guaramiranga] Não dispõe nem mesmo de uma moto da autoridade do trânsito com sirene para ‘oficialmente’ abrir espaço”. As outras razões se referem à precária infraestrutura da pequena casa de saúde daquela cidade e da precária equipe de profissionais de plantão para lidar com situações semelhantes. Vejam: ficou claro que a precariedade da equipe se referia a seus conhecimentos médicos e experiência profissional. Ater-me-ei à questão do acesso ao hospital posto que ela aponta o dedo para uma sociedade inteiramente leviana quando se trata da vida alheia.
Iniciarei dizendo que somente num lugar onde a vida nada vale as ruas são obstruídas vários dias da semana e em várias semanas para dar espaço ao que se chama de “folião”, seus “carros alegóricos” e “trios elétricos”. Dou exemplo. Por vários anos a Avenida Beira-Mar, em Fortaleza, foi interditada, com a anuência da prefeitura, para a realização de um evento carnavalesco “fora de época”, o “Fortal” – uma mistura de “Fortaleza” com “carnaval”. Era no final dos meses de julho. Anos e anos a fio. A prefeitura, incestuosamente atracada a empresas de eventos e sob a justificativa de “fomentar o turismo local”, bloqueava o direito de ir e vir das pessoas que moravam naquela avenida e suas imediações. Não tenho a menor ideia de quantas emergências ocorreram em residências daquela área naquele tempo; ou quantas mortes houve em decorrência de demora no socorro e/ou evacuação de vítimas de eventos naturais sinistros, com a contribuição decisiva das autoridades locais nesse tempo.
Um detalhe a mais – a morte de Antunes e as circunstâncias em que ela ocorreu vieram a público não porque a imprensa fajuta local tenha algo a ver com isso. Se dela dependêssemos para tal, passaríamos pela vida na ignorância não dos fatos, mas do que está por trás deles. Ela é do conhecimento de muitos porque estão aí as redes sociais diversas. A imprensa hoje é um mero bajulador do poder público, que lhe custeia através dos anúncios onde apregoa suas mentiras e seus dados manipulados. O aumento do PIB tudo justifica.   
Pois bem. Quero crer que haja leis municipais que garantam o livre trânsito de veículos pelas ruas e avenidas de uma cidade, pois não? Se há, pode quem promulgou a lei, através dos responsáveis pela difícil tarefa de legislar, reverter ou suspender, ainda que temporariamente, esse direito fundamental? Se há na lei municipal um artigo ou parágrafo que permita às autoridades lançar mão de tal dispositivo quando bem entenderem e com as justificativas injustificáveis para tal, estamos diante de um ente estatal que legisla não para garantir a ordem e o livre direito de ir e vir dos cidadãos, mas o direito de esse mesmo ente fazer o que bem entender, como bem entender e quando bem entender, quando lhe for conveniente. “Fomentar o turismo” pondo em risco a vida das pessoas? Contribuir para aumentar a arrecadação de hotéis, bares, restaurantes e equipamentos turísticos pondo em risco a vida das pessoas interrompendo seu direito de ir e vir livremente e tirando o sossego do cidadão? Talvez por isso o capitalismo seja tão demonizado por aqui – é o velho conchavo entre poder público e empresários inescrupulosos a contribuir com a noção.
O “Fortal” retirou-se para bem longe, uma área aberta e não habitada da cidade, mas as ruas e avenidas continuam sendo obstruídas com o “amém” da prefeitura local, assim como acontece em milhares de outras cidades brasileiras e em períodos diversos. Há de haver uma história sobre a remoção desse evento tão popular depois de vários anos de estupro ao cidadão.
Antigamente o carnaval era conhecido por ser a mais longa festa brasileira – durava 3 dias, durante o mês de fevereiro. Com o tempo a festa ganhou mais tempo e mais dias, em meses diversos, em cidades diversas. O carnaval brasileiro extrapolou o racional direito das pessoas de se divertirem numa festa pacífica, tradicional e que guardava um mínimo de respeito pela vida e pelas pessoas de bem. Hoje ele é assim – quase um crime contínuo com a conivência e participação ativa das autoridades. E nem estou a falar de outros crimes que ganham impulso com o carnaval atual: homicídios, assaltos, latrocínios, atentado violento ao pudor em vias e praças públicas, falta de respeito à lei do silêncio, e por aí vai. 
Antes de me ir, que já me enfado do tema, lembro os shows de música, as missas-shows, os cultos-shows, os shows-shows que fecham vias de circulação absolutamente necessárias, além de tirarem o sossego de quem quer descansar da labuta, e sempre com a participação e anuência do poder público irresponsável e canalha. Até os religiosos estão tirando uma casquinha dessa desordem pseudolegal pseudocontrolada.
O brasileiro assiste a tudo como se nada tivesse com isso. É aí onde está a questão: é justamente o brasileiro quem implora por tudo isso. Ele não quer construir um país – ele quer viver num grande e interminável cabaré. Em breve o carnaval há de durar mais que o ano inteiro. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

OS CHIFRES DO AMORIM

         Há tempos devo uma visita à minha linda filha, que resolveu enlaçar-se em matrimônio a um vigoroso varão soteropolitano. Resolvi, então, vir visitá-la neste Natal. Na última quarta ou quinta-feira lia uma crônica do Airton Monte, onde ele confessava sua desilusão natalina. De pronto fiz minhas suas palavras e seus sentimentos. Sou um desiludido do Natal, com uma diferença: não me sinto necessitado de favores do além como parece andar o meu querido Monte. Todo dia é dia, tudo pode acontecer, posso sair de cena a qualquer hora. De mais resignação é o que preciso, isso sim. Em todo caso, estou sempre sendo vítima da boa esperança alheia, e ando também em falta com uma penca de amigos que me escreveram mensagens de fim de ano. 
        O fato é que aqui estou em São Salvador. Com minha cria tudo certo, tudo andando nos conformes. Saímos a passear por essa bela cidade e a admirar seus belos jovens e antigos edifícios, seu litoral deslumbrante, seus monumentos seculares. É tudo uma maravilha. Vista de cima ou de baixo, a cidade encanta mesmo a quem já a visitou outrora, como eu. Saboreei cada pedaço, cada seixo do Pelourinho, cada pimenta do tempero. Mas algo me incomodava. Não sabia o que era, mas um desassossego me tangia o pensamento. E já me desesperava quando desanuviou. O que era mistério se desfez na mais cristalina visão do óbvio - lembrava-me da tragédia do Amorim, o amigo que por seis anos aqui viveu. Amorim, sempre que sai-lhe a deixa, não perde a oportunidade de falar de Salvador, de seus sucessos, seus fracassos, seus casos e descasos em terras baianas. É notória sua nostalgia dos tempos de acarajé. E, por essas linhas que só o destino escreve, foi aqui onde Amorim casou, separou, chifrou e foi chifrado. 
          O que me espicaçava o espírito, de tudo isso, eram os chifres do Amorim. Aos diabos seus sofrimentos, suas noites mal dormidas, suas fossas, sua perda ponderal! Pensava só, e somente só, em seus chifres. Nem os sentimentos recíprocos do rival que dele foi vítima me detinham. Porque, se não sabem, Amorim e seu rival foram sócios de todas as formas possíveis e imagináveis. Enquanto um era noivo o outro era o amante, e assim reciprocamente. E o pior - ambos sofriam as mais cruéis dores de paixão pela beldade. 
     Então, onde passava imaginava as cenas da tragédia nos lugares mais afrodisíacos, nos bares mais recônditos, nos inferninhos mais perenes, nos restaurantes mais suspeitos e, por fim, no motel Del Rey, estopim de todo esse engodo do Amorim, onde ele - desta feita corneador - deflorou a pequena mais cobiçada do pedaço, a paixão mais enlouquecedora de sua vida. Cheguei a pensar - doce ilusão! - que encontraria algo, um poema, uma placa que fosse à saída do Mercado Modelo com algum dizer que lembrasse e imortalizasse o truculento romance em triunvirato, mas nada. Fotografias tirei, como podem ver em anexo, mas nada. Tudo se foi. 
          Acabei por descobrir, sem querer e de tanto procurar por algo, o que todos os brasileiros até há pouco mais queriam saber - o paradeiro de Belchior, o famoso compositor cearense. Sentado à mesa do Bar do França vislumbrei na obra de um artista local o desenho que mostra o nosso Belchior sentado com uma vara à mão a deliciar-se da pesca em vila próxima à capital baiana. Para aqueles céticos que sempre duvidam fiz fotografias que ilustram a verdade do que digo. Não há, portanto, a menor sombra de dúvida. 
        O mais foi o Natal de sempre, desta feita ao lado de quem amo profundamente, minha filha. Espero que ela tenha mais sorte que o querido Amorim e não venha a se embrenhar, pelas incorrigíveis linhas do destino, em semelhante desencontro de corações. Parto amanhã de volta ao Ceará. O Brasil é igual em todo lugar.
Fernando Cavalcanti, 26.12.2009

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