segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM BREVE E DESINTERESSADO TRATADO SOBRE O INTERESSE

          Quisera eu ter a capacidade intelectual para escrever um tratado sobre interesse. Esperem um pouco. É possível que não me tenha feito entender. Falo do interesse em geral, do interesse em tese.  O caso é que o meu amado amigo Gaudêncio porta uma espécie de neurose sobre esse... o que é mesmo o interesse? É um substantivo. Mas, o que vem a ser ele? É um sentimento? É um desejo? É uma vontade? Que diachos é o "interesse"? Pois, repito, o Gaudêncio é um neurótico por interesse. Ou será que o amigo está a querer iniciar a inusitada propaganda "Viva o desinteresse!"? Vou tentar explicar. É o seguinte. O amigo não se conforma que as pessoas tenham interesses. E pior. Se o interesse partir de uma pessoa de posses ou poderosa, então, o mundo vem abaixo em forma de mais neurose. Mas vejam. O jornalista tem interesses, o advogado idem, o ginecologista também, e o coveiro há de ter igualmente os seus. Padre tem interesses? Seguramente. E o Papa? Sabe-se lá, mas não arriscaria dizer que não. Mesmo o Sumo sacerdote deseja algo, o que o faz possivelmente persona non grata aos olhos do Gaudêncio. (Estou começando a achar que o interesse é, sem dúvida, um desejo.) Então, o amigo é portador de uma neurose sobre esse tão alastrado desejo. Os leitores leigos na ciência que estuda o comportamento e a mente fiquem sabendo que a neurose é assim: — o sujeito sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Percebem? Pois bem.
          Agora vejamos o seguinte. Se o interesse é um desejo e todos têm desejos, por quê?, qual a razão de meu amigo? Lembremos que até os animais têm desejos. São desejos que brotam a partir do que se conhece como instintos, mas nem por isso são menos desejos no sentido de pretender satisfazer alguma necessidade. Eu disse que o amigo odeia que os de posses tenham interesses. Assim, para ele pobre pode ter interesses. É legítimo. É apropriado. Poderosos e ricos, não. 
          (Estou tentando pegar "na veia", mas o tema é escorregadio.)
          Partirei de exemplos proporcionados por nossas últimas conversas. Outro dia entramos a falar que o país está passando pela pior crise de sua história. Os historiadores e economistas dizem que tal só houve à época do Floriano, ao fim do século XIX. Até aí nenhuma novidade. Foi quando se disse também que o país está melhorando, que a crise está amainando, que há sinais inequívocos de melhora do ambiente econômico. E que isso se deve ao fato de o governo estar empenhado em fazer as reformas necessárias para que tal aconteça. Ainda mais. A autoridade monetária está competentemente lidando com a inflação, com a taxa de juros e com o câmbio sem interferências externas, sem ingerência política. A melhora do ambiente sempre antecede a melhora do cenário real, visto que é natural que haja um lapso de tempo entre uma coisa e outra, período em que cresce a confiança das pessoas na materialização desse cenário. Pois o amigo, que estava quieto, saiu das sombras para dizer — quase ouço-lhe os gritos — que está tudo muito ruim e que não está havendo nenhuma melhora. E mais: — não há perspectiva para isso. E isso era o que diziam os jornalistas e blogueiros da Folha, do Estadão e do Valor. (Senti um alívio por ele não ter citado os jornalistas locais. Se o fizesse, certamente eu seria acometido de espasmos e furores digestórios.) Por fim, argumentou que nós, os que temos a visão da inflexão que está inequivocamente a ocorrer, estamos a beber em fontes duvidosas cujos INTERESSES seriam os mais escusos possíveis. E mais: — que não há ninguém sem interesses. (As afirmações do amigo eram de uma espessa e inegável obviedade.) Presumo que se referisse também aos jornalistas e blogueiros que lê. Eis aí o contexto.
          Contei o milagre é denunciei o nome do santo. Volto ao interesse puro e simples. Repito que a ubiquidade do interesse é tão primorosamente evidente que já sinto um crescente desconforto em falar sobre isso. Afinal, ao falar sobre o óbvio beiramos a nossa própria neurose. Temo iniciar o texto gozando de perfeita saúde mental e acabar por perdê-la ao longo de seu desenvolvimento. Paciência. Escrever é atividade de risco. 
          Ora, desde quando o interesse move as relações humanas? Presumo que a resposta seja desde sempre. Vou além e pergunto: — há relações onde o interesse não exista? Respondo: — não há relação onde o interesse não esteja presente. Há, além disso, a não-relação de interesse. Que diachos seria isso? Bem, a matéria do jornalista que leio terá algum interesse ao atingir o leitor, ainda que esse homem da imprensa e eu não tenhamos sido apresentados. Sendo assim, por que o meu amigo tem tantas reservas pelos interesses? Pensará ele que o interesse é um mal em si? Tudo indica que sim. O que o amigo não consegue, talvez, é distinguir os tipos de interesse. Assim, de minha parte sugiro a existência de dois tipos de interesse: o legítimo e o ilegítimo. Se alguém me disser que há mais algum, que me ajude a sair dessa enrascada. Ou, melhor ainda: — peço encarecidamente ao amigo Gaudêncio que me ensine quais seriam os outros tipos. 
          Vou ao pai dos burros e lá leio sobre "legítimo": fundado no direito, na razão ou na justiça; genuíno, verdadeiro; natural, justo, justificado; que tem caráter ou força de lei. Assim, as relações onde impera o ilegítimo interesse estão fadadas a qualquer resultado que não possa ser classificado como bom. Imaginemos o bandido, o assaltante. Para nós brasileiros é fácil imaginar. Vamos mais além. Imaginemos também o marginal de colarinho branco. Qual o interesse do bandido, do marginal? Resposta: o bandido quer ganhar sem trabalhar, tirando à força e usando de violência o que pertence a outros. Seu interesse não está fundado no direito, não é natural, não é justo. (É inevitável aqui dizer o óbvio, repito. Sim, porque é muito óbvio que o resultado da soma dois mais dois seja quatro...) Por outro lado, o bandido existe, sempre existiu. Justamente por sua existência é que se erigiu um corpo de leis. (Paro por aqui senão sairei a falar de direito natural e direito adquirido, e o amigo Gaudêncio sabe bem de tudo isso por ter um diploma de causídico.) 
          Vejam o jornalista a serviço do que quer que seja. Da mesma forma, seu interesse será ou não legítimo. Se sai a defender o interesse de criminosos, as penas brandas para bandidos e o desarmamento da população, estará claramente a serviço da vulnerabilidade da sociedade. Sua intenção é, usando de falsa retórica, convencer a todos de que a causa da violência é o fato de o cidadão de bem possuir uma arma, ainda que nenhum dado objetivo e claro apoie tal argumento. Reportando-me agora ao nosso diálogo sobre se está ou não o governo tomando as medidas necessárias a que se crie expectativa positiva para a economia do país já no curto prazo, os jornalistas e blogueiros que o amigo lê são TODOS céticos quanto a isso. Os tais jornalistas escrevem em grandes jornais, são cobras criadas da imprensa e por isso, somente por isso, são críveis? Ora, os dados irrefutáveis, sobre os quais obviamente não comentam em seus artigos, mostram o contrário. Presume-se que esses tais estão a defender interesses, assim como estão os que estão a divulgar os tais dados em outras fontes que o amigo não lê. Cabe então a pergunta: — a serviço de quem está esse pessoal tão entendido e tão celebrado? Melhor dizendo, que interesses essa súcia pretende defender? Seria somente a defesa de interesses ou estão a destilar sua ignorância pura e simples sobre assuntos de macroeconomia? Ignoram esses trogloditas da economia que expectativa faz preço? Que o reapreçamento começa a se fazer no exato momento de uma mudança na expectativa, seja para melhor, seja para pior? Tudo indica que sim. Mas a melhor pergunta é: — são legítimos os interesses desse povo? É para o bem do leitor ou quer induzi-lo ao erro que esse povo escreve? 
          Diz o amigo que não lemos tudo, quando é justamente o contrário. Nós que vemos os dois lados da moeda porquanto também lemos o que dizem esses paspalhões, temos bem constatado quem está com a razão. O pior de tudo é que informações se prestam sempre a alguma utilidade. Se ela pode lhe ser útil e você a lança ao lixo quando ouve quem ali está para induzi-lo ao erro, perderá oportunidades. E aí não há perdão. No mundo real, na dura realidade da vida três coisas jamais retornam: a pedra lançada, a palavra emitida e a oportunidade perdida. É melhor comprar barato do que caro. 
          

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O PROGRESSISTA

          Houve quem entendesse que estaria eu chamando os funcionários do Instituto Dr. José Frota de animais. Ou, melhor: — de vacas. Ainda bem que na chácara do Feitosinha eram vacas que estavam na fila para beber água, e não cavalos, ou jumentos, ou burros. Imaginem o que concluiriam os que fizeram tal suposição. De fato, quis, no último texto, chamar a atenção para o fato de que os funcionários estão se desumanizando ao aceitarem o que o burocrata lhes reserva no dia-a-dia. A desumanização não nos torna animais, visto que os animais são de uma pureza incomensurável. A desumanização nos torna... desumanos. Não há nada mais desumano do que a inteligência. Se a um cãozinho inocente déssemos inteligência, ele sairia a chupar as carótidas de seus semelhantes e a depositar suas necessidades à porta do vizinho. Portanto, em respeito aos tenros quadrúpedes, deixemo-los de lado. Já basta as maldades que o desumano lhes faz todos os dias. Se quiser recuperar sua humanidade perdida, o funcionário deverá reduzir-se à humildade e esbravejar contra o idiota que ascendeu ao poder. Sim, porque é permitida a ira numa única situação: — contra o mal. Mesmo o Cristo, a Majestade dos Céus, enfureceu-se contra os que comercializavam à casa do Altíssimo. O aviltamento é o pior de todos os males. De fato, e para falar a verdade, estamos a um passo do completo aviltamento.
          Digamos logo e sem rodeios: — a degradação é geral e sem limites. Vejam, por exemplo, o progressista. O que é o progressista? Direi que nos últimos 15 anos intensificou-se o uso, por parte de muitos, de tal termo, de tal adjetivo. Nas rodas de políticos e em seus discursos para o povo em comícios ou do púlpito das casas legislativas e, principalmente em suas falas nas reuniões de seus partidos, usaram e abusaram de seu uso. Muitos se autointitularam "progressistas" e seu número cresceu assustadoramente. Ser progressista era o mote, a palavra de ordem, o autoelogio obrigatório. Os outros eram acusados de ser "conservadores". Pois o progressista nada mais era do que o esquerdista, o revolucionário, o que iria modificar toda uma ordem, uma estrutura, um modo de fazer e pensar as coisas. Em suma, o progressista era o arauto de uma outra ética, de uma nova forma de "fazer as coisas". 
          Pois esse pessoal era contra "tudo o que aí está". (Digo "era contra" mas poderia perfeitamente dizer que ainda é e tão cedo não deixará de ser. É provável que sempre o seja.) Decretaram a falência de tudo, da família à ortodoxia econômica. E assassinaram Deus. De sua boca saíram as maiores blasfêmias que se ouviram recentemente. Louvaram o crime, a gastança irresponsável, intensificaram o pacto com os bandidos, pretenderam inumar a ideia de honestidade. Em suma, tudo aquilo que alicerça o ser humano normal foi alvo de sua metralhadora assassina. Ser progressista era ser "inteligente". Com a plena certeza de que os valores morais mais acarinhados pelo ser humano normal eram os responsáveis por o que consideram a causa da falência da sociedade, investiram impiedosamente sobre eles. A ideia, inicialmente encantadora porquanto não há nenhuma perfeição na sociedade, arrebanhou milhões de incautos e outros tantos semelhantes a eles. 
          O tempo mostrou o resultado da ação do progressista. Violência, aumento da pobreza, aumento do endividamento das pessoas e do governo, falência institucional generalizada, falência de empresas públicas, assalto ao erário, propagação da corrupção em todos os níveis, envilecimento do poder judiciário, etc. etc., foi o cenário final. Dirá alguém que muito disso não é novidade, que várias dessas situações ocorreram sob a égide do "conservador", e direi que é verdade. Afinal, o bicho homem tem maus bofes desde as fraldas. Mas, admitamos — o progressista quis, e ainda quer, institucionalizar o caos. Ainda agora respiramos o ar de um certo caos, visto que durante os últimos 15 anos ele muito fez para implementar sua ética. Quem não concordar com esta evidência gritante só há de se satisfazer com a descida da Nova Jerusalém desde os Céus e da parte de Deus. Dito de outra forma, o progressista inundou uma sociedade imperfeita com o produto fecal de seu metabolismo mental, donde fica evidente que a caixa craniana do progressista é preenchida com seu grosso intestino. 
          Ontem, ali nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, esbarro com minha querida amiga Jesoni Gruska, médica de mulheres. Confidenciou-me: — não vê a hora de se aposentar. E por que quer ela se retirar do serviço público? Ora, a causa de tal desejo é o caos, o mesmo caos criado pelo progressista. Sim, o caos tem suscitado muitas vontades, muitos desejos, sendo o principal o desejo de dele fugir, de para bem longe dele ir. Em uma simples palavra, o caos nos impele à aposentadoria e à emigração. Outra alternativa seria a exoneração pura e simples. Tais alternativas satisfazem mais ou menos plenamente a ânsia do ser humano normal por paz. Leva a cabo quem pode, quem tem coragem. Não pode ser taxado de louco o que procura proteção. Preservar a vida e o patrimônio honestamente acumulado é um desejo normal. 
          O comentário da amiga seria esclarecedor por si mesmo. Ainda assim, quis dar uma mais detalhada justificativa. Explicou que na Emergência obstétrica era obrigada a examinar as pacientes deitadas não numa maca normal, não num leito de hospital normal. Nada disso. Como elas, pejadas, chegavam procedentes do interior do Estado em busca de socorro médico por alguma complicação de sua gravidez numa maca de ambulância, eram obrigadas a permanecer nas macas, já que o hospital não dispunha de leito. O problema maior é que essas macas não têm pernas e que, por isso, eram retiradas do veículo e postas ao chão. Sim, as pacientes, grávidas, deitavam-se em macas ao chão da Emergência. E o profissional médico que se virasse para examiná-las. Assim, relatou-me a amiga que precisava se ajoelhar para fazer o toque vaginal nas pacientes, examinar-lhes o abdome, auscultar-lhes os batimentos fetais. Era uma dupla humilhação, eram duas humilhações — a da paciente e a do médico. Óbvio é que a humilhação do doente é incalculável, ao passo que a do profissional é meramente ocupacional. Vejam a cena. É cena de guerra ou de pós grande catástrofe natural. 
          Vamos e venhamos, o grande humilhado é, de fato, o paciente. Perde ali o doente toda sua dignidade, toda sua humanidade. Avilta-se desmedidamente. Vítima de uma Constituição que é uma farsa, pautada pela irresponsabilidade das boas intenções que sempre levam ao inferno; muitas vezes vítima de suas próprias más e irresponsáveis escolhas; vítima de sua indolência e até participante ativo no dueto corruptor-corrompido, o paciente arca e sofre mais do que ninguém com tudo isso. Jesoni só não quer mais atuar na cena hedionda. A sensação de aviltamento não se deve ao fato de ajoelhar-se para socorrer, mas por sentir na pele o resultado da atividade do progressista. Desumanizar é o que ele melhor faz, e ela se recusa terminantemente a participar de tudo isso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O IDIOTA E O BUROCRATA

          Não me sai da cabeça a cena que se me desenhou na chácara de meu amigo Feitosinha. Já faz alguns anos, mas não esqueço. Fomos lá, certo ensolarado sábado, Costinha e eu, encontrar o Feitosinha em seu solar. Era um churrasco. Levei meu violão para a cantoria. Já, já digo o que lá vi. Antes abro um parêntese e pergunto: – onde andará o Feitosinha? 
          Nunca mais o vi no hospital. É provável que tenha se aposentado. A última vez que dele ouvi falar foi há algum tempo. As notícias davam conta de que havia passado mal e sido internado. Felizmente se recuperou e saiu de alta sem maiores complicações. Eis aí as notícias, as últimas notícias, que tive do amigo. É bem possível que continue bem. Todos sabem – notícias ruins varam o mundo dez vezes antes que se dê um suspiro. Fecho o parêntese. 
          A cena que vi na chácara do amigo foi a do gado bovino em fila indiana para beber água. Descrevi-a aqui várias vezes, em diferentes crônicas. Em resumo, as vacas, em toda sua inocência, em toda sua pureza, obedeciam fielmente ao Feitosinha e seu vaqueiro. E a fila era uma organização tremenda. Ninguém se aventurava a passar à frente de ninguém. Não havia altercações ou brigas entre as vaquinhas do Feitosinha. E depois da água saiam mansamente para o pasto onde se deleitavam com o capim. 
          O leitor em sua curiosidade de marido traído há de querer saber: – e por qual razão, após tanto tempo da visita à chácara do amigo, me lembrei desta bucólica e enternecedora cena? A resposta é simples: — foi justamente quando vi a fila do ponto do Instituto Dr. José Frota. Com efeito, quase todo dia o autor que vos escreve vê a cena fatídica. E vamos mais além. A fila do ponto do referido hospital é de domínio público. Sim, ela se posta quase ao meio da rua. Quem quiser ver a cena, esteja ali, à entrada do subsolo do hospital, todo santo dia às 7 da manhã e às 7 da noite. É batata. Não há como perder. As vacas do Feitosinha estavam ao sol implacável, devo acrescentar, ao passo que o pessoal da fila goza sempre de uma sombra que torna um pouco mais leve sua desumanização. Um hospital que se diz terciário oferece três, e apenas três, relógios de ponto às dezenas de funcionários que fazem jornadas de trabalho diariamente. Por isso as filas enormes. São como as vacas do Feitosinha que mansamente vêm beber a água do tanque.
          (Há, é verdade, um quarto relógio de ponto no prédio administrativo. Mas ele está absolutamente fora do fluxo de todo esse pessoal, de modo que ele é utilizado quase que apenas pelo pessoal que trabalha naquele setor.)
          Há, além da fila do ponto, a fila da catraca, não devo esquecer de mencionar. A catraca é o dispositivo da segurança. E qual a razão da catraca? Repito : — ela é o dispositivo da segurança. Aos que não se lembram, saibam que o IJF já foi palco de pelo menos um assassinato à bala em suas dependências, fora outras tantas tentativas que se viram frustradas. Os tiros, no caso os tiros das outras tentativas, não atingiram o alvo a que se destinavam, mas o pandemônio nem por isso foi menor. Assim, após bater o ponto, o funcionário se posta diante da catraca para ter acesso a seu local de trabalho. Como há, ali, apenas três catracas, e há ainda o pessoal que está saindo do serviço e que vem também bater o ponto, temos que forma-se uma grande fila para a catraca. O interessante é que as filas — uma defronte cada máquina de ponto e outra à única catraca eleita para os que entram — criaram, por sua vez, o engarrafamento. (Quem me perguntar o que é feito da terceira catraca, respondo que está frequentemente quebrada.) Tentemos uma descrição deste outro patético cenário. 
          Pressionados para estar à frente da máquina na hora certa, os funcionários que chegam para trabalhar são obrigados a parar o carro ali no acostamento da Barão do Rio Branco. Não tendo onde parar por conta da lotação dos estacionamentos do hospital pelos veículos do pessoal que está encerrando seu turno de trabalho, situação piorada pela cessão de um dos terrenos onde funcionava um deles para a construção do famigerado IJF II, o funcionário não tem outra alternativa — é parar no acostamento e descer para cumprimentar a máquina. O resultado é um diário caos no trânsito neste trecho da rua. Acrescente-se a isso o acúmulo de vendedores ambulantes que estacam suas barracas ou carrinhos de lanche na calçada onde desce a rampa do subsolo do hospital. Acreditem: — é uma pequena amostra de nossa tendência ao caos. É a vitória do burocrata. É a vitória do idiota. 
         Vejam que há a defesa do idiota. Mesmo ele terá argumentos em defesa de seu ponto de vista, e somos obrigados a ouvi-lo. É efeito colateral da democracia dar voz a todos, mesmo ao idiota. Até aí não há problema. Não faz mal ouvir asneiras. Contudo, o resultado da ação do idiota está aí para quem quiser ver. Digo "idiota" e percebo que deveria ter feito uso do plural visto que ele, o idiota, é, acima de tudo, uma superioridade numérica. O que salta aos olhos não pode ser negado, não pode ser facilmente esquecido. O burocrata argumenta ferozmente a favor da catraca, a favor da máquina de ponto, a favor do acúmulo do comércio "informal" à entrada do hospital e, quiçá, a favor do engarrafamento. Não há nenhuma surpresa nisso. Afinal, o burocrata e o idiota são a mesma pessoa. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A ENTREVISTA

          Os leitores que acompanham este blog hão de se lembrar da revolução que sofreu o amado amigo Fábio Motta. Ora, dizer que alguém sofreu algo implica em que esse alguém foi vítima passiva, objeto de um infortúnio, alvo de um destino implacável e cruel. Tranquilizo a todos dizendo que não foi o caso com o querido amigo. Qualquer conotação negativa que se queira aventar para o caso estará fadada a se esvair ante a realidade. Sim, os fatos não me deixam mentir. Não, o Fábio Motta, de fato, foi o principal agente e ator de sua recente revolução. Digo recente e já corrijo – já não é tão recente assim. Sabe-se lá quando, de repente, o nosso Fábio Motta "aconteceu". Teria sido, dizem as más línguas, um amor que azedou, um negócio que quebrou-lhe a banca, ninguém sabe de fato. O que importa é que estava ali um novo Fábio Motta, um novo homem. 
          Motta era um homem de paletó e gravata. Um homem enorme, alto, forte e... de paletó e gravata. As meias, os cintos e as cuecas seriam das melhores e mais caras marcas à venda. Seus sapatos reluziam como ouro. Engraxava-os diariamente. Quando mais novo usava um bigode vistoso e densíssimo. Numa única palavra, o homem parecia o Tom Selleck. Não sei se se lembram do Tom Selleck. Pois o Fábio Motta seria facilmente contratado como dublê do Tom Selleck, tamanha a semelhança com o ator norte-americano. 
          Com a transformação, o amigo murchou. E digo que literalmente murchou. Vejam que não o afirmo no sentido pejorativo. Nada disso. Para se ter uma vaga ideia, o homem, agora, precisa apertar o cinto para evitar que lhe caiam as calças. Trocou os sapatos finos negros e brilhantes por esportivos coloridos. Com efeito, toda a indumentária do homem é, agora, multicolorida. Dir-se-ia ser ele um havaiano completo. O surf é a sua principal atividade. Para isso, faz cursos de natação e de apneia. Comprou sabe-se lá quantas pranchas. O destino dos vários paletós que pendiam em seu guarda-roupa é, até agora, desconhecido. Nunca mais qualquer ser vivente o viu usá-los. Suspeita-se que no lugar dos paletós estejam as pranchas de surf. Eis aí em rápidas pinceladas a revolução que atingiu o nosso querido amigo. Ia esquecendo um detalhe crucial – as namoradas. Suas namoradas, antes mulheres maduras e realizadas, eram agora adolescentes recém saídas da barra da saia de suas mães. Por isso muitos fecharam um diagnóstico para o amigo: – ele seria um Peter Pan mal acabado. 
          A transformação do Fábio Motta foi tão acentuada que chamou a atenção da imprensa. Certo repórter, digo, certa repórter, jovem e bonita, combinou com ele um lugar em determinado horário a fim de obter, finalmente, as razões que o levaram a tão intrigante e contundente mudança em seu estilo de vida. Os leitores quererão saber de como a imprensa tomou conhecimento do fenômeno Fábio Motta e direi que suspeito fortemente da rede social. Disse o meu querido amigo Fernando Siqueira que a rede social faz hoje o que faziam antigamente as calçadas. Tudo se conhecia e ganhava o mundo nas calçadas. Seja como tenha sido, a repórter queria que o grande público tomasse conhecimento a fim de que mais pessoas se beneficiassem de mudança tão desejável e impactante. Afinal, as pessoas precisam de um gatilho, de uma boa razão que as encorajem a  seguir em frente. Todos sabem que, numa mudança, o mais difícil é o começo, que os primeiros passos são os mais difíceis, é como começar a andar.  Nada melhor do que um exemplo vivo, um exemplo inspirador.  Era aí que entrava o nosso querido Motta. 
           A moda é ser magro, ser jovem, ser saudável. Qualquer um que destoe de tal unanimidade, de tal consenso, há de ser sumariamente excluído como exemplo a ser seguido. Seja um canalha, mas seja magro, jovem e saudável. Obviamente, não é assim com o nosso Motta. A entrevista havia de esclarecer, de uma vez por todas, as razões do amigo. Assim, lá foi ele encontrar-se com a imprensa. 
          Foi ali na Beira-Mar, lugar onde se encontram os milhares de atletas desta vil cidade. Um fim de tarde de segunda-feira, o dia mais cheio, mais frequentado da semana, foi o cenário escolhido pela jovem da imprensa. Afinal, é no fim de semana que se cometem todos os pecados contra a saúde do corpo e a favor do excesso de peso. A segunda seria o dia da expiação, o dia de confessar e expurgar tais pecados. Por isso há muito mais gente neste dia. 
          A repórter queria causar impacto. Escolheu a entrevista em frente ao Boteco Praia, um bar repleto de paus-d'água todos os dias da semana. Testemunhariam, ainda que de uma certa distância, o atleta cinquentão e humilhante. Ela compareceu de bloco na mão e acompanhada por um cinegrafista. Quando viu o homem de câmera em punho nosso Motta fez um esgar de contrariedade. Pediu à moça para não ser filmado. Sabe como é... Uma imagem de filme ou de fotografia nunca espelha a realidade. Gente bonita corre o risco de parecer feia diante da câmera. É aquela história da mínima diferença entre a beleza e a feiura. Tinha trazido também uma maquiadora? Melhor não correr o risco...
          Ela começou assim:
          — Senhor Motta, como vai? O senhor parece ser um homem que está em dia com a saúde. O senhor pratica esportes? Quais esportes o senhor pratica?
          — Minha querida – era o velho Motta querendo vir à tona no novo Motta – tudo bem com você? Sou adepto do surf, sempre gostei do surf, sou um homem do surf... Na adolescência era o meu esporte. 
          Diz o amado amigo Bacana que uma das mais prementes características do Motta é ser um gentleman. Nisso, segundo ele, não houve a menor alteração.
          — O senhor surfa desde a adolescência?, quis ela se certificar.
          — Não me chame de "senhor", minha querida... Assim você desfaz todo o meu trabalho... 
          — Desculpe... Como prefere que eu o chame?
          — Bem, me chame de Meninotti ou de "você". Meus amigos vêem em mim uma semelhança com o ex-técnico argentino, o César Luis Menotti. Você não me acha parecido com ele? Claro, ele hoje é um homem mais velho. Talvez até já tenha morrido... Você saberia dizer se ele já morreu?
          — César Luis Menotti? Não sei quem é... Ele é antigo?
          — Foi técnico da Argentina nos anos 70...
          — Não é do meu tempo... Tenho 30 anos... A propósito, quantos anos o senhor, digo, você tem? Perguntava e anotava no bloquinho as respostas do entrevistado. O cinegrafista, rejeitado como um pano de chão, resolveu se misturar aos cervejeiros do Boteco. Motta respondeu:
          — Veja bem: a idade não importa. Por exemplo: você me dá que idade?
          A repórter ensejou um sorriso encabulado e hesitou. Ia responder quando ele atalhou:
          — Perceba que sou magro, e abriu os braços olhando-se de cima abaixo.
          Continuou:
          — Muitos desses garotões aí não me acompanham...
          A repórter quis mudar o tema, voltando ao técnico argentino.
          — Mas... O que este senhor Menotti tem a ver com o "Meninotti" que seus amigos usam para se referir ao senhor, digo, a você?
          — Começaram a brincar comigo por causa de meus cabelos que estão rareando em cima e permanecem viçosos aos lados e atrás da cabeça. Como pareço um menino, fizeram a brincadeira. Daí o Meninotti. Percebeu?!, e inadvertidamente passava a mão pelos ralos cabelos.
          — E o surf? Como o surf entrou na sua vida?
          — Como ia dizendo, surfava na adolescência e desde então nunca mais havia praticado. Resolvi voltar. Achei que estava precisando. Não sei bem o porquê... Até hoje eu mesmo me pergunto.
          — Como assim? O senhor, perdão, você não sabe por que voltou a surfar?
          Nesse momento Motta deslizava a mão pelas suíças. Sim, o homem tem as suíças do Hugh Jackman. Assim como poderia dublar o Tom Seleck, da mesma forma poderia dublar o Hugh Jackman. Seria o Wolverine tupiniquim falando cearencês. Responde:
          — Minha linda, às vezes na vida o homem faz coisas sem nenhuma razão aparente. Quero dizer com isso que nem sempre fazemos as coisas por uma razão específica. Fazemos por fazer. Não há uma explicação. Dizia isso com a empáfia do cinquentão.
          A repórter insistiu:
          — Você, desculpe, o senhor sabe... às vezes a pessoa descobre algum mal, alguma doença... O senhor, desculpe, você não descobriu ser portador de alguma doença para ter mudado tanto assim o seu estilo de vida?
          Motta sorriu aquele seu sorrisinho debochado e disse:
          — Minha filha, eu lá tenho doença nenhuma!... Sou saudável como você. E olha que eu já tenho... Se brincar tenho mais saúde que você... Quer apostar?
          A moça sorriu amarelo meio desconcertada e perguntou, depois de um pigarro:
          — Como é a sua rotina? o seu dia-a-dia?
          Motta encheu o peito de ar como se fosse começar uma sessão de apneia e respondeu:
          — Acordo todo dia às quatro e caio na mar já às cinco. Às nove chego no trabalho e fico até às cinco da tarde. Almoço no escritório ou nem almoço. Vou ao clube para a natação e depois treinamento de apneia. Treino pesado quase todo dia. Os amigos me chamam para encontros mas não tenho mais tempo. Às vezes faço uma massagem, mas não é sempre. Veja você: estou quase aposentado. Tenho essa idade e já estou quase aposentado. Não é incrível?!
          A moça hesitou como a ganhar coragem, e finalmente perguntou:
          — Mas... Que idade o senhor tem mesmo?... 
          Ele continuou como se ainda não tivesse terminado de descrever a rotina:
          — Tenho... Não perco mais tempo com conversas inúteis. Você sabe, é preciso estar em movimento se quiser permanecer jovem e saudável. Tenho cinco pranchas de surf que me servem a diferentes marés. No fim de semana vou ao Paracurú ou ao Pecém surfar e ver como andam as reformas de umas casas que tenho por aquelas bandas. Quando estiver completamente aposentado vou morar lá. E vou surfar até morrer!
          — Desculpe, mas como é isso de estar quase aposentado? Pelo que entendi, o senhor, digo, você ainda trabalha...
          — Minha linda, o quase aposentado é um estado de espírito. É simples: já me vejo lá. Vivo com essa sensação. O tempo em que estou no trabalho, eu nem sinto. É como se estivesse surfando, ou nadando, ou tomando uma massagem com a dona Lurdes. Ela é minha massagista há vários anos. Entendeu?
          — Entendi... 
          A jovem tossiu baixinho como se estivesse se dando um tempo para elaborar outra pergunta, a última ou uma das últimas.
          — O que a sua mulher acha de tudo isso? Ela acompanha o senhor no surf?
          Motta sorriu outro de seus sorrisos marotos e disse:
          — Sou solteiro, minha linda... E já nem me lembro quando foi o meu último relacionamento. Você me acredita?
          A jovem e linda repórter fechou o bloco e agradeceu ao Motta por seu tempo e sua colaboração. Ele quis se escalar para uma cerveja com ela quando ela fez menção de atravessar a rua em direção ao Boteco para encontrar seu cinegrafista, mas se desculpou dizendo que tinha outro compromisso urgente. 
          Meio sem graça ele caminhou pelo calçadão em não sei qual direção e se perdeu entre os atletas da segunda-feira. 
          A entrevista ainda não foi publicada.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

DOENÇA GRAVE SÓ DÓI NO FIM

          As macas estão enfileiradas de cada lado, uma a uma, coladas entre si. Os corredores formam um L ou, melhor, dois L's colados um ao outro por lados opostos. Terá o quê?, seus 60 a 70 metros de comprimento o maior, ao passo que os menores terão seus 20 ou 30 metros. As macas se embrenham por dentro do edifício da Emergência, já reformado sei lá quantas vezes, mas jamais ampliado. O secretário boquirroto, irmão do senhor governador, puxou da caneta tão logo assumiu e tirou todo mundo de lá. Foram enviados como produtos indesejados para outras unidades de saúde, nem sempre de acordo com a capacidade de resolução requerida para cada caso. Além disso, anexou-se parte do hall de entrada do novo edifício, ao lado deste onde funciona a Emergência. Cresceram paredes, lá puseram leitos e o transformaram numa enfermaria. Antes os pacientes ficavam lá, neste hall, como ficam os dos corredores: – expostos, vestidos ou não, com suas feridas cobertas por curativos na maior parte do tempo, mas nem sempre. Há sempre o risco de que alguém vomite ou tenha acessos de tosse em cima de seu vizinho de maca. Se é de morrer, não se morre sozinho. Há uma plateia fixa que testemunha qualquer morte. O desenho arquitetônico original foi, assim, modificado por essa "contingência". Tudo obra da caneta do senhor secretário.
          Nos corredores há, ao lado de cada maca, o suporte de soro correspondente e uma ou duas cadeiras para os acompanhantes, um filho, o neto, a esposa, o marido.., e que servem também como cabide para roupas ou bancada para uma mochila ou diminuta mala. Às vezes, o que faz companhia é só a vizinha muito chegada, já que na família todos trabalham e ninguém pode parar a vida para ficar ali com seu ente "querido". Ou o doente mora no interior e não dispõe de alguém na capital para lhe dar essa assistência tão desejada e tão necessária. Em qualquer das hipóteses, pouco importa. O doente que está ali, está internado por necessidade. Sua doença requer tratamento em ambiente hospitalar. Não é possível tratá-la em casa com remedinho caseiro, um chá de boldo ou coisa que o valha. 
          Abro um parêntese para falar da vaga do hospital dos corredores lotados. A vaga? Não existe a palavra "vaga" no dicionário do hospital. Um leito fica vago por pouquíssimo tempo, questão de segundos, o tempo necessário para comunicar ao centro de regulação que alguém morreu. Quando a alta é antecipada ou prevista, a ocupação do lugar é um continuum, ou seja, já há ali alguém mesmo que ainda não se tenha deitado ao colchão. Outro dia, um alienado brasileiro – não se enganem: há um número extremamente elevado de alienados brasileiros – ligou para o telefone portátil de um médico funcionário do hospital. Queria o inusitado. O que queria demonstrava, por si só, sua abissal ignorância sobre o que ocorre em seu país. E o que queria? Queria uma vaga. Sim, uma vaga para um parente seu. Na cabeça do brasileiro, a pessoa adoece, liga para um médico do serviço público e este, numa calma de monge budista, arranja o leito na enfermaria que o doente ou sua família desejam. Se duvidar, vai querer ficar não na enfermaria, mas no apartamento, numa suíte do hospital, com direito a TV, condicionador de ar e até uma vista para as dunas. Vê-se com isso que a ignorância mata.
          São doenças graves que não doem. Sim, boa parte, uma grande parte das doenças do corredor não dói. O doente, morando no interior ou na capital, tendo ou não uma mínima educação, julga a dor como o sintoma. Sem dor não há doença, segundo sua firme e tola convicção. Para ele toda doença há de doer. "Num sinto nada, doutor", diz ele, ou ela, como se isso o livrasse do mau prognóstico, como se isso fosse um critério de benignidade e sinal inequívoco de que irá para casa em poucos dias. 
          Foi justamente por não sentir nada, dor nenhuma, coisa nenhuma, que não se empenhou tanto quanto deveria em tratar sua pressão alta e seu diabetes. Fumava desde a adolescência, já se vão cinquenta anos. No posto de saúde próximo a sua casa às vezes tinha médico, às vezes não tinha. Os cubanos vieram, mas depois se foram. Muitos faziam prescrições absurdas, que denunciavam uma formação profissional defeituosa. O médico brasileiro também atende por lá, mas acabam pedindo demissão. Além disso, o que poderiam fazer se os remédios faltavam e não conseguiam tratar os doentes? Nas eleições municipais, por coincidência, tudo para. Os médicos se demitem, os remédios acabam... É como se nos meses que a antecedem tudo parasse de funcionar... Haveria nisso algum propósito? Não se sabe, mas o corredor está lá, lotado deles, dos vitimados dessas paradas intermitentes e frequentes dos agentes da medicina preventiva e primária.
          O caso de dona fulana me impressionou além da conta. Era um dos casos mais comuns do corredor. Era o que os médicos chamam de pé diabético. Aconteceu o seguinte. Dona fulana fumava e tinha diabetes há muitos anos. Eis que uma ferida lhe brotou no pé, assim do nada, assim sem razão de ser. Levaram-na para o hospital, para a Emergência. A consulta estava marcada para dali a três ou quatro meses. Tanto demorou que apareceu o tal ferimento. De lá não voltou. Urgia internar-se. Era coisa séria. Faltava-lhe sangue nas pernas. Estava no hospital certo, apropriado para lidar com seu caso. 
          O diabo foi a visita do ministro. Sim, veio de Brasília o ministro visitar o hospital, averiguar suas instalações, seus problemas, conhecer a instituição. Os corredores estavam apinhados de gente: doentes do fígado, casos de apoplexia, de câncer, e no meio deles dona fulana. O secretário precisava agir rápido, tirar todo aquele povo dos corredores, dar algum destino a eles. Num passe de mágica – novamente a caneta –foram todos transferidos para hospitais particulares menores, conveniados, incapazes de lidar com os graves problemas de saúde daquele corredor de hospital grande. Veio o ministro, fez a visita. A imprensa filmou, televisionou, fotografou, entrevistou. Tudo muito limpo, muito encerado, os corredores ecoavam os sons da trupe que seguia a comitiva. Nem pareciam aqueles passadouros sujos, repletos da gente pobre e doente de seu dia-a-dia. 
          Dias depois, aos poucos, os corredores voltaram a se encher da gente doente de doença grave, entre eles dona fulana, mandada de volta do pequeno hospital para o qual fora banida a fim de não decepcionar o ministro. 
          Ah...mas o pé de dona Fulana já não era o mesmo. No intervalo entre a visita da autoridade máxima e o banimento de dona fulana, sua doença avançou e piorou. Com efeito, seu pé estava em petição de miséria, não tinha mais jeito. A gangrena lhe atingira a ossatura, os tendões, os nervos, os músculos... Não havia mais pé. Cortar-lhe fora o membro  era o único tratamento que lhe restava para salvar-lhe a vida.
         O ministro voltara a seu confortável gabinete, satisfeito por conhecer hospital exemplar, enquanto dona fulana voltou para casa quase 60 dias depois de sua chegada ao corredor. Já não era bípede. Estava presa indefinidamente a uma cadeira de rodas. Quem sabe o prefeito de sua cidade não lhe providencia uma em troca do voto da família nas próximas eleições? Nem na alma lhes doeu passar por tudo isso. As doenças mais graves não doem de fato. Só no fim.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O IMUTÁVEL ÔNUS DO CRIME

          Foi com indignação e horror que li a matéria no blog do senhor Fernando Ribeiro (http://www.blogdofernandoribeiro.com.br/index.php/9-categorias/1599-pcc-e-comando-vermelho-estao-prontos-para-deflagrar-guerra-pelo-trafico-em-fortaleza#sthash.D1YrlDwy.dpuf) dando conta da proibição, por parte do governador do Estado, a que policiais civis e militares não dessem entrevistas admitindo a existência de uma "paz" selada entre as várias facções criminosas do tráfico de drogas da cidade de Fortaleza. O "pacto" entre eles vem a bem de seu "negócio".
    Hoje, confirmando o que disse o blogueiro, o marrom periódico "O Povo" (http://mobile.opovo.com.br/app/opovo/dom/2016/01/30/noticiasjornaldom,3569037/faccoes-em-tregua-uma-paz-as-avessas.shtml) anuncia que o burburinho do acordo entre os criminosos tomou conta da cidade e traz o relato de alguns policiais militares confirmando o fato. O detalhe que salta aos olhos na reportagem é a solicitação dos policiais que se manifestaram para não serem identificados.
          Ora, o reconhecimento da existência de grandes organizações criminosas em nossa cidade já nos deixa perplexos e indignados e sua associação em uma organização ainda maior, mais complexa e poderosa, temerosos; agora, a ordem da maior autoridade do Estado para que a população não tome conhecimento do risco a que está exposta é simplesmente tenebrosa e nojenta. Prevendo a negação das autoridades quanto a essa proibição, vem bem a calhar o pedido dos policiais, na matéria do "O Povo", a que não tenham suas identidades reveladas levantando elevadas suspeitas de que a ordem do senhor governador seja a mais pura, singela e tenebrosa realidade.
          Vejam os escassos e raros leitores que estamos numa enrascada. Os policiais estão com medo! Estão com medo de serem retaliados por seus superiores e, quem sabe, pelos próprios bandidos. Vivemos sob a égide de um código penal incompetente, inócuo, leniente e, em última análise, serviçal do crime. Com penas leves, patéticas, risíveis à luz da função de fazer justiça à vítima, nosso código penal é uma piada. Se um policial não se sente seguro porque seus chefes estão a proteger os criminosos, o que dizer de nós que nem uma arma é permitido empunharmos?
          Eu estava para apôr aspas em todo o trecho acima, de seu início ao fim do parágrafo anterior, e explico: – vão-se lá meses que o escrevi, precisamente à época dos fatos narrados. Passou o tempo e até hoje não se sabe da verdade sobre tudo isso. De fato, fará, amanhã, 1 ano da fatídica e vergonhosa matéria. O que houve de lá para cá que possa nos aplacar a angústia? O que se fez daquele momento para hoje em termos de combate ao crime neste país e nesta terrível cidade? Seja quanto ao crime organizado ou ao desorganizado mesmo, o que nos importa?
          Dizem os tratados que o ser humano normal nasce e cresce com um inato sentimento de princípios morais, uma espécie de vontade do bem. Mesmo que venha ao mundo em condições precárias, há no ser humano normal a semente do bem e a vontade de fazer o bem. Dizem também os mesmos tratados que aqueles que foram submetidos a maus tratos e que acabam por sofrer danos ao cérebro podem desenvolver defeitos do caráter de gravidade variável que podem resultar em comportamentos antissociais mais ou menos intensos. Outros já nascem desprovidos de tais dotes devido a defeitos genéticos e passam a apresentar desde a mais tenra infância sinais de comportamento antissocial, com ausência de alteridade, de afetividade e de compaixão em graus variáveis.
          O que quer que se possa aventar como causa, e sem já lançar sobre tais indivíduos a pecha da culpa, o efeito do comportamento dessas pessoas é sabidamente devastador. O crime é sua sina, a cadeia o seu destino. Isso nas nações onde o problema foi encarado de frente. Culpa é um termo jurídico que vem depois de um inquérito e um julgamento.
          Ora, cresce o conhecimento sobre esses indivíduos. Ao início os chamaram de psicopatas ou sociopatas. Hoje há outros nomes para designá-los, mas suas características não mudaram. O psicólogo polonês Andrew Lobaczewski deles tratou quando descreve como se organizam para tomar o poder de uma nação. Suponho que, da mesma forma, também se utilizam das mesmas "técnicas" para fundar e gerir organizações criminosas, ou mesmo para se manterem livres individualmente o tempo que puderem na  sociedade dos homens normais, praticando seus golpes ou cometendo crimes mais brutais.
          Infelizmente, para essas pessoas não há um tratamento que reverta seus graves distúrbios mentais, restando como única alternativa seu isolamento da sociedade. Enquanto cresce o conhecimento sobre tudo isso, patinamos em discussões inúteis e improdutivas sobre como lidar com o crime. Queremos inventar a roda. Queremos debater enquanto milhares sucumbem. Queremos...queremos não sabemos o quê.
          Será que ali, nas cúpulas do poder, não haverá uma súcia de tipos como estes? encastelada a gerir e a fazer leis? a suscitar seus paramoralismos que servem a confundir os desavisados? Eis que em 1 ano se fez um silêncio quase completo sobre a matéria acima. Acomodaram-se os agentes dessa trama? Acordaram-se entre si de fato? O que não me sai da cabeça são as palavras do Capitão Nascimento: –"O 'sistema' é foda... Ainda vai morrer muita gente inocente". O país inteiro viu a ficção que imitou a vida real e ninguém fez nada. 

QUEM NÃO É FEIO BONITO TAMBÉM NÃO É

EIS que encontro ali, nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, o meu querido amigo Chico Cartier. 
                Um momento. Percebo a tempo que não convém chamar o amigo pelo apelido, ainda que esse apelido em nada o comprometa, em nada o desqualifique, em nada o diminua. Pelo contrário. Ele foi assim apelidado porque se envaideceu deveras depois da compra de um relógio de pulso da marca famosa – passava o tempo a levantar o braço para ver as horas. 
                Vá lá. Chico Cartier é corredor assíduo na Beira-Mar. É daqueles cuja atividade física tornou-se sua mais benigna obsessão. Assim, ao vê-lo fui logo querendo saber: –“E o Cooper?” Ele, sorrindo, respondeu: –“Sempre. Tenho medo de morrer...” Ou seja, o homem corre porque teme a morte. Presume que a atividade física extenuante lhe traga a longevidade pretendida. 
                O leitor, que é essencialmente um órfão de fisionomias e sempre deseja, mesmo que esteja a ler o autor descritivo, deseja ardentemente que fosse possível uma fotografia do personagem, imagina-lo-á da forma mais vaga possível. Por isso a descrição, ainda que detalhada e minuciosamente esmiuçada, nunca se equiparará à imagem. Diz lá a ciência da neurolinguística que a maioria de nós é visual. Convenhamos – o leitor há de ser perdoado. 
                Assim, digamos que o meu amigo Chico Cartier guarda uma semelhança brutal com o Keith Richards. Sim, é uma semelhança que impressiona, com uma diferença – o Keith Richards é feio, ao passo que o Chico não é. Não me queiram que saia a explicar esse aparente paradoxo. Direi apenas que a distância entre a beleza e a fealdade há de ser um minúsculo e quase imperceptível detalhe que, atuando no conjunto, tudo muda. Vejam que não estou a afirmar que é bonito o Chico. Se a distância entre esses dois extremos é mínima, que dirá entre um deles e um estado intermediário. Em suma, o guitarrista é feio, ao passo que o Chico não é. E estamos conversados.
                Devo dizer que não é desde sempre essa semelhança. Ela como que foi se acentuando com o passar dos anos. Chego a pensar que tenha sido, em parte, a acentuação das linhas de expressão do amigo, ou o fato de ele ter deixado a cabeleira pouco densa crescer. O fato incontestável é a tal semelhança. Outro fato incontestável é a feiura do Keith Richards. Fiquemos assim para não complicar conceitos e definições. 
                Mas... e o medo do amigo? Ora, antes de mais nada digamos que o medo de morrer é perfeitamente normal. O vivente quer permanecer, como se já viesse à existência carregando consigo uma vontade inelutável, um desejo congênito de eternidade. Seria isso uma programação do Criador? essa vontade de vida eterna? Schopenhauer atribuiu ao instinto, como a fome. Quiçá... Não vê talvez o meu amigo que há estudos recentes que demonstram que há atividades físicas que, se praticadas em sua idade, resultam em efeito oposto, isto é, envelhecimento acelerado e morte precoce. O diabo é que a verdade científica de hoje é a mentira loquaz de amanhã. 
               E assim me despedi do Chico, pensando cá com meus botões se ele já não parece mais velho por conta de suas desidratantes e intermináveis carreiras, ou se tudo isso não seria a evolução do inexorável levada às nossas superficiais e tolas análises ante ao colossal conhecimento que nos falta. 
               E o suicida? O que dizer do suicida? Bem... Já afirmei certa vez: – o pior suicida é o que não morre. Os bem sucedidos são outros quinhentos.

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...