Deixava-me particularmente estarrecido, à medida que as cenas na tela progrediam, o filme “Zona de Interesse”. Diz uma sinopse do filme o seguinte: “O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, e sua esposa Hedwig, que tentam construir uma vida aparentemente tranquila e bucólica em uma casa com jardim, localizada ao lado do campo. Por trás dessa fachada, o casal convive com os terrores do holocausto, sendo diretamente responsáveis pelos crimes cometidos no local. A narrativa explora a tensão entre a vida doméstica e a brutalidade do regime nazista...”
Observem que destaquei algumas
poucas palavras desta inverídica sinopse – basta assistir ao filme para isso
constatar – a fim de pontuá-la.
O casal Höss não tem uma vida aparentemente
tranquila – sua vida é tranquila de fato. Se não, vejamos.
A casa é um palacete de dois
pavimentos com vários quartos e aposentos e, além do jardim, ela tem uma
piscina e um parquinho onde seus quatro filhos brincam como se estivessem no
Céu enquanto a fumaça negra da queima de 500 judeus a cada “sessão” ganha o ar
do entorno. E, notem, a fumaça é visível nos momentos de lazer da família e
seus convidados, que se divertem tomando drinques e experimentando petiscos.
Além disso, este palacete fica à beira de um rio ou lago onde fazem piqueniques
e pescam com frequência
E a tensão? Ora, não há
tensão de forma alguma. Estão sempre sorrindo e se divertindo com algum
passa-tempo na enorme área de lazer da casa. Além disso, a família tem pelo
menos quatro funcionárias do lar. Sim! Quatro empregadas que cozinham, fazem a
limpeza, servem os convidados, recebem as compras que o serviçal militar traz
para abastecer sua despensa, etc. Detalhe aterrador, se isso tudo ainda não bastasse
– dentre os quatro filhos está um bebê de colo, de seus 3 a 4 meses de idade,
cuidado na maioria do tempo por uma babá.
Em dado momento, o casal recebe a visita da mãe da senhora Hedwig Höss,
a avó das crianças. Ela lá foi se hospedar para curtir uma temporada com eles.
E tudo corre na mais perfeita ordem, paz e tranquilidade possível, a fumaça da
torra de corpos vivos de judeus sempre subindo pela chaminé.
Noutro trecho da película, o senhor Höss aparece em reunião com
engenheiros a fim de tratar de um assunto que visa melhorar a “produção” do
campo – a construção de crematórios de funcionamento “sequencial”, ou seja,
enquanto um torra vivos 350 a 500 seres humanos por vez, homens, mulheres e
crianças, o outro esfria a fim de estar limpo e preparado para a “queima”
seguinte. Entre estes senhores estão senhores de idade, homens vestidos em
paletós negros impecavelmente passados e brilhantes.
O único momento de tensão entre o casal ocorre quando ficam sabendo que o comando nazista resolve transferir Höss para outra função noutro lugar. Sua esposa se nega a ir com ele e ele pede a seus superiores que deixem-na ficar na casa ao lado do campo com as crianças e as mordomias de que gozam, no que é prontamente atendido, visto que sua “produção” teria sido invejável, segundo eles.
É verdade que, às vezes, ouvem-se gritos de terror e dor vindos do
campo. Eles parecem vir de grande distância, visto que provavelmente os
crematórios foram equipados com abafadores de sons. Mas, vejam – isto não toma
a atenção de nenhum dos membros da família. Em nada os afeta.
Há outra cena que nos desperta um terror inigualável. É a cena que mostra funcionárias dos crematórios levando a cabo a limpeza, a faxina do lugar. São áreas em que um compartimento fechado é separado por vidros de outro compartimento externo, também fechado, onde se veem as vestimentas, sapatos e objetos pessoais dos cremados vivos sem piedade. A julgar pelo volume desses objetos não se pode supor que seja pouca a gente vítima dessa matança cruel e demoníaca
Ao final, e para nos dar ânsias de vômito, Rudolf Höss – ele é militar, mas agora me foge qual o seu posto de oficial nazista – está numa festa glamurosa a acontecer numa espécie de mansão ricamente decorada e iluminada com lustres riquíssimos e brilhantes. O mundo lá fora não importa. Ele tem centenas de amigos canalhas. Ele é apenas parte de uma gente que tem uma vida normal, agradabilíssima e confortável em lugar que lembra o bíblico lago de fogo e enxofre onde Satanás e os que experimentarão a segunda morte queimarão até a inexistência eterna.
Excelente, querido amigo! Em grau menor a mordomia daqueles que prenderam inocentes e acabaram com suas vidas , como se tivessem dado o golpe que eles próprios deram.
ResponderExcluirAmigo, a pensar que chegamos muito perto disso! até já havia sido preparado o primeiro campo de concentração de Auschwitz em Goiânia e nessas alturas nós seriamos os judeus e quando a gente vê 16, 17, 22 anos de prisão para esses Rudolf Höss, eles ainda dizem que são inocentes, que não fizeram nada e que Alexandre de Morais mandou prender "Popcorn and ice cream sillers" e o chefe esperando que dessem o golpe para ele assumir com o chamado popular, o que justificaria qualquer morte de qualquer brasileiro que não concordasse com o feito, fosse ele Presidente, Vice ou Presidente do STF. Não sei como ainda tem gente como o Sr. Höss e sua familia.
ResponderExcluirVocê encarnando o Höss ao defender a prisão de idosos e mulheres que carregavam pertences pessoais.
ExcluirNão o chegamos perto: os maus caracteres estão no poder em todas as esferas e você, um médico – pediatra, né – que deveria ser um humanista, defendendo essa carta podre. Não me admira. Lembrei do episódio "O Pediatra", de Nelson Rodrigues.
Excluir👏👏👏
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