domingo, 19 de maio de 2013

Máquina do tempo


          Estou preso num hiato do tempo ou, melhor, estou preso no próprio tempo, um tempo que não se esvai de mim, que de mim não passa. Ele persiste, teima em permanecer, em ficar. Como uma obsessão ele fica, vai ficando...
           Ligo a música. Ela me transporta, me leva... E vou... Aqui, onde me trouxe a música, me deleito; vejo, ouço, encontro a quem já há tempos não encontrava, a quem já partiu já nem sei há quanto tempo. Amigos, familiares, mendigos do portão da escola, eles revivem, estão aqui comigo agora, embalados e trazidos pela música que ora ouço...
            Eu a conheço, a música. Eu a quero aqui comigo, eu a escolho, porque é ela minha máquina do tempo, a que me transporta a lugares onde com prazer, alegria e felicidade já estive. Se pudesse o teria parado, o tempo, para que jamais passasse e os levasse de mim... 
            Insisto na música, a toco novamente, a escolho repetidas vezes... É ela quem fende os portais que apenas a aceleração da luz, dizem, poderia romper. Olho lá fora e vejo o dia que se vai esvaindo; uma tarde melancólica cuja luz fere o céu azul turquesa, triste e cálida, mais ainda ao som daquela música a tocar na mente, na memória, quase no ouvido, quase no mundo real. Uma sonolência me acode e quero desfalecer como um desejo de morte sufocado, suscitado por essa nostalgia profunda, por essa certeza inconsolável e impotente...
            Nem a noite que chega, completamente estabelecida e negra, é tão cruel e dolorosa como a tarde chorosa e inexorável; a tarde, a agonia; a noite, o sono permanente e sereno, como a eternidade da saudade e da inexistência, bálsamo da dor do amor que ficou...

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fazendo Voltaire feliz


                      Dizia Voltaire: “Não concordo com uma palavra do que disseste, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.  
          Na edição de hoje do periódico O Povo o articulista Plínio Bortolotti abusou de dizer besteiras. Ainda assim, sou obrigado a reconhecer seu direito de o dizer. Todos podem se manifestar, todos podem dizer o que bem quiser e entender. Mas é preciso ter cuidado a fim de evitar que as paixões influenciem o discurso além da medida.
          Qual o tema do senhor Bortolotti, Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O Povo? Resposta: - a vinda dos médicos cubanos para o Brasil. Disse ele: -“Bem vindos, médicos cubanos”. Acredito que havia ao final da frase um ponto de exclamação, desses que utilizamos para exprimir alegria, entusiasmo, energia positiva (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/05/16/noticiasjornalopiniao,3057130/bem-vindos-medicos-cubanos.shtml).
          Fui reler. Não havia ponto de exclamação. Menos mal. O senhor Bortolotti não deixou a paixão lhe subir tanto à cabeça, ou descer tanto ao coração. Em que pese a constatação, foi ele muitíssimo infeliz em suas considerações e, para amenizar de imediato seu efeito deletério sobre alguns leitores, abaixo de sua “Opinião” foi publicada a do Deputado Estadual, doutor Heitor Férrer. Nela o médico esclarece pelo menos um dado irrefutável e facilmente demonstrável, o percentual de médicos cubanos que é reprovado no exame de revalidação do diploma no Brasil: 89% (oitenta e nove porcento.) Sim, somente onze porcento dos médicos cubanos que se propõem a exercer a profissão no Brasil estão aptos para tal (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/05/16/noticiasjornalopiniao,3057132/a-contratacao-de-medicos-cubanos-no-brasil.shtml).
          Outros dois dados que Férrer não se esqueceu de citar, também sobejamente conhecidos como razões pelas quais o médico brasileiro não finca seu pé a fim de seguir carreira em áreas carentes: a baixíssima remuneração – e, muitas vezes, a não remuneração – e as precárias condições para o exercício da profissão.
         Diante desses dados reais, quais besteiras imaginárias disse o senhor Bortolotti? Para começar, taxou os médicos nativos de “elite”. Desconhece o senhor articulista que a esmagadora maioria dos médicos brasileiros é assalariada e labuta muito mais horas que o trabalhador comum em jornadas de trabalho extenuantes? trazendo aos ombros o peso de uma responsabilidade enorme? Se ele desconhece esse fato, é ele, o senhor Bortolotti, o representante da elite nessa história. É ele quem deve fazer uso da medicina de elite. Sim, porque a grande maioria dos brasileiros procura os profissionais do serviço público, aqueles mesmos de quem falei linhas atrás. Senhor Bortolotti, vá correndo a um hospital público para ver o que está acontecendo neste exato momento por lá. O senhor ficaria enojado com os políticos e gestores públicos de seu país e, muito certamente, orgulhoso de seus médicos. Não seja leviano. Conheça. E só depois fale.
          E quem garante que o médico cubano vai compreender melhor as múltiplas variações lingüísticas do povo humilde do sertão e lugares semelhantes quando a informar-lhes de seus males, como afirma o senhor Bortolotti? O senhor garante que eles sabem o que é “aperreado”? “desmetido”? abestado? "farnesim"? “bucho quebrado”? O senhor põe a mão no fogo ao afirmar que nós, médicos “da elite”, não sabemos o que significam esses termos? Deixe-me te dizer uma coisa, Bortolotti: - você é um imbecil travestido de comunista. Nada sabe sobre nós e sobre o povo. Mais uma vez, venha ao hospital, aqui ao IJF, por exemplo. Faço aqui uma ronda com o senhor. Mas fique o dia, o plantão inteiro, não vá embora logo. Acampe aqui conosco. Garanto: - o senhor jamais esquecerá. Nem jamais voltará a escrever bobagem.
          Como é bastante provável que o senhor Bortolotti decline de meu humílimo convite, dar-lhe-ei alguns dados para que se sinta estimulado a me desmascarar um possível embuste. Direi a ele que no IJF, hospital de nível terciário – um hospital desse nível atende casos de complexidade elevada –, falta de tudo, desde antibióticos que jamais deveriam faltar até sabão para lavar as mãos. Outro dia – sexta passada, para ser mais preciso – propus, a certo paciente internado naquela unidade hospitalar, construir-lhe uma ponte fêmuro-tibial posterior com veia safena para salvar-lhe a perna direita ameaçada pela gangrena isquêmica. 
          (Aqui faço uma pausa para dizer que não pretendo me aproveitar da laicidade do leitor e do senhor Bortolotti no jargão médico. Seria uma atitude boçal de minha parte. Dele me utilizo apenas para demonstrar um ponto de vista.)
          Operação em curso, tudo indo às mil maravilhas, tomei, de supetão, conhecimento da falta do fio de sutura adequado à construção da anastomose distal, mais delgado do que o então disponível na casa. Arno von Ristow e J. C. C. Palazzo dizem, à página 12 de seu "Urgências Vasculares" (Ed. Cultura Médica, 1983), sobre o material de sutura em anastomoses vasculares: "...deve ser adequado: vasos com 4 mm de diâmetro podem ser suturados com fio 7-0 ou até 6-0, os de 3 a 2 mm de diâmetro com fio 7-0, e os de menos de 2 mm de diâmetro com fio 9-0 e 10-0". (Quanto mais zeros tem o fio, mais fino ele é.) O hospital me oferecia, para uma anastomose sobre uma artéria de 4 mm e doente, um fio 5-0, mais grosso do que papel de enrolar prego, no dizer do cearensês. 
          Diga-me aí, senhor Bortolotti: o senhor gostaria de se submeter a uma operação desse tipo em hospital que se diz terciário, mas onde falta material primário e básico? O senhor acha que o resultado dessa operação será bom? Ou o senhor, como todo bom "comunista" brasileiro, vai alegar que esses detalhes técnicos não têm importância para um bom resultado em revascularizações de membros isquêmicos? Sim, porque esses senhores da esquerda têm se esmerado em tentar provar que não há o errado, nem existe o erro.
            A questão do conhecimento técnico do médico cubano é incomentável, como diria nosso ignorante e analfabeto ex-ministro Antonio Rogério Magri. Os dados estão escancarados. Só não vê quem não quer, ou quem escolhe não ver. Mas tudo se explica: - nossos comunistas não querem ver o anti-país que estão herdando a nossos filhos. O senhor tem filhos, Bortolotti? Quando doentes, leve-os a ser atendidos por um desses médicos cubanos.   
          O senhor Bortolotti afirma acintosamente e irresponsavelmente que “o suposto argumento técnico, na real, visa garantir reserva de mercado”. Que conclusão acintosa! Que conclusão estúpida! Que conclusão “comunista” e imbecil! A solução de seu governo "comunista" é pôr maus médicos para cuidar do povo humilde e sem voz, senhor jornalista! Talvez faça parte do genocídio – permito-me agora um devaneio tão ou mais estúpido quanto o do senhor Bortolotti – que esse governo “de esquerda” subterraneamente planeja operar no país. Vide a crescente violência, senhor articulista. Não temos mercado nenhum, meu senhor! Seres humanos doentes não são fonte de pecúnia para nós, como o senhor tão imbecilmente faz parecer! Respeite-nos! Não nos tome a todos por um mau exemplo qualquer! (As exclamações são a demonstração de minha indignação com o discurso deste senhor.) O governo brasileiro, empedernidamente indisposto a bem pagar os médicos nativos que vão para áreas carentes, prefere pagar a esses médicos estrangeiros o que para eles é um senhor salário. Sim, porque não sei se o senhor sabe, mas esses médicos ganham cerca de 60 a 70 dólares por mês na ilha de Cuba. Para esses senhores, o Brasil é um paraíso e seu governo um fiel discípulo de Castro.
          Por último, não queremos atrapalhar nada, como tão levianamente o senhor nos acusa! O problema com gente como o senhor, que pensa como o senhor, é o tempo que está reservado à vida humana. Não fosse ele e seria permitido ao senhor testemunhar o desastre que será se tal medida vier a se concretizar. Ainda se te fosse permitido presenciar tal catástrofe, o senhor não o faria. Como todo comunista, prefere permanecer bem instalado a uma distância segura da cruel realidade que assola teus concidadãos.
          O senhor disse o que queria. E eu também. O convite está de pé. Voltaire está feliz conosco. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Hedonistas com orgulho


          Paul é inglês? Se não, é escocês. Ou irlandês. Não importa. Paul é britânico. 
          Paul veio tocar no Ceará, em Fortaleza. O cara é ex-Beatles. (É "ex- Beatle" ou "ex-Beatles"? Acho que o correto é "ex-Beatles".) Imaginem o cenário: - um britânico, ex-Beatles, tocando no Ceará. Ninguém poderia ter imaginado isso algum dia. Mas, há algum tempo se anunciou: -"Paul McCartney vem tocar no Ceará"! Teve início um alvoroço. "Eu vou"!, diziam uns; "Eu vou"!, diziam outros; e outros ainda diziam, convictos: -"Eu vou"!. O único que dizia "Não vou"! era eu. Sou um agorafóbico. Sou do contra, como alguém já anunciou. 
          E não é que veio o homem?! Com ele trouxe uma penca de outros britânicos, de outros gringos. Os caras montaram um show de país de Primeiro Mundo. Tudo na mais perfeita ordem britânica.  Tecnicamente, musicalmente, luminosamente, sonoramente, paulmaccartneymente, britanicamente, beatlemente, foi tudo impecável, irretocável; sem falhas, sem uma reclamação a fazer. Paul não decepcionou. (Cumpri o que prometera: - não fui. Mas o que se disse nas redes sociais pode-se classificar como uma unanimidade.)
          Eu, da altura de meus 52, ouço Paul desde que meus ouvidos passaram a ouvir sons. Como integrante do "The Beatles" ou como líder do "The Wings", ouço Paul com o mesmo deleite de sempre. E, repito, não fui ver o Paul tocar. E não fui porque sabia que, para testemunhar a perfeição britânica, teria que me submeter a... procuro a palavra ou expressão que melhor defina nossa incompetência e primitivismo, mas não acho. Tentarei novamente: - para me deleitar da perfeição britânica sabia que teria que me submeter à incompetência e ao amadorismo cearense. 
          “O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.” Vejam que é uma frase de Nelson Rodrigues, um ufanista incorrigível. Se adaptarmos a frase ao cearense , a diríamos assim: - o cearense não está preparado para coisa nenhuma; ser um Angstrom acima de si mesmo já lhe impõe um vazio, infantil e cômico orgulho. Isso já lhe basta. Com isso se satisfaz plenamente. O cearense gosta mesmo é de pouco. Daí não ter a menor importância o resto, além do espetáculo em si. Se o grande artista aqui veio para tocar é porque nós, os cearenses, somos alguma coisa acima do nível do mar. Um Angstrom que seja, mas somos.
          Em criança já ouvia um velho e engraçado chavão: - quem nunca come mel quando come se lambuza. O caso, ao que parece, é que o cearense ou, melhor, o fortalezense se lambuzou dos pés à cabeça. O mel foi demais para nós, tão carentes de produtos de primeira. Somos mais chegados às porcarias que a Luizianne trazia ao aterro. Até porque elas não nos levavam a nos embrenhar em engarrafamentos quilométricos como o que o show do Paul nos causou. 
          Contudo, vejam como são as coisas nesta Fortaleza desposada do sol: - ao contrário da apresentação de Paul MacCartney, o engarrafamento não foi uma unanimidade. Ouvimos falar, nós que não fomos, de falta de policiamento, de falta de agentes de trânsito, de falta de organização à entrega dos ingressos e à entrada da "Arena"... Até da falta de assaltos e da violência no contexto do show ouvimos falar. Muitos e muitos espectadores, a esmagadora maioria, denunciaram tudo isso e mais o engarrafamento quilométrico, mas – pasmem! – pelo menos um cidadão desta aborrecível cidade adorou tudo, desde o show à desordem e desorganização que o antecederam. Li o relato desta pessoa no jornal e nas redes sociais. Ela – era um homem – fez uma leitura altamente positiva de tudo. Seu relatório nos faz pensar que o show foi em Berlin, ou em Londres, ou em Paris. 
          Tenho uma amiga que de tão feliz, mas de tão feliz com tudo, esbanjava sorrisos e sinais de um humilhante e obsceno júbilo. Ela e o homem das redes sociais são os dois fortalezenses que se sentiam em Londres a apreciar uma apresentação do ex-Beatles realizada nos jardins do palácio de Sua Majestade. Dir-se-ia estarem acometidos de um tipo menos grave de delírio e alucinações. Teriam se empanturrado no ácido? É algo a se considerar.
          No geral, digamos que, apesar de todo o incômodo da logística, todos, sem exceção, aprovaram tudo. A prova? Tragam o Mick Jagger e os Rolling Stones. Todos fariam tudo novamente sem hesitação. Reclamariam de toda a logística e de tudo, mas ao final tudo aprovariam. E é precisamente este o nosso problema: - tudo vai mal mas está tudo bem, tudo deu certo. É só olhar em derredor e veremos que tudo aqui funciona nessa base: - tudo dá certo, apesar de tudo.
          Alguns outros exemplos para os que não entenderam. A educação brasileira, e em particular a do nosso querido Ceará, vai de mal a pior, mas está tudo bem; a saúde e o sistema de saúde dos brasileiros está pior do que jamais esteve, mas seguimos lépidos e fagueiros em nosso hedonismo; a segurança pública por aqui mata mais do que muitas guerras contemporâneas, mas estamos firmes e conscientes de que tudo está maravilhosamente bem e que ao final tudo dará certo como dois e dois são quatro; e assim por diante. Se ao final der para assistir ao show, pra que perder tempo na vida com protestos e reclamações inúteis e improdutivas? 
          Afinal, o brasileiro não quer mesmo ser mais do que já é. Cada qual que se cuide e que se vire. Que venha a Copa das Confederações. E depois o Rock in Rio. Vamos curtir adoidado!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O mesmo do sempre e o mesmo do nunca


           Os queridos leitores, se é que os tenho – e aqui não vai plágio ao Nelson –, deverão pensar que sou um desses energúmenos incorrigíveis e recalcitrantes; que sou do contra e vivo a gritar aos quatro cantos que “Hay gobierno? Soy contra!”. De minha parte e em minha defesa, garanto: - não é o caso e, repito, não é por aí.
          Esperando ansiosamente que as autoridades tomassem uma atitude à altura da gravidade do problema da (in)segurança pública, o que se viu? Que novidade se nos foi apresentada hoje através da imprensa? Resposta: - o governo do Estado anunciou ontem à tarde que vai liberar R$ 68,9 milhões para investimento no setor. Mais especificamente “para compra de viaturas e equipamentos e a realização de novos concursos para as instituições policiais”(http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2013/05/09/noticiasjornalcotidiano,3053052/seguranca-publica-recebe-r-68-9-milhoes-para-frear-violencia.shtml). Em outras palavras, deverão comprar mais Hilux (61 viaturas), mais motocicletas, mais fardamento, mais equipamento de videomonitoramento urbano, majorar o efetivo da tropa, etc. etc. etc. Enfim, mais do mesmo, o mesmo cujo resultado é o que está aí. Alguém duvida da ineficácia dessas medidas?
          O jornalista Fábio Campos tem trazido ao nosso conhecimento as conclusões de estudos sérios que apontam as soluções para o problema e casos concretos de cidades que o tiveram sobre controle e que reduziram em muito suas taxas de criminalidade. Em sua coluna de hoje ele nos apresenta mais do mesmo, só que um mesmo diferente, um mesmo ainda inédito para o fortalezense, o mesmo que ainda não vimos por aqui. Embora anuncie um novo movimento da prefeitura na abordagem do problema, parece não haver indícios de se essas ações serão pontuais ou se fazem parte de um plano sério e elaborado nos bastidores(http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2013/05/09/noticiasfabiocampos,3052860/as-obrigacoes-do-senhor-prefeito.shtml). Assim, seguimos aguardando.
          A violência é hoje um problema tão sério para nós que se tornou, literalmente, um caso de polícia. Ela tem crescido tão rapidamente e assustadoramente que nas próximas horas ou nos próximos poucos dias veremos se as “medidas” anunciadas pelo governo do Estado e as já implementadas pela prefeitura estão surtindo algum efeito. Sim, porque a população de Fortaleza não quer mais esperar. Esperar pelo quê? Por mais mortes? Por mais mutilados? Por mais humilhados? O povo espera e só aceita medidas imediatas, sem licitações, sem a serôdia liberação de recursos, sem essas velhas e mesmas desculpas esfarrapadas que o governo dá quando quer se esquivar de sua responsabilidade. O povo está de saco cheio de palavras, de discursos, de debates, de reuniões infindáveis e improdutivas. O povo não agüenta mais tanta indiferença e incompetência, além de não mais tolerar viver sob a constante ameaça dos bandidos.
          Agora pergunto: - sou do contra? Estou a jogar lenha à fogueira pelo simples apreciar ver o circo pegar fogo? Não precisa que alguém ateie fogo à lenha. Os senhores gestores já o fizeram durante anos a fio. Sua insensibilidade é tanta que não me surpreenderia se ainda mantivessem o coração empedernido. Fortaleza, em particular, e em geral o Brasil, nunca foram foco de projeto algum. O único projeto a que pertencem está na rota do enriquecimento fácil dos que deveriam zelar pelos recursos públicos.
          A propósito, matéria veiculada há poucos dias no mesmo jornal O Povo dá conta de que nosso glorioso Estado do Ceará é a unidade da Federação em que há mais condenados por peculato. Não se anunciaram quantos desses senhores estão a deitar-se sobre um catre à noite e a verem o sol quadrado à aurora no cumprimento de suas penas. Sabe-se apenas que há uma avalanche de prisões temporárias cujo propósito é desconhecido para nós, reles mortais. Talvez sirvam a nos inspirar a esperança da realização de justiça. O que interessa é que aqui se rouba a valer, em todos os nichos e estratos sociais. Como diria o Bezerra da Silva, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”!
         E os pobres e coitados vereadores que reclamaram por terem sido taxados pela mídia de pertencerem à “bancada da bala”, grupo de parlamentares que se elegeram com o discurso antiviolência, mas que pouco fazem para mitigá-la (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/05/09/noticiasjornalpolitica,3052852/vereadores-reclamam-de-rotulo.shtml)? Coitadinhos...! Reclamam, mas os fatos estão aí: - eles gostam mesmo é de aparecer em seus programas televisivos a mostrar os cadáveres das vítimas que produzimos diariamente. Seus discursos até são inflamados na Câmara, mas lá preferem mesmo é fazer a velha e conhecida politicalha a atapetar, dia-a-dia, seu caminho de volta, nas próximas eleições, à cadeira que hoje ocupam. Os fatos mostram que praticamente nenhum projeto de lei antiviolência redigiram, confirmando o que afirmou a reportagem. Na fachada são contra a violência – seria o cúmulo se fossem abertamente a favor –, mas dela tiram muito proveito em audiência e em votos.
          Conclui-se, para nosso horror, que políticos brasileiros se locupletam de tudo o que não presta. Da mesma forma que os ratos gostam de lixo e podridão. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A vergonha da vergonha

http://m.youtube.com/watch?v=Q0EDaFkas8Y

          Causou-me indignação o modo como o editorialista do jornal O Povo de hoje afagou as autoridades responsáveis pelo caos urbano em que vive Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção no que se refere à violência e completa falta de segurança na cidade. 
          Em seu Editorial "A Busca da Paz", diz o periódico: 
          "O nível de violência a que se chegou, alcançando praticamente toda a população, diretamente ou pelo sentimento de insegurança e medo que se apodera de cada família, exige que as autoridades venham a público debater com a sociedade a situação de estrangulamento que se verifica na segurança pública em Fortaleza e no Ceará. Não é, portanto, com o objetivo de constranger os responsáveis, civis ou militares, pela segurança da sociedade que O Povo vem publicando seguidas matérias sobre o assunto".
          Ora, se não é para peitar esses senhores e senhoras do poder, cuja missão é gerir a pasta da segurança pública do Estado que, todos sabem, tornou-se uma ameaça à própria existência de nossa sociedade, para que diabos seria? No Brasil temos esse "pudor", essa vergonha, esse medo de cobrar do homem público a que ele faça o seu trabalho e, mais, cobrar que o que ele esteja fazendo alcance os resultados que a sociedade espera. Esquece-se que ele está ali é para isso mesmo. Não se lhe pede nenhum favor. No caso particular dessa questão, a própria situação a que se chegou, por si mesma, já deveria provocar um constrangimento abissal nesses senhores. Seria o caso de alguém adentrar o Palácio do Governo, entrar no gabinete de El Cid e lhe dizer, apontando-lhe o dedão nas fuças: -"Você não se envergonha de ter permitido que a coisa chegasse a esse ponto, senhor Governador? O senhor nos envergonha!" E ele, como bom cidadão, deveria, de cabeça baixa e lágrimas nos olhos, implorar nosso perdão e solicitar sua renúncia ao cargo que ocupa. 
          Mas voltemos ao "pudor" do editorialista do O Povo. 
          Este senhor, quem quer que seja, em muito difere do jornalista Fábio Campos, que tem dito o que todos os homens e mulheres de bem desse Estado querem dizer, além de amiúde lhes informar sobre conteúdo desconhecido da maioria sobre a matéria da segurança pública. Ele escreve no mesmo jornal e não tem dó de ninguém quando deita sua pena ao papel. Esse é, no meu entender, o papel do bom jornalismo e denuncia a independência e coragem do jornalista. Em se tratando deste tema, e por sua urgência e gravidade, não mais há espaço para firulas e "frescuras de rabo". Chega de reuniões e debates cuja vacuidade fica clara na inação e na eterna inércia à espera de não se sabe o quê. Urge uma atitude firme e contundente inicial que demonstre claramente o início de uma mudança no rumo dos ventos.
          Não apenas o demasiadamente inapropriado afago, mas também a convocação a que a autoridade debata com a população é pouco. Este é um caso em que há, sim, espaço para o debate, mas este deve vir na seqüência, após alguma ação apropriada inicial em reação aos números que se divulgam a toda hora. 
          Na edição de hoje o jornal anuncia que 873 homicídios a bala ocorreram em Fortaleza entre janeiro e abril do ano corrente. Veja-se que aí não se incluem as mortes por arma branca ou outros meios violentos, nem as mortes do trânsito. 
          A morte em decorrência da violência é apenas o aspecto mais terrível dessa equação macabra de nosso dia-a-dia. Estão todos a esquecer a violência que não mata, mas que herda uma multidão de mutilados e seqüelados. Quantas pessoas, a maioria jovens, estão paraplégicas ou tetraplégicas em decorrência dos diversos meios da violência nesta cidade? Quantas pessoas saíram do hospital com alguma seqüela em decorrência desta guerra? Quantos dias de trabalho foram perdidos por conta disso? Quantos milhões de reais o Estado está desembolsando em auxílios-doença e pensões por invalidez por causa dessa vergonhosa chaga? Quantos milhões de reais o Estado está gastando para tratar estas pessoas? Estão sendo computadas nas estatísticas as vítimas que morrem após longo período de tratamento hospitalar? É nisso que estão gastando, que o Estado está gastando, o dinheiro que lhe paguei em impostos diretos e indiretos? 
          (Ao ano corrente paguei ao Governo Federal a bagatela de R$ 18.570,28 - dezoito mil quinhentos e setenta reais e vinte e oito centavos em imposto de renda. Não faço a menor idéia de quanto paguei nos impostos embutidos em todos os produtos que consumi e nos serviços que utilizei. Os pobres, os que têm uma renda vergonhosa, pagaram muito caro em impostos indiretos. A eles se nega, dia-a-dia, uma mínima chance de sair, de fato, de sua atual condição. Os canalhas da esquerda até mudaram a linha demarcatória da miséria para anunciar aos quatro cantos que nos fizeram um grande favor ao retirar milhões de brasileiros de lá. Pergunto: tiraram, é?) 
          Convido a todos os cidadãos desta miserável cidade a uma visitinha rápida ao Instituto Doutor José Frota - Centro e aos frotinhas. Ela lhes dará uma primeira visão e uma perspectiva aproximada sobre as respostas àquelas intrigantes questões. O que lá verão ao vivo e a cores é o esgoto onde desembocam todas as nossas misérias sociais. O que ocorre e se vê nesses hospitais, e em outros, é o resultado das "políticas públicas e participativas" de suas gestões. É, sem a menor sombra de dúvida, uma vergonha descarada... 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O teimoso intrépido do Romeu


          Hoje quem matou a pau foi o arquiteto Romeu Duarte com seu conto/crônica “A epopeia do teimoso intrépido”, no jornal O Povo (http://www.opovo.com.br/app/colunas/romeuduarte/2013/05/06/noticiasromeuduarte,3051017/a-epopeia-do-teimoso-intrepido.shtml|). Em resumo, é a história de um sujeito, certo grandefortalezanse apaixonado e ufanista, tentando provar que Fortaleza é uma cidade de gente ordeira, educada, amante da lei e da ordem. Em seu périplo pela urbe, no afã de desmentir certo cronista desbocado que falara justamente o oposto sobre a cidade, é agredido e ameaçado por concidadãos, e vítima de sua precária infra-estrutura.
          É compreensível que nós, nascidos e criados na Fortaleza dos anos ’60 e ’70, estejamos indignados e revoltados ao vislumbrar uma cidade caótica em saúde pública e privada, em transporte, no trânsito, na educação, nas boas maneiras, na polidez e, como bem escreveu outro cronista há poucos dias no mesmo jornal, uma cidade sem amor. Nelson Rodrigues já dizia há mais de 30 anos: “Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos aumenta o desgaste de nossa delicadeza”. Pois, ao que parece, Fortaleza está caracterizando o que bem disse nosso maior dramaturgo. E nem mencionei a segurança pública inexistente para que não me acusem de pessimista.
          Se a virga-férrea que ora nos castiga se restringisse ao assassínio e ao trânsito, julgo que haveria uma esperança para seus habitantes. Cedo ou tarde a massa de indignados e de parentes de vítimas será crítica e obrigatoriamente algo deverá ser feito. (O que me pergunto é: o que ainda precisa ocorrer para tal? se aos olhos do senso comum já passamos há muito do limite?) Ainda assim cabe a seguinte reflexão: quantos mais precisam morrer? Para Durkheim, o fato social é patológico quando põe em risco a quebra do contrato social e a estabilidade para o bom convívio, comprometendo a ordem e ameaçando o alcance dos objetivos comuns da sociedade. Nossos crimes põem em risco nosso dia-a-dia? São fatos sociais normais ou patológicos?
          O que me parece sério motivo de preocupação é a corriqueira violência contra a moral e contra as regras mais elementares da boa relação entre nossos convivas, que demonstra justamente nossa falta de amor e a perda de nosso senso de alteridade. Se para aquele tipo de violência, os assassinatos e a violência nas vias públicas, existe o Direito – que há de um dia coibi-lo e rebaixá-lo a níveis toleráveis –, para este nada há. Amor e alteridade são engendrados na família e na escola, e é do conhecimento geral o fato de que estas instituições estão esfaceladas.  
          Que filhos estão-se gerando no seio de nossas famílias destroçadas? O Estado, na pessoa de políticos corruptos, oportunistas e populistas, ensaia um discurso em que supõe e se propõe ser capaz de suprir a falência da família, mas estamos carecas de saber que isso não passa do que realmente é: - a demonstração mais esdrúxula da safadeza institucionalizada e do malcaratismo de nossos homens “públicos”. Usando desse estratagema, esses políticos angariam votos por estimularem e injetarem a esperança numa massa de desesperados e desesperançados, ao mesmo tempo em que desviam de si a atenção para suas obrigações fundamentais não cumpridas a expor sua incompetência.
          Outro dia o excelente jornalista Fabio Campos deixou bem claro em sua coluna no jornal O Povo: os políticos não têm um projeto para a cidade; em seus círculos fechados discutem outros projetos: seus próprios projetos de poder. No portal do referido jornal uma reportagem diz tudo: “Bancada da bala, a força do voto que o mandato não consegue confirmar” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/05/04/noticiasjornalpolitica,3050591/bancada-da-bala-a-forca-do-voto-que-o-mandato-nao-consegue-confirmar.shtml), sobre os políticos que se elegem com o discurso antiviolência, mas que pouco ou nada fazem contra ela, quando muito poderiam fazer. Em seus programas televisivos inspiram simpatia pela causa da justiça, mas em seus gabinetes estão-se lixando para os que neles depositaram fé.
          Assim, a aventura do grandefortalezense teimoso e intrépido do Romeu Duarte não poderia dar noutra coisa que não a constatação de que Fortaleza está longe de ser um bom lugar para viver em paz e tranquilidade. A celeridade e a frequência com que este amante de Fortaleza viu se frustrarem suas esperanças é a mesma com a qual qualquer de seus habitantes é agredido em seu perímetro.   Aqui ele segue vivendo porque o bicho homem é, como demonstrou claramente o Dan Ariely, um ser previsivelmente irracional, contrariando o senso comum que pressupõe o oposto. A inércia do se deixar ficar é a única explicação para essa irracionalidade coletiva. O emprego, o imóvel adquirido em módicas parcelas na Caixa ou na construtora, o caro colégio dos filhos, as raízes fincadas no terreno dos relacionamentos sociais, a família – para quem ainda a tem –, tudo isso ainda é uma boa razão para aqui permanecer uma legião de corajosos e teimosos ovantes a esperar no que vai dar. 

         “Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa”. (Nelson Rodrigues)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O grandefortalezense, razão de tudo


              Não sei se andam de carro nesta cidade. Eu ando.
            Aos amigos e leitores que me acompanham já há algum tempo, confesso: - voltei a ser dono de um carro. Não entrarei no mérito das razões que me levaram a voltar a usar um objeto que é uma ferramenta cara de se obter e manter, poluente e perigosa, numa cidade onde os facínoras fazem e desfazem e nada acontece.
            Alguém dirá que a motocicleta, da qual também me utilizo, também é, e muito mais, perigosa, e perigosa duas vezes: - além da exposição maior aos bandidos, há uma maior exposição ao trânsito e, portanto, uma maior chance de ser-se vítima de acidentes. Todos sabem que o sinistro com a motocicleta põe seu piloto em risco de ferimentos mais graves, e deve ser evitado a todo custo.  
            De qualquer forma, de carro ou de motocicleta e mesmo do transporte público - este uma penúria de fazer dó -, o cidadão fortalezense que sai à rua deparar-se-á, com freqüência cada vez maior, com seu maior algoz: - o próprio cidadão fortalezense. Ele ver-se-á a si mesmo, cara a cara por assim dizer, como se carregasse um espelho à sua frente aonde quer que fosse. Fortaleza tornou-se um grande big brother ao ar livre, onde seus limites serão reconhecidos não por um sinal, ou por um muro, ou por qualquer outra estrutura física ou linguagem que indique sua linha divisória. Até porque Fortaleza não é Fortaleza: - ela é a Grande Fortaleza, já que os municípios aí incluídos em nada diferem desta, numa conurbação perfeita e completa. O limite de município da cidade, da Grande Fortaleza, é sinalizado por outro critério.
            Hoje pela manhã, a caminho do hospital em minha motocicleta, paro ao sinal vermelho em cruzamento do Centro. Para o motociclista consciente, o Centro é um local relativamente seguro de se trafegar por apresentar trânsito lento e de pequeno volume. (Motociclista medroso receia trânsito rápido e intenso e, vocês sabem, o medo é um processo mental protetor. Há que se temer a quem não teme.) Parei à esquerda de um veículo maior cujo motorista dizia alguma coisa sobre a beleza de minha moto, e nem mesmo me dei o trabalho de lhe dar atenção. Havia um espaço mais ou menos exíguo entre ele e eu, mas seguro o bastante para mim.
            Eis que, de repente, senti um leve impacto na parte de trás da motocicleta, como se algo houvesse batido, se chocado levemente, contra seu pneu traseiro. Pelo canto do olho percebi, à direita, a lenta passagem de outra motocicleta, dessas menores, pilotada por um policial militar fardado. Era um veículo particular. Ele, então, cruzou para a outra faixa defronte o sinal vermelho, e parou ao lado do meio-fio oposto para conversar com dois outros colegas que montavam guarda à esquina.
            Concluí, sem dificuldade, que a autoridade fardada acabara de colidir sua motocicleta, ainda que inconsequentemente e levemente, com a minha. Ele não deu a mínima, a mim não se dirigiu, e nem um pedido de desculpas solicitou. Eu, por julgar não valer a pena me trocar com aquela sumidade da lei, segui em frente à troca do semáforo e o caso se deu por encerrado.
            Os limites da Grande Fortaleza são aqueles onde acaba o cidadão da Grande Fortaleza. Não mais se achando este cidadão, também se sabe que se está fora da Grande Fortaleza. Não sei se me faço entender.
           Este cidadão, que doravante chamaremos de grandefortalezense, tem-se notabilizado por ter-se revelado, nos últimos tempos, um grande e descomunal troglodita, desses que arrastam a mulher pelos cabelos após lhe açoitar impiedosamente. Sua falta de polidez, sua falta de senso de cidadania; seu desconhecimento do contrato social, seu desprezo pelo outro, sua falta de senso de alteridade; tudo isso tem exposto sua verdadeira face. A máscara que usou durante anos caiu. Sua suave feição era tão-somente uma maquiagem que não resistiu à tempestade de desordem social que ora abate e castiga os habitantes desta Sodoma moral. O grandefortalezense, que todos julgavam o sujeito mais supimpa do Brasil por sua irreverência e bom humor – ele próprio não se aguentava em si mesmo de tanta empáfia -, tem-se, nesses tempos recentes, demonstrado ser um grande e irremediável canalha, um prodigioso e hediondo brutamontes, uma farsa sem tamanho.
            A virga-férrea que ora assistimos inclui, além dos assassínios e dos acidentes de trânsito em quantidade, a agressão gratuita nas e das calçadas, vias públicas e seus cruzamentos, em suas praças desabitadas, nas esquinas, nos bares, nos restaurantes, nas praças de espetáculos musicais, enfim, em todos os lugares e bairros. É ubíqua. A agressão do tráfego e os assassinatos diferem de outras apenas por ferirem os códigos. As normas sociais e morais são muito mais vilipendiadas do que as leis. A afronta diária àquelas não gera processos nos tribunais, mas revela o caráter desse diário agressor, o grandefortalezense.
            A zangurriana de excelentes jornalistas, como o senhor Fábio Campos, tem sido açulada por leitores inconformados e angustiados a partir desse estado de coisas, mas a mudança que tanto se espera se assemelha cada vez mais a uma quimera. Anos e anos foram dedicados à construção do grandefortalezense, esse que aí está e que encontramos a toda hora, bastando para isso que se ponha a cabeça para fora da janela, com o devido cuidado para não ser alvejado. Sorrateiramente ele surgiu parido de um sistema que inevitavelmente o geraria, montado justamente com esse intuito. O grandefortalezense foi engendrado há muito, e seu aparecimento se mostrou inevitável.    
Outro dia, felizes da vida fomos Bella e eu ao Siará Hall, casa de shows conhecida por sua pobre infra-estrutura, desconforto climático e outros inúmeros desconfortos. As atrações eram José Augusto e Paula Fernandes. Dali a pouco, à apresentação da jovem cantora, tem início uma briga, sim, uma altercação entre dois cidadãos a se engalfinharem entre socos, pontapés e xingamentos às respectivas mães. Ela, de cima do palco, ordenou a seus músicos que parassem de tocar até que os dois quadrúmanos encerrassem sua ridícula e pública manifestação de idiotia reprimida. E foi além: - utilizando-se de sua altíssona voz, pediu encarecidamente a que o público oferecesse a eles uma salva de vaias, no que foi prontamente atendida pela platéia indignada. (Foi a primeira vez na vida que ouvi um pedido de salva de vaias...) Com mais um pouco, observamos o sujeito à nossa frente iniciar uma cusparada entre as filas de cadeiras a seu lado. Vez ou outra o cuspo se deixava grudar nos próprios assentos. Já estava para levantar-me e dirigir-me ao posto médico da casa – que nem sei se de fato existe – e solicitar um kit de hidratação venosa para o cavalheiro cuspidor. Temia que viesse a se desidratar caso não interrompesse sua ira suicida.
Assim, dia após dia somos vítima do grandefortalezense e de sua sanha agressora. Saindo do avião em continente onde a ordem e as leis coagem percebe-se: - está-se fora dos limites da Grande Fortaleza e longe do alcance do grandefortalezense e de sua perene ameaça. A paz é certa. E o alívio também. 

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...