terça-feira, 8 de agosto de 2023

MODORRA

        Hoje é domingo. A modorra, após uns dias débeis e insensatos, me envolveu. 

        Os dias débeis são sempre fruto de noites vazias, onde nada se encontra além das mais estúpidas e insossas ideias que pululam nas mentes mais estúpidas e insossas. A solitude tem sido minha mais fiel companheira desde o último dia treze, mês passado, quando minha mãe partiu. Sua presença teima em aqui permanecer comigo, desafiando a realidade. Vinha vê-la pouco nos últimos tempos, mas sua intensa e densa vida me tranquilizava: ela estava lá, vivendo sua vida densa e intensa. Eu sabia. Para mim, ela estaria lá para sempre. 

Pouco antes nos falávamos mais amiúde. Ouvíamos música e ressuscitávamos nossos mortos. Eram – são – muitos os nossos mortos. Ela me contava a história de cada um, a parte que eu desconhecia. Eram tios, primos, avós, amigos. Gente do século anterior, gente do século passado. Ela os amava. Era sempre um prazer reanimá-los, fazê-los viver. Para ela porque tivera com eles uma boa convivência; para mim porque eu sentia um enorme prazer em suas deliciosas memórias. Ela era o elo que estabeleci com umas poucas lembranças da infância. Agora não há mais elo, nem há mais mortos a ressuscitar. Nela eles viviam. Com sua partida a réstia de vida que neles habitava virou um minúsculo, quase imperceptível fio em minha memória. Com efeito, anseio mantê-la viva nas lembranças de tantos, e tantos, e tantos momentos, às vezes longos, às vezes curtos, que me estarão encravados na eternidade do que chamam alma. Percebo, agora, que de fato morremos completamente quando também morrem os outros que conosco conviveram, ou que de alguma forma nos conheceram. Mesmo os filhos ou os netos que se geram permitirão que a memória de seus antepassados se dilua e se perca na imensidão do tempo. A transcendência é apenas de natureza biológica. Eis o que está a ocorrer com meus mortos. 

        A percepção da evanescência de tudo causa essa sensação de fraqueza e impotência que humilha e esmaga a ilusão da vida. Nossas perguntas soam como ecos distantes, ressonantes num abismo profundo e frio. A impostura da vida só não dói mais do que a indiferença da natureza ante esse vai e vem da morte. Por mais que tente, jamais serei capaz de deitar às letras minha indignação ante o absurdo da aniquilação. Eis o que sinto, eis como estou. 
        
        Julgo não mais ser quem fui. Impossível persistir na unidade de mim mesmo quando percebo a amputação no cerne de meu ser. Dizem que será assim por um tempo, não para sempre. Dizem que o bálsamo do tempo demora, mais sempre cura. Eu, que amputo membros de carne e osso, bem sei que curam. Mas também sei que seguem como cotos, resquícios, partes incompletas, que assim permanecem indefinidamente. Há de também ser assim o coto da alma, do cerne, da essência: - onde havia algo que não impede a existência perdura o vazio de algo que se vai daquele âmago. É uma essência mutilada, incompleta, indignada, aviltada, ferida de morte.

        Dizem que tudo é química, que também é química o amor, a saudade, a dor, o prazer. Eu, que li sobre as prostaglandinas, encefalinas, e endorfinas, bem sei que são os mediadores. Mas também sei que se removendo a causa cessa o sinalizador; e que se administrando o sintomático aborta-se sua geração. Há de também ser assim na dor que dói na alma, quando se recorre ao lenitivo das crenças e fantasias.

        Ai de mim, que capitulei ante a demora do alívio dessas dores!... Quanto mais busquei menos achei, porque me neguei a violentar meu entendimento, ainda que procurasse na ânsia de encontrar. Eis a que leva a modorra, eis o que me causou a humildade de perguntar e buscar.

09.05.2010 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

VISITAS

          Chego a qualquer hora. Ele dorme. 

        Lá fora, o sol escaldante anuncia que as chuvas intensas e frequentes recentes parecem ter-se ido. Seriam 10 da manhã. Adentro seu quarto, escuro na penumbra das cortinas cerradas. Sei que estão lá, nas prateleiras do guarda-roupas, as fotografias. Numa delas mamãe discursa num encontro de amigas, enfeitada em seu lindo estilo de mulher de família, à moda antiga, elegante, britânica. Nas brincadeiras chamavam-na "perua". 

        A cuidadora me cumprimenta, sentada à cadeira ao lado da cama dele. Pergunto sobre como ele passou a noite, se dormiu, se queixou-se de algo, enfim, uma espécie de relatório sobre seu bem ou mal estar. Hoje cheguei e ele estava sentado no vaso sanitário. Estava bem alerta. No último mês apresentou uma melhora substancial em todos os aspectos. Hoje, especificamente, havíamos combinado uma visita ao túmulo de mamãe. Semanas atrás sugeri o passeio. Ele topou na hora, mas, nos dias seguintes, a velha adinamia que até então se impunha parecia não arredar pé. Foi quando veio a melhora, insidiosamente, paulatinamente, surpreendentemente. "Vamos ao cemitério?", perguntou ele na última sexta. Acertamos para dali a dois dias, na segunda. 

        O trajeto foi tranquilo. O trânsito estava calmo por conta do feriado local. Ele entrou no carro abrindo a porta por conta própria. No percurso não falamos. A surdez sem a prótese tornou-o mais ensimesmado que o habitual. Como se diz com frequência, o valor de algo só se mede quando se o perde. No caso dele a audição faltava. Como travar um diálogo sem escutar? Melhor se recolher e nada dizer. Nem mesmo uma pergunta banal, dessas que se fazem apenas para matar o tempo, é possível nessas circunstâncias. Disse ao início que ele dormia quando cheguei. Faz parte desse recolhimento diário. E, como tudo o que não é usado atrofia ou desaparece, ele desaparecia em pleno dia.   

        No cemitério o silêncio imperava. Procuramos, durante alguns minutos, o sepulcro de mamãe. Uma pedra onde se escreveu seu nome o localizou. O resto era o gramado com inúmeras outras pedras equidistantes entre si, cada uma com um nome e as datas, o tempo de vida. Algumas carregavam fotografias do morto. O de mamãe é só a pedra e as datas. Ele parou diante da pedra e nada disse. Um sem-número de pensamentos me acudiram. Ele continuou em pé diante da pedra sem dizer palavra, expressar qualquer sentimento ou reação. Pouco tempo ali ficou. Ergueu os olhos em direção ao campo gramado em todas as direções e saiu a andar lentamente por entre as lápides, parando brevemente aqui e ali a ver se identificava algum conhecido. A poucos metros uma família parada defronte de outra pedra orava. Sentamos no banco de cimento ali perto.

        "Ave Maria, cheia de graça...", disseram eles mais de uma dezena de vezes antes de partirmos. Antes, porém, me veio uma lembrança de mamãe. Divertida, com apurado senso de humor, dizia sobre o que hipoteticamente falavam os habitantes dos cemitérios aos visitantes quando da morte de alguém conhecido: 

        - "Nós que aqui estamos um dia por vós esperamos!", e caía na gargalhada...

domingo, 4 de dezembro de 2022

EM VIAGEM

Quando vim à Europa, tinha a intenção de escrever durante a viagem. Impressões, opiniões, comentários, descrições, fatos dos quais fosse protagonista, ou fatos dos quais tivesse conhecimento no velho continente, tudo seria objeto de minha pouco aguda percepção.


A cansativa viagem, apesar do muito que me ofereceu em matéria para escrever, me demoveu do propósito inicial. A exaustão física que resulta de uma noite em claro é algo que não devemos desdenhar, e algo impossível de olvidar. Essa exaustão embota até mesmo as expectativas positivas. Senti-me tão exaurido em minhas forças que me invadiu uma enorme sensação de desamparo e solidão. Seriam saudades de casa.


Não reduzam, por favor, essas saudades à simples necessidade do conforto físico do lar, a uma busca por um encosto, um espaldar macio e fofo onde pudesse repousar a cabeça e o corpo. Seria algo maior, algo mais abrangente. Ter-me tornado um sujeito sensível e ao mesmo tempo empedernido fez nascer em mim uma dualidade que, longe de me ser prejudicial, habilitou-me a comutar a característica mais adequada à situação. Para isso está implícita a necessidade de ter a razão no controle, a fim de escolher com sabedoria. Se por um lado continuo em minha essência a ser um sujeito chorão, por outro me tornei implacável comigo mesmo, visto que detesto a pieguice das vulnerabilidades insensatas que obnubilam a razão. O coração e a racionalidade podem se complementar, usados juntos, levando à plenitude da existência. Jamais um deve sufocar o outro, sob pena de se vir a ser um brutamonte ou um borra-botas. O esgotamento resultante da viagem me trouxe à tona as fraquezas, o menino indefeso e solitário, o homem sob o coração. Em suma: prevalecia o joão-ninguém.


De qualquer forma, convém ao entendimento, e atendendo afinal a meu primeiro intento, descrever o que foi dentro de mim.


 


                                             ************ ****


 


Já não conseguiria descrevê-lo. Os sentimentos fugazes, sem importância, são como uma febre passageira, uma morrinha, uma cólica. Vêm e vão sem que tenhamos tempo de lhes diagnosticar a etiologia. As defesas do corpo são mais rápidas que o tempo necessário para a análise, e mesmo elas abortam outros comemorativos fundamentais à sua identificação. Já se vão três dias passados. É difícil, senão impossível para mim, lembrar o que de triste e melancólico senti. Quero crer que meus mecanismos mentais de defesa, implacáveis como os leucócitos com memória, deram cabo dessa tralha emocional. Boa saúde e fraca memória são o segredo para a felicidade, é o que se diz.


 


                                              ************ ****


 


O fato lastimável é que já se vão quase sete dias de minha partida e nada escrevi, exceto por essas poucas linhas, escritas ao longo de todos eles, à moda freqüente a princípio, e quase nada aos demais.


O que ocorre, talvez, seja um outro ônus imposto pelo envelhecimento. O corpo padece das fraquezas e vulnerabilidades do envelhecer. Será possível que o mesmo venha a ocorrer com o espírito? Ao longo de toda uma vida, sempre atento e cônscio da brevidade do tempo, tenta-se solidificar o espírito a fim de prepará-lo para a solidão da morte próxima. E o que nos espreita é a consciência da solidão da vida. A solidão da morte há de ser escura e sem a participação dos sentidos, ao passo que a da vida é dolorosa como uma queimadura na alma. Terá sido esta a que experimentei. A distância enorme, e que aumentava a cada segundo, de meu cubículo onde estão meus restos do que sobrou de minha vida assemelha-se a aguda lâmina a me penetrar lentamente o âmago, impiedosamente. Não há seres humanos em minha solidão. Dela nenhum participa pela sua ausência. Os restos que permanecem em minha vida são nada mais que objetos. Inanimados, figuram em meu dia-a-dia como ícones da realidade que tanto tentei e teimei não enxergar, mas cujo peso extenuante faz ceder a mais obliqua cegueira. Sua existência preenche as sensações e os sentidos de forma plena, suave, serena, superficial. Sua existência não é contundente. Sua existência não agride. Dessa forma, poupo os sentidos das sensações, dos estímulos. Os olhos, quando os vêem, nada vêem. O espaço que ocupam é a única informação que passam de sua existência, e permite-me existir na serenidade de sua presença. Agora, neste momento, mesmo dessa presença me sinto isolado, excluído. É deles que sinto saudades.


 


                                        ************ ******


 


É obvio, estou a enganar-me. Com relutância devo admitir que ainda sinto saudades de uns poucos humanos. Sejam o grupo ou isolados, sinto a falta de alguns desses tipos, desses espécimes. Não me entendam mal. Não pretendo estar acima do bem e do mal, nem acima de ninguém. Já antevejo a hipótese dos muitos que me detestam. Pensam também de mim algo semelhante, e em nada deles sou diferente. Ainda me imprimem a sensação do vazio, da presença do nada, da ausência da vida pulsátil quando se ausentam desse jardim da minha vida, quando ausentes nesta distância implacável e tamanha. Preferiria a frieza da ausência do coração pulsátil, preferiria a não existência dos normais sentimentos que unem os que se aproximam com a cola mágica da fragilidade persistente. Contudo, não nos acontece o que preferimos. Acontece-nos o que nos acontece. Resta-nos aprender a lidar com o que nos acontece. Como tudo o que nunca tentaram nos ensinar, não nos deram uma boa lição sobre como abandonarmos nossas fraldas e cueiros, ou coisas similares. Por isso seguimos chorosos e chorões, como eu.


Quantos filósofos terão se debruçado sobre as fraquezas humanas e suas criações fantasiosas sobre como lidar com suas angústias e prantos? Ah... não perderei tempo com essas chatices! Incomoda-me perturbar o que se aventurou a me ler. Discorrer sobre filosofia e filósofos pode indicar a petulância de se mostrar culto ou o enveredar genuíno e compenetrado em suas considerações profundas. Se falasse sobre tais assuntos, não seria pela primeira hipótese – sou um ignorante em filósofos e filosofia. Hipnotizam-me suas tristezas e angústias. Tão somente. Nada mais.


 


                                          ************ ****


 


Sou um turista incompetente. Não tenho a pinta, os trejeitos, os trajes. Só sabem que sou turista quando estou fora do circuito latino. Tenho olhos e cabelos castanhos, nariz e maçãs do rosto ósseas e pétreas. Sou latino. Os saxãos percebem. No mais, em mim nada vêem de exótico.


Na alcova dos hotéis ou da casa de amigos onde pouso, também não sou “o turista”. Leio livros que levo a tiracolo, revistas do Brasil, escolho não sair. Sou o antiturista. Os anfitriões tentam me agradar e tudo que faço é um muxoxo. Sou um balde de água fria na expectativa alheia. Mas... que culpa tenho de minha frieza turística?


Li “Gomorra”, de Roberto Saviano, jornalista italiano nascido há trinta anos em Nápoles. Apenas um garoto. Sua obra, a primeira, vendeu mais de dois milhões de exemplares, e virou filme concorrente italiano ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Li-o em viagem. Após os museus, o Saviano. No dia europeu de dezoito horas de sol cumpre-se toda a agenda do antiturista.


Enquanto apreciava fascinado a exposição do Rijksmuseum de Amsterdam, lia Roberto Saviano. Apesar de minha marmórea frieza turística, fui ao chão de joelhos em prantos ante “The Night Watch”, de Rembrandt van Rijn, de 1642. É algo indescritível. É soberbo. Sua beleza e genialidade porejam no coração dos que o contemplam. Poder-se-ia apreciá-lo por horas, dias, meses, e sempre se descobriria algum detalhe a mais de tirar o fôlego. Eu, em minha humilhante e ignorante aversão à pintura, capitulei. Conclui, então, que a ignorância é a mãe de toda contenda, discórdia e empáfia.  


 Enquanto meus joelhos tremiam, lia “Gomorra”, e me horrorizava. De um lado os gozos de Rembrandt, do outro o terror que saltava da pena de Saviano a me chicotear a humanidade. Rembrandt e Camorra. Meus dois companheiros de viagem ao velho mundo. Tão opostos e tão presentes. Um, a arte sublime da inspiração e do talento humanos naquilo que têm de mais genial; o outro, a podridão da escória da mesma raça. Como saber quem é quem? Disse o Homem: -“Pelos seus frutos os conhecereis.” Em meio a tudo isso, a viagem. Eu, o turista que se deixou arrebatar pela genialidade humana na arte que desprezava, separava o joio do trigo.


Depois, entre os meus, Lisboa e o Mosteiro dos Jerônimos, sobre os ossos de Camões e da Gama. O sol era forte e o vento frio.


 


Fernando Cavalcanti, 04 a 19.07.2009 



segunda-feira, 15 de agosto de 2022

ENTRE UM CAFÉ E UMA CERVEJA

Sempre muito me impressionou a paixão que alguns pupilos nutrem indefinidamente por seus gurus. A princípio parece que essa seria uma regra à qual muitos desobedecem, já que nem todos os discípulos assim o fazem. Tais rebeldes são sumariamente taxados de insolentes, arrogantes, mal-agradecidos e, com efeito, não deixa de também causar impressão um aluno ingrato. O diabo é que o tempo - esse sim, o verdadeiro mestre – vem nos ensinar que há gurus memoráveis e adoráveis, e que também há gurus deploráveis e olvidáveis.

Nunca esqueço o Chico que, de tanto amar e admirar seu mestre Queiroz, aprendia com ele até outras práticas e hábitos fora do ofício. O Queiroz, ao que parece um apreciador da bebida feita a partir da semente do Coffea sp, influenciou tanto o Chico na matéria regular que o homem também passou a beber e entender tudo de café. (Conheço o Chico já se vão quase trinta anos e até então nunca lhe vira tomar uma única e mísera xícara da bebida.)

Coincidência ou não, quanto mais tinha contato com seu ex-mestre mais de café entendia, ou ao menos parecia entender. Comentava dos tipos, das várias espécies, de detalhes dos grãos, dos diferentes modos de preparo, das marcas industrializadas disponíveis no mercado, dos sabores, e tal, e tal, e tal. Com tanta informação a lhe exalar pela boca e outros orifícios, me era impossível duvidar que o homem tinha, sem tanto o querer e já querendo, uma nova profissão.

Ocorre, para provar que era mais influência e ascendência do outro do que propriamente o apreciar o hábito e a bebida por ele próprio, que suspensos os contatos entre ambos sumiu o novo e empolgadíssimo barista. Voltou à cena o Chico de outros e velhos e bons carnavais, o Chico cervejeiro. Embora menos conhecedor de tantos detalhes da cerveja em comparação ao conhecimento adquirido rapidamente à semente do Queiroz, apreciava-a com uma sofreguidão medonha. Digo apreciava e corrijo de imediato: hoje a aprecia ainda mais. Aproximando-nos ainda mais da verdade, o Chico beberia uma piscina de cerveja com três tubarões dentro e ainda comeria a carne desses pobres  eslamobrânquios plagióstomos como tira-gosto.   

 Paremos a léria e confessemos o propósito.

Os ícones tornam-se ícones pelo caráter irretocável aliado a seu imenso saber técnico posto a serviço de quem necessita. E tudo isso tem o Queiroz. Por isso o imenso amor do Chico por essa figura que a ele é cara. Em uma única frase, que traduz o amor de um fedelho por seu padrinho: quer imitá-lo. Sua admiração é tão grande que quer ser como o mestre. Eis aí tudo.

Mas há outros mestres. Convém falar? Não convém. Acho que convém. Vá lá que seja.

Outros há que, passado algum tempo, cai-lhe a máscara e, ainda que seja possuidor de grande quantidade de saber técnico, das duas uma: ou não se dispõe a ajudar a quem necessita, ou em seu caráter se revela o ser humano em sua completa vileza. A esses, ainda que a princípio tenha feito brotar o amor e a admiração de seus alunos, restará a indignação da visão da monstruosa verdade, seguida da descomunal tristeza por sua morte em vida, a morte do mestre que não é mestre.

Não queiram experimentar. É uma cena horripilante.

 

Fernando Cavalcanti, 09.12.2010   

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

PESSOAS DIFÍCEIS SÃO PESSOAS... DIFÍCEIS!

Vejam os poucos leitores como são as coisas. 

Sugeriu-me outro dia o Fábio Motta, vulgo Meninotti Motta, a leitura de certo livro. De cara devo confessar: meu amigo Fagogó, digo, Fábio "Meninotti" Motta nunca foi, que eu saiba, dado a livros. São 50 anos de amizade e ele, até então, jamais havia falado em ler livros. Nem gibi o safado lia. É bem possível que eu esteja completamente equivocado e sendo injusto com o homem, mas quem é amigo de alguém por 50 anos sabe do outro - desculpem a extrema franqueza - até a catinga dos flatos. Pois bem.

Tão logo ele anunciou o título, enchi-me de divertido horror, como diria Nelson Rodrigues. E por quê?, perguntará alguém. E respondo: o livro sugerido assombra pela espantosa ambiguidade de seu título, qual seja, "Como Lidar Com Pessoas Difíceis". O subtítulo, em letrinhas menores, dá uma aliviada - "a começar por mim". De imediato pairou, justamente sobre mim, a dúvida avassaladora. Ou melhor - incontáveis dúvidas acachapantes e crudelíssimas se me abateram. Afinal, em nome de todos os defuntos privilegiados - dizia o padre Palhano, em seu notável reconhecimento da inexistência dos santos a quem os católicos dão tantas graças, que todo santo é um defunto privilegiado -, que diachos seria uma "pessoa difícil"? Devemos, cada um de nós seres humanos viventes da face da Terra, nos considerar uma pessoa difícil? Presumi incontinenti que, sim, cada um de nós, sem exceção alguma, há de ser uma "pessoa dificil", se não para todos, pelo menos para alguém. Difícil é sempre o outro e faço parecer que também sou difícil apenas para não me vender pretensioso? Todo mundo é difícil, mas eu sou menos? Somente um ou outro é difícil? E quem julga quem é difícil ou não? Ora, bolas! Na verdade verdadeira, o mais difícil sou eu e o tal livro é um tratado de autoajuda altamente especializado?... E por aí a coisa ia na minha cabeça diante de tal sugestão escabrosa

Com o vislumbre de tantas possibilidades, cobrei do amigo, presumindo já ter ele lido a obra, o óbvio - justamente a definição exata e precisa do que seria uma pessoa "difícil". Em contrapartida, quis saber também - por que não? - como poder-se-ia definir uma pessoa "fácil". Afinal, uma boa maneira de se ter o sinônimo de algo é justamente lhe associar o antônimo. Como de praxe, e já assumindo uma ignorância infindável e profunda até mesmo sobre aquilo que tenho como conhecido e entendido, fui consultar o pai-dos-burros. E encontrei o seguinte sobre difícil, aplicável a um ser humano: complicado; exigente; mau. Concluí que o tal livro deve discorrer sobre a lida com pessoas complicadas e/ou exigentes, visto que pessoas más são, por natureza, psicopatas em graus variados, assunto a ser discorrido em tratados de psiquiatria. Ora, se cada um de nós é, sem sombra de dúvida, uma pessoa difícil para alguém, por que razão notória alguém perderia seu tempo escrevendo sobre o que é normal? Vamos a um exemplo.               

Aproveitando o amigo que fez a sugestão - só ágora percebo que ele talvez tenha me sugerido tal leitura justamente por me considerar uma pessoa difícil para ele -, tomo logo o Meninotti como exemplo. Pois bem: para mim o Meninotti se tornou uma pessoa difícil... mais que difícil... dificílima! Sim, é verdade! Não duvidem os que pensam que o amor fraternal que há entre nós seria capaz de impedir isso. De forma alguma! E por que razão o Fagogó se tornou difícil? Resposta: não sei. O que sei é que ele não é exigente, nem complicado e muito menos mau. É um doce de ser humano. Tão doce que coleciona uma lista infindável de mulheres em seu currículo. Mas, vejam: o indivíduo que gasta boa parte de seu precioso tempo de vida com uma conversa uníssona e repetitiva torna-se chato que nem um piolho genital. É precisamente o caso do Meninotti Motta: virou um chato da genitália alheia. A diferença é que o Pthirus pubis tem tratamento eficaz e a vítima se vê livre do bicho bem rápido, ao passo que o amigo que se tornou um chato vem seguindo chato há... sei lá... alguns poucos intensos anos. Os que me leem hão de convir - quem é chato por tanto tempo assim passa a ser difícil... mais que difícil... dificílimo! 

Assim, após essas considerações concluo que entendi bem o conteúdo do livro sem precisar ler-lhe uma mísera frase. A propósito, vou ficando por aqui porque o texto já vai longo e aos dias de hoje o leitor está cada vez mais exigente - quanto menor o texto, melhor. Caso contrário, vão já me dizer difícil... muito difícil... dificílimo. E isso só sou para quem escolho ser.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O "DEBLATERADOR"

                Sempre pensei que a inspiração há de ter um limite. Sim, não é para sempre que o artista estará cheio daquilo que o move, da energia que o leva a produzir sua arte outrora tão apreciada e cheia de... energia. Os exemplos são vários. Tanto que, como na vida biológica, some o artista de cena. Então, nesse momento, por alguma razão que foge a uma explicação hipoteticamente necessária, pensamos naquele artista que anda sumido. “Onde anda o Elton John que nunca mais compôs uma daquelas suas músicas marcantes?” É um exemplo. Assim, cadê o Elton John?, pergunto agora. Creio que os escassos leitores me entendem...

                Fiz o comentário acima porque há tempos não escrevo. Não que queira me comparar a gigantes da literatura ou coisa que o valha, nada disso. Não chego nem perto. Pelo simples fato de ter deixado de produzir aquilo que seria minha catarse, minha válvula de escape, minha pilhéria do dia-a-dia, pensei que, também eu, um escritorzinho de quinta “catigoria”, teria me esvaziado da energia que me impelia a escrever. E isso não é bom. Afinal, ando cheio de sentimentos, de paixão, de amor, de vontade de vida... de saudades... sim, saudades. Disse alguém, acho que uma criança, que saudade é o amor que fica. Só em citar o Elton John já demonstra meu grau e tipo de saudade. Eu complementaria a linda definição de saudade acrescentando que, se o amor é algo que fica, é porque algo não fica. Algo se foi. Algo partiu. Algo não mais existe.

                Aprendi que a vida é perda. Na vida, tudo perdemos. Aos poucos ou de uma só vez. À medida que perdemos, crescem as saudades. Nunca morre os que ou o que perdemos, até que morramos nós mesmos. Nossa memória, e somente ela, mantém vivas nossas perdas. Nossa última perda, a da própria vida, leva-nos ao profundo sono no qual as memórias se vão e com elas as saudades. Nossa própria morte é o alívio final. Sofrem os que nos choram, e aí com eles ficam nossos amores, vivos em suas memórias de sofridos viventes.

                Conclui-se, com essas breves e parvas reflexões, que aprender a viver é o mesmo que aprender a lidar com as perdas. Se pararmos de nos torturar e deblaterar sobre as perdas, viveremos melhor. Mas... e daí? (Acaba-me de chegar, na rede social e enquanto escrevo, a notícia da morte de um amigo.)

                O que ocorreu foi o seguinte.

Amorim ja completou 60. É homem com 60 anos nos couros há mais de 6 meses.  Vamos e venhamos, o que significa ter 60 anos? Dizia o meu querido amigo Raimundo Araújo, das bandas dos Montes Claros nas Minas Gerais, que tem gente que não sabe nem quando está com fome. Eis aí, de fato e de vera, na definição implícita de maturidade de meu Raimundo, o que significaram ao Amorim seus rasos 60 anos (o leitor vai me permitir uma emoção mais que sincera) – porra nenhuma! Indo direto às vias de fato, a maturidade emocional do Amorim aos 60 anos seria igual ou ainda pior que a de um garoto de 15 anos. (Seria igual, estou na dúvida, às de um de 12?)

                Tudo bem, tudo bem... não sejamos tão radicais. Vamos contemporizar... Como posso eu emitir uma opinião tão contundente sobre o amigo?, indagará alguém. Como resposta direi apenas o seguinte: o homem segue fazendo o que sempre fez desde exatamente os 15 anos de idade. Se precisar dizer mais, direi. Mas fiquemos com esse único e mísero critério. Fazer o mesmo desde os quinze anos não funciona nem para escovar os dentes, que dirá para tomar decisões, fazer ou não fazer “cagadas”, chorar ou não chorar como uma criança de 5, pagar as contas, etc. etc. etc.

                Pois foi nesse cenário que sobreveio a grande catástrofe – um suposto amigo do Amorim a “defender-lhe” dos verdadeiros amigos que tentavam, a pedido do próprio, ajudar-lhe na tomada de algumas decisões. O detalhe aí é a busca do Amorim por ajuda. Ninguém se intrometeu voluntariamente e se arvorando o direito de interferir na vida do querido amigo. Assim, disse o “deblaterador”, se achando o máximo defensor do amigo em perigo iminente de sério risco diante de... amigos: “E deixem o Amorim tomar suas decisões. Ele é adulto e conhecedor de sua vida.”

Não há dúvidas que o homem é adulto. Afinal, tem mais de 60 anos. Que conhece sua vida, idem, tanto que sabe ter feito um monte de merda a vida inteira. O que o “deblaterador” não sacou, e não sacou porque talvez ele próprio também ainda beba nas aguas impuras da imaturidade, foi que falta ao Amorim a lição que ensina a perder. Por mais que a vida lhe bata na cara – já perdeu pai e mãe – o homem não atinou, não atina. O outro, o falso amigo, de que serve? A nada, eis a resposta. Uma lamúria. Uma lástima.    

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A PROPOSTA DO DOUTOR FULANO

              Nada se deve prometer. Hoje se tem a intenção. Amanhã se tem o arrependimento e a má fama. Então, melhor é nada prometer. Ou, ainda mais cômodo, se quer prometer que vai realizar algo, faça-o a si mesmo. Ponha como uma meta pessoal a ser atingida, custe o que custar. Assim evita-se a má fama.

            Dizia o professor Heródoto, de História, que todo homem tem seu preço. À época, divulgava abertamente o seu: um milhão de dólares. A alguns parecerá pouco, mas eram os anos setenta, e o dólar custava uma penca de cruzeiros, a moeda da época. Assim, tínhamos a nítida impressão de que o professor era caro. Não se o compraria barato. Nós, os alunos - todos recém adolescentes - ainda não nos tínhamos dado ao trabalho de nos etiquetar preços. Nem de divulgá-los. A vida viria a fazer isso mais tarde.

            Entretanto, não tenho dúvida que o preço de um homem muitas vezes não se paga com dinheiro. Em outras palavras, há valores tão elevados que nem todo o dinheiro do mundo será capaz de cobri-lo. Continuará o homem a ter seu preço, como pregava professor Heródoto, só que de valor não monetário. Vamos a um exemplo, onde descobri que não me vendo barato.

            Eu estava no consultório quando a atendente me interfona para anunciar que acabara de chegar o doutor Fulano, médico ecografista. Fiquei muito feliz pela honrosa visita, pois era para ele que encaminhava meus pacientes a realizar as ecografias. A ecografia é um exame cujo resultado depende muito do examinador. Hoje isso é cada vez menos verdade, visto que os aparelhos estão cada vez mais capazes de fornecer imagens que até a mamãe saberia interpretar. Contudo, isso ocorreu há mais de dez a doze anos. Ainda valia a competência do examinador. Os laudos do doutor Fulano eram compatíveis com a clínica do paciente bem como com os achados cirúrgicos. Por tudo isso eu nutria por ele um grande respeito e admiração, mesmo sem o conhecer pessoalmente. Fácil é, então, entender minha alegria por saber que naquele momento ele vinha pelo corredor para me visitar no consultório.

            Cumprimentamo- nos efusivamente. Pedi a minha secretária água e café, e iniciamos uma conversa amena, que não durou mais que três ou quatro minutos. Lá pelas tantas, doutor Fulano revelou o verdadeiro caráter de sua visita. Vinha, a “pedido” do dono da clínica radiológica em que fazia seus exames, oferecer-me uma “participação nos lucros”. Ora, eu encaminhava os pacientes para com ele fazer os exames por uma razão muito simples: eu precisava das informações que o exame me fornecia para resolver o problema dos pacientes. Toda a coisa girava em torno do melhor interesse dos pacientes. Essa era a razão de tudo. Não me passava pela cabeça auferir lucro neste cenário. Estava havendo ali uma tentativa de me corromper e cooptar.

            Ainda bem que minha secretária agira com rapidez, de modo que o café e a água já haviam sido devidamente servidos e bebidos. Delicadamente agradeci a visita e disse-lhe que não aceitava a proposta, mas que continuaria a enviar-lhe pacientes para que ele me ajudasse a ajudá-los. Assim, nos despedimos.

            Como um sujeito como eu - que passa boa parte de seus dias a ferroar más condutas e maus caracteres - pode se deixar ter teto de vidro? Não pode, eis a resposta. Como um reles mortal, sou um poço de defeitos. Mas não posso ser incoerente nem me contradizer. Um homem precisa zelar por um mínimo de decência, ter um mínimo de virtudes, sentir prazer com ações que o aproximem da nunca atingida perfeição do caráter. Somente a tentativa cristalina e verdadeira já indica a preocupação em não fazer o mal.

            Outro dia, não faz nem uma semana, um amigo disse-me que eu tinha moral para falar, e sugeriu que eu só a tinha porque ainda não fui testado. Pensa ele, certamente, se é que o entendi, que eu faria a mesma coisa que fazem aqueles que estão em posição vantajosa: relutam em largar o osso.

            Aviso, então, a todos – de antemão - que não aceito qualquer proposta indecorosa que cogitem em me fazer. Há muitas, e muitas, e muitas formas de ganhar dinheiro honestamente mantendo-se a integridade e a honra. Não há, para os que não têm medo de trabalhar, possibilidade de faltar dinheiro no bolso. Nem há a necessidade de concorrer com a malta por cargos e posições e assessorias para auferir recursos abdicando-se da paz do viver sabiamente. Rejeito, peremptoriamente, os testes a que eventualmente me queiram submeter. Eles não encontram eco em minhas prioridades. Logrei bem me suceder na vida. Cheguei onde queria, de acordo com os planos que fiz quando estudante. Tenho hoje outros projetos em pleno andamento que mantêm minha paz e me dão prazer em viver. Repito: cedo percebi em mim o horror pela competição. Isso catalisou minha ambição e a tornou sadia. Aprendi que não se tem sucesso sozinho, que o melhor sucesso é instigar os outros, e ajudá-los, a ter sucesso. O meu próximo sucesso é ajudar outros a ter sucesso.

            Minhas promessas estão guardadas em mim. E as cumprirei custe o que custar. Este, sim, é um bom teste a me fazer a mim mesmo.

 

Fernando Cavalcanti, 06.06.2009         


A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...