quarta-feira, 9 de agosto de 2023

A ÚLTIMA SOBRE ELOGIOS

          Eu poderia jurar que meu amigo Siqueira está a me perseguir. Vou por uma rua, lá ele está. Vou por outra, idem. Estou em determinado hospital, o homem me aparece. Contudo, muito me alegro ao vê-lo pois já antevejo uns bons dois dedos de prosa. Pois foi o que aconteceu outro dia desses, há três dias. 

            Para os que não o conhecem, o Siqueira é dos cirurgiões renomados desta geração. Médico de branco, eterno servo de seus mestres, e saudoso aluno do Marista cearense. E escritor de pena hábil. Autor de livro. Repito: o homem não é pouca coisa, meus caros. Há alguns anos eu dizia numa crônica ao meu querido amigo Casoba que o sujeito mais famoso que eu conhecia era ele, Casoba. E, se bem me lembro, já profetizava a fama de meu amigo Siqueira. O destino me foi generoso: acertei em cheio. Doutor Fernando Siqueira, meu xará, vive o auge de sua carreira profissional e sua fama corre solta à sua frente. Por isso aceitei de bom grado a crítica que me fez nesse nosso encontro. Disse ele que não se conformava por eu não aceitar elogios. Que eu não devia fazer assim. E disse mais: que eu estava muito negativo em meus escritos. Que eu deveria contar fatos pitorescos que, segundo ele tem certeza, eu conheço muito bem.

                De fato conheço muitos e muitos fatos ímpares. São fatos da tragicomédia da vida. Não existe fato sem tragédia. O que para um dá para sorrir, para outro dá para chorar. Nós, os expectadores, preferimos o riso ao choro. Quem quiser que vá chorar bem longe. E assim a coisa vai indo. Entretanto, creio que ele talvez tenha ficado impressionado porque andei falando sobre perdas, que na vida tudo perdemos, inclusive a própria. Ora, o discurso foi proferido em momento doloroso para um amigo que perdeu o pai. Os miasmas que me envolviam não me permitiriam chacotas e folguedos. Neste momento não havia comédia, mas dor. E os elogios? Por que não os permitir? Parece que escrevi para cegos: o elogio é a véspera da decepção! E acho que por agora ambos os assuntos estão encerrados. Desculpe-me lá o Siqueirinha, mas abandonemos essa léria.

                Ele queria que eu escrevesse sobre os bons tempos do ginásio, no marista. Em particular ele queria que eu lembrasse a zoeira que os alunos maristas faziam no ônibus de volta para casa. Sim, o lotação vinha repleto de maristas que quase saíam pelas janelas. E gritavam a não mais poder. Faziam batucada e pediam em coro para o motorista correr ao cruzar Aguanambi com Treze de Maio, porque lá havia uma lombada no asfalto e o ônibus pulava como uma bola saltitante quando passava em velocidade. Nós adorávamos aquele salto. E vaiávamos. Gritávamos: -“Motorista, cooooooorra!” As pessoas pensavam que íamos xingar o motorista, chamá-lo de “coooooooorno”... Alguém veria graça nisso hoje em dia? Naquele tempo a maioria dos motoristas gostava. Não se importava com a brincadeira. Um ou outro se enfurecia e punha-nos para fora do ônibus. Certa vez um parou o carro e veio de lá para nos pegar. Saltamos porta traseira afora como doidos. Uma jovem que subia abraçada a meia dúzia de livros e cadernos foi literalmente atropelada por nós, caindo sentada à entrada do ônibus com seu material escolar espalhado no asfalto. Voltamos para casa a pé, rindo à beça. A comédia era nossa; a tragédia dos motoristas. Não sei, não, mas hoje não vejo nenhuma graça nisso. Será que eu estou ficando caduco? Responda lá o Siqueira...

O INCOMPETENTE

                       Chamou-se o sujeito de incompetente.

                É verdade que ele não tinha nem tem as qualificações necessárias às funções que exerce. Não tem educação em gestão de pessoas, nem em administração de empresas, nem em recursos humanos, nem em nada semelhante. Seria como o sujeito dizer-se engenheiro civil e tentar construir um edifício de dois andares.

                Eu mesmo sou um incompetente para construir tal edifício ou mesmo uma casa. Não saberia erguer uma parede, a bem da verdade. Um muro de meio metro de altura feito por mim, baseado em meus cálculos, não se sustentaria por dois minutos. Então, sou de fato um incompetente neste mister. Sou um incompetente para pilotar aviões. Se me dessem a pilotar um ultra-leve, seria um desastre. Literalmente. Sou um incompetente para pilotar ultra-leves. E para tocar oboé? A mesma coisa. Sou um incompetente.

                A bem da honestidade, todos nós indistintamente somos incompetentes para muitas e muitas coisas. É normal. Não estamos habilitados a realizar todas as tarefas e funções especializadas dentre as ocupações humanas. Onde está a razão para se sentir magoado ou melindrado com a pecha de incompetente? Não há razão, eis a verdade. Eu poderia enumerar mais de uma centena de atividades para as quais sou um completo incompetente.

                O problema começa quando o sujeito começa a achar possível exercer determinada função ou executar determinada tarefa para a qual não foi treinado. E geralmente ele o faz porque a princípio a função lhe parece fácil ou possível, ou parece-lhe que os danos advindos do mau exercício desta não seriam tão evidentes ou tão impactantes. Então, cresce no indivíduo em questão uma falsa auto-estima às avessas: sente-se perfeitamente capacitado e ninguém pode questionar ou duvidar disso. Esse indivíduo só chega a esta função em duas situações: em empresas familiares ou no serviço público brasileiro. Na empresa familiar ele exerce cargos por ser parente do dono da bola; no serviço público porque a empresa pública no Brasil é objeto de loteamento político por apadrinhamento de correligionários e aliados. O indivíduo não tem competência para exercer a função mas lá é colocado de forma a que o partido político do poder possa manipular a empresa ao seu bel-prazer. Trocando-se o partido do poder na próxima eleição, troca-se a “panela”.

                Este é o caso com o sujeito de quem falo. Está lá por apadrinhamento político. É bem verdade que os partidos poderiam selecionar eminências técnicas para exercer cargos com funções especializadas, mas não o fazem, na maioria das vezes. Colocam lá o incompetente. Seu currículo profissional não é considerado na escolha. Considera-se apenas o partido ao qual está afiliado.

                Contudo, haverá sempre quem defenda que as coisas podem dar certo mesmo feitas à margem da ciência e das boas normas. Para estes temos que lembrar-lhes que nada pode falar contra a evidência implacável dos resultados. Os resultados são fatos, e contra fatos não há argumentos. Portanto, há sempre como demonstrar que um incompetente curricular é um incompetente de fato: através de seu resultado.

                Se eu fosse construir um muro, ou uma parede, ou um edifício eu chamaria o meu querido amigo Alex Matos. Ele é engenheiro e atua no ramo. Eu posso construir um muro, se quiser. Contrataria o expertise de meu amigo. O muro seria meu mas a obra seria de meu assessor. É uma maneira de exercer uma função para a qual sou incompetente. Mas nem isso fazem os incompetentes do serviço público. O incompetente traz outro incompetente para lhe assessorar. Imaginem qual será o resultado. Então, não pode se melindrar o incompetente gestor do serviço público por ser chamado de incompetente. Não há aqui sentido pejorativo no uso do termo. São os resultados a aparecer. Seria o óbvio ululante de Nelson Rodrigues.

CABAÇO DE FILHA

            Meu amigo Amorim estava um misto de irônico e melancólico, alegre e mordaz, gordo e magro. Sim, apesar de estar imensamente gordo, era um misto com a magreza. Seu ventre abaulado insistia em esconder toda sua magreza. E ele, por sua vez, procurava disfarçar sua frustração. Súbito, passou a falar abertamente sobre o que o atormentava.

            Não se conformava com o noivado da filha. O noivo era garoto bom, estudioso e, ao que parecia, de boa índole. Estudava engenharia e dali a poucos meses, formado, estaria pronto a constituir família. Mas Amorim não se conformava. Sentia-se derrotado. Não se entendia o porquê. Nem ele sabia explicar. Só sentia. Era um poço de sentimentos, de sensações.

            A jovem não estava inadvertidamente grávida. O casamento estava sendo planejado, estudado, calculado. Que diabo incomodava o Amorim? Lembrava a festa em que fora com toda a família e, com eles, o noivo. Via-o abraçar e beijar a filha e pensava: -“Esse filho da puta vai comer a minha menina...!” Isso o deixava louco, mas nada podia fazer. O que fazer? Nada podia fazer. Eram noivos. Mas ele iria comê-la, que diachos! Era o defloramento autorizado, institucionalizado, permitido aos olhos de todos. Amorim estava de mãos atadas. Era notória a obsessão. Estava cego e inconsolável. A filha comida o levava à loucura e ao delírio. Relacionava-se bem com o futuro genro, mas... “esse filho da puta vai comer a minha filha!” As regras e normas diziam que ele nada devia fazer. A filha seria comida respeitosamente. Assim funcionam as coisas, ora essa!

            Os amigos que com ele estavam tentaram lhe dizer tudo isso, mas ele não dava a mínima. Achei que estava louco, mas dei o desconto. Nunca ouvira de um pai tais confidências. Por isso levei na gozação. Pensam que se chateou com isso? Não deu a menor importância! “Esses bostas não entendem, não é a pele deles! Ou melhor, a filha.”

            O dono do carro estacionado à nossa frente deu a partida no motor. O veículo estava imundo. Uma poeira barrenta o cobria. Amorim, mordaz, perguntou se o bicho estivera enterrado. Todos caíram na gargalhada. Depois voltou ao assunto da filha prestes a perder o cabaço. Fomos saindo um a um, aos poucos, e ele ficou com aquele olhar de lunático, perdido em si mesmo. Não via a filha mulher, mas a criança.

02.01.2010

SOBRE BURACOS

         Tenho vivido dias de reflexão sobre o meu trabalho. O que me trouxe a esse tema nesses dias foram acontecimentos ilustrativos. O ser humano tem tendência a se acomodar onde está. Muitos se acomodam ainda que a posição seja desconfortável. Acha-se conforto no desconforto, como se ao se mover passasse a doer o que já estava indolor de tanto doer. Como uma terminação nervosa em longo período refratário de tanto ser estimulada, a dor aquiesce e se esvai, só sendo lembrada quando se tenta mover da posição. Não mais dói o desconforto, mas o esforço para dali sair.

Somente reavaliações freqüentes sobre a vida, e em particular sobre o trabalho, podem nos sinalizar sobre o rumo que nossos resultados tomaram. Nada controlamos. Ainda que tenhamos chegado ao nosso objetivo inicialmente traçado, perdemos rapidamente e tanto mais o controle quanto mais esforço tenhamos empregado na tarefa de conseguir a meta. É fácil explicar: – julgamos cumprida a missão. Acabamos. Nada mais a fazer. Esquecemos que nada controlamos e que onde chegamos é onde verdadeiramente começam os desafios.

As novelas e os filmes geralmente acabam onde de fato deveriam começar. Como o casal de mocinhos que finalmente sobe ao altar no final feliz, é justamente ali naquele momento que se inicia a maior batalha; quando devem ficar mais alertas e mais esforços devem empregar para manter viva a energia que ali os fez chegar. O que se faz é precisamente o oposto.

Deita-se. Relaxa-se. Esmorece-se. Começam, então, os problemas. O mesmo ocorre no trabalho. Lutamos com unhas, dentes, canhões e bazucas para consegui-lo, e quando isso acontece esquecemos que começa, naquele momento, o maior desafio. Perdemos o controle porque abdicamos da parte que nos toca.

Parece que todas as nossas “realizações” são profundos buracos que cavamos a fim de lá nos enfiar para nunca mais sair. O casamento, um buraco; o trabalho, um buraco; o mestrado, um buraco; o doutorado, outro buraco; o consultório, as noites de domingo, e tantos outros buracos que cavamos. Nossos buracos nos envolvem como uma rede aconchegante, onde nos sentimos letárgicos e preguiçosos.

Estive, nesses dias, olhando as paredes de meu buraco de trabalho. Ainda sobre os buracos, vejam que queremos permanecer trinta e cinco anos no buraco do trabalho para de lá sair, velhos e doentes, para a aposentadoria. De tanto lá ficar, sem luz e sem espaço, quando saímos estamos cegos e encurtados em todos os aspectos. Nossos tendões estão encurtados, nosso corpo está encurtado, nosso salário está encurtado, nosso cabelo de tão curto não mais o vemos, nosso mundo está encurtado, nosso ânimo encurtado, nossa vida está encurtada, enfim. Só então descobrimos o mais triste: nossos princípios e valores encurtaram de há muito, desde quando entramos no buraco do trabalho e esquecemos, por anos a fio, de reavaliá-lo. Será, então, tarde demais. Teremos sido tragados pelo buraco. Já não sabemos viver fora dele.

Há quase vinte anos estou no buraco. Ocorrências recentes me chamaram à responsabilidade. Estou a um angstrom do fim de minha dignidade. Senti uma onda de frio perpassar meu corpo quando vi diante de mim, cara a cara, bem perto, o monstro da pusilanimidade repleto de complacência e condescendência. Olhei em volta e não vi os meus valores, as minhas razões, os meus princípios. Eles estavam guardados em algum lugar e há tempos eu não os revisitava, presumindo estarem eles sempre comigo. As coisas mudam. Nada controlamos. Só controlamos a nós mesmos. Sem minhas razões, sem meus princípios, sem meus valores nem a mim mesmo controlo; estou sujeito à ação do terrível monstro. Se não os revisito perco o foco dos meus porquês e me embrenho no lugar-comum das razões menores que não se justificam. Quando perguntam a minha idade, respondo: vinte e quatro anos. A expectativa de vida em meu país é de setenta e três anos. Vinte e quatro anos é o que me resta. O que estou tentando salvar? Minha vida ou minha memória? Em breve direi. Não tenho muito tempo.

 

03.11.2010    

terça-feira, 8 de agosto de 2023

MODORRA

        Hoje é domingo. A modorra, após uns dias débeis e insensatos, me envolveu. 

        Os dias débeis são sempre fruto de noites vazias, onde nada se encontra além das mais estúpidas e insossas ideias que pululam nas mentes mais estúpidas e insossas. A solitude tem sido minha mais fiel companheira desde o último dia treze, mês passado, quando minha mãe partiu. Sua presença teima em aqui permanecer comigo, desafiando a realidade. Vinha vê-la pouco nos últimos tempos, mas sua intensa e densa vida me tranquilizava: ela estava lá, vivendo sua vida densa e intensa. Eu sabia. Para mim, ela estaria lá para sempre. 

Pouco antes nos falávamos mais amiúde. Ouvíamos música e ressuscitávamos nossos mortos. Eram – são – muitos os nossos mortos. Ela me contava a história de cada um, a parte que eu desconhecia. Eram tios, primos, avós, amigos. Gente do século anterior, gente do século passado. Ela os amava. Era sempre um prazer reanimá-los, fazê-los viver. Para ela porque tivera com eles uma boa convivência; para mim porque eu sentia um enorme prazer em suas deliciosas memórias. Ela era o elo que estabeleci com umas poucas lembranças da infância. Agora não há mais elo, nem há mais mortos a ressuscitar. Nela eles viviam. Com sua partida a réstia de vida que neles habitava virou um minúsculo, quase imperceptível fio em minha memória. Com efeito, anseio mantê-la viva nas lembranças de tantos, e tantos, e tantos momentos, às vezes longos, às vezes curtos, que me estarão encravados na eternidade do que chamam alma. Percebo, agora, que de fato morremos completamente quando também morrem os outros que conosco conviveram, ou que de alguma forma nos conheceram. Mesmo os filhos ou os netos que se geram permitirão que a memória de seus antepassados se dilua e se perca na imensidão do tempo. A transcendência é apenas de natureza biológica. Eis o que está a ocorrer com meus mortos. 

        A percepção da evanescência de tudo causa essa sensação de fraqueza e impotência que humilha e esmaga a ilusão da vida. Nossas perguntas soam como ecos distantes, ressonantes num abismo profundo e frio. A impostura da vida só não dói mais do que a indiferença da natureza ante esse vai e vem da morte. Por mais que tente, jamais serei capaz de deitar às letras minha indignação ante o absurdo da aniquilação. Eis o que sinto, eis como estou. 
        
        Julgo não mais ser quem fui. Impossível persistir na unidade de mim mesmo quando percebo a amputação no cerne de meu ser. Dizem que será assim por um tempo, não para sempre. Dizem que o bálsamo do tempo demora, mais sempre cura. Eu, que amputo membros de carne e osso, bem sei que curam. Mas também sei que seguem como cotos, resquícios, partes incompletas, que assim permanecem indefinidamente. Há de também ser assim o coto da alma, do cerne, da essência: - onde havia algo que não impede a existência perdura o vazio de algo que se vai daquele âmago. É uma essência mutilada, incompleta, indignada, aviltada, ferida de morte.

        Dizem que tudo é química, que também é química o amor, a saudade, a dor, o prazer. Eu, que li sobre as prostaglandinas, encefalinas, e endorfinas, bem sei que são os mediadores. Mas também sei que se removendo a causa cessa o sinalizador; e que se administrando o sintomático aborta-se sua geração. Há de também ser assim na dor que dói na alma, quando se recorre ao lenitivo das crenças e fantasias.

        Ai de mim, que capitulei ante a demora do alívio dessas dores!... Quanto mais busquei menos achei, porque me neguei a violentar meu entendimento, ainda que procurasse na ânsia de encontrar. Eis a que leva a modorra, eis o que me causou a humildade de perguntar e buscar.

09.05.2010 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

VISITAS

          Chego a qualquer hora. Ele dorme. 

        Lá fora, o sol escaldante anuncia que as chuvas intensas e frequentes recentes parecem ter-se ido. Seriam 10 da manhã. Adentro seu quarto, escuro na penumbra das cortinas cerradas. Sei que estão lá, nas prateleiras do guarda-roupas, as fotografias. Numa delas mamãe discursa num encontro de amigas, enfeitada em seu lindo estilo de mulher de família, à moda antiga, elegante, britânica. Nas brincadeiras chamavam-na "perua". 

        A cuidadora me cumprimenta, sentada à cadeira ao lado da cama dele. Pergunto sobre como ele passou a noite, se dormiu, se queixou-se de algo, enfim, uma espécie de relatório sobre seu bem ou mal estar. Hoje cheguei e ele estava sentado no vaso sanitário. Estava bem alerta. No último mês apresentou uma melhora substancial em todos os aspectos. Hoje, especificamente, havíamos combinado uma visita ao túmulo de mamãe. Semanas atrás sugeri o passeio. Ele topou na hora, mas, nos dias seguintes, a velha adinamia que até então se impunha parecia não arredar pé. Foi quando veio a melhora, insidiosamente, paulatinamente, surpreendentemente. "Vamos ao cemitério?", perguntou ele na última sexta. Acertamos para dali a dois dias, na segunda. 

        O trajeto foi tranquilo. O trânsito estava calmo por conta do feriado local. Ele entrou no carro abrindo a porta por conta própria. No percurso não falamos. A surdez sem a prótese tornou-o mais ensimesmado que o habitual. Como se diz com frequência, o valor de algo só se mede quando se o perde. No caso dele a audição faltava. Como travar um diálogo sem escutar? Melhor se recolher e nada dizer. Nem mesmo uma pergunta banal, dessas que se fazem apenas para matar o tempo, é possível nessas circunstâncias. Disse ao início que ele dormia quando cheguei. Faz parte desse recolhimento diário. E, como tudo o que não é usado atrofia ou desaparece, ele desaparecia em pleno dia.   

        No cemitério o silêncio imperava. Procuramos, durante alguns minutos, o sepulcro de mamãe. Uma pedra onde se escreveu seu nome o localizou. O resto era o gramado com inúmeras outras pedras equidistantes entre si, cada uma com um nome e as datas, o tempo de vida. Algumas carregavam fotografias do morto. O de mamãe é só a pedra e as datas. Ele parou diante da pedra e nada disse. Um sem-número de pensamentos me acudiram. Ele continuou em pé diante da pedra sem dizer palavra, expressar qualquer sentimento ou reação. Pouco tempo ali ficou. Ergueu os olhos em direção ao campo gramado em todas as direções e saiu a andar lentamente por entre as lápides, parando brevemente aqui e ali a ver se identificava algum conhecido. A poucos metros uma família parada defronte de outra pedra orava. Sentamos no banco de cimento ali perto.

        "Ave Maria, cheia de graça...", disseram eles mais de uma dezena de vezes antes de partirmos. Antes, porém, me veio uma lembrança de mamãe. Divertida, com apurado senso de humor, dizia sobre o que hipoteticamente falavam os habitantes dos cemitérios aos visitantes quando da morte de alguém conhecido: 

        - "Nós que aqui estamos um dia por vós esperamos!", e caía na gargalhada...

domingo, 4 de dezembro de 2022

EM VIAGEM

Quando vim à Europa, tinha a intenção de escrever durante a viagem. Impressões, opiniões, comentários, descrições, fatos dos quais fosse protagonista, ou fatos dos quais tivesse conhecimento no velho continente, tudo seria objeto de minha pouco aguda percepção.


A cansativa viagem, apesar do muito que me ofereceu em matéria para escrever, me demoveu do propósito inicial. A exaustão física que resulta de uma noite em claro é algo que não devemos desdenhar, e algo impossível de olvidar. Essa exaustão embota até mesmo as expectativas positivas. Senti-me tão exaurido em minhas forças que me invadiu uma enorme sensação de desamparo e solidão. Seriam saudades de casa.


Não reduzam, por favor, essas saudades à simples necessidade do conforto físico do lar, a uma busca por um encosto, um espaldar macio e fofo onde pudesse repousar a cabeça e o corpo. Seria algo maior, algo mais abrangente. Ter-me tornado um sujeito sensível e ao mesmo tempo empedernido fez nascer em mim uma dualidade que, longe de me ser prejudicial, habilitou-me a comutar a característica mais adequada à situação. Para isso está implícita a necessidade de ter a razão no controle, a fim de escolher com sabedoria. Se por um lado continuo em minha essência a ser um sujeito chorão, por outro me tornei implacável comigo mesmo, visto que detesto a pieguice das vulnerabilidades insensatas que obnubilam a razão. O coração e a racionalidade podem se complementar, usados juntos, levando à plenitude da existência. Jamais um deve sufocar o outro, sob pena de se vir a ser um brutamonte ou um borra-botas. O esgotamento resultante da viagem me trouxe à tona as fraquezas, o menino indefeso e solitário, o homem sob o coração. Em suma: prevalecia o joão-ninguém.


De qualquer forma, convém ao entendimento, e atendendo afinal a meu primeiro intento, descrever o que foi dentro de mim.


 


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Já não conseguiria descrevê-lo. Os sentimentos fugazes, sem importância, são como uma febre passageira, uma morrinha, uma cólica. Vêm e vão sem que tenhamos tempo de lhes diagnosticar a etiologia. As defesas do corpo são mais rápidas que o tempo necessário para a análise, e mesmo elas abortam outros comemorativos fundamentais à sua identificação. Já se vão três dias passados. É difícil, senão impossível para mim, lembrar o que de triste e melancólico senti. Quero crer que meus mecanismos mentais de defesa, implacáveis como os leucócitos com memória, deram cabo dessa tralha emocional. Boa saúde e fraca memória são o segredo para a felicidade, é o que se diz.


 


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O fato lastimável é que já se vão quase sete dias de minha partida e nada escrevi, exceto por essas poucas linhas, escritas ao longo de todos eles, à moda freqüente a princípio, e quase nada aos demais.


O que ocorre, talvez, seja um outro ônus imposto pelo envelhecimento. O corpo padece das fraquezas e vulnerabilidades do envelhecer. Será possível que o mesmo venha a ocorrer com o espírito? Ao longo de toda uma vida, sempre atento e cônscio da brevidade do tempo, tenta-se solidificar o espírito a fim de prepará-lo para a solidão da morte próxima. E o que nos espreita é a consciência da solidão da vida. A solidão da morte há de ser escura e sem a participação dos sentidos, ao passo que a da vida é dolorosa como uma queimadura na alma. Terá sido esta a que experimentei. A distância enorme, e que aumentava a cada segundo, de meu cubículo onde estão meus restos do que sobrou de minha vida assemelha-se a aguda lâmina a me penetrar lentamente o âmago, impiedosamente. Não há seres humanos em minha solidão. Dela nenhum participa pela sua ausência. Os restos que permanecem em minha vida são nada mais que objetos. Inanimados, figuram em meu dia-a-dia como ícones da realidade que tanto tentei e teimei não enxergar, mas cujo peso extenuante faz ceder a mais obliqua cegueira. Sua existência preenche as sensações e os sentidos de forma plena, suave, serena, superficial. Sua existência não é contundente. Sua existência não agride. Dessa forma, poupo os sentidos das sensações, dos estímulos. Os olhos, quando os vêem, nada vêem. O espaço que ocupam é a única informação que passam de sua existência, e permite-me existir na serenidade de sua presença. Agora, neste momento, mesmo dessa presença me sinto isolado, excluído. É deles que sinto saudades.


 


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É obvio, estou a enganar-me. Com relutância devo admitir que ainda sinto saudades de uns poucos humanos. Sejam o grupo ou isolados, sinto a falta de alguns desses tipos, desses espécimes. Não me entendam mal. Não pretendo estar acima do bem e do mal, nem acima de ninguém. Já antevejo a hipótese dos muitos que me detestam. Pensam também de mim algo semelhante, e em nada deles sou diferente. Ainda me imprimem a sensação do vazio, da presença do nada, da ausência da vida pulsátil quando se ausentam desse jardim da minha vida, quando ausentes nesta distância implacável e tamanha. Preferiria a frieza da ausência do coração pulsátil, preferiria a não existência dos normais sentimentos que unem os que se aproximam com a cola mágica da fragilidade persistente. Contudo, não nos acontece o que preferimos. Acontece-nos o que nos acontece. Resta-nos aprender a lidar com o que nos acontece. Como tudo o que nunca tentaram nos ensinar, não nos deram uma boa lição sobre como abandonarmos nossas fraldas e cueiros, ou coisas similares. Por isso seguimos chorosos e chorões, como eu.


Quantos filósofos terão se debruçado sobre as fraquezas humanas e suas criações fantasiosas sobre como lidar com suas angústias e prantos? Ah... não perderei tempo com essas chatices! Incomoda-me perturbar o que se aventurou a me ler. Discorrer sobre filosofia e filósofos pode indicar a petulância de se mostrar culto ou o enveredar genuíno e compenetrado em suas considerações profundas. Se falasse sobre tais assuntos, não seria pela primeira hipótese – sou um ignorante em filósofos e filosofia. Hipnotizam-me suas tristezas e angústias. Tão somente. Nada mais.


 


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Sou um turista incompetente. Não tenho a pinta, os trejeitos, os trajes. Só sabem que sou turista quando estou fora do circuito latino. Tenho olhos e cabelos castanhos, nariz e maçãs do rosto ósseas e pétreas. Sou latino. Os saxãos percebem. No mais, em mim nada vêem de exótico.


Na alcova dos hotéis ou da casa de amigos onde pouso, também não sou “o turista”. Leio livros que levo a tiracolo, revistas do Brasil, escolho não sair. Sou o antiturista. Os anfitriões tentam me agradar e tudo que faço é um muxoxo. Sou um balde de água fria na expectativa alheia. Mas... que culpa tenho de minha frieza turística?


Li “Gomorra”, de Roberto Saviano, jornalista italiano nascido há trinta anos em Nápoles. Apenas um garoto. Sua obra, a primeira, vendeu mais de dois milhões de exemplares, e virou filme concorrente italiano ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Li-o em viagem. Após os museus, o Saviano. No dia europeu de dezoito horas de sol cumpre-se toda a agenda do antiturista.


Enquanto apreciava fascinado a exposição do Rijksmuseum de Amsterdam, lia Roberto Saviano. Apesar de minha marmórea frieza turística, fui ao chão de joelhos em prantos ante “The Night Watch”, de Rembrandt van Rijn, de 1642. É algo indescritível. É soberbo. Sua beleza e genialidade porejam no coração dos que o contemplam. Poder-se-ia apreciá-lo por horas, dias, meses, e sempre se descobriria algum detalhe a mais de tirar o fôlego. Eu, em minha humilhante e ignorante aversão à pintura, capitulei. Conclui, então, que a ignorância é a mãe de toda contenda, discórdia e empáfia.  


 Enquanto meus joelhos tremiam, lia “Gomorra”, e me horrorizava. De um lado os gozos de Rembrandt, do outro o terror que saltava da pena de Saviano a me chicotear a humanidade. Rembrandt e Camorra. Meus dois companheiros de viagem ao velho mundo. Tão opostos e tão presentes. Um, a arte sublime da inspiração e do talento humanos naquilo que têm de mais genial; o outro, a podridão da escória da mesma raça. Como saber quem é quem? Disse o Homem: -“Pelos seus frutos os conhecereis.” Em meio a tudo isso, a viagem. Eu, o turista que se deixou arrebatar pela genialidade humana na arte que desprezava, separava o joio do trigo.


Depois, entre os meus, Lisboa e o Mosteiro dos Jerônimos, sobre os ossos de Camões e da Gama. O sol era forte e o vento frio.


 


Fernando Cavalcanti, 04 a 19.07.2009 



A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...