quinta-feira, 4 de junho de 2020

RESPEITE PELO MENOS O POBRE HOMEM...

Pediu licença para sair. Um paciente reclamava sua presença. Almoço em família, vida de médico.
            Dali a pouco chegava ao hospital. Comprara um desses rechonchudos sanduíches que têm de tudo. Não era para ele, era para a pequena.
Ela saiu ao seu encontro tão logo ele chegou.
Abraçou-o com força e o beijou na face. Não se apartaram até que ele, num gesto de pouca força, empurrou-a de si. Se não mais queria o romance, por que o abraçava? Ele viera porque batera uma saudade imensa. O sanduíche era a desculpa.
Entrou no carro e se foi de volta ao almoço.

                                                                                   ***
No quarto o telefone tocou. Era ela. “Espera que te ligo já”, e terminou de se vestir.
Foi para a varanda com o telefone portátil. Dizia: -“Não me ligue mais, por favor.” A paisagem era deslumbrante.
“Foi você quem desmanchou, não me procure mais. O sanduíche foi só pra te ver pela última vez”.
Desligou.
Virou-se para entrar na sala. A mulher estava parada atrás de si ouvindo a conversa.

                                                                      ***
Chamou os filhos e lhes contou da amante do pai. Dali em diante a vida se tornou um inferno. As filhas queriam agredi-lo. O filho do pai escarnecia dia e noite.
O diabo é que dali a alguns dias viajariam todos juntos, mais a outra parte da família. Eram cunhados, concunhados, sobrinhos, uma torcida inteira. E, já tudo pago, não havia como desistir.
No aeroporto desenhou-se o que o esperava nos dias vindouros – ninguém lhe dirigia a palavra. Os outros perceberam, e a mulher não escondeu seu drama: -“Vocês não vão acreditar! Esse cachorro está me traindo!”
Foram dias difíceis em terras estrangeiras. A família ia para um lado, ele para outro. Quando voltasse tinha uma operação a fazer. Ele era o paciente.
(Mal sabia que Caronte apenas esperava a levá-lo a maiores profundezas.)

                                                                                               ***
De volta ao lar, a mulher não perdia uma oportunidade de sabatiná-lo. Ao princípio tudo negara. Até que resolveu assumir: –“Sim, é verdade!”
Tolo engano esperar uma trégua. As sabatinas só pioravam. Contara tudo nos mínimos detalhes, mas de nada adiantou. A mulher não lhe cria numa só palavra. Era um mentiroso!
(Caronte atracara o barco e o convidava a subir.)

                                                                                            ***
Antes de baixar ao hospital escondeu os telefones portáteis. Temia que a outra, a enfermeira, ligasse para saber como estava, ou que lhe fosse acompanhar durante a operação.
Acordou dos sedativos na companhia da mulher e da cunhada.
Com a visão ainda turva devido às drogas pôde perceber a mulher a segurar os telefones que escondera.
Ali mesmo, no apartamento do hospital, o homem ainda padecendo de dores e drogas pós-operatórias, e a mulher a gritar com o dedo em riste: -“Canalha! Manda essa vagabunda parar de ligar!”
A cunhada, comprando a briga da irmã, fuzilou: -“Bicho sem-vergonha!”
Com a voz a um decibel do inaudível, suplicou: –“Respeite pelo menos minha cirurgia...”
Não teve jeito: -“Cachorro safado!” E emendava: –“Pulha!

                                                                                   ***
No segundo dia após a operação, à visita do cirurgião que já lhe assinava a alta, implorou: –“Me deixa aqui mais dois ou três dias!” Nem pensar! Está tudo bem e vai para casa já! Não era porque era médico que deixariam interferir na rotina.
Seria possível que a mulher e os filhos lhe dessem o mínimo de paz em casa? Nada lhe restava a não ser nutrir o mínimo de esperança... e a sonda pendurada na piroca a lhe drenar a urina sanguinolenta.
Menos dor, mais ânimo.
Levantava-se a ir ao mictório e, súbito, ainda com ardência e sangue, entrava a mulher chutando a porta: –“Cabra safado! Postema! Sacana!”, ao que ele retrucava num humilhante rogo: –“Respeite pelo menos minha hematúria...”

                                                                                   ***   
Tudo se resolveu quando alugou apartamento e mudou.
É uma paz... é um silêncio...  É o céu em vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A DOENÇA QUE MATOU AS DOENÇAS

          “Robert Liston era a faca mais rápida do West End, em Londres. Podia amputar uma perna em dois minutos e meio”.
Assim começa o Capítulo 1 – Nocaute Triplo – entusiasmo cirúrgico desastroso de OS GRANDES DESASTRES DA MEDICINA, de Richard Gordon, também autor de A ASSUSTADORA HISTÓRIA DA MEDICINA.
                Fui reler isto a propósito de alguns desastres da medicina atual, em particular um quase-desastre que quase leva à campa uma pessoa próxima. Devo dizer que este é um quase desastre, ou pode assim ser chamado, por não ter resultado o pior para o paciente. Nem por isso houve menos sofrimento. Quase-desastre, neste exemplo específico, seria, de fato, um enorme e cruel eufemismo, já que fere um dos mais elementares princípios hipocráticos que manda ao médico “curar às vezes, mas confortar sempre”.
Sim, não se enganem. O leigo, em seu laicismo de leigo, pensa leigamente que sabe tudo o médico. Esquece o leigo que de quase nada sabe o médico. Em seu O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, de 1995, Carl Sagan propõe que a ciência seja vista como uma velinha que queima ao centro de uma infinita escuridão. Ou seja – de nada sabemos e, em particular, de nada sabe o médico. Por tudo isso e muitas outras coisas mais é que deveria o médico cada vez mais, em seu crescente e contínuo obscurecimento, sair ao encontro do princípio correto e confortar.  Sim, confortar não requer diploma, não requer esforço mental. É preciso apenas alteridade e empatia.    
Eu ia sugerir, já agora, que o médico, todos os médicos, se ajoelhem e, de cabeça baixa e coração contrito, confessem sua completa ignorância. Sim, é grande, é fenomenal, é imensurável todo o desconhecimento. Ia fazer tal sugestão ao final, no arremate, nas conclusões, mas há um nó na garganta, um “sapo” querendo descer-me ao íntimo do ventre, e não pude me conter a fazer o pretenso inusitado convite.
Vejam, por exemplo, este senhor, Sir Robert Liston – nem sei se Sua Majestade assim o intitulou, remetendo-o à nobreza –, seus atos e respectivos resultados. No tempo em que o tempo cirúrgico era de suma importância a fim de abreviar o sofrimento do paciente – “podia-se escolher entre embriagar-se com ópio ou rum, ou morder um pano enrolado em bastão” –, ele era um dos ases da cirurgia europeia. O que ocorreu em seu terceiro mais famoso caso, no relato do senhor Gordon, diz muito:
Discussão com seu residente. Aquele tumor vermelho e pulsante no pescoço do garoto era um abscesso na pele? Ou era um perigoso aneurisma da artéria carótida? “Ora!”, exclamou Liston impacientemente. “Quem já ouviu falar de um aneurisma em um garoto tão jovem?” Tirando rapidamente um bisturi do bolso de seu casaco, ele o puncionou. Nota do residente: “Jorrou sangue arterial, e o garoto foi-se.” O paciente morreu, mas a artéria está viva, no Museu de Patologia do University College Hospital, objeto número 1256.
Não fosse a inexorável falibilidade de cada um dos médicos, diríamos que tal conduta foi um assassinato legitimado sob o manto de um ato intencionalmente terapêutico de resultado desastroso. É bem possível que tenha sido com essa ideia que o senhor Richard Gordon intitulou seu livro – desastre...
A senhora idosa chegou ao hospital por ter tido em casa o que o meu querido professor Oto Leal Nogueira chamaria de “uma síndrome cólera-like”. Após uma espera aparentemente interminável, veio “sua sumidade”, o médico. (Estou sendo injusto. Era um jovem cuja inscrição no conselho da classe me fez ter o seguinte pensamento – formou-se ontem.) Foi amável, conversou, explanou, examinou minimamente, e aqui teve início o quase desastre. Tendo em vista a pandemia do vírus chinês, só pensou segundo a clínica do vírus chinês, e o exame físico se limitou à ausculta do tórax com a paciente sentada à cadeira de rodas e vestida em seus vestidos amarfanhados de quem saiu às pressas do conforto do lar.
Os exames complementares seguiram todos a hipótese “mandatória” do vírus chinês como agente etiológico. Exames caros, em aparelhos complexos que fornecem imagens deslumbrantes, foram desnecessariamente solicitados sem, contudo, evidenciar o que tanto aqueles jovens médicos queriam encontrar. A gastroenterite desidratante com seu distúrbio hidroeletrolítico associado não se fazia “ouvir”. Tinha que ser, precisava ser, necessitava ser, era imperioso que fosse o vírus chinês. E nem um tratamento de reposição à altura, mandatório naquela situação, foi iniciado. A bem da verdade, não se aventava interná-la. Por quê? Ora, cada vez mais ficava claro – não era o vírus. Ali, naquele hospital, só os doentes do vírus estavam realmente doentes.
Paro por aqui. Digo mais apenas o seguinte – a internação só foi levada a cabo como resultado de uma pressão da família. Arrisco dizer – não fosse isso ela teria sido mandada para casa. Sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Nunca saberemos. Ex ante se toma uma decisão; ex post se julgam seus resultados. Nunca se pode avaliar os resultados de uma decisão que não se permitiu tomar. Mas, naquele hospital, tentaram corromper princípios seculares da boa prática médica – queriam porque queriam que a clínica se curvasse ao vírus que matou todas as outras doenças.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

SOBRE O SOLDADO QUE TEME A MORTE

O amigo Gaudêncio me escreveu para dizer que seu prazer ao ler meus textos era o de quem bebe um bom vinho. Digamos... um Chianti de três mil reais. (Olha que o real tá valendo uma merreca...) Fez, entretanto, uma ressalva para o que escrevi mais recentemente em  https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2020/05/nada-mais-nada-menos.html. O momento, para ele, é de impaciência. Segundo ele mesmo, está “impaciente com ‘palavrórios’”. Por isso o referido texto lhe suscitou o sabor de uma... Sukita. Aos que não sabem, a Sukita foi um refrigerante muito apreciado não me lembra exatamente em que tempo, até os dias de hoje, creio... De qualquer forma, a Sukita é doce, dulcíssima, do tipo que acalma o que anseia por um prazer que sossegue os nervos, como parece ser o caso de meu amado amigo. O que esqueci de indagar ao amigo foi o porquê dessa impaciência. Terá sido a prolongada permanência em domicílio?  Parece-lhe o futuro deveras obscuro com a história da pandemia? Não importa. O fato é que o homem está lá, impaciente a não mais poder. Mas há pior e, repito, há pior nessa história – acusou-me de ser o culpado por sua parageusia, como se fosse eu o culpado de sua aversão ao “palavrório”... A quem culpar se o sabor de um bom vinho se deixa ultrapassar pelo sabor de uma reles Sukita? Ora, bolas... De volta, a título de vendetta, lhe diagnostiquei uma coronavirose chinesa implacável! Ora, bolas...
                Como sujeito curioso que sou, saí a me indagar e a querer saber – que diachos seria um palavrório? Uma oportunidade de ampliar o vocabulário da língua madre jamais deve ser perdida. Assim, fui aqui no pater asini pesquisar e eis que encontro o seguinte sobre palavrório: conversa para enganar ou convencer; lábia; discurso inútil ou aborrecido; palavreado... Ao me deparar com tais sinônimos, tomei-me assaltado por divertido horror. E por quê?
                Sei lá... eu estava para justificar, ou explicar o que já está explicado lá no texto. Mas, desisti. Sim, desisti. Dirá o resto da gente algo mais sobre o palavrório. Afinal, já externei inúmeras vezes a impressão de que quem escreve põe a cara a tapa.
A vida, a aventura da vida só vale a pena quando se arrisca a própria pele. O planeta está cheio de pessoas que tomam decisões cujas consequências maiores não recairão sobre elas. Em outras palavras, pessoas que tomam decisões cujas consequências funestas recairão sobre terceiros, sobre populações inteiras, às vezes, muitas vezes, milhões de pessoas. Aproveitam-se da vulnerabilidade das massas, de sua comodidade, de sua opção pela irresponsabilidade. A responsabilidade, ou seja, a capacidade e opção por responder à altura às demandas mais urgentes e importantes da vida em sociedade implica num massacrante, brutal, corajoso e irremediável comprometimento com nossos maiores e mais essenciais princípios e, doloroso dizer, poucos estão dispostos a tal missão. Ou, ainda, muitos não dão a mínima para essa história de princípios.
                 Só agora percebo que estou a devanear, a misturar alhos com bugalhos e o amado Gaudêncio há de achar que estou me agastando com ele, o que não é o caso. Concluí que a Sukita do amigo há de ser o Chianti de outrem. Se a impaciência chegou para alguém, a lição estará na contracapa do livro da vida.
                O que é que eu queria mesmo dizer? Ah! Lembrei! Ou, por outra, o que lembrei com a história da impaciência do amigo foi a conversa que tive com um outro querido amigo, empresário de sucesso, conhecedor da e ativo na estirpe empresarial deste famigerado Estado do Ceará. O amigo circula entre gente de peso, gente que emprega milhares de pessoas, gente a quem não faltam recursos. Eu, na conversa, queria saber – por que essa gente, esses poderosos que têm recursos, se abstêm de seu poder quando estão aptos a montar uma equipe de peso, de qualidade? pesquisadores da área de saúde, epidemiologistas e infectologistas que façam uma análise séria do que está a ocorrer propondo, com responsabilidade, alternativas para o enfrentamento da pandemia sem prejuízos de vidas, mas que, simultaneamente preserve o viço social e as relações de trabalho? cujos dados possam ser contrapostos ao governo do estado, portador de infindáveis conflitos de interesses, e demonstrar que estão ativos e vigilantes? Por que, meu amigo, – lhe indaguei – essa gente, com base nos pareceres abalizados desses cientistas, não disponibiliza um sistema de informações independente, um jornal, uma revista, livres de conflitos de interesse, diferente da famigerada imprensa cujos interesses são sobejamente conhecidos, com total dependência dos anúncios do governo, e divulga de forma lícita, independente, correta, ética, como diria alguém, informações para a sociedade que contradigam o que está a dizer a autoridade repleta dos referidos conflitos de interesse ? Enfim, por que esta elite não se descola do governo? Por que se alinham com a desgraça pública? Por quê? Por quê? Por quê?, eis o que me pergunto obstinadamente.
                O amigo, acabrunhado com minha insistência, respondeu, com a vergonha estampada na voz – "porque não querem contrariar o senhor governador...”
                Nada poderia descrever meu horror diante de tão contundente resposta. Nas palavras da elite empresarial do Estado estava tudo explicado.  E não querem contrariá-lo porque, em suas mentes, o poder vem de cima e não de baixo... porque o poder não vem deles, mas da autoridade lá colocada por um sistema “democrático” em que o povo vota. Eles, que não se consideram parte do povo, não querem se indispor... vai que precisam de algo no futuro, algo que só a autoridade máxima resolve... 
                Ora, se o empresariado, reunido em instituições que defendem seus interesses, tem em sua mente que o governo vem de cima e não de baixo, que dirá o periférico habitante desta miserável cidade, desse miserável estado. Se este empresariado se presta a reprimir no próprio seio de suas associações seu potencial de voz e de atuação social, que dirá o pobre e periférico "cidadão" desta combalida cidade, deste combalido estado. Com esta atitude e, pior, com este pensamento decretam a absoluta subserviência da sociedade ao que faz o poder que já nem digo "público" e muito menos "privado", mas ao poder absoluto do governador, falsamente referendado por um legislativo já conhecidamente subserviente em tempos "normais".
Concluí com imenso pesar que não há saída para nós, cidadãos supostamente "pensantes". Se as ruas se tornaram inacessíveis para estes cidadãos diante das intermináveis canetadas do senhor governador travestidas de boas intenções para com a saúde pública, não há nem mesmo esperança nas redes sociais. Sim, porque tudo que corre na rede são intenções e informações. A vida pública sempre se resolveu e sempre se resolverá nas ruas e avenidas ora vazias. Os soldados declararam seu temor à morte e à guerra. Negam- se a ir ao campo de batalha. E um soldado que teme a morte não é um soldado — é um covarde.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

NADA MAIS, NADA MENOS

Outro dia escrevi sobre muros e crianças. Sobre muros que não detinham crianças (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2015/10/criancas.html). Foi sobre o tempo em que éramos tão livres que queríamos invadir os espaços fechados. Pura curiosidade. Pura vida de criança. Aos dias de hoje parece ocorrer o oposto. Ou, melhor dizendo, não ocorre o oposto. Seria o oposto se as crianças de hoje, trancadas em espaços fechados, ousassem romper o que as impede e ganhassem as ruas de pedra, os terrenos baldios, os quintais... Mas, não... Não há mais ruas de pedra, nem terrenos baldios, nem quintais... Só há o medo.
Ainda assim, e por tudo isso, talvez, as crianças chegavam a ser cruéis. Por exemplo, o que podia ser capturado como estereótipo em qualquer um de nós se resumia num ”carinhoso” apelido. Bem... muitas vezes, quase todas, não eram os estereótipos, mas algum traço físico relevante ou extraordinário o que estimulava os coleguinhas a nos apelidar. Afinal de contas, crianças não tiveram tempo para se deixar estereotipar. Ainda. Crianças são vítimas dos caprichos da natureza e da malícia de outras crianças. Sim, isso mesmo. Uma parte elas não é vítima de coisa nenhuma – em tenra idade já demonstram uma malícia que deveria ser preocupante... para a sociedade.
(Estou aqui a ponderar... Falo, não falo; falo, não falo... Decidi: – vou falar. A única coisa que se leva à campa é a tralha do que vai virar pó.)
Certa feita um coleguinha me pôs um apelido muito carinhoso. Alcunhou-me de Cadáver.  Vejam que coisa pavorosa – Cadáver! Muito magrinho e pálido, ele, já na idade da malícia de alguns, via em mim todas as características de um corpo sem vida. Cadáver. (Escrevo com maiúscula porque apelidos são escritos com letra maiúscula. Vejam aquele garoto cuja cabeleira tem cinco fios, amigo da Mônica, personagem do Maurício de Sousa, o Cebolinha. Se escrevo com minúscula corro o risco de alguém pensar que me refiro à planta.) Nas conversas era Cadáver fez isso, Cadáver fez aquilo; Cadáver joga de centroavante, Cadáver fez um gol; e por aí vai...
Tanto não havia estereótipos que mudavam os apelidos caso mudassem os traços físicos. Depois de colocar um aparelho ortodôntico, a coisa mudou – era Boca-Rica; ou Sorriso Metálico. Antes do aparelho, como os dentes se projetassem muito à frente, outro apelido – Elefante. Este último “pegou” menos, já que era enorme o contraste entre meu mirrado físico e o porte do animal. Moreno, um coleguinha que àquela época já parecia mais crescido em malícia que as demais crianças – vejam que Moreno já é um apelido – me veio com a pecha de Gambá. Tudo porque, certo dia, as coleguinhas do bairro colaram-me à testa um pequeno adesivo para “referendar” meu pertencimento aos amiguinhos do bairro e, voltando eu ao colégio marista com outro adesivo semelhante ao dia seguinte, concluiu que eu não havia me banhado. Assim, para ele, eu seria semelhante a um gambá, o bichinho que exala forte odor quando se vê ameaçado e não porque seja imundo. Paciência. As crianças às vezes são cruéis em sua ignorância muitas vezes travestida de inteligência.
Mas, por que é mesmo que estou contando tudo isso? Ah! Lembrei. Foi o seguinte.
Escreveu-me o Sérgio Moura – ou foi o Bacana? – não lembro... para dizer que nossa geração havia fracassado. Ora, imediatamente me lembrei do que o Nelson disse certa vez:
“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo – a nossa”, disse ele.
Diz o sábio que “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Será que nosso suposto fracasso significava que essa geração havia feito – ou não feito – algo diferente do que outras fizeram antes e isso teria determinado nosso fracasso? Bem, não parece ser isso, já que diz mais o sábio e estou humildemente inclinado a lhe dar razão:
“Haverá algo de que se possa dizer: ‘Veja! Isto é novo!’? Não! já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época”.
Assim, se não se faz nada de novo, se não há nada de novo, se tudo que já foi feito está fadado a se repetir sem nenhuma “inovação” – a tecnologia não muda a essência – então nada de novo fizemos ou deixamos de fazer, o que invalida a hipótese de que fracassamos. E o que fizemos, digo, o que faz repetidamente o bicho-homem? Ora, assassinar, roubar, injuriar, caluniar, humilhar, onerar, adoecer o semelhante – sim! adoecemos os outros! –, litigar, enganar, mentir, trair, apunhalar... e por aí vai. O que deveria ter dito ao Serjão ou ao Bacana, não me lembra bem, é que não, nossa geração não fracassou. Não há nenhum fracasso. O que há o ser humano. Por outro lado, fosse vivo o Nelson lhe escreveria para humildemente lhe dizer, lhe lembrar que não há a época “doente mental”, nenhuma época foi “doente mental”. O que há é o ser humano, repito. E só. Doente mental é o ser humano. Nada mais, nada menos.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

DESCULPEM, MAS NOVAMENTE O PÂNICO...

       "Na academia não existe diferença entre o mundo acadêmico e o mundo real; no mundo real existe". (Nassim N. Taleb)


      Não tem jeito. A rede social é o palco da vida moderna. Por conta disso, farei o seguinte. Doravante não mais farei nenhuma distinção entre o que é ou foi real, e o que é ou foi virtual. Dito isso, aqui vai o fato. 
      Outro dia tornei público o seguinte pensamento, me dirigindo à agência Reuters e depois publicado noutros sites: "Não sei por que razões as agências de notícias, quase todas, não publicam os dados científicos sobre os quais o Presidente da República se apoia para declarar sua defesa do término dessa palhaçada do isolamento social. Estudiosos de peso, médicos infectologistas, têm dito que isso não se presta ao que se destina e dão lá as evidências. Inclusive aqui, ninguém cita isso. Quase toda a mídia está se deixando levar pelo pânico injustificado. Ou por pura incompetência, ou por safadeza mesmo. As evidências também têm mostrado que esta última hipótese é a bem mais provável... E nem falo da evolução notória do tratamento da doença em pacientes gravemente acometidos. Parece que estamos ao início do pânico. Nada veio de bom. Façam jornalismo informativo. O resto é canalhice. Inclusive a omissão." 
      Ora, dizia Nelson Rodrigues que "a maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade." Para sermos o mais justos possível, vejamos o que diz o pai dos burros sobre "idiota": estúpido, imbecil, otário, que ou o que denota falta de inteligência; fácil de ser enganado. Bem, parece que a maioria de nós é fácil de ser enganada, segundo o NR, o que me leva a pensar que a mídia sabe muito bem disso e se utiliza desse fato para fazer vicejar o pânico.
      É sabido que a mídia é pê-agá-dê em montagem de discursos e reportagens cuja mensagem é a que ela, a mídia, quer passar, e não o fato real, aquele baseado em todas as informações disponíveis. Há toda uma técnica utilizada para isso, o que se pode concluir através de uma fina e perspicaz análise desse discurso. Se a maioria de nós é fácil de ser enganada e temos inúmeros interesses escusos em jogo, defendamos nossos interesses à custa do pânico, hão de conjecturar. Este pode muito bem, e portanto, ser a nuvem de fumaça que se utiliza para embaçar visões que se consideram a si mesmas a própria perfeição. Sua utilidade é politicamente incontestável. Dolosamente, negligentemente ou ainda uma associação de ambas — que chamei de negligência dolosa — a história da pandemia terá desdobramentos que a história — o tempo — há de desvendar. Como disse Nassim Nicholas Taleb em seu fantástico "Arriscando a própria pele", " o único juiz efetivo das coisas (ideias, pessoas, produções intelectuais, modelos de carros, teorias científicas, livros, intencionalidade ou negligência em criação de vírus, etc. ) é o tempo". 
      Não entremos a deslindar o porquê de a maioria de nós ser fácil de enganar. Recentemente falei sobre nossa natureza irracional, demonstrada tão brilhantemente por Dan Ariely, ao contrário do que orgulhosamente pensamos. Muito menos comentemos sobre as conclusões de Andrew Lobaczewski em seu "Ponerologia", a nova ciência cujo objeto é o estudo do mal. Imaginem aí o caldeirão onde se mexe esse espesso caldo: um número estupidamente alto de pessoas fáceis de enganar, a maioria — no mínimo metade mais um —, à mercê de um número absolutamente não desprezível — cerca de 1% da população — de psicopatas. Alguém dirá que esse é um pequeno número, desprezível e sem efeito na realidade dos fatos e citarei alguns poucos exemplos de conhecidos psicopatas: Josef Stálin, Vladimir Ilyich Ulianov, vulgo Lenin, Adolf Hitler, Mao Tse Tung, Ted Bundy... Há mais, muito mais. Fiquemos apenas com estes. 
      Seria possível supor os destrutivos, mortais e amplos efeitos que estes solitários senhores causaram em decorrência de suas crenças e ideias nefastas? Aos que estão a ponto de exalar o clichê que reza que "os vencedores escrevem a história", direi que a história ainda não acabou, porquanto tais crenças e ideias ainda estão a se propagar mundo afora e ainda a encontrar simpatizantes do mesmo naipe e entre os fáceis de enganar. Bem se vê que ideias, esses entes tão abstratos e etéreos, em muito se assemelham ao tal vírus cujo "pico de incidência" tarda, cada vez mais, a chegar esmagando os já parcos recursos hospitalares locais e alhures. 
      Foi no esteio de tudo isso que fiquei assim como que "abestado" quando li o comentário de um conhecido se referindo à minha publicação. Disse ele: "Triste ver um cara bom com uma visão tão restrita, uma pena". Ora, minha publicação tenciona justamente realçar a necessidade de se abrir o olho para o que está posto por nossa mídia-lixo. E o tal fulano me sai com essa pérola... Em nada me surpreende. É de conhecimento geral que a cartilha dessa gente reza, como técnica de seu discurso, acusar o adversário daquilo que eles mesmos são, acusar os outros de fazer o que eles mesmos fazem. Assim, fico aqui com minha cegueira, enquanto fica ele lá com sua visão 3D, 20 por 20, de 360 graus. 
      Em todo caso, estou aqui agendado para marcar uma consulta, tão logo acabe o tal "isolamento", com meu querido amigo Héverson Paranaguá da Paz, oftalmologista de primeira linha, a fim de me avaliar a vista. Sim, porque, segundo este senhor, meu campo de visão está restrito. Enxergo como um míope astigmático cuja ptose palpebral quase não lhe permite deixar entrar a luz exterior. 
      Outro dia foi um amado e querido amigo-irmão, o Gaudêncio, que me diagnosticou visão "turva", e isso sem falar no amigo psiquiatra Danúzio Carneiro, que me alcunhou de "abestado", justamente como me senti ao ler o comentário acima. Segundo o Danúzio, minhas análises políticas seriam destituídas de "fôlego teórico", o que, para bom entendedor, significa que o mundo real precisa, necessita, almeja, anela e não sobrevive sem uma penca de teorias que suportem trinta a quarenta minutos debaixo d'água. Devo dizer, inevitável é: o amigo Danúzio é um comunista de carteirinha e sindicato e, assim como todo comunista que se preza, adora teorias e filosofias onde surfa suas sandices absolutamente fora do mundo real. 
     Em todo caso, concluo que é imperioso manter vigilância sobre si mesmo "com a mente esperta, a espinha ereta, e o coração tranquilo", a fim de se auto-dignosticar não a visão turva, não a visão restrita, não as etéreas ideias cuja materialização no mundo real fosse insano e trouxessem mortes e miséria; mas a própria capacidade de não se deixar pensar com base nos fatos e no mundo real e, principalmente, não pensar com a manada. Diz o chavão que "quem pensa com a manada não precisa pensar". Eis aí tudo — nunca, jamais, em tempo algum foi tão necessário pensar. Aos dias de hoje, mais do que em qualquer tempo, quero crer, pensar é uma necessidade vital e imperiosa.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O TRAJE ESPACIAL DO MESQUITA

Desapareceu o Mesquita. Depois de uma intensa e ativa presença na rede social, o homem sumiu. Explico.
Ou melhor, não explico. Direi apenas o que todos já sabem.
Aos dias de hoje a realidade compreende a vida real e a vida virtual. As coisas acontecem em ambas. Até crimes são iniciados e perpetrados na rede social. Tudo certo, tudo planejado, o único trabalho do criminoso é estar na hora e lugar certos para dar o tiro na cara da vítima. Se for negócio de roubo é mais fácil – tudo se resolve na rede social mesmo. Namoros nem se fala. Casamentos então...
 Pois o Mesquita fazia dias se apresentava na rede social com um grupo de casais amigos em farras diárias. Era uma bebedeira medonha e os bebuns se entrelaçavam em abraços e canções melosas. As senhoras, mulheres esposas daqueles varões, aparentavam mais bêbadas que seus maridos. A certa altura pareceu que o grupo de mulheres imitava as chacretes. (Somos do tempo das chacretes, se não sabem.) Uma das esposas lembrava muito a Verinha Furacão; outra era a cara da Fernanda Terremoto; já outra seria a Sarita Catatau em carne e osso. Por fim, jurei estar diante da famosíssima Rita Cadillac. Parecia que estavam em hotel de praia, desses providos de um deque onde os hóspedes se confraternizam ao ar livre. O grupo do Mesquita mais do que confraternizava – enchia a cara mesmo.
Foi em fevereiro último, começo de março, não me recorda bem. Quatro ou cinco dias se seguiram com a pilhéria, com a algazarra, com o rega-bofe. Os amigos, os que não haviam ido, já se enchiam de inveja por lá não estarem também. Alguém reivindicou: –“Não me chamaste”! Mesquita teve tempo de largar de lado o copo extravasando de cachaça para retrucar: –“Eu convidei”! E enfatizava: –“Prest’enção”!
Passados quatro ou cinco dias, parou a chacota na rede social. Soubemos, assim, que a marmota chegara ao fim. E foi aí que teve início o exílio do Mesquita. Não demorou para tudo ficar claro.
Acontecia precisamente o seguinte. Ao início de março o país tomou consciência da chegada do vírus chinês, justamente ao momento do término da função em que o Mesquita se metera com os amigos e suas respectivas chacretes, numa coincidência temporal perfeita. Eis aí tudo. Alguém dirá: –“Sim, mas... e daí”? Abro um parêntese a fim de contextualizar a história.
Aos que não se recordam e aos que não conhecem o Mesquita, direi o seguinte – o homem é um pouco hipocondríaco. (Bem, não acho que o homem seja um hipocondríaco nato, já que tem um certo prazer em estar doente, desde que seja uma doencinha boba, dessas que a cura é certeza.) Relatei aqui vários e vários episódios de sua vida que permitem a todos que o conhecem constatar tal aspecto de sua personalidade. Para se ter uma ideia, quero crer que o homem ainda esteja acometido por uma onicomicose que trata, sem muito sucesso, há uns... sei lá... vinte anos. O fungo, que está com meu Mesquita há tanto tempo, já é considerado parte dele, como se fosse um tecido extra na composição corporal do amigo-irmão. O Mesquita tem, ao contrário de todo ser humano, 5 tipos diferentes de tecidos, que são o epitelial, o conjuntivo, o muscular, o nervoso e, em seu caso especial mais um, o tecido micótico. Vejam que o homem é uma espécie de wolverine bebedor de um copo de liquidificador matinal, de mutante devorador compulsivo de uma baguette française inteira, ou de um ser involuntariamente simbiotizado e perfeitamente adaptado a seu novo estado. (Sim, outra característica do Mesquita é o apetite voraz. Sempre foi assim, mas “piorou” após a tal simbiose aparentemente definitiva. A suspeita é que seu tecido micótico tenha elevado metabolismo necessitando, assim, de calorias extras. A prova cabal do que falo é que o homem nada engorda, a despeito da elevada ingesta de calorias e nutrientes.) É verdade também que o homem fez várias tentativas de matar o bicho, como disse antes. Contudo, como resistisse às doses mortais dos antifúngicos administrados, Mesquita concluiu, ao contrário do que pensou ao início, ser este mais um bichinho de estimação, uma espécie de dádiva ou de marca personalizada. Seria uma tatuagem biológica, por assim dizer...
Mas falo, falo, falo e não vou ao ponto. Continuemos.
Com a suspeita de que o vírus chinês já andasse por essas paragens bem mais cedo do que se supunha, caiu a ficha do Mesquita – ele poderia ter sido contaminado no agarra-agarra do rebuliço! Sabe-se lá! Eram uns abraços calorosos, melosos, roçados...! Além disso, era um povo que viaja muito, sabe-se lá... as suspeitas faziam o homem coçar o queixo de preocupação. Na dúvida, que fez ele? Sumiu. Até da rede social sumiu. Suspeito que dona Rejane, sua chacrete, digo, sua esposa, não o encontrasse nem mesmo em seu majestoso e espaçoso lar. É possível que tenha se trancafiado num de seus inúmeros aposentos e lá permanecido ninguém sequer suspeita por quanto tempo.
Por fim, vários dias depois, seu silêncio sepulcral foi interrompido e ele finalmente apareceu para confessar que estivera de quarentena antes mesmo de a oficial ter sido decretada. De minha parte a apreensão era tanta que lhe enviei uma mensagem de felicidade: –“Mesquita, estás bem? Tudo certo contigo e com dona Rejane? E como vai Bolorzinho? Está bem”? (Bolorzinho é como chamamos sua micosezinha ungueal no dedão do pé esquerdo, acho...) Depois de garantir que todos estavam bem pedi encarecidamente que enviasse para nós uma foto sua em seu traje espacial antivírus chinês.
Ele ficou puto e não me respondeu até hoje.

O PÂNICO É... O PÂNICO!


Faz anos comentei algo sobre a rede social. Não, não... não foi sobre a rede social, mas sobre o povo que está, com alta frequência ou baixa frequência contínua, na rede social (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/search?q=sejam+burros). Cada um faz de seu precioso tempo o que quer e bem entende, foi a conclusão óbvia e inexorável a que chegamos. Existiria outra? Sei lá... Quanto mais passa o tempo, menos sei sobre qualquer coisa. O conhecimento sobre o que quer que seja implica numa pesada, perene e severa responsabilidade, parafraseando Nelson Rodrigues.
O diabo é a constatação da ascendência, na rede social, de muita gente “sabida”. Diria até – sei que não é bem por aí, mas vá lá – que está a cumprir-se a profecia bíblica que diz “...e a ciência se multiplicará”. O grande problema é que há muita “ciência” se multiplicando, de modo que o excesso de informação está a gerar angústia nos mais sensíveis corações. Vejam, por exemplo, a pandemia do corona, o vírus com coroa... No momento em que escrevo teria uma denominação mais apropriada a lhe dar. Apropriada não por meu próprio – e impróprio! – julgamento, mas por traduzir exatamente o momento em que vivemos. Chamá-la-ia pandemia do pânico. Ora, o pânico todos sabem... Como bem definiria o meu querido e sumido amigo Mauro Oliveira, o pânico é... o pânico (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2012/08/nao-vai-dar-tempo-nao-vai-dar-tempo.html).
Chamemos uma mãe a fim de tentar explicar o que faz o pânico. Definições são mais compreensíveis quando se desenha um cenário possível. Digamos que essa mãe tem seu filho menor sequestrado e o sequestrador está lhe ordenando que lhe pague... sei lá... vinte mil reais. Caso contrário, matará a criança da forma mais cruel possível. Imaginemos um sequestrador barato, que pense pequeno, vindo lá das bandas de Sobral. (Ora... não se agastem comigo os amigos filhos da “princesa do norte”, com minúsculas mesmo, mas os preços por lá beiram a vileza. Estão a se vender a preço de banana...)
Claro está que o cenário desenhado mostra uma manipulação onde se coloca a uma mãe a possibilidade da morte de seu filho caso ela não aja de acordo com a manipulação do criminoso. A criança está fora de seu controle. Como se chama o que sente essa mãe diante desse terrível quadro?
Pois isso é o que está posto ao mundo. Sequestraram a segurança mundial com a ameaça de um incontável número de mortes, indistintamente do local acometido. Pregam um uniformitarismo no comportamento viral, como se este agente mantivesse as mesmas características de contagiosidade independentemente da região do globo.  Ainda que várias autoridades médicas tenham explicado que não necessariamente seria assim em território nacional (https://youtu.be/3y6biEVCQc4), o sequestro da segurança dos que leem/assistem vereditos opostos é fato. Outras autoridades, em campo na luta contra este novo agente, estão a usar protocolos de tratamento vitoriosos contra a infecção e os comunicaram ao Ministério da Saúde. O que ocorreu? Absolutamente nada. Estes senhores têm sido categoricamente desprezados pelas mais elevadas autoridades de saúde do país(https://www.cultseraridades.com.br/mandetta-esta-errado-entrevista-com-paolo-zanotto-virologista-da-usp/).
É perfeitamente compreensível que a incerteza traga insegurança. Contudo, quando as evidências começam a se acumular, ainda que em curto espaço de tempo, em favor da injustificabilidade das medidas até então adotadas com base na incerteza reinante até então, a irracionalidade é a única explicação possível para a manutenção uniforme de tais medidas.
(Dan Ariely, em seu “Previsivelmente Irracional”, explica, também através de evidências derivadas de estudos comportamentais do ser humano em situações reais do dia-a-dia que, ao contrário do senso comum, somos um poço de irracionalidade.)
A irracionalidade é irmã gêmea da emoção, o que seria uma explicação bem à mão para que alguns, aparentemente a maioria, não lançasse mão do conhecimento adquirido e acumulado sobre o que lhes causa medo. Temos medo do que não conhecemos, seria uma outra maneira de expressar tudo isso. Ou, ao invés disso, não se pode descartar a hipótese de que haja um ilegítimo e criminoso interesse em manter, dolosamente, o presente estado de pânico. Uma amiga, que é enfermeira há quase cinquenta anos, quando comentei sobre os referidos dados animadores, me falou: –“Prefiro acreditar nas autoridades ‘constituídas’”... Ela esquece que a “autoridade constituída” está a mostrar-se hesitante e, pior, dolosamente cega às evidências de campo e epidemiológicas que lhe foram encaminhadas. A intenção dos guerreiros e estudiosos é levar soluções e, através delas, trazer conforto, esperança e, mais importante, o controle da pandemia em território nacional com a cura dos acometidos e salvamento de vidas.
A hipótese da ilegítima, dolosa e criminosa omissão e desprezo por parte dessas “autoridades constituídas” às evidências não é uma “teoria conspiratória” irresponsável e lunática, quando todos sabem do massivo interesse de núcleos poderosos do governo – quando digo “governo” me refiro aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário – em apear do poder o Presidente da República. (Vejam o uso excessivo da palavra “poder”, donde se conclui que há muito em jogo.) Esse interesse é cada vez maior quanto mais próximo ele estiver de ser bem-sucedido em suas intenções para o país. Isso implicaria em perda de privilégios inconstitucionais, endurecimento da lei para esses privilegiados, fim ou retardamento de seus projetos de poder, e por aí vai. Imaginem aí se o governo consegue controlar com êxito, e sem contribuir para a perda de vidas, essa pandemia em território nacional. O que seria dessa turma que se lhe opõe ferozmente?
A amiga que prefere a “autoridade constituída” está dizendo, como disse Nelson Rodrigues numa de suas tiradas espetaculares, “se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. Junto a ela estão a fazer coro milhões de brasileiros. Bem se vê que diploma e racionalidade podem, sim, perfeitamente, ser coisas mutuamente exclusivas. As amostras do Dan Ariely tinham pessoas com diferentes graus de escolaridade, como parece ser óbvio, o que permite a qualquer um de meus pouquíssimos leitores a me ter na conta de um perfeito imbecil. Paciência... quem escreve põe a cara a tapa.

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...