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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sejam burros!

            De outra feita eu dizia que o sujeito hoje em dia vai ao toalete  e, incontinenti, publica o notável ato na rede social. Um amigo comentou: "-Veio para ficar, e já se incorporou ao cotidiano de muita gente!" E arrematou: -"Nós, por exemplo!" O diabo é que, para anunciar os perigos e criticar a exposição excessiva das pessoas na rede social, é necessário estar na rede social. Nada mais lógico – está todo o mundo lá! Seria uma estupidez de quem pretende tais intentos ir anunciá-los no aterro sanitário. Somente os urubus que, ao que me conste,  não estão inscritos na rede social, ouviriam o bem intencionado arauto. 
          De fato, há pessoas que gastam seu dia na rede social. Para elas a rede veio para ficar e faz parte de seu cotidiano. Meu amigo está coberto de razão em sua constatação. Já ao afirmar que, para "nós", a rede faz parte do cotidiano, equivocou-se redondamente o amigo.
           "Nós" é a primeira pessoa do plural de uma conjugação verbal. Inclui alguém e "eu". Então, venho informar em alto e bom som: "eu" não tenho a rede social como parte de meu cotidiano. Há dias que nem lá vou. Aliás, a rede social, em minha humílima opinião, é, sob todos os aspectos, um pé no saco. Que me desculpem os amigos apreciadores da fruta, mas questão de gosto não se discute. E até se discute, sim, mas não haverá possibilidade de acordo que não seja a aceitação do outro com seus caprichos e idiossincrasias. Assim, mais uma vez anuncio em alto e bom som: estou mais para um old fashioned guy que aprecia a conversa olho no olho ao vivo e a cores. Quem não tem tempo, ou não pode, ou não quer, paciência. Que fiquem na rede social.
          E não me venham de lá os afoitos afirmar que lá posto meus textos, como se quisessem me acusar de incoerência. Não o será. Essa é uma das poucas utilidades da rede social – a divulgação de algo. E mesmo assim confesso – não é sem um certo grau de arrependimento que faço tal divulgação. 
          A rede social tem muita gente sabida, "inteligente", "entendida". Essa gente tudo combate, tudo complica, tudo empanca, tudo dificulta. E se se reclama de sua agressividade, insensibilidade e insensatez, o que diz essa gente? Diz o óbvio. Diz que a gente não tolera "críticas". Assim, já começo a pensar seriamente em evitar a divulgação de qualquer coisa, desde um anúncio de sabonete a um conto humorístico. Outro dia postei  um texto onde relatava um hilário episódio ocorrido com um amigo – algumas dessas pessoas sabidas demais fez beicinho e cara feia. Pior pra elas. Municiaram-me com mais temas para escrever. 
          Assim, antes de parar de postar na rede social digo a essa gente sabida o que Nelson Rodrigues dizia aos então novos e "entendidos" diretores de teatro: -"Sejam burros! Sejam burros!"

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O PÂNICO É... O PÂNICO!


Faz anos comentei algo sobre a rede social. Não, não... não foi sobre a rede social, mas sobre o povo que está, com alta frequência ou baixa frequência contínua, na rede social (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/search?q=sejam+burros). Cada um faz de seu precioso tempo o que quer e bem entende, foi a conclusão óbvia e inexorável a que chegamos. Existiria outra? Sei lá... Quanto mais passa o tempo, menos sei sobre qualquer coisa. O conhecimento sobre o que quer que seja implica numa pesada, perene e severa responsabilidade, parafraseando Nelson Rodrigues.
O diabo é a constatação da ascendência, na rede social, de muita gente “sabida”. Diria até – sei que não é bem por aí, mas vá lá – que está a cumprir-se a profecia bíblica que diz “...e a ciência se multiplicará”. O grande problema é que há muita “ciência” se multiplicando, de modo que o excesso de informação está a gerar angústia nos mais sensíveis corações. Vejam, por exemplo, a pandemia do corona, o vírus com coroa... No momento em que escrevo teria uma denominação mais apropriada a lhe dar. Apropriada não por meu próprio – e impróprio! – julgamento, mas por traduzir exatamente o momento em que vivemos. Chamá-la-ia pandemia do pânico. Ora, o pânico todos sabem... Como bem definiria o meu querido e sumido amigo Mauro Oliveira, o pânico é... o pânico (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2012/08/nao-vai-dar-tempo-nao-vai-dar-tempo.html).
Chamemos uma mãe a fim de tentar explicar o que faz o pânico. Definições são mais compreensíveis quando se desenha um cenário possível. Digamos que essa mãe tem seu filho menor sequestrado e o sequestrador está lhe ordenando que lhe pague... sei lá... vinte mil reais. Caso contrário, matará a criança da forma mais cruel possível. Imaginemos um sequestrador barato, que pense pequeno, vindo lá das bandas de Sobral. (Ora... não se agastem comigo os amigos filhos da “princesa do norte”, com minúsculas mesmo, mas os preços por lá beiram a vileza. Estão a se vender a preço de banana...)
Claro está que o cenário desenhado mostra uma manipulação onde se coloca a uma mãe a possibilidade da morte de seu filho caso ela não aja de acordo com a manipulação do criminoso. A criança está fora de seu controle. Como se chama o que sente essa mãe diante desse terrível quadro?
Pois isso é o que está posto ao mundo. Sequestraram a segurança mundial com a ameaça de um incontável número de mortes, indistintamente do local acometido. Pregam um uniformitarismo no comportamento viral, como se este agente mantivesse as mesmas características de contagiosidade independentemente da região do globo.  Ainda que várias autoridades médicas tenham explicado que não necessariamente seria assim em território nacional (https://youtu.be/3y6biEVCQc4), o sequestro da segurança dos que leem/assistem vereditos opostos é fato. Outras autoridades, em campo na luta contra este novo agente, estão a usar protocolos de tratamento vitoriosos contra a infecção e os comunicaram ao Ministério da Saúde. O que ocorreu? Absolutamente nada. Estes senhores têm sido categoricamente desprezados pelas mais elevadas autoridades de saúde do país(https://www.cultseraridades.com.br/mandetta-esta-errado-entrevista-com-paolo-zanotto-virologista-da-usp/).
É perfeitamente compreensível que a incerteza traga insegurança. Contudo, quando as evidências começam a se acumular, ainda que em curto espaço de tempo, em favor da injustificabilidade das medidas até então adotadas com base na incerteza reinante até então, a irracionalidade é a única explicação possível para a manutenção uniforme de tais medidas.
(Dan Ariely, em seu “Previsivelmente Irracional”, explica, também através de evidências derivadas de estudos comportamentais do ser humano em situações reais do dia-a-dia que, ao contrário do senso comum, somos um poço de irracionalidade.)
A irracionalidade é irmã gêmea da emoção, o que seria uma explicação bem à mão para que alguns, aparentemente a maioria, não lançasse mão do conhecimento adquirido e acumulado sobre o que lhes causa medo. Temos medo do que não conhecemos, seria uma outra maneira de expressar tudo isso. Ou, ao invés disso, não se pode descartar a hipótese de que haja um ilegítimo e criminoso interesse em manter, dolosamente, o presente estado de pânico. Uma amiga, que é enfermeira há quase cinquenta anos, quando comentei sobre os referidos dados animadores, me falou: –“Prefiro acreditar nas autoridades ‘constituídas’”... Ela esquece que a “autoridade constituída” está a mostrar-se hesitante e, pior, dolosamente cega às evidências de campo e epidemiológicas que lhe foram encaminhadas. A intenção dos guerreiros e estudiosos é levar soluções e, através delas, trazer conforto, esperança e, mais importante, o controle da pandemia em território nacional com a cura dos acometidos e salvamento de vidas.
A hipótese da ilegítima, dolosa e criminosa omissão e desprezo por parte dessas “autoridades constituídas” às evidências não é uma “teoria conspiratória” irresponsável e lunática, quando todos sabem do massivo interesse de núcleos poderosos do governo – quando digo “governo” me refiro aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário – em apear do poder o Presidente da República. (Vejam o uso excessivo da palavra “poder”, donde se conclui que há muito em jogo.) Esse interesse é cada vez maior quanto mais próximo ele estiver de ser bem-sucedido em suas intenções para o país. Isso implicaria em perda de privilégios inconstitucionais, endurecimento da lei para esses privilegiados, fim ou retardamento de seus projetos de poder, e por aí vai. Imaginem aí se o governo consegue controlar com êxito, e sem contribuir para a perda de vidas, essa pandemia em território nacional. O que seria dessa turma que se lhe opõe ferozmente?
A amiga que prefere a “autoridade constituída” está dizendo, como disse Nelson Rodrigues numa de suas tiradas espetaculares, “se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. Junto a ela estão a fazer coro milhões de brasileiros. Bem se vê que diploma e racionalidade podem, sim, perfeitamente, ser coisas mutuamente exclusivas. As amostras do Dan Ariely tinham pessoas com diferentes graus de escolaridade, como parece ser óbvio, o que permite a qualquer um de meus pouquíssimos leitores a me ter na conta de um perfeito imbecil. Paciência... quem escreve põe a cara a tapa.

domingo, 10 de maio de 2015

O JORNAL NÃO CHORA

          Depois de um alargado lapso de tempo, volto a abrir um jornal.
          Inúmeras vezes escrevi sobre minha repulsa à imprensa local, seja ela a falada, a televisada ou a escrita. Sobre ela pesam seriíssimas acusações de minha parte, a mais grave delas a tendenciosidade. Seja por coincidência ou oportunismo, seja por pusilanimidade, a imprensa local é tudo, menos independente. Se por coincidência e oportunismo, explica-se pelo fato de o país estar sendo governado pelas esquerdas; se por pusilanimidade, explica-se por seus afagos aos governantes de plantão, sejam eles quem forem. Prefiro pensar que nossa imprensa é ao mesmo tempo oportunista e cobarde. Se pensarmos seriamente, os danos causados ao país por esse tipo de imprensa são bem maiores que o mal causado pelos maus agentes públicos que ela encobre em suas matérias superficiais, incompletas e vazias.
          Devo dizer que é justamente esse tipo de matéria, abordando superficialmente tema de importância capital, o que me arrisca a passar, mais uma vez, as páginas de um jornal. Por exemplo, o caso da renúncia do Secretário de Saúde do Estado do Ceará, Carlile Lavor. Segundo os jornais, ele saiu porque se sentiu incapaz de “coordenar” os profissionais que integram o órgão. Ele disse: –“A Saúde tem vários problemas e é essencial que haja uma 'coordenação' muito tranquila para levar adiante as ações”.
          (Sempre que me vejo envolto nas sombras da ignorância, corro ao pai-dos-burros a fim de dela escapar, mesmo que aparentemente a matéria pareça fácil. Minha limitada inteligência me prega frequentes peças e ai de mim se não fosse um sujeito “esforçado”!...)
          Fui, então, pesquisar o que é, afinal, “coordenar”. Encontrei o seguinte – coordenar é reunir ou dispor segundo uma certa ordem, de modo a formar um conjunto organizado ou a atingir um determinado fim. Ora, se o Secretário de Saúde do Estado não teve o poder de pôr ordem na casa a fim de atingir o fim a que se propunha, das duas uma – não havia consenso quanto à meta ou faltou-lhe poder mesmo. De fato, é tudo uma coisa só. Caso tivesse carta branca do excelentíssimo governador, teria o poder de estabelecer a meta e as ações a serem executadas para atingi-la, e quem na equipe não estivesse de acordo estaria fora.
          O diabo é que, por mais que faça nossa marrom imprensa para encobrir os fatos por trás dos fatos, os aparentemente tortuosos fatos por ela narrados não são nada tortuosos. É ela própria quem procura entortá-los a fim de esconder o que não é possível esconder. Nossa imprensa se utiliza em demasia do eufemismo. Faz parte de suas entranhas minimizar ou mitigar a importância nos fatos daquilo que sobre eles tem suma importância. Eis aí um de seus mais graves pecados e o que a torna uma vergonha para nós.
          Alguém dirá que a imprensa fez o seu papel, o de informar. Afinal, o Secretário afirmou na entrevista: –“Foram mais problemas técnicos que políticos. Já sabia dos problemas quando assumi. Não consegui fazer com que a equipe trabalhasse de forma coesa”. Com efeito, o homem seguramente não está sendo claro o bastante, mas é justamente aí, na falta de clareza do entrevistado, que o repórter precisa instigá-lo, provocá-lo, incitá-lo. Ao deixar de fazê-lo, estará se recusando a melhor informar, estará renegando seu papel, estará sendo parcial. Se ao provocar o entrevistado não conseguir dele tirar a informação que busca, tem o repórter o dever de lucubrar o que paira às entrelinhas de seu discurso e deitar ao papel as possibilidades de seu significado. Ao deixar de fazê-lo, aceita pouco dos fatos acabando por omiti-los, como na referida matéria.
          Ainda sobre a matéria, fica clara a situação caótica da Saúde no Estado, em grande parte devida à redução do orçamento da pasta aliada à “evolução das demandas”. Fico a me perguntar se o doutor Lavor não saiu porque em seu íntimo sabe que é virtualmente impossível se fazer alguma coisa por ela a partir do patamar em que as coisas estão. A consciência de um homem de bem é seu maior e mais austero juiz; não permitirá jamais que ele se alinhe com o mal, com o erro, com o engano. Talvez, e aqui estou eu a lucubrar, o doutor Lavor saiba das palavras de Einstein – “a solução de um problema complexo não está no mesmo nível em que ele foi criado” – e tenha a plena certeza de que está diante de um problema complexo o bastante para merecer uma solução que está noutro patamar. Percebendo que dispunha apenas de “soluções” paliativas, aquelas possíveis em nosso baixo nível político, e vislumbrando a quimera das soluções reais e verdadeiras, somente possíveis na nação que escolheu homens públicos de bom caráter e comprometidos com a solução dos graves problemas da população, escolheu sair. Entre fazer a política do faz-de-conta e o gozar da paz de sua consciência, preferiu a segunda. Não seria capaz de suportar seu dedo acusador a incriminá-lo pelo sofrimento e pela morte de seus concidadãos oprimidos por um governo irresponsável e incompetente.
          No portal do jornal a manchete diz: “Homem mata filho viciado em drogas no Interior”. Três pequenos parágrafos no desenvolvimento da matéria demonstram claramente que a mesma foi feita a partir de um telefonema de alguém, talvez o bodegueiro do “interior”. O cerne da questão não importa. O jornal não chora nem dá a mínima para o drama e o sofrimento humanos.
          

terça-feira, 12 de julho de 2011

Um cruel e mau sistema

Outro dia escrevi sobre uma idéia que cada vez mais se dissemina e – pior! – cada vez mais se torna crível: não há o mal (O pior mal é o que não existe, 14.05.2011). Dia após dia torna-se uma certeza maior: não há o mal. Particularmente entre nós, neste país de desvarios, cresce, imbatível, a certeza: não existe o mal. Todavia, há pior. Como já disse, há pior.  
            Darei exemplo. Na prática médica em certo hospital municipal, pisam-se os fundamentos, as evidências, os tratados e se pratica a pior medicina possível. Por quê? Porque, segundo a torpe idéia da inexistência do mal, não há a boa nem há a má prática. Simplesmente há uma determinada forma de praticar medicina que está acima – ou abaixo – de qualquer julgamento, acima – ou abaixo – de qualquer crítica, acima – ou abaixo – de qualquer juízo. Uma vez que não há o bem nem o mal, está tudo, todo e qualquer descalabro, desprovido de vulnerabilidade.
            Irei além, mas antes direi dos sistemas. O que seria um sistema? Há vários conceitos, e para meus propósitos pouco pacíficos recorrerei ao pai dos burros em dois deles. Um é conceito extremamente amplo: um sistema é um conjunto de elementos (concretos ou abstratos) interligados e que funciona como um todo estruturalmente constituído. O outro me vem a calhar para o que pretendo demonstrar: um sistema é um conjunto de estabelecimentos e instalações de um determinado setor de atividade ou de serviço.
            Admitamos que haja um bom e um mau sistema numa determinada atividade, ainda que queiram me fazer acreditar no contrário. Qual a diferença entre eles? Eu diria que o mau sistema não alcança, ou alcança minimamente, o efeito, ou resultado, ou fim pretendido, razão de ser do sistema. Direi mais: no mau sistema se obtém o oposto do fim desejável e desejado. No mau sistema os elementos funcionam em desarmonia e desconectados uns dos outros. Ainda que seus elementos sejam de excelente qualidade, eles são desarmônicos. Em outras palavras, o mau sistema não diz ao que veio.
            Eis aí o sistema que está a operar no hospital municipal ao qual me refiro. Há, em seu cerne, um mau sistema. E quando está a operar um mau sistema dentro de uma casa de saúde, padecem seus doentes de duas doenças: a sua própria e a do hospital onde estão. Os resultados são opostos aos pretendidos. Deturpam-se os meios, deturpam-se os fins.
            Falando-se assim em sistema, tem-se a impressão de que seus elementos são peças, máquinas, objetos inanimados; que não há nada de humano inerente a ele. Ledo engano. No sistema que opera ao centro do hospital o ser humano é a peça sine qua non. Afinal, o sistema tem a missão maior de aliviar o sofrimento de seres humanos padecentes de males – há males? – que os afligem.
            Admitamos, agora, que se aceite a idéia que se tenta incutir obsessivamente em nossas mentes, a de que não há o mal nem o mau. Se não há o mau sistema, é uma insânia desatada acreditar que ele funcione no âmago de certa casa de saúde. Deve ser maluco ou idiota o sujeito que avente tal possibilidade.
            Mas há algo aqui que não se tem levado na devida conta. Há, no fundo de cada ser humano parte daquele vil sistema, uma autoconsciência. E é ela quem está a sussurrar ao ouvido das razões que os levaram a querer estar ali, labutar ali; e que, sim, existe o bem e o correto; e que, sim, o sistema está podre; e que, sim, o sistema está prejudicando os usuários como jamais lhe deveria ser permitido fazer; e que, sim, o sistema deve ser substituído.
            Levantemos, por fim, a seguinte e negra hipótese, a de que não exista a tal autoconsciência, já que ela parece ser algo relacionado ao bem e ao que é bom, idéia completamente inaceitável no presente. (Se não há o mal, não há também o bem.) Se não existe a autoconsciência, não há nenhuma voz a sussurrar. As pessoas estão ali não sabem por qual razão, e o sofrimento de um semelhante não lhes diz respeito e é apenas uma contingência normal e trivial da vida. A se confirmar tal eventualidade, paira no ar, então, a indagação: para que existir o hospital que não alivia, se não há o mal, nem a dor, nem o sofrimento? Serão apenas sádicos a perpetrar seus experimentos?
            Cresce em mim a esperança de que se privam momentaneamente de sua audição apenas para não sofrer aos gemidos da agonia que se alastra, a torturá-los dia após dia. Não é fácil carregar aos ombros o peso da cumplicidade.

terça-feira, 21 de abril de 2015

ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES FUTEBOLÍSTICAS

Já nem queria mais discorrer sobre futebol ou assuntos a ele relacionados, ainda que muito me divirta com os cenários descritos de seres humanos completamente alucinados por este esporte tão comum e popular. Todavia, escreveu-me o Gaudêncio, amigo imensamente amado e lúcido, discordando de minhas palavras e idéias expostas nos textos anteriores. Longe de mim pretender angariar seguidores ou discípulos, até porque para os ter seria necessário tornar-me mestre ou coisa que o valha, coisa que não sou. Ainda bem que existem os que discordam, os teimosos e os burros.
A discordância de meu amigo é basicamente a seguinte. A felicidade da torcida do Ceará no circo do futebol vem a bem de sua saúde. Em outras palavras – quem é feliz tem saúde, como ele, que é Ceará; e quem é infeliz é doente, como o Sérgio Moura ou o Luís Junior, que torcem pelo Fortaleza. Diz mais – que todos podem escolher se querem ser feliz ou não, arbitrando torcer pelo time que lhes traz alegria ou tristeza. Em suma, meu amigo sugere, com a cara mais deslavada do mundo, que os torcedores que estejam a sofrer em demasia virem a casaca. Admitem-se, pela sua lógica, os que são indiferentes: ou torçam pelo Icasa ou pelo Ferroviário. Esquece o amigo que o futebol, como qualquer esporte, ou até mesmo a vida, é como a cópula - uma hora se está por cima, noutra se está por baixo, o que permite concluir que um dia se é triste noutro se é feliz, ou que um dia se é o touro noutro se é a vaca.
Ele discorda que todos os torcedores sejam apaixonados ou baderneiros. Só uma parte o é. De fato, só alguns torcedores saem a quebrar objetos ou agredir pessoas. Com efeito, só alguns torcedores isolam-se à distância a se fazerem inacessíveis à galhofa alheia.
A classificação do Ceará tem tido um impacto tão grande na capital que hoje à tarde, na 87ª sessão legislativa da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, o deputado Dedé Teixeira do PT, do púlpito tendo ao fundo uma enorme bandeira do Ceará, discursou sobre o feito. Até então julgava eu que ali se debatiam assuntos de elevado teor para os cidadãos cearenses. Não parece ser esse o caso.
Resta-nos agora aguardar o dia da troca – quem ficará por cima e quem ficará por baixo. Ou quantos ficarão por cima e quantos ficarão por baixo. Todas as combinações são possíveis. Nada dura para sempre. Nem as estrelas.

Fernando Cavalcanti, 25.11.2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

LIBERDADE OU SEGURANÇA?

          Diz o Robert Kiyosaki que liberdade e segurança são mutuamente exclusivas. Sim, uma exclui a outra. Não é possível gozar de ambas ao mesmo tempo. Ou se tem liberdade, ou se tem segurança. Quanto maior a liberdade, menor a segurança; quanto menos liberdade, mais segurança. Exemplificou a questão utilizando-se dos detentos em cadeias. Encarcerados, gozam de toda segurança do mundo. Têm toda segurança, mas perderam toda liberdade. (Óbvio é que o exemplo do Kiyosaki só se aplica a detentos de cadeias de primeiro mundo.) 
          A incompatibilidade entre liberdade e segurança foi descrita por Kiyosaki no contexto das finanças pessoais. As pessoas que querem segurança arrumam um emprego seguro com o salário certo no fim do mês. Obtêm segurança, mas sua liberdade está restrita àquilo que seu salário pode prover. Já aquelas que querem uma renda maior e liberdade financeira arriscam-se a montar negócios próprios – abdicam da segurança – a fim de obter fluxos de caixa ilimitados.
          Lembrei do Kiyosaki hoje, ao ler dois textos. Um me chegou por correio eletrônico. Dei de cara com o outro quando fui, sei lá por que cargas d'água, bisbilhotar o portal do péssimo jornal O Povo. (Mais abaixo verão que foi um pouquinho diferente.) Um dos textos disserta sobre a necessidade de aumentar a segurança, sob pena de haver mais derramamento de sangue em ataques terroristas, ao passo que o outro demonstra o temor de seu autor de que se percam as "liberdades democráticas" justamente pela criação de leis mais rígidas na intenção de manter a segurança. 
          O autor do primeiro texto é o delegado da Polícia Federal, Marcelo Itagiba. Ele conclama a urgente criação de uma lei capaz de prevenir ataques terroristas em solo brasileiro nas Olimpíadas de 2016 através da captura antecipada de pessoas que sejam flagradas planejando tais crimes (http://oglobo.globo.com/opiniao/lei-contra-terrorismo-18106967). Itagiba encerra dizendo: "É melhor prevenir do que chorar". O autor do outro ensaio é o jornalista local Plínio Bortolotti, que teme danos à democracia no enfrentamento do extremismo (http://www.opovo.com.br/app/colunas/menupolitico/2015/11/21/noticiasmenupolitico,3536302/como-enfrentar-o-extremismo-sem-ofender-a-democracia.shtml). Para tal, nada sugere. Limita-se a concluir que a solução para a questão não é fácil e alerta a que se rejeitem as soluções "simplórias".
          Enquanto o senhor Itagiba, que por sinal é judeu, sugere solução prática, o outro nada sugere; perde-se num blá-blá-blá medonho sem dizer ao que veio. Minto. Ele tem um propósito, sim. Diz ele: "Portanto, o desafio para os países democráticos é combater o terrorismo ao mesmo tempo em que preservam a liberdade e os fundamentos da democracia, pois a extrema-direita vai reivindicar medidas que porão em risco esses princípios." Vê-se que, para o senhor Bortolotti, já temos um culpado para alguma coisa que ainda não aconteceu: – a extrema-direita. (Coitada da extrema-direita... já é apontada como responsável pelas soluções que propor-se-ão.) O propósito deste senhor é culpar o capitalismo. 
          O senhor Itagiba diz o seguinte: "Um projeto de lei aprovado recentemente no Senado e enviado à Câmara Federal não criminaliza os chamados atos preparatórios de terrorismo, como entende necessário a Policia Federal e autoriza o Código Penal, desde que expresso em lei e em caso excepcional. A ação antecipada contra a articulação criminosa que resultará em ato terrorista, assim como a previsão de punição para os seus articuladores, é indispensável à contenção dos atentados contra a humanidade."
          Vejam os leitores que meu encontro com os tais ensaios foi absolutamente fortuito. (Na verdade não foi tão fortuito assim. O encontro do artigo do senhor Bortolotti foi um "acaso proposital", por assim dizer. Procuro ler-lhe os descalabros sempre que posso, e ainda bem que esse sempre é quase nunca. Ele é um comunistinha de meia tigela, de modo que me deleito em ler as cretinices que escreve. Seu enrustimento em relação à festiva não resiste a uma busca nos sites de busca. Publica textos em portais comunistas que ainda vociferam contra o imperialismo ianque e oferecem para download as obras completas de Karl Marx, Engels e Lênin. É preciso cada vez mais conhecer o que passa pela cabeça dessa gente. São aparentemente muito inteligentes, mas só aparentemente. É necessário ter atenção a seus argumentos e colocações. Utilizam-se amiúde de evidências anedotais contundentes que podem nocautear o mais desavisado.)
          Assim, a dupla de textos, escrita quase que no mesmo dia, vem bem a calhar numa análise superficial e despretensiosa ante a "teoria" do Robert Kiyosaki. Marcelo Itagiba quer mais segurança, enquanto Plínio Bortolotti quer mais liberdade. 
          Segundo o pai-dos-burros, segurança é o conjunto dos recursos para proteger algo ou alguém, enquanto liberdade é o conjunto dos direitos garantidos ao cidadão, desde que esses direitos não firam os direitos de outrem. De acordo com Itagiba, não há no Brasil uma lei que diga que é crime a preparação de um ato terrorista. Tal lei, uma vez no Código Penal, permitiria ao Estado abortar, ou evitar, ou prevenir a consecução de assassinatos resultantes de atos terroristas. (Atos terroristas não visam a destruição de patrimônio público ou privado. A pluralidade de vítimas fatais é seu principal objetivo.) 
          Óbvio é – não parece tão óbvio assim ao senhor Plínio Bortolotti – que a existência de tal lei permitiria aos agentes do Estado investigar e apurar suspeitos de envolvimento em atividades criminosas. Óbvio é, também – o óbvio para o senhor Plínio Bortolotti é uma nuvem densa, negra é impenetrável – que o trabalho de investigação de suspeitos requeira, por parte dos agentes do Estado, a solicitação de autorização ao Poder Judiciário para bisbilhotar a vida desses indivíduos. Os agentes apresentam ao Juiz indícios que tornam tais elementos suspeitos e este autoriza a que se façam todos os levantamentos e avaliações com o objetivo de provar a sua culpa. Esses procedimentos são levamos a cabo porque fazem parte do "conjunto de recursos para proteger alguém" uma vez que há indivíduos cuja liberdade está a tramar na intenção de ferir o direito de outro alguém. No momento em que se detecta que a liberdade de uns trama contra o direito ou a segurança de outros, essa liberdade deve ser vigiada ou reduzida.
          A preocupação do senhor Bortolotti se explica facilmente. As esquerdas não são simpáticas às leis. Sabe-se que a lei existe para proteger um bem jurídico e que o bem jurídico é, geralmente, um direito ou um dever. Não faz parte de seu conjunto de bens o direito à vida, por exemplo. Assim, as leis produzidas em regimes de esquerda não são eficazes na proteção do direito à vida. Para as esquerdas, os fins justificam os meios. A matança é, para elas, algo corriqueiro e que faz parte de seus processos. Por isso elas querem ampla e ilimitada liberdade para agir. A elas interessa a insegurança e o caos. Essa é a cartilha que produziram. Eis aí a Venezuela, eis aqui o Brasil, apenas para ficarmos nos exemplos geograficamente mais próximos. O lindo discurso do senhor Plínio Bortolotti não esconde o que sua antipatia à segurança revela: – o ódio ao ser humano, princípio básico da ideologia comunista. Quem não quer a lei que proteja a vida humana, há de odiá-la com todas as forças.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Matéria e energia escura para corações sem luz

Deliciei-me ao ler, hoje, dois artigos do astrofísico carioca Marcelo Gleiser, publicados na Folha de São Paulo. Ele é aquele cujo pai perguntou, mais ou menos assim, ao tomar conhecimento de suas pretensões profissionais: -“Mas você acha, meu filho, que contar estrelas dá dinheiro”? O título dos artigos: “Sobre o propósito da vida” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/06/1295616-sobre-o-proposito-da-vida.shtml) e “As 20 ou 10 questões mais importantes da ciência” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/2013/09/1338383-as-20-ou-10-mais-importantes-questoes-da-ciencia.shtml).
               Diz ele o seguinte sobre o propósito da vida: “Todas as formas vivas têm o propósito de preservar sua existência. Essa é a diferença essencial entre o vivo e o não vivo. (...) Dada tanta riqueza, tanta criatividade, fica difícil de aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior, sem a intenção de criar criaturas cada vez mais complexas”. E conclui: “O que a vida quer é se preservar”.
               O que a vida quer é se preservar. (Estou repetindo não somente a frase, mas o pensamento. E não vejo como não fazer um juízo de valor do pensamento do senhor Gleiser.) Vejam que a vida, que no mesmo artigo ele define como “essa estranha organização da matéria dotada de autonomia, capaz de absorver energia do ambiente à sua volta e de se preservar por meio da reprodução”, é, apenas, uma estranha organização da matéria. Segundo o “pai dos burros” do qual, diga-se de passagem, sou perene e fiel inquiridor, toda organização é uma estrutura, uma composição. Pois, segundo o senhor astrofísico, uma estrutura ou composição, no caso a vida, é dotada de uma vontade, qual seja, a de se preservar. A vida, diferente da não-vida, escolhendo entre perecer e subsistir, escolhe a segunda alternativa. Os objetos dotados de não-vida não têm escolha. As pedras, a água e o fogão de minha cozinha não são seres vivos; são dotados de não-vida e, por conseguinte, de não-vontade e de não-escolha. (Observem que a vontade pressupõe uma inteligência, e as escolhas são o pleno e livre exercício daquela.)
               Dizendo tudo de outra forma, a vida é o conjunto de processos “autônomos”, que envolvem geração e gasto energético, capaz de se reproduzir. Então, esse conjunto de processos é dotado de uma volição que escolhe se perenizar. Mesmo os seres primitivos, as chamadas formas primitivas de vida como as amebas e os vírus, se reproduzem independente de sua vontade e, portanto, alheios à sua escolha. Estão, coitadinhos, fadados a essa programação incômoda e tediosa, a reprodução. Nós, os humanos, é que evoluímos tanto que adquirimos inteligência, um tipo complexo de abstração que nos dota de vontade e capacidade de escolher. (O diabo é que, por mais que escolhamos viver, está ali, sempre à espreita, a finitude inexorável. É a vida que há em nós – aquele conjunto de processos autônomos – quem escolhe a reprodução antes que morramos para que ela própria não pereça. Antes de dar cabo de nós, a vida criou o impulso que nos leva a nos reproduzir.) Assim, nós morremos, cada um de nós, mas a vida não morre. Não sei se percebem o ponto de vista. 
               Lá para trás, bem antes de nosso Gleiser, Schopenheuer afirmava que somos dotados de dois instintos essenciais: o de sobrevivência ou preservação individual, e o de preservação da espécie. O primeiro é manifestado na fome e no medo da morte; o segundo no impulso sexual e na defesa ferrenha de nossas crias. O filósofo não esclareceu, entretanto, quais instintos levam a Escherichia coli a se dividir em duas filhinhas nem para que lado correm quando avistam uma molécula de gentamicina ou outra substância que para elas seja um veneno letal. Pode-se concluir, então, que os instintos ficaram reservados aos seres de maior porte, inteligentes ou não. Os cervos sempre pastam bem distante dos tigres, que eles não são bobos. E não tem a menor importância que não saibam a tabuada de 8. 
               Marcelo Gleiser conclui que "fica difícil aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior" e arremata, quase postulando: a vida quer se preservar. (Minha obsessão na frase há de manifestar já, já minha indignação com a mesma. Paciência...) 
               Por outro lado ou, melhor, por outro artigo, nosso eminente cientista comenta sobre livro recentemente lançado na Inglaterra, "Big Questions in Science", que lista os 20 desafios mais importantes da ciência moderna. De sua própria escolha ele citou 10 das vinte. As duas primeiras ("Do que é feito o Universo"? e "Como surgiu a vida"?) demonstram o drama dos homens da ciência: eles não deram um passo em direção às respostas. São questões não da ciência "moderna", mas da ciência em todos os tempos. Mas minto. Essas questões têm, de fato, ficado mais distantes de suas respostas à medida que segue a busca. Descobriram, por exemplo, que só conhecemos 5% da composição do Universo. Dos outros 95%, a matéria escura e a energia escura, não se tem a menor idéia de sua constituição. 
               O problema da vida, aqueles processos autônomos que "querem" se perpetuar, é ainda pior. Esses senhores – me refiro ao senhor Gleiser e seus colegas – continuam se perguntando o seguinte: "Como que átomos, combinados em moléculas, atingiram um nível de complexidade em que essas moléculas formaram o primeiro sistema 'vivo'"? A mim a resposta seria de uma simplicidade franciscana: se aquele conjunto de processos autônomos é dotado de vontade e poder de fazer escolhas, é provável que eles sejam fruto da vontade de seus átomos e moléculas. (As demais perguntas ficam ao gosto do mais interessado dos leitores ao acessar os links em anexo.)
               Um detalhe escapou ao próprio autor dos textos. (Sou obrigado a rescrever o diminuto trecho.) Disse ele que "dada tanta riqueza, tanta criatividade... fica difícil aceitar que tudo surgiu... sem a intenção de criar..." Duas vezes citou "creare", do latim, que significa "produzir, erguer", a primeira se referindo à capacidade de criar, a segunda ao ato em si. Será que o senhor Gleiser cometeu um ato falho? ou será que o simples falar em "criar" e em "criatividade", no sentido de produzir toda a excelência da vida observável e não somente ela mas tudo o mais e todo o resto leva-nos, inexoravelmente, a nos referir ao resultado da ação de Alguém? Pergunto-me se algum dia lhes será permitido "enxergar" o que chamam de matéria e energia "escura".

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Duas justiças e inúmeras adesões

               Estão dizendo aí na imprensa que mandaram exumar o corpo do Jango. O homem foi sepultado em São Borja e estão trazendo-lhe os restos mortais para Brasília onde os inumarão novamente, desta vez com honras de chefe de estado. O objetivo da operação é, ao que parece, reparar uma injustiça e, talvez, esclarecer um assassinato. Jango teria sido envenenado pelos militares após a tomada do poder. Bem se vê que há ainda muita água pra rolar sob essa ponte. Os peritos vão se debruçar sobre seus despojos para tentar dirimir qualquer dúvida sobre a causa de sua morte. Há aí uns bons panos pras mangas das matérias jornalísticas e das discussões em plenários, com direito a frases de efeito e retórica rebuscada e falsa.
               O que causa uma certa estranheza na matéria jornalística que trata da exumação e investigação da morte do ex-presidente, e isso tem sido cada vez mais comum em matérias jornalísticas, é que ela empresta ao fato uma suspeição suspeita. Explica-se. É justamente esse o toque de efeito que instigará os debates. Ora, há uma explicação histórica para o golpe militar de '64 qual seja, a ameaça de implantação de uma ditadura comunista no país. Pelo menos é o que dizem os do lado de lá. Os do lado de cá, que agora estão a gozar das delícias e possibilidades do poder, nada alegam, exceto as torturas de que foram vítimas. A Revolução os teria perseguido e torturado, e a alguns até matado, por se oporem a ela de uma forma ou de outra. Sem entrar no mérito, e não esquecendo que matou-se de um lado e de outro, o caso é que os do lado de cá trabalham para fazer justiça ao presidente enterrado como um qualquer. Seria a reparação de uma injustiça cívica. O diabo vai ser se descobrirem que envenenaram de fato o homem. A quem vão prender?
               Coincidentemente estamos na véspera da "comemoração" dos 124 anos da proclamação da República no Brasil. Conta o Laurentino Gomes em seu "1889" que Dom Pedro II, a Imperatriz e toda a casa imperial foram literalmente expulsos do país à maneira mais humilhante possível após o fato. Não houve uma única alma que se tenha posto entre os golpistas e o governo de Sua Majestade. Não houve luta, não houve comoção, não houve nada de anormal nem contundente ao dia 15 de novembro de 1889. E mais. A família Imperial, convidada a deixar o país o mais rápido possível, o deixou mais rápido ainda do que o inicialmente estipulado. Marcada a partida para o dia seguinte, às 2 da tarde, o já então ex-Imperador e os seus foram acordados na madrugada de 16 e levados às pressas para o navio onde esperariam os netos que ainda desciam a serra para com eles partirem. A desculpa: - evitar tumulto por parte de republicanos e monarquistas à partida dos reis. Até aí tudo bem. Golpes servem a maltratar os depostos e, às vezes, a tirar-lhes a vida, como se suspeita tenha havido com o senhor João Goulart.
               Quando morreu o ex-Imperador no exílio em França, recebeu, por parte do governo francês, honras de Chefe de Estado e vieram enterrar-lhe os ossos próximo à sua Teresa Cristina em Portugal. As exéquias francesas irritaram os republicanos de cá, por certo enciumados. Por aqui trataram de mudar os nomes das ruas, das praças, das escolas e tudo o mais que lembrasse o império e a família imperial. Queriam apagar todo e qualquer vestígio do governo anterior. Somente em 1921 trouxeram os restos mortais do monarca e da Imperatriz a repousar em solo pátrio, como ele sempre manifestou querer. Vê-se que Jango e D. Pedro II tiveram fim político semelhante.  
               Hoje, em sua coluna do jornal O Povo, o excelente jornalista Fábio Campos escreve sobre um vício, mais um dentre tantos, da política e dos políticos brasileiros: - apagar de vez o que fizeram de bom os antecessores. Entra gestor e sai gestor, entra político e sai político, e sempre é a mesma coisa. Faz-se de tudo, e geralmente com grande sucesso, para destruir os feitos de quem o precedeu. Se não isso, faz-se pior: - apodera-se do legado realizado como se de sua autoria fosse. E mais: - nisso não há um único e mísero santo. Todos, sem exceção, praticam e seguem praticando essa vergonhosa fraude, esse verdadeiro estelionato sobre as realizações alheias. Para que destruir o que se fez de bom quando se pode amealhar o feito como seu e ainda colher os dividendos? Burros foram os recém "empossados" republicanos de cem anos atrás. 
               Há mais. Segundo o Fábio Campos, ou melhor, segundo o Laurentino Gomes, à medida que a república se "instalava", crescia o número de "adesões" à nova forma de governo. Uns poucos descontentes pipocaram aqui e ali, mas nada significativo resultou. A maior reação contra a república partiu da província da Bahia, onde o general Hermes da Fonseca, seu comandante de Armas, se dizia fiel ao Imperador. Aquietou-se quando soube que o chefe da conspiração era o seu irmão, o Marechal Deodoro. Ou seja, se agora é a república, que venha a república ou o que quer que seja. Sendo ela inevitável – que, a propósito, foi o que pareceu ao próprio marechal –, que a louvemos e a bem recebamos. A mesmíssima coisa acontece hoje às raposas da política. Basta que se veja como o empresariado, ou pelo menos boa parte dele, cedeu aos encantos de nossos últimos governos "de esquerda". Ora, todos lutam para se inserir e prosperar na nova ordem, já que ela é, aparentemente, inevitável. As empresas, que são a prova mais contundente de uma economia capitalista, podem, sim, sobreviver e até muito lucrar em regime "comunista". A razão disso é que, na verdade e de fato, comunista mesmo o regime não é. 
               Assim, enquanto hoje se luta uma lutinha boba para "fazer justiça" ao ex-presidente João Goulart, justiça já se fez há muito a Dom Pedro II. Uma pena que essas "justiças" se façam somente após a morte dos injustiçados , quando participação nenhuma têm mais no que ocorre debaixo do sol. Hoje, também, seguem a passos largos as adesões aos novos governantes e seus grupos, sejam eles quem forem e o que quer tenham intenção de fazer. O que importa é fazer parte do jogo, da "panela", do caldo que compõe aqueles que controlam os orçamentos e as decisões, enquanto uns poucos abestados ficam a berrar seu idealismo inútil e defendendo o indefensável. Deviam era ter mais o que fazer.

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...