sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O "DEBLATERADOR"

                Sempre pensei que a inspiração há de ter um limite. Sim, não é para sempre que o artista estará cheio daquilo que o move, da energia que o leva a produzir sua arte outrora tão apreciada e cheia de... energia. Os exemplos são vários. Tanto que, como na vida biológica, some o artista de cena. Então, nesse momento, por alguma razão que foge a uma explicação hipoteticamente necessária, pensamos naquele artista que anda sumido. “Onde anda o Elton John que nunca mais compôs uma daquelas suas músicas marcantes?” É um exemplo. Assim, cadê o Elton John?, pergunto agora. Creio que os escassos leitores me entendem...

                Fiz o comentário acima porque há tempos não escrevo. Não que queira me comparar a gigantes da literatura ou coisa que o valha, nada disso. Não chego nem perto. Pelo simples fato de ter deixado de produzir aquilo que seria minha catarse, minha válvula de escape, minha pilhéria do dia-a-dia, pensei que, também eu, um escritorzinho de quinta “catigoria”, teria me esvaziado da energia que me impelia a escrever. E isso não é bom. Afinal, ando cheio de sentimentos, de paixão, de amor, de vontade de vida... de saudades... sim, saudades. Disse alguém, acho que uma criança, que saudade é o amor que fica. Só em citar o Elton John já demonstra meu grau e tipo de saudade. Eu complementaria a linda definição de saudade acrescentando que, se o amor é algo que fica, é porque algo não fica. Algo se foi. Algo partiu. Algo não mais existe.

                Aprendi que a vida é perda. Na vida, tudo perdemos. Aos poucos ou de uma só vez. À medida que perdemos, crescem as saudades. Nunca morre os que ou o que perdemos, até que morramos nós mesmos. Nossa memória, e somente ela, mantém vivas nossas perdas. Nossa última perda, a da própria vida, leva-nos ao profundo sono no qual as memórias se vão e com elas as saudades. Nossa própria morte é o alívio final. Sofrem os que nos choram, e aí com eles ficam nossos amores, vivos em suas memórias de sofridos viventes.

                Conclui-se, com essas breves e parvas reflexões, que aprender a viver é o mesmo que aprender a lidar com as perdas. Se pararmos de nos torturar e deblaterar sobre as perdas, viveremos melhor. Mas... e daí? (Acaba-me de chegar, na rede social e enquanto escrevo, a notícia da morte de um amigo.)

                O que ocorreu foi o seguinte.

Amorim ja completou 60. É homem com 60 anos nos couros há mais de 6 meses.  Vamos e venhamos, o que significa ter 60 anos? Dizia o meu querido amigo Raimundo Araújo, das bandas dos Montes Claros nas Minas Gerais, que tem gente que não sabe nem quando está com fome. Eis aí, de fato e de vera, na definição implícita de maturidade de meu Raimundo, o que significaram ao Amorim seus rasos 60 anos (o leitor vai me permitir uma emoção mais que sincera) – porra nenhuma! Indo direto às vias de fato, a maturidade emocional do Amorim aos 60 anos seria igual ou ainda pior que a de um garoto de 15 anos. (Seria igual, estou na dúvida, às de um de 12?)

                Tudo bem, tudo bem... não sejamos tão radicais. Vamos contemporizar... Como posso eu emitir uma opinião tão contundente sobre o amigo?, indagará alguém. Como resposta direi apenas o seguinte: o homem segue fazendo o que sempre fez desde exatamente os 15 anos de idade. Se precisar dizer mais, direi. Mas fiquemos com esse único e mísero critério. Fazer o mesmo desde os quinze anos não funciona nem para escovar os dentes, que dirá para tomar decisões, fazer ou não fazer “cagadas”, chorar ou não chorar como uma criança de 5, pagar as contas, etc. etc. etc.

                Pois foi nesse cenário que sobreveio a grande catástrofe – um suposto amigo do Amorim a “defender-lhe” dos verdadeiros amigos que tentavam, a pedido do próprio, ajudar-lhe na tomada de algumas decisões. O detalhe aí é a busca do Amorim por ajuda. Ninguém se intrometeu voluntariamente e se arvorando o direito de interferir na vida do querido amigo. Assim, disse o “deblaterador”, se achando o máximo defensor do amigo em perigo iminente de sério risco diante de... amigos: “E deixem o Amorim tomar suas decisões. Ele é adulto e conhecedor de sua vida.”

Não há dúvidas que o homem é adulto. Afinal, tem mais de 60 anos. Que conhece sua vida, idem, tanto que sabe ter feito um monte de merda a vida inteira. O que o “deblaterador” não sacou, e não sacou porque talvez ele próprio também ainda beba nas aguas impuras da imaturidade, foi que falta ao Amorim a lição que ensina a perder. Por mais que a vida lhe bata na cara – já perdeu pai e mãe – o homem não atinou, não atina. O outro, o falso amigo, de que serve? A nada, eis a resposta. Uma lamúria. Uma lástima.    

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A PROPOSTA DO DOUTOR FULANO

              Nada se deve prometer. Hoje se tem a intenção. Amanhã se tem o arrependimento e a má fama. Então, melhor é nada prometer. Ou, ainda mais cômodo, se quer prometer que vai realizar algo, faça-o a si mesmo. Ponha como uma meta pessoal a ser atingida, custe o que custar. Assim evita-se a má fama.

            Dizia o professor Heródoto, de História, que todo homem tem seu preço. À época, divulgava abertamente o seu: um milhão de dólares. A alguns parecerá pouco, mas eram os anos setenta, e o dólar custava uma penca de cruzeiros, a moeda da época. Assim, tínhamos a nítida impressão de que o professor era caro. Não se o compraria barato. Nós, os alunos - todos recém adolescentes - ainda não nos tínhamos dado ao trabalho de nos etiquetar preços. Nem de divulgá-los. A vida viria a fazer isso mais tarde.

            Entretanto, não tenho dúvida que o preço de um homem muitas vezes não se paga com dinheiro. Em outras palavras, há valores tão elevados que nem todo o dinheiro do mundo será capaz de cobri-lo. Continuará o homem a ter seu preço, como pregava professor Heródoto, só que de valor não monetário. Vamos a um exemplo, onde descobri que não me vendo barato.

            Eu estava no consultório quando a atendente me interfona para anunciar que acabara de chegar o doutor Fulano, médico ecografista. Fiquei muito feliz pela honrosa visita, pois era para ele que encaminhava meus pacientes a realizar as ecografias. A ecografia é um exame cujo resultado depende muito do examinador. Hoje isso é cada vez menos verdade, visto que os aparelhos estão cada vez mais capazes de fornecer imagens que até a mamãe saberia interpretar. Contudo, isso ocorreu há mais de dez a doze anos. Ainda valia a competência do examinador. Os laudos do doutor Fulano eram compatíveis com a clínica do paciente bem como com os achados cirúrgicos. Por tudo isso eu nutria por ele um grande respeito e admiração, mesmo sem o conhecer pessoalmente. Fácil é, então, entender minha alegria por saber que naquele momento ele vinha pelo corredor para me visitar no consultório.

            Cumprimentamo- nos efusivamente. Pedi a minha secretária água e café, e iniciamos uma conversa amena, que não durou mais que três ou quatro minutos. Lá pelas tantas, doutor Fulano revelou o verdadeiro caráter de sua visita. Vinha, a “pedido” do dono da clínica radiológica em que fazia seus exames, oferecer-me uma “participação nos lucros”. Ora, eu encaminhava os pacientes para com ele fazer os exames por uma razão muito simples: eu precisava das informações que o exame me fornecia para resolver o problema dos pacientes. Toda a coisa girava em torno do melhor interesse dos pacientes. Essa era a razão de tudo. Não me passava pela cabeça auferir lucro neste cenário. Estava havendo ali uma tentativa de me corromper e cooptar.

            Ainda bem que minha secretária agira com rapidez, de modo que o café e a água já haviam sido devidamente servidos e bebidos. Delicadamente agradeci a visita e disse-lhe que não aceitava a proposta, mas que continuaria a enviar-lhe pacientes para que ele me ajudasse a ajudá-los. Assim, nos despedimos.

            Como um sujeito como eu - que passa boa parte de seus dias a ferroar más condutas e maus caracteres - pode se deixar ter teto de vidro? Não pode, eis a resposta. Como um reles mortal, sou um poço de defeitos. Mas não posso ser incoerente nem me contradizer. Um homem precisa zelar por um mínimo de decência, ter um mínimo de virtudes, sentir prazer com ações que o aproximem da nunca atingida perfeição do caráter. Somente a tentativa cristalina e verdadeira já indica a preocupação em não fazer o mal.

            Outro dia, não faz nem uma semana, um amigo disse-me que eu tinha moral para falar, e sugeriu que eu só a tinha porque ainda não fui testado. Pensa ele, certamente, se é que o entendi, que eu faria a mesma coisa que fazem aqueles que estão em posição vantajosa: relutam em largar o osso.

            Aviso, então, a todos – de antemão - que não aceito qualquer proposta indecorosa que cogitem em me fazer. Há muitas, e muitas, e muitas formas de ganhar dinheiro honestamente mantendo-se a integridade e a honra. Não há, para os que não têm medo de trabalhar, possibilidade de faltar dinheiro no bolso. Nem há a necessidade de concorrer com a malta por cargos e posições e assessorias para auferir recursos abdicando-se da paz do viver sabiamente. Rejeito, peremptoriamente, os testes a que eventualmente me queiram submeter. Eles não encontram eco em minhas prioridades. Logrei bem me suceder na vida. Cheguei onde queria, de acordo com os planos que fiz quando estudante. Tenho hoje outros projetos em pleno andamento que mantêm minha paz e me dão prazer em viver. Repito: cedo percebi em mim o horror pela competição. Isso catalisou minha ambição e a tornou sadia. Aprendi que não se tem sucesso sozinho, que o melhor sucesso é instigar os outros, e ajudá-los, a ter sucesso. O meu próximo sucesso é ajudar outros a ter sucesso.

            Minhas promessas estão guardadas em mim. E as cumprirei custe o que custar. Este, sim, é um bom teste a me fazer a mim mesmo.

 

Fernando Cavalcanti, 06.06.2009         


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

RELATIVIZAR - A NOVA FORMA DE BURLAR

           "Eu nada seria sem minhas obsessões" (Nelson Rodrigues)


           Relativizar é, bem no popular, o que há aos dias de hoje.

Não sei se somente neste derrotado país ou se também no resto do mundo. É possível que em algum outro país o mesmo ocorra. Sabe-se lá... Einstein abriu a janela da relativização com sua teoria? Sabe-se lá... A teoria física nem de perto tem as mesmas implicações da relativização de que falo. A do físico alemão surgiu da “compreensão progressiva de que dois referenciais diferentes oferecem visões perfeitamente plausíveis, ainda que diferentes, de um mesmo efeito”. O palavra-chave aqui é referencial.

Pois a relativização de que falo pretende e, de fato, atua levando-se em conta, quando da aplicação de regras e leis, o sujeito sobre o qual incide a possível pena ou ônus. Como exemplo amplamente conhecido, a relativização no Brasil, ainda que muitas vezes seja implícita, outras vezes é tão explícita quanto uma cena de sexo de filme pornô. A lei maior (?) reza que todos são iguais perante a lei (Artigo 5º). Está lá para quem quiser ver.

Ocorre que não é bem assim. Os membros do parlamento, no Brasil, são considerados uma exceção – eles têm a famigerada imunidade parlamentar e não podem ser processados criminalmente. Eis aí a mazela. Há outras, muitas outras. Nem falemos dos privilégios dos quais esta “casta” goza. Não só no parlamento, mas também nos altos escalões do poder judiciário e, principalmente, nos altos escalões do poder judiciário.

Pergunto: o que é tudo isso, afinal? Respondo – isso é a relativização posta em prática tão explicitamente quanto possível, que nem cena de sexo de filme pornô. Mas não fica por aí.  Essa relativização vem como exemplo a ser seguido em menor escala ou, melhor, aqui em baixo, na arraia-miúda. O que essa arraia-miúda não percebe, ou percebe e não liga, é que nesse filme pornô ela é o ator que está sendo currado. Vejamos, a título de exemplo, o caso horripilante que relatei sobre o que está a ocorrer com os clientes da Unimed Fortaleza (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2020/12/imposturas-ii-nem-tudo-o-tempo-resolve.html).

Dirá alguém que exagero, que estou a encher linguiça, que estou a perder meu tempo com pouca coisa. Será? Ora, fere-se diariamente, há anos, o estatuto da cooperativa prestadora de serviços de saúde Unimed Fortaleza, num criminoso acumpliciamento entre gestores e cooperados da mesma a fim de, utilizando uma prática ilegal à luz de seu próprio estatuto, majorar o valor da consulta médica paga a seus cooperados, hoje a irrisória quantia de R$ 80 (oitenta reais) brutos. O que acontece é o seguinte – os médicos cooperados, alguns deles, uma parte considerável deles, está cobrando valores de seus clientes à guisa de uma consulta médica, uma consulta “particular”, o que explicitamente é proibido por seu estatuto em seu Capítulo III, Artigo 7º, item I.

Mas... onde está a relativização nessa tétrica história? Simples – o cliente, quando da solicitação de reembolso dos valores indevidamente cobrados à mesma Unimed Fortaleza, tem, via de regra, seu pedido negado com base nos argumentos mais risíveis possíveis. São risíveis porquanto, para lhes proferir, se utilizam da ampla relativização. Em nenhum momento os auditores, figuras médicas que avaliam esses pedidos, se referem à parte do estatuto que proíbe tal prática. Pois por óbvio, já que estão fazendo vista grossa ao verdadeiro problema.

O referencial dessas pessoas quer ser tão móvel quanto o da teoria da relatividade com a diferença de que, naquela, as visões são plausíveis enquanto aqui, na história da Unimed Fortaleza, uma regra é uma regra, uma lei é uma lei e não seria possível relativizar seu cumprimento sob pena de ela virar pó. Pois é justamente o que está a ocorrer com a regra no estatuto da Unimed Fortaleza que proíbe a cobrança de consulta particular por parte de um cooperado no atendimento ao cliente pagador de um plano de saúde da Unimed Fortaleza. Bem se vê que a moda da relativização se explica – ferir a lei ou ferir a regra de forma cínica e criminosa. No caso, são dois os ilícitos – o do cooperado por cobrar e o da cooperativa por não reembolsar o cliente lesado e/ou punir o médico infrator.

Engana-se quem pensa que isso é tudo. Há outro agravante na conduta da cooperativa ao negar o reembolso a seus clientes. E por quê? Ora, os ”auditores”, ao negarem o reembolso, muitas vezes sugerem que o cliente troque de médico. Sim! a cooperativa sugere que o cliente de um médico cooperado que cobra “por fora” procure outro, também cooperado, que não cobre! Pasmem! Não fosse trágico seria cômico... O agravante, entretanto, não está aí. Vamos a um exemplo.

Imaginem um parto em que o obstetra trabalha rotineiramente com toda uma equipe. No parto está lá um(a) pediatra neonatologista para dar assistência ao bebê tão logo ele nasça. Ele(a) é cooperado da Unimed. Nada cobra. Numa visita à mãe, ainda no hospital, pede que lhe leve a criança no consultório dali a dez dias para uma consulta.

Dez dias depois a criança vai ao consultório com os pais para a consulta. Nada é cobrado, mas os pais já tomam conhecimento que a próxima consulta, dali a trinta dias, será “particular”. Uma relação médico-paciente na pessoa dos pais do recém-nascido é estabelecida. Os pais não querem procurar outro médico. Na solicitação do reembolso, recebem o indeferimento da Unimed sob a “justificativa” de que “os pais deveriam ter ido a outro médico”. Em suma, e para não encher linguiça como alguns irão sugerir, a cooperativa de médicos Unimed Fortaleza julga a relação médico-paciente uma bobagem, coisa à toa, “estória pra boi dormir”.

E como esta existem centenas de “estórias pra boi dormir” protagonizadas pela cooperativa Unimed Fortaleza.

(Alguns dirão que repito em demasia o objeto de minha indignação “Unimed Fortaleza”, e é verdade – repito. Mas, esclareço: é uma necessidade. Acredito piamente que o agredido deixa crescer em seu íntimo uma certa obsessão pelo seu agressor, como se ela, essa obsessão, os mantivessem ligados enquanto a relação perde-ganha se mantiver. Vejam que, aqui, ganhar e perder é apenas o indicativo de que uma regra ou lei foi violada sem a devida punição ou correção do infrator. Ao agredido só resta uma alternativa: lutar. Como diz um chavão, não é porque todos fazem que algo está correto. Estou quase a sugerir a criação de um grupo das centenas de clientes da Unimed que foram lesados a fim de ajuizar uma ação conjunta ou coletiva contra esses descalabros.) 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

IMPOSTURAS II - NEM TUDO O TEMPO RESOLVE

                 Não me lembra a última vez que comentei algo sobre a Unimed Fortaleza. Faz tempo, isso bem sei. Na época seu presidente pedia, ao me encontrar nos corredores do IJF: – “Fernando, pega leve, vai...” Éramos funcionários lá e era nesses fortuitos encontros a ocasião em que o presidente da Unimed Fortaleza via a oportunidade de manifestar certo incômodo por alguns de meus comentários.

                Hoje aquele presidente já não é presidente e o atual presidente, juntamente com os demais membros diretores, permitiram, ao que parece, a continuidade do farisaísmo, das incoerências e distorções que, já naquele tempo, ocorriam na relação da cooperativa como prestadora de serviços de saúde e seus clientes.

Vejam, por exemplo, o que escrevi em 02 de agosto de 2012 no texto “Imposturas” (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2012/08/imposturas.html). O que digo lá? Sem rodeios e sem delongas, para não tomar o tempo do açodado leitor – a cooperativa Unimed Fortaleza assiste com cumplicidade à lesão de seu Estatuto que reza, em suas várias atualizações subsequentes, tão explicitamente quanto possível, que “o cooperado se obriga a executar em seu próprio estabelecimento de trabalho, ou em instituições de saúde da cooperativa, ou por ela credenciadas, os serviços profissionais que lhe forem concedidos pela sociedade, sendo vedada a cobrança de quaisquer valores aos clientes pela realização destes procedimentos previstos nos contratos celebrados” (Artigo 7º, Item I.) O que se vê a céu aberto – ou seria inferno? – é exatamente o contrário: a cobrança indiscriminada de valores à guisa de consulta particular aos clientes dos vários planos da Unimed Fortaleza por parte daqueles que, pelo seu referido Estatuto, estão proibidos de o fazer.

É notório, no momento atual, a dificuldade do brasileiro em seguir regras, em seguir leis. Por outro lado, abundam regras e leis esdrúxulas que visam tão-somente estabelecer privilégios e “castas”. É o caso até de se pensar ser uma coisa consequência da outra e, sendo assim, tal não ocorre atualmente apenas. No caso da Unimed, os médicos cooperados que vêm continuamente e repetidamente infringindo descaradamente e desavergonhadamente seu Estatuto recorrem, quando colocados diante de seu crasso erro, às justificativas mais esdrúxulas e estapafúrdias, a mais comum o vil valor da consulta médica pago a eles por sua cooperativa. Por outro lado, a cooperativa, através de suas “auditorias” existentes para esse fim, quando pleiteada por um de seus lesados clientes a ressarci-lo pela indevida cobrança, responde através de patéticas e até incríveis – no literal sentido de “inacreditáveis” – desculpas. Vejamos uma delas. Chega a ser anedótica.

“Por que o senhor – ou a senhora – não procurou outro profissional cooperado”? ou, na conclusão da farisaica “auditoria”, “o(a) senhor(a) deveria ter procurado outro profissional cooperado e, por esta razão, sua solicitação de reembolso  foi indeferida”.

Não bastasse o fato explícito de a cooperativa, através de seus “auditores”, demonstrar absoluto desprezo pelo estabelecimento de uma relação médico-paciente, ela ainda reconhece passivamente a indevida cobrança. A cooperativa rasga seu estatuto e ainda culpa o cliente pelo ocorrido, numa completa inversão de valores e de regras. Sabia-se ser comum nesse decadente país a justiça muitas vezes culpar a vítima pelo crime sofrido, mas ainda não nesse nível, no nível civil.

Casos há em que o cliente é atendido no consultório “pela Unimed”, para na próxima ou próximas consultas ser indevidamente cobrado. A Unimed Fortaleza sugere ao cliente que, nesses casos, vá a outro profissional, como se a primeira consulta de nada valesse, como se nenhuma ligação houve se estabelecido entre o paciente e aquele que ele já considerava como seu médico. A cooperativa sugere que seus clientes saiam “pulando de galho em galho” ao sabor dos médicos que ora cobram, ora não cobram; ora atendem, ora não atendem pelo plano, numa Babel de relações erráticas e frustrantes para o que padece doente.

Bem, não há a menor dúvida dos inúmeros impunes ferimentos ao Estatuto da cooperativa Unimed por parte de seus cooperados. Tal situação não é novidade. Ocorre há pelo menos dez anos e vem se intensificando de forma aparentemente irrefreável. A conclusão a que se chega é uma só – a cooperativa Unimed Fortaleza é cúmplice de seus cooperados, faz vista grossa a seus erros, faz de conta que não é com ela e que ela nada tem a ver com isso. E por que o faz?

A resposta parece ser simples: porque é mais fácil punir seus clientes com cobranças às vezes criminosas do que discutir em assembleia de seus cooperados uma saída contábil que lhe permita majorar o valor de suas consultas pagas, no momento o mísero valor bruto de R$ 80 (oitenta reais) – a propósito, essa a desculpa mais comum pelos médicos cooperados infratores. O que não entendem, e não entendem porque usam de má fé, é que o cliente comprou um plano de saúde que contempla a consulta médica como parte do pacote. Se os médicos cooperados não conseguem que sua cooperativa lhes pague o justo e o merecido não é culpa deles. Como digo lá no “Imposturas”, o plano “consulta zero” está de vento em popa. Só faltou avisar aos compradores de um plano de saúde da Unimed.

Antes de encerrar, uma nota. A cobrança é criminosa quando faz vítima um idoso mais idoso cujos parcos recursos são religiosamente guardados para honrar seu plano de saúde e ainda são onerados com essa brutal quebra de contrato por parte da cooperativa acumpliciada a seus cooperados. Seus médicos deveriam se envergonhar por tal descalabro. Se o atual presidente da Unimed Fortaleza se incomodar com tão humildes comentários como o presidente de outrora o fez, meço o ego de um e de outro sem lhes achar diferença.

sábado, 19 de dezembro de 2020

CURAR ÀS VEZES, CONFORTAR SEMPRE

O que aconteceu foi o seguinte.

Entro para bater o ponto no hospital e o Víctor anuncia: – “Doutor, tem aí um processo para o senhor responder”. Era uma queixa de um paciente do meu ambulatório. Não, uma queixa não – uma reclamação. Sim, o paciente havia ido à ouvidoria reclamar por eu lhe ter orientado, na consulta que fez comigo, a procurar a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza para fazer o tratamento cirúrgico de suas varizes nas pernas.

Ora, todos os pacientes com varizes nas pernas que se prestam ao tratamento cirúrgico e que vão ao meu ambulatório são, depois de serem ouvidos, examinados, e mostrarem o desejo de operar suas varizes, orientados nesse sentido. As razões para agirmos assim são bem óbvias e, diria até, seculares. Assim, destrinchemos esse aparente engodo a fim de esclarecer o que está, de fato, na pauta.

Antes, porém, adianto o seguinte – esta não é uma defesa. Sim, não estou a me defender. Pela simples razão de ter agido no melhor interesse do paciente, nada há que necessite para a defesa deste profissional. Apenas faço um relato do ocorrido. Neste país todo esforço tem sido feito para inverter ou deturpar os próprios fatos, como se estes pudessem ser alterados. Estamos em Fortaleza, uma cidade decadente, perigosa, mortal diria até, tomada por forças poderosas aliadas ou protegidas pelo chamado “poder público”, com um povo que se permite dominar e se ajoelha diante do mal. Assim, a tentativa de inverter os acontecimentos – não por parte do paciente, mas por outra fonte – não fosse por si só insana demonstra o grau de atuação a que chegaram os psicopatas locais, através de um de seus prepostos nomeados para função pública sem ter prestado concurso.

Foi-se o tempo em que um hospital público tinha toda a sua direção escolhida dentre seus funcionários. Hoje, essas figuras esdrúxulas vêm sabe-se lá de onde trazendo em seus currículos cursos de gestão e vivência zero em sua atividade principal. São fedelhos paparicados dentre a canalha política de plantão. Noutros tempos a direção era composta por médicos atuantes como médicos, não raro ícones da medicina local.

Dirão alguns que estas são afirmações exageradas, que não cabem numa humilde e pré-obsoleta crônica, mas, asseguro – nem tanto, nem tanto...

Então, vamos ao que viemos.

Em primeiro lugar, operar varizes de membros inferiores é perfeitamente opcional na esmagadora maioria das vezes. A condição é benigna e pode ser tratada de modo conservador sem nenhum prejuízo ou risco adicional para o paciente. Reforçamos isso quando o paciente tem comorbidades que “pesam” sobre o tratamento cirúrgico, impondo um risco absolutamente desnecessário. Essa é uma questão sobre a qual o paciente pode optar. Não estamos diante de uma condição que imponha risco à sua vida ou à qualidade dela, excetuando-se, talvez, a questão estética tão comum em pacientes do sexo feminino. Aqui vale a máxima: pesam-se os riscos e os benefícios. Como em tudo na medicina.

Em segundo lugar há o sistema público de saúde brasileiro com todas as suas mazelas. O Hospital Geral de Fortaleza (HGF) é um hospital desse sistema, um hospital terciário, ou seja, um hospital para onde são encaminhadas as pessoas portadoras de doenças graves, ou que requeiram tratamento especializado seja em complexidade de recursos materiais e/ou humanos. Como digo a meus pacientes do ambulatório e em relação ao escopo da cirurgia vascular, hospital terciário significa “gravidade” ou “prognóstico reservado ou não muito bom”. Eles ficam felizes em saber que suas varizes não lhes ameaçam a vida nem sua integridade física. Haveria dificuldade em entender isso ao leigo leitor? Todos os pacientes, inclusive meu queixoso paciente, saem conscientes de que lá não serão operados simplesmente porque os recursos deste nosocômio são todos dirigidos a pacientes com doenças graves que necessitam de tratamento complexo, o que não é o caso da doença varicosa de membros inferiores.

(Logo verão que sua queixa foi, digamos assim, uma maldosa indução de quem deveria zelar, acima de tudo, pela verdade e pela busca de soluções para aqueles que são usuários do sistema público.)

Lembra-me que, anos atrás, procurei a direção clínica do hospital a fim de solicitar a que comunicassem aos componentes primários do sistema de saúde que o hospital não oferecia aos pacientes com varizes e com esperança de operá-las um tratamento que não fosse o clínico. Os pacientes vinham cheios da certeza de ficar livres das incômodas varizes apenas para se verem frustrados.

O diretor alegou não ser isso possível por não me lembro quais razões. As pessoas portadoras de varizes em membros inferiores continuariam a vir ao HGF sorridentes e com a certeza absoluta de que teriam suas horrorosas varizes removidas. Eu seria o que está na linha de frente para lhes dar a triste notícia. O sistema alimentando a esperança e eu estragando o prazer. Por isso deixei de usar branco há muitos anos. Não combina com um estraga-prazeres.

Depois me iludi e perdi o meu tempo ligando para alguns postos de saúde, locais onde se faz a medicina básica, primária, mas não primitiva, de onde são encaminhados esses pacientes, na tentativa de sugerir que os encaminhassem a um hospital secundário, menor, de menor complexidade, para a consulta e tratamento de sua condição.

Novamente dei com os burros n’água. Concluí de imediato: o sistema está assim montado e não há quem mexa nisso. A jovem ou velha senhora sai no carro da prefeitura da cidade do interior na noite anterior à sua consulta com o cirurgião vascular do HGF só para ser desiludida por um médico de merda que ainda “perde” tempo tentando lhe explicar um sistema de saúde que não funciona perfeitamente e que, em seu entender, é gratuito. Horas e horas na estrada, gasolina da prefeitura, votos para os canalhas da política... e o estraga-prazeres ali, à sua frente, a lhes contar a verdade.

Mas, só agora percebo o detalhe: – por que a Santa Casa? Porque, no presente momento, é o único hospital nesta decadente cidade que presta esse serviço numa base rotineira com recursos públicos. E como sei disso? Ora, conversando e indagando de colegas da especialidade que trabalham nos outros hospitais terciários da cidade. É tudo a mesma coisa – hospitais terciários não combinam com condição benigna. Elas terão, ou teriam, seu tratamento em hospital secundário. O sistema não oferece essa alternativa, como bem se pode concluir. O problema é apenas um – os “gerentes” do sistema não assumem que há essa brecha.

Foi nesse cenário que a ouvidoria do HGF recebeu a reclamação contra mim. Julguei, a princípio, uma má fé do paciente que fez tal chororô. Sim, porque a única coisa que falta eu fazer no meu ambulatório é pôr meus doentes no colo. O resto já fiz – abraço, choro, beijo, faço cafuné, dou beliscões carinhosos, acaricio-lhes a face... mas no colo ainda não pus ninguém. São velhinhos e velhinhas com a doença mais desgraçada do mundo, a aterosclerose obliterante generalizada recalcitrante e mortal, com aneurismas ameaçadores, potencialmente explosivos ou obstrutivos; portadores de cotocos de pés, de pernas, de dedos, de mãos e braços que lhes avisam que o fim inexorável pode estar próximo. Outros, até mais jovens, com rins improdutivos de suas diárias urinas, presos à uma máquina que lhes filtram o sangue através de dispositivos artificiais que os médicos lhes enfiam no pescoço, virilhas, tórax, ou com veias enormes e dilatadas nos braços, resultado de suas “arterializações” para uso da máquina. São incontáveis histórias, inúmeros sofrimentos, difusas e insanáveis dores, lágrimas incoercíveis que molham lenços já sujos e puídos de tanto uso e esperanças fugidias...  E a frase que resume a missão me espicaçando a alma...

Por tudo isso senti um mal-estar leve, muito leve, ao anúncio do Víctor, como uma desolação causada por certa decepção com o ser humano.

Foi quando tudo se fez claro. Assim do nada, saindo de volta para casa, encontro ali, nos corredores do hospital, a informação dando conta de que meu paciente, o que elaborou a reclamação, confessou ter adorado a minha pessoa, o meu atendimento e a minha atenção, e que só foi à ouvidoria por orientação de graduado funcionário do hospital que, como já dito lá atrás, prefere a mentira à verdade temendo, talvez, o envolvimento inevitável de seu nome na constatação de uma falha ou brecha do sistema. Tão míope é que não percebe que o sistema não é ele. Mas sentir-se como o próprio sistema já denota que estamos lidando com um ego pueril e inflado, como o de um fedelho qualquer.  

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O BEBÊ DO BAIRRO DE FÁTIMA

Não vou nem tergiversar, ficar de blablablá, contando caraminholas – queria saber, descobrir, qual seria o endereço fiscal de meu querido amigo-irmão Fábio de Oliveira Motta. Aos que não sabem, ou não lembram, o Motta é aquele que é a cara encarnada e esculpida do senhor Cesar Luis Menotti, ex-técnico da seleção argentina de futebol.  (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2015/08/menotti-motta-e-as-tres-raparigas.html). A fotografia da sumidade esportiva estava anexa ao texto, mas, por uma dessas limitações da rede ou o exercício do direito de seu autor, a removeram, de modo que, quem quiser ver a cara do homem, que digite seu nome no Google e lá verá várias delas, várias caras de um só homem.
Pois nosso Menotti Motta, como ficou conhecido após constatada a semelhança brutal, não tem, ao que conste nos autos, residência própria. É mais ou menos assim – já estivemos na casa do Mesquita umas cem vezes; na do Gaudêncio outras cinquenta; na do Bacana outras trinta; na do Tomasinho umas vinte; na do Baxin umas quarenta; na de Madame Serjão umas “uma”; na minha umas... sei lá. Na casa do Fábio “Menotti” Motta, nenhuma. Sim, na casa do Meninotti Motta, a casa dele mesmo, nenhuma. O que me recorda é ter estado em casa de seus pais há uns, digamos... seiscentos anos. Lembro neste dia, há seiscentos anos, o Agapito, seu saudoso pai, me cochichando ao pé do ouvido: –“A mulher é um bicho inconsequente...” Era na casa do Bairro de Fátima... Havia também as casas dos Motta no Pecém, a da praia e a outra, o sítio. Dos Motta, vejam bem.
Daí minha curiosidade no endereço fiscal do homem. Devo dizer, em minha abissal ignorância, que estou presumindo ser o “endereço fiscal” aquele que nosso homem pessoa física coloca em sua declaração de imposto de renda. Se estiver errado, e é extremamente provável que esteja, paciência... Sigo a perguntar: –“FaMotta, pedido de amigo... me diz aí qual é teu endereço fiscal”? Peço mais e humildemente: –“Se não quiseres ou puderes confessar esse endereço, me diz aí qual’é teu endereço residencial mesmo”...
É bem possível que o pobre e achacado leitor esteja até agora a entender patavinas dessa história. E é porque já comecei dizendo não querer usar de evasivas! Assim, o que queria indagar a meu amigo-irmão, de fato, é o seguinte: –“Onde é que moras”? Não, não... não é essa a pergunta. A pergunta é: –“Meninotti, onde é a tua casa”? Sim, porque estão a dizer aos quatro cantos, coisa de gente fofoqueira que não tem o que fazer, que moras com mamãe e papai há... mais de seiscentos anos. Sim, o amado e saudoso Agapito ainda vivia em plena fortaleza física, mental, emocional, espiritual. Assim, pergunto: –“É verdade?? Agora que Agapito não mais está entre nós, estás a morar com a amantíssima senhora dona Mirtes, tua querida mãe”?? Não... sim... sei que ela está idosa e requer alguém próximo que possa atender suas demandas, mas... o diabo são os últimos 20 anos... ou seriam 30? Há 30 anos, depois do teu divórcio, te amancebaste em casa paterna e lá permaneces até hoje? Em tempos antigos serias taxado, ou melhor, receberias uma plaquinha pendurada no pescoço onde estaria escrito em letras graúdas – RAPAZ VÉI.
(Aos que não entendem o cearencês, esclareço – véi é o mesmo que “velho”, uma espécie de hipocorístico muito comum nesse dialeto nordestino.)
Rapaz i... Nosso Meninotti não se enquadraria bem na definição porque o verdadeiro rapaz véi é aquele que nunca contraiu núpcias, nunca se amasiou, e este não é bem o caso...
Para encerrar, que não quero mais te perturbar o sono, em nosso próximo encontro, por favor, leva um boletinho da tua conta de luz... (Desde linhas atrás já me dirijo diretamente ao amigo porque sei que a canalha não perdoa e torna, em segundos, assunto sério em disse-me-disse sem rumo...)
Sim, um boleto da conta de luz porque o da conta de telefone não serve... não sei por que, mas não serve, viu?...

quinta-feira, 2 de julho de 2020

FEIO

Estou eu confortavelmente a fomentar meu ócio produtivo – alguém há de questionar a possibilidade de um ócio, qualquer ócio, ser produtivo – quando me bate o telefone portátil. Era o meu querido amigo Francisco José Ley, cirurgião plástico da Unidade de Queimados do Instituto Dr. José Frota.
Antes de continuar, me pergunto – há tipos diferentes de ócio? Sim, porque quem fala em “qualquer ócio” está a pressupor tipos diferentes do mesmo. Pois respondo sem o menor pudor: – sim, há o ócio improdutivo e o ócio produtivo. O improdutivo é um desses pleonasmos irremediáveis, ao passo que o outro, o produtivo, é um bálsamo na mente daquele que não quer se assumir desocupado.
Outro dia falei de meu feliz estado de desocupado (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2014/08/o-desocupado.html), sem nenhum constrangimento. No texto demonstro, com alguma facilidade, como o paradigma vigente no serviço público local tem a ver com “estar ocupado”. Por sua vez, “estar ocupado” tem a ver com o que o burocrata chama de “horas trabalhadas”. 
Ora, é sabido que o burocrata é, antes de tudo, o exemplo mais refinado e típico do idiota. Ele não vê diferença entre um trabalhador na linha de montagem de carros com o profissional da área de saúde que cuida de gente. Assim, para ele, quem cuida de gente deve demonstrar de alguma forma uma certa quantidade de “horas trabalhadas”. A ele não interessa a qualidade desse cuidado, mas a quantidade de pessoas que ele deve “cuidar”. Ele não tem noção, já que é um idiota de carteirinha e sindicato, do valor intangível que um tempo de qualidade dedicado a uma única pessoa tem. Dirá alguém que estou a desmerecer o trabalhador da linha de montagem de carros, ou de aviões, ou de caminhões, ou de qualquer outro bem útil. Apenas tento, justamente, mostrar a gritante diferença entre bens uteis e seres humanos.  
O que quero dizer é que é possível ser produtivo sem ser ocupado, e vice-versa. Conheço uma penca de gente ocupada que pouco ou nada produz. Por exemplo, o sujeito que passa o dia inteiro na rede social a bisbilhotar a vida alheia. Do outro lado dessa moeda está essa “vida alheia” a gastar muito de seu tempo a se expor na rede social. Ou seja, nem um nem outro produz. Dirá alguém que a rede social é um grande outdoor onde se pode fazer marketing gratuito, e é verdade; há muitos que a utilizam para alavancar seus negócios, serviços, produtos. Isso é, obviamente, outra história. Não é disso que estou a falar. 
Há, também, o desocupado cirurgião que assim ficou após realizar seu procedimento cirúrgico e que agora precisa, por força da atuação do idiota, esperar o relógio de ponto bater determinada hora para poder ir embora, fazer outra coisa, atender alguém, ir à praia, sei lá... (Já, já me acusam, com alguma razão, de estar sendo um corporativistazinho de meia tigela. Com alguma razão...) O mesmo se pode dizer do radiologista ao qual se obriga que dê laudos de exames em quantidade maior do que o que é humanamente possível, e por aí vai nas várias outras áreas profissionais da saúde.
Voltemos ao meu amigo Ley. O que queria o homem? Sem rodeios direi – queria falar. Anelava falar. Se não falasse ficaria louco. Pudera. O homem está há quase noventa dias, coitado, trancafiado em casa por ser idoso... O homem não queria se ocupar – queria ser produtivo! Nesses noventa dias se ocupara de tudo e em tudo dentro de casa. Ser produtivo, no entanto, não era possível.
Conversa vai, conversa vem, lá pelas tantas o amigo me faz um relato. Confessava uma incontida felicidade. Não era pra menos. Foi o seguinte.
Um certo querido amigo comum, colega na profissão, saíra de alta do CTI do hospital onde estivera internado vítima do vírus chinês. Surpreso por saber de seu grave acometimento, eu quis saber: –“Mas... ele tinha algum fator de risco”? Na bucha, Ley fuzilou: –“A beleza”! 
O detalhe é que o referido colega é conhecido por sua intensa e assustadora... como direi... “assimetria de formas”. Uso de uma expressão carregada de eufemismo para evitar dizer a verdade indubitável e inquestionável – o homem é feio pra burro. Feíssimo. Feio é apelido. Bota feio nisso.
Bem se vê que a quase loucura de meu amigo afetou em nada seu mordaz senso de humor. Aliás, fazer humor é uma forma de produção. É quase como fazer amor. E disso o amigo há de estar ávido!

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...