O que mais importa ao motociclista –
sobreviver ileso ou ter razão?
Vejam meus cada vez mais raros leitores
que a resposta a esta intrigante questão é aparentemente fácil. Numa base
racional, isto é, sentado tranquilamente no sofá defronte a um hipotético
entrevistador, o motociclista responderia, sem titubear:
–Sobreviver
ileso, claro!
Poderíamos
agora imaginar o mesmo motociclista saindo desta hipotética entrevista após
ter-se servido de um copo de café Pilão, e subindo em sua motocicleta de 125 ou
150 cilindradas. Minutos depois, várias esquinas à frente, estará o nosso pobre
motociclista deitado no asfalto por conta de uma colisão com um automóvel. Para
sua sorte, seus ferimentos são do tipo que minha mãe faria curativos apenas
jogando sobre eles Merthiolate e iodo, e cobrindo depois com gaze e
esparadrapo. Afora o ardor, nada demais. No hospital, o médico prescreveu-lhe
analgésicos e semicúpios. (Não me perguntem o porquê dos semicúpios.)
Feita
a investigação, chega-se à conclusão que o acidente resultou do fato de o
motociclista ter-se interposto, na pista de rolagem, entre dois automóveis numa
ultrapassagem perigosa e não recomendável. Em outras palavras, o motociclista
ficou em posição extremamente vulnerável no momento do tráfego. Ainda assim,
praguejava:
–O
motorista não olhou para o lado antes de desviar do buraco no asfalto! Por
causa dele estou aqui “de atestado”!
Ora!
Como se bem pode ver, sobreviver ileso ou ter razão não é uma escolha fácil. Como
explicar, agora, a notável contradição entre o que o motociclista disse à
entrevista e seu comportamento nas ruas? Consultemos o Dan Ariely, que afirma
que o ser humano é um animal irracional, ao contrário do que diz o senso comum.
A propósito, Ariely diz que somos não somente irracionais, mas “previsivelmente irracionais”. É possível
que no calor do trânsito o sujeito se torne ainda mais humano e esqueça todas
as suas eternas boas intenções. A epinefrina e os corticosteróides são
hormônios que nada têm a ver com o racional.
Não
vou tentar explicar nada disso porque não sou estudioso do comportamento humano
e muito menos do comportamento de motociclistas imprudentes. Nem vou entrar no
mérito do porquê dizemos uma coisa e fazemos outra na prática. Se o Ariely
disse que somos previsivelmente irracionais após vários anos estudando nosso
comportamento em várias experiências de campo, quem sou eu para dizer o
contrário. Assumamos estar certo o psicólogo, e estamos conversados.
O
motociclista, após o acidente, queria ter razão.
Vê-se que, no caso, razão significa
ser inculpável, ou não ter culpa pelo
acidente, ou ainda ser inocente como causador do acidente. No pai dos burros
consta que razão é “aquilo que
explica alguma coisa ou que faz com que algo exista ou aconteça”. O motociclista queria dizer, então, que não foi ele o
causador do acidente.
É
claro aqui que o motociclista desprezou o primitivo medo da morte, algo tão
irracional quanto seu desejo de ter razão à força. De fato, o medo da morte não
é, a princípio, um sentimento racional. Entretanto, é possível ao ser humano
inteligente escolher racionalmente como se comportar em situações de perigo ou
esquivar-se dela tão logo ela se apresente.
É
fato que o sujeito que anda sobre duas rodas tem, desde o início, a perfeita
noção de sua maior vulnerabilidade em caso de acidente. Por isso mesmo,
presume-se, racionalmente deveria se comportar imbuído de um sentimento
irracional, o medo. Concluímos, de forma bem racional, que ao invés de querer
ter razão, o motociclista deveria anelar sair ileso após todo e qualquer
trajeto que fizer na via pública. Para isso deveria automatizar para si um
comportamento frio, calculista e defensivo ao extremo durante a pilotagem. No
mais é não esquecer a velha e boa máxima que diz que “o que você faz fala tão
alto que o que você diz ninguém escuta”!
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