quarta-feira, 20 de maio de 2020

SOBRE O SOLDADO QUE TEME A MORTE

O amigo Gaudêncio me escreveu para dizer que seu prazer ao ler meus textos era o de quem bebe um bom vinho. Digamos... um Chianti de três mil reais. (Olha que o real tá valendo uma merreca...) Fez, entretanto, uma ressalva para o que escrevi mais recentemente em  https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2020/05/nada-mais-nada-menos.html. O momento, para ele, é de impaciência. Segundo ele mesmo, está “impaciente com ‘palavrórios’”. Por isso o referido texto lhe suscitou o sabor de uma... Sukita. Aos que não sabem, a Sukita foi um refrigerante muito apreciado não me lembra exatamente em que tempo, até os dias de hoje, creio... De qualquer forma, a Sukita é doce, dulcíssima, do tipo que acalma o que anseia por um prazer que sossegue os nervos, como parece ser o caso de meu amado amigo. O que esqueci de indagar ao amigo foi o porquê dessa impaciência. Terá sido a prolongada permanência em domicílio?  Parece-lhe o futuro deveras obscuro com a história da pandemia? Não importa. O fato é que o homem está lá, impaciente a não mais poder. Mas há pior e, repito, há pior nessa história – acusou-me de ser o culpado por sua parageusia, como se fosse eu o culpado de sua aversão ao “palavrório”... A quem culpar se o sabor de um bom vinho se deixa ultrapassar pelo sabor de uma reles Sukita? Ora, bolas... De volta, a título de vendetta, lhe diagnostiquei uma coronavirose chinesa implacável! Ora, bolas...
                Como sujeito curioso que sou, saí a me indagar e a querer saber – que diachos seria um palavrório? Uma oportunidade de ampliar o vocabulário da língua madre jamais deve ser perdida. Assim, fui aqui no pater asini pesquisar e eis que encontro o seguinte sobre palavrório: conversa para enganar ou convencer; lábia; discurso inútil ou aborrecido; palavreado... Ao me deparar com tais sinônimos, tomei-me assaltado por divertido horror. E por quê?
                Sei lá... eu estava para justificar, ou explicar o que já está explicado lá no texto. Mas, desisti. Sim, desisti. Dirá o resto da gente algo mais sobre o palavrório. Afinal, já externei inúmeras vezes a impressão de que quem escreve põe a cara a tapa.
A vida, a aventura da vida só vale a pena quando se arrisca a própria pele. O planeta está cheio de pessoas que tomam decisões cujas consequências maiores não recairão sobre elas. Em outras palavras, pessoas que tomam decisões cujas consequências funestas recairão sobre terceiros, sobre populações inteiras, às vezes, muitas vezes, milhões de pessoas. Aproveitam-se da vulnerabilidade das massas, de sua comodidade, de sua opção pela irresponsabilidade. A responsabilidade, ou seja, a capacidade e opção por responder à altura às demandas mais urgentes e importantes da vida em sociedade implica num massacrante, brutal, corajoso e irremediável comprometimento com nossos maiores e mais essenciais princípios e, doloroso dizer, poucos estão dispostos a tal missão. Ou, ainda, muitos não dão a mínima para essa história de princípios.
                 Só agora percebo que estou a devanear, a misturar alhos com bugalhos e o amado Gaudêncio há de achar que estou me agastando com ele, o que não é o caso. Concluí que a Sukita do amigo há de ser o Chianti de outrem. Se a impaciência chegou para alguém, a lição estará na contracapa do livro da vida.
                O que é que eu queria mesmo dizer? Ah! Lembrei! Ou, por outra, o que lembrei com a história da impaciência do amigo foi a conversa que tive com um outro querido amigo, empresário de sucesso, conhecedor da e ativo na estirpe empresarial deste famigerado Estado do Ceará. O amigo circula entre gente de peso, gente que emprega milhares de pessoas, gente a quem não faltam recursos. Eu, na conversa, queria saber – por que essa gente, esses poderosos que têm recursos, se abstêm de seu poder quando estão aptos a montar uma equipe de peso, de qualidade? pesquisadores da área de saúde, epidemiologistas e infectologistas que façam uma análise séria do que está a ocorrer propondo, com responsabilidade, alternativas para o enfrentamento da pandemia sem prejuízos de vidas, mas que, simultaneamente preserve o viço social e as relações de trabalho? cujos dados possam ser contrapostos ao governo do estado, portador de infindáveis conflitos de interesses, e demonstrar que estão ativos e vigilantes? Por que, meu amigo, – lhe indaguei – essa gente, com base nos pareceres abalizados desses cientistas, não disponibiliza um sistema de informações independente, um jornal, uma revista, livres de conflitos de interesse, diferente da famigerada imprensa cujos interesses são sobejamente conhecidos, com total dependência dos anúncios do governo, e divulga de forma lícita, independente, correta, ética, como diria alguém, informações para a sociedade que contradigam o que está a dizer a autoridade repleta dos referidos conflitos de interesse ? Enfim, por que esta elite não se descola do governo? Por que se alinham com a desgraça pública? Por quê? Por quê? Por quê?, eis o que me pergunto obstinadamente.
                O amigo, acabrunhado com minha insistência, respondeu, com a vergonha estampada na voz – "porque não querem contrariar o senhor governador...”
                Nada poderia descrever meu horror diante de tão contundente resposta. Nas palavras da elite empresarial do Estado estava tudo explicado.  E não querem contrariá-lo porque, em suas mentes, o poder vem de cima e não de baixo... porque o poder não vem deles, mas da autoridade lá colocada por um sistema “democrático” em que o povo vota. Eles, que não se consideram parte do povo, não querem se indispor... vai que precisam de algo no futuro, algo que só a autoridade máxima resolve... 
                Ora, se o empresariado, reunido em instituições que defendem seus interesses, tem em sua mente que o governo vem de cima e não de baixo, que dirá o periférico habitante desta miserável cidade, desse miserável estado. Se este empresariado se presta a reprimir no próprio seio de suas associações seu potencial de voz e de atuação social, que dirá o pobre e periférico "cidadão" desta combalida cidade, deste combalido estado. Com esta atitude e, pior, com este pensamento decretam a absoluta subserviência da sociedade ao que faz o poder que já nem digo "público" e muito menos "privado", mas ao poder absoluto do governador, falsamente referendado por um legislativo já conhecidamente subserviente em tempos "normais".
Concluí com imenso pesar que não há saída para nós, cidadãos supostamente "pensantes". Se as ruas se tornaram inacessíveis para estes cidadãos diante das intermináveis canetadas do senhor governador travestidas de boas intenções para com a saúde pública, não há nem mesmo esperança nas redes sociais. Sim, porque tudo que corre na rede são intenções e informações. A vida pública sempre se resolveu e sempre se resolverá nas ruas e avenidas ora vazias. Os soldados declararam seu temor à morte e à guerra. Negam- se a ir ao campo de batalha. E um soldado que teme a morte não é um soldado — é um covarde.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

NADA MAIS, NADA MENOS

Outro dia escrevi sobre muros e crianças. Sobre muros que não detinham crianças (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2015/10/criancas.html). Foi sobre o tempo em que éramos tão livres que queríamos invadir os espaços fechados. Pura curiosidade. Pura vida de criança. Aos dias de hoje parece ocorrer o oposto. Ou, melhor dizendo, não ocorre o oposto. Seria o oposto se as crianças de hoje, trancadas em espaços fechados, ousassem romper o que as impede e ganhassem as ruas de pedra, os terrenos baldios, os quintais... Mas, não... Não há mais ruas de pedra, nem terrenos baldios, nem quintais... Só há o medo.
Ainda assim, e por tudo isso, talvez, as crianças chegavam a ser cruéis. Por exemplo, o que podia ser capturado como estereótipo em qualquer um de nós se resumia num ”carinhoso” apelido. Bem... muitas vezes, quase todas, não eram os estereótipos, mas algum traço físico relevante ou extraordinário o que estimulava os coleguinhas a nos apelidar. Afinal de contas, crianças não tiveram tempo para se deixar estereotipar. Ainda. Crianças são vítimas dos caprichos da natureza e da malícia de outras crianças. Sim, isso mesmo. Uma parte elas não é vítima de coisa nenhuma – em tenra idade já demonstram uma malícia que deveria ser preocupante... para a sociedade.
(Estou aqui a ponderar... Falo, não falo; falo, não falo... Decidi: – vou falar. A única coisa que se leva à campa é a tralha do que vai virar pó.)
Certa feita um coleguinha me pôs um apelido muito carinhoso. Alcunhou-me de Cadáver.  Vejam que coisa pavorosa – Cadáver! Muito magrinho e pálido, ele, já na idade da malícia de alguns, via em mim todas as características de um corpo sem vida. Cadáver. (Escrevo com maiúscula porque apelidos são escritos com letra maiúscula. Vejam aquele garoto cuja cabeleira tem cinco fios, amigo da Mônica, personagem do Maurício de Sousa, o Cebolinha. Se escrevo com minúscula corro o risco de alguém pensar que me refiro à planta.) Nas conversas era Cadáver fez isso, Cadáver fez aquilo; Cadáver joga de centroavante, Cadáver fez um gol; e por aí vai...
Tanto não havia estereótipos que mudavam os apelidos caso mudassem os traços físicos. Depois de colocar um aparelho ortodôntico, a coisa mudou – era Boca-Rica; ou Sorriso Metálico. Antes do aparelho, como os dentes se projetassem muito à frente, outro apelido – Elefante. Este último “pegou” menos, já que era enorme o contraste entre meu mirrado físico e o porte do animal. Moreno, um coleguinha que àquela época já parecia mais crescido em malícia que as demais crianças – vejam que Moreno já é um apelido – me veio com a pecha de Gambá. Tudo porque, certo dia, as coleguinhas do bairro colaram-me à testa um pequeno adesivo para “referendar” meu pertencimento aos amiguinhos do bairro e, voltando eu ao colégio marista com outro adesivo semelhante ao dia seguinte, concluiu que eu não havia me banhado. Assim, para ele, eu seria semelhante a um gambá, o bichinho que exala forte odor quando se vê ameaçado e não porque seja imundo. Paciência. As crianças às vezes são cruéis em sua ignorância muitas vezes travestida de inteligência.
Mas, por que é mesmo que estou contando tudo isso? Ah! Lembrei. Foi o seguinte.
Escreveu-me o Sérgio Moura – ou foi o Bacana? – não lembro... para dizer que nossa geração havia fracassado. Ora, imediatamente me lembrei do que o Nelson disse certa vez:
“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo – a nossa”, disse ele.
Diz o sábio que “o que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Será que nosso suposto fracasso significava que essa geração havia feito – ou não feito – algo diferente do que outras fizeram antes e isso teria determinado nosso fracasso? Bem, não parece ser isso, já que diz mais o sábio e estou humildemente inclinado a lhe dar razão:
“Haverá algo de que se possa dizer: ‘Veja! Isto é novo!’? Não! já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época”.
Assim, se não se faz nada de novo, se não há nada de novo, se tudo que já foi feito está fadado a se repetir sem nenhuma “inovação” – a tecnologia não muda a essência – então nada de novo fizemos ou deixamos de fazer, o que invalida a hipótese de que fracassamos. E o que fizemos, digo, o que faz repetidamente o bicho-homem? Ora, assassinar, roubar, injuriar, caluniar, humilhar, onerar, adoecer o semelhante – sim! adoecemos os outros! –, litigar, enganar, mentir, trair, apunhalar... e por aí vai. O que deveria ter dito ao Serjão ou ao Bacana, não me lembra bem, é que não, nossa geração não fracassou. Não há nenhum fracasso. O que há é o ser humano. Por outro lado, fosse vivo o Nelson lhe escreveria para humildemente lhe dizer, lhe lembrar que não há a época “doente mental”, nenhuma época foi “doente mental”. O que há é o ser humano, repito. E só. Doente mental é o ser humano. Nada mais, nada menos.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

DESCULPEM, MAS NOVAMENTE O PÂNICO...

       "Na academia não existe diferença entre o mundo acadêmico e o mundo real; no mundo real existe". (Nassim N. Taleb)


      Não tem jeito. A rede social é o palco da vida moderna. Por conta disso, farei o seguinte. Doravante não mais farei nenhuma distinção entre o que é ou foi real, e o que é ou foi virtual. Dito isso, aqui vai o fato. 
      Outro dia tornei público o seguinte pensamento, me dirigindo à agência Reuters e depois publicado noutros sites: "Não sei por que razões as agências de notícias, quase todas, não publicam os dados científicos sobre os quais o Presidente da República se apoia para declarar sua defesa do término dessa palhaçada do isolamento social. Estudiosos de peso, médicos infectologistas, têm dito que isso não se presta ao que se destina e dão lá as evidências. Inclusive aqui, ninguém cita isso. Quase toda a mídia está se deixando levar pelo pânico injustificado. Ou por pura incompetência, ou por safadeza mesmo. As evidências também têm mostrado que esta última hipótese é a bem mais provável... E nem falo da evolução notória do tratamento da doença em pacientes gravemente acometidos. Parece que estamos ao início do pânico. Nada veio de bom. Façam jornalismo informativo. O resto é canalhice. Inclusive a omissão." 
      Ora, dizia Nelson Rodrigues que "a maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade." Para sermos o mais justos possível, vejamos o que diz o pai dos burros sobre "idiota": estúpido, imbecil, otário, que ou o que denota falta de inteligência; fácil de ser enganado. Bem, parece que a maioria de nós é fácil de ser enganada, segundo o NR, o que me leva a pensar que a mídia sabe muito bem disso e se utiliza desse fato para fazer vicejar o pânico.
      É sabido que a mídia é pê-agá-dê em montagem de discursos e reportagens cuja mensagem é a que ela, a mídia, quer passar, e não o fato real, aquele baseado em todas as informações disponíveis. Há toda uma técnica utilizada para isso, o que se pode concluir através de uma fina e perspicaz análise desse discurso. Se a maioria de nós é fácil de ser enganada e temos inúmeros interesses escusos em jogo, defendamos nossos interesses à custa do pânico, hão de conjecturar. Este pode muito bem, e portanto, ser a nuvem de fumaça que se utiliza para embaçar visões que se consideram a si mesmas a própria perfeição. Sua utilidade é politicamente incontestável. Dolosamente, negligentemente ou ainda uma associação de ambas — que chamei de negligência dolosa — a história da pandemia terá desdobramentos que a história — o tempo — há de desvendar. Como disse Nassim Nicholas Taleb em seu fantástico "Arriscando a própria pele", " o único juiz efetivo das coisas (ideias, pessoas, produções intelectuais, modelos de carros, teorias científicas, livros, intencionalidade ou negligência em criação de vírus, etc. ) é o tempo". 
      Não entremos a deslindar o porquê de a maioria de nós ser fácil de enganar. Recentemente falei sobre nossa natureza irracional, demonstrada tão brilhantemente por Dan Ariely, ao contrário do que orgulhosamente pensamos. Muito menos comentemos sobre as conclusões de Andrew Lobaczewski em seu "Ponerologia", a nova ciência cujo objeto é o estudo do mal. Imaginem aí o caldeirão onde se mexe esse espesso caldo: um número estupidamente alto de pessoas fáceis de enganar, a maioria — no mínimo metade mais um —, à mercê de um número absolutamente não desprezível — cerca de 1% da população — de psicopatas. Alguém dirá que esse é um pequeno número, desprezível e sem efeito na realidade dos fatos e citarei alguns poucos exemplos de conhecidos psicopatas: Josef Stálin, Vladimir Ilyich Ulianov, vulgo Lenin, Adolf Hitler, Mao Tse Tung, Ted Bundy... Há mais, muito mais. Fiquemos apenas com estes. 
      Seria possível supor os destrutivos, mortais e amplos efeitos que estes solitários senhores causaram em decorrência de suas crenças e ideias nefastas? Aos que estão a ponto de exalar o clichê que reza que "os vencedores escrevem a história", direi que a história ainda não acabou, porquanto tais crenças e ideias ainda estão a se propagar mundo afora e ainda a encontrar simpatizantes do mesmo naipe e entre os fáceis de enganar. Bem se vê que ideias, esses entes tão abstratos e etéreos, em muito se assemelham ao tal vírus cujo "pico de incidência" tarda, cada vez mais, a chegar esmagando os já parcos recursos hospitalares locais e alhures. 
      Foi no esteio de tudo isso que fiquei assim como que "abestado" quando li o comentário de um conhecido se referindo à minha publicação. Disse ele: "Triste ver um cara bom com uma visão tão restrita, uma pena". Ora, minha publicação tenciona justamente realçar a necessidade de se abrir o olho para o que está posto por nossa mídia-lixo. E o tal fulano me sai com essa pérola... Em nada me surpreende. É de conhecimento geral que a cartilha dessa gente reza, como técnica de seu discurso, acusar o adversário daquilo que eles mesmos são, acusar os outros de fazer o que eles mesmos fazem. Assim, fico aqui com minha cegueira, enquanto fica ele lá com sua visão 3D, 20 por 20, de 360 graus. 
      Em todo caso, estou aqui agendado para marcar uma consulta, tão logo acabe o tal "isolamento", com meu querido amigo Héverson Paranaguá da Paz, oftalmologista de primeira linha, a fim de me avaliar a vista. Sim, porque, segundo este senhor, meu campo de visão está restrito. Enxergo como um míope astigmático cuja ptose palpebral quase não lhe permite deixar entrar a luz exterior. 
      Outro dia foi um amado e querido amigo-irmão, o Gaudêncio, que me diagnosticou visão "turva", e isso sem falar no amigo psiquiatra Danúzio Carneiro, que me alcunhou de "abestado", justamente como me senti ao ler o comentário acima. Segundo o Danúzio, minhas análises políticas seriam destituídas de "fôlego teórico", o que, para bom entendedor, significa que o mundo real precisa, necessita, almeja, anela e não sobrevive sem uma penca de teorias que suportem trinta a quarenta minutos debaixo d'água. Devo dizer, inevitável é: o amigo Danúzio é um comunista de carteirinha e sindicato e, assim como todo comunista que se preza, adora teorias e filosofias onde surfa suas sandices absolutamente fora do mundo real. 
     Em todo caso, concluo que é imperioso manter vigilância sobre si mesmo "com a mente esperta, a espinha ereta, e o coração tranquilo", a fim de se auto-dignosticar não a visão turva, não a visão restrita, não as etéreas ideias cuja materialização no mundo real fosse insano e trouxessem mortes e miséria; mas a própria capacidade de não se deixar pensar com base nos fatos e no mundo real e, principalmente, não pensar com a manada. Diz o chavão que "quem pensa com a manada não precisa pensar". Eis aí tudo — nunca, jamais, em tempo algum foi tão necessário pensar. Aos dias de hoje, mais do que em qualquer tempo, quero crer, pensar é uma necessidade vital e imperiosa.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O TRAJE ESPACIAL DO MESQUITA

Desapareceu o Mesquita. Depois de uma intensa e ativa presença na rede social, o homem sumiu. Explico.
Ou melhor, não explico. Direi apenas o que todos já sabem.
Aos dias de hoje a realidade compreende a vida real e a vida virtual. As coisas acontecem em ambas. Até crimes são iniciados e perpetrados na rede social. Tudo certo, tudo planejado, o único trabalho do criminoso é estar na hora e lugar certos para dar o tiro na cara da vítima. Se for negócio de roubo é mais fácil – tudo se resolve na rede social mesmo. Namoros nem se fala. Casamentos então...
 Pois o Mesquita fazia dias se apresentava na rede social com um grupo de casais amigos em farras diárias. Era uma bebedeira medonha e os bebuns se entrelaçavam em abraços e canções melosas. As senhoras, mulheres esposas daqueles varões, aparentavam mais bêbadas que seus maridos. A certa altura pareceu que o grupo de mulheres imitava as chacretes. (Somos do tempo das chacretes, se não sabem.) Uma das esposas lembrava muito a Verinha Furacão; outra era a cara da Fernanda Terremoto; já outra seria a Sarita Catatau em carne e osso. Por fim, jurei estar diante da famosíssima Rita Cadillac. Parecia que estavam em hotel de praia, desses providos de um deque onde os hóspedes se confraternizam ao ar livre. O grupo do Mesquita mais do que confraternizava – enchia a cara mesmo.
Foi em fevereiro último, começo de março, não me recorda bem. Quatro ou cinco dias se seguiram com a pilhéria, com a algazarra, com o rega-bofe. Os amigos, os que não haviam ido, já se enchiam de inveja por lá não estarem também. Alguém reivindicou: –“Não me chamaste”! Mesquita teve tempo de largar de lado o copo extravasando de cachaça para retrucar: –“Eu convidei”! E enfatizava: –“Prest’enção”!
Passados quatro ou cinco dias, parou a chacota na rede social. Soubemos, assim, que a marmota chegara ao fim. E foi aí que teve início o exílio do Mesquita. Não demorou para tudo ficar claro.
Acontecia precisamente o seguinte. Ao início de março o país tomou consciência da chegada do vírus chinês, justamente ao momento do término da função em que o Mesquita se metera com os amigos e suas respectivas chacretes, numa coincidência temporal perfeita. Eis aí tudo. Alguém dirá: –“Sim, mas... e daí”? Abro um parêntese a fim de contextualizar a história.
Aos que não se recordam e aos que não conhecem o Mesquita, direi o seguinte – o homem é um pouco hipocondríaco. (Bem, não acho que o homem seja um hipocondríaco nato, já que tem um certo prazer em estar doente, desde que seja uma doencinha boba, dessas que a cura é certeza.) Relatei aqui vários e vários episódios de sua vida que permitem a todos que o conhecem constatar tal aspecto de sua personalidade. Para se ter uma ideia, quero crer que o homem ainda esteja acometido por uma onicomicose que trata, sem muito sucesso, há uns... sei lá... vinte anos. O fungo, que está com meu Mesquita há tanto tempo, já é considerado parte dele, como se fosse um tecido extra na composição corporal do amigo-irmão. O Mesquita tem, ao contrário de todo ser humano, 5 tipos diferentes de tecidos, que são o epitelial, o conjuntivo, o muscular, o nervoso e, em seu caso especial mais um, o tecido micótico. Vejam que o homem é uma espécie de wolverine bebedor de um copo de liquidificador matinal, de mutante devorador compulsivo de uma baguette française inteira, ou de um ser involuntariamente simbiotizado e perfeitamente adaptado a seu novo estado. (Sim, outra característica do Mesquita é o apetite voraz. Sempre foi assim, mas “piorou” após a tal simbiose aparentemente definitiva. A suspeita é que seu tecido micótico tenha elevado metabolismo necessitando, assim, de calorias extras. A prova cabal do que falo é que o homem nada engorda, a despeito da elevada ingesta de calorias e nutrientes.) É verdade também que o homem fez várias tentativas de matar o bicho, como disse antes. Contudo, como resistisse às doses mortais dos antifúngicos administrados, Mesquita concluiu, ao contrário do que pensou ao início, ser este mais um bichinho de estimação, uma espécie de dádiva ou de marca personalizada. Seria uma tatuagem biológica, por assim dizer...
Mas falo, falo, falo e não vou ao ponto. Continuemos.
Com a suspeita de que o vírus chinês já andasse por essas paragens bem mais cedo do que se supunha, caiu a ficha do Mesquita – ele poderia ter sido contaminado no agarra-agarra do rebuliço! Sabe-se lá! Eram uns abraços calorosos, melosos, roçados...! Além disso, era um povo que viaja muito, sabe-se lá... as suspeitas faziam o homem coçar o queixo de preocupação. Na dúvida, que fez ele? Sumiu. Até da rede social sumiu. Suspeito que dona Rejane, sua chacrete, digo, sua esposa, não o encontrasse nem mesmo em seu majestoso e espaçoso lar. É possível que tenha se trancafiado num de seus inúmeros aposentos e lá permanecido ninguém sequer suspeita por quanto tempo.
Por fim, vários dias depois, seu silêncio sepulcral foi interrompido e ele finalmente apareceu para confessar que estivera de quarentena antes mesmo de a oficial ter sido decretada. De minha parte a apreensão era tanta que lhe enviei uma mensagem de felicidade: –“Mesquita, estás bem? Tudo certo contigo e com dona Rejane? E como vai Bolorzinho? Está bem”? (Bolorzinho é como chamamos sua micosezinha ungueal no dedão do pé esquerdo, acho...) Depois de garantir que todos estavam bem pedi encarecidamente que enviasse para nós uma foto sua em seu traje espacial antivírus chinês.
Ele ficou puto e não me respondeu até hoje.

O PÂNICO É... O PÂNICO!


Faz anos comentei algo sobre a rede social. Não, não... não foi sobre a rede social, mas sobre o povo que está, com alta frequência ou baixa frequência contínua, na rede social (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/search?q=sejam+burros). Cada um faz de seu precioso tempo o que quer e bem entende, foi a conclusão óbvia e inexorável a que chegamos. Existiria outra? Sei lá... Quanto mais passa o tempo, menos sei sobre qualquer coisa. O conhecimento sobre o que quer que seja implica numa pesada, perene e severa responsabilidade, parafraseando Nelson Rodrigues.
O diabo é a constatação da ascendência, na rede social, de muita gente “sabida”. Diria até – sei que não é bem por aí, mas vá lá – que está a cumprir-se a profecia bíblica que diz “...e a ciência se multiplicará”. O grande problema é que há muita “ciência” se multiplicando, de modo que o excesso de informação está a gerar angústia nos mais sensíveis corações. Vejam, por exemplo, a pandemia do corona, o vírus com coroa... No momento em que escrevo teria uma denominação mais apropriada a lhe dar. Apropriada não por meu próprio – e impróprio! – julgamento, mas por traduzir exatamente o momento em que vivemos. Chamá-la-ia pandemia do pânico. Ora, o pânico todos sabem... Como bem definiria o meu querido e sumido amigo Mauro Oliveira, o pânico é... o pânico (https://umhomemdescarrado.blogspot.com/2012/08/nao-vai-dar-tempo-nao-vai-dar-tempo.html).
Chamemos uma mãe a fim de tentar explicar o que faz o pânico. Definições são mais compreensíveis quando se desenha um cenário possível. Digamos que essa mãe tem seu filho menor sequestrado e o sequestrador está lhe ordenando que lhe pague... sei lá... vinte mil reais. Caso contrário, matará a criança da forma mais cruel possível. Imaginemos um sequestrador barato, que pense pequeno, vindo lá das bandas de Sobral. (Ora... não se agastem comigo os amigos filhos da “princesa do norte”, com minúsculas mesmo, mas os preços por lá beiram a vileza. Estão a se vender a preço de banana...)
Claro está que o cenário desenhado mostra uma manipulação onde se coloca a uma mãe a possibilidade da morte de seu filho caso ela não aja de acordo com a manipulação do criminoso. A criança está fora de seu controle. Como se chama o que sente essa mãe diante desse terrível quadro?
Pois isso é o que está posto ao mundo. Sequestraram a segurança mundial com a ameaça de um incontável número de mortes, indistintamente do local acometido. Pregam um uniformitarismo no comportamento viral, como se este agente mantivesse as mesmas características de contagiosidade independentemente da região do globo.  Ainda que várias autoridades médicas tenham explicado que não necessariamente seria assim em território nacional (https://youtu.be/3y6biEVCQc4), o sequestro da segurança dos que leem/assistem vereditos opostos é fato. Outras autoridades, em campo na luta contra este novo agente, estão a usar protocolos de tratamento vitoriosos contra a infecção e os comunicaram ao Ministério da Saúde. O que ocorreu? Absolutamente nada. Estes senhores têm sido categoricamente desprezados pelas mais elevadas autoridades de saúde do país(https://www.cultseraridades.com.br/mandetta-esta-errado-entrevista-com-paolo-zanotto-virologista-da-usp/).
É perfeitamente compreensível que a incerteza traga insegurança. Contudo, quando as evidências começam a se acumular, ainda que em curto espaço de tempo, em favor da injustificabilidade das medidas até então adotadas com base na incerteza reinante até então, a irracionalidade é a única explicação possível para a manutenção uniforme de tais medidas.
(Dan Ariely, em seu “Previsivelmente Irracional”, explica, também através de evidências derivadas de estudos comportamentais do ser humano em situações reais do dia-a-dia que, ao contrário do senso comum, somos um poço de irracionalidade.)
A irracionalidade é irmã gêmea da emoção, o que seria uma explicação bem à mão para que alguns, aparentemente a maioria, não lançasse mão do conhecimento adquirido e acumulado sobre o que lhes causa medo. Temos medo do que não conhecemos, seria uma outra maneira de expressar tudo isso. Ou, ao invés disso, não se pode descartar a hipótese de que haja um ilegítimo e criminoso interesse em manter, dolosamente, o presente estado de pânico. Uma amiga, que é enfermeira há quase cinquenta anos, quando comentei sobre os referidos dados animadores, me falou: –“Prefiro acreditar nas autoridades ‘constituídas’”... Ela esquece que a “autoridade constituída” está a mostrar-se hesitante e, pior, dolosamente cega às evidências de campo e epidemiológicas que lhe foram encaminhadas. A intenção dos guerreiros e estudiosos é levar soluções e, através delas, trazer conforto, esperança e, mais importante, o controle da pandemia em território nacional com a cura dos acometidos e salvamento de vidas.
A hipótese da ilegítima, dolosa e criminosa omissão e desprezo por parte dessas “autoridades constituídas” às evidências não é uma “teoria conspiratória” irresponsável e lunática, quando todos sabem do massivo interesse de núcleos poderosos do governo – quando digo “governo” me refiro aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário – em apear do poder o Presidente da República. (Vejam o uso excessivo da palavra “poder”, donde se conclui que há muito em jogo.) Esse interesse é cada vez maior quanto mais próximo ele estiver de ser bem-sucedido em suas intenções para o país. Isso implicaria em perda de privilégios inconstitucionais, endurecimento da lei para esses privilegiados, fim ou retardamento de seus projetos de poder, e por aí vai. Imaginem aí se o governo consegue controlar com êxito, e sem contribuir para a perda de vidas, essa pandemia em território nacional. O que seria dessa turma que se lhe opõe ferozmente?
A amiga que prefere a “autoridade constituída” está dizendo, como disse Nelson Rodrigues numa de suas tiradas espetaculares, “se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. Junto a ela estão a fazer coro milhões de brasileiros. Bem se vê que diploma e racionalidade podem, sim, perfeitamente, ser coisas mutuamente exclusivas. As amostras do Dan Ariely tinham pessoas com diferentes graus de escolaridade, como parece ser óbvio, o que permite a qualquer um de meus pouquíssimos leitores a me ter na conta de um perfeito imbecil. Paciência... quem escreve põe a cara a tapa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

AOS DIAS DE HOJE...

     Antes tarde do que nunca, diz o chavão. Os mais afoitos impuseram um mote maroto, parafraseando o ditado secular: antes à tarde do que nunca... À tarde se prevarica, diriam outros, quase que impondo a hora do adultério. O diabo é que nunca se sabe, nunca se sabe... 
     Dizia o Casoba que aos dias de hoje nada se faz que não se saiba. A propósito, sumiu o Casoba. Melhor dizendo, sumimos um para o outro. Procurei notícias do homem e tudo que obtive foi o silêncio. Não me retorna as chamadas, não me responde as mensagens que envio... Silêncio absoluto. Minto. Outro dia lhe fiz uma chamada involuntária. Sim, foi enquanto manuseava o telefone portátil e, inadvertidamente, sem intenção, fiz-lhe uma chamada. Imediatamente cancelei. Não se passou um minuto e ele me retornou. Eu estava ocupado e não queria tomar o tempo do amigo.
     —"Fernando?", disse ele quando atendi.
     —"Fala, Casoba!"
     —"Estás precisando de alguma coisa?"
     Hesitei.
     —"Só de sua amizade...", respondi pilheriando.
     Ele saiu a rir-se e desligou. 
     Depois, mais tarde, quando tive tempo, liguei novamente para um papo informal, jogar conversa fora, saber da vida dele... Não me atendeu. Das várias chamadas, nenhuma foi completada. Ainda agora espero.
     O diabo é que, aos dias de hoje — sempre aos dias de hoje —, ninguém mais se esconde. Nem mesmo o Casoba. Ele mesmo o dizia. Diga-se de passagem, Casoba foi dos sujeitos mais escondidos que conheci. Tinha um talento especial para sumir. Isso em passado não muito distante. Escondia-se tanto, tantas vezes e tão bem que íamos à sua casa, estando ele lá, e não o encontrávamos. Era no tempo da vida presencial. Nela o sujeito trancava as portas e... babau! Sumia sem deixar rastro.
     Hoje não. Hoje o sujeito se tranca, impede o acesso presencial a si, mas comete a gafe de "sair" na internet, botar a cara de fora na tal da rede mundial de computadores. Antigamente o grande charme era sumir — sim, sumir enchia o sujeito de uma aura misteriosa. Casoba usava desse estratagema para angariar a simpatia do sexo frágil, o cachorro...
    Hoje não, repito. Hoje o charme é "postar". Mas, vejam, a "postagem" é uma ciência que se vê em construção, mas há já uma vasta experiência de meio mundo no tema. A rede é ponto de encontro universal e, justamente por isso, serve a todos os propósitos possíveis e imagináveis e, diria também, impossíveis e inimagináveis. A depender, pode ser infinitamente útil e lucativa. Mas não era nada disso que eu queria dizer.
     O que quero dizer é que não acho o Casoba nem que vá à sua casa — não faço a menor ideia de onde ele mora atualmente —, mas o encontro facilmente ali, na rede social, na internet. Faz "postagens" quase que diariamente, ou seja, aparece quase que diariamente. Outro dia — há três dias, mais precisamente — fez uma publicação rebuscadíssima. Escreveu: "Memento, homo, quis puluis es et in pulverem reverteris". 
     Ora, o latim é uma coisa belíssima! uma língua mortíssima! uma utilidade humilhantíssima! Pouquíssimos a dominam aos dias de hoje. Tudo o que se escreve em latim tem uma beleza inexplicável, forte e, diria até, uma beleza exclusiva. Sim, a beleza do latim exclui os ignorantes — a maioria dos mortais —, talvez pela carga de antiguidade que lhe é inerente e inexorável. Pois o Casoba me saiu com o verso 19 do capítulo 3 de Gênesis em latim! Fosse só isso, tudo bem. O grande mote é a força da mensagem que o Altíssimo passa na sentença condenatória, tão inexorável quanto a peso do latim. O hebraico ou aramaico teriam tal força? Vá saber...
      O problema da "postagem", qualquer postagem, é que ela tem a frieza da ausência. Mesmo na hora do veredito, o Criador estava cara-a-cara com o homem, dizendo-lhe nas fuças o que o aguardava. Já o Casoba... Alguém dirá que lá estão as fotografias do homem, de seu cachorro, de seus netos, de seu carro, enfim, toda a vida do homem há de estar lá, na página da rede social. Pergunto : — e daí? Se nos encontrássemos, Casoba e eu, na Cidade da Criança, estaria lá o Casoba, só o Casoba e mais ninguém, comigo. Seríamos ele e eu lá, na Cidade da Criança, num encontro de amigos dos velhos e bons tempos. 
     (A Cidade da Criança, ou Parque da Liberdade, está para esta decadente Fortaleza assim como o Parque Memorial da Paz está para Hiroshima, no Japão, sendo que a Cúpula Genbaku, ou Cúpula da Bomba Atômica, está para o Memorial da Paz assim como o portal onde repousa a estátua de um "índio com os braços abertos quebrando os grilhões que lhe acorrentavam os pulsos" está para o Parque da Liberdade. Aqui as "bombas" não param de explodir. A estátua do índio está sem um de seus braços faz um bom tempo e nada se fez até agora para reparar-lhe o grave defeito. Outras "bombas", em breve, hão de lhe amputar o outro. Pensando bem, seria melhor encontrar o Casoba na Praça General Tibúrcio...)
     Eis aí toda a tragédia dos "dias de hoje": a ausência. Vivemos ao tempo da ausência. Antigamente nem as forças centrífugas da vida espalhavam tanto as gentes. Sempre se podia chegar a qualquer hora, a qualquer dia, em casa de parentes, amigos, vizinhos... Batia-se na madeira ou já se ia insinuando casa adentro com o grito: —"Ó de casa!..." Casoba não escaparia de mim se não tivesse se especializado nessa ausência interminável. Logo ele que vivia a lembrar que "morrer é apenas não ser visto"... 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

DOUTOR JOÃO, ASSIM VOCÊ ME LASCA...!

Quando o sujeito tem muito do que se lembrar, eis a hora de definir que já tem "uma certa idade". Era o Nelson quem dizia que o jovem tem todos os defeitos do adulto - entenda-se "adulto" como "uma pessoa de uma certa idade" - e mais um: o da inexperiência. Pois logo admito, antes que me saltem de lá os amigos empenhados na pilhéria: sou homem de uma "certa idade". Se não sabem, o número de anos não necessariamente traduz o número de causos, e o número de causos é o que se ajunta nos arquivos. Os que fazem a pilhéria parecem não fazer ideia de como há muito mais gente com invejáveis arquivos cuja exploração e exposição nos encheriam os olhos de lágrimas ou de sorrisos, de saudades ou de repulsas, enfim, de toda possível emoção que o viver suscita. O melhor é que, através destes, vivemos novamente, se tivermos participado com eles o que foi vivido. O que quero dizer é que, depois de uma "certa idade", as memórias nos perseguem como o leão a sua presa. Alguém dirá que essas são ideias paranóides e que estou a encher linguiça. (Linguiça ainda tem trema? Se tem, fica sem mesmo...) Paciência. Cada um enche linguiça como quer e bem entende. O que acontece é o seguinte.
     Estou ali em certa agência bancária e, súbito, quem vejo caminhando em direção à saída? Resposta: doutor João Evangelista Bezerra Filho, meu Mestre em cirurgia geral. Aproximei-me. "Doutor João, Doutor João!...", chamei. Virou-se. Pôs as mãos sobre meus ombros e, me olhando de frente, disparou :
     —"Fernandinho da Gata...!"
     —"Doutor João, assim você me lasca...!"
     Foi, para mim, uma revisão histórica de tempos em que ainda não havia vindo à existência, e uma visitação aos tempos em que ele me ensinou muito do que aprendi em cirurgia. Como esquecer o dia em que, em procedimento cirúrgico sob sua supervisão, lutava para pinçar um vaso sanguíneo que teimava em babar o sangramento inoportuno e potencialmente danoso? Ele funcionava como supervisor e tutor. Admitindo minha incapacidade de completar a manobra, pedi a ele que adentrasse o campo cirúrgico. Após um lapso de tempo mínimo, ele facilmente fez a hemostasia. Retruquei: —"Doutor João, como o senhor explica que eu tenha tentado inúmeras vezes pinçar esse vaso sem sucesso e o senhor conseguiu assim, sem demora? Ele, piscando com rapidez os olhos fechados como de costume, fulminou: —"É porque você ainda não tem 'moral'...!" Aprendi, assim, que ganhamos "moral" com a experiência e a prática. Só a leitura não basta. 
     Ficamos ali parados, obstruindo a passagem do povo, quase por 1 hora. Já ia, a certa altura, pedindo ao pessoal do banco uma mesinha com duas cadeiras e uma garrafinha de café. Como a antever a intenção, o Mestre atalhou: —"Estamos combinados aqui mesmo à mesma hora na quinta da semana que vem!" E assim nos despedimos.
     Poucos dias correram. Desço ali ao calçadão para uma caminhadinha de fim de tarde. Gente não faltava, com as barracas dos ambulantes a ferver o comércio dos chamados "artigos da terra". De repente, quem vejo? Doutor Oto Leal Nogueira, meu Mestre em clínica médica da faculdade. Fomos um ao outro num abraço, filial meu, paternal dele. Perguntou: —"Que estás fazendo?" Anunciei, orgulhoso, uma aposentadoria precoce.(Não existe aposentadoria precoce. O que existe é o infindável déficit orçamentário do trabalhador, donde se conclui que aposentadoria não é uma questão de tempo e, sim, uma questão de dinheiro.) Ele me sai com uma pérola: —"Você sabia que todo aposentado tem um aposentado entre as pernas?" Atalhei incontinenti: —"Assumo já, já de volta!" Ele foi para um lado, eu fui pro outro após novo abraço. 
     Mais alguns dias se passaram e vou ali ao Center Um, o primeiro shopping de Fortaleza. Paro o carro na vaga do estacionamento e me encaminho para a rampa de acesso. (Antigamente se fazia o mínimo esforço frequente em pequenas atividades igualmente frequentes. Os atalhos eram danosos. E ainda o são.) Já ia me voltando para subir quando avisto outra grande e querida figura de minha formação médica: Doutor José Moreira Lima, outro querido Mestre da cirurgia geral. Na época ele também funcionava como diretor do Hospital Geral de Fortaleza. Diga-se: não era um diretor "de birô". Era um diretor "de campo". Sua direção foi marcada por sua presença constante em todos os setores do hospital. Não perdia tempo na sala fechada onde se enclausuram os diretores que não conhecem o que dirigem. De tanto fuçar — no melhor sentido — estava sempre a provocar-nos para um melhor aprendizado e experiência. Como no causo da anastomose que não abriu. Foi o seguinte. (A gente leiga no jargão da área há de me perdoar...)
     Operamos na emergência um senhor idoso que havia sido apunhalado na barriga em sua própria mercearia — aos dias de hoje as mercearias estão em extinção — durante um assalto. Dias depois ele faleceu na terapia intensiva. Durante a reunião científica semanal da cirurgia geral, Doutor Moreira insistia que a morte se deveu à deiscência da sutura do intestino com consequente peritonite e septicemia. Eu dizia que não, que a morte do paciente nada tinha a ver com isso visto que não tínhamos nada no pós-operatório que apontasse para esta causa. Doutor João Evangelista, chefe do serviço, sentado a meu lado, cochichava em meu ouvido: —"'Fernandin', o Moreira tá querendo te 'encaçapar'..." Ora, como provar a minha tese ante embate tão acalororado e que levantava a suspeita de um vacilo dos residentes?
     Foi quando me veio a ideia de ir ao Instituto Médico Legal e conseguir uma cópia do laudo do exame cadavérico do paciente. Não me recorda outros achados, mas o que importava aos residentes era a parte que descrevia os do abdome: a anastomose estava íntegra! Na sessão seguinte levamos a tal cópia e, assim, provamos por A mais B que o procedimento cirúrgico havia sido perfeito no sentido de corrigir as lesões que o paciente tivera. Doutor Moreira e eu recordávamos tudo isso com a saudade que os mestres e alunos carregam depois de conviverem juntos na prática ardorosa e apaixonada de seu objeto de estudo, ambos repletos da vontade de fazer o melhor para quem necessita. 
     Depois do encontro com esses três grandes ícones da medicina local em tão curto espaço de tempo, fiquei a lucubrar que diachos a vida estava tentando me dizer. Seria a teleologia a falar comigo, como que a reiterar a missão que abracei? Sabe-se lá... O fato é que os causos nos remetem a uma época mágica de vislumbres e descobertas. Mas, então, entendi. A vida dizia para jamais deixar de ser grato por tudo visto que tudo é dom, tudo é dádiva, tudo é doar. Eu não poderia me contentar com menos.

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...