sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O RUBOR DO REQUEIJÃO

          Na fila do caixa, no supermercado, aguardo pacientemente a minha vez. Não pusera muita coisa no carrinho. Ela — essa senhora usando um chapéu de palha, óculos escuros e roupas esportivas coloridas, a alvíssima e delicada tez a permitir ver-lhe a delicada e verde-azulada trama vascular em seus bem torneados braços — aproximou-se impetuosamente e, mostrando-me um pote de requeijão lacrado seguro pela mão esquerda, pediu: —"Compra pra mim"?...
          Hesitei poucos segundos e, sem saber bem o que lhe responder, sorri meneando a cabeça e tomei-lhe da mão o frasco. Olhando para ele enquanto girava-o entre os dedos, disse-lhe: —"Tá bem"... 
          Percebendo meu constrangimento, achegou-se mais a mim e confessou: —"É que tenho câncer... Quer ver a minha cicatriz no peito"?, e já ia baixando a blusa. Segurei-lhe suavemente a mão para impedir o que ela estava para fazer, assegurando-lhe que acreditava nela. Condoído de seu drama — não dispor de uma pequena quantia para fazer aquela minúscula compra —, esfreguei o dorso de minha mão esquerda em seu rosto idoso num gesto de carinho e pus o frasco dentro do carrinho.
          Ela saiu da loja num misto de felicidade e acanhamento levando o pote de requeijão que havia de barrar-lhe o pão dali a pouco.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CRIANÇAS

Muros são estruturas que limitam. Nasci já à época dos muros.
Mesmo nos idos ’60, lá estavam eles a separar. Ainda que os homens desta cidade não se matassem como hoje, nem os abismos entre eles fossem tão profundos e largos como hoje, existiam os muros para nos repelir. Com o tempo eles se multiplicaram, ganharam altura. Ficamos ainda mais desconhecidos, mais temerosos. É o progresso, diziam.
Nós, as crianças, nos divertíamos neles subindo e pulando para a zona proibida. Era um desafio de crianças. Escalar e pular o muro que nos impedia de ser crianças nos excitava ao extremo. Não nos conformávamos com os muros, com os portões, com as grades. Queríamos, em calções e pés descalços, ganhar o mundo, as casas, os terrenos baldios, as piscinas dos vizinhos, a goiabeira do quintal alheio. (Era no tempo dos quintais). Não havia limites para nós, crianças imortais e destemidas.
Correr com todas as forças, a plenos e limpos pulmões, por quanto tempo fosse necessário, nos impelia com coragem às mais perigosas e palpitantes missões. Caso empreender fuga sob a mais nítida ameaça fosse uma necessidade imperiosa, o fazíamos com um sorriso aberto e uma força imensa e não extenuante. Não tínhamos limites. Éramos deuses, cheios de vontade de vida.
Crescemos.
Os muros também cresceram. Cresceu nosso medo. Nossa vontade de vida arrefeceu. Com efeito, não decresceu a vontade de vida; arrefeceu, sim, nossa coragem, nossa energia. A vida, a mesma que nos excitara a vontade de si, passou a nos golpear incessantemente. À medida que crescíamos perdíamos as formas de criança e nosso aspecto se tornou ameaçador para alguém. Descobrimos, então, que o que fazíamos impunemente, porquanto nossa pureza nos fazia inimputáveis, não nos era mais possível fazer. Ainda que guardássemos bem à vista na alma, não se conseguia vislumbrar em nós nossa ludicidade, a criança que ainda existia em nós.  
Então, morremos. Tornamo-nos outro alguém. Nem vale a pena enveredar por constatações tão chocantes e tristes. Voltemos às crianças que éramos.
Não; façamos melhor – descrevamos o processo de descrescimento. O descrescimento é um conjunto de decisões que dão o revertério. Não é um fenômeno biológico. É uma trama urdida nas ferventes confusões da alma, após um cansaço enorme, alguma sabedoria e doses cavalares de resignação. Descrescer não é parar de crescer; é uma espécie de purgação, de limpeza. É olhar os muros e não se intimidar com sua altura, com os limites impostos. É voltar a ser uma criança por decisão própria, com as enormes vantagens da inexorável sabedoria. É ser uma criança grande, um crianção.
Se o homem nasce, cresce, se reproduz e morre, só me restava morrer. Sim, é a única coisa que me restava. Não conformado, resolvi descrescer. De quebra havia ainda a possibilidade de meu renascimento. Como não há no Aurélio o verbo descrescer, talvez fosse mais certo usar o verbo recrescer, este, sim, existente.
O que quero dizer é que resolvi recrescer, e para tanto, renasci. Comecei a renascer quando resolvi me desmontar. O desmonte foi uma morte, sem dúvida. Reparem, então, que estão diante de alguém que já morreu.
Foi simples. Certo dia, uma linda manhã de sol, acordei triste, pesado, a cabeça doendo, sem tesão. Olhei pela janela e vi o vai-e-vem da cidade, as pessoas correndo, o trânsito movimentado – ainda não era como hoje – o céu tão azul que parecia um jardim de uma cor só. Pensei: -“Morri.” E ali mesmo, com a janela aberta para o mundo, deixei de existir. O diabo é que, se se morre em vida, não há outra saída que não o renascimento. Só morre em vida quem quer ainda muito viver. E, no mesmo instante, ali mesmo, com a janela escancarada para o jardim de uma cor só, renasci. Foi mesmo muito simples.
Desde então voltei a pular muros. Hoje é bem mais difícil; pode-se ser alvejado com uma bala certeira. Ainda assim pulo uma enormidade deles. Entro e saio do vizinho num piscar de olhos. As casas são poucas aos dias de hoje, de modo que os quintais com goiabeiras, sirigüelas e limoeiros são uma coisa rara; mas ainda os encontro vez ou outra. Outro dia quase me morde um enorme pastor alemão sentinela.
O que muito me faz falta é a companhia de outras crianças renascidas como eu. Brinco sozinho o tempo inteiro porque não há amiguinhos com quem brincar. Sinto-me, de fato, muito só neste mundo. Ainda me resta a esperança de que encontrarei alguém morto, renascido, em recrescimento. Anelo encontrá-lo em breve.


Fernando Cavalcanti, 01.07.2010  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

FOME MAIOR QUE A VONTADE DE COMER

EIS que no último sábado o nosso Fábio “Menotti” Motta nos enviou, na rede social, uma fotografia de Laurinha, em sua companhia, num jantar quase à luz de velas. (Já, já explico o “quase”.) Até agora ela se configurava para nós, os mais diletos amigos de Fememê, como um delírio de um solitário cinquentão em seus devaneios eróticos. Subitamente, entretanto, eis que surge a imagem da pequena.
Em nossa cruel e indiscreta incredulidade, nos assaltou a ideia de que – obrigo-me a assumir que, desautorizadamente, falo por todos – aquela pintura seria uma grosseira falsificação perpetrada por nosso amigo no intuito de nos ludibriar. Em resumo – aquela não seria, em hipótese alguma, a Laurinha de quem tanto falava o Fememê.
Porém, lá estava ela, esboçando um lindo sorriso de menina-moça. Sentada de frente para o amigo, Laurinha parecia estar à vontade na presença daquele cinquentão desconjuntado. Diria até que ele também não demonstrava nenhum constrangimento. Alguém poderia indagar: –“E por que deveria ele se intimidar”? Eu responderia que, naquele cristalizado instante, o cinismo o salvava de qualquer vergonha ou acabrunhamento. Fememê nunca foi homem de meias palavras. Nem de meias mulheres. Sempre as assumiu, sem largar mão veladamente de um ou outro de seus cachos. Dizendo de outra forma, Fememê sempre as teve em múltiplos de dois. Fração de mulher não o agradava. O mesmo não se pode dizer das pequenas quando se viam fazendo parte do harém de meu amigo. Alguém, ele mesmo talvez, dirá que estou a exagerar, e direi que a sonsice do sonso por vezes se confunde com sua mais ausente virtude. 
O envio da fotografia à apreciação dos amigos representava uma guinada digna de nota no comportamento do homem. Se antes não dava o menor indício de que pretendia introduzir a pequena ao convívio dos amigos – ou porque estaria a idealizar a mulher ou porque ela nem sequer existia –, agora fazia questão de expô-la descaradamente. Prova disso foi o convite que fazia aos amigos, juntamente com a fotografia, a comparecerem com suas respectivas consortes ao restaurante onde ele se encontrava com a jovem. A coincidência maior foi que o Sérgio Moura andava, justamente naquele momento, à cata de um casal amigo para estar com ele e sua mulher numa rodada de drinques em local a ser acordado. Fememê aproveitou-se da sobreposição dos fatos e convocou Serjão e sua mulher a comparecerem onde ele estava. E não somente o Serjão, mas todos os outros foram intimados. Resultado – ninguém foi. Ficaram todos os cinquentões no aconchego de seus lares, longe dos perigos mortais desta Fortaleza desgraçada e amaldiçoada. Fememê se viu, assim, livre para namoriscar a linda jovem, embora fosse evidente que estava a fazer uma força danada a que todos comparecêssemos ao lugar onde a jovem e ele estavam. A mim me parecia que não era sua intenção gozar da companhia da moça longe dos olhares inquisidores de quem lá chegasse. Nada disso seria propriamente uma novidade já que o Motta gosta de exibir suas conquistas como troféus em sua estante de atleta sexual. (Corre à boca miúda que o nosso Motta ultimamente só tem deitado em pranchas de surf e em sua cama de solteiro...)
Imperioso é acrescentar a essas notas um detalhe curioso, e que vem reforçar a última suspeita. Uma vez que ninguém se habilitou à companhia do mais novo casal, imaginei que o Motta repensasse o local aonde levaria a pequena. Sim, porque um jantar a dois é diametralmente diferente de um jantar em que mais pessoas se apresentam. O local onde janta um casal há de ser romântico e, diria até, afrodisíaco. A noite enseja sonhos e devaneios diferentes à mente do homem e da mulher, de modo que todo cuidado é pouco na escolha do lugar. 
Ao que parecia, Fememê estava com Laurinha numa pizzaria provida de forno a lenha. (Mais do que um bom conquistador, ele é um excelente garfo, o que pressupõe que dê ao estômago mais importância do que o que vai ao coração ou à área do córtex onde se processam as intrincadas conexões que geram a vontade de amar... ou de se abster de amar.) Repetidas vezes o homem deixou transparecer o estado deplorável de seu aparelho digestório, quase afogado nos sucos e secreções repletos de enzimas e ácidos diversos à espera da primeira garfada. Hormônios pancreáticos e mucosos fervilhavam, ao que se via, no sangue de nosso Motta, enquanto a beldade sorria para a câmera. Sobre a mesa apenas garfos, facas e temperos para acirrar o sabor e o paladar. Não se via a chama bruxuleante de uma única vela a dar contornos poéticos àquele inusitado encontro. Reinava, ao que parecia, a fome... Por tudo isso é que os amigos lançaram-se a uma guerra de sugestões de restaurantes românticos.
Tudo em vão. Nada disso funcionou. Motta queria a platéia de amigos, que não compareceu, e na falta desta serviria mesmo a de desconhecidos. Nem a ideia de jantar junto ao mar, nem a de jantar ao som do piano ao vivo em ambiente aconchegante, pouco iluminado e realçador da intimidade entre o homem e a mulher, uma vela acesa sobre a mesa apenas a mergulhar as faces de ambos na atmosfera de mistério que encanta os futuros amantes, por exemplo, foram capazes de demover o nosso Fememê Motta a sair daquela pizzaria na busca da aura fantasiosa de uma noite de lua minguante e melancólica como enleio de um jantar a dois... Venceram os hormônios e secreções entéricos enquanto as gônadas se encolhiam no ar quente-frio da perigosa noite fortalezense... 
Como findou a noite do casal não sabemos, e é até bom que não saibamos mesmo. Pensando bem, que tínhamos nós de nos infiltrar em assuntos dos outros? Fememê é homem maduro, quase podre. Não carece de amigos que o aconselhem sobre aquilo em que é mestre. Perdi meu tempo com conselhos inúteis e escrevendo estas notas que nada acrescentam ao résumé de meu amigo.

sábado, 19 de setembro de 2015

UMA TERTÚLIA DE ARTISTAS

          É cruel o envelhecer.
       Mal comecei e já faço uma pausa para um comentário. Não sei se já observaram as pessoas portadoras da trissomia 21. Se não, sugiro que os leitores pensem no personagem de Tom Hanks em Forrest Gump, película de 1994 dirigida por Robert Zemeckis.
          Forrest é basicamente um sujeito de inteligência limitada. Em criança, sua mãe se viu obrigada a “sair” com o diretor da escola onde queria matriculá-lo justamente porque ele se recusava a recebê-lo como aluno. O ato de prostituição da séria senhora abriu as portas para aquele garoto tímido e retraído cujo baixíssimo QI não se adequava aos requisitos da instituição. Por outro lado, Forrest cresceu leal, amoroso, manso, doce, dono de uma infinita capacidade de amar e de criar fortes laços afetivos com todos os seres humanos com quem se relacionou. Não era portador da trissomia 21, mas era como se fosse...
          Diz o Stephen Convey que “a inteligência não é santa”. A frase, longe de abarcar todos os seres dotados de alguma inteligência, aponta justamente para aqueles que a têm em menor quantidade, em menor fulgor, limitada, e nos evidencia aquilo que a vida não se cansa de tentar nos mostrar enquanto seguimos teimando em não enxergar – a imensurável beleza da inocência, da pureza do caráter e do espírito.
          (Ia fazer um breve comentário e acabei por cansar o leitor com uma divagação tola.)
          No último sábado aconteceu mais um encontro dos amigos Maristas formados no longíquo ano de 1979. Hoje homens e mulheres acima dos 50 – homens e mulheres de meia-idade –, gastaram a noite a relembrar a juventude numa típica tertúlia dos anos '70. Houve até quem fosse trajado a caráter, exibindo calças boca-de-sino, sapatos cavalo-de-aço e chinós black power. A trilha sonora, desnecessário dizer, foi toda ela uma playlist do que se ouvia nqueles gloriosos e inesquecíveis anos para nós dourados. O ambiente foi decorado de modo a reproduzir a atmosfera da época o que, digamos logo, foi o quesito mais difícil já que aos dias de hoje seria literalmente impossível alugar para uma festa em casa uma luz negra, item característico e indispensável às tertúlias daqueles anos. Faltou, portanto, e por culpa da distância no tempo, a luz negra. É bem verdade que usava-se naquele tempo, quando os recursos do anfitrião eram limitados, enrolar uma luz comum em papel rôxo no intuito de produzir uma imitação da luz negra, mas creio que nem mais o tal papiro seja hoje possível achar.
          O encontro reservou aos presentes, como sempre, uma ebulição de emoções. Não é sempre que se revê periodicamente amigos e conhecidos de 40 anos atrás. Passa o tempo, mas não passa a emoção de revê-los; passa o tempo, mas é nossa vontade que não passe mais; passa o tempo e a saudade não se esvai... Pois é justamente aí que está a crueldade do envelhecer – envelhece o corpo enquanto o espírito da criança irrompe de suas profundezas como a larva do vulcão que acorda de seu prolongado e profundo sono.
          Assim, vemos nesses encontros não o homem ou a mulher de meia idade, mas a inocente e pura criança que conhecemos, correndo nos pátios e corredores como se a vida fosse infinita. O tempo presente nada mais é do que o momento seguinte em que fisicamente mudou a criança sem jamais ter mudado sua essência e seu core. É bem possível que haja, é verdade, várias camadas suporpostas a essa essência e onde, ao invés de dormir a criança, lá ela se oculta e se esquiva, como se temesse ser revelada. Um e outro tipo existe entre nós, pululando pelas estradas da vida. Porém, tão logo se vejam uns à frente dos outros, imediatamente se revelam independentemente do tipo, destemidas e desejosas de anunciar sua presença. Foi assim no último sábado e sempre assim será todas as vezes em que se aproximem.
          Chamou-me a atenção neste meeting um achado inesperado, assaz curioso e, por que não dizer, cômico. Infelizmente não tenho como provar e justamente por isso é que peço aos amigos que tenham em seu poder fotografias do evento que as escrutine com cuidado em busca dos detalhes que passo a expor.
          Observem, por exemplo, o garçom que servia uísque. (Havia dois garçons: um circulava servindo uísque e o outro permanecia no bar preparando coquetéis.) Pois o do uísque chamou-me a atenção tão logo lhe pus os olhos. Era um jovem de rosto pouco mais ou menos afilado, de tez morena e cabelos encaracolados. Usava óculos de grau cuja armação remontava às que se usavam nos anos '50 e '60. Vestia a um passeio completo preto. Olhei e pensei: –“Conheço esse cara”! Daí a poucos segundos matei a charada – senador Magno Malta. O cara era a cara do senador Magno Malta! Faltavam-lhe apenas os olhos claros, o que não comprometia a semelhança como um todo, e sobravam-lhe os óculos, já que o parlamentar não os usa. Daí em diante passei a notar outras semelhanças entre nossos amigos e alguns famosos.
          Observem, por exemplo, a semelhança entre o nosso Sérgio Moura e o Lulú Santos, não somente pelas cãs mas pelo formato do rosto e porte físico. A vantagem estética pende claramente para o nosso Sérgio, já que o Lulú ganhou com os anos umas bochechas enormes, ao passo que o amigo segue com as faces regulares. Diria até que o Lulú seria uma caricatura de nosso Moura.
          O meu amigo Bacana, Antônio Torres Braga, notei – tem uma semelhança incomum com o Timothy Hutton. O ator tem olhos claros, mas apenas isto faltou ao Bacana para se parecer mais com o artista, sem esquecer que o marista fez também na vida suas “novelas” e “artistagens”. Gente não famosa também tem o direito às comédias da vida privada, ora pois...
       Outra que me pareceu uma similitude surpreendente foi a do nosso grande e querido cardiologista Ricardo Pereira Silva com o ator Sylvester Stallone. Conversando animadamente com ele percebi, subitamente, e principalmente ao sorriso, a parecença brutal e incontestável com o ator e criador de “Rocky, o lutador”. Uma vantagem para o nosso Ricardo é a musculatura facial ágil e em pleno funcionamento, ao contrário da do Sylvester que ainda sofre as sequelas de uma paralisia.
          Faltou à tertúlia outro que muito se parece com um famoso, o nosso Fábio “Menotti” Motta. Sua semelhança com o ex-técnico da seleção argentina já foi comentada antes (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2015/08/menotti-motta-e-as-tres-raparigas.html) e faço o comentário apenas para lhe puxar as orelhas pela ausência injustificável.
          Enfim, à medida que passava a hora notava cada vez mais semelhanças entre os nossos e os famosos, mas termino por aqui para que não saiam a dizer que eu estava de pileque e vendo coisas demais. Mas posso garantir ao Jorge Bastos e sua Virgínia, nossos anfitriões – que o uísque estava bom, isso estava!

domingo, 23 de agosto de 2015

"MENOTTI" MOTTA E AS TRÊS RAPARIGAS

      O que não me sai da cabeça é a cabeleira do Cesar Luis Menotti, técnico da seleção argentina em '78. O homem, hoje com 76 anos, sentou o pau na seleção brasileira da última copa do mundo em entrevista recente. Fui ver-lhe a fotografia publicada na citada entrevista e pude comprovar – é, sem dúvida, uma cabeleira impressionante a do senhor Cesar Luis Menotti. Confesso sem medo da franqueza – li apenas os dois primeiros parágrafos de sua conversa com o repórter. O que me prendia os olhos, volto a repetir, era a cabeleira.
      Os amigos hão de querer saber por que diabos estou eu a me assustar com essas bobagens, de modo que me vejo obrigado a confessar – o meu amigo Fábio de Oliveira Motta tem uma cabeleira igualzinha à do velho futebolista. Para deixar as coisas absolutamente claras e indubitáveis, alerto a que não confundam o ex-técnico argentino com certo cantor de música sertaneja. Este é um sujeito gordinho e atarracado cuja cabeleira é vasta e densa, bastante diferente da dos outros dois.
      O caso é o seguinte. Na última quinta-feira encontraram-se os maristas no intuito de molhar a palavra, e presente entre eles o nosso Motta. Desde maio passado, quando do encontro deste mesmo grupo para comemorar os 54 deste que escreve, observou-se a roqueira cabeleira do homem. Foi ela, relembremos, o mote para uma desinteressada crônica (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2015/05/os-bobes-do-fabio-motta.html). De lá para cá, quinta última pudemos constatar, o nosso Motta não há de ter ido ao fígaro uma única e mísera vez. Por isso a cabeleira está ainda mais vistosa e escorrida. Vejam que ela tem as mesmas características da do senhor Menotti – é minguada no alto da cabeça e basta no occipício. Constatada a semelhança brutal e preocupados em dar ao amigo um título de fama, resolvemos apelidá-lo de Fábio “Menotti” Motta.
      Eu disse que o senhor Menotti tem 76 anos. O “Menotti” Motta tem apenas 53. O diabo é que, como o homem fez uma penosa dieta – está a se alimentar apenas do açaí que lhe vende o Bacana –, emagreceu para lá de 10 quilos. Essa perda ponderal lhe trouxe benefícios físicos óbvios, mas também trouxe-lhe efeitos indesejáveis, o principal deles o aparecimento de abundantes linhas de expressão nas fuças, digo, na face. A título de exemplo, vejam-se-lhe os sulcos nasolabiais. Ficaram tão pronunciados que o homem às vezes se assemelha a certo personagem do desenho animado, um simpático e tristonho cãozinho branco cujo nome agora me escapa. (Saí a ver qual seria ele e – pimba! – não é que o encontrei?! Seu nome é Droopy, mas não me perguntem em qual específico desenho ele atua.) Observem que os sulcos nasolabiais são linhas naturais e suaves marcas à juventude que se aprofundam e se acentuam à medida que se envelhece. Afora eles o nosso “Menotti” Motta apresenta outras linhas não tão naturais, adquiridas pela perda adiposa de seu rosto.
      O Serjão, presente à mesa ao momento em que admitíamos a incrível semelhança da cabeleira e não somente desta mas também das fuças, digo, da face de nosso Motta com a do argentino, tratou logo de contrair, de tornar menor o novo apelido. Como ele é um baiano frustrado desde que morou por aquelas paragens há muitos anos, arrematou: –“Fêmêmê”! E assim todos acordamos em como seria a alcunha do Motta: Fêmêmê. (Observem que os circunflexos aqui não se prestam a denunciar a sílaba tônica: a palavra é, obviamente, oxítona. Os circunflexos servem apenas a realçar a “baianidade” do termo e nada mais.)
      Quem pensar que Fêmêmê agastou-se com essa balbúrdia toda em torno de seu nome, de suas mudanças físicas e de seu novo velacho, engana-se redondamente. O homem adorou. Considerou tudo uma grande pilhéria, como é o costume entre amigos que se amam.

     
      E após três raparigas fomos dormir em paz. (Calma. O vinho era o português Rapariga da Quinta...)  

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

MISTÉRIO DA MORTE

     No velório, indignava-se:
     – Como pode? como pode?...
    Profissional da saúde, não entendia como é possível que o sujeito morresse aos 61. Digamos sem delongas: – era psicóloga. Eu, em minha vetusta ignorância, julgava que o psicólogo seria o profissional dotado de todas as possibilidades de adaptação e entendimento. Por isso impressionou-me essa brutal incompreensão sobre a morte e o morrer.
    Justiça se faça – o morto tinha todas as credenciais para morrer. Sofria do coração e, disseram-me, não se sabia por qual razão não tinha sintomas. Era completamente assintomático. Tomava lá seus remédios, que eram muitos, e vivia a vida como se gozasse a saúde de um adolescente viril e atlético. Os exames, entretanto, mostravam um órgão debilitado e frágil. Concluí, recorrendo a meus parcos conhecimentos de cardiologia, que ao morto só houvera uma saída em vida – o transplante. O resultado foi a súbita morte. Morreu no jantar, diante da mulher e dos filhos.
     É ate compreensível que não se entenda e não se aceite uma morte inesperada. Contudo, não seria esse o caso. O acometimento de órgão vital por doença grave é uma ameaça permanente, há de se convir. E, a propósito, há a tal “morte inesperada”?
     A morte é sempre inesperada porque em nossas equações diárias não a colocamos como constante de equilíbrio. (Ou seria desequilíbrio?) A equação da vida abarca um sem-número de variáveis e apenas uma única e solitária constante – a morte. Leva-se em conta, a todo instante da vida, as inúmeras variáveis nela contidas e retira-se-lhe sua única constante, sua única certeza, único destino de todos. Essa ausência por nós imposta é a razão de nosso horror e de nosso inconformismo quando a inexorabilidade sobrevém.
     O que consideramos a impossibilidade no dia-a-dia mostra-se cruelmente possível e real em único dia... Como o número de Avogadro cuja perturbadora constância se repete nos moles de cada elemento, também a morte não muda sua perseverança na existência de todo ser vivo. Todo dia é dia, toda hora é hora de morrer. Morre-se a qualquer idade; morre-se em criança, em jovem, em adulto e à velhice. Ela disso sabia e era justamente isso o que a estupefazia.
     Comportava-se como nos comportamos à infância. Para o infante não existe a morte, a própria ou a de quem quer que seja. Na infância a eternidade é a certeza natural. Como o casal primevo que em sua inocência desconhecia a guerra feroz que então se combatia entre as potestades do Céu, a pureza da criança a preserva da ciência da morte, a consequência do grande conflito. Séculos e séculos da existência da morte não foram capazes de nos preparar para ela. Por isso dizia:
     – Não é possível... não é possível...
     E seguia indagando:
     – Como é que pode? como?... como?...

    Dali a poucas horas o morto descia à campa, no ritual mais antigo que a humanidade conhece. E os atônitos se recolheram ainda sem entender o mistério da morte de quem ainda há pouco vivia.

terça-feira, 14 de julho de 2015

HOJE É FERIADO EM PARIS

          Eis que chegou-me o amigo Fábio Motta, o homem dos bobes, e, sussurrando-me ao ouvido, disse:
          – Estou completamente abandonado...
          Estupefato, quis saber: 
          – Ora, mas por quê?
          Saiu, então, a relatar-me o drama. É o seguinte.
          A filha está sempre longe, já que vive em outro Estado com a mãe; o filho mais novo mora em Quixadá e quando vem à capital só pensa em namorar; o filho mais velho, seu companheiro, foi-se embora para o Canadá... E assim viu-se o meu amigo jogado às favas.
          Fez uma breve pausa e concluiu pesaroso:
          – E ainda por cima estou sem namorada...!
        –Mas... ora! Não estavas a namorar aquela pequena... como é mesmo seu nome?... Ah!, sim... Laurinha. Isso mesmo.
          Meneou a cabeça com certo ar de desolação:
         – Terminei com ela... a “bichinha” mora muito longe!
        O homem gastou um tempão a se jactar por estar namorando a Laurinha. E já se fazia a seguinte suposição, a de que Laurinha era um estouro, um mulherão, um avião como se diz por aí. Estavam todos ávidos para conhecer a tal Laurinha. Oportunidade não faltou. Houve festas e encontros onde poderia tê-la apresentado aos amigos. Agora a esperança se esvaía – jamais conheceríamos Laurinha. E tudo porque ela morava no subúrbio... Que mal há em se morar no subúrbio? Bem, mal não há... O que há são os assaltos, os homicídios...
       Mais recentemente não tocava em seu nome. Sim, agora me lembro. Há tempos não falava de Laurinha. Com efeito, Laurinha tornara-se, para nós, uma fantasia do nosso Motta; uma dessas ilusões que alimentamos à adolescência e, até, um delírio de homem. Solidão faz dessas coisas. Deixa o sujeito susceptível a sonhos e irrealidades que se materializam burlescamente na cabeça de um sujeito em estado de peremptória precisão... Laurinha seria, para nosso Motta, a Samantha de Theodore, personagem de Joaquin Phoenix do filme Her, de Spike Jonze. (Samantha é a voz feminina do sistema operacional que Theodore adquire para seu computador e por quem se apaixona perdidamente.) 
          Felizmente não era nada disso. O homem apenas desmanchara o namoro.
         – Vou precisar me adaptar..., continuou ele.
      Pausa. Suspirou profundamente e concluiu: – Cara, as mulheres de valor estão cada vez mais raras...!
       Laurinha havia de ser uma dessas robustas virtudes à prova de qualquer teste. Seu defeito era o subúrbio. Ainda fosse um subúrbio em Miami, vá lá... Subúrbio em Fortaleza é o diabo. (Já, já me dirão preconceituoso...) Pensando melhor, não seria essa Fortaleza toda ela um subúrbio?, um grande e vasto suburbão? A verdade é que o subúrbio em Fortaleza é um descarado preconceito; ele é apenas a vítima mais indefesa do abandono por parte dos políticos que ele mesmo elege. Há gente boníssima no subúrbio. O suburbão será o grand finale dessa inusitada conurbação de uma cidade consigo mesma, a implosão de seu apartheid, o colapso das forças centrífugas pela supremacia de suas forças centrípetas promovido pelo descaso geral, não mais estritamente marginal... 
      Ora, segundo o Motta, onde estariam as mulheres de valor? Na hora calei. A resposta correta seria que elas estão por aí, em todo lugar, rarefeitas como o ar das grandes altitudes, mas em todo lugar. Rarefeitas não porque são mulheres, mas porque humanas, assim como rarefatos são os do gênero masculino de valor. De fato, em todo lugar de tudo há, assim como nada há que vejamos com os olhos embaçados. O coração é o melhor dos olhos quando educado para bem ver, devia ter-lhe dito. Os ouvidos adoram a música das palavras bem ditas, ainda que vazias em si mesmas, mas desejadas em função da carência e da ausência de amor próprio. Por isso é bom que o amigo esteja ainda só. Denota com isso cuidado, busca zelar sua escolha. 
       Lá pelas tantas o homem me fez confissões insólitas. Para um Fábio Motta conhecido por seu charme de conquistador que nunca se deixou importunar pela qualidade da presa, o homem demonstrou ter adquirido o que se conhece como “o charme do cinquentão”. Diz o Mesquita ter sido o Motta a vida inteira um coração empedernido, um Casanova irreparável, um caçador de sexo... eu estava para dizer sexo livre, mas me contive porque seria injusto. Ele não o era. Colecionava relacionamentos prolongados, é verdade, mas sua preocupação com a fidelidade beirava a nulidade, além de nunca ter-se apaixonado de fato. (Vejam – quem o diz é o Mesquita. Reclamações, portanto, favor dirigir-se a ele.)
     Pois toda a tese do nosso Mesquita passou a ruir diante de meus ouvidos quando o Motta assegurou: 
       – Hoje preciso de algo com flores, jantares românticos, viagens a dois a lugares paradisíacos... dar boas risadas com minha amada...!
      Como acometido de uma crise emética incoercível onde as rajadas de vômito são palavras de esperança, quase uma oração em que se requer aquilo que mais se deseja, meu amigo continuava:
      – Quero encontrar uma menina bacana numa livraria, numa cafeteria, escolhendo um vinho... é o que quero...
        E chegou ao ápice confessando o que dizia o Mesquita:
        – Sou romântico, sou gentleman, mas ainda não me apaixonei por inteiro...
      Vejam os leitores que a pobre Laurinha não poderia jamais servir ao sonho de nosso Motta. Como ousaria ela, uma linda jovem do subúrbio, ser achada na livraria Cultural ou na Le Petit Cafeteria escolhendo um Don Pérignon e sorvendo um delicioso frapê de capuccino? Oferecesse ele as flores e os jantares românticos e Laurinha já se sentiria encantada e extasiada. O diabo eram os assaltos e os homicídios!...
     Não há como, pois, não se deduzir o óbvio: definitivamente é difícil, segundo o meu amigo, se apaixonar por inteiro nessa Fortaleza... 
       E, a propósito, hoje é feriado em Paris.

A TERTÚLIA QUE ME FEZ CHORAR

                 Quase junho e a chuva não arreda. E ainda há gente que diz que “é inverno”. Como aqui, pertinho da linha do equador, só há ...