quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O ZURRO DOS INCONFORMADOS

“Você reclama da corrupção, mas usa transporte irregular”. Essa era a mensagem escrita em adesivo colado ao vidro traseiro do táxi. Não havia dúvida – o recado indicava a continuidade do embate entre os taxistas e a Uber.
Agora, vejam como funciona a cabeça do brasileiro diante da concorrência. Não é de hoje. Os poucos e escassos leitores mais entrados em anos hão de se lembrar da tal “reserva de mercado”. Aos mais jovens leitores – esses são os que verdadeiramente me faltam – explico. Os computadores produzidos e fabricados no Brasil eram tão ruins que os empresários do setor conseguiram, junto ao governo, a que se proibisse a entrada e venda desses produtos no país, a importação de bons produtos estrangeiros. Resultado: enquanto noutros países a indústria da informática crescia, a nossa patinava na mesquinhez e má qualidade. Apesar da evidência gritante, o bom e pacato brasileiro julgava ser isso excelente. Afinal, estávamos “protegendo” a nossa indústria. Eis aí, em mínimas palavras, como eram, ou são, os processos mentais tupiniquins.
Não passava pela cabeça de ninguém – e se passasse seria brutalmente reprimida – a ideia de que, para beneficiar um mísero e único setor, estávamos condenando toda uma nação ao atraso. E assim anos e anos se passaram. A proibição só não foi mais longa do que a obrigatoriedade da “Hora do Brasil” nas rádios nacionais.
(Observem que a “reserva de mercado” existiu por força de lei, donde se conclui que a lei pode azurrar qual o jumento a pastar na caatinga de nosso famigerado e indesenvolvível Nordeste. O idiota mostra toda a sua idiotia e força quando se ergue ao topo do poder. Tudo isso está claro como a água das chuvas.)
Coisa semelhante acontecia com a indústria automobilística. Carros fabricados lá fora não podiam ser importados, até que veio de lá o famigerado Fernando Collor de Melo e, taxando o carro nacional de “carroça”, abriu o mercado brasileiro aos veículos estrangeiros. (Bem se vê que mesmo o canalha mais abjeto tem lá o seu momento de glória.)
Pois voltemos ao taxista do adesivo. Em sua cabeça, não importa que toda uma cidade fique à mercê de sua tabela e de seu taxímetro como única forma de transporte alternativo. Afinal, seus maiores concorrentes são o ônibus, a van e o moto-táxi, esses últimos uma invenção tipicamente brasileira, se não me engano. (Com efeito, não há, de fato, uma concorrência direta, já que estes atendem a um outro tipo de público. As vans, os ônibus e os moto-táxis concorrem entre si, mas não com o táxi.) Faltava justamente o concorrente a este e eis que aparece, importada dos Estados Unidos da América, a ideia do veículo alternativo ao táxi e mais barato do que este – a Uber.
Foi um festival de cólicas e uivos de lobos ferozes. Nosso prefeitinho – o homem é médico, mas quem disse que educação técnica credencia o sujeito ao bom senso e à sensatez? – apressou-se, focado em sua reeleição e, portanto, em seu futuro político, a apoiar abertamente a perseguição à Uber e a dar garantias aos taxistas de que a empresa seria impedida de atuar. Punha-lhe na ilegalidade antes mesmo do sol raiar sobre o seu segundo mandato. Supunha, talvez com conhecimento de causa, uma classe mais numerosa de taxistas. O fortalezense, muito provavelmente o fortalezense do ônibus, da van e do moto-táxi, em seus obscuros critérios para escolher seu prefeito não deu a mínima, e reelegeu o pequerrucho ao Paço Municipal. Outros fatores que me escapam hão de ter contribuído a esta escolha.
(Depois do início da instituição da reeleição, o brasileiro não faz outra coisa na política que não seja reeleger alguém. A justificativa sempre aventada é o temor de mudar. Vejam. A tragédia está posta, mas o eleitor tem medo de mudar. Não lhe ocorre que mudar é bom, mudar é ótimo, mudar é a melhor maneira de dizer a um executivo do poder que “você já fez um bom trabalho, mas outro pode fazer melhor”; ou “você fez um trabalho medíocre e por isso deve sair”; ou fazê-lo simplesmente entender que aquele gabinete não lhe pertence.)
O que dizia o adesivo do taxista? (Vi-o hoje voltando do hospital.) Dizia que a ilegalidade da Uber era ponto pacífico e que quem a usa é tão corrupto como o senhor Lula da Silva ou tão infrator da lei como os que fazem caixa dois para se eleger. Ora, quem se utiliza da Uber quer, apenas e tão-somente, pagar mais barato para se deslocar. Nada mais, nada menos. A pretensão da ilegalidade da Uber é semelhante a lei que impôs a “reserva de mercado” que idiotizou e atrasou o país, uma lei que foi engendrada para satisfazer o interesse de uns poucos em detrimento do interesse da maioria. Isso nada tem a ver com corrupção. A retórica que tenta criminalizar a concorrência é a única maneira que os taxistas encontraram para combater a “ameaça” a seus interesses. Não consideraram, em nenhum momento, ao que parece, se reinventar e concorrer com lealdade e espírito de livre iniciativa. Apegar-se ao governo é sua atitude. É a isso que se chama “capitalismo de comadres”? Sim, são os mesmos e velhos processos mentais tupiniquins.