quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O BOM, O RUIM E O PIOR

      É impressionante como se usa comparar pessoas ou coisas. “Isso é melhor que aquilo” ou “fulano é melhor que beltrano” é o lugar comum de nosso dia a dia. A cultura da competitividade, alastrada, plantou em nossas mentes os sinais matemáticos maior e menor. No meio médico ouve-se “doutor fulano de tal, o melhor médico da cidade”. Onde se escreve melhor leia-se maior, muitas vezes empregado também.
            A pergunta que me faço é: quem pode dizer que alguém é maior ou melhor que outro alguém? Há tantos e tantos e tantos bons médicos, assim como há tantos e tantos e tantos bons advogados. Em contrapartida, há médicos e advogados ruins. Mas não há, dentre os bons, o melhor. (Minha intenção é provocar.)
            Tomemos o exemplo, um lamentável exemplo, o do ex-médico Roger Abdelmassih, tido como o maior especialista em reprodução humana do país. O homem, sabe-se hoje, é um estupradorzinho de quinta categoria. Era o maior, o melhor e, súbito, revelou-se o pior. Nem pelo estágio de ruim passou. De bom que era passou a pior. Tão grande a sua fama e tão elitizada a sua clientela que ao final só serviram a engrandecer ainda mais seu crime.
             Tentemos uma explicação. O que é bom pode, eventualmente, agir ou ser melhor, se sair melhor do que o normal. Nem por isso será o melhor absoluto. Se, ao contrário, cometer grave erro, será um pior absoluto. O melhor jamais poderia cometer erros, nem mesmo os menores. Além disso, um pequeno erro do cirurgião – escolhi o cirurgião como exemplo só para puxar a sardinha pro meu lado - pode representar uma catástrofe para o paciente, por exemplo, o que demonstra que um erro não se mede pelo seu tamanho, mas por suas conseqüências.
             Consideremos o Yamandu Costa. Não sei se conhecem o Yamandu Costa. Apresento, aos que não o conhecem, o Yamandu Costa. É um violonista virtuosíssimo. É um gênio do violão de sete cordas. Foi assim reconhecido aos dezenove, vinte anos. Fará trinta e um em janeiro próximo. Quem já viu o Yamandu tocar diz: -“É o melhor!”(Suspeito para falar – sou louco pelo Yamandu -, estou quase a desistir de continuar com essa história de que não há melhor.) Eis que se vê tocar um Marco Pereira, um Raphael Rabelo, um Marcel Baden Powell, um Manassés, um Nonato Luis, e outros, e outros, e outros, e se acaba por concluir que não há melhor. São todos bons. O que se disser acima da categoria de “bom” fica por conta dos superlativos de nossa emoção. (Outro dia alguém escreveu no site oficial do Yamandu que ele acerta até quando erra.)
              Ocorre que, ao errar o violonista, não há conseqüências no resultado, como se vê pelo comentário do fã do Yamandu. (Assevero: não fui eu!) Continua sendo bom o violonista, com os superlativos que lhe queiram acrescentar. Não há possibilidade de que lhe rebaixem a qualidade por causa de um ou outro erro. Afinal, a música é uma arte em que a liberdade de improvisar até permite que o erro pareça tudo menos um erro.
              Percebe-se, ao comparar o cirurgião com o violonista, que há bons violonistas e bons cirurgiões, e que há cirurgiões ruins e violonistas ruins, e que há ainda os piores cirurgiões e os piores violonistas. (Quem quiser saber onde encontrar os piores violonistas vá a uma festinha de aniversário onde apareça um violão.) Não há, contudo, melhores. Felizmente há muitíssimo mais ruins e piores violonistas que ruins e piores cirurgiões. De fato, esses últimos eu não saberia dizer onde encontrar. (E aqui não estou puxando a sardinha pro meu lado.)
               Faço agora uma confissão. Iniciei esse texto sem a menor intenção de falar sobre isso. Eu queria falar sobre a Unicred, nossa cooperativa de crédito, e os juros que se pagam entre ela e seus cooperados. Paga-se a ela mensalmente um valor acima de vinte reais que é depositado na conta capital do cooperado e que vai rendendo a uma taxa xis. Se o cooperado tiver um cheque especial - que cobra uma taxa xis mais muito mais – e a conta estiver sem dinheiro, saca-se automaticamente o valor do cheque especial. A conta fica “negativa”. Você estará devendo aquele valor mais xis mais muito mais ao banco, e o mesmo valor vai render para você módicos xis de juros em sua conta capital. Conclui-se o seguinte. Primeiro, é bom gastar menos do que o que se ganha. Segundo, é ruim tomar dinheiro emprestado. Terceiro, é pior quando se teima em desobedecer a essas regras básicas. O melhor? Aqui há, sim, o melhor: desistir de ter. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”

Fernando Cavalcanti, 08.12.2010

terça-feira, 1 de agosto de 2017

DE OUTRA FEITA DIGO-LHE O NOME

Foi na última quinta ali na choperia Zug. Digam o que disserem, mas a choperia Zug continua sendo o lugar. Mas, enfim, foi lá onde me abordou o idiota. Ou direi o imbecil. Tanto faz. Um ou outro adjetivo será pouco para qualificar o indivíduo.
                Mas tudo se explica. Para tudo há uma explicação. É tudo muito simples. O indivíduo é assessor de um deputado, um deputado estadual. Para os esclarecidos, é sabido que deputado estadual e merda, no Brasil, é tudo a mesma coisa. Deputado estadual existe para duas coisas: dizer “amém” ao troglodita do governador; e fazer as mesmas merdas que suas contrapartidas federais. Num país onde os Estados são meros entes subservientes a Brasília, a Sodoma nacional, o puteiro da República, deputados estaduais e, por consequência, vereadores são nada mais do que nada.
                Ora, não é bem assim, devíamos saber. Eles não são nada. Eles valem muito para o esquema que aí está. São eles, deputados estaduais e vereadores, os detentores dos currais de vacas de eleitores corruptos que sustentam o vandalismo nacional. Do outro lado, os homens de bem. Agora os leitores sabem sobre o tipo que me abordou na Zug Choperia. (Poderia declinar-lhe o nome, mas evitarei.)
                Pois o troglodita, à guisa de uma brincadeira comigo, abordou-me por detrás (eu estava sentado) e, segurando-me pelas costas, gritava como uma hiena brava: – “Ele vai ser o presidente, Lula vai ser o presidente!” Nem mesmo tive tempo de me virar e ele emendou: – “Tu ‘acha’ que ele vai ser preso? Tu ‘acha’ que alguém vai ser preso??” Eis aí tudo. O discurso é claro.
                Antes, porém, digamos que o assessor é assessor de um deputado estadual do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Vejam a combinação entre pobreza nordestina, pobreza fortalezense, pobreza cearense, e esse PC do B. Gente preguiçosa e ávida por benefícios estimulada e ensinada por essa canalha comunista.  (Estou sendo deveras direto, mas é inevitável.) Que não me confundam com o imbecil que taxou todo o Nordeste brasileiro de qualquer coisa semelhante com os adjetivos que já aqui usei. Digamos sem muita delonga – o Nordeste brasileiro tem muita gente de bem, mas que a canalha aqui tem-se proliferado mais, disso não se tem a menor dúvida. É como o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro era tudo e, de repente, o Rio de Janeiro se tornou um antro, um submundo, uma sarjeta cultural, fiscal, econômica, financeira, moral. Os canalhas tomaram de conta do Rio de Janeiro assim como tomaram de conta do Nordeste. Não é o Rio de Janeiro nem o Nordeste que não prestam – são os canalhas que os tomaram os que não prestam. A gente de bem desses lugares está oprimida, estupefata, encurralada, eis a grande verdade. A conclusão é única – é preciso libertar o Rio de Janeiro e o Nordeste da influência e poderio do canalha. E mais – urge libertar o país dessa canalha.
                Agora, vejam. O problema maior é que o canalha se traveste de bom moço, de Peter Pan, de Robin Hood. O canalha da “casa legislativa” inútil – sim, inútil porquanto sua legislação tão-somente imita a da Sodoma que tudo arbitra, tudo negocia, tudo estabelece – tudo faz para se travestir de idôneo e salvador do povo. O canalha vai à Zug, se mistura, conversa; faz-se passar por bom moço. Eis, então, toda a fonte de sua confiança.
                Falo, falo, e não vou ao ponto. O canalha que me abordou, fácil é deduzir, tem a mais absoluta certeza de que o canalha-mor, Luís Inácio Lula da Silva, será, novamente, eleito presidente da nação brasileira, ainda que condenado pela justiça. Além disso, demonstra seu relevante desprezo pelas leis vigentes. Afinal, ele tudo sabe sobre nossas leis fajutas.  Foram seus comparsas federais que as referendaram. Complementa afirmando, quase que peremptoriamente, que ninguém será preso. Como poderia o homem de bem, nordestino, fluminense ou carioca, dizer o contrário? E em meus ouvidos gritava: –“Você vai ter que engolir! Você vai ter que engolir!” O canalha da esquerda tem certeza que vencerá contra o homem de bem.
                Eu, controlando meus mais primitivos instintos, tive que sorrir amarelo. Meu maior medo é me decepcionar com o meu povo. Mais uma vez.

terça-feira, 25 de julho de 2017

UM SONHO, VÁRIOS FRACASSOS

Outro dia ouvi alguém falar sobre fracassar e fracassados. Dizia o palestrante que há, entre um e outro, uma enorme diferença: fracassar é uma etapa; fracassado é o que desistiu. Vejam que, segundo ele, o fracassar é um momento, um estágio, uma etapa de uma caminhada no caminho de uma meta, de um objetivo, ao passo que o fracassado é aquele que, numa dessas etapas, ali ficou sem se deixar ou querer reerguer. Desistiu da meta, do objetivo, do sonho. Deixou-se estar à beira do caminho culpando a estrada, os que pretenderam encorajá-lo, o mau tempo, o vizinho, enfim, tudo e todos, exceto ele próprio.
Vamos e venhamos – não é fácil realizar sonhos. Digo isso por experiência própria. E é tão pessoal a minha experiência que até admito – eu nem sabia que tinha sonhos outros. É fácil não os ter. Basta que, como aconteceu comigo, se os busque apenas nos lugares-comuns. Quando se os buscam aí e se faz tudo o que é necessário e a anuência de todos, é certo que se os conseguirá realizar. Entretanto, o mesmo não se pode dizer dos sonhos que a manada não permite sonhar. Se ousar, será considerado mais um louco a surtar. Neste contexto, mesmo os mais empedernidos lutadores hão de sucumbir se se permitirem serem vítimas da implacável rejeição. Sim, porque a rejeição ao sonho não consentido será como a rejeição a mesmo.
Não é fácil ser rejeitado. Os sonhos comuns são, como se supõe, disseminadamente aceitos e bastante estimulados. Por isso, como é óbvio, não serem rejeitados. Quem os sonha pode fracassar quantas vezes necessário for, e o fará sem temor. A razão é a ausência completa de rejeição. Já os sonhos não permitidos, esses não. O primeiro fracasso em sua direção é razão mais que suficiente para intensificar sua rejeição, o que para muitos servirá como prova de sua completa inviabilidade. Eis aí tudo.
Dizia o palestrante que fracassar é bom, e eu me perguntava qual seria a anatomia do “bom” fracasso. (Doravante o “mau” fracasso será referido àquele resultante de sonhos não aceitos, em que o sonhador é contundentemente rejeitado ao sonhá-lo.) E a resposta já se me deslindava no pensamento: – como a manada não aceita seus rebeldes, os que ousam ousar são, para ela, detestáveis. O cérebro da manada é a vaidade e seu coração chama-se status. Para ela, o bom fracasso é muito bem aceito porquanto é ele quem referenda e avaliza as altas posições, os elevados postos, as incontestáveis autoridades, ou seja, seus órgãos vitais. São esses bons fracassados os que nutrem os órgãos vitais dessa massa, como se fossem eles o sangue que lhe traz vida e a faz pulsar em fluxos de infindável gozo. O fracasso no contexto da não realização dos sonhos aceitáveis vem a bem do fluxo para os mais aquinhoados, pretendendo manter o que se considera imutável e inexorável. Tal fracasso é “bom” porque é comemorado por todos, bem-sucedidos e fracassados, os quais procuram, nas formas mais extremas de fracasso, algum tipo de esmola pública ou privada e a anuência de seu status aeternus como compensação e reparo. Os diferentes estratos dessa manada opaca traduzem tão somente diferentes níveis de sucesso e fracasso, o que relativiza mesmo tais conceitos, como se existissem níveis de um e de outro, plenamente aceitos e considerados “normais” e até necessários e desejáveis. Tudo isso é deveras oposto ao que consideram o mau fracasso. Sim, o mau fracasso é ameaçador. (Tirei-lhe as aspas injustamente, já que de mau nada tem ele, a não ser para a manada que pretende seguir irretratável e livre de ameaças.)
Pois direi também da anatomia do “mau” fracasso. (Volto sem demora a lhe pôr as aspas.) Este tipo é ameaçador porquanto só acaba quando alcança o pleno objetivo, a realização do sonho de quem sonhou, dentro de uma ordem absolutamente estranha ao que a manada permite. Seu cérebro é a crença no incrível e seu coração é a grandeza do sonho que sonhou. Ousar é o sangue de suas veias e persistir é a musculatura que o carrega pelo caminho da rejeição e escárnio.   
Façamos um resumo a fim de que não haja dúvidas.
Há dois tipos de fracassos, segundo o entendimento ordinário. O bom fracasso, aquele aceito à larga e com o qual se simpatiza; e o mau fracasso, aquele resultante de se tentar o extraordinário. Este último, quando ocorre, alivia o temor da ordem vigente como se isso viesse a bem da confirmação de ser ela a única possível.
Ocorre que, com a evolução tecnológica e o resultado de seu uso para fins econômico-financeiros e do surgimento de novos modelos de negócios, a ordem vigente se viu irremediavelmente ameaçada, visto que muitos se permitiram fracassar incontáveis vezes antes de verem concretizado o sonho considerado impossível. A vaidade se viu aterrorizada, o status se desesperou. Seu poder de encantar, seduzir e humilhar se viu impotente e reduzido a pó. É questão, apenas, de mais um lapso de tempo antes que todos, sem exceção, percebam que a tal ordem sucumbiu de vez, como estão a sucumbir cada um de seus alicerces sem que muitos se deem conta em razão de sua cegueira.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A PUTA QUE ELE LOUCAMENTE AMAVA

                 Após tantas desfeitas, aguentou ainda mais desfeitas. Direi sem rodeios – aguentou chifres até não mais poder. O diabo é que podia, sempre podia. No início acreditava piamente. Poria a mão no fogo por ela. Hoje, depois de sabe-se lá quantos chifres, por ela põe no fogo a cabeça. Vá entender a mente humana.
                Havia, segundo ela, uma justificativa, uma desculpa. Não seria propriamente uma desculpa esfarrapada, dessas que se dão de última hora apenas para tirar o corpo fora. Não era, não parecia ser. Confesso com toda pureza d'alma – era uma senhora justificativa para os chifres, para mais chifres, e para quanto mais deles viessem. Aconteceu o seguinte.
             Viviam os dois num cafofo que beirava o padrão da miséria, dois aposentos e um reservado onde se banhavam e se aliviavam. Na caixa da descarga ela desenhou, com batom vermelho, um coração flechado e embaixo escrito “fulana e fulano”. A mobília se constituía numa cama de casal, uma cadeira e um móvel largo com gavetas amplas. No outro aposento, a cozinha, a geladeira e um fogão. Não sei se havia armários sobre a pia.
            Um dia uma amiga lhe bate o telefone. Estava vindo do interior, da cidade onde ambas nasceram, para trabalhar. Precisava de um lugar para ficar. Não tinha dinheiro. Uma pousada por alguns dias era tudo o que precisava enquanto se arranjava.
            Foi motivo de alegria receber em casa a amiga do tempo das fraldas. Dormiria numa rede que armariam sobre a cama do casal. Ele não fez objeção a essa hóspede inesperada. Seria bom ter mais alguém em casa. Mudaria a rotina. Todos sabem, rotina é um negócio chato.
            A verdade é que ele nutria más intenções para com a pequena. Era jeitosinha, engraçadinha, charmosinha... Tinha o rosto bonitinho, os cabelos lisos e escorridos. Ter diariamente essa visão não seria uma má ideia, eis o que pensava.
            Chegada a hora de dormir, ia o casal para a cama e a amiga para a rede. Ele, que adorava o perigo extremo, que desde a infância adorava assediar a secretária do lar, fosse ela quem fosse, perdoando apenas as mais velhas enquanto seus pais e irmãos dormiam, entrava, nesse instante, em estado de excitação que beirava o incontrolável. Cada vez era um tormento maior, e já não sabia por quanto tempo seria capaz de se conter.
            Até que, certa noite, atormentado pelo desejo, pelo perigo de ver saciado seu apetite, percebeu que a companheira dormia profundamente, tão profundamente que sibilava em suaves estertores, um ronco macio e pleno, desses que denotam estar a mente ausente e bem longe da realidade. Ergueu lentamente o tronco e sentou-se ao leito, de modo que pudesse espreitar o interior da rede onde dormia a apetitosa hóspede.
            A janela entreaberta se deixava transpassar por raios de luzes suaves e esmaecidos pela debilidade e distância de sua fonte, mas que provocantemente iluminavam o corpo seminu da que lá jazia. Parecia que retirara de cima de si, propositalmente, o lençol que se amarfanhava ao lado de seu corpo, longe da utilidade de encobrir, de proteger do frio, de resguardar o mínimo de pudor, deixando à penumbra leitosa a visão que o excitou ainda mais, a ponto de enlouquecê-lo. Vagarosamente arrastou-se para mais perto do que contemplava e, inescrupulosamente, saiu a palpá-la nas coxas, nas partes pudendas, no baixo ventre...
                Como não houvesse sido rejeitado, durante quase uma semana espreitou o sono da companheira a fim de se entregar à aventura do assédio à outra que parecia que dormia, mas que, notara, apreciava deveras aquela invasão, aquele ímpeto descarado e destemido. Percebera que o corpo da jovem se eriçava e que suas secreções abundavam à investida. Nada daquilo seria possível sem o mínimo estado de alerta.
                Certa noite, contudo, foi veementemente rejeitado e, em meio a sussurros de cínica indignação a fim de não despertar a outra, foi definitivamente repelido. Que nunca mais se atrevesse. Que nunca mais dela se aproximasse, mesmo durante o dia, sob pena de dar ciência à amiga do que ele tentara fazer aquela noite. No dia seguinte procuraria um lugar para ficar ou iria embora, de volta ao interior. 
             Dias depois as duas tiveram uma entrevista em que tudo veio à tona. Foi desde então que ele passou a colecionar chifres. Eis aí a justificativa, uma senhora e mais que justificada justificativa.
                Como não houvesse solução para tantas e tantas galhas, vez ou outra ele também pulava a cerca. Cada vez que ela lhe fazia uma nova desfeita, ele sofria como se fosse a primeira vez. Ela, por sua vez, não tomava as dele como desfeitas. Não dava a mínima. Só queria dele uns trocados de vez em quando. Era quando saíam para uns drinques. Já nem coabitavam. Ela se tornou para ele a puta que loucamente amava.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O QUE (NÃO) QUEREMOS?

Ninguém perguntou se eu queria. E, vamos e venhamos – na vida quase nunca perguntam se a gente quer. Há que se entender a questão da lei.
Sob a égide do sistema legal, nem tudo que se quer se pode fazer, sob pena de punições severas. Eu disse “punições severas” me referindo ao sistema penal de outro país. No nosso brasilzão não há punição severa. Para ninguém. Escolha sua vítima e a corte em pedacinhos. Se tiver curso superior e se comportar muito bem enquanto estiver trancafiado, você não ficará preso mais que três a cinco anos. Isso se pegar a pena máxima. Sim, porque aqui a pena máxima de 30 anos quase nunca é efetivamente cumprida. Dirá alguém que é essa a cabeça do legislador e direi que, não, essa não é a cabeça do legislador – essa é a cabeça do brasileiro.
Estou fugindo do assunto, agora percebo. O assunto é: por que não me perguntam o que eu quero? Bem, se me perguntarem o que quero, direi que sim algumas vezes e direi que não outras vezes. Nada poderia ser mais natural na vida. Vezes dizemos sim, vezes dizemos não. 
Por exemplo. Quando entrei para o funcionalismo público não me perguntaram o que eu pensava sobre minha aposentadoria. Se me perguntassem: o senhor deseja que o Estado retenha mensalmente uma parte de seus proventos para investi-la e devolvê-la daqui a trinta e cinco anos a fim de que sirva como uma renda para a sua aposentadoria? É bem provável que naquele tempo da verdura dos anos e de minha ignorância em educação financeira eu respondesse “sim”. Há cerca de quinze anos, quando adentrei os portais do entendimento básico sobre finanças, se me fizessem a mesma pergunta eu responderia com um sonoro e prolongado “não”. É digno de nota que as respostas diametralmente opostas se expliquem por uma única razão – a educação.
Até os 30 anos, tudo que aprendera sobre isso havia sido pelo que chamo de “inércia conceitual”. Chamam também a isso de “paradigma”. Era o paradigma vigente acreditar que o Estado fosse competente para gerir os recursos de terceiros. Talvez o fosse até então. De lá para cá ficou claro – o Estado é ou tornou-se absolutamente incapaz de exercer tal tarefa com competência e justiça. Estão aí os rombos previdenciários das três esferas que não me permitem mentir.
Essa mudança brutal, cuja origem é multifatorial e tem tudo a ver com corrupção, downsizing das empresas, contração do mercado de trabalho devido a avanços da tecnologia, envelhecimento da população, incompetência de gestores e muitos outros, não foi acompanhada da principal mudança necessária na lei previdenciária – dar ao trabalhador da empresa pública e privada a liberdade de escolher se aceita que o Estado, esse mesmo Estado que já se mostrou descaradamente incapaz de tal tarefa, continue a gerir parte de seus vencimentos mensais para fins de aposentadoria.
Essa alteração na lei causaria enorme impacto na sociedade, a primeira delas a busca em massa por educação financeira e, por efeito colateral, o aprendizado sobre formas diversas de geração de renda familiar e investimentos por parte de pessoas físicas. Isso tiraria a sociedade brasileira da escuridão da pobreza mental e, como consequência, da pobreza material interminável. (Eu ia dizer inexorável.)
Cresci ouvido – este é o país do futuro. Hoje me pergunto: quando será esse futuro? Dirá alguém que o processo histórico é lento, que há muitos problemas a serem enfrentados, que é muita a injustiça e desigualdade social, e um blablablá interminável que já ouço a vida inteira.
Ora, o país está, dizem, sob a égide de um regime democrático onde impera o estado de direito e liberdades individuais. Aos que incham o peito para dizer tal asneira, pergunto: é mesmo? Se for assim, por que não me dão a liberdade de escolher se quero votar ou não em cada pleito eleitoral? Ao invés disso, sou obrigado a votar porque é imperativo para a manutenção do “estado de direito” que todos votem a fim de que se possam comprar votos de eleitores corruptos. Por que não me dão a liberdade de escolher onde aplicar meus recursos que me servirão no futuro na velhice? Ao invés disso, me obrigam a ceder parte de meus vencimentos mensais ao Estado a fim de que seu agente o utilize em suas emendas e desvios de recursos que enriquecem os que cuidam dessa máquina maravilhosa de fazer dinheiro fácil. Por que não me facilitam a vida quando quero abrir um negócio e, quando quero, já me vem o Estado a me escorchar com impostos e dificuldades burocráticas custosas e infindáveis? Ao invés disso, obstam o capitalismo saudável a fim de perpetuar o capitalismo de comadres onde somente os grandes vicejam a fim de que existam os eikes e batistas que funcionam como pontes de enriquecimento ilícito a políticos todas as estirpes de todos os mais de trinta partidos. Por que não deixam que os Estados da federação e seus municípios tenham vida própria, captando e gerindo seus recursos próprios ao invés de os enviarem a Brasília a fim de que lá se decida o que fazer com eles? Ao invés disso, Brasília serve como a grande banca de trocas de favores, políticos ou não, em troca de mais ou menos recursos para a construção de pontes e praças de igrejas matrizes de minúsculas cidades longínquas cujas câmaras municipais com seus cinco ou sete vereadores chantageiam seus prefeitos em troca de parte desses recursos. Assim, temos sido obrigados a coisas que um real e legítimo estado de direito e liberdades individuais não nos deveria obrigar, levantando firmes suspeitas de se este é, de fato, o que diz ser. Sabemos muito bem o que essa centralização nos tem causado, como bem ou mal acabamos de dizer: negociatas, dependência de recursos da União, cooptação, vícios, compra de apoio político para projetos alheios às reais necessidades da sociedade, e por aí vai.
Ninguém perguntou se eu queria, repito. Mas eu não sou eu. Eu sou um povo, uma massa humana, uma sociedade. Se os que fazem as leis são aqueles que o povo escolhe para tal tarefa, por que não as fazem de acordo com o que o povo quer? Há aí algo de muito errado. Das duas, uma: ou o povo está sendo traído ou o povo não sabe o que faz. Há ainda uma terceira possibilidade: o povo é carrasco e vítima de si mesmo. Mas isso eu já disse noutros textos. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

UM ROTUNDO E ESPESSO CANALHA

          S.C. é meu paciente do ambulatório. Já cá esteve duas vezes acompanhado de sua dedicada irmã. Eles vieram de Belém do Pará. Reconheci pelo sotaque, o plural das palavras com som de “sh”: doish, coisash, e por aí vai.
       Ele tem apenas 31 anos e já não tem rins. Perdeu-os para a doença hipertensiva grave e precoce. Faz diálise a cada “trêsh” dias. Já fez vários procedimentos para confecção de fístula arterio-venosa. Como ele é canhoto, começaram pelo lado esquerdo. Nenhum deu certo. Vários procedimentos no membro superior direito também falharam, o que acabou por exigir a colocação de uma prótese comunicando a artéria à veia.
         Certo dia, inchou-lhe o braço. O exame mostrou um estreitamento de mais de 90% da luz da veia proximal à fístula. A estenose é uma ameça à diálise. Se a estenose virar oclusão, adeus fístula. A solução é introduzir um cateter munido de um balão pela veia e dilatar o estreitamento. Providenciamos a guia de internamento para S.C.. Já se passaram quase dois meses. E por quê? Por que não há material, não tem cateter com balão próprios ao procedimento. Ele está a ponto de perder a fístula porque a Constituição “cidadã” é uma falácia, uma enganação, uma chacota de mau gosto. O gestor não paga o fornecedor, o fornecedor suspende o fornecimento.
           Dias atrás veio o ministro. Disse o que quis e o que não quis. Do alto de sua autoridade ignorante e diabólica, pôs a culpa do caos nos médicos e em todos os profissionais de saúde. A culpa é vossa, disse ele de nós. Os gestores estão exigindo o ponto biométrico dos profissionais de saúde. Certo dia, disse uma sumidade da cúpula administrativa do governo deste miserável e desgraçado Estado que os profissionais de saúde estariam “devendo” não sei quantas mil horas de trabalho ao povo, como se a causa do caos fosse o absenteísmo laboral dos profissionais. Em suma, na pele o profissional de saúde sente a opressão por parte das autoridades incompetentes e criminosas.
           Mais recentemente veio o Alexandre Garcia e expôs, no telejornal matutino, as entranhas do modus operandi do gestor incompetente, criminoso e opressor. De que adianta? De que adiantará? Fará alguma diferença? Não fará. E ainda se fala da opressão da “ditadura militar” que nunca existiu ou, melhor, só existiu para os guerrilheiros criminosos que queriam e planejavam implantar no país o mais falido, criminoso e desumano de todos os regimes já ideados pelo homem.
        O gestor é, antes de tudo, um rotundo e espesso canalha.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

TODA ESSA GENTE... E NÓS

Ah, como roda rápido o tempo...!
Noutros tempos, o tempo era lerdo, uma lesma a se arrastar rente à parede, invisível à vista de todos. Naquele tempo não se justificava a pressa, não fazia nenhum sentido a velocidade. Correr pra quê? Olhávamos cada coisa durante quanto tempo quiséssemos, e esperávamos sem pressa porque havia tempo de vê-la em cada detalhe, de analisar cada pedaço, de perceber seus contrastes... Tudo corria conforme o tempo.
                Hoje, como roda rápido o tempo!
Sem demora passa o tempo, e com ele passamos nós, vamos nós; pouco vivemos porque ele já foi, já está ali, adiante, chegou antes de nós. E se não vamos, ficamos; nos abandonam porque ficamos; nos esquecem porque não mudamos para... pior. Sim, somos piores a cada quinze minutos, diria o Nelson. Não ir junto é como morrer, como se perder da multidão e ficar ao largo, no deserto da vida sem água e sem teto, condenado a ser a negação de (quase) tudo.
                Tudo é muito e o tempo é pouco. Muita gente, muita coisa; muita gente, muito (ou pouco) espaço; muita gente, muita dor; muita gente, muita morte; muita gente, muita festa; muita gente, muito bebê; muita gente, muita morte. Muita gente, pouco vovô e vovó; muita gente, pouco papai. Onde está mamãe? Muita gente, pouco eu; muita gente, pouca vida; muita gente, pouco amor...
Muita gente, pouco eu...
Muita gente; pouco VOCÊ.
Ou somos e estamos com essa gente, ou somos poucos, você e eu.
            Você e eu nada somos diante de tanta gente...

segunda-feira, 20 de março de 2017

O AMIGO CONTRA OS INSETOS

          Corre o mês de março. Eis que me lembro que é o mês em que faz aniversário o meu amigo Fábio Motta. Sim, comemora-se a festiva data ao dia 23 do corrente. Digo “festiva data” e já me arrependo. E por quê?, perguntará o leitor. O arrependimento é um sentimento que nos assalta quando agimos de forma errada e nossa consciência nos aponta a culpa. Ora, seria errado me arrepender de considerar o dia do aniversário do amigo uma data festiva? Já expliquei inúmeras vezes, mas vamos lá.
                Ocorre que entra ano e sai ano e o Motta faz tudo da mesma forma. E o que faz ele? Resposta – tranca-se em si mesmo ao dia da festa. Vejam que não afirmei que o homem se tranca em casa, ou some, ou desliga todos os meios de comunicação que lhe permitam o alcance. Não. Repito para que não reste a dúvida – o homem tranca-se em si mesmo. Ou seja, tranca-se em casa, some, desliga tudo, e... não sai da cama. É tudo junto. É como se o homem estivesse morto. 
              Diz o poeta que “morrer é apenas não ser visto”. Pois fica evidente a vontade de morte do amigo. Arrisco-me até a dizer que a coisa piora a cada ano. Ano passado o homem sumiu por três dias. Penso que estava tão apegado ao leito de morte que ao erguer-se teve um surto de articulações congeladas. No toalete, olhando-se no espelho com as remelas nos cantos dos olhos, assemelhava-se a um figurante de “Epidemia de Zumbis”, ou de “A Volta dos Mortos-Vivos”. Por um momento, do alto de sua atual e interminável Síndrome de Peter Pan, julgou-se o ator principal de “Meu Namorado É Um Zumbi”. Outro dia escrevi que o pior suicida é o que não morre. Pois é isso – o pior suicida é o que não morre. 
          Assim, em poucos dias veremos o que nos reserva o homem para este ano de 2017. Arrisco um palpite. Diria que espera-se uma mudança radical em seu comportamento. E por quê? Porque agora ele é um surfista. Um surfista de marola, é verdade, mas ainda assim um surfista. Sim, o surf foi o divisor de águas, o ponto de inflexão, a razão de tudo o que é novo para o amigo, de modo que estou seriamente inclinado a duvidar que ele se negue a surfar no próximo 23. Insisto: da forma como (re)entrou na vida do homem, o surf tem sido o grande diferencial, o gatilho para a reversão desse comportamento deplorável. Enfim, alguma coisa boa restará desse hábito tão salutar. (Pode parecer que estou a propagar contradições, mas não há aqui contradição. É apenas uma aparente contradição.) 
          O surf afastou o homem de seus velhos amigos para aproximá-lo de hábitos saudáveis e de grupos de pessoas cujas vidas giram em torno desse esporte. Dito de outro modo, o amigo tornou-se parte de uma tribo. Nós, os amigos do tempo das fraldas e dos cueiros, fomos completamente alijados e violentamente distanciados do convívio desse impoluto varão vigoroso. Paciência. Nada se pode fazer quando a rejeição se apresenta friamente e cruamente. Os amigos comuns dirão que estou a manifestar, indisfarçadamente, meus ciúmes e direi que, não!, em absoluto! E direi que, sim!, são legítimos os ciúmes! Digam-me: – como poderei me conformar perder um amigo-irmão para uma "tribo"? Nada contra os indígenas, pelos quais declaro uma piedosa solidariedade. Até porque o termo "tribo" aqui empregado não é literal, mas uma figura de linguagem para designar um grupo que se aparta do "resto". Que seremos nós, os que somos "o resto"? Já me sinto o cocô a descer pelo grosso intestino ou o catarro a subir pela via aérea do fumante inveterado, a apostema da estafilococcia...
          Também, notem, falando assim fica a impressão que os antigos amigos são má influência ou estimulam uma vida de hábitos pouco saudáveis. Direi sem demora – nada está mais distante da verdade. A essa altura da jornada, cada um recebe a influência que se permite receber. Depois de certa idade as escolhas se apresentam diariamente. Está-se escolhendo a todo instante, a cada segundo. Paramos de escolher enquanto dormimos e, com efeito, até dormindo escolhemos, se acontecer de sonhar com a dúvida que nos assola. Penso comigo: – o amigo sonhou conosco e, em seu sonho-pesadelo,  éramos todos insetos, mosquitos da dengue ou do zica-vírus, enormes e gosmentos como no "A Mosca", de David Cronenberg, a vomitar sobre as pernas do amigo a gosma enzimática que derrete ossos. 
         Devo admitir: – se sonhasse isso de alguém, jogar-lhe-ia nas fuças uma baforada de Baygon ou de SBP, "terrível contra os insetos". Contra os insetos, viste Fábio Motta?

sábado, 18 de março de 2017

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL - SERÁ QUE ELE APRENDE?

Os amigos hão de lembrar o comentário que fiz há poucos dias sobre uma resposta que o Sr. Max Gehringer deu a uma leitora de “ÉPOCA”. Foi em sua edição anterior, há pouco mais de uma semana. Enviei o comentário ao Sr. Gehringer, que não me respondeu pessoalmente. Entretanto, creio que ele acabou por enviar-me sua resposta na última edição da revista de 10 de dezembro do corrente em sua coluna “Nossa Carreira”, à página 95. Uma senhora, chamada Laíssa, colocou a seguinte questão: -“Tenho 43 anos e formação superior. Mas sou recém-separada e sem experiência profissional (meu último emprego foi há 17 anos). Por onde devo começar a procurar uma oportunidade?” Ao que ele respondeu: -“Infelizmente, Laíssa, se você não conhece ninguém que possa recomendá-la para uma vaga, essa combinação de idade + inexperiência vai lhe trazer mais dissabores que alegrias se você for bater em portas de grandes empresas. Eu diria que há duas opções viáveis que você deve considerar. Uma é um concurso público. E outra é o marketing multinível – a venda direta de produtos de uma empresa ao cliente final. É uma atividade que não requer muito capital, cujo resultado dependerá APENAS de seu esforço e competência, e poderá não apenas lhe dar um fôlego financeiro, mas também ajudá-la a readquirir confiança profissional em si mesma etc. etc. etc.” (Grifos meus).
                Ficou claro por sua resposta que o Sr. Gehringer vê no marketing multinível, que eu prefiro chamar de Distribuição Interativa, uma opção de renda potencial às pessoas que envidam esforço e competência neste trabalho. Em suma, em nada diferente de qualquer atividade laborativa séria e honesta. Em suma ainda, qualquer atividade laborativa séria e honesta gerará um resultado. Com a Distribuição Interativa não é diferente. Com um detalhe importante: Distribuição Interativa, por formar uma rede de distribuição, pode gerar uma renda elevada e, o mais importante, mesmo cessado o trabalho feito para construí-la. Em outras palavras, cria-se uma renda residual ou renda passiva. Cria-se um ativo. Os contadores e economistas que me corrijam: ativo é tudo aquilo que põe dinheiro no teu bolso. Mais especificamente ainda: o ativo põe dinheiro no teu bolso sem trabalho. O trabalho que você tem é o de criá-lo!  O que quero dizer é que o resultado do trabalho em Distribuição Interativa, ou Marketing Multinível, pode ser bem melhor do que qualquer outro trabalho convencional. A renda passiva pode ser alcançada em poucos anos de trabalho e representa uma aposentadoria! Outro detalhe importantíssimo: em Distribuição Interativa deve-se ajudar outras pessoas a atingir esses resultados! Para ser franco, só se ganha dinheiro em Marketing Multinível se se levar os outros a ganhar dinheiro! Dito de outra forma: você só ganha dinheiro se os outros ganharem.
                A última frase do Sr. Gehringer é, talvez, a mais significativa de sua resposta, e merece um esclarecimento. Quando ele diz que a atividade de Marketing Multinível pode ajudar o indivíduo a readquirir confiança profissional em si mesmo ele deixa subentendido uma ferramenta poderosa de uma empresa séria de Marketing Multinível: um Sistema de Treinamento, ou de aperfeiçoamento pessoal. Robert Kiyosaki admoesta claramente que, antes de entrar para o negócio de Distribuição Interativa, deve-se procurar saber se a empresa à qual você se associa tem um Sistema de Treinamento voltado para o crescimento e aperfeiçoamento da pessoa. E desaconselha peremptoriamente a que se associe àquelas que não o têm. Os céticos quererão saber por quê. E lhes direi: Marketing Multinível é um negócio de pessoas. Muitas pessoas farão o negócio pelo simples prazer de estar com as pessoas que admiram, ou que lhes ensinam, ou que lhes ouvem, ou que lhes ajudam nas turbulências da vida. O Sistema de Treinamento lhes prepara para serem pessoas melhores de modo a atrair mais e mais pessoas para o seu negócio. Simples como dois e dois são quatro.
                Uma ressalva vem a calhar. Marketing Multinível não deve ser encarado como uma atividade de exceção. Pareceu-me que o Sr. Gehringer só a aconselha aos que estão sem oportunidades ou aos que estão “perdidos”. Não é verdade. Marketing Multinível pode ser o “plano B” de quem quer que seja.
                Para terminar, eu diria que Distribuição Interativa é um universo. Em que pese sua simplicidade matemática da geração da renda, que até uma criança de oito anos de idade entenderia, há tantos e tais meandros no Marketing Multinível que só os que não se deram o devido tempo não puderam vislumbrar.  Aconselho-os a que “percam” alguns poucos minutos para entendê-lo. Isso poderia desvendar uma oportunidade e um desafio inteiramente novo e excitante. A vida vale a pena ser vivida.
                De minha parte fico feliz em perceber que o Sr. Gehringer já sabe mais sobre Marketing Multinível. Se ele aprender mais sobre o assunto, em breve será consultor de empresários também.


Fernando Cavalcanti, 12.12.2007 

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL

Articulista  de “ÉPOCA” na coluna “NOSSA CARREIRA”, Max Gehringer recebeu a seguinte pergunta de uma senhora chamada Lisa, na última edição da revista, de 03 de dezembro de 2007: “Trabalho numa ONG e estou extremamente insatisfeita, porque não vejo perspectivas de crescimento. Estou em RH, mas não gosto da área. Quero mudar, mas não sei que setor ou atividade escolher. Já fiz orientação vocacional, mas não adiantou. O que eu faço?”
                O senhor Gehringer é comentarista corporativo e autor de oito livros sobre o mundo empresarial. Ele respondeu o seguinte: “Faça terapia, Lisa. Até que você descubra a razão de tanta insatisfação, não adianta mudar de empresa. Enquanto isso, sugiro que considere a possibilidade de trabalhar com marketing multinível (venda em domicílio). Embora essa seja uma atividade mais de curto prazo, que não constrói uma carreira, é algo que você poderá fazer a partir de sua casa, com horários flexíveis, que lhe garantirá uma remuneração decente até você encontrar seu rumo.  (Grifos e negritos meus)
                Acredito que a senhora Lisa deve ter ficado extremamente curiosa, e ao mesmo tempo confusa, sobre dois pontos da resposta do senhor Gehringer. Primeiro, por que uma atividade que garante uma remuneração decente não pode vir a ser uma carreira?  Segundo, por que a atividade de distribuição interativa, o mesmo marketing multinível, seria de curto prazo, já que é rentável?
                Acredito também que o senhor Gehringer tem muitos conhecimentos sobro o mundo corporativo, como é evidente em seu currículo. Quem não o conhece poderá ter o prazer assistindo ao Fantástico aos domingos. Entretanto, ele cometeu pelo menos um erro grosseiro em seus comentários, afora as dúvidas que suscitou. Distribuição Interativa, como prefiro chamar, não é, em absoluto, uma atividade que inclua vendas em domicílio. Como o nome sugere, há que se ter um forte relacionamento interpessoal entre o que vende e o que compra, e sempre se oferece, além de produtos a quem compra, a possibilidade e oportunidade de desenvolver a mesma atividade. Esta oferta inclui o apoio quase incondicional ao novo prospecto ou candidato, bastando para isso que ele assuma o compromisso de levar a sério o trabalho, já que quem convida não se torna seu chefe, mas seu sócio. Esse apoio contempla todos os conhecimentos e atividades didáticas que o prospecto necessita para exercer essa atividade, de forma a se tornar um profissional capaz no mundo do negócio de Marketing Multinível. Portanto, o sair de porta em porta não é uma técnica de vendas recomendada nem recomendável para o empresário de Distribuição Interativa. Os laços humanos de companheirismo, amizade e verdadeiro interesse no sucesso alheio são as características fundamentais do negócio de Distribuição Interativa. Essas características são a “cola” de um negócio bem-sucedido, rentável e consistente. São características e condições sem as quais simplesmente não se faz Marketing Multinível.
                Também, ao contrário do que afirma o senhor Gehringer, o empresário da atividade de Distribuição Interativa tem o potencial ilimitado de construir uma sólida, lucrativa e enriquecedora carreira. Como acontece em todas as atividades na vida, é apenas um potencial. Há que se pagar o preço. Como em tudo. Se quiser ser médico, pague-se o preço. Se quiser ser rico com Distribuição Interativa, pague-se o preço. Nada nasce feito. Há que se construir. Demanda aprendizado, tempo, estudo, fracassos. Quem não quiser aprender, se dar o devido tempo, estudar e se permitir fracassar para aprender com o fracasso, que procure um emprego.
                Distribuição Interativa é um revolucionário método de distribuição de produtos e bens de consumo aos consumidores. Pelas suas características, alguém já disse que é a socialização do capitalismo e da livre iniciativa. Por apresentar a mesma chance a todas as pessoas de várias classes sociais, diversos níveis culturais e de várias profissões tradicionais a que montem um negócio a partir de um investimento inicial mínimo e com custos mínimos como capital de giro, é que ela se torna atrativa e interessante. 
                O que me parece, para concluir, é que o senhor Gehringer é um excelente consultor... para empregados! Ele orienta, seguramente de forma correta, as pessoas que têm a mente de empregados. Ter a mente de empregado tem a ver visceralmente com a educação que as pessoas recebem sobre formas de ganhar dinheiro honestamente. A grande maioria das pessoas foi educada a ganhar dinheiro trabalhando para outras pessoas ou para o governo por um salário de paga. Desde grandes executivos (os Chief Executive Officer - CEO) com salários de cem mil a um milhão de reais/mês até um gari que ganha trezentos e cinqüenta reais/mês, é para essas pessoas que o senhor Gehringer discursa. Nada contra os garis! Eles são importantíssimos! Quem limparia essa sujeira se não existissem pessoas dispostas a fazer isso por esse salário? Ele ensina como ser um melhor empregado. Por isso não aconselhou à senhora Lisa a estudar com afinco e aprender sobre Marketing Multinível. Esta é uma atividade empresarial. Há que ter a mente de empreendedor para exercê-la. E não é todo mundo que foi empregado a vida inteira que estará disposto a mudar a sua mente e aprender a ganhar dinheiro de outra forma. Mesmo que esteja correndo o risco de ficar milionário. Isso o senhor Gehringer não saberia ensinar.


Fernando Cavalcanti, 03.12.2007

RISCOS

Não se pode viver sem riscos. Em tudo há risco. Nada há nesta vida que não implique n’algum risco. Só não há o risco de morrer: a morte é certa. Não é um risco de quem vive: é a única certeza. O resto, todo o resto, é um risco. Em tudo há risco, repito.
                Um amigo, que reclamava até da nuvem sobre sua cabeça, não queria mais nada em sua vida que implicasse algum risco. Em verdade, não queria nenhum risco. Eu lhe disse que não era possível; que escolhesse coisas de menor risco; que seria até possível aferir os riscos de cada projeto, mas não havia como evitá-los completamente. Ele se convenceu quando lhe disse que as seguradoras vivem do dinheiro que ganham assumindo os riscos alheios. Você as paga e elas assumem os riscos que você tem de ter prejuízos ou perder um bem num sinistro. Se o evento indesejado vier a ocorrer, elas te reembolsam. Deve ser um bom negócio, visto que elas crescem cada vez mais. E, se crescem, é porque o dinheiro que entra em seus contratos de risco é maior do que o que sai com o pagamento do prejuízo dos clientes. Conclusão: o risco é só um risco. O risco não é um fato líquido e certo, como a morte. Ele é apenas uma possibilidade, e, portanto, só ocorre eventualmente. Na maioria das vezes nada ocorre. Por isso as seguradoras enchem os bolsos de dinheiro.
                Ele passou, então, a especular sobre os riscos de cada coisa em particular. Antes, contudo, alertei-lhe que às vezes corremos o risco de que também coisas boas aconteçam; que o evento fortuito pode ser uma coisa esplendorosa, tremenda. Um exemplo: se jogar toda semana na loteria esportiva – sou do tempo da loteria esportiva – corro o risco de ficar rico. É óbvio que também corro o risco de perder todo o meu dinheiro jogando, o que é muitíssimo pouco provável se jogar apenas um único e mísero real por semana. Ele, que estava mais preocupado em problemas advindos dos maus riscos – os maus riscos são os riscos em que o evento fortuito é ruim ou indesejável – enumerou duas coisas que evitaria doravante: casamento e filhos. Sobre o casamento alegou que corria o risco de levar chifres ou de sua mulher lhe tomar o que tinha. Sobre ter filhos me saiu com esta: custam muito caro e não dão retorno. Sobre o matrimônio argumentei que diminuiria bastante os riscos se procurasse a companheira ideal, financeiramente independente e de reputação ilibada. Ele contra-argumentou que as mulheres financeiramente independentes não iriam casar com um borra-botas como ele, e que as de reputação ilibada seriam como rede preta: inexistentes. Disse-lhe que os filhos lhe dariam muito prazer e que seriam a ponte para transcender a vida. Disse ele, então, que preferia ter outros prazeres com as mulheres e que não tinha interesse em transcender, pois não estaria lá em corpo físico para ver. Lembrei-lhe que, com a vida devassa que levaria, correria o risco de adquirir doenças e morrer mais cedo. Ele replicou que não tinha medo de correr esse risco, desde que a morte fosse confortável e rápida. E a conversa foi, foi, foi... e não teve mais fim.
                Como vêem, cada um escolhe os riscos que quiser. Foi muito bom porque fizemos um exercício de pensar mais objetivamente nas coisas. Na maior parte das vezes não agimos assim. Não nos damos ao trabalho de pensar nos riscos que corremos, os bons e os maus. Às vezes, o risco de bom êxito é até maior que o de mau, mas recuamos porque focamos no último. Só olhamos para o medo de perder. E esquecemos que podemos ganhar. Isso mostra que os seres humanos são basicamente negativos. E por isso muitos não acreditam em si mesmos. Quando amealhamos o pouco, não acreditamos que possamos ir além e abdicamos do muito. Quando nossos projetos se mostraram inadequados para nossa realização pessoal, perdemos a autoconfiança e a auto-estima. Ficamos congelados e aterrorizados. Morremos em vida. Dizemos-nos velhos, ou cansados, ou decepcionados, e nos apegamos com unhas e dentes ao status que eventualmente tenhamos. E ficamos unicamente com ele, nosso status. Nesse momento esquecemo-nos de fazer a pergunta principal: qual o risco de me prender a esse status? E eu lhes responderei: o risco de perder a capacidade de aprender. Quando se perde a capacidade de aprender, acaba a vida. O tempo que nos resta será usado para relembrar quem já fomos, o que já fizemos, quão bons fomos um dia. Seremos velhacos. O status será tudo que nos resta. Paramos e ficamos a olhar para trás, enquanto a estrada se perde no horizonte à nossa frente. Esse é um risco que não devemos correr. Seremos zumbis a vaguear pelo mundo, desprezados pelos que pulsam de tanta vida.

Fernando Cavalcanti, 06.12.2007 

quarta-feira, 8 de março de 2017

POSE NÃO GERA RENDA

Esse negócio de rede social aproximou demais as pessoas. Não, não. Esse negócio de rede social aproximou pessoas demais. Sim, pessoas em número excessivo interagem simultaneamente. Imaginem aí cem, cento e vinte pessoas conversando ao mesmo tempo ou quase isso. Isso não seria o pior. Como se administram tantas vontades? tantas ânsias? tantas carências? Não há de ser fácil, por óbvio. Dirá alguém que a arte da interação é o uso da dialética, do contraditório, da tolerância. Tudo bem, tudo certo. Falar é fácil, fazer é que são elas, diria minha avó.
                Pois a moda em voga é a criação, na rede social, desses grupos. E para tudo se criam grupos. É o grupo dos amigos de trinta anos, dos amigos de quarenta anos; dos amigos que se conheceram no berçário, dos que se conheceram no bar da esquina, e por aí vai. Falo tudo isso e assumo – eu mesmo já criei grupos. Devo dizer que foram grupos mixurucas, pequeninos, três, quatro, cinco pessoas. Quase não se interage, quase não se fala no grupo. Chego a pensar: – para que diachos existe tal grupo? E não acho a resposta. Mesmo eu me presto, às vezes, ao efeito manada.
                Contudo, sei de grupos enormes, acima de cem pessoas. As notícias que tenho do grupo são as mais variadas. Soube de intrigas, de querelas, de arranca-rabos. Depois, ao que consta, veio uma calmaria, uma espécie de hangover, como se todos houvessem se cansado de tantos debates e de tantos embates. Enfim, veio a prova de que Rousseau, ou o Rubem Alves, ou o Rubem Braga, estava absolutamente certo – o homem, sozinho, é essencialmente bom. O ajuntamento de homens o corrompe e o degrada. Eis tudo aí.
                Eu não sei por que falei tudo isso. Há de ter sido um desses atos falhos que diariamente nos assaltam. (O melhor do ato falho é a ausência de culpa.) Queria mesmo era falar do carioca que conheci em Florianópolis, sim, o carioca que se tornou manezinho. Sobre ele, foi o seguinte.
                Parado em seu carro em monstruoso engarrafamento na Avenida Brasil, sentiu uma opressão no peito. Não era dor física, nem o aperto da angina. Era uma emoção, uma emoção negativa. E era tão negativa que a ela seguiu-se a diaforese. A gravata o sufocava, o colarinho parecia uma argola que se lhe fechava em torno do pescoço. Tinha medo, um medo incontrolável e incoercível. Sacou do telefone portátil e ligou para o cliente que lhe esperava no fórum, para a audiência. Disse-lhe que não poderia ir, que enviaria alguém para substituí-lo.
Já em casa, chama a mulher. Dá o ultimato: –“Não quero mais viver nessa cidade”. A mulher ouvia sem dar importância. Continuou: –“Escolhe aí outro lugar pra viver; aqui não fico mais”... A mulher argumentou lembrando-lhe os filhos, que estavam para entrar na faculdade. Ele refletiu alguns segundos e assentiu: –“Está bem. Espero no máximo 2 anos. Depois disso, vamos embora”.
                Dois anos depois, após lembrá-la do acerto feito, a mulher vacila. E meus pais? Vou embora assim? Deixando papai e mamãe no inferno desse Rio de Janeiro? Ele, que ia lhe perguntar se era casada com ele ou com os pais, recua e, sem hesitar, avisa: –“Estou partindo”. E, assim, o encontramos em Florianópolis, dirigindo seu carro para fazer um caixa extra, esse negócio da Uber, a empresa americana. Tem uma banca de advogado com um sócio, mas complementa o orçamento com essa atividade. No meio da corrida – íamos à praia da Joaquina – liga um cliente. (De fato, era uma cliente.) Atende. Ela quer saber de um processo. Ele explica que já saiu o mandato de prisão contra alguém e a tranquiliza. Combinam de falar depois, e ele promete mantê-la informada. Ela se despede com gratidão: –“Muito obrigada, doutor Martins”!
Ao longo de todo o percurso, o novo manezinho fala da cidade, de seu novo lar, da nova namorada, do divórcio, dos filhos já formados, dos concursos, dos salários na cidade... Acima de tudo, demonstra estar tranquilo, vivendo em paz. Afinal, ser manezinho é como habitar o oásis da violência grassante por todo o país. É tão desprendido que ousa parar seu carro no Mirante Morro da Lagoa para tirar fotos de seus clientes cearenses, algo que não está incluído no serviço que nos presta. Ao final, deu-me um cartão de visita; não o cartão do motorista que dirige Uber, mas o do causídico atuante no interesse de seus clientes.
                Ia esquecendo. O dinheiro extra se presta à realização de um sonho. Estão de passagens compradas, a namorada e ele, para Portugal em janeiro do ano que vem. Precisa juntar sete mil euros para trazer uma quantidade de vinhos que irá guarnecer a adega que construiu em sua nova casa. Já dispõe de pouco mais da metade. Não se envergonha do trabalho que faz. Vergonhoso é parasitar, furtar, roubar, enganar, e permitir que a vaidade suba à cabeça – coisa produzida pelo efeito manada, pela pose que alguns têm em alguns lugares do país. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM BREVE E DESINTERESSADO TRATADO SOBRE O INTERESSE

          Quisera eu ter a capacidade intelectual para escrever um tratado sobre interesse. Esperem um pouco. É possível que não me tenha feito entender. Falo do interesse em geral, do interesse em tese.  O caso é que o meu amado amigo Gaudêncio porta uma espécie de neurose sobre esse... o que é mesmo o interesse? É um substantivo. Mas, o que vem a ser ele? É um sentimento? É um desejo? É uma vontade? Que diachos é o "interesse"? Pois, repito, o Gaudêncio é um neurótico por interesse. Ou será que o amigo está a querer iniciar a inusitada propaganda "Viva o desinteresse!"? Vou tentar explicar. É o seguinte. O amigo não se conforma que as pessoas tenham interesses. E pior. Se o interesse partir de uma pessoa de posses ou poderosa, então, o mundo vem abaixo em forma de mais neurose. Mas vejam. O jornalista tem interesses, o advogado idem, o ginecologista também, e o coveiro há de ter igualmente os seus. Padre tem interesses? Seguramente. E o Papa? Sabe-se lá, mas não arriscaria dizer que não. Mesmo o Sumo sacerdote deseja algo, o que o faz possivelmente persona non grata aos olhos do Gaudêncio. (Estou começando a achar que o interesse é, sem dúvida, um desejo.) Então, o amigo é portador de uma neurose sobre esse tão alastrado desejo. Os leitores leigos na ciência que estuda o comportamento e a mente fiquem sabendo que a neurose é assim: — o sujeito sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Percebem? Pois bem.
          Agora vejamos o seguinte. Se o interesse é um desejo e todos têm desejos, por quê?, qual a razão de meu amigo? Lembremos que até os animais têm desejos. São desejos que brotam a partir do que se conhece como instintos, mas nem por isso são menos desejos no sentido de pretender satisfazer alguma necessidade. Eu disse que o amigo odeia que os de posses tenham interesses. Assim, para ele pobre pode ter interesses. É legítimo. É apropriado. Poderosos e ricos, não. 
          (Estou tentando pegar "na veia", mas o tema é escorregadio.)
          Partirei de exemplos proporcionados por nossas últimas conversas. Outro dia entramos a falar que o país está passando pela pior crise de sua história. Os historiadores e economistas dizem que tal só houve à época do Floriano, ao fim do século XIX. Até aí nenhuma novidade. Foi quando se disse também que o país está melhorando, que a crise está amainando, que há sinais inequívocos de melhora do ambiente econômico. E que isso se deve ao fato de o governo estar empenhado em fazer as reformas necessárias para que tal aconteça. Ainda mais. A autoridade monetária está competentemente lidando com a inflação, com a taxa de juros e com o câmbio sem interferências externas, sem ingerência política. A melhora do ambiente sempre antecede a melhora do cenário real, visto que é natural que haja um lapso de tempo entre uma coisa e outra, período em que cresce a confiança das pessoas na materialização desse cenário. Pois o amigo, que estava quieto, saiu das sombras para dizer — quase ouço-lhe os gritos — que está tudo muito ruim e que não está havendo nenhuma melhora. E mais: — não há perspectiva para isso. E isso era o que diziam os jornalistas e blogueiros da Folha, do Estadão e do Valor. (Senti um alívio por ele não ter citado os jornalistas locais. Se o fizesse, certamente eu seria acometido de espasmos e furores digestórios.) Por fim, argumentou que nós, os que temos a visão da inflexão que está inequivocamente a ocorrer, estamos a beber em fontes duvidosas cujos INTERESSES seriam os mais escusos possíveis. E mais: — que não há ninguém sem interesses. (As afirmações do amigo eram de uma espessa e inegável obviedade.) Presumo que se referisse também aos jornalistas e blogueiros que lê. Eis aí o contexto.
          Contei o milagre é denunciei o nome do santo. Volto ao interesse puro e simples. Repito que a ubiquidade do interesse é tão primorosamente evidente que já sinto um crescente desconforto em falar sobre isso. Afinal, ao falar sobre o óbvio beiramos a nossa própria neurose. Temo iniciar o texto gozando de perfeita saúde mental e acabar por perdê-la ao longo de seu desenvolvimento. Paciência. Escrever é atividade de risco. 
          Ora, desde quando o interesse move as relações humanas? Presumo que a resposta seja desde sempre. Vou além e pergunto: — há relações onde o interesse não exista? Respondo: — não há relação onde o interesse não esteja presente. Há, além disso, a não-relação de interesse. Que diachos seria isso? Bem, a matéria do jornalista que leio terá algum interesse ao atingir o leitor, ainda que esse homem da imprensa e eu não tenhamos sido apresentados. Sendo assim, por que o meu amigo tem tantas reservas pelos interesses? Pensará ele que o interesse é um mal em si? Tudo indica que sim. O que o amigo não consegue, talvez, é distinguir os tipos de interesse. Assim, de minha parte sugiro a existência de dois tipos de interesse: o legítimo e o ilegítimo. Se alguém me disser que há mais algum, que me ajude a sair dessa enrascada. Ou, melhor ainda: — peço encarecidamente ao amigo Gaudêncio que me ensine quais seriam os outros tipos. 
          Vou ao pai dos burros e lá leio sobre "legítimo": fundado no direito, na razão ou na justiça; genuíno, verdadeiro; natural, justo, justificado; que tem caráter ou força de lei. Assim, as relações onde impera o ilegítimo interesse estão fadadas a qualquer resultado que não possa ser classificado como bom. Imaginemos o bandido, o assaltante. Para nós brasileiros é fácil imaginar. Vamos mais além. Imaginemos também o marginal de colarinho branco. Qual o interesse do bandido, do marginal? Resposta: o bandido quer ganhar sem trabalhar, tirando à força e usando de violência o que pertence a outros. Seu interesse não está fundado no direito, não é natural, não é justo. (É inevitável aqui dizer o óbvio, repito. Sim, porque é muito óbvio que o resultado da soma dois mais dois seja quatro...) Por outro lado, o bandido existe, sempre existiu. Justamente por sua existência é que se erigiu um corpo de leis. (Paro por aqui senão sairei a falar de direito natural e direito adquirido, e o amigo Gaudêncio sabe bem de tudo isso por ter um diploma de causídico.) 
          Vejam o jornalista a serviço do que quer que seja. Da mesma forma, seu interesse será ou não legítimo. Se sai a defender o interesse de criminosos, as penas brandas para bandidos e o desarmamento da população, estará claramente a serviço da vulnerabilidade da sociedade. Sua intenção é, usando de falsa retórica, convencer a todos de que a causa da violência é o fato de o cidadão de bem possuir uma arma, ainda que nenhum dado objetivo e claro apoie tal argumento. Reportando-me agora ao nosso diálogo sobre se está ou não o governo tomando as medidas necessárias a que se crie expectativa positiva para a economia do país já no curto prazo, os jornalistas e blogueiros que o amigo lê são TODOS céticos quanto a isso. Os tais jornalistas escrevem em grandes jornais, são cobras criadas da imprensa e por isso, somente por isso, são críveis? Ora, os dados irrefutáveis, sobre os quais obviamente não comentam em seus artigos, mostram o contrário. Presume-se que esses tais estão a defender interesses, assim como estão os que estão a divulgar os tais dados em outras fontes que o amigo não lê. Cabe então a pergunta: — a serviço de quem está esse pessoal tão entendido e tão celebrado? Melhor dizendo, que interesses essa súcia pretende defender? Seria somente a defesa de interesses ou estão a destilar sua ignorância pura e simples sobre assuntos de macroeconomia? Ignoram esses trogloditas da economia que expectativa faz preço? Que o reapreçamento começa a se fazer no exato momento de uma mudança na expectativa, seja para melhor, seja para pior? Tudo indica que sim. Mas a melhor pergunta é: — são legítimos os interesses desse povo? É para o bem do leitor ou quer induzi-lo ao erro que esse povo escreve? 
          Diz o amigo que não lemos tudo, quando é justamente o contrário. Nós que vemos os dois lados da moeda porquanto também lemos o que dizem esses paspalhões, temos bem constatado quem está com a razão. O pior de tudo é que informações se prestam sempre a alguma utilidade. Se ela pode lhe ser útil e você a lança ao lixo quando ouve quem ali está para induzi-lo ao erro, perderá oportunidades. E aí não há perdão. No mundo real, na dura realidade da vida três coisas jamais retornam: a pedra lançada, a palavra emitida e a oportunidade perdida. É melhor comprar barato do que caro. 
          

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O PROGRESSISTA

          Houve quem entendesse que estaria eu chamando os funcionários do Instituto Dr. José Frota de animais. Ou, melhor: — de vacas. Ainda bem que na chácara do Feitosinha eram vacas que estavam na fila para beber água, e não cavalos, ou jumentos, ou burros. Imaginem o que concluiriam os que fizeram tal suposição. De fato, quis, no último texto, chamar a atenção para o fato de que os funcionários estão se desumanizando ao aceitarem o que o burocrata lhes reserva no dia-a-dia. A desumanização não nos torna animais, visto que os animais são de uma pureza incomensurável. A desumanização nos torna... desumanos. Não há nada mais desumano do que a inteligência. Se a um cãozinho inocente déssemos inteligência, ele sairia a chupar as carótidas de seus semelhantes e a depositar suas necessidades à porta do vizinho. Portanto, em respeito aos tenros quadrúpedes, deixemo-los de lado. Já basta as maldades que o desumano lhes faz todos os dias. Se quiser recuperar sua humanidade perdida, o funcionário deverá reduzir-se à humildade e esbravejar contra o idiota que ascendeu ao poder. Sim, porque é permitida a ira numa única situação: — contra o mal. Mesmo o Cristo, a Majestade dos Céus, enfureceu-se contra os que comercializavam à casa do Altíssimo. O aviltamento é o pior de todos os males. De fato, e para falar a verdade, estamos a um passo do completo aviltamento.
          Digamos logo e sem rodeios: — a degradação é geral e sem limites. Vejam, por exemplo, o progressista. O que é o progressista? Direi que nos últimos 15 anos intensificou-se o uso, por parte de muitos, de tal termo, de tal adjetivo. Nas rodas de políticos e em seus discursos para o povo em comícios ou do púlpito das casas legislativas e, principalmente em suas falas nas reuniões de seus partidos, usaram e abusaram de seu uso. Muitos se autointitularam "progressistas" e seu número cresceu assustadoramente. Ser progressista era o mote, a palavra de ordem, o autoelogio obrigatório. Os outros eram acusados de ser "conservadores". Pois o progressista nada mais era do que o esquerdista, o revolucionário, o que iria modificar toda uma ordem, uma estrutura, um modo de fazer e pensar as coisas. Em suma, o progressista era o arauto de uma outra ética, de uma nova forma de "fazer as coisas". 
          Pois esse pessoal era contra "tudo o que aí está". (Digo "era contra" mas poderia perfeitamente dizer que ainda é e tão cedo não deixará de ser. É provável que sempre o seja.) Decretaram a falência de tudo, da família à ortodoxia econômica. E assassinaram Deus. De sua boca saíram as maiores blasfêmias que se ouviram recentemente. Louvaram o crime, a gastança irresponsável, intensificaram o pacto com os bandidos, pretenderam inumar a ideia de honestidade. Em suma, tudo aquilo que alicerça o ser humano normal foi alvo de sua metralhadora assassina. Ser progressista era ser "inteligente". Com a plena certeza de que os valores morais mais acarinhados pelo ser humano normal eram os responsáveis por o que consideram a causa da falência da sociedade, investiram impiedosamente sobre eles. A ideia, inicialmente encantadora porquanto não há nenhuma perfeição na sociedade, arrebanhou milhões de incautos e outros tantos semelhantes a eles. 
          O tempo mostrou o resultado da ação do progressista. Violência, aumento da pobreza, aumento do endividamento das pessoas e do governo, falência institucional generalizada, falência de empresas públicas, assalto ao erário, propagação da corrupção em todos os níveis, envilecimento do poder judiciário, etc. etc., foi o cenário final. Dirá alguém que muito disso não é novidade, que várias dessas situações ocorreram sob a égide do "conservador", e direi que é verdade. Afinal, o bicho homem tem maus bofes desde as fraldas. Mas, admitamos — o progressista quis, e ainda quer, institucionalizar o caos. Ainda agora respiramos o ar de um certo caos, visto que durante os últimos 15 anos ele muito fez para implementar sua ética. Quem não concordar com esta evidência gritante só há de se satisfazer com a descida da Nova Jerusalém desde os Céus e da parte de Deus. Dito de outra forma, o progressista inundou uma sociedade imperfeita com o produto fecal de seu metabolismo mental, donde fica evidente que a caixa craniana do progressista é preenchida com seu grosso intestino. 
          Ontem, ali nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, esbarro com minha querida amiga Jesoni Gruska, médica de mulheres. Confidenciou-me: — não vê a hora de se aposentar. E por que quer ela se retirar do serviço público? Ora, a causa de tal desejo é o caos, o mesmo caos criado pelo progressista. Sim, o caos tem suscitado muitas vontades, muitos desejos, sendo o principal o desejo de dele fugir, de para bem longe dele ir. Em uma simples palavra, o caos nos impele à aposentadoria e à emigração. Outra alternativa seria a exoneração pura e simples. Tais alternativas satisfazem mais ou menos plenamente a ânsia do ser humano normal por paz. Leva a cabo quem pode, quem tem coragem. Não pode ser taxado de louco o que procura proteção. Preservar a vida e o patrimônio honestamente acumulado é um desejo normal. 
          O comentário da amiga seria esclarecedor por si mesmo. Ainda assim, quis dar uma mais detalhada justificativa. Explicou que na Emergência obstétrica era obrigada a examinar as pacientes deitadas não numa maca normal, não num leito de hospital normal. Nada disso. Como elas, pejadas, chegavam procedentes do interior do Estado em busca de socorro médico por alguma complicação de sua gravidez numa maca de ambulância, eram obrigadas a permanecer nas macas, já que o hospital não dispunha de leito. O problema maior é que essas macas não têm pernas e que, por isso, eram retiradas do veículo e postas ao chão. Sim, as pacientes, grávidas, deitavam-se em macas ao chão da Emergência. E o profissional médico que se virasse para examiná-las. Assim, relatou-me a amiga que precisava se ajoelhar para fazer o toque vaginal nas pacientes, examinar-lhes o abdome, auscultar-lhes os batimentos fetais. Era uma dupla humilhação, eram duas humilhações — a da paciente e a do médico. Óbvio é que a humilhação do doente é incalculável, ao passo que a do profissional é meramente ocupacional. Vejam a cena. É cena de guerra ou de pós grande catástrofe natural. 
          Vamos e venhamos, o grande humilhado é, de fato, o paciente. Perde ali o doente toda sua dignidade, toda sua humanidade. Avilta-se desmedidamente. Vítima de uma Constituição que é uma farsa, pautada pela irresponsabilidade das boas intenções que sempre levam ao inferno; muitas vezes vítima de suas próprias más e irresponsáveis escolhas; vítima de sua indolência e até participante ativo no dueto corruptor-corrompido, o paciente arca e sofre mais do que ninguém com tudo isso. Jesoni só não quer mais atuar na cena hedionda. A sensação de aviltamento não se deve ao fato de ajoelhar-se para socorrer, mas por sentir na pele o resultado da atividade do progressista. Desumanizar é o que ele melhor faz, e ela se recusa terminantemente a participar de tudo isso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O IDIOTA E O BUROCRATA

          Não me sai da cabeça a cena que se me desenhou na chácara de meu amigo Feitosinha. Já faz alguns anos, mas não esqueço. Fomos lá, certo ensolarado sábado, Costinha e eu, encontrar o Feitosinha em seu solar. Era um churrasco. Levei meu violão para a cantoria. Já, já digo o que lá vi. Antes abro um parêntese e pergunto: – onde andará o Feitosinha? 
          Nunca mais o vi no hospital. É provável que tenha se aposentado. A última vez que dele ouvi falar foi há algum tempo. As notícias davam conta de que havia passado mal e sido internado. Felizmente se recuperou e saiu de alta sem maiores complicações. Eis aí as notícias, as últimas notícias, que tive do amigo. É bem possível que continue bem. Todos sabem – notícias ruins varam o mundo dez vezes antes que se dê um suspiro. Fecho o parêntese. 
          A cena que vi na chácara do amigo foi a do gado bovino em fila indiana para beber água. Descrevi-a aqui várias vezes, em diferentes crônicas. Em resumo, as vacas, em toda sua inocência, em toda sua pureza, obedeciam fielmente ao Feitosinha e seu vaqueiro. E a fila era uma organização tremenda. Ninguém se aventurava a passar à frente de ninguém. Não havia altercações ou brigas entre as vaquinhas do Feitosinha. E depois da água saiam mansamente para o pasto onde se deleitavam com o capim. 
          O leitor em sua curiosidade de marido traído há de querer saber: – e por qual razão, após tanto tempo da visita à chácara do amigo, me lembrei desta bucólica e enternecedora cena? A resposta é simples: — foi justamente quando vi a fila do ponto do Instituto Dr. José Frota. Com efeito, quase todo dia o autor que vos escreve vê a cena fatídica. E vamos mais além. A fila do ponto do referido hospital é de domínio público. Sim, ela se posta quase ao meio da rua. Quem quiser ver a cena, esteja ali, à entrada do subsolo do hospital, todo santo dia às 7 da manhã e às 7 da noite. É batata. Não há como perder. As vacas do Feitosinha estavam ao sol implacável, devo acrescentar, ao passo que o pessoal da fila goza sempre de uma sombra que torna um pouco mais leve sua desumanização. Um hospital que se diz terciário oferece três, e apenas três, relógios de ponto às dezenas de funcionários que fazem jornadas de trabalho diariamente. Por isso as filas enormes. São como as vacas do Feitosinha que mansamente vêm beber a água do tanque.
          (Há, é verdade, um quarto relógio de ponto no prédio administrativo. Mas ele está absolutamente fora do fluxo de todo esse pessoal, de modo que ele é utilizado quase que apenas pelo pessoal que trabalha naquele setor.)
          Há, além da fila do ponto, a fila da catraca, não devo esquecer de mencionar. A catraca é o dispositivo da segurança. E qual a razão da catraca? Repito : — ela é o dispositivo da segurança. Aos que não se lembram, saibam que o IJF já foi palco de pelo menos um assassinato à bala em suas dependências, fora outras tantas tentativas que se viram frustradas. Os tiros, no caso os tiros das outras tentativas, não atingiram o alvo a que se destinavam, mas o pandemônio nem por isso foi menor. Assim, após bater o ponto, o funcionário se posta diante da catraca para ter acesso a seu local de trabalho. Como há, ali, apenas três catracas, e há ainda o pessoal que está saindo do serviço e que vem também bater o ponto, temos que forma-se uma grande fila para a catraca. O interessante é que as filas — uma defronte cada máquina de ponto e outra à única catraca eleita para os que entram — criaram, por sua vez, o engarrafamento. (Quem me perguntar o que é feito da terceira catraca, respondo que está frequentemente quebrada.) Tentemos uma descrição deste outro patético cenário. 
          Pressionados para estar à frente da máquina na hora certa, os funcionários que chegam para trabalhar são obrigados a parar o carro ali no acostamento da Barão do Rio Branco. Não tendo onde parar por conta da lotação dos estacionamentos do hospital pelos veículos do pessoal que está encerrando seu turno de trabalho, situação piorada pela cessão de um dos terrenos onde funcionava um deles para a construção do famigerado IJF II, o funcionário não tem outra alternativa — é parar no acostamento e descer para cumprimentar a máquina. O resultado é um diário caos no trânsito neste trecho da rua. Acrescente-se a isso o acúmulo de vendedores ambulantes que estacam suas barracas ou carrinhos de lanche na calçada onde desce a rampa do subsolo do hospital. Acreditem: — é uma pequena amostra de nossa tendência ao caos. É a vitória do burocrata. É a vitória do idiota. 
         Vejam que há a defesa do idiota. Mesmo ele terá argumentos em defesa de seu ponto de vista, e somos obrigados a ouvi-lo. É efeito colateral da democracia dar voz a todos, mesmo ao idiota. Até aí não há problema. Não faz mal ouvir asneiras. Contudo, o resultado da ação do idiota está aí para quem quiser ver. Digo "idiota" e percebo que deveria ter feito uso do plural visto que ele, o idiota, é, acima de tudo, uma superioridade numérica. O que salta aos olhos não pode ser negado, não pode ser facilmente esquecido. O burocrata argumenta ferozmente a favor da catraca, a favor da máquina de ponto, a favor do acúmulo do comércio "informal" à entrada do hospital e, quiçá, a favor do engarrafamento. Não há nenhuma surpresa nisso. Afinal, o burocrata e o idiota são a mesma pessoa. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A ENTREVISTA

          Os leitores que acompanham este blog hão de se lembrar da revolução que sofreu o amado amigo Fábio Motta. Ora, dizer que alguém sofreu algo implica em que esse alguém foi vítima passiva, objeto de um infortúnio, alvo de um destino implacável e cruel. Tranquilizo a todos dizendo que não foi o caso com o querido amigo. Qualquer conotação negativa que se queira aventar para o caso estará fadada a se esvair ante a realidade. Sim, os fatos não me deixam mentir. Não, o Fábio Motta, de fato, foi o principal agente e ator de sua recente revolução. Digo recente e já corrijo – já não é tão recente assim. Sabe-se lá quando, de repente, o nosso Fábio Motta "aconteceu". Teria sido, dizem as más línguas, um amor que azedou, um negócio que quebrou-lhe a banca, ninguém sabe de fato. O que importa é que estava ali um novo Fábio Motta, um novo homem. 
          Motta era um homem de paletó e gravata. Um homem enorme, alto, forte e... de paletó e gravata. As meias, os cintos e as cuecas seriam das melhores e mais caras marcas à venda. Seus sapatos reluziam como ouro. Engraxava-os diariamente. Quando mais novo usava um bigode vistoso e densíssimo. Numa única palavra, o homem parecia o Tom Selleck. Não sei se se lembram do Tom Selleck. Pois o Fábio Motta seria facilmente contratado como dublê do Tom Selleck, tamanha a semelhança com o ator norte-americano. 
          Com a transformação, o amigo murchou. E digo que literalmente murchou. Vejam que não o afirmo no sentido pejorativo. Nada disso. Para se ter uma vaga ideia, o homem, agora, precisa apertar o cinto para evitar que lhe caiam as calças. Trocou os sapatos finos negros e brilhantes por esportivos coloridos. Com efeito, toda a indumentária do homem é, agora, multicolorida. Dir-se-ia ser ele um havaiano completo. O surf é a sua principal atividade. Para isso, faz cursos de natação e de apneia. Comprou sabe-se lá quantas pranchas. O destino dos vários paletós que pendiam em seu guarda-roupa é, até agora, desconhecido. Nunca mais qualquer ser vivente o viu usá-los. Suspeita-se que no lugar dos paletós estejam as pranchas de surf. Eis aí em rápidas pinceladas a revolução que atingiu o nosso querido amigo. Ia esquecendo um detalhe crucial – as namoradas. Suas namoradas, antes mulheres maduras e realizadas, eram agora adolescentes recém saídas da barra da saia de suas mães. Por isso muitos fecharam um diagnóstico para o amigo: – ele seria um Peter Pan mal acabado. 
          A transformação do Fábio Motta foi tão acentuada que chamou a atenção da imprensa. Certo repórter, digo, certa repórter, jovem e bonita, combinou com ele um lugar em determinado horário a fim de obter, finalmente, as razões que o levaram a tão intrigante e contundente mudança em seu estilo de vida. Os leitores quererão saber de como a imprensa tomou conhecimento do fenômeno Fábio Motta e direi que suspeito fortemente da rede social. Disse o meu querido amigo Fernando Siqueira que a rede social faz hoje o que faziam antigamente as calçadas. Tudo se conhecia e ganhava o mundo nas calçadas. Seja como tenha sido, a repórter queria que o grande público tomasse conhecimento a fim de que mais pessoas se beneficiassem de mudança tão desejável e impactante. Afinal, as pessoas precisam de um gatilho, de uma boa razão que as encorajem a  seguir em frente. Todos sabem que, numa mudança, o mais difícil é o começo, que os primeiros passos são os mais difíceis, é como começar a andar.  Nada melhor do que um exemplo vivo, um exemplo inspirador.  Era aí que entrava o nosso querido Motta. 
           A moda é ser magro, ser jovem, ser saudável. Qualquer um que destoe de tal unanimidade, de tal consenso, há de ser sumariamente excluído como exemplo a ser seguido. Seja um canalha, mas seja magro, jovem e saudável. Obviamente, não é assim com o nosso Motta. A entrevista havia de esclarecer, de uma vez por todas, as razões do amigo. Assim, lá foi ele encontrar-se com a imprensa. 
          Foi ali na Beira-Mar, lugar onde se encontram os milhares de atletas desta vil cidade. Um fim de tarde de segunda-feira, o dia mais cheio, mais frequentado da semana, foi o cenário escolhido pela jovem da imprensa. Afinal, é no fim de semana que se cometem todos os pecados contra a saúde do corpo e a favor do excesso de peso. A segunda seria o dia da expiação, o dia de confessar e expurgar tais pecados. Por isso há muito mais gente neste dia. 
          A repórter queria causar impacto. Escolheu a entrevista em frente ao Boteco Praia, um bar repleto de paus-d'água todos os dias da semana. Testemunhariam, ainda que de uma certa distância, o atleta cinquentão e humilhante. Ela compareceu de bloco na mão e acompanhada por um cinegrafista. Quando viu o homem de câmera em punho nosso Motta fez um esgar de contrariedade. Pediu à moça para não ser filmado. Sabe como é... Uma imagem de filme ou de fotografia nunca espelha a realidade. Gente bonita corre o risco de parecer feia diante da câmera. É aquela história da mínima diferença entre a beleza e a feiura. Tinha trazido também uma maquiadora? Melhor não correr o risco...
          Ela começou assim:
          — Senhor Motta, como vai? O senhor parece ser um homem que está em dia com a saúde. O senhor pratica esportes? Quais esportes o senhor pratica?
          — Minha querida – era o velho Motta querendo vir à tona no novo Motta – tudo bem com você? Sou adepto do surf, sempre gostei do surf, sou um homem do surf... Na adolescência era o meu esporte. 
          Diz o amado amigo Bacana que uma das mais prementes características do Motta é ser um gentleman. Nisso, segundo ele, não houve a menor alteração.
          — O senhor surfa desde a adolescência?, quis ela se certificar.
          — Não me chame de "senhor", minha querida... Assim você desfaz todo o meu trabalho... 
          — Desculpe... Como prefere que eu o chame?
          — Bem, me chame de Meninotti ou de "você". Meus amigos vêem em mim uma semelhança com o ex-técnico argentino, o César Luis Menotti. Você não me acha parecido com ele? Claro, ele hoje é um homem mais velho. Talvez até já tenha morrido... Você saberia dizer se ele já morreu?
          — César Luis Menotti? Não sei quem é... Ele é antigo?
          — Foi técnico da Argentina nos anos 70...
          — Não é do meu tempo... Tenho 30 anos... A propósito, quantos anos o senhor, digo, você tem? Perguntava e anotava no bloquinho as respostas do entrevistado. O cinegrafista, rejeitado como um pano de chão, resolveu se misturar aos cervejeiros do Boteco. Motta respondeu:
          — Veja bem: a idade não importa. Por exemplo: você me dá que idade?
          A repórter ensejou um sorriso encabulado e hesitou. Ia responder quando ele atalhou:
          — Perceba que sou magro, e abriu os braços olhando-se de cima abaixo.
          Continuou:
          — Muitos desses garotões aí não me acompanham...
          A repórter quis mudar o tema, voltando ao técnico argentino.
          — Mas... O que este senhor Menotti tem a ver com o "Meninotti" que seus amigos usam para se referir ao senhor, digo, a você?
          — Começaram a brincar comigo por causa de meus cabelos que estão rareando em cima e permanecem viçosos aos lados e atrás da cabeça. Como pareço um menino, fizeram a brincadeira. Daí o Meninotti. Percebeu?!, e inadvertidamente passava a mão pelos ralos cabelos.
          — E o surf? Como o surf entrou na sua vida?
          — Como ia dizendo, surfava na adolescência e desde então nunca mais havia praticado. Resolvi voltar. Achei que estava precisando. Não sei bem o porquê... Até hoje eu mesmo me pergunto.
          — Como assim? O senhor, perdão, você não sabe por que voltou a surfar?
          Nesse momento Motta deslizava a mão pelas suíças. Sim, o homem tem as suíças do Hugh Jackman. Assim como poderia dublar o Tom Seleck, da mesma forma poderia dublar o Hugh Jackman. Seria o Wolverine tupiniquim falando cearencês. Responde:
          — Minha linda, às vezes na vida o homem faz coisas sem nenhuma razão aparente. Quero dizer com isso que nem sempre fazemos as coisas por uma razão específica. Fazemos por fazer. Não há uma explicação. Dizia isso com a empáfia do cinquentão.
          A repórter insistiu:
          — Você, desculpe, o senhor sabe... às vezes a pessoa descobre algum mal, alguma doença... O senhor, desculpe, você não descobriu ser portador de alguma doença para ter mudado tanto assim o seu estilo de vida?
          Motta sorriu aquele seu sorrisinho debochado e disse:
          — Minha filha, eu lá tenho doença nenhuma!... Sou saudável como você. E olha que eu já tenho... Se brincar tenho mais saúde que você... Quer apostar?
          A moça sorriu amarelo meio desconcertada e perguntou, depois de um pigarro:
          — Como é a sua rotina? o seu dia-a-dia?
          Motta encheu o peito de ar como se fosse começar uma sessão de apneia e respondeu:
          — Acordo todo dia às quatro e caio na mar já às cinco. Às nove chego no trabalho e fico até às cinco da tarde. Almoço no escritório ou nem almoço. Vou ao clube para a natação e depois treinamento de apneia. Treino pesado quase todo dia. Os amigos me chamam para encontros mas não tenho mais tempo. Às vezes faço uma massagem, mas não é sempre. Veja você: estou quase aposentado. Tenho essa idade e já estou quase aposentado. Não é incrível?!
          A moça hesitou como a ganhar coragem, e finalmente perguntou:
          — Mas... Que idade o senhor tem mesmo?... 
          Ele continuou como se ainda não tivesse terminado de descrever a rotina:
          — Tenho... Não perco mais tempo com conversas inúteis. Você sabe, é preciso estar em movimento se quiser permanecer jovem e saudável. Tenho cinco pranchas de surf que me servem a diferentes marés. No fim de semana vou ao Paracurú ou ao Pecém surfar e ver como andam as reformas de umas casas que tenho por aquelas bandas. Quando estiver completamente aposentado vou morar lá. E vou surfar até morrer!
          — Desculpe, mas como é isso de estar quase aposentado? Pelo que entendi, o senhor, digo, você ainda trabalha...
          — Minha linda, o quase aposentado é um estado de espírito. É simples: já me vejo lá. Vivo com essa sensação. O tempo em que estou no trabalho, eu nem sinto. É como se estivesse surfando, ou nadando, ou tomando uma massagem com a dona Lurdes. Ela é minha massagista há vários anos. Entendeu?
          — Entendi... 
          A jovem tossiu baixinho como se estivesse se dando um tempo para elaborar outra pergunta, a última ou uma das últimas.
          — O que a sua mulher acha de tudo isso? Ela acompanha o senhor no surf?
          Motta sorriu outro de seus sorrisos marotos e disse:
          — Sou solteiro, minha linda... E já nem me lembro quando foi o meu último relacionamento. Você me acredita?
          A jovem e linda repórter fechou o bloco e agradeceu ao Motta por seu tempo e sua colaboração. Ele quis se escalar para uma cerveja com ela quando ela fez menção de atravessar a rua em direção ao Boteco para encontrar seu cinegrafista, mas se desculpou dizendo que tinha outro compromisso urgente. 
          Meio sem graça ele caminhou pelo calçadão em não sei qual direção e se perdeu entre os atletas da segunda-feira. 
          A entrevista ainda não foi publicada.