segunda-feira, 20 de março de 2017

O AMIGO CONTRA OS INSETOS

          Corre o mês de março. Eis que me lembro que é o mês em que faz aniversário o meu amigo Fábio Motta. Sim, comemora-se a festiva data ao dia 23 do corrente. Digo “festiva data” e já me arrependo. E por quê?, perguntará o leitor. O arrependimento é um sentimento que nos assalta quando agimos de forma errada e nossa consciência nos aponta a culpa. Ora, seria errado me arrepender de considerar o dia do aniversário do amigo uma data festiva? Já expliquei inúmeras vezes, mas vamos lá.
                Ocorre que entra ano e sai ano e o Motta faz tudo da mesma forma. E o que faz ele? Resposta – tranca-se em si mesmo ao dia da festa. Vejam que não afirmei que o homem se tranca em casa, ou some, ou desliga todos os meios de comunicação que lhe permitam o alcance. Não. Repito para que não reste a dúvida – o homem tranca-se em si mesmo. Ou seja, tranca-se em casa, some, desliga tudo, e... não sai da cama. É tudo junto. É como se o homem estivesse morto. 
              Diz o poeta que “morrer é apenas não ser visto”. Pois fica evidente a vontade de morte do amigo. Arrisco-me até a dizer que a coisa piora a cada ano. Ano passado o homem sumiu por três dias. Penso que estava tão apegado ao leito de morte que ao erguer-se teve um surto de articulações congeladas. No toalete, olhando-se no espelho com as remelas nos cantos dos olhos, assemelhava-se a um figurante de “Epidemia de Zumbis”, ou de “A Volta dos Mortos-Vivos”. Por um momento, do alto de sua atual e interminável Síndrome de Peter Pan, julgou-se o ator principal de “Meu Namorado É Um Zumbi”. Outro dia escrevi que o pior suicida é o que não morre. Pois é isso – o pior suicida é o que não morre. 
          Assim, em poucos dias veremos o que nos reserva o homem para este ano de 2017. Arrisco um palpite. Diria que espera-se uma mudança radical em seu comportamento. E por quê? Porque agora ele é um surfista. Um surfista de marola, é verdade, mas ainda assim um surfista. Sim, o surf foi o divisor de águas, o ponto de inflexão, a razão de tudo o que é novo para o amigo, de modo que estou seriamente inclinado a duvidar que ele se negue a surfar no próximo 23. Insisto: da forma como (re)entrou na vida do homem, o surf tem sido o grande diferencial, o gatilho para a reversão desse comportamento deplorável. Enfim, alguma coisa boa restará desse hábito tão salutar. (Pode parecer que estou a propagar contradições, mas não há aqui contradição. É apenas uma aparente contradição.) 
          O surf afastou o homem de seus velhos amigos para aproximá-lo de hábitos saudáveis e de grupos de pessoas cujas vidas giram em torno desse esporte. Dito de outro modo, o amigo tornou-se parte de uma tribo. Nós, os amigos do tempo das fraldas e dos cueiros, fomos completamente alijados e violentamente distanciados do convívio desse impoluto varão vigoroso. Paciência. Nada se pode fazer quando a rejeição se apresenta friamente e cruamente. Os amigos comuns dirão que estou a manifestar, indisfarçadamente, meus ciúmes e direi que, não!, em absoluto! E direi que, sim!, são legítimos os ciúmes! Digam-me: – como poderei me conformar perder um amigo-irmão para uma "tribo"? Nada contra os indígenas, pelos quais declaro uma piedosa solidariedade. Até porque o termo "tribo" aqui empregado não é literal, mas uma figura de linguagem para designar um grupo que se aparta do "resto". Que seremos nós, os que somos "o resto"? Já me sinto o cocô a descer pelo grosso intestino ou o catarro a subir pela via aérea do fumante inveterado, a apostema da estafilococcia...
          Também, notem, falando assim fica a impressão que os antigos amigos são má influência ou estimulam uma vida de hábitos pouco saudáveis. Direi sem demora – nada está mais distante da verdade. A essa altura da jornada, cada um recebe a influência que se permite receber. Depois de certa idade as escolhas se apresentam diariamente. Está-se escolhendo a todo instante, a cada segundo. Paramos de escolher enquanto dormimos e, com efeito, até dormindo escolhemos, se acontecer de sonhar com a dúvida que nos assola. Penso comigo: – o amigo sonhou conosco e, em seu sonho-pesadelo,  éramos todos insetos, mosquitos da dengue ou do zica-vírus, enormes e gosmentos como no "A Mosca", de David Cronenberg, a vomitar sobre as pernas do amigo a gosma enzimática que derrete ossos. 
         Devo admitir: – se sonhasse isso de alguém, jogar-lhe-ia nas fuças uma baforada de Baygon ou de SBP, "terrível contra os insetos". Contra os insetos, viste Fábio Motta?

sábado, 18 de março de 2017

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL - SERÁ QUE ELE APRENDE?

Os amigos hão de lembrar o comentário que fiz há poucos dias sobre uma resposta que o Sr. Max Gehringer deu a uma leitora de “ÉPOCA”. Foi em sua edição anterior, há pouco mais de uma semana. Enviei o comentário ao Sr. Gehringer, que não me respondeu pessoalmente. Entretanto, creio que ele acabou por enviar-me sua resposta na última edição da revista de 10 de dezembro do corrente em sua coluna “Nossa Carreira”, à página 95. Uma senhora, chamada Laíssa, colocou a seguinte questão: -“Tenho 43 anos e formação superior. Mas sou recém-separada e sem experiência profissional (meu último emprego foi há 17 anos). Por onde devo começar a procurar uma oportunidade?” Ao que ele respondeu: -“Infelizmente, Laíssa, se você não conhece ninguém que possa recomendá-la para uma vaga, essa combinação de idade + inexperiência vai lhe trazer mais dissabores que alegrias se você for bater em portas de grandes empresas. Eu diria que há duas opções viáveis que você deve considerar. Uma é um concurso público. E outra é o marketing multinível – a venda direta de produtos de uma empresa ao cliente final. É uma atividade que não requer muito capital, cujo resultado dependerá APENAS de seu esforço e competência, e poderá não apenas lhe dar um fôlego financeiro, mas também ajudá-la a readquirir confiança profissional em si mesma etc. etc. etc.” (Grifos meus).
                Ficou claro por sua resposta que o Sr. Gehringer vê no marketing multinível, que eu prefiro chamar de Distribuição Interativa, uma opção de renda potencial às pessoas que envidam esforço e competência neste trabalho. Em suma, em nada diferente de qualquer atividade laborativa séria e honesta. Em suma ainda, qualquer atividade laborativa séria e honesta gerará um resultado. Com a Distribuição Interativa não é diferente. Com um detalhe importante: Distribuição Interativa, por formar uma rede de distribuição, pode gerar uma renda elevada e, o mais importante, mesmo cessado o trabalho feito para construí-la. Em outras palavras, cria-se uma renda residual ou renda passiva. Cria-se um ativo. Os contadores e economistas que me corrijam: ativo é tudo aquilo que põe dinheiro no teu bolso. Mais especificamente ainda: o ativo põe dinheiro no teu bolso sem trabalho. O trabalho que você tem é o de criá-lo!  O que quero dizer é que o resultado do trabalho em Distribuição Interativa, ou Marketing Multinível, pode ser bem melhor do que qualquer outro trabalho convencional. A renda passiva pode ser alcançada em poucos anos de trabalho e representa uma aposentadoria! Outro detalhe importantíssimo: em Distribuição Interativa deve-se ajudar outras pessoas a atingir esses resultados! Para ser franco, só se ganha dinheiro em Marketing Multinível se se levar os outros a ganhar dinheiro! Dito de outra forma: você só ganha dinheiro se os outros ganharem.
                A última frase do Sr. Gehringer é, talvez, a mais significativa de sua resposta, e merece um esclarecimento. Quando ele diz que a atividade de Marketing Multinível pode ajudar o indivíduo a readquirir confiança profissional em si mesmo ele deixa subentendido uma ferramenta poderosa de uma empresa séria de Marketing Multinível: um Sistema de Treinamento, ou de aperfeiçoamento pessoal. Robert Kiyosaki admoesta claramente que, antes de entrar para o negócio de Distribuição Interativa, deve-se procurar saber se a empresa à qual você se associa tem um Sistema de Treinamento voltado para o crescimento e aperfeiçoamento da pessoa. E desaconselha peremptoriamente a que se associe àquelas que não o têm. Os céticos quererão saber por quê. E lhes direi: Marketing Multinível é um negócio de pessoas. Muitas pessoas farão o negócio pelo simples prazer de estar com as pessoas que admiram, ou que lhes ensinam, ou que lhes ouvem, ou que lhes ajudam nas turbulências da vida. O Sistema de Treinamento lhes prepara para serem pessoas melhores de modo a atrair mais e mais pessoas para o seu negócio. Simples como dois e dois são quatro.
                Uma ressalva vem a calhar. Marketing Multinível não deve ser encarado como uma atividade de exceção. Pareceu-me que o Sr. Gehringer só a aconselha aos que estão sem oportunidades ou aos que estão “perdidos”. Não é verdade. Marketing Multinível pode ser o “plano B” de quem quer que seja.
                Para terminar, eu diria que Distribuição Interativa é um universo. Em que pese sua simplicidade matemática da geração da renda, que até uma criança de oito anos de idade entenderia, há tantos e tais meandros no Marketing Multinível que só os que não se deram o devido tempo não puderam vislumbrar.  Aconselho-os a que “percam” alguns poucos minutos para entendê-lo. Isso poderia desvendar uma oportunidade e um desafio inteiramente novo e excitante. A vida vale a pena ser vivida.
                De minha parte fico feliz em perceber que o Sr. Gehringer já sabe mais sobre Marketing Multinível. Se ele aprender mais sobre o assunto, em breve será consultor de empresários também.


Fernando Cavalcanti, 12.12.2007 

MAX GEHRINGER E O MARKETING MULTINÍVEL

Articulista  de “ÉPOCA” na coluna “NOSSA CARREIRA”, Max Gehringer recebeu a seguinte pergunta de uma senhora chamada Lisa, na última edição da revista, de 03 de dezembro de 2007: “Trabalho numa ONG e estou extremamente insatisfeita, porque não vejo perspectivas de crescimento. Estou em RH, mas não gosto da área. Quero mudar, mas não sei que setor ou atividade escolher. Já fiz orientação vocacional, mas não adiantou. O que eu faço?”
                O senhor Gehringer é comentarista corporativo e autor de oito livros sobre o mundo empresarial. Ele respondeu o seguinte: “Faça terapia, Lisa. Até que você descubra a razão de tanta insatisfação, não adianta mudar de empresa. Enquanto isso, sugiro que considere a possibilidade de trabalhar com marketing multinível (venda em domicílio). Embora essa seja uma atividade mais de curto prazo, que não constrói uma carreira, é algo que você poderá fazer a partir de sua casa, com horários flexíveis, que lhe garantirá uma remuneração decente até você encontrar seu rumo.  (Grifos e negritos meus)
                Acredito que a senhora Lisa deve ter ficado extremamente curiosa, e ao mesmo tempo confusa, sobre dois pontos da resposta do senhor Gehringer. Primeiro, por que uma atividade que garante uma remuneração decente não pode vir a ser uma carreira?  Segundo, por que a atividade de distribuição interativa, o mesmo marketing multinível, seria de curto prazo, já que é rentável?
                Acredito também que o senhor Gehringer tem muitos conhecimentos sobro o mundo corporativo, como é evidente em seu currículo. Quem não o conhece poderá ter o prazer assistindo ao Fantástico aos domingos. Entretanto, ele cometeu pelo menos um erro grosseiro em seus comentários, afora as dúvidas que suscitou. Distribuição Interativa, como prefiro chamar, não é, em absoluto, uma atividade que inclua vendas em domicílio. Como o nome sugere, há que se ter um forte relacionamento interpessoal entre o que vende e o que compra, e sempre se oferece, além de produtos a quem compra, a possibilidade e oportunidade de desenvolver a mesma atividade. Esta oferta inclui o apoio quase incondicional ao novo prospecto ou candidato, bastando para isso que ele assuma o compromisso de levar a sério o trabalho, já que quem convida não se torna seu chefe, mas seu sócio. Esse apoio contempla todos os conhecimentos e atividades didáticas que o prospecto necessita para exercer essa atividade, de forma a se tornar um profissional capaz no mundo do negócio de Marketing Multinível. Portanto, o sair de porta em porta não é uma técnica de vendas recomendada nem recomendável para o empresário de Distribuição Interativa. Os laços humanos de companheirismo, amizade e verdadeiro interesse no sucesso alheio são as características fundamentais do negócio de Distribuição Interativa. Essas características são a “cola” de um negócio bem-sucedido, rentável e consistente. São características e condições sem as quais simplesmente não se faz Marketing Multinível.
                Também, ao contrário do que afirma o senhor Gehringer, o empresário da atividade de Distribuição Interativa tem o potencial ilimitado de construir uma sólida, lucrativa e enriquecedora carreira. Como acontece em todas as atividades na vida, é apenas um potencial. Há que se pagar o preço. Como em tudo. Se quiser ser médico, pague-se o preço. Se quiser ser rico com Distribuição Interativa, pague-se o preço. Nada nasce feito. Há que se construir. Demanda aprendizado, tempo, estudo, fracassos. Quem não quiser aprender, se dar o devido tempo, estudar e se permitir fracassar para aprender com o fracasso, que procure um emprego.
                Distribuição Interativa é um revolucionário método de distribuição de produtos e bens de consumo aos consumidores. Pelas suas características, alguém já disse que é a socialização do capitalismo e da livre iniciativa. Por apresentar a mesma chance a todas as pessoas de várias classes sociais, diversos níveis culturais e de várias profissões tradicionais a que montem um negócio a partir de um investimento inicial mínimo e com custos mínimos como capital de giro, é que ela se torna atrativa e interessante. 
                O que me parece, para concluir, é que o senhor Gehringer é um excelente consultor... para empregados! Ele orienta, seguramente de forma correta, as pessoas que têm a mente de empregados. Ter a mente de empregado tem a ver visceralmente com a educação que as pessoas recebem sobre formas de ganhar dinheiro honestamente. A grande maioria das pessoas foi educada a ganhar dinheiro trabalhando para outras pessoas ou para o governo por um salário de paga. Desde grandes executivos (os Chief Executive Officer - CEO) com salários de cem mil a um milhão de reais/mês até um gari que ganha trezentos e cinqüenta reais/mês, é para essas pessoas que o senhor Gehringer discursa. Nada contra os garis! Eles são importantíssimos! Quem limparia essa sujeira se não existissem pessoas dispostas a fazer isso por esse salário? Ele ensina como ser um melhor empregado. Por isso não aconselhou à senhora Lisa a estudar com afinco e aprender sobre Marketing Multinível. Esta é uma atividade empresarial. Há que ter a mente de empreendedor para exercê-la. E não é todo mundo que foi empregado a vida inteira que estará disposto a mudar a sua mente e aprender a ganhar dinheiro de outra forma. Mesmo que esteja correndo o risco de ficar milionário. Isso o senhor Gehringer não saberia ensinar.


Fernando Cavalcanti, 03.12.2007

RISCOS

Não se pode viver sem riscos. Em tudo há risco. Nada há nesta vida que não implique n’algum risco. Só não há o risco de morrer: a morte é certa. Não é um risco de quem vive: é a única certeza. O resto, todo o resto, é um risco. Em tudo há risco, repito.
                Um amigo, que reclamava até da nuvem sobre sua cabeça, não queria mais nada em sua vida que implicasse algum risco. Em verdade, não queria nenhum risco. Eu lhe disse que não era possível; que escolhesse coisas de menor risco; que seria até possível aferir os riscos de cada projeto, mas não havia como evitá-los completamente. Ele se convenceu quando lhe disse que as seguradoras vivem do dinheiro que ganham assumindo os riscos alheios. Você as paga e elas assumem os riscos que você tem de ter prejuízos ou perder um bem num sinistro. Se o evento indesejado vier a ocorrer, elas te reembolsam. Deve ser um bom negócio, visto que elas crescem cada vez mais. E, se crescem, é porque o dinheiro que entra em seus contratos de risco é maior do que o que sai com o pagamento do prejuízo dos clientes. Conclusão: o risco é só um risco. O risco não é um fato líquido e certo, como a morte. Ele é apenas uma possibilidade, e, portanto, só ocorre eventualmente. Na maioria das vezes nada ocorre. Por isso as seguradoras enchem os bolsos de dinheiro.
                Ele passou, então, a especular sobre os riscos de cada coisa em particular. Antes, contudo, alertei-lhe que às vezes corremos o risco de que também coisas boas aconteçam; que o evento fortuito pode ser uma coisa esplendorosa, tremenda. Um exemplo: se jogar toda semana na loteria esportiva – sou do tempo da loteria esportiva – corro o risco de ficar rico. É óbvio que também corro o risco de perder todo o meu dinheiro jogando, o que é muitíssimo pouco provável se jogar apenas um único e mísero real por semana. Ele, que estava mais preocupado em problemas advindos dos maus riscos – os maus riscos são os riscos em que o evento fortuito é ruim ou indesejável – enumerou duas coisas que evitaria doravante: casamento e filhos. Sobre o casamento alegou que corria o risco de levar chifres ou de sua mulher lhe tomar o que tinha. Sobre ter filhos me saiu com esta: custam muito caro e não dão retorno. Sobre o matrimônio argumentei que diminuiria bastante os riscos se procurasse a companheira ideal, financeiramente independente e de reputação ilibada. Ele contra-argumentou que as mulheres financeiramente independentes não iriam casar com um borra-botas como ele, e que as de reputação ilibada seriam como rede preta: inexistentes. Disse-lhe que os filhos lhe dariam muito prazer e que seriam a ponte para transcender a vida. Disse ele, então, que preferia ter outros prazeres com as mulheres e que não tinha interesse em transcender, pois não estaria lá em corpo físico para ver. Lembrei-lhe que, com a vida devassa que levaria, correria o risco de adquirir doenças e morrer mais cedo. Ele replicou que não tinha medo de correr esse risco, desde que a morte fosse confortável e rápida. E a conversa foi, foi, foi... e não teve mais fim.
                Como vêem, cada um escolhe os riscos que quiser. Foi muito bom porque fizemos um exercício de pensar mais objetivamente nas coisas. Na maior parte das vezes não agimos assim. Não nos damos ao trabalho de pensar nos riscos que corremos, os bons e os maus. Às vezes, o risco de bom êxito é até maior que o de mau, mas recuamos porque focamos no último. Só olhamos para o medo de perder. E esquecemos que podemos ganhar. Isso mostra que os seres humanos são basicamente negativos. E por isso muitos não acreditam em si mesmos. Quando amealhamos o pouco, não acreditamos que possamos ir além e abdicamos do muito. Quando nossos projetos se mostraram inadequados para nossa realização pessoal, perdemos a autoconfiança e a auto-estima. Ficamos congelados e aterrorizados. Morremos em vida. Dizemos-nos velhos, ou cansados, ou decepcionados, e nos apegamos com unhas e dentes ao status que eventualmente tenhamos. E ficamos unicamente com ele, nosso status. Nesse momento esquecemo-nos de fazer a pergunta principal: qual o risco de me prender a esse status? E eu lhes responderei: o risco de perder a capacidade de aprender. Quando se perde a capacidade de aprender, acaba a vida. O tempo que nos resta será usado para relembrar quem já fomos, o que já fizemos, quão bons fomos um dia. Seremos velhacos. O status será tudo que nos resta. Paramos e ficamos a olhar para trás, enquanto a estrada se perde no horizonte à nossa frente. Esse é um risco que não devemos correr. Seremos zumbis a vaguear pelo mundo, desprezados pelos que pulsam de tanta vida.

Fernando Cavalcanti, 06.12.2007 

quarta-feira, 8 de março de 2017

POSE NÃO GERA RENDA

Esse negócio de rede social aproximou demais as pessoas. Não, não. Esse negócio de rede social aproximou pessoas demais. Sim, pessoas em número excessivo interagem simultaneamente. Imaginem aí cem, cento e vinte pessoas conversando ao mesmo tempo ou quase isso. Isso não seria o pior. Como se administram tantas vontades? tantas ânsias? tantas carências? Não há de ser fácil, por óbvio. Dirá alguém que a arte da interação é o uso da dialética, do contraditório, da tolerância. Tudo bem, tudo certo. Falar é fácil, fazer é que são elas, diria minha avó.
                Pois a moda em voga é a criação, na rede social, desses grupos. E para tudo se criam grupos. É o grupo dos amigos de trinta anos, dos amigos de quarenta anos; dos amigos que se conheceram no berçário, dos que se conheceram no bar da esquina, e por aí vai. Falo tudo isso e assumo – eu mesmo já criei grupos. Devo dizer que foram grupos mixurucas, pequeninos, três, quatro, cinco pessoas. Quase não se interage, quase não se fala no grupo. Chego a pensar: – para que diachos existe tal grupo? E não acho a resposta. Mesmo eu me presto, às vezes, ao efeito manada.
                Contudo, sei de grupos enormes, acima de cem pessoas. As notícias que tenho do grupo são as mais variadas. Soube de intrigas, de querelas, de arranca-rabos. Depois, ao que consta, veio uma calmaria, uma espécie de hangover, como se todos houvessem se cansado de tantos debates e de tantos embates. Enfim, veio a prova de que Rousseau, ou o Rubem Alves, ou o Rubem Braga, estava absolutamente certo – o homem, sozinho, é essencialmente bom. O ajuntamento de homens o corrompe e o degrada. Eis tudo aí.
                Eu não sei por que falei tudo isso. Há de ter sido um desses atos falhos que diariamente nos assaltam. (O melhor do ato falho é a ausência de culpa.) Queria mesmo era falar do carioca que conheci em Florianópolis, sim, o carioca que se tornou manezinho. Sobre ele, foi o seguinte.
                Parado em seu carro em monstruoso engarrafamento na Avenida Brasil, sentiu uma opressão no peito. Não era dor física, nem o aperto da angina. Era uma emoção, uma emoção negativa. E era tão negativa que a ela seguiu-se a diaforese. A gravata o sufocava, o colarinho parecia uma argola que se lhe fechava em torno do pescoço. Tinha medo, um medo incontrolável e incoercível. Sacou do telefone portátil e ligou para o cliente que lhe esperava no fórum, para a audiência. Disse-lhe que não poderia ir, que enviaria alguém para substituí-lo.
Já em casa, chama a mulher. Dá o ultimato: –“Não quero mais viver nessa cidade”. A mulher ouvia sem dar importância. Continuou: –“Escolhe aí outro lugar pra viver; aqui não fico mais”... A mulher argumentou lembrando-lhe os filhos, que estavam para entrar na faculdade. Ele refletiu alguns segundos e assentiu: –“Está bem. Espero no máximo 2 anos. Depois disso, vamos embora”.
                Dois anos depois, após lembrá-la do acerto feito, a mulher vacila. E meus pais? Vou embora assim? Deixando papai e mamãe no inferno desse Rio de Janeiro? Ele, que ia lhe perguntar se era casada com ele ou com os pais, recua e, sem hesitar, avisa: –“Estou partindo”. E, assim, o encontramos em Florianópolis, dirigindo seu carro para fazer um caixa extra, esse negócio da Uber, a empresa americana. Tem uma banca de advogado com um sócio, mas complementa o orçamento com essa atividade. No meio da corrida – íamos à praia da Joaquina – liga um cliente. (De fato, era uma cliente.) Atende. Ela quer saber de um processo. Ele explica que já saiu o mandato de prisão contra alguém e a tranquiliza. Combinam de falar depois, e ele promete mantê-la informada. Ela se despede com gratidão: –“Muito obrigada, doutor Martins”!
Ao longo de todo o percurso, o novo manezinho fala da cidade, de seu novo lar, da nova namorada, do divórcio, dos filhos já formados, dos concursos, dos salários na cidade... Acima de tudo, demonstra estar tranquilo, vivendo em paz. Afinal, ser manezinho é como habitar o oásis da violência grassante por todo o país. É tão desprendido que ousa parar seu carro no Mirante Morro da Lagoa para tirar fotos de seus clientes cearenses, algo que não está incluído no serviço que nos presta. Ao final, deu-me um cartão de visita; não o cartão do motorista que dirige Uber, mas o do causídico atuante no interesse de seus clientes.
                Ia esquecendo. O dinheiro extra se presta à realização de um sonho. Estão de passagens compradas, a namorada e ele, para Portugal em janeiro do ano que vem. Precisa juntar sete mil euros para trazer uma quantidade de vinhos que irá guarnecer a adega que construiu em sua nova casa. Já dispõe de pouco mais da metade. Não se envergonha do trabalho que faz. Vergonhoso é parasitar, furtar, roubar, enganar, e permitir que a vaidade suba à cabeça – coisa produzida pelo efeito manada, pela pose que alguns têm em alguns lugares do país. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM BREVE E DESINTERESSADO TRATADO SOBRE O INTERESSE

          Quisera eu ter a capacidade intelectual para escrever um tratado sobre interesse. Esperem um pouco. É possível que não me tenha feito entender. Falo do interesse em geral, do interesse em tese.  O caso é que o meu amado amigo Gaudêncio porta uma espécie de neurose sobre esse... o que é mesmo o interesse? É um substantivo. Mas, o que vem a ser ele? É um sentimento? É um desejo? É uma vontade? Que diachos é o "interesse"? Pois, repito, o Gaudêncio é um neurótico por interesse. Ou será que o amigo está a querer iniciar a inusitada propaganda "Viva o desinteresse!"? Vou tentar explicar. É o seguinte. O amigo não se conforma que as pessoas tenham interesses. E pior. Se o interesse partir de uma pessoa de posses ou poderosa, então, o mundo vem abaixo em forma de mais neurose. Mas vejam. O jornalista tem interesses, o advogado idem, o ginecologista também, e o coveiro há de ter igualmente os seus. Padre tem interesses? Seguramente. E o Papa? Sabe-se lá, mas não arriscaria dizer que não. Mesmo o Sumo sacerdote deseja algo, o que o faz possivelmente persona non grata aos olhos do Gaudêncio. (Estou começando a achar que o interesse é, sem dúvida, um desejo.) Então, o amigo é portador de uma neurose sobre esse tão alastrado desejo. Os leitores leigos na ciência que estuda o comportamento e a mente fiquem sabendo que a neurose é assim: — o sujeito sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Percebem? Pois bem.
          Agora vejamos o seguinte. Se o interesse é um desejo e todos têm desejos, por quê?, qual a razão de meu amigo? Lembremos que até os animais têm desejos. São desejos que brotam a partir do que se conhece como instintos, mas nem por isso são menos desejos no sentido de pretender satisfazer alguma necessidade. Eu disse que o amigo odeia que os de posses tenham interesses. Assim, para ele pobre pode ter interesses. É legítimo. É apropriado. Poderosos e ricos, não. 
          (Estou tentando pegar "na veia", mas o tema é escorregadio.)
          Partirei de exemplos proporcionados por nossas últimas conversas. Outro dia entramos a falar que o país está passando pela pior crise de sua história. Os historiadores e economistas dizem que tal só houve à época do Floriano, ao fim do século XIX. Até aí nenhuma novidade. Foi quando se disse também que o país está melhorando, que a crise está amainando, que há sinais inequívocos de melhora do ambiente econômico. E que isso se deve ao fato de o governo estar empenhado em fazer as reformas necessárias para que tal aconteça. Ainda mais. A autoridade monetária está competentemente lidando com a inflação, com a taxa de juros e com o câmbio sem interferências externas, sem ingerência política. A melhora do ambiente sempre antecede a melhora do cenário real, visto que é natural que haja um lapso de tempo entre uma coisa e outra, período em que cresce a confiança das pessoas na materialização desse cenário. Pois o amigo, que estava quieto, saiu das sombras para dizer — quase ouço-lhe os gritos — que está tudo muito ruim e que não está havendo nenhuma melhora. E mais: — não há perspectiva para isso. E isso era o que diziam os jornalistas e blogueiros da Folha, do Estadão e do Valor. (Senti um alívio por ele não ter citado os jornalistas locais. Se o fizesse, certamente eu seria acometido de espasmos e furores digestórios.) Por fim, argumentou que nós, os que temos a visão da inflexão que está inequivocamente a ocorrer, estamos a beber em fontes duvidosas cujos INTERESSES seriam os mais escusos possíveis. E mais: — que não há ninguém sem interesses. (As afirmações do amigo eram de uma espessa e inegável obviedade.) Presumo que se referisse também aos jornalistas e blogueiros que lê. Eis aí o contexto.
          Contei o milagre é denunciei o nome do santo. Volto ao interesse puro e simples. Repito que a ubiquidade do interesse é tão primorosamente evidente que já sinto um crescente desconforto em falar sobre isso. Afinal, ao falar sobre o óbvio beiramos a nossa própria neurose. Temo iniciar o texto gozando de perfeita saúde mental e acabar por perdê-la ao longo de seu desenvolvimento. Paciência. Escrever é atividade de risco. 
          Ora, desde quando o interesse move as relações humanas? Presumo que a resposta seja desde sempre. Vou além e pergunto: — há relações onde o interesse não exista? Respondo: — não há relação onde o interesse não esteja presente. Há, além disso, a não-relação de interesse. Que diachos seria isso? Bem, a matéria do jornalista que leio terá algum interesse ao atingir o leitor, ainda que esse homem da imprensa e eu não tenhamos sido apresentados. Sendo assim, por que o meu amigo tem tantas reservas pelos interesses? Pensará ele que o interesse é um mal em si? Tudo indica que sim. O que o amigo não consegue, talvez, é distinguir os tipos de interesse. Assim, de minha parte sugiro a existência de dois tipos de interesse: o legítimo e o ilegítimo. Se alguém me disser que há mais algum, que me ajude a sair dessa enrascada. Ou, melhor ainda: — peço encarecidamente ao amigo Gaudêncio que me ensine quais seriam os outros tipos. 
          Vou ao pai dos burros e lá leio sobre "legítimo": fundado no direito, na razão ou na justiça; genuíno, verdadeiro; natural, justo, justificado; que tem caráter ou força de lei. Assim, as relações onde impera o ilegítimo interesse estão fadadas a qualquer resultado que não possa ser classificado como bom. Imaginemos o bandido, o assaltante. Para nós brasileiros é fácil imaginar. Vamos mais além. Imaginemos também o marginal de colarinho branco. Qual o interesse do bandido, do marginal? Resposta: o bandido quer ganhar sem trabalhar, tirando à força e usando de violência o que pertence a outros. Seu interesse não está fundado no direito, não é natural, não é justo. (É inevitável aqui dizer o óbvio, repito. Sim, porque é muito óbvio que o resultado da soma dois mais dois seja quatro...) Por outro lado, o bandido existe, sempre existiu. Justamente por sua existência é que se erigiu um corpo de leis. (Paro por aqui senão sairei a falar de direito natural e direito adquirido, e o amigo Gaudêncio sabe bem de tudo isso por ter um diploma de causídico.) 
          Vejam o jornalista a serviço do que quer que seja. Da mesma forma, seu interesse será ou não legítimo. Se sai a defender o interesse de criminosos, as penas brandas para bandidos e o desarmamento da população, estará claramente a serviço da vulnerabilidade da sociedade. Sua intenção é, usando de falsa retórica, convencer a todos de que a causa da violência é o fato de o cidadão de bem possuir uma arma, ainda que nenhum dado objetivo e claro apoie tal argumento. Reportando-me agora ao nosso diálogo sobre se está ou não o governo tomando as medidas necessárias a que se crie expectativa positiva para a economia do país já no curto prazo, os jornalistas e blogueiros que o amigo lê são TODOS céticos quanto a isso. Os tais jornalistas escrevem em grandes jornais, são cobras criadas da imprensa e por isso, somente por isso, são críveis? Ora, os dados irrefutáveis, sobre os quais obviamente não comentam em seus artigos, mostram o contrário. Presume-se que esses tais estão a defender interesses, assim como estão os que estão a divulgar os tais dados em outras fontes que o amigo não lê. Cabe então a pergunta: — a serviço de quem está esse pessoal tão entendido e tão celebrado? Melhor dizendo, que interesses essa súcia pretende defender? Seria somente a defesa de interesses ou estão a destilar sua ignorância pura e simples sobre assuntos de macroeconomia? Ignoram esses trogloditas da economia que expectativa faz preço? Que o reapreçamento começa a se fazer no exato momento de uma mudança na expectativa, seja para melhor, seja para pior? Tudo indica que sim. Mas a melhor pergunta é: — são legítimos os interesses desse povo? É para o bem do leitor ou quer induzi-lo ao erro que esse povo escreve? 
          Diz o amigo que não lemos tudo, quando é justamente o contrário. Nós que vemos os dois lados da moeda porquanto também lemos o que dizem esses paspalhões, temos bem constatado quem está com a razão. O pior de tudo é que informações se prestam sempre a alguma utilidade. Se ela pode lhe ser útil e você a lança ao lixo quando ouve quem ali está para induzi-lo ao erro, perderá oportunidades. E aí não há perdão. No mundo real, na dura realidade da vida três coisas jamais retornam: a pedra lançada, a palavra emitida e a oportunidade perdida. É melhor comprar barato do que caro. 
          

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O PROGRESSISTA

          Houve quem entendesse que estaria eu chamando os funcionários do Instituto Dr. José Frota de animais. Ou, melhor: — de vacas. Ainda bem que na chácara do Feitosinha eram vacas que estavam na fila para beber água, e não cavalos, ou jumentos, ou burros. Imaginem o que concluiriam os que fizeram tal suposição. De fato, quis, no último texto, chamar a atenção para o fato de que os funcionários estão se desumanizando ao aceitarem o que o burocrata lhes reserva no dia-a-dia. A desumanização não nos torna animais, visto que os animais são de uma pureza incomensurável. A desumanização nos torna... desumanos. Não há nada mais desumano do que a inteligência. Se a um cãozinho inocente déssemos inteligência, ele sairia a chupar as carótidas de seus semelhantes e a depositar suas necessidades à porta do vizinho. Portanto, em respeito aos tenros quadrúpedes, deixemo-los de lado. Já basta as maldades que o desumano lhes faz todos os dias. Se quiser recuperar sua humanidade perdida, o funcionário deverá reduzir-se à humildade e esbravejar contra o idiota que ascendeu ao poder. Sim, porque é permitida a ira numa única situação: — contra o mal. Mesmo o Cristo, a Majestade dos Céus, enfureceu-se contra os que comercializavam à casa do Altíssimo. O aviltamento é o pior de todos os males. De fato, e para falar a verdade, estamos a um passo do completo aviltamento.
          Digamos logo e sem rodeios: — a degradação é geral e sem limites. Vejam, por exemplo, o progressista. O que é o progressista? Direi que nos últimos 15 anos intensificou-se o uso, por parte de muitos, de tal termo, de tal adjetivo. Nas rodas de políticos e em seus discursos para o povo em comícios ou do púlpito das casas legislativas e, principalmente em suas falas nas reuniões de seus partidos, usaram e abusaram de seu uso. Muitos se autointitularam "progressistas" e seu número cresceu assustadoramente. Ser progressista era o mote, a palavra de ordem, o autoelogio obrigatório. Os outros eram acusados de ser "conservadores". Pois o progressista nada mais era do que o esquerdista, o revolucionário, o que iria modificar toda uma ordem, uma estrutura, um modo de fazer e pensar as coisas. Em suma, o progressista era o arauto de uma outra ética, de uma nova forma de "fazer as coisas". 
          Pois esse pessoal era contra "tudo o que aí está". (Digo "era contra" mas poderia perfeitamente dizer que ainda é e tão cedo não deixará de ser. É provável que sempre o seja.) Decretaram a falência de tudo, da família à ortodoxia econômica. E assassinaram Deus. De sua boca saíram as maiores blasfêmias que se ouviram recentemente. Louvaram o crime, a gastança irresponsável, intensificaram o pacto com os bandidos, pretenderam inumar a ideia de honestidade. Em suma, tudo aquilo que alicerça o ser humano normal foi alvo de sua metralhadora assassina. Ser progressista era ser "inteligente". Com a plena certeza de que os valores morais mais acarinhados pelo ser humano normal eram os responsáveis por o que consideram a causa da falência da sociedade, investiram impiedosamente sobre eles. A ideia, inicialmente encantadora porquanto não há nenhuma perfeição na sociedade, arrebanhou milhões de incautos e outros tantos semelhantes a eles. 
          O tempo mostrou o resultado da ação do progressista. Violência, aumento da pobreza, aumento do endividamento das pessoas e do governo, falência institucional generalizada, falência de empresas públicas, assalto ao erário, propagação da corrupção em todos os níveis, envilecimento do poder judiciário, etc. etc., foi o cenário final. Dirá alguém que muito disso não é novidade, que várias dessas situações ocorreram sob a égide do "conservador", e direi que é verdade. Afinal, o bicho homem tem maus bofes desde as fraldas. Mas, admitamos — o progressista quis, e ainda quer, institucionalizar o caos. Ainda agora respiramos o ar de um certo caos, visto que durante os últimos 15 anos ele muito fez para implementar sua ética. Quem não concordar com esta evidência gritante só há de se satisfazer com a descida da Nova Jerusalém desde os Céus e da parte de Deus. Dito de outra forma, o progressista inundou uma sociedade imperfeita com o produto fecal de seu metabolismo mental, donde fica evidente que a caixa craniana do progressista é preenchida com seu grosso intestino. 
          Ontem, ali nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, esbarro com minha querida amiga Jesoni Gruska, médica de mulheres. Confidenciou-me: — não vê a hora de se aposentar. E por que quer ela se retirar do serviço público? Ora, a causa de tal desejo é o caos, o mesmo caos criado pelo progressista. Sim, o caos tem suscitado muitas vontades, muitos desejos, sendo o principal o desejo de dele fugir, de para bem longe dele ir. Em uma simples palavra, o caos nos impele à aposentadoria e à emigração. Outra alternativa seria a exoneração pura e simples. Tais alternativas satisfazem mais ou menos plenamente a ânsia do ser humano normal por paz. Leva a cabo quem pode, quem tem coragem. Não pode ser taxado de louco o que procura proteção. Preservar a vida e o patrimônio honestamente acumulado é um desejo normal. 
          O comentário da amiga seria esclarecedor por si mesmo. Ainda assim, quis dar uma mais detalhada justificativa. Explicou que na Emergência obstétrica era obrigada a examinar as pacientes deitadas não numa maca normal, não num leito de hospital normal. Nada disso. Como elas, pejadas, chegavam procedentes do interior do Estado em busca de socorro médico por alguma complicação de sua gravidez numa maca de ambulância, eram obrigadas a permanecer nas macas, já que o hospital não dispunha de leito. O problema maior é que essas macas não têm pernas e que, por isso, eram retiradas do veículo e postas ao chão. Sim, as pacientes, grávidas, deitavam-se em macas ao chão da Emergência. E o profissional médico que se virasse para examiná-las. Assim, relatou-me a amiga que precisava se ajoelhar para fazer o toque vaginal nas pacientes, examinar-lhes o abdome, auscultar-lhes os batimentos fetais. Era uma dupla humilhação, eram duas humilhações — a da paciente e a do médico. Óbvio é que a humilhação do doente é incalculável, ao passo que a do profissional é meramente ocupacional. Vejam a cena. É cena de guerra ou de pós grande catástrofe natural. 
          Vamos e venhamos, o grande humilhado é, de fato, o paciente. Perde ali o doente toda sua dignidade, toda sua humanidade. Avilta-se desmedidamente. Vítima de uma Constituição que é uma farsa, pautada pela irresponsabilidade das boas intenções que sempre levam ao inferno; muitas vezes vítima de suas próprias más e irresponsáveis escolhas; vítima de sua indolência e até participante ativo no dueto corruptor-corrompido, o paciente arca e sofre mais do que ninguém com tudo isso. Jesoni só não quer mais atuar na cena hedionda. A sensação de aviltamento não se deve ao fato de ajoelhar-se para socorrer, mas por sentir na pele o resultado da atividade do progressista. Desumanizar é o que ele melhor faz, e ela se recusa terminantemente a participar de tudo isso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O IDIOTA E O BUROCRATA

          Não me sai da cabeça a cena que se me desenhou na chácara de meu amigo Feitosinha. Já faz alguns anos, mas não esqueço. Fomos lá, certo ensolarado sábado, Costinha e eu, encontrar o Feitosinha em seu solar. Era um churrasco. Levei meu violão para a cantoria. Já, já digo o que lá vi. Antes abro um parêntese e pergunto: – onde andará o Feitosinha? 
          Nunca mais o vi no hospital. É provável que tenha se aposentado. A última vez que dele ouvi falar foi há algum tempo. As notícias davam conta de que havia passado mal e sido internado. Felizmente se recuperou e saiu de alta sem maiores complicações. Eis aí as notícias, as últimas notícias, que tive do amigo. É bem possível que continue bem. Todos sabem – notícias ruins varam o mundo dez vezes antes que se dê um suspiro. Fecho o parêntese. 
          A cena que vi na chácara do amigo foi a do gado bovino em fila indiana para beber água. Descrevi-a aqui várias vezes, em diferentes crônicas. Em resumo, as vacas, em toda sua inocência, em toda sua pureza, obedeciam fielmente ao Feitosinha e seu vaqueiro. E a fila era uma organização tremenda. Ninguém se aventurava a passar à frente de ninguém. Não havia altercações ou brigas entre as vaquinhas do Feitosinha. E depois da água saiam mansamente para o pasto onde se deleitavam com o capim. 
          O leitor em sua curiosidade de marido traído há de querer saber: – e por qual razão, após tanto tempo da visita à chácara do amigo, me lembrei desta bucólica e enternecedora cena? A resposta é simples: — foi justamente quando vi a fila do ponto do Instituto Dr. José Frota. Com efeito, quase todo dia o autor que vos escreve vê a cena fatídica. E vamos mais além. A fila do ponto do referido hospital é de domínio público. Sim, ela se posta quase ao meio da rua. Quem quiser ver a cena, esteja ali, à entrada do subsolo do hospital, todo santo dia às 7 da manhã e às 7 da noite. É batata. Não há como perder. As vacas do Feitosinha estavam ao sol implacável, devo acrescentar, ao passo que o pessoal da fila goza sempre de uma sombra que torna um pouco mais leve sua desumanização. Um hospital que se diz terciário oferece três, e apenas três, relógios de ponto às dezenas de funcionários que fazem jornadas de trabalho diariamente. Por isso as filas enormes. São como as vacas do Feitosinha que mansamente vêm beber a água do tanque.
          (Há, é verdade, um quarto relógio de ponto no prédio administrativo. Mas ele está absolutamente fora do fluxo de todo esse pessoal, de modo que ele é utilizado quase que apenas pelo pessoal que trabalha naquele setor.)
          Há, além da fila do ponto, a fila da catraca, não devo esquecer de mencionar. A catraca é o dispositivo da segurança. E qual a razão da catraca? Repito : — ela é o dispositivo da segurança. Aos que não se lembram, saibam que o IJF já foi palco de pelo menos um assassinato à bala em suas dependências, fora outras tantas tentativas que se viram frustradas. Os tiros, no caso os tiros das outras tentativas, não atingiram o alvo a que se destinavam, mas o pandemônio nem por isso foi menor. Assim, após bater o ponto, o funcionário se posta diante da catraca para ter acesso a seu local de trabalho. Como há, ali, apenas três catracas, e há ainda o pessoal que está saindo do serviço e que vem também bater o ponto, temos que forma-se uma grande fila para a catraca. O interessante é que as filas — uma defronte cada máquina de ponto e outra à única catraca eleita para os que entram — criaram, por sua vez, o engarrafamento. (Quem me perguntar o que é feito da terceira catraca, respondo que está frequentemente quebrada.) Tentemos uma descrição deste outro patético cenário. 
          Pressionados para estar à frente da máquina na hora certa, os funcionários que chegam para trabalhar são obrigados a parar o carro ali no acostamento da Barão do Rio Branco. Não tendo onde parar por conta da lotação dos estacionamentos do hospital pelos veículos do pessoal que está encerrando seu turno de trabalho, situação piorada pela cessão de um dos terrenos onde funcionava um deles para a construção do famigerado IJF II, o funcionário não tem outra alternativa — é parar no acostamento e descer para cumprimentar a máquina. O resultado é um diário caos no trânsito neste trecho da rua. Acrescente-se a isso o acúmulo de vendedores ambulantes que estacam suas barracas ou carrinhos de lanche na calçada onde desce a rampa do subsolo do hospital. Acreditem: — é uma pequena amostra de nossa tendência ao caos. É a vitória do burocrata. É a vitória do idiota. 
         Vejam que há a defesa do idiota. Mesmo ele terá argumentos em defesa de seu ponto de vista, e somos obrigados a ouvi-lo. É efeito colateral da democracia dar voz a todos, mesmo ao idiota. Até aí não há problema. Não faz mal ouvir asneiras. Contudo, o resultado da ação do idiota está aí para quem quiser ver. Digo "idiota" e percebo que deveria ter feito uso do plural visto que ele, o idiota, é, acima de tudo, uma superioridade numérica. O que salta aos olhos não pode ser negado, não pode ser facilmente esquecido. O burocrata argumenta ferozmente a favor da catraca, a favor da máquina de ponto, a favor do acúmulo do comércio "informal" à entrada do hospital e, quiçá, a favor do engarrafamento. Não há nenhuma surpresa nisso. Afinal, o burocrata e o idiota são a mesma pessoa. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A ENTREVISTA

          Os leitores que acompanham este blog hão de se lembrar da revolução que sofreu o amado amigo Fábio Motta. Ora, dizer que alguém sofreu algo implica em que esse alguém foi vítima passiva, objeto de um infortúnio, alvo de um destino implacável e cruel. Tranquilizo a todos dizendo que não foi o caso com o querido amigo. Qualquer conotação negativa que se queira aventar para o caso estará fadada a se esvair ante a realidade. Sim, os fatos não me deixam mentir. Não, o Fábio Motta, de fato, foi o principal agente e ator de sua recente revolução. Digo recente e já corrijo – já não é tão recente assim. Sabe-se lá quando, de repente, o nosso Fábio Motta "aconteceu". Teria sido, dizem as más línguas, um amor que azedou, um negócio que quebrou-lhe a banca, ninguém sabe de fato. O que importa é que estava ali um novo Fábio Motta, um novo homem. 
          Motta era um homem de paletó e gravata. Um homem enorme, alto, forte e... de paletó e gravata. As meias, os cintos e as cuecas seriam das melhores e mais caras marcas à venda. Seus sapatos reluziam como ouro. Engraxava-os diariamente. Quando mais novo usava um bigode vistoso e densíssimo. Numa única palavra, o homem parecia o Tom Selleck. Não sei se se lembram do Tom Selleck. Pois o Fábio Motta seria facilmente contratado como dublê do Tom Selleck, tamanha a semelhança com o ator norte-americano. 
          Com a transformação, o amigo murchou. E digo que literalmente murchou. Vejam que não o afirmo no sentido pejorativo. Nada disso. Para se ter uma vaga ideia, o homem, agora, precisa apertar o cinto para evitar que lhe caiam as calças. Trocou os sapatos finos negros e brilhantes por esportivos coloridos. Com efeito, toda a indumentária do homem é, agora, multicolorida. Dir-se-ia ser ele um havaiano completo. O surf é a sua principal atividade. Para isso, faz cursos de natação e de apneia. Comprou sabe-se lá quantas pranchas. O destino dos vários paletós que pendiam em seu guarda-roupa é, até agora, desconhecido. Nunca mais qualquer ser vivente o viu usá-los. Suspeita-se que no lugar dos paletós estejam as pranchas de surf. Eis aí em rápidas pinceladas a revolução que atingiu o nosso querido amigo. Ia esquecendo um detalhe crucial – as namoradas. Suas namoradas, antes mulheres maduras e realizadas, eram agora adolescentes recém saídas da barra da saia de suas mães. Por isso muitos fecharam um diagnóstico para o amigo: – ele seria um Peter Pan mal acabado. 
          A transformação do Fábio Motta foi tão acentuada que chamou a atenção da imprensa. Certo repórter, digo, certa repórter, jovem e bonita, combinou com ele um lugar em determinado horário a fim de obter, finalmente, as razões que o levaram a tão intrigante e contundente mudança em seu estilo de vida. Os leitores quererão saber de como a imprensa tomou conhecimento do fenômeno Fábio Motta e direi que suspeito fortemente da rede social. Disse o meu querido amigo Fernando Siqueira que a rede social faz hoje o que faziam antigamente as calçadas. Tudo se conhecia e ganhava o mundo nas calçadas. Seja como tenha sido, a repórter queria que o grande público tomasse conhecimento a fim de que mais pessoas se beneficiassem de mudança tão desejável e impactante. Afinal, as pessoas precisam de um gatilho, de uma boa razão que as encorajem a  seguir em frente. Todos sabem que, numa mudança, o mais difícil é o começo, que os primeiros passos são os mais difíceis, é como começar a andar.  Nada melhor do que um exemplo vivo, um exemplo inspirador.  Era aí que entrava o nosso querido Motta. 
           A moda é ser magro, ser jovem, ser saudável. Qualquer um que destoe de tal unanimidade, de tal consenso, há de ser sumariamente excluído como exemplo a ser seguido. Seja um canalha, mas seja magro, jovem e saudável. Obviamente, não é assim com o nosso Motta. A entrevista havia de esclarecer, de uma vez por todas, as razões do amigo. Assim, lá foi ele encontrar-se com a imprensa. 
          Foi ali na Beira-Mar, lugar onde se encontram os milhares de atletas desta vil cidade. Um fim de tarde de segunda-feira, o dia mais cheio, mais frequentado da semana, foi o cenário escolhido pela jovem da imprensa. Afinal, é no fim de semana que se cometem todos os pecados contra a saúde do corpo e a favor do excesso de peso. A segunda seria o dia da expiação, o dia de confessar e expurgar tais pecados. Por isso há muito mais gente neste dia. 
          A repórter queria causar impacto. Escolheu a entrevista em frente ao Boteco Praia, um bar repleto de paus-d'água todos os dias da semana. Testemunhariam, ainda que de uma certa distância, o atleta cinquentão e humilhante. Ela compareceu de bloco na mão e acompanhada por um cinegrafista. Quando viu o homem de câmera em punho nosso Motta fez um esgar de contrariedade. Pediu à moça para não ser filmado. Sabe como é... Uma imagem de filme ou de fotografia nunca espelha a realidade. Gente bonita corre o risco de parecer feia diante da câmera. É aquela história da mínima diferença entre a beleza e a feiura. Tinha trazido também uma maquiadora? Melhor não correr o risco...
          Ela começou assim:
          — Senhor Motta, como vai? O senhor parece ser um homem que está em dia com a saúde. O senhor pratica esportes? Quais esportes o senhor pratica?
          — Minha querida – era o velho Motta querendo vir à tona no novo Motta – tudo bem com você? Sou adepto do surf, sempre gostei do surf, sou um homem do surf... Na adolescência era o meu esporte. 
          Diz o amado amigo Bacana que uma das mais prementes características do Motta é ser um gentleman. Nisso, segundo ele, não houve a menor alteração.
          — O senhor surfa desde a adolescência?, quis ela se certificar.
          — Não me chame de "senhor", minha querida... Assim você desfaz todo o meu trabalho... 
          — Desculpe... Como prefere que eu o chame?
          — Bem, me chame de Meninotti ou de "você". Meus amigos vêem em mim uma semelhança com o ex-técnico argentino, o César Luis Menotti. Você não me acha parecido com ele? Claro, ele hoje é um homem mais velho. Talvez até já tenha morrido... Você saberia dizer se ele já morreu?
          — César Luis Menotti? Não sei quem é... Ele é antigo?
          — Foi técnico da Argentina nos anos 70...
          — Não é do meu tempo... Tenho 30 anos... A propósito, quantos anos o senhor, digo, você tem? Perguntava e anotava no bloquinho as respostas do entrevistado. O cinegrafista, rejeitado como um pano de chão, resolveu se misturar aos cervejeiros do Boteco. Motta respondeu:
          — Veja bem: a idade não importa. Por exemplo: você me dá que idade?
          A repórter ensejou um sorriso encabulado e hesitou. Ia responder quando ele atalhou:
          — Perceba que sou magro, e abriu os braços olhando-se de cima abaixo.
          Continuou:
          — Muitos desses garotões aí não me acompanham...
          A repórter quis mudar o tema, voltando ao técnico argentino.
          — Mas... O que este senhor Menotti tem a ver com o "Meninotti" que seus amigos usam para se referir ao senhor, digo, a você?
          — Começaram a brincar comigo por causa de meus cabelos que estão rareando em cima e permanecem viçosos aos lados e atrás da cabeça. Como pareço um menino, fizeram a brincadeira. Daí o Meninotti. Percebeu?!, e inadvertidamente passava a mão pelos ralos cabelos.
          — E o surf? Como o surf entrou na sua vida?
          — Como ia dizendo, surfava na adolescência e desde então nunca mais havia praticado. Resolvi voltar. Achei que estava precisando. Não sei bem o porquê... Até hoje eu mesmo me pergunto.
          — Como assim? O senhor, perdão, você não sabe por que voltou a surfar?
          Nesse momento Motta deslizava a mão pelas suíças. Sim, o homem tem as suíças do Hugh Jackman. Assim como poderia dublar o Tom Seleck, da mesma forma poderia dublar o Hugh Jackman. Seria o Wolverine tupiniquim falando cearencês. Responde:
          — Minha linda, às vezes na vida o homem faz coisas sem nenhuma razão aparente. Quero dizer com isso que nem sempre fazemos as coisas por uma razão específica. Fazemos por fazer. Não há uma explicação. Dizia isso com a empáfia do cinquentão.
          A repórter insistiu:
          — Você, desculpe, o senhor sabe... às vezes a pessoa descobre algum mal, alguma doença... O senhor, desculpe, você não descobriu ser portador de alguma doença para ter mudado tanto assim o seu estilo de vida?
          Motta sorriu aquele seu sorrisinho debochado e disse:
          — Minha filha, eu lá tenho doença nenhuma!... Sou saudável como você. E olha que eu já tenho... Se brincar tenho mais saúde que você... Quer apostar?
          A moça sorriu amarelo meio desconcertada e perguntou, depois de um pigarro:
          — Como é a sua rotina? o seu dia-a-dia?
          Motta encheu o peito de ar como se fosse começar uma sessão de apneia e respondeu:
          — Acordo todo dia às quatro e caio na mar já às cinco. Às nove chego no trabalho e fico até às cinco da tarde. Almoço no escritório ou nem almoço. Vou ao clube para a natação e depois treinamento de apneia. Treino pesado quase todo dia. Os amigos me chamam para encontros mas não tenho mais tempo. Às vezes faço uma massagem, mas não é sempre. Veja você: estou quase aposentado. Tenho essa idade e já estou quase aposentado. Não é incrível?!
          A moça hesitou como a ganhar coragem, e finalmente perguntou:
          — Mas... Que idade o senhor tem mesmo?... 
          Ele continuou como se ainda não tivesse terminado de descrever a rotina:
          — Tenho... Não perco mais tempo com conversas inúteis. Você sabe, é preciso estar em movimento se quiser permanecer jovem e saudável. Tenho cinco pranchas de surf que me servem a diferentes marés. No fim de semana vou ao Paracurú ou ao Pecém surfar e ver como andam as reformas de umas casas que tenho por aquelas bandas. Quando estiver completamente aposentado vou morar lá. E vou surfar até morrer!
          — Desculpe, mas como é isso de estar quase aposentado? Pelo que entendi, o senhor, digo, você ainda trabalha...
          — Minha linda, o quase aposentado é um estado de espírito. É simples: já me vejo lá. Vivo com essa sensação. O tempo em que estou no trabalho, eu nem sinto. É como se estivesse surfando, ou nadando, ou tomando uma massagem com a dona Lurdes. Ela é minha massagista há vários anos. Entendeu?
          — Entendi... 
          A jovem tossiu baixinho como se estivesse se dando um tempo para elaborar outra pergunta, a última ou uma das últimas.
          — O que a sua mulher acha de tudo isso? Ela acompanha o senhor no surf?
          Motta sorriu outro de seus sorrisos marotos e disse:
          — Sou solteiro, minha linda... E já nem me lembro quando foi o meu último relacionamento. Você me acredita?
          A jovem e linda repórter fechou o bloco e agradeceu ao Motta por seu tempo e sua colaboração. Ele quis se escalar para uma cerveja com ela quando ela fez menção de atravessar a rua em direção ao Boteco para encontrar seu cinegrafista, mas se desculpou dizendo que tinha outro compromisso urgente. 
          Meio sem graça ele caminhou pelo calçadão em não sei qual direção e se perdeu entre os atletas da segunda-feira. 
          A entrevista ainda não foi publicada.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

DOENÇA GRAVE SÓ DÓI NO FIM

          As macas estão enfileiradas de cada lado, uma a uma, coladas entre si. Os corredores formam um L ou, melhor, dois L's colados um ao outro por lados opostos. Terá o quê?, seus 60 a 70 metros de comprimento o maior, ao passo que os menores terão seus 20 ou 30 metros. As macas se embrenham por dentro do edifício da Emergência, já reformado sei lá quantas vezes, mas jamais ampliado. O secretário boquirroto, irmão do senhor governador, puxou da caneta tão logo assumiu e tirou todo mundo de lá. Foram enviados como produtos indesejados para outras unidades de saúde, nem sempre de acordo com a capacidade de resolução requerida para cada caso. Além disso, anexou-se parte do hall de entrada do novo edifício, ao lado deste onde funciona a Emergência. Cresceram paredes, lá puseram leitos e o transformaram numa enfermaria. Antes os pacientes ficavam lá, neste hall, como ficam os dos corredores: – expostos, vestidos ou não, com suas feridas cobertas por curativos na maior parte do tempo, mas nem sempre. Há sempre o risco de que alguém vomite ou tenha acessos de tosse em cima de seu vizinho de maca. Se é de morrer, não se morre sozinho. Há uma plateia fixa que testemunha qualquer morte. O desenho arquitetônico original foi, assim, modificado por essa "contingência". Tudo obra da caneta do senhor secretário.
          Nos corredores há, ao lado de cada maca, o suporte de soro correspondente e uma ou duas cadeiras para os acompanhantes, um filho, o neto, a esposa, o marido.., e que servem também como cabide para roupas ou bancada para uma mochila ou diminuta mala. Às vezes, o que faz companhia é só a vizinha muito chegada, já que na família todos trabalham e ninguém pode parar a vida para ficar ali com seu ente "querido". Ou o doente mora no interior e não dispõe de alguém na capital para lhe dar essa assistência tão desejada e tão necessária. Em qualquer das hipóteses, pouco importa. O doente que está ali, está internado por necessidade. Sua doença requer tratamento em ambiente hospitalar. Não é possível tratá-la em casa com remedinho caseiro, um chá de boldo ou coisa que o valha. 
          Abro um parêntese para falar da vaga do hospital dos corredores lotados. A vaga? Não existe a palavra "vaga" no dicionário do hospital. Um leito fica vago por pouquíssimo tempo, questão de segundos, o tempo necessário para comunicar ao centro de regulação que alguém morreu. Quando a alta é antecipada ou prevista, a ocupação do lugar é um continuum, ou seja, já há ali alguém mesmo que ainda não se tenha deitado ao colchão. Outro dia, um alienado brasileiro – não se enganem: há um número extremamente elevado de alienados brasileiros – ligou para o telefone portátil de um médico funcionário do hospital. Queria o inusitado. O que queria demonstrava, por si só, sua abissal ignorância sobre o que ocorre em seu país. E o que queria? Queria uma vaga. Sim, uma vaga para um parente seu. Na cabeça do brasileiro, a pessoa adoece, liga para um médico do serviço público e este, numa calma de monge budista, arranja o leito na enfermaria que o doente ou sua família desejam. Se duvidar, vai querer ficar não na enfermaria, mas no apartamento, numa suíte do hospital, com direito a TV, condicionador de ar e até uma vista para as dunas. Vê-se com isso que a ignorância mata.
          São doenças graves que não doem. Sim, boa parte, uma grande parte das doenças do corredor não dói. O doente, morando no interior ou na capital, tendo ou não uma mínima educação, julga a dor como o sintoma. Sem dor não há doença, segundo sua firme e tola convicção. Para ele toda doença há de doer. "Num sinto nada, doutor", diz ele, ou ela, como se isso o livrasse do mau prognóstico, como se isso fosse um critério de benignidade e sinal inequívoco de que irá para casa em poucos dias. 
          Foi justamente por não sentir nada, dor nenhuma, coisa nenhuma, que não se empenhou tanto quanto deveria em tratar sua pressão alta e seu diabetes. Fumava desde a adolescência, já se vão cinquenta anos. No posto de saúde próximo a sua casa às vezes tinha médico, às vezes não tinha. Os cubanos vieram, mas depois se foram. Muitos faziam prescrições absurdas, que denunciavam uma formação profissional defeituosa. O médico brasileiro também atende por lá, mas acabam pedindo demissão. Além disso, o que poderiam fazer se os remédios faltavam e não conseguiam tratar os doentes? Nas eleições municipais, por coincidência, tudo para. Os médicos se demitem, os remédios acabam... É como se nos meses que a antecedem tudo parasse de funcionar... Haveria nisso algum propósito? Não se sabe, mas o corredor está lá, lotado deles, dos vitimados dessas paradas intermitentes e frequentes dos agentes da medicina preventiva e primária.
          O caso de dona fulana me impressionou além da conta. Era um dos casos mais comuns do corredor. Era o que os médicos chamam de pé diabético. Aconteceu o seguinte. Dona fulana fumava e tinha diabetes há muitos anos. Eis que uma ferida lhe brotou no pé, assim do nada, assim sem razão de ser. Levaram-na para o hospital, para a Emergência. A consulta estava marcada para dali a três ou quatro meses. Tanto demorou que apareceu o tal ferimento. De lá não voltou. Urgia internar-se. Era coisa séria. Faltava-lhe sangue nas pernas. Estava no hospital certo, apropriado para lidar com seu caso. 
          O diabo foi a visita do ministro. Sim, veio de Brasília o ministro visitar o hospital, averiguar suas instalações, seus problemas, conhecer a instituição. Os corredores estavam apinhados de gente: doentes do fígado, casos de apoplexia, de câncer, e no meio deles dona fulana. O secretário precisava agir rápido, tirar todo aquele povo dos corredores, dar algum destino a eles. Num passe de mágica – novamente a caneta –foram todos transferidos para hospitais particulares menores, conveniados, incapazes de lidar com os graves problemas de saúde daquele corredor de hospital grande. Veio o ministro, fez a visita. A imprensa filmou, televisionou, fotografou, entrevistou. Tudo muito limpo, muito encerado, os corredores ecoavam os sons da trupe que seguia a comitiva. Nem pareciam aqueles passadouros sujos, repletos da gente pobre e doente de seu dia-a-dia. 
          Dias depois, aos poucos, os corredores voltaram a se encher da gente doente de doença grave, entre eles dona fulana, mandada de volta do pequeno hospital para o qual fora banida a fim de não decepcionar o ministro. 
          Ah...mas o pé de dona Fulana já não era o mesmo. No intervalo entre a visita da autoridade máxima e o banimento de dona fulana, sua doença avançou e piorou. Com efeito, seu pé estava em petição de miséria, não tinha mais jeito. A gangrena lhe atingira a ossatura, os tendões, os nervos, os músculos... Não havia mais pé. Cortar-lhe fora o membro  era o único tratamento que lhe restava para salvar-lhe a vida.
         O ministro voltara a seu confortável gabinete, satisfeito por conhecer hospital exemplar, enquanto dona fulana voltou para casa quase 60 dias depois de sua chegada ao corredor. Já não era bípede. Estava presa indefinidamente a uma cadeira de rodas. Quem sabe o prefeito de sua cidade não lhe providencia uma em troca do voto da família nas próximas eleições? Nem na alma lhes doeu passar por tudo isso. As doenças mais graves não doem de fato. Só no fim.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O IMUTÁVEL ÔNUS DO CRIME

          Foi com indignação e horror que li a matéria no blog do senhor Fernando Ribeiro (http://www.blogdofernandoribeiro.com.br/index.php/9-categorias/1599-pcc-e-comando-vermelho-estao-prontos-para-deflagrar-guerra-pelo-trafico-em-fortaleza#sthash.D1YrlDwy.dpuf) dando conta da proibição, por parte do governador do Estado, a que policiais civis e militares não dessem entrevistas admitindo a existência de uma "paz" selada entre as várias facções criminosas do tráfico de drogas da cidade de Fortaleza. O "pacto" entre eles vem a bem de seu "negócio".
    Hoje, confirmando o que disse o blogueiro, o marrom periódico "O Povo" (http://mobile.opovo.com.br/app/opovo/dom/2016/01/30/noticiasjornaldom,3569037/faccoes-em-tregua-uma-paz-as-avessas.shtml) anuncia que o burburinho do acordo entre os criminosos tomou conta da cidade e traz o relato de alguns policiais militares confirmando o fato. O detalhe que salta aos olhos na reportagem é a solicitação dos policiais que se manifestaram para não serem identificados.
          Ora, o reconhecimento da existência de grandes organizações criminosas em nossa cidade já nos deixa perplexos e indignados e sua associação em uma organização ainda maior, mais complexa e poderosa, temerosos; agora, a ordem da maior autoridade do Estado para que a população não tome conhecimento do risco a que está exposta é simplesmente tenebrosa e nojenta. Prevendo a negação das autoridades quanto a essa proibição, vem bem a calhar o pedido dos policiais, na matéria do "O Povo", a que não tenham suas identidades reveladas levantando elevadas suspeitas de que a ordem do senhor governador seja a mais pura, singela e tenebrosa realidade.
          Vejam os escassos e raros leitores que estamos numa enrascada. Os policiais estão com medo! Estão com medo de serem retaliados por seus superiores e, quem sabe, pelos próprios bandidos. Vivemos sob a égide de um código penal incompetente, inócuo, leniente e, em última análise, serviçal do crime. Com penas leves, patéticas, risíveis à luz da função de fazer justiça à vítima, nosso código penal é uma piada. Se um policial não se sente seguro porque seus chefes estão a proteger os criminosos, o que dizer de nós que nem uma arma é permitido empunharmos?
          Eu estava para apôr aspas em todo o trecho acima, de seu início ao fim do parágrafo anterior, e explico: – vão-se lá meses que o escrevi, precisamente à época dos fatos narrados. Passou o tempo e até hoje não se sabe da verdade sobre tudo isso. De fato, fará, amanhã, 1 ano da fatídica e vergonhosa matéria. O que houve de lá para cá que possa nos aplacar a angústia? O que se fez daquele momento para hoje em termos de combate ao crime neste país e nesta terrível cidade? Seja quanto ao crime organizado ou ao desorganizado mesmo, o que nos importa?
          Dizem os tratados que o ser humano normal nasce e cresce com um inato sentimento de princípios morais, uma espécie de vontade do bem. Mesmo que venha ao mundo em condições precárias, há no ser humano normal a semente do bem e a vontade de fazer o bem. Dizem também os mesmos tratados que aqueles que foram submetidos a maus tratos e que acabam por sofrer danos ao cérebro podem desenvolver defeitos do caráter de gravidade variável que podem resultar em comportamentos antissociais mais ou menos intensos. Outros já nascem desprovidos de tais dotes devido a defeitos genéticos e passam a apresentar desde a mais tenra infância sinais de comportamento antissocial, com ausência de alteridade, de afetividade e de compaixão em graus variáveis.
          O que quer que se possa aventar como causa, e sem já lançar sobre tais indivíduos a pecha da culpa, o efeito do comportamento dessas pessoas é sabidamente devastador. O crime é sua sina, a cadeia o seu destino. Isso nas nações onde o problema foi encarado de frente. Culpa é um termo jurídico que vem depois de um inquérito e um julgamento.
          Ora, cresce o conhecimento sobre esses indivíduos. Ao início os chamaram de psicopatas ou sociopatas. Hoje há outros nomes para designá-los, mas suas características não mudaram. O psicólogo polonês Andrew Lobaczewski deles tratou quando descreve como se organizam para tomar o poder de uma nação. Suponho que, da mesma forma, também se utilizam das mesmas "técnicas" para fundar e gerir organizações criminosas, ou mesmo para se manterem livres individualmente o tempo que puderem na  sociedade dos homens normais, praticando seus golpes ou cometendo crimes mais brutais.
          Infelizmente, para essas pessoas não há um tratamento que reverta seus graves distúrbios mentais, restando como única alternativa seu isolamento da sociedade. Enquanto cresce o conhecimento sobre tudo isso, patinamos em discussões inúteis e improdutivas sobre como lidar com o crime. Queremos inventar a roda. Queremos debater enquanto milhares sucumbem. Queremos...queremos não sabemos o quê.
          Será que ali, nas cúpulas do poder, não haverá uma súcia de tipos como estes? encastelada a gerir e a fazer leis? a suscitar seus paramoralismos que servem a confundir os desavisados? Eis que em 1 ano se fez um silêncio quase completo sobre a matéria acima. Acomodaram-se os agentes dessa trama? Acordaram-se entre si de fato? O que não me sai da cabeça são as palavras do Capitão Nascimento: –"O 'sistema' é foda... Ainda vai morrer muita gente inocente". O país inteiro viu a ficção que imitou a vida real e ninguém fez nada. 

QUEM NÃO É FEIO BONITO TAMBÉM NÃO É

EIS que encontro ali, nos corredores do Hospital Geral de Fortaleza, o meu querido amigo Chico Cartier. 
                Um momento. Percebo a tempo que não convém chamar o amigo pelo apelido, ainda que esse apelido em nada o comprometa, em nada o desqualifique, em nada o diminua. Pelo contrário. Ele foi assim apelidado porque se envaideceu deveras depois da compra de um relógio de pulso da marca famosa – passava o tempo a levantar o braço para ver as horas. 
                Vá lá. Chico Cartier é corredor assíduo na Beira-Mar. É daqueles cuja atividade física tornou-se sua mais benigna obsessão. Assim, ao vê-lo fui logo querendo saber: –“E o Cooper?” Ele, sorrindo, respondeu: –“Sempre. Tenho medo de morrer...” Ou seja, o homem corre porque teme a morte. Presume que a atividade física extenuante lhe traga a longevidade pretendida. 
                O leitor, que é essencialmente um órfão de fisionomias e sempre deseja, mesmo que esteja a ler o autor descritivo, deseja ardentemente que fosse possível uma fotografia do personagem, imagina-lo-á da forma mais vaga possível. Por isso a descrição, ainda que detalhada e minuciosamente esmiuçada, nunca se equiparará à imagem. Diz lá a ciência da neurolinguística que a maioria de nós é visual. Convenhamos – o leitor há de ser perdoado. 
                Assim, digamos que o meu amigo Chico Cartier guarda uma semelhança brutal com o Keith Richards. Sim, é uma semelhança que impressiona, com uma diferença – o Keith Richards é feio, ao passo que o Chico não é. Não me queiram que saia a explicar esse aparente paradoxo. Direi apenas que a distância entre a beleza e a fealdade há de ser um minúsculo e quase imperceptível detalhe que, atuando no conjunto, tudo muda. Vejam que não estou a afirmar que é bonito o Chico. Se a distância entre esses dois extremos é mínima, que dirá entre um deles e um estado intermediário. Em suma, o guitarrista é feio, ao passo que o Chico não é. E estamos conversados.
                Devo dizer que não é desde sempre essa semelhança. Ela como que foi se acentuando com o passar dos anos. Chego a pensar que tenha sido, em parte, a acentuação das linhas de expressão do amigo, ou o fato de ele ter deixado a cabeleira pouco densa crescer. O fato incontestável é a tal semelhança. Outro fato incontestável é a feiura do Keith Richards. Fiquemos assim para não complicar conceitos e definições. 
                Mas... e o medo do amigo? Ora, antes de mais nada digamos que o medo de morrer é perfeitamente normal. O vivente quer permanecer, como se já viesse à existência carregando consigo uma vontade inelutável, um desejo congênito de eternidade. Seria isso uma programação do Criador? essa vontade de vida eterna? Schopenhauer atribuiu ao instinto, como a fome. Quiçá... Não vê talvez o meu amigo que há estudos recentes que demonstram que há atividades físicas que, se praticadas em sua idade, resultam em efeito oposto, isto é, envelhecimento acelerado e morte precoce. O diabo é que a verdade científica de hoje é a mentira loquaz de amanhã. 
               E assim me despedi do Chico, pensando cá com meus botões se ele já não parece mais velho por conta de suas desidratantes e intermináveis carreiras, ou se tudo isso não seria a evolução do inexorável levada às nossas superficiais e tolas análises ante ao colossal conhecimento que nos falta. 
               E o suicida? O que dizer do suicida? Bem... Já afirmei certa vez: – o pior suicida é o que não morre. Os bem sucedidos são outros quinhentos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

NEM O PESSOA, NEM O BORGES

“Navegar é preciso; viver não é preciso” (Pompeu, general romano, séc. I A.C.)

Tempos atrás contei aqui como Lucídia, a mulher, amou não o homem, mas o que ele era e, mais do que o que ele era, amou o homem que viria a ser (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/04/geracao-y.html). Sim, claro ficou depois que ela não amava o homem Edísio, mas a pose que ele seria ao se tornar um neurocirurgião. Amava um status, uma posição, uma função nobre a ser exercida pelo marido. No momento em que ele desistiu, morreu o amor de Lucídia. Para ela, Edísio não existia, simplesmente não existia.   Ela havia construído em sua mente todo um cenário, toda uma realidade congelada e engessada. Frustrada a certeza da não materialização dessa realidade, o homem passou a ser, para ela, um estorvo, um obstáculo, um peso a ser descartado. E assim foi.
Ah... como sofrem os que tentam engessar a vida! os que pensam a realidade como o resultado futuro de suas equações milimetricamente montadas, esquecendo-se de que a vida não segue uma trajetória linear e perfeitamente previsível...! Pensam e calculam a vida como uma equação matemática de variáveis simples e limitadas, sem levar em conta a imponderabilidade de tudo e suas contingências. Como sobreviver emocionalmente diante desse fato absolutamente incompreensível chamado vida? Tentar compreendê-lo é, por si só, um exercício inútil e fadado ao fracasso.  Que se faz da vida?, há de perguntar o leitor. A vida simplesmente vive-se sabendo-se que o viver é uma infinitude de incertezas e indefinições constantes, peremptórias e inexoráveis. Esperar o máximo do resultado aleatório de nossas equações é no mínimo estúpido, além de pouco sábio.
Fui impelido a essas reflexões por presenciar amiúde tal pretensão de alguns. Sim, há cada vez mais gente tentando calcular a vida a partir de racionalizações incompatíveis com o fenômeno da vida. O fenômeno vida não é uma viagem a Marte onde tudo pode ser submetido a cálculos matemáticos complicados, apesar da distância enorme, das ameaças constantes e de uma série ilimitada de imprevistos que acabam ficando de fora de uma lista interminável de previstos. É quase certo e bastante possível que, apesar de tudo isso, chegue-se lá e se desça à superfície do planeta no local e hora inicialmente estipulados. O mesmo, repito, não se pode dizer da vida.
Essas pessoas amiúde perdem chances, instantes, janelas de felicidade. Sim, porque segundo o Jorge Luís Borges em seu poema que, de fato, não é seu e, sim, da norte-americana Nadine Stair, “se eu pudesse voltar a viver trataria somente de ter bons momentos; porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos”. O custo de oportunidade daqueles que se pautam numa falsa matemática do viver é elevadíssimo. Inclui a subtração das contingências mais sublimes, dos fulgores mais brilhantes, das boas mais arraigadas e duradouras emoções da vida.
Sim, as emoções duradouras... Alguém dirá ser isso uma contradição, as emoções duradouras. Como sentir emoções duradouras em ambiente de persistentes e inarredáveis surpresas, muitas delas indesejáveis e também recalcitrantes? Resposta: apenas sentindo, deixando-se sentir; mantendo-as vivas e, diria até, fazendo delas uma obsessão pessoal. O que pretende calcular a vida quer rejeitá-las, reprimi-las e sufocá-las, o que acaba por tornar essas pessoas ocas como uma bola de algodão. Tentar compreender o incompreensível é inútil, convém repetir. Além de frustrante.
           Não sei como está Lucídia. Não sei se vive feliz com seu novo modelo de amor. Posso apenas especular que há de ter saído em busca de outro alguém que coubesse em sua fôrma. É muito possível que tenha encontrado. Sempre há quem se candidate a ser modelo para alguém. Estará feliz? Quem sabe... a felicidade é algo fugidio. Talvez para essas pessoas o sentimento de felicidade seja apenas esse. Por dentro, seu universo emocional há de ser muito semelhante ao de qualquer um. Afinal, somos todos susceptíveis às inseguranças do viver, ainda que rejeitemos muito do que faz sofrer.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

TINHA QUE SER UM MÚSICO...

Há coisas que se vê todo dia e a elas não se dá a devida importância. E mais que importância, muitas delas estão ali a servir de ensinamento, de lição, como se a vida abrisse seu livro e nos convidasse a lê-lo gratuitamente sem pagarmos a ela o elevadíssimo preço da experiência. Por exemplo, o meu querido amigo Péricles Campelo, líder da banda Locomotiva. 
          Há alguns anos, com o firme propósito de criar um blog onde deitasse minhas entrevistas com as virtuoses das cordas desta cidade, recebi-o em minha casa para um bate-papo. Conversamos durante cerca de duas horas, pouco mais, pouco menos. Eis que, lá pelas tantas, o Péricles me sai com a seguinte pérola: "Felicidade, pra mim, é você acordar todo dia e pensar 'Pôxa, hoje eu vou fazer o que eu gosto'"! No dia seguinte escrevi um texto onde expus toda a minha inveja – inveja branca, diga-se – do amigo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/02/sobre-pocilgas-e-aviltamento-pessoal.html). 
          Vejam, pois, que já lá se vão mais de quatro anos deste encontro e só agora me ocorre a completude da frase do Péricles. E mais do que a inteireza dela, o que ela realmente significa do ponto de vista prático vai além, muito além de uma simples quimera. Explico.
          O Péricles é músico, toca violão, guitarra e baixo. E como está o Péricles sempre que o vejo, sempre que o encontro? Está com um sorriso que vai de orelha a orelha. E outras estrelas desta terra, que fazem o mesmo que ele, estão sempre com um sorriso que vai de orelha a orelha: o Mimi Rocha, o Rafael Andrade, o Lú de Souza... Vejam, por exemplo, e pra não dizerem por aí que esqueço o pessoal da velha guarda, o Nonato Luís. Já viram alguma virtuose das cordas mais simpático e sorridente do que ele? Duvido! Há um que quer empatar com o Nonato em sua simpatia contagiante: o meu querido amigo e professor Wanderley Freitas. Há, claro, alguns mais comedidos, como o Fabinho da banda Moby Dick, o Tarcísio Sardinha e o Moacir Bedê. Mesmo em seu comedimento, quase uma timidez por causa de sua virtuose humilhante, exalam sobre nós sua empatia que, quero crer, deve-se ao fato de acordarem dia sim e outro também para fazer o que gostam: – música, a arte que amam.
          Assim, só agora a frase do Péricles aliada à lembrança do sorriso desses caras me fez compreender o real significado da mensagem que ele me passou. Relendo meu texto, diria que o que lá eu disse, no que se refere à minha "inveja", deve ser superlativado e elevado à décima potência. A virtuose artística há de elevar o artista a prazeres indizíveis e inexprimíveis a reles mortais. Nós, os reles mortais, também amamos a música. (O sujeito que não a ama há de sofrer de grave distúrbio da personalidade e da afetividade.) Enleados, experimentamos o que esse pessoal produz de mais sublime, e com que amor! e com que alegria! e com que felicidade! Eles são assim, sorridentes, porque gastam seu tempo a emocionar, a encantar... de modo que a música é capaz, tem esse poder de unir e de trazer paz. (Lembra-me o dia em que meu já falecido amigo Marcos Sampaio me contou, ele que era estudioso das coisas de Deus, que a música surgiu nos Céus, onde habita o Altíssimo e Seu séquito.)
          Dirá alguém que o que faço há de ser, também, pela nobreza do ato, algo digno de causar as sensações mais inefáveis e indescritíveis em qualquer ser humano que o faça e direi que, sim, é verdade. Ocorre, porém, que a medicina, como arte, tem sido vilipendiada a tal ponto que o conceito que se tem tido de seus praticantes é o pior possível. E não é pra menos. Senão vejamos.
          Outro dia o Dr. Frank Veith, professor de cirurgia da Universidade de Nova York e da Cleveland Clinic, em comentário sobre o futuro da Cirurgia Vascular no Medscape, enfatizou os desafios negativos ou obstáculos que o médico norte-americano tem encontrado na prática diária (http://www.medscape.com/viewarticle/867710): "Um desses desafios é um sistema de saúde imperfeito onde sofremos todo tipo de regulação e proibições e onde o cuidado de nossos pacientes está mais nas mãos dos administradores hospitalares e companhias de seguro de saúde do que nas mãos dos médicos." Não fosse apenas isso, ressaltou um problema mais sério ainda – uma crise ética sem precedentes, todos os envolvidos mais preocupados com seus dólares que com os doentes, incluídos aí médicos sem escrúpulos que "fazem procedimentos desnecessários ou atuam em campos fora de sua especialidade" apenas para lucrar, submetendo pacientes a riscos e tratamentos invasivos e caros que não estão indicados. Tudo isso nos Estados Unidos da América, onde a lei é rígida e a medicina é de ponta. É lícito pensar o cenário ser pior onde o caos viceja e pulsa? Sabe-se lá... 
          Dirá alguém que tudo está à mercê da corrupção e que tudo é passivo de se corromper. Pura verdade. Tudo isso causa em nós que buscamos uma prática humilde, exercida dentro dos mais elevados princípios científicos e humanísticos, uma tristeza enorme. Ainda que individualmente cada um de nós possa se julgar recompensado em cenário particular por se conduzir dentro da correção e do amor ao ser humano que sofre, como classe o impacto de tais evidências é desolador. O crime é ainda maior quando cometido por quem se espera o mais elevado grau de lisura e comprometimento. 
          Pois foi justamente Tom, o Jobim, quem resumiu tudinho num único verso cantado e decantado mundo afora:
"Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo amor
É impossível ser feliz sozinho".
         Tinha que ser um músico...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

HAMBÚRGUER E CACHORRO-QUENTE

"Que coisa adolescente, James Dean"... (Belchior)

Eis que não houve, na última quinta, o clube do Bolinha. A quem não se lembra, relembro que o clube é um espaço reservado exclusivamente para meninos. Disse espaço e corrijo – é um momento reservado exclusivamente aos meninos. (Quem quiser mais detalhes que pergunte às Luluzinhas.)
                Pois os meninos avisaram com antecedência: não poderiam comparecer. (Os “meninos” são os cinquentões.) Foi nesse cenário que o amado Fábio Motta me incitou a acompanhá-lo ali, em certo barzinho, em duas ou três cervejas. Aceitei incontinenti. Não podia me dar ao luxo de perder a oportunidade de estar com tão fugidio amigo.
                Era uma hamburgueria, um lugar intensamente frequentado por adolescentes. E assim me vi, sem maiores considerações, num bar adolescente a convite do Meninotti, digo, do Fábio Motta.
                Vejam que abundam em nosso anedotário particular as muitas histórias do Meninotti Motta, as últimas dando conta de sua regressão comportamental. Perguntará alguém estupefato: – como assim, regressão comportamental? Explico.
                Não se sabe exatamente há quanto tempo o nosso Fábio de Oliveira Motta acordou certo dia e decidiu: – “quero ser menino outra vez”. Daquele momento em diante, como numa mágica de Sininho, tudo mudou. Seus ternos mais finos foram arrumados num fundo de baú e suas gravatas foram doadas a um brechó. As poucas cuecas que ainda guardava foram cedidas aos filhos da lavadeira. Em pouco mais de quinze dias o guarda-roupas era outro. Quem o abrisse diria ser o de um garoto de seus dezessete, dezoito anos. Eis renascido outro Fábio Motta, um obsessivo e obcecado Peter Pan.
Óbvio é que outras coisas aconteceram até culminar na constatação da mudança irreversível – o homem agora comia hambúrguer e cachorro-quente. Antes era churrasco de carnes nobres e até panelada, sarrabulho e sarapatel. É bem verdade que toma lá umas cervejas, mas... e daí? Não as tomam também os adolescentes? Mesmo aí há uma alteração radical. Afinal, o nosso Motta, até seu último dia como adulto, apreciava o chamado “álcool duro”, isto é, uísque sem gelo. E se lhe punha uma pedrinha seria apenas para enganar a torcida. Numa noite bebia uma garrafa inteira. Coisa de gente grande, de gente adulta. O adolescente em que se tornou bebe apenas cerveja. E se lhe perguntamos sobre o uísque, responde que está levando uma vida saudável, que dorme cedo e levanta cedo para... surfar. Sim, o Motta voltou a ser surfista, esporte que praticou durante toda a adolescência. Como o fôlego já não é o mesmo de há 40 anos, faz aulas de apneia.
Vejam que não saiam por aí a dizer que faço apologia ao alcoolismo. Não é o caso, acreditem. Meu único propósito é expor as diferenças entre um Fábio Motta e outro Fábio Motta. Um seria o clássico, o outro o moderno ou, mais precisamente, o saudoso. O tipo adolescente permanece intacto desde James Dean.
O que me pergunto até agora é: – que acontecimento precipitara o novo e improvável Fábio Motta? Eu disse que “certo dia” o homem acordou e decidiu. Mas... que dia teria sido esse? O que aconteceu àquele dia ou à véspera? Sininho teria tantos poderes? Seria um amor que se perdeu na frustração da inviabilidade? Seria a descoberta em si mesmo do homem só, e sempre só, invariavelmente só? Seria tudo uma espécie de crise da meia-idade? a insegurança que abate aquele que se vê cara a cara com a velhice e com o apartamento de todos ou quase todos os laços vitais e essenciais? Ou seria apenas mais um chiste de meu amigo a se somar a tantos outros?
Passou-me pela cabeça uma doença, sim, um mal irreversível e inexorável, desses que deformam o indivíduo a ponto de tornar-lhe irreconhecível ou incapaz, e que lhe impusesse o momento único de voltar a ser o que amou ser um dia. Por último considerei a maldita, algo mortal, sentença do inelutável momento... Para felicidade de todos que muito o amam, não parece ser este o caso. Ele exala a saúde humilhante dos de excelentes genes. É espécime dos que vivem cem ou mais anos, tudo culpa do Agapito e de dona Mirtes, seus amorosos e zelosos pais, longevos e vivazes.
Quanto a nós e nossa investigação, tudo tem sido em vão... Ao que tudo indica, seremos obrigados a conviver com o “Meninotti” Motta por sabe-se lá quanto tempo, o tempo que durar sua incursão adolescente. Será dureza ensinar a esse menino tudo outra vez. É tudo o que posso dizer agora. Oportunamente volto com novidades.