sábado, 31 de maio de 2014

Transviado

        Não compreendo por que ages assim. Não precisas de ninguém. És o chefe, o provedor, o que põe a cara a tapa dia após dia. Levas o barco às costas.
        Para ser sincero contigo, me envergonhas. De há muito te conheço. Por vezes me pergunto se de fato te conheço. Muitos hiatos se interpuseram ao longo de nossas vidas. N’algum deles podes ter te tornado em algo que não conheço, que nunca vi. Tudo pode acontecer na vida de alguém.
        A título de exemplo te conto uma história. Há algum tempo reencontrei aquele que julgava bom amigo. Numa comemoração de aniversário, lá estava ele. As mudanças físicas normais do corpo nunca apagam a caricatura básica. Penso que no fundo somos todos caricaturados. Permitimos ao longo da vida nos deformar. As adaptações julgadas necessárias, as ambições desmedidas, as inseguranças persistentes, os temores fundados e infundados, todos nos assinalam traços indizíveis. Eu estava para fazer a constatação.
         Lá estava ele, o amigo dos tempos de infância, sorridente e persuasivo como outrora. Em criança a inocência nos molda ao sabor de nossas ilusões e desconhecimento do bem e do mal. Julgava eu que meu amigo ainda abrigava em si sua doce fantasia de criança. Eu mesmo retrocedia no tempo, tamanha a minha ingenuidade. Quando a infância é suave e bela, nos deixamos regredir sempre que algo ou alguém nos transporta ao tempo. Descobrimos quão felizes éramos. Queremos voltar. As doces lembranças nos esmagam ante a realidade atroz. Foi o que senti ao rever meu amigo.
          Falou-me de seus percalços, de seus pesadelos, de seus sucessos. E, dias depois, nos reencontramos. Como se quiséssemos reaver os bons tempos, pactuamos a amizade diária. Queríamos os telefonemas, as cumplicidades e selos de uma amizade ferrenha. Parecia possível. Parecia que nada poderia ter mudado naqueles mais de vinte anos. Para mim – tola ingenuidade! – a vida me devolvia o amigo que ela me subtraíra no complexo tecido de sua trama.
          Contudo, dentro em pouco caiu a máscara que lhe escondia a deformidade do caráter. Nem vale a pena enveredar por detalhes de tão dolorosa descoberta. Seria sofrer duas vezes. Eis aí a história.
          Agora tu, meu outro amigo. Em que te tornaste? Por que te permitiste nada ser, quando poderias ser tudo? Por que insistes dizendo sim, quando tua vida implora que digas um não urgentemente? Dizes um não já, caso contrário não sei o que será de ti. Cria coragem, meu amigo, senão tua covardia e omissão vão dar-te suas crias mais características e nefandas: o fracasso e a perda do respeito por parte de quem to deve. Não te iludas com a lista de teu patrimônio, que ela de nada serve a te fazer um homem. De fato, ela não durará muito se não fizeres por merecê-la. A contrapartida material deve necessariamente traduzir quem és, ou terá sido apenas uma ordem passageira das coisas.
          O que será daqueles que trouxeste ao mundo, se não te mostrares homem? O homem decide, não espera que por ele decidam. O homem escolhe, não espera que por ele escolham. O homem eventualmente diz sim, mas na maioria das vezes a vida lhe obriga a dizer não. De que adianta ter bom coração se não souber ser justo? O homem que sempre diz sim, assim como tu fazes, comete inúmeras injustiças e freqüentemente se mostra fraco e vulnerável. Assim como tens sido. O homem deve dizer não porque a vida está sempre a lhe dizer não. O homem deve, portanto, dizer não ao não que a vida lhe diz. Só assim poderá vencer na vida – ser verdadeiramente um homem.
           Se dizes sim, estás a permitir que a vida te faça tudo. Não te permitas esse fracasso. O homem não imputa a outrem as conseqüências de suas atitudes, de suas decisões. Deves assumir de imediato o teu caráter de homem, que deixaste adormecer não se sabe onde. Se o perder, que será de ti? Ou não serás tu aquele que pensei ser? Disso me recuso duvidar. Sei de fato quem és. O que poderá ter-te desviado?
           Um vício, uma mulher, ou ambos, eis a resposta. Pior para ti, porque quando se entra na seara do irracional, o homem deixa definitivamente de ser homem para tornar-se bicho. E aí, ai de ti, meu caro amigo: a vergonha que sinto será pouca ante o inferno que te aguarda.

06..11.2009

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Com lisa, não!

        Sentada à mesa entre amigos, após um sôfrego gole de uísque, fuzilou: -“Com homem liso não caso!”
        Entre os presentes fez-se um desses silêncios quase intermináveis, ao fim do qual completou: -“Homem liso nem pra namorar!”
        Pairou no ar a dúvida dilacerante. Ninguém sabe ao certo quem se enquadra como liso para uma mulher. Ainda mais aquela. Era bonita, corpo escultural e firme, pele suave e viçosa, já deixando transparecer, porém, os sinais de algum tempo. E tinha diploma. Com esses predicados, era bem fácil o alijamento de toda uma China. Em terra de cego quem tem olho é rei, está aí o ditado que não me deixa mentir.  
         Era óbvio que aquilo fora coisa aprendida. A mãe não seria a professora. Não faz trinta anos e a mulher ainda servia ao homem. Pouco mudara logo após os esperneios da Betty Friedan. Era coisa da modernidade, sem dúvida. Ela vivia ao tempo da transição e, todos sabem, toda transição faz suas inevitáveis vítimas. Não é fácil perceber que se traz à algibeira uma tralha inútil. Os tempos mudam e, por mais que isso pareça evidente, há sempre quem não perceba.
         Pensando melhor, havia de ser o arrependimento. Sim, há nostalgias abissais embrulhadas no arrependimento. Seria o caso, talvez. Expliquemos.
         O caso é que a mulher quis ser tudo, ser igual ao homem, se comportar como homem, fazer tudo que faz o homem. Lembro em criança do receio que se tinha de que viessem a querer urinar em pé. Engenheiros se reuniram a projetar um urinol apropriado. De fato, ainda hoje o buscam em sua imaginação criativa. Para nossa felicidade e alívio, não conseguiram, e é provável que assim permaneça.
         A mulher quis trabalhar fora, ser chefe, dirigir carro, ganhar dinheiro, presidir, governar, adulterar em público, e gozar, coisas que até então só ao homem era permitido. No começo era um estardalhaço tremendo. Depois a coisa foi indo, foi indo, foi indo e... Eis aí a mulher a fazer tudo e de tudo. Parece o homem. Conseguiu o salvo-conduto para tudo fazer, como o homem.
        O homem era o provedor, o mantenedor, o guerreiro que matava um leão por dia para sustentar a família. E o fazia com uma braveza de Alexandre e um orgulho enternecedor. A mulher não podia nem falar em trabalhar. Era capaz de levar uma coça por essas idéias malucas. Onde já se viu? Foi quando veio a doida da Betty e suas comparsas. Escreveram livros, fizeram barricadas, greve de sexo, o diabo. O resultado foi a mulher moderna, dessas que até diploma tem. A coisa está tão avançada que já governam países e pilotam aviões. Vi algumas dirigindo táxi, e outras guiando lotação. Nas forças armadas hoje abundam. Na polícia peitam – literalmente! – bandidos e desordeiros. Falam grosso - não sei como! – em tribunais como juízas. A mulher moderna chegou para ficar.
          Eis, então, que me aparece uma dessas, nostálgica da era da anulação. Em que pese o honroso diploma, não quer trabalhar, não quer homem liso. E baixa o decreto com murro na mesa e uísque bebido a gute-gute. Não quer, e pronto! Quer herdar da Betty Friedan somente as barricadas e as greves de xoxota. E quer de volta a dependência para pagar as contas. Não quer homem liso!
          O homem, por sua vez, depois das taxistas, das capitãs, das juízas, das primeiras-ministras, das candidatas a presidente, das motoristas de lotação, e da Marta artilheira, considerou a mulher moderna uma maravilha. Quer a sua irremediável preservação. A princípio queria trucidar as revoltosas, causa pioneira das punhetas de maridos. Depois, contudo, só viu vantagens na moderníssima mulher que pilota aviões e foguetes, e até apita partida de futebol.
          Conclusão: hoje em dia também eles não querem mulher lisa. Falam que dá uma despesa danada. E não adianta fazer greve, dizem. A mais antiga das profissões pode prover do bom e do melhor. E bradam: -“Viva a mulher moderna!”

22.10.2009

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Bundão

          No firme e inabalável propósito de me interpor aos amigos que exorcizam a comemoração da passagem do natalício, resolvi, há três semanas, convidar os mais chegados convivas a um humilde regabofe. Tudo por conta da passagem de meu próprio natalício. Foi no agradável solar de meu compadre e amigo Chico. Um deque, uma piscina, boa música, um churrasco de carnes nobres, tudo regado a umas geladas cervejas a aliviar a canícula de um sábado ensolarado e de límpida abóbada. 
          À medida que passa o tempo, fogem de si os amigos. Ocorre na razão direta. Quanto mais passa o tempo, mais aumenta a distância e mais rarefeitos os momentos em comunhão. As forças centrífugas da vida são imbatíveis. Nada parece resistir a esse inexorável impulso de separação dos que se amam. A menos que se esteja atento a ele, vai-se o tempo e a vida até que a morte nos colha. Enquanto há vida, há oportunidade; enquanto há vida, há saudades; enquanto há vida, é possível. Na morte vai-se a memória, o amor, as saudades, a oportunidade... Tudo se deixa, nada se leva. Na morte vive-se apenas nos corações dos que nos amam, assim como se vive somente em seus corações nessa distância da vida. Assim, se não se convive, morre-se antecipadamente uns para os outros. 
          Outro dia fui à rede social e, coisa curiosa, lá vislumbrei o inusitado: - mortos reais em suas páginas virtuais. Sim, acreditem. O sujeito morreu e lá permanece, na rede social, sua página. Como zumbis virtuais, os amigos mortos continuam vivos na virtualidade. Alguns, os mais recentemente partidos, ainda recebem recados de seus mais próximos familiares e amigos. Ao dia de seu natalício, são parabenizados como se vivos fossem. Tudo isso é a mais deslavada evidência de nosso inconformismo com a finitude e a mais deslavada evidência de que o homem não foi criado para desaparecer. 
          Numa atitude que me pareceu a mais sã possível, decidi interromper a amizade que morreu na morte do outro. Sua lembrança assim, numa página de rede social, contrapõe a mais moderna e espantosa tecnologia do século XXI à velha e secular senhora inexorável, com a vitória desta última. Não há esperança para o homem na tecnologia, eis a verdade. Não há esperança para o homem na ciência, na falsa ciência. O perfil do morto mantido na rede social é um gritante sinal de nossa tecnopatia recente e ilusória.
          Mas, voltemos à rapioca entre amigos. Resolvi iniciar o negócio às três da tarde, horário em que os que trabalham já estão livres, horário em que os que têm filhos pequenos já lhes encaminhou a vida, horário, enfim, em que já se torna possível uma patuscada descompromissada e livre de pendências. No convite, feito com a devida antecedência, fui explícito o bastante: - "venham os que quiserem, venham os que puderem, venham os que vivos estiverem".  E fui claro: - a humilde reunião alongar-se-ia até as oito da noite, com a possibilidade de delongar-se até horário indeterminado caso nela permanecessem os que sempre anelam pela eternidade desses mágicos momentos. Com isso quis deixar à vontade de cada um tanto a hora da chegada quanto a hora da partida. 
          Os que me lêem quererão saber a razão de tanto zelo e de tanta prolixidade nas palavras de um convite. Sim, porque à certa altura da vida a objetividade é cultivada e desejável a fim de mitigar as dúvidas e os mal-entendidos. Ocorre que, de uns tempos para cá, tenho recebido cobranças e reclamações por parte de amigos, alegando que ando ausente em demasia. Consciente da inveracidade desses protestos, quis demonstrar minha total disponibilidade para receber a todos durante o tempo que dispusessem. 
          Afora a falta daqueles que sabia eu estarem impossibilitados de comparecer por razão de força​ maior, houve uma falta que primou pela comicidade que suscitou. Seu protagonista foi nada mais nada menos do que o meu querido amigo e irmão Antonio Torres Braga. A comicidade de sua falta advém justamente da certeza inamovível que o homem me deu de seu comparecimento. 
          Eram nove e pouco da manhã e eu ainda dormia quando bate o telefone portátil. Olhando o identificador, vi claramente, ainda meio sonolento, o nome de meu amigo. Atendi.
          Ele assegurou: - "Desculpe, bacana, mas disquei errado. Ia ligar para outra pessoa, mas aproveito pra te avisar que mais tarde, logo mais, estaremos lá no Chico pra te dar aquele abraço". Disse-lhe que o esperaria para tomarmos juntos uma cerveja, e nos despedimos. 
           Cheguei à casa do Chico por volta das três da tarde como combinado, e dali a pouco os convivas foram chegando. Lá pelas seis recebo uma mensagem do Braga garantindo a presença. Dizia: -"Chego já"! Pouco depois aparece o Tomasinho, sempre retardatário, sempre chegando depois de todos, às vezes no final da festa. Deu sete horas e bate o telefone portátil. Era o Braga novamente. Disse: -"Estou meio atrasado, mas chego já, já"... Deu oito, deu nove... Lá pelas dez a mensagem fatal e definitiva: -"Amigo, infelizmente não poderei comparecer... Não estou bem"... Na dúvida sobre o que o amigo quis dizer exatamente, e apostando que seu mal-estar não seria físico ou orgânico, respondi por mensagem e já meio de pilequinho: -"És um bundão"...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Quem cala, consente

​          No leito de morte, pede que lhe chamem o genro. A filha era o seu grande apego. Sempre lhe fora muito próxima.
    ​      Há quatro anos fizera uma operação que, julgava, havia lhe curado. Meses atrás descobrira sua tragédia: – a doença era maligna e se apresentava novamente de forma agressiva e sem possibilidades de cura. Tão logo soube da triste notícia, a filha correu a engravidar: - o pai ainda não tinha o neto que tanto desejava. Agora, o garoto já contava cinco meses. Podia morrer tranqüilo, feito avô. Contudo, ainda precisava conversar com o genro, pedir pela mulher e a filha, suas grandes paixões na vida.
    ​      O mancebo se achegou à beira do leito, na presença da mulher e da sogra, e ouviu do sogro o pedido para cumprimento póstumo: – que cuidasse sempre, e para sempre, da mulher e da filha amada. O filho homem era jovem, sem responsabilidades, e se arranjaria. Não nutria preocupações a seu respeito. Coração de homem é empedernido. Esqueceria o pai em breve. O problema era a filha e a mulher amadas no fundo da alma. Era para elas protetor e solo firme. O genro, que também lhe era caro, era a pessoa mais apropriada para a missão, qual seja, não permitiria que algo lhes faltasse, e lhes consolaria após a partida precoce. Deixar-lhes-ia boa renda e patrimônio. O genro era de confiança. Morreria em paz.
O genro prometeu solenemente honrar-lhe o pedido. Não se nega uma vontade moribunda.
    ​       Exaurindo-se-lhe as forças vitais, descansou. Consternação de praxe seguiu-se. A morte é sempre mal-vinda. Não se a quer por perto, muito menos chegada. Contudo, nela tudo se resolve. O morto é imune a tudo. Nada leva, tudo deixa. Aos credores lhes interessa o espólio, aos devedores o esquecimento. Ao morto nada importa. Nada lhe é útil. Ensinamentos nunca aprendidos pelos que ficam ainda um pouco, muito pouco. Tanto que, após um lapso de tempo, voltam a viver como antes. A vida continua.
    ​       Eis que, algum tempo depois, no aniversário de morte do sogro, o genro pede à sogra e à mulher que vistam o melhor de seu guarda-roupa, que comprem um lindo e exuberante buquê para uma visita que fariam, os três, ao túmulo do falecido. Mãe e filha, do fundo de sua inconsolável a ainda latejante dor, exultaram com a bela atitude do genro, que demonstrava zelo e contrição solidária.
          Lá chegando, de mãos dadas fizeram orações. A viúva e a órfã falavam ao morto como se ele as estivesse ouvindo. A filha, com os olhos banhados em lágrimas, confessava o amor especial com que amava o pai; a viúva falava das saudades que sentia. O genro, de cabeça baixa, assistia à cena comovido. Depositaram-se as flores na laje e acenderam-se velas. Mais uma vez fizeram orações. Após as despedidas das mulheres, o genro interveio e pediu que esperassem, pois tinha um comunicado a fazer ao querido sogro.
    ​      -"Seu Fulano" – iniciou ele – "vim aqui especialmente para lhe fazer um pedido especial, visto que o tempo urge". 
           As mulheres se entreolharam surpresas. Alguns segundos pairaram no ar e houve um breve suspense. 
           -"Vim encarecidamente lhe pedir que me desobrigue do compromisso, antes firmado com o senhor, de cuidar de vossa mulher e de vossa filha, visto que dela estou me separando e não mais terei condições de cumprir o que lhe havia prometido. Espero que o senhor compreenda etc. etc. etc."
    ​      Ouvindo aquilo, a viúva sentiu uma sensação de desfalecimento iminente e se acocorou para não cair. Nauseada, segurava-se ao chão. O mundo parecia girar. O genro correu a segurá-la pelo braço, mas ela, empurrando-o com um safanão, vociferou:
    ​      -"Tire suas mãos de mim."
          ​A filha, que desde o princípio suspeitava das intenções do marido, não se surpreendeu. Ficou, porém, chocada com a forma que o marido escolheu para anunciar à mãe e ao pai morto a decisão que, sabia ela, ele já tomara. Passado o momento, a viúva entrou num estado de grave depressão. O filho caçula não fazia idéia do que se passava e só entendeu tudo quando a levou ao analista. Teve ímpetos de dar tiro no cunhado e tudo, mas a irmã o demoveu da idéia.
    ​      Hoje, passados já alguns anos, o ex-casal já tem novo par e estão felizes. A viúva nunca se recuperou plenamente do choque. O cunhado ri da história quando se lembra. O defunto permanece em silêncio. Afinal, quem cala, consente.

Fernando Cavalcanti, 30.08.2008

domingo, 25 de maio de 2014

Gente sumida

          Muito tempo depois de eu ter-lhe enviado uma mensagem, uma amiga me escreveu. E justificava-se: -“Não tenho tempo!”
          De fato, há muito não a vejo. Para o poeta, “morrer é apenas não ser visto”. Quis dizer, certamente, que quem morre não mais é visto por todos. Ou, de outra forma, ninguém mais o vê. No caso de minha amiga, eu não a via. Outrosseguramente com ela convivem. Apenas eu fui vítima de sua exclusão. Eu morrera para ela e ela para mim. Não nos víamos. Oxalá ainda possamos nos ver antes que se percam todas as chances e oportunidades.
          O que faz isso conosco? Digo, que tipo de coisa ou circunstância nos impele a uma distância cada vez maior? Se nada entre nós houve que decretasse o fim de nossa amizade e convivência, por que nos permitimos essa ausência mútua? Dirão que são as coisas da vida, eu sei. Dirão que as ocupações exclusivas de cada um é a nossa força centrífuga. Em suma: é o trabalho.
          Que diabos de trabalho temos feito, afinal? Por que o trabalho é o centro de todos nós? Se me perguntam quem sou, apenas digo meu nome. Não digo o que faço. Não sou o que faço. Se me perguntam sobre o trabalho, entabulo a conversa estereotipada sobre ele – a coisa está difícil, trabalha-se muito, ganha-se pouco, as coisas estão pela hora da morte, etc. etc. etc. E daí? Que importância tem isso? Minha amiga alega que todo o seu tempo é gasto com seu trabalho. Não tem tempo para uma conversa, para falar de si mesma, para pensar em si mesma, para jogar ao lixo as tralhas que carrega às costas.
          Um amigo adoeceu e – Deus o livre! – quase morre. A princípio apavorou-se com a possibilidade da aposentadoria precoce. Depois, como a doença insistisse em recidivar, impuseram-lhe uma compulsória licença mais alargada. Seu medo era o que faria sem o trabalho, com o que ocuparia seu tempo. Acabou por descobrir, com o muito tempo livre que lhe deram, quantas boas e proveitosas coisas pode um homem fazer e realizar se perder seu trabalho. Descobriu também como o trabalho pode ser danoso. Descobriu que as razões do trabalho – sustentar mulher e filhos, pagar hipotecas e empréstimos, bancar as aparências – podem matar. Suas coronárias estavam entupidas e, vocês sabem, coronárias entupidas são uma bomba relógio dentro do sujeito.
          Em seu tempo livre via-se morto. Conjecturava sobre o dia de sua morte – o sofrimento de seus entes, seu corpo sem vida, sua inexistência. E concluiu que ainda havia muito que fazer, o que viver. Com efeito, descobria a cada dia de seu estigmatizado ócio que nada mais havia pararealizar no trabalho. Tudo já fizera. Como um vício, estava condenado a repetir indefinidamente a rotina. Em suas horas vagas passou a vislumbrar o que antes para si não existia. Pequeninas coisas o agradavam, e muitas outras ainda restavam por viver, por experimentar. Nos livros viajava. Sua imaginação transcendia. Impunham-se novos desafios, novas atividades. Relacionava-se. Relacionava-se! Tinha, agora, tempo para estar com as pessoas, ouvi-las. Quantos universos descobriu! Por quantos mundos andou!
          Minha amiga pensa que somos como as estrelas, que só morrem de velhice. Não somos como as estrelas. Morremos a qualquer hora. Ela pensa que pode abusar de perder tempo. Dizem que dinheiro não aceita desaforo. Trate-o mal e ele se vai. Bobagem. O tempo, esse sim, aceita menos desaforo ainda. O dinheiro se recupera. O tempo jamais.

Fernando Cavalcanti, 17.12.2009   

terça-feira, 20 de maio de 2014

Rede social, uma impostura

          Sou, cada vez mais, um mero espectador na rede social. E, por isso, hoje senti saudades. E digo ainda mais, olhando aqui meio que enviesado para o meu telefone portátil.
          Na rede social vejo quem não vejo há anos e, podem ter certeza, falo de muitos anos. Na rede social vejo quem está a seiscentos quilômetros, ou a três mil quilômetros. De fato, vejo quem está a doze mil quilômetros. Esses conhecidos ou amigos distantes no espaço e no tempo estão aqui, na ponta de meu dedo. Posso lhes falar, lhes cumprimentar; lhes dar bom dia, boa tarde, boa noite; posso parabenizá-los pelo natalício, pela formatura, pela conclusão do doutorado; posso solidarizar-me com suas tragédias e exultações tão amplamente divulgadas lá, na rede social... Posso, enfim, estar perto estando longe, dirão os admiradores da tecnologia da informação e os defensores dessa proximidade virtual hoje possível. 
         Porém, hoje percebi com nitidez: - na tela de minha mídia, qualquer que seja ela, existe, de fato, um abissal vazio. Não há ninguém ali. São apenas imagens, fotografias que secundam e extraem minúsculas partes da realidade e da vida das inúmeras pessoas que supostamente conheço. Penso que suas vidas são um continuum, uma ininterrupta seqüência de sensações, atos, atitudes, interações e sentimentos do ser que vive, e dos quais não participo. A formatura ou o nascimento do bebê são extratos momentâneos, não dinâmicos, um ponto mínimo desse continuum alheio a mim e à minha vida. Por mais que me congratule e que interaja, não me satisfaço com a quase imposta superficialidade da relação virtual. Ademais, há o tempo, as poucas horas do dia a limitar o que posso viver. Ou bem vivo a vida real, ou bem vivo a virtualidade, ressaltando que é na realidade onde estão as atitudes que urgem serem tomadas; é nela onde minhas ações impactam a vida das minhas relações; é nela que minhas ações e decisões hão de afetar diretamente a vida de terceiros. Na virtualidade, eis a verdade, não há relacionamentos, não há convivência, não há compartilhamento de vidas, não há verdadeira amizade...
          Por mais que haja quem afirme o contrário – as pessoas pensam o que escolhem pensar –, a verdade é que tentam nos iludir e enganar com a idéia de que a rede social se tornou e é fundamental para a vida "moderna". No mundo dos negócios a propaganda de produtos, de serviços prestados e de profissionais especializados parece ter-se tornado uma ferramenta poderosa na alavancagem das vendas e do comércio. Não é difícil compreender esse fato. Mas, daí a aceitar cegamente que a rede social preenche os perenes anseios do ser humano por relações afetivas reais já extrapola o bom senso e a evidência em contrário. Aí estava a razão de minhas saudades.
          Recentemente alguém definiu "saudade": - é o amor que fica. Tenho antigos e mais recentes amigos que moram no exterior, em países tão longínquos que chego a pensar estarem noutro mundo. Mesmo dos mais antigos amigos, por exemplo, amigos do tempo das fraldas e que não encontro nem vejo há mais de trinta anos, sinto saudades. E por que sinto esse sentimento de vazio e de lonjura dessas pessoas, mesclado a um sentimento de doçura e amor imutável por elas? Há uma única explicação: - o compartilhamento de nossas vidas durante certo tempo. Mais ainda. O compartilhamento de muitos momentos inesquecíveis porquanto permeados de inocência mútua e de amor desinteressado durante aquela fase mágica da vida em que nada somos senão crianças ou quase crianças; aquela curta e aparentemente eterna fase em que somos imortais e objeto da atenção amorosa de nossos pais também imortais... Vejam que essa saudade jamais seria curada na rede social. Somente o reencontro pessoal, na vida real, que preenche o frágil e fugidio tecido do tempo, pode mitigar uma mínima quantidade dessas saudades. Ainda que seja possível apenas um rápido reencontro, ele servirá para manter essas saudades mais vivas quando do distanciamento que se seguirá. Queremo-la mais viva porquanto renovado ficará o amor e as doces e ternas lembranças, algo literalmente impossível na famigerada rede social.
          Para encurtar a conversa, diria que rede social não aproxima nem reaproxima ninguém. Não da forma, nem minimamente próximo da forma que a vida real é capaz de fazer. Pelo contrário, a rede social tem sido palco de desentendimentos e disseminação de ódios e querelas entre desconhecidos da vida real que ali se expõem e se engalfinham. Ora! Que diachos quero eu a confabular com quem não conheço de fato? Leio e vejo as mais estapafúrdias opiniões e idéias na rede social e nem por isso saio no encalço de seus autores e donos. Eles que fiquem lá com suas crenças. Nada tenho com isso. Combate-se uma idéia com outra idéia recheada de sólidos argumentos, na impessoalidade e sem pretender mudar a opinião e a idéia alheia. 
          Repito, o ser humano escolhe o que pensar, muitas e muitas vezes sem a mínima reflexão, sem o mínimo questionamento, sem a menor busca por maior conhecimento que lhe dê lastro. Pior. Frequentemente o ser humano bebe em fonte contaminada sem se aperceber que está a sofrer de envenenamento. A dialética vai para as cucuias, enquanto os fatos – ah! os fatos...! – são completamente desprezados e ignorados. 
          Assim, é fácil concluir que a rede social é apenas mais um "brinquedo" que a tecnologia criou. Amor virtual? Beijos e abraços virtuais? Sexo virtual? A humanidade se engana cada vez mais...

Anísio Silva e Paulino Rocha

          Se não me falha a memória, já havia ouvido falar, da boca de meu amigo Casoba, nesse tal Anísio Silva. Foi um cantor da velha guarda que morreu em 1989 e, ao que parece, um artista que angariou muitos fãs por cantar belas e românticas canções. O auge de sua carreira teria sido ao começo dos anos 1960, quando vendeu uma penca de seus vários discos.
          Estava ali na cantina do IJF, sentado a sorver um chá gelado. Um pouco afastado de mim, ao lado e de pé, Dr. Gerardo Frota, um de meus preceptores à época da Cirurgia Geral, fumava um de seus cigarros e olhava a fila de funcionários que esperavam para bater o ponto. Nisso, eis que se esgueira pela porta de entrada por onde passava a fila o nosso amigo e colega Anísio Alexandre. 
          Dr. Frota solta uma baforada e diz contemplativo: -"Anísio Silva"... 
          Sem entender, corrigi: -"Anísio Alexandre"! 
          Ele insistiu: -"Tu 'num' deve conhecer. Não foi de seu tempo... Anísio Silva era cantor boêmio, a voz roufenha, fazia um sucesso danado"!... 
          Ciente de meu equívoco e querendo ouvir mais da história que ele estava para relatar – Dr. Frota é homem de boas e pitorescas histórias e de comentários inusitados –, retruquei, quem sabe recordando o meu amigo Casoba: -"Sim, acho que já ouvi falar, mas não sei muito dele, não"...
          Ele continuou:
          -"O meu finado tio Paulino Rocha – desse tu deve ter ouvido –, radialista e deputado, era homem bem relacionado, conhecia todo mundo. Certa vez, perambulando pelas ruas – naquele tempo 'num' tinha essa violência louca, não –, entrou numa delegacia ali perto do farol velho para ver quem estava de serviço. O delegado logo o reconheceu; quis saber: -'Que manda, meu deputado'? Paulino Rocha perguntou-lhe se tinha algum preso, ao que o delegado respondeu: -'Tem só um, um cabra que encontramos perambulando nos botecos e nos puteiros. Como 'tava meio fora de órbita, resolvi recolhê-lo. Vadiagem é crime, né não'? O deputado quis saber: -'Como é o nome dele'? O delegado não sabia. Afinal, o homem andava sem nenhum documento. Paulino pediu: -'Deixa eu ver a cara dele'. 
           Na carceragem o deputado deu com os olhos num sujeito desprovido de dotes físicos e que lhe parecia manso como um cordeiro. Por isso pediu ao policial: -'Solta o homem qu'eu me responsabilizo; descubro já, já a procedência dele e o levo pra casa'. 
          Solto o homem, iam chegando à esquina quando pararam e ele disse: -"Agradeço muito o que o senhor fez por mim'... Paulino Rocha quis saber: -'Com'é teu nome'?
          -'Me chamo Anísio Silva'.
          -'Ah, como o cantor'...
          -'Não, senhor... Eu sou o próprio, o cantor Anísio Silva'...
          O deputado olhou meio desconfiado pro homem, incrédulo e já pensando em chamar o delegado e declarar a mudança de idéia de levá-lo consigo. Mas teve outro palpite. Disse-lhe: -'Pois vais comigo ali, agora, numas quebradas onde toca uma banda. Quero te ouvir cantar'. 
          O homem não demonstrou abalo. Pelo contrário. Olhando nos olhos do Paulino Rocha, disse-lhe candidamente: -'Para mim será um prazer e uma honra cantar pro senhor, que me socorreu e me livrou das grades'. 
          Dali a pouco o até então desconhecido soltava a voz e a birosca vinha abaixo: - era mesmo o Anísio Silva, que lhes ofertava uma apresentação especial e particular. A farra foi tão grande que só acabou muito depois de o sol raiar. Acho até que o Paulino Rocha faltou a sessão da Assembléia nesse dia"! 
          Após breve pausa, continuou: -"Tinha muita história aquele Paulino Rocha... Essa ele mesmo me contou"!...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O brasileiro, um retardado mental

            O ser humano, digo, o brasileiro é um ser diferente de tudo o que se possa imaginar. Dentre as raças de seres humanos, o brasileiro é o mais peculiar, o mais interessante, o mais intrigante, o mais... Contudo, dentre todas as características que o identificam, a que mais salta aos olhos é a do retardo mental. Poderíamos dizer que o sul-americano, em geral, é também detentor deste traço indesejável, mas, dentre todos os sul-americanos, o brasileiro é o mais retardado mental. Os fatos que comprovam esta constatação estão abundantemente acumulados no presente.
            É amplamente conhecida a trajetória da sociedade venezuelana, nossa vizinha, em direção ao comunismo e à nação mais comunista do mundo. Doente de doença grave, seu maior dirigente, o presidente Hugo Chávez, foi-se tratar em Cuba. Não durou muito. Como tudo o que ocorre no mundo comunista, não se sabe ao certo qual a doença que o acometeu. Sabe-se que era uma neoplasia maligna na região pélvica, mas não se conhece até hoje em qual estágio a doença se encontrava quando de sua descoberta. Assim, não é possível saber se o homem cedo morreu porque seu prognóstico não era bom desde o início, ou se por incompetência da medicina comunista para tratar casos complexos como parecia ser o seu. (É amplamente divulgada a competência e os bons resultados de sua medicina básica: - não se morre de diarréia em Cuba.)
            Pois os brasileiros, durante os últimos doze anos, têm se aproximado cada vez mais dos venezuelanos. Com o Barba e agora com Dilma, o brasileiro, que se diz progressista, tem, cada vez mais, demonstrado sua afeição aos métodos venezuelanos. A morte de Chávez, ao contrário do que se poderia imaginar, não lhe destruiu o carisma nem deixou o país à mercê do vazio que comumente se segue à morte do líder carismático. Seu substituto, Nicolás Maduro, deu continuidade com competência à Revolução Bolivariana iniciada por seu antecessor. O brasileiro simpatiza e apóia a repressão violenta, por parte do governo venezuelano, às manifestações populares recentes que denunciam a insatisfação do povo com aquela revolução.
            Se simpatiza com os venezuelanos, o brasileiro simpatiza com o regime cubano, um regime falido, produtor de pobreza e de supressão das liberdades. O regime comunista, que milhões de simpatizantes no século passado acreditavam seria o regime inexorável para toda a humanidade, acabou melancolicamente em quase todas as sociedades onde se o implantou, não sem antes deixar seu rastro de pobreza, destruição e morte. Hoje, somente Cuba e Coréia do Norte adotam o fiasco regime. (A China é caso à parte. Associaram lá o regime a uma forma capitalista de produção sobre a qual não me atrevo a dissertar por pura e robusta ignorância.)  
            O regime cubano premia seu povo com as pérolas mais brilhantes da engenharia castradora. Eis uma listinha do grau de "liberdade" dos cubanos em sua paradisíaca ilha. Lá é proibido:
            1) Mudar de emprego sem permissão do governo. 
            2) Mudar de casa. As permutas podem ser realizadas se aprovadas e após os interessados se submeterem a dezenas de regulamentos. 
            3) Publicar seja o que for sem permissão do governo. 
            4) Possuir um computador pessoal, fax, ou antena parabólica. 
          5) O acesso à rede mundial de computadores é severamente controlado e vigiado pela segurança do Estado. Apenas 1,7% da população tem acesso a ela.
            6) Ler livros, revistas ou jornais, com exceção dos aprovados e publicados pelo governo. Não existe imprensa independente. Ler “1984” ou “A Revolução dos Bichos”, de Orwell, é considerado tão subversivo quanto ter um exemplar da revista "Sputnik" ou "Novidades de Moscou", editadas durante a Perestroika, na antiga URSS. 
            7) Receber publicações do exterior ou levadas por visitantes (passível de detenção segundo a Lei 88). 
            8) Comunicar-se livremente com jornalistas estrangeiros. 
            9) Frequentar hotéis, restaurantes, praias, spas e demais complexos para turistas, onde cubanos não podem entrar. 
            10) Aceitar presentes ou doações de visitantes estrangeiros. 
            11) Procurar emprego em companhias estrangeiras estabelecidas na ilha sem aprovação antecipada do governo. 
            12) Possuir negócios próprios (propriedade privada). Apesar de alguns negócios de pequena monta terem obtido a aprovação do governo, são submetidos a impostos e regulamentações asfixiantes. 
            13) Ganhar mais do que o salário estabelecido pelo governo para todos os empregos: 7-12 dólares por mês para a maioria dos trabalhos; 15-20 dólares ao mês para profissionais como médicos e funcionários do governo. 
            14) Vender qualquer objeto pessoal, serviços, produtos alimentícios preparados em casa ou artesanato caseiro, sem a aprovação do governo.
            15) Pescar no litoral ou em um bote, sem permissão do governo. 
            16) Organizar times desportivos, atividades de esporte e atuações artísticas sem permissão do governo. 
            17) Receber prêmio em dinheiro ou tentar atuar no estrangeiro. 
            18) Escolher um médico ou um hospital. Quem escolhe isso é o governo. 
            19) Buscar ajuda médica fora de Cuba. 
            20) Contratar um advogado, a não ser que se obtenha a aprovação do governo. 
            21) Transportar produtos alimentícios para consumo pessoal ou familiar de uma província a outra. As maletas dos viajantes podem ser revistadas a qualquer momento em trens, ônibus, carros particulares, bicicletas ou qualquer outro meio de transporte. Os produtos são confiscados e os portadores processados judicialmente pelo delito. 
            22) Matar uma vaca. Os camponeses que ousarem matar uma rês, mesmo que de sua propriedade, para consumo da família, e muito menos para vender, cometem um delito cuja pena é de 5 anos de detenção.
            23) Comprar ou vender imóveis e terrenos. Só é permitida a permuta, e isso depois de seguir inúmeras regulamentações apesar de menos de 6% das terras agricultáveis ainda permanecerem em mãos de camponeses, pois a grande maioria foi expropriada na primeira década após a revolução. 
            24) Importar freezer, condicionadores de ar, fogões, fornos, microondas, ferros de passar, aquecedores de água, duchas, frigideiras e torradeiras. 
            25) Regressar para viver no país depois de ter emigrado. Quem decide voltar à ilha para rever seus parentes necessita de um visto de permissão que custa 450 dólares, mesmo que tenha passaporte estrangeiro. Se o visto for rejeitado, o dinheiro não é devolvido. 
            26) Escolher livremente a carreira que deseja seguir. O processo de seleção para as universidades leva em conta fatores ideológicos e as “necessidades da revolução” naquele momento. 
            27)  Convidar um estrangeiro para passar uma noite em sua casa. Se os vigilantes CDR (Comitês de Defesa da Revolução, quer dizer, espiões de vizinhos) denunciam que um estrangeiro está pernoitando na casa de um cubano, as investigações iniciadas terminarão em multa ou, em caso de reincidência, na expropriação da casa. 
            28) Comprar leite para crianças maiores de sete anos.
            29) Negar-se a participar de manifestações ou demonstrações em massa organizadas pelo Partido Comunista. Negar implica em ser caracterizado como inimigo do regime 
            30) Negar-se a participar em trabalho 'voluntário' com adultos e crianças. 
            31) Negar-se a votar nas eleições com partido único e candidatos nomeados pelo governo... (Fidel Castro não é eleito em voto direto. Seu nome nunca aparece nas cédulas). 
            Assim, querer para si essa tralha não condiz com qualquer ideal minimamente meritório ao ser humano. Como dizia o Nelson, a liberdade é mais importante que o pão. Está, então, o brasileiro a flertar com o abismo onde se lançam os porcos possuídos por imundos espíritos. 
            Bem se vê porque o brasileiro, o bom e velho brasileiro que diz que Deus é conterrâneo, que o seu é o melhor país do mundo e cujo ufanismo faria Policarpo Quaresma parecer um entreguista de primeira linha, é, na verdade, um enorme e espesso retardado mental. O resto é conversa pra boi dormir ou uma abissal demonstração de sua imensurável ignorância e cegueira. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Fazer mais e falar mais

          A essas alturas, concluí: - preciso falar menos. Diria mais. Diria que preciso pensar menos, bem menos. Se muito penso, muito falo. E, se muito falo, muito me comprometo. Como não quero me comprometer, repito, devo falar menos.
          A essas alturas, não havia percebido, ainda, que ninguém está interessado no que tenho a dizer. Outro dia encontrei um grupo de amigos que há muito não via e deles ouvi o inimaginável. A idéia que faziam de mim, a julgar por sua completa distorção se comparada à minha realidade interior, era a mais estapafúrdia possível. Ainda que asseverasse que suas conclusões estavam completamente equivocadas, de nada serviu para lhes alterar o pensamento. Assim, minhas palavras foram em vão, completamente em vão... Como já se foi o tempo em que preocupava-me o que pensavam os outros sobre mim, calei; a resignação às equivocadas conclusões alheias sobre mim foi a minha tábua de salvação, por assim dizer.
          Haverá alguém que argumente que os atos e as atitudes falam mais alto que as palavras, e esta será uma verdade quase absoluta. Sim, porque atitudes podem ser pessimamente interpretadas por quem está a distância dos acontecimentos e das relações entre terceiros, o que gera desconhecimento dos fatos. Parece claro que a interpretação da atitude alheia pode facilmente resultar equivocada em função da ignorância das circunstâncias e do cenário. 
          A essas alturas fica cada vez mais claro que o lugar onde mais devo calar é o trabalho. Lá, quem mais fala, menos é ouvido. Dirá alguém que estou coberto de razão e ainda deduzirá que sou um sujeito preguiçoso, que muito fala e pouco faz. Confesso: - já fui de fazer mais no trabalho. Como hoje faço menos, hoje falo mais. Não que no passado falasse menos, não é isso. Muito também falava no passado, mas menos havia para criticar, para se indignar, para cobrar, para me queixar. Antes era a pilhéria que tornava o fardo mais leve; hoje é o brado da indignação que borbota da boca como o mar de lua cheia cuja ressaca torna-o revolto e constrói ondas ferozes que arrebentam sobre arrecifes empedernidos e inamovíveis. Então, hoje falo mais porque não há como não falar, tendo em vista a ascensão dos idiotas e a progressiva desprofissionalização dos gestores e das chefias. 
          Percebo agora, subitamente, que posso continuar fazendo, ainda que fale mais. Percebo agora – esse foi o meu grande insight do momento – que, se falo mais, mais devo fazer. E a maior e mais importante razão para isso é a que já mencionei acima: - ninguém tem o menor e o mínimo interesse em ouvir o que tenho a dizer. Pior. Ninguém tem o menor interesse no conteúdo que profiro, na mensagem que tento enviar, na essência de meu discurso. O que faço acabará indelével; o que digo, as palavras, são levadas pelo vento como folhas secas e como pétalas mortas de roseiras frondosas, ou como folhas esturricadas de imprestáveis ervas daninhas. 
          Em que pese a necessidade do perene e incansável debate sobre todos os descalabros presentes e visíveis no trabalho, urge seguir fazendo porquanto o óbvio se impõe: - é preciso fazer o que é preciso ser feito. Ainda que estejamos perplexos com o cinismo e o descaso evidenciados pelo resultado da obra dos que gerem e administram a coisa pública, imperioso é seguir, é fazer, é dizer "sim" quando eles dizem "não".
          Uma palavra final aos escassos leitores: - eu precisava desabafar, mas isso não torna o que disse um mero desabafo e menos verdade. Agora será pior. Farei mais, como antes; mas falarei ainda mais. Minha consciência me ordena.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Parabéns para mim!

                ONTEM fiz 53. Que são 53 diante da infinitude do tempo? Resposta: - nada são diante da imensidão do Altíssimo os meus poucos e minguados 53.
                Dirá alguém que tento me arredar da assunção de uma certa velhice. Afinal, mostram-se-me as cãs e certos cansaços, os físicos e os da paciência, estes bem maiores que aqueles. É preciso, ademais, não confundir o esgotamento da resignação com a intolerância. Isto porque, como reza o senso comum, a velhice deve(ria) sempre trazer a hipertrofia da condescendência. Tolera-se qualquer coisa quando se a compreende. E, com efeito, o que se deve esmerar na velhice não é a tolerância, mas a capacidade de compreender.
                E, admitamos: - compreender não é fácil. Fácil fosse, não se digladiariam as gentes. As audiências, repletas de gente compreensiva, resultariam, quase sempre, em vantajosos e sábios acordos entre as partes litigantes. Sim, porque também quase sempre é possível compreender. Há, contudo, após o exercício da compreensão do outro, e para a boa vontade decorrente daquela, a aceitação. Porque nem sempre a compreensão resulta em aceitação ou acatamento das razões e motivos alheios. Aceitar ou acolher as causas e os porquês, isso sim, gera tolerância.
                Por outro lado, também admitamos: - há coisas intoleráveis e abomináveis. É possível compreendê-las, mas não suportá-las nem aturá-las. 
                Eis que à velhice – não mais falemos em velhice – eis que à maturidade é possível ou, melhor, é altamente desejável que se tolere o tolerável e que se decida, de uma vez por todas e definitivamente, ampliar a lista do inadmissível e do insuportável. Visto que o ser humano é, o mais das vezes, transigente com o erro e até com o crime, é imperativo, à certa altura da vida, repelir e execrar o crime e o abominável.
                A certa altura – não necessariamente aos 53 – percebe-se que compreende-se mais, mas nem por isso tolera-se na mesma proporção. Tolera-se qualquer coisa quando se a compreende, repito; mas não se tolera tudo o que é compreensível. Eis o corolário de uma reflexão cinqüentona. 
                Há amigos que lamentam o tempo transcorrido sobre si; que se embrenham em cavas e profundas amarguras e tristezas; que não resolvem os empecilhos que sua intolerância lhes causa porque insistem em não compreender. Ora, há reflexões essenciais a um cinqüentão. (Poderíamos nos referir aos cinqüentinhas já que há alguns que se apequenam em lucubrações medíocres, improfícuas e inúteis. De que adianta e para que serve o entristecer-se ante o horizonte da finitude? Somente crendo na finitude.)
                Um de meus amigos que se entristecem ao ver passar o tempo – seu nome é Amorim – escreveu-me o seguinte: -"Meu profundo 'pesar'... Foi-se mais um ano". Ele foi, como se pode perceber, vítima de um freudian slip já que, de fato, quis dizer que perdi mais um ano. Poderia ter dito que estou mais moleque; ou que estou mais sabido; ou que estou mais sábio ou menos imbecil; mas não. Disse, com todas as letras, que perdi mais um ano de minha vida. 
               Relendo a frase percebo que não houve nenhum ato falho por parte de meu amigo. Com efeito, ele expressou exatamente o que quis expressar. (No legítimo freudian slip diz-se o oposto do que se quer dizer, traindo-se as reais intenções e pensamentos.) Desta forma, estou mais velho, mais acabado, mais decrépito... (Percebam o macabro e grotesco cenário onde me vejo obrigado e me inserir.) 
                Ora! Pergunto: - de que me serve isto? E mais: - perdi mesmo mais um ano de minha vida? Respondo admitindo o óbvio: - de nada me serve a reflexão de meu amigo, se a levar a sério e já antecipando aos caros e parcos leitores ser ela uma gozação e uma pilhéria entre nós. Ainda mais, não foi um ano perdido: - foi um ano de ganhos, muitos e infindáveis ganhos. (Diz o adágio que o homem não deve mostrar o fundo da alma nem o fundo do bolso.) E antes que os afoitos se apressem a tirar as inevitáveis, precipitadas e equivocadas conclusões, assevero: - há tesouros que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar. 
                Quer o Amorim postar-se precipitadamente à fila para o barco de Caronte? Diria que não, que ele não é nem besta... Ademais, Caronte é nada mais nada menos que um mito, uma personagem lendária cuja existência engrossa a crença fantástica dos que rejeitam a reflexão inteligente e útil. 
                Será que me fiz entender?, eis o que me pergunto. Se não, que me resta? Apenas o chavão para o momento: - parabéns para mim!