quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Garatujas


          Pilotar uma motocicleta na continuamente decadente Fortaleza não pode ser considerada uma tarefa fácil e muito menos monótona. As dificuldades são inúmeras, a começar pelas idéias. É muito difícil combater idéias, ainda que elas representem as mais idiotas opiniões, ainda que representem os mais esdrúxulos conceitos, ainda que exponham os muito maus bofes de seus autores. Idéias sempre hão de encontrar eco, quaisquer que sejam elas. 
          A idéia mais estapafúrdia que impera nas ruas desta cidade é a de que a motocicleta é "apenas" uma bicicleta provida de motor. Por isso se permite a seu condutor pilotar sem equipamento de segurança – notadamente o capacete –, transitar por calçadas e passarelas, ultrapassar outros veículos por onde lhe der na telha, estacionar onde bem entender.  O único momento em que o irresponsável condutor se dá conta de que a motocicleta não é nem de perto uma bicicleta com motor é quando ele lhe imprime alta velocidade e se estraçalha por cima de qualquer outro veículo ou coisa que o valha. Ou quando, numa daquelas manobras que citei há pouco, vira "vítima" de sua imprudência. 
          Até que o nobre e incauto motoqueiro seja colhido em sua vã idéia de ciclista de bicicleta motorizada, ele considerar-se-á um ás das pistas e ruas em suas acrobáticas e cinematográficas manobras. Sua onipotência e sensação de invulnerabilidade lhe sobem da genitália, passando ao longo do baixo ventre e se imiscuindo pelo pescoço até atingir o corpo caloso, donde se espraia universalmente ao córtex, com emissões menores mas não menos importantes ao hipotálamo e hipocampo. Amiúde, tais conexões são interrompidas e abruptamente desfeitas devido ao traumatismo crânio-encefálico do qual acaba por se vitimar. Aprendem tardiamente, porque podem também nunca aprender, que a motocicleta é, de fato, um carro provido de duas rodas, e como tal deveria ser conduzido. 
          A idéia oposta, a do carro sobre duas rodas, é tão apelativa, tão maravilhosamente apelativa, que é de pronto rejeitada. É, não obstante, a mais pura e singela verdade: - a motocicleta é um carro de duas rodas. E ponto final. Bastaria a disseminação desta simples e apelativa idéia para que o mais troglodita condutor se apercebesse dos riscos exponenciais a que está exposto, e tratasse de cuidar mais carinhosamente de sua inútil vida. 
          (Mas, por que é mesmo que estou falando tudo isso?)
          Chegou mais um dezembro. 
          O dezembro mais remoto do qual me recordo foi aquele em que surpreendi Papai Noel, metido em ceroula cáqui desbotada, depositando um tratorzinho de brinquedo sob minha rede. Não fiz alvoroço. Esperei imóvel o desenrolar daquela operação para ver quem seria aquele velhinho tão bondoso que viera trazer o presente que eu lhe pedira, em carta manuscrita por minha mãe no mês anterior. Sem sobressaltos e sem alarde, nenhuma decepção em especial, tudo se fez claro: - era o meu jovem pai. A ilusão se desfez sem dor, e a verdade se impôs tão natural como o nascer e o se pôr do sol. Ainda hoje, ele já um homem idoso e não menos firme, custa-me esquecer seu cuidado extremo naquela noite de dezembro tão distante, a plantar debaixo do leito suspenso de seu primogênito o agrado e o prazer de sua infantil e inocente ilusão, a niná-lo em sua pequenez e pureza, para que fosse tão feliz quanto possível; a afugentar para longe do pequerrucho qualquer mal, qualquer rudeza da real vida que em breve viverá, quando vierem os anos de chumbo daquela vida que ajudou a trazer ao mundo, nunca recordando o que falou o rei, ascendente do Salvador, sabe-se lá quantos anos antes, quando disse: -... tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol". 
          Ainda que longínquo tal dezembro para mim, ainda assisto o vicejar das ilusões; não as das crianças, que essas tudo pensam e tudo vêem, e mesmo o que não existe, mas as dos adultos. Ainda agora, por uma qualquer razão, crêem, ainda que por uma fração de segundo ou uma fração de fé, que vai-se o mundo acabar em data e hora marcada para este dezembro, tão próxima que mal terei tempo de arrematar o texto que ora escrevo. Concluamos com açodamento que o leitor já se esgueira sem interesse a fim de assistir à catástrofe final.
          Enquanto neste dezembro muitos próximos estão a ir-se, causando e alastrando dores e rangeres de dentes, muitos estão a regalar-se naquilo que chamamos de "futuro", algo tão imponderável e tão incerto quanto a mais simples mentira qua a nós mesmos falamos quando precisamos de algo a abrandar-nos a alma ante o intangível, e mesmo ante o suposto inexorável fim... Ninguém jamais ousaria explicar tamanho paradoxo, tanto quanto Olbers quando se debruçou sobre aquele que surpreendeu em sua mente ao admirar uma linda noite de primavera, o céu pulverizado de milhões de estrelas, ricas em luzes e cores, e ainda assim  escuro como o pez negro... Ah...! Quantas contradições permeiam a vida!...
          (Foge-me qualquer lógica à mão que segura a pena... Que o leitor me perdoe a perda de tempo que lhe causei, ainda que a proximidade do Armagedon não lhe mais permita outra ilusão.)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um lar...


          Sempre pensei numa casa como um lar. Ainda que aqui e ali estivessem os enfeites e os toques femininos de sua rainha, uma casa era, e para mim sempre haverá de ser, um lar. 
          Ah!... em quantos lares estive!... A mim me foi permitido adentrar os lares de meus pequenos amigos, assim como eles adentraram o meu. Íamos aos lares dos amigos porque em nosso tempo o lar ia além dos limites de seus muros e portas. Um lar se estendia a outros, e isso seria, para nós hoje, uma brutalidade humilhante. 
          Os lares viviam repletos de gente agregada, não residente, não moradora. Era gente da parentalha que chegava sem avisar; eram amigos que passando por perto se achegavam para uma chávena de café com torradas e dois dedos de prosa; eram os serviçais que mais pareciam familiares distantes mas presentes... Não havia hora, nem momento; toda hora era hora. A mesa estava sempre ali, numa sala exterior, posta e pronta para uma contingente refeição; eram bules, xícaras, pratinhos de sobremesa, toalhas enfeitadas multicoloridas, garrafas térmicas estilosas, cesto de pães guarnecido e encoberto por lencinho branco de bordas trabalhadas a proteger das moscas seu conteúdo; tudo muito asseadinho, cuidadosamente e amorosamente ajeitado. 
          A mesa era grande, um retângulo de madeira de lei preta e compacta, a ocupar a sala aberta para todos os lados, por onde entravam o sol, os ventos de quase verão, a água da chuva que molhava seus cantos...
          Logo atrás o quintal, uns poucos arbustos e a grama bem aparada. Mais a um de seus lados, aquele oposto ao da sala, a tampa de um cacimbão caiada por uma tinta branca barata e desbotada. Muitas vezes um montinho de areia se erguia, quase imperceptível, mais para perto do muro - a "sepultura" de um animalzinho de estimação, um gatinho, carinhosamente cuidado até sua hora final. Sim, o lar servia de última morada aos animais de estimação.
          No verão o lar enchia-se de parentes de outros estados que vinham em pousada, trazendo notícias de outros, fofocas deliciosas que não denegriam, cartas para entregar em mãos ao destinatário e escritas em letras belíssimas e bem desenhadas. E era tanta gente, tantas vozes, tantos dizeres! Crianças, adolescentes, jovens adultos, pessoas maduras, idosos... toda a gente se entretinha nesses momentos tão únicos e tão calorosos...
          No lar estavam o casal e seus filhos, perfeitos em suas humanas imperfeições, aqueles a ensinar e a repreender, estes a serem felizes a não mais poder. A decoração do lar apenas traduzia a paz e a harmonia que lá reinava, o amor que pairava como manto suave e protetor de sua gente...
          
                                                         ***

          Sozinho.
          Faz silêncio. Apenas o barulho do ventilador funcionando preenche esse espaço destituído de decoração e de cuidados. 
          As paredes nuas, cor de gelo, frias como gelo em sua monotonia desgastada, são a única imagem à frente. A mobília é pobre e já envelhece. Objetos sem nexo, sem aura, sem calor repousam sobre anteparos e prateleiras sem viço.
          O espaço é demais para o residente, que passa horas a fio sem uma companhia, sem uma palavra, sem um toque... Tudo tornou-se imponderável na virtualidade de uma vida sem calor. 
          A busca da proteção contra a dor trouxe mais dor, eis a verdade. Na fuga, na extirpação da convivência íntima, no corte profundo do corpo dessa alma, sem o cuidado na dissecção entre o útil e o inútil, tudo foi sacrificado. Como o jardim em que se lança a peçonha que visa destruir a erva daninha e se destroem também as flores, eis a aparência deste lugar... Ele reflete a alma devastada do residente, ou seu desapego por tudo o que possa representar o sofrimento.
          Se somente à morte não há sofrimento, lúcido é deduzir que ali jaz um zumbi que entra e sai, que vai e vem, que respira e ri, que habita... tão-somente habita...
          Em meio ao cenário desolador, uma pintura, um óleo sobre tela, presente de um amigo, daqueles que também habitou um lar um dia. Presa a uma parede que se embrenha ao fundo, a pintura mostra um jardim, sempre um jardim, o único jardim deste lugar... 
          No mais as mudas de roupas, suspensas, inertes, adquiridas para cobrir não do frio, não do calor, antes da dor e do medo. Somente roupas. Nada além de roupas...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Tudo em vão?


          Outro dia bradei a plenos pulmões: -"Não me elogiem! A qualquer momento posso falhar!"
          Amiúde tenho ouvido falar em decepção. Tantas e tantas pessoas se dizendo decepcionadas, como se elas próprias não fossem a fonte de decepção de outras tantas. Ou isso ou devem julgar-se perfeitas a ponto de nunca falhar. 
          Eu dizia: -"O elogio é a véspera da decepção." Como não o seria? Se somos imperfeitos, falhamos. Se esperamos o amor de alguém supostamente infalível, de alguém que não nos decepcione, que esperamos? Esperamos o impossível, duro admitir.
          Entretanto, há, sim, uma única decepção possível e legítima: - seria aquela em que se surpreende em alguém uma essência desfigurada, corrompida, desvirtuada, mascarada, a esconder malignamente, sob a pele de cordeiro, o lobo voraz e hediondo. A virtude maior para nós humanos não é a perfeição, mas a busca desta. A virtude maior é o tornar-se juiz implacável de si mesmo, quando ouvimos o monstro que habita em nosso âmago rosnar a querer saltar cá fora. 
          Se perdemos de vista nossa falibilidade, julgamos-nos aptos a apedrejar, esquecendo que ali ao lado, bem pertinho, escrevendo ao chão na areia, está o Cristo a nos lembrar que nenhum de nós tem tal autoridade. 
          Outro dia bradei a plenos pulmões, farto das injúrias que me soterravam, espírito revolto por injustiças que se levantavam contra mim (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Vergonha-sobre-mim-b1-p29.htm): -"Todo canalha é sortudo; e eu não sou diferente." Numa indignada ira fazia, veladamente, o auto-elogio mais descarado de que se tem notícia. Para se ter uma parva idéia de meu descaramento, muitas pessoas que assistiam à cena julgavam-me – pasmem! – um suicida de véu e grinalda. De tanto me imputar graves defeitos, criam piamente em meu elevado grau de desamor próprio. Não perceberam que estava ali a defender-me, a me elogiar, a me enaltecer. Porque quando querem nos levar ao chão, à lona dos derrotados, nossa indignação é o que nos salva; é quando lembramos que temos, sim, valor, ainda que falíveis. Então, na mesma cena deplorei o elogio e enalteci a mim mesmo. 
          Ora, que fazer?.... Que fazer quando alguém que não tem autoridade te quer punir e imputar a ti falhas que não cometeste? Até o Cristo – aquele, sim, perfeito – irou-se quando pretenderam transformar seu templo em casa de comércio. Eu, em minha imensurável imperfeição, saí em defesa de mim mesmo. Não temia suscitar decepções a partir das acusações que me faziam: temia não sobreviver à injustiça que partia de um impuro como eu. 
          Outro dia bradei ainda aos quatro ventos e a plenos e limpos pulmões: -"Não me amem!" Rejeitava os amores lastreados em minha suposta perfeição, fadados ao obsoleto final da amargura e da já tão falada decepção. Pedia encarecidamemte que me poupassem das cobranças triviais e mesquinhas do comércio dos comuns amores. Veladamente pedia, implorava, anelava, exortava ao amor mais sublime e mais puro entre os imperfeitos . Implorava a que alguém me amasse gratuitamente, persistentemente, infinitamente... (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/09/nao-me-amem-em-18062009-ainda.html)
          Tudo em vão?... São tão pobres as palavras para dizer o que pretendo que tenho usado as entrelinhas, os espaços entre elas, as vírgulas e pontos para o fazer, porque se as uso tudo parece tão inverossímil que para tal elas não se prestam...
          Tudo em vão?... A empáfia dos que se imputam uma perfeição inexistente a lhes confinar ao isolamento do auto-endeusamento está a lhes distanciar, em tantas e tão inexoráveis decepções, do mundo real onde o amor que sobrevive é o incondicional...
          Tudo em vão?...
         

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sei lá!


Na rede social uma amiga me saiu com a seguinte pergunta: -"Onde vais passar a virada? " 
          Presumi de imediato, e dado o contexto, que quisesse saber onde eu estarei na noite de 31 de dezembro do corrente. 
          Respondi-lhe sem hesitar: -"Sei lá!" E só após responder me ficou clara uma certa rudeza de minha parte. Assumo: fui rude. Contudo, preciso deixar claro que essa impertinência não seria com minha amiga. Antes, seria com essa nossa prática de "passar a virada". Passamos a virada, na maioria das vezes, em nossa solidão de solitários. Alguém dirá que falo por mim, e direi que, sim, falo por mim. 
          Eis o mea culpa: sou um solitário de carteirinha e papel passado. Sou tão abjetamente solitário que quanto mais se ajuntam as gentes, e quanto mais se aumenta o volume do som, e quanto mais sorriem as máscaras de carne e osso, mais solitário me sinto. Eis porque me encanta o silêncio no qual conversam e se enleiam os cúmplices, uma cena raríssima de se presenciar. Ou talvez nem o seja tanto assim, posto que só eles se percebam e entendam aquela linguagem suave, harmônica e profunda que é o seu silêncio.
          Admito: além de solitário sou um invejoso de marca maior. Essa seria uma profunda lacuna em meu já combalido e claudicante caráter, não fosse por um detalhe: - invejo o intangível, o imponderável, o sublime. Como um pássaro branco que paira e plana sobre um jardim multicor, assim vejo o sublime. Seria isso a representação da figura do silêncio dos cúmplices: - um jardim repleto de flores diversas, a exalar cada uma seu perfume macio e doce, sobre o qual o pássaro impecavelmente branco se debruça, como a se deleitar magnetizado por esse momento tão singular, e por essa mistura de elementos tão puros e simples que a natureza guarda em seu seio. 
          Essa inveja absurda me arrebata em espírito, como se me fosse permitido ver e sentir o que vê e sente a ave, e me fosse permitido ver e sentir o que vêem e sentem as flores... Esse seria o silêncio e o momento mágico dos cúmplices, que tanto invejo...
          Minha rudeza – ninguém se deu conta, visto que não tenho cúmplice a me perceber– foi um sofrido lamento, e que denuncia a angústia com que me angustiam as palavras e seu excesso, porque elas não dizem o principal e o essencial (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/12/inviabilidade-de-palavras.html). Apenas o silêncio diz o que não dizem as palavras, faladas ou escritas, ou ainda que murmuradas. 
          Que importa onde se "passa a virada" se os sons, os barulhos, a inflação das palavras e abundância de máscaras permeiam uma profunda solidão? De que me serve esse catártico coquetel se o meu deleite e gozo está num único e interminável olhar a falar "Sim, eu existo!"?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Inviabilidade de palavras


          Eu queria escrever, mas não posso, não consigo. Queria dizer o que faz meu coração se irar, mas não acho as palavras. Queria dizer da frustração das palavras, quando o diálogo se mostra impossível. Queria externar a vontade do silêncio que fala mais alto que qualquer grito de socorro. 
          Engulo as letras, engulo as frases, vão-se os pontos de exclamação. As interrogações são desnecessárias, e as vírgulas mal se comportam. Uma angústia desnecessária se achega; espanto-a para a lonjura do mar, pra lá da linha do horizonte onde eu não a possa ver, numa noite de lua minguante máxima e céu nublado. 
          A percepção da necessidade de um grito em si já é uma angústia, posto que só o que nos sufoca nos impele ao grito. E se o que nos sufoca são as palavras que não se nos ouvem, de que me serve o maldito grito? O que os ouvidos não recebem de bom grado o coração rejeita feliz. Se as palavras nos sufocam, nos engasgam e impedem a comunicação, que nos resta? a não ser o silêncio de nossa indignação? 
          Quando as palavras são inviáveis, que nos resta?