sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

OS CRIMES DO COMUNISMO (excertos do prefácio de "O Livro Negro do Comunismo", por Stéphane Courtois), 2ª parte

          Além da questão da responsabilidade direta dos comunistas no poder, coloca-se a questão da cumplicidade. O Código Criminal canadense, modificado em 1987, considera, em seu artigo 7, que...são também assimilados aos crimes contra a humanidade “a tentativa, o complô, a cumplicidade após o fato, o conselho, a ajuda ou o encorajamento a respeito desse fato. Ora, dos anos 1920 aos anos 1950, os comunistas do mundo inteiro e várias outras pessoas aplaudiram com entusiasmo a política de Lenin e, em seguida, a de Stalin. Centenas de milhares de homens engajaram-se nas fileiras da Internacional Comunista nas seções locais do “partido mundial da revolução”. Nos anos 50-70, outras centenas de milhares de homens veneraram o “Grande Timoneiro” da revolução chinesa e cantaram os grandes méritos do Grande Salto Adiante ou os da Revolução Cultural. […]
       Alguns responderão que “não sabiam”. É verdade que nem sempre foi fácil saber, já que os regimes comunistas fizeram do segredo uma das estrategias de defesa privilegiadas. Mas, frequentemente, essa ignorância era tão somente resultado de uma cegueira devida à crença militante. E, desde os anos 40 e 50, muitos fatos eram conhecidos e incontestáveis. Ora, se vários desses bajuladores abandonaram seus ídolos de ontem, foi com silêncio e discrição. […]
       Joseph Berger, antigo membro do Komintern, ele próprio “expurgado” e conhecedor dos campos, cita a carta recebida de uma antiga deportada do Gulag, mas que permaneceu membro do Partido após ter retornado dos campos de concentração: “Os comunistas de minha geração aceitaram a autoridade de Stalin. Eles aprovaram seus crimes. Isso vale não somente para os comunistas soviéticos, mas também para aqueles do mundo inteiro, e essa nódoa nos marca individual e coletivamente. Só podemos apagá-la fazendo com que isso nunca mais se reproduza. O que aconteceu? Havíamos perdido a razão ou somos traidores do comunismo? A verdade é que todos nós, inclusive os que estavam mais próximos a Stalin, fizemos dos crimes o contrário do que eles realmente eram. Nós os consideramos como uma importante contribuição para a vitória do socialismo. Acreditamos que tudo o que fortalecia a potencia política do Partido Comunista da União Soviética e no mundo era uma vitória para o socialismo. Não imaginávamos jamais que pudesse haver um conflito no interior do partido entre a política e a ética”. […]
       Em sua notável obra sobre a Revolução Russa – La Tragédie Soviétique – Martin Malia traz um pouco de luz ao assunto falando “desse paradoxo: um grande ideal que levou a um grande crime” . Annie Kriegel, uma outra grande analista do comunismo, insistia nessa articulação quase necessária das duas faces do comunismo: uma luminosa e outra escura.
       A esse paradoxo Tzvetan Todorov traz uma primeira resposta: “O habitante de uma democracia ocidental queria pensar no totalitarismo como algo completamente estranho às aspirações humanas normais. Ora, o totalitarismo não teria se mantido por tanto tempo, não teria arrastado tantos indivíduos em sua senda, se ele fosse assim. Ele é, ao contrário, uma máquina de tremenda eficácia. A ideologia comunista propõe a imagem de uma sociedade melhor e nos incita a desejá-la: não faz parte da identidade humana o desejo de transformar o mundo em nome de um ideal? Além do mais, a sociedade comunista priva o indivíduo de suas responsabilidades: são sempre 'eles' quem decidem. Ora, a responsabilidade é frequentemente um fardo pesado a ser carregado.[...] A atração pelo sistema totalitário, experimentada inconscientemente por numerosos indivíduos, provém de um certo medo da liberdade e da responsabilidade – o que explica a popularidade de todos os regimes autoritários (é a tese de Erich Fromm em 'O Medo da Liberdade'); o que existe é a 'servidão voluntária', já dizia La Boétie".
       A cumplicidade daqueles que enveredaram na servidão voluntária não foi – e continua não sendo – abstrata e teórica. O simples fato de aceitar e/ou assumir uma propaganda destinada a esconder a verdade demonstrava e continua demonstrando uma cumplicidade ativa. Pois tornar público é o único meio – ainda que não seja sempre eficaz, como acaba de mostrar a tragédia de Ruanda – de lutar contra os crimes de massa cometidos em segredo, protegidos dos olhares indiscretos.[...]

(Todos os grifos são meus.)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

PRÓLOGO DE "O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO", por Stéphane Courtois

          Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o começo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relação com seu semelhante.

         Novembro de 1989: a queda do muro de Berlim e a consequente abertura dos arquivos dos países comunistas apareceram para o mundo como a derrocada final do sonho comunista. O livro negro do comunismo traz a público o saldo estarrecedor de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e miséria provocadas, que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, aniquilação de homens, mulheres, crianças, soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Os autores, historiadores que permanecem ou estiveram ligados à esquerda não hesitam em usar a palavra genocídio, pois foram cerca de cem milhões de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o número de vítimas do nazismo e até mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis. O terror – o Terror Vermelho – foi o principal instrumento utilizado por comunistas tanto para a tomada do poder quanto para a sua manutenção, e também por grupos de oposição que jamais chegaram ao governo. Os fatos demonstram: o terrorismo de oposição e o terrorismo de Estado, com frequência praticados contra o seu próprio povo, são as grandes características do comunismo no século XX. Obstinados, pragmáticos, carismáticos, os líderes comunistas, que guiariam o mundo a seu destino inelutável, têm revelada a sua face sombria: Lenin, Stalin, Mao Tsé Tung, Pol Pot, Ho Chi Ming, Fidel Castro e muitos outros tornam-se os responsáveis diretos pelas atrocidades cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares zelosos, os “obstáculos” – qualquer homem, cidade ou povo – foram sendo exterminados com violência e brutalidade. O livro negro do comunismo não quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um capítulo na polêmica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes. Vítimas ocultas por demasiado tempo soba a máquina de propaganda dos PCs espalhados pelo mundo. Algozes muitas vezes festejados e recebidos com toda a pompa pelas democracias ocidentais. Todos que de algum modo tomaram parte na aventura comunista neste século estão, doravante, obrigados a rever as suas certezas e convicções. Encontra-se, assim, uma das principais virtudes deste livro: à luz dos fatos aqui revelados, o Terror Vermelho deve estar presente na consciência dos que ainda creem num futuro para o comunismo.

(Todos os grifos são meus.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

OS CRIMES DO COMUNISMO (excertos do prefácio de "O Livro Negro do Comunismo", por Stéphane Courtois), 1ª parte

          Já se escreveu que “a história é a ciência da infelicidade dos homens”; nosso século de violência parece confirmar essa fórmula de maneira eloquente. É verdade que nos séculos precedentes poucos povos e poucos Estados estiveram isentos da violência de massa. ...
           Não resta dúvida de que, a esse respeito, nosso século deve ter ultrapassado seus predecessores. …
          O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histórico transbordante de tragédias, chegando mesmo a constituir um de seus momentos mais intensos e mais significativos. …
          Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prática do comunismo real, foi este quem pôs em prática uma repressão metódica, chegando a instituir, em momentos de grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? …”na verdade, as revoluções são como as árvores, elas são reconhecidas através de seus frutos”. …
          Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para assegurar o poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo. …
          Nenhuma das experiências comunistas, populares durante algum tempo no Ocidente, escapou a essa lei. …
          Ora, os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista moral. …
          Os crimes que expomos neste livro não se definem em relação à jurisdição dos regimes comunistas, mas ao código não escrito dos direitos naturais da humanidade. …
          A história dos regimes e dos partidos comunistas, de sua política, de suas relações com as sociedades nacionais e com a comunidade internacional não se resume a essa dimensão criminosa, ou mesmo a uma dimensão de terror e de repressão. Na URSS e nas “democracias populares” depois da morte de Stalin, na China após a morte de Mao, o terror atenuou-se, a sociedade começou a retomar suas cores, a “coexistência pacífica” – mesmo sendo ainda “uma continuação da luta de classes sob outras formas” – tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os arquivos e os testemunhos abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimensões fundamentais do comunismo moderno. …
          Abandonemos a ideia de que tal execução de reféns, tal massacre de trabalhadores revoltados, tal hecatombe de camponeses mortos de fome, foram somente “acidentes” conjunturais, próprios a tais países ou a tal época. O nosso método...considera a dimensão criminosa como uma das dimensões próprias ao conjunto do sistema comunista, durante todo o período de sua existência.
          O comunismo cometeu inúmeros (crimes): inicialmente crimes contra o espírito, mas também crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucesco destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados pelos Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens, de mulheres, de crianças?
          Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenômeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por meios diversos – fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou acidente de automóvel; destruição pela fome – indigência provocada e/ou não socorrida; deportação – a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabalhos forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de “guerra civil” é mais complexo: não é fácil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.
          Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
- URSS: 20 milhões de mortos;
- China: 65 milhões de mortos;
- Vietnã: 1 milhão de mortos;
- Coreia do Norte: 2 milhões de mortos;
- Camboja: 2 milhões de mortos;
- Leste Europeu: 1 milhão de mortos;
- América Latina: 150 mil mortos;
- África: 1,7 milhão de mortos;
- Afeganistão: 1,5 milhão de mortos;
- Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder: uma dezena de milhões de mortos.
          O total se aproxima da faixa dos 100 milhões de mortos. …
         Nosso propósito aqui não é o de estabelecer uma macabra aritmética comparativa qualquer, uma contabilidade duplicada do terror, uma hierarquia da crueldade. Entretanto, os fatos são tenazes e mostram que os regimes comunistas cometeram crimes concernentes a aproximadamente 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa simples constatação deve, pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a semelhança entre o regime que foi considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do século e um sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro.

(A ser continuado.)

domingo, 13 de dezembro de 2015

UM VINHO NASCIDO VINAGRE

       Já disse várias vezes de minha ojeriza aos jornais locais. Hoje, por exemplo, uma amiga me enviou por mensagem no telefone portátil o link de uma reportagem de certo periódico. A matéria dava conta de uma empresa norte-americana produtora de vinhos cujo nome agora me escapa e que acaba de engarrafar o vinho Fortaleza. Ora, o vinho foi inspirado, segundo a matéria, em nossa cidade.
      (Lembrei agorinha o nome da vinícola: Villa Bellezza; assim mesmo, com essa abundância de eles e zês.)
      Eu disse que o processo de criação do vinho foi inspirado em nossa cidade? Se disse, acho que me equivoquei... Não, não me equivoquei. De fato, o proprietário da vinícola, que “sempre foi interessado em diferentes culturas e países, sempre gostou muito do nome Fortaleza e sempre perguntava sobre seu significado”, após ouvir da enóloga cearense Elea Aguiar – ela é funcionária da vinícola – sobre a origem e a história de Fortaleza, “adorou a ideia de nomear um vinho que inspirasse um pouco a cidade”.
         O proprietário da ilustre empresa, Derick Dahlen, resolveu criar o Fortaleza, “um vinho tinto fino seco e que possui aromas complexos de frutas pretas, sabor de amoras e ameixas”, porque gostava do nome de nossa cidade. Ora, confesso que, ao ler a descrição do sabor do Fortaleza, encheu-se-me a boca. Tive abundante sialorreia, tamanha a vontade de degustá-lo. De fato, também essa Fortaleza-cidade já teve sabores, aromas e perfumes complexos, atrativos de seus mil encantos. Entretanto, lamentável e forçoso dizer, como a nobre fruta que cai da árvore que a produziu abandonada às intempéries e aos germes peçonhentos da decomposição, a Fortaleza-cidade também degenerou, também azedou, também apodreceu... Deixada ao desamparo e carregando dentro de si inconsequências históricas e fissuras sociais perenizadas, cresceu como a metástase das malignidades implacáveis que corroem o organismo aos poucos para depois abandonar-lhe a carcaça deitada à margem, como cadáver indigente... A Fortaleza-cidade do dia-a-dia de seus filhos seria a disgeusia do degustador do Fortaleza, o vinho norte-americano que encheu de orgulho bairrista a enóloga cearense que ganha em dólar, o sonho de centenas de milhares de seus filhos esclarecidos que custam inexplicavelmente a entender o porquê de tamanha degradação.
        Não bastasse essa simples e pouco pretensiosa reportagem, deparo-me, desta vez na rede social, com outras, sim, outras três matérias jornalísticas que me fisgaram tão logo lhes li o título. A primeira delas me encheu de depressivo horror. A prefeitura de Fortaleza vai realizar, na festa de réveillon deste ano no próximo dia 31 de dezembro, a maior queima de fogos do país. Seguramente irá contratar artistas a peso de ouro para animar (?) a festa. Em suma, o país mergulhado numa crise econômica sem precedentes, os serviços básicos, como a saúde pública, assistindo à morte e ao sofrimento de milhares de fortalezenses por corte no repasse de recursos para o setor, o desemprego grassando, a miséria aumentando... e a prefeitura de Fortaleza gastando na “maior queima de fogos” do país. Está-se tentando inflamar um outro orgulho bairrista inútil e perverso...
      A segunda reportagem li-a cheio de suspeitas e desconfianças. Ela dá conta da ocupação de 100% dos leitos de hotelaria da cidade por ocasião da festa onde ocorrerá a tal queima de fogos de artifício. O que excitava minhas suspeitas era a seguinte questão – há alguma relação entre a queima de fogos promovida pela irresponsável prefeitura de Fortaleza e os 100% de ocupação da rede hoteleira da cidade? Para mim, não apenas há uma relação mais que direta, mas uma relação promíscua e criminosa. Os leitores a julguem.
    A terceira reportagem informa que os funcionários da Saúde do Estado estão “devendo” mais de 136 mil horas de trabalho a seu patrão. E por quê? Porque, com a vigência do chamado “ponto eletrônico”, constatou-se que há sérias “fragilidades” na avaliação das “horas trabalhadas” do pessoal da Saúde.
       Não há a menor sombra de dúvida que é legítimo, por parte do Estado empregador, cobrar de seus funcionários a que cumpram a carga horária estipulada à realização do concurso público. Causa espécie, entretanto, dois aspectos. Primeiro, o Estado, até então omisso quanto à cobrança deste item, não estava preocupado com o cumprimento desta carga horária. Dizendo assim parece que ninguém trabalhava, uma suposição que está tão longe da verdade quanto a Terra está longe de Betelgeuse.
     Os funcionários dos hospitais geridos pelo Estado do Ceará trabalham e sempre trabalharam cumprido a sua carga horária. As supostas 136 mil horas em falta são apenas o atestado de incompetência do Estado em avaliar, em sua míope visão burocrática, o que o funcionalismo tem feito ao longo dos anos. Quero dizer apenas que o funcionário do Estado tem trabalhado com afinco e no cumprimento de suas obrigações de carga horária todos esses anos, apesar da “ausência” de seu patrão. A explicação para a recente “preocupação” do gestor para este item, e aqui está o segundo aspecto a nos causar espécie, deve-se apenas a uma conjunção incômoda, para o poder público, de algumas variáveis: primeiro, a falência completa da Saúde Pública devido a incompetência e irresponsabilidade do Estado e, segundo, à consequente necessidade do ente estatal de, reconhecidas a sua incompetência e irresponsabilidade, tomar alguma “atitude” que faça parecer que algo está sendo feito quando, de fato, nada do que realmente precisa ser feito está sendo. A prova disso é a queima irresponsável e inconsequente de fogos de artifício num cenário de caos nas finanças públicas. Estivéssemos num país sério e estes senhores estariam sendo presos sem demora. Estão vindo a público demonstrar um pretenso zelo quando de fato são os carrascos daquilo que pretendem salvar.
      Há sérias distorções no cumprimento desta carga horária? Certamente que, sim, há; distorções pontuais que o Estado bem conhece e que, sem delongas, existem, mais uma vez, por sua ausência na fiscalização e zelo. Mas daí a vir a público afirmar com alarde que mais de 136 mil horas de trabalho a ele são devidas já é demais. O Estado, que no Brasil tudo pode, está se aproveitando de sua própria ingerência, incompetência e irresponsabilidade para desviar de si o dedo que lhe aponta a culpa. A caótica e criminosa situação da Saúde Pública não se deve a essas “horas devidas” mas, sim, ao colapso da gestão estatal, notadamente no financiamento fruto da corrupção, da corrupção e da corrupção dos agentes estatais. Os noticiários diários deixam claro – a corrupção brasileira atingiu patamares intoleráveis. O que estamos assistindo, mais uma vez, é o corrupto em ação, tentando culpar a terceiros pelos seus graves crimes.  

sábado, 12 de dezembro de 2015

OS COCOS E OS CHIFRES DO CARLINHOS

        Afirmaria sem medo de errar: – o coco do Carlinhos é o mais barato da Beira-Mar. Dos parcos 3 mil metros de extensão da Avenida Beira-Mar, é o Carlinhos quem vende o coco mais barato. Digamos de uma vez, a fim de que não reste nenhuma sombra de dúvidas – o coco do Carlinhos custa dois reais. (Escrevamos a cifra a fim de que ela permaneça impressa na memória visual do leitor: R$ 2,00.)
        E não somente na Beira-Mar, mas em seus arredores é também o Carlinhos o campeão do preço baixo. Seus concorrentes – todos, sem nenhuma exceção – cobram 50% a mais no coco: – três reais (R$ 3,00). De forma inversa, a fim de que se coloque esses concorrentes em evidência, o Carlinhos vende seu coco com um desconto de 33,33% em relação ao preço praticado pelo cartel dos vendedores de coco da Beira-Mar. (Suspeito que esse cartel se estenda por toda essa Fortaleza e o coco do Carlinhos seja o único vendido ao menor preço da cidade.)
      Já supus inúmeras razões para essa exorbitante diferença, mas todas elas caíram por terra. Cheguei a pensar ser menor o coco vendido pelo Carlinhos. Sendo menor, teria menos água e, portanto, custaria menos. Pura e vazia suposição – o coco do Carlinhos tem água em volume igual ao do coco dos outros vendedores. Pensei, por outra, que seu custo para vender fosse menor. Pura balela. Ele traz o coco diariamente em sua Kombi inteiramente adaptada para transportar os refrigeradores repletos de coco, com a gasolina a quase R$ 4,00. Ao final, concluí que seus custos são iguais ou até um pouco maiores que o de seus concorrentes. Assim, permanece a dúvida – por que diachos o Carlinhos vende seu coco a um preço 1/3 menor?
        Em verdade, talvez a pergunta não fosse essa. Talvez a pergunta mais adequada seja: – por que todos os vendedores de coco da Beira-Mar vendem um coco tão caro? Prometo aos açodados leitores pesquisar mais a fundo a questão a fim de esclarecê-la. Enviarei o meu amigo Ponciano, mais chegado ao Carlinhos, a que lhe inquira um pouco mais sobre seu negócio de venda de coco. Quem sabe ele não descobre seu segredo?!...
       Quanto aos demais vendedores, em bem maior número, nada vejo que possa fazer a fim de arrancar deles a explicação. Está claro que estão todos alinhados na não-concorrência, aquele tipo de comportamento que mais agrada boa parte do empresariado brasileiro. Concorrência significa ameaça ao negócio. Para sobreviver diante de tal ameaça há que se reinventar o negócio a fim de criar diferenciais que o tornem mais atraente aos olhos do cliente a um preço justo. O mais barato nem sempre é o melhor.
        A outra possibilidade de sobrevivência é justamente o que fazem os vendedores de coco da Beira-Mar – igualam-se em tudo, a começar pelo preço. Essa equalização garante que todos sobrevivam, nem que seja ao custo de um serviço medíocre e pouco atraente. Mas, quem se importa? Ninguém se importa. O brasileiro gosta de dinheiro, como todo mundo. O que ele não gosta é de ter que trabalhar duro para obtê-lo.
         O fato é que o Carlinhos já vende seu produto mais barato há vários anos. Quando o conheci, temi por sua vida. Sabe-se lá... Hoje em dia tudo é possível. A máscara do brasileiro caiu. Descobriu-se, ao longo dos últimos quinze anos, que o brasileiro é um dos povos que mais odeia atualmente. O Carlinhos, ao vender seu coco barato, poderia pôr em risco o cartel formado por seus concorrentes. Felizmente, o tempo demonstrou que eu estava errado. A venda do Carlinhos em nada afetou a de seus concorrentes, de modo que eles não deram a mínima. Seguramente não há interferência do Carlinhos no cômputo geral.
        Agora vejam como percentuais servem muitas vezes a impressionar. Em outras palavras, o percentual é uma operação matemática que serve ao engano. Vejamos um exemplo.
       Quanto é 100% de 1? Resposta – 100% de 1 é 1. O algarismo 1 representa uma pequena quantidade. Se vendo em produto a R$ 1,00 e majoro seu preço a R$ 2,00, pratico um aumento de 100%. O diabo é que R$ 1,00 é um valor irrisório, não fará falta ao bolso de muita gente. Dirá alguém que quem paga R$ 1,00 paga R$ 2,00, e provavelmente terá razão. Da mesma forma, quem dá R$ 2,00 por um coco, não reclamará se der R$ 3,00. O aumento de R$ 1,00 no preço da fruta em nada afetou o bolso do burguês frequentador da Avenida Beira-Mar. Antes de os concorrentes do Carlinhos se importunarem com sua “concorrência desleal”, os clientes não se importaram com essa abissal diferença percentual, de modo que os concorrentes permanecem felizes até hoje e o risco de vida do Carlinhos se dissipou como uma tênue névoa que se deixa espalhar.
          De minha parte, o que agora me preocupa são os chifres que lhe pôs a mulher do Carlinhos. Sim, soube pelo Ponciano. O homem está arrasado, numa tristeza cósmica e sofrente. Entre o suposto risco de vida que jamais se concretizou e os chifres declarados, suspeito que o Carlinhos preferiria o primeiro. É melhor um morto honrado que um vivo achincalhado. Será que o Carlinhos está pensando em se matar?  

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

QUASE-SONETO DA FOTO SEM ALMA (do meu Amigo Asclépio Aguiar)

Nasce um poema bem cândido,
Um jogo, um vaivém de lamentos.
Simples, meio-férvido, cálido.
Choro que esparrama em tormentos.

Renasce, antiga face, velha foto,
Remota e breve em alma-amiga.
Carrega-me, arrebata-me e abriga,
Em leve-breve-precisa-cantiga.

Ampara, não desiste.
Acode, não abdica.
Resguarda, não recusa.
Acalanta, não renuncia...

Foto, espectro e alma:
Espírito que flana e vagueia;
Prenúncio que desalma na mão-palma.

Foto que nem cede e nem larga:
Caça em clama da calma;
Foto e queixa em prantos d'alma.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

JUSTIÇA? QUE JUSTIÇA?

    Foi há muito tempo. Sim, há quase 30 anos. Era um velório em casa. Sim, o defunto de antigamente era velado em casa.
       Antes se morava em casas. Os prédios residenciais existiam, mas eram de uma raridade infinita. E os que tinham o disparate de existir não subiam mais que três ou quatro andares. Os apartamentos desses prédios eram enormes, quase do tamanho de uma casa. Era como se os prédios fossem compostos de inúmeras casas, empilhadas em duas ou mais colunas. (Hoje há prédios com casas empilhadas em coluna única.)
        Com o crescimento estrondoso no número de prédios residenciais cresceu também o preconceito da morte e a vergonha da morte. Nos prédios residenciais há o elevador e a escada. Nem um nem outro foi projetado para dar passagem a esquifes com defuntos a lhes rechear. Que absurdo! Imaginem o disparate: o sujeito vai descer do décimo andar para ir ao trabalho e, ao abrir-se a porta do elevador, dá de cara com a família do andar de cima, descendo com seu ente querido morto e empacotado naquele terno de madeira de lei brilhantemente envernizada, dotado de janela de vidro e alças roliças dobráveis... Bem se vê a virtual impossibilidade de essa cena virar realidade aos dias de hoje.
          Eis que lá estava eu no velório e alguém puxou-me pelo braço. Queria me apresentar alguém. Eu era um jovem médico, já na prática da Residência em Cirurgia Geral. Meu parente, orgulhoso de mim, queria apresentar-me o Desembargador. Eu, de minha parte, não me impressionava com Juízes ou Desembargadores.
          Meu parente passou ao homem meu résumé, exibindo nas fuças o orgulho por ter um médico na família. O homem estava derreado na cadeira de balanço, exibindo na cabeça suas cãs que mais se assemelhavam a um chinó confeccionado em felpudo e macio algodão. Usava um par de óculos enormes e escuros. Retirou-os momentaneamente para coçar o sobrolho enquanto ouvia o parente puxa-sacos. Nesse instante, pude ver-lhe os olhos, verdes como um par de esmeraldas. Sua tez era alva e corada, como só aos bem-nascidos ocorre, apesar de seus presumíveis 80 anos. 
         Quando meu parente cessou a ode que me fazia, talvez tentando impressioná-lo, ele comentou seco:
          -“O advogado e a Justiça são mais necessários do que vocês médicos e a medicina”...
          Fez uma breve pausa para pigarrear e continuou:
         -”...porque a liberdade é mais importante do que a própria vida. Sem liberdade, de que vale a vida”?...
          Permaneci calado ante a essa constatação para mim inusitada. Outrossim, quem seria eu do “alto” de meus vinte e poucos anos? Nada, eis a verdade. Eu nada era. Eu nada sabia. Calado estava, calado permaneci, limitando-me a cumprimentá-lo com uma deferência.
          Não sei se lhes contei que o Amorim – sim, reapareceu o Amorim depois de um longo e tenebroso inverno – está já há algum tempo às voltas com a Justiça. Negócio de vara de família, divórcio, partilha de bens, pensão alimentícia, e por aí vai. O pobre amigo exaspera-se com a demora e até com o que considera omissão dessa mesma Justiça. Exaspera-se com os prazos. Tudo na Justiça brasileira, é do conhecimento de todos, é 5 a 10 vezes mais demorado, por exemplo, do que a gestação da aliá, a fêmea do elefante, que beira os 2 anos.
          Não fossem os já alargados prazos constantes nos diversos Códigos de Processo Penal, Civil, etc. etc. etc., ainda há os chamados “recessos” forenses os quais nada têm a ver com as férias do pessoal da Justiça, entre eles esses senhores que se imaginam acima do Bem e do Mal. Nesses “recessos” a Justiça funciona em regime de plantão, absolutamente insuficiente para dar conta da demanda que lhe bate à porta.
          Pena que Sua Excelência, o idoso Desembargador a quem me introduziram naquele longínquo velório está, muito provavelmente, morto, a não ser que seja um daqueles centenários imortais e “imorríveis”. Se vivo fosse, perguntar-lhe-ia como é possível que algo tão mais importante do que a vida humana seja tão moroso, tão incompetente em prestar o serviço a que se propõe ao povo, negando-lhe a liberdade que tanto almejam e imperdoavelmente prolongando sua agonia por lapso de tempo tão amplo? Sim, porque a liberdade a que me refiro agora não é necessariamente a de ir e vir, mas a libertadora decisão da Justiça para seus litígios intermináveis e torturantes. Quem busca uma decisão judicial a quer já, sem demora, sem delongas. Enquanto os médicos estão ali no plantão ininterrupto 365 dias e noites ao ano, sem direito a “recessos” irresponsáveis e criminosos, porquanto o bem valioso, a vida, merece zelo e depende dessa assistência que nunca acaba, os “ícones” da Justiça se retiram sem ligar a mínima que haja alguém angustiado e até tolhido em seus direitos, impotentes e desejosos de se verem livres da disputa. Imaginem se os médicos das emergências resolvessem sair em “recesso” duas vezes ao ano como fazem esses “picas-grossas” insensíveis. Haveria sofrimento, dor, mutilação e morte e não sobrariam clientes a baterem na porta da Justiça nem mesmo para se angustiar. Estariam todos mortos ou impossibilitados de lá irem e a importância capital da Justiça não faria o menor sentido. Eu diria ao honrado Desembargador de 30 anos atrás que, se a vida tem menos importância que a liberdade, a Justiça brasileira tem tornado a vida do brasileiro comum que dela precisa uma miséria, uma miséria sem importância alguma.

                        Uma justiça retardada é uma justiça negada (Martin Luther King Jr.)