quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pica-grossa assumido

          Outro dia, não faz muito tempo, encontrei meu mui querido e estimado amigo Paulo Dourado. Foi numa feijoada da Unimed, a propósito das eleições. Não sei se sabem, mas tenho por ele um carinho especial. Ele é um homem afetuoso, manso, humilde e culto. Afora toda essa lista elogiosa e suspeita, o amigo é médico de branco, no dizer de Pedro Nava; de uma brancura rara nos tempos atuais. 
          O Paulinho é cirurgião geral e trabalha com meu outro mui caro amigo Fernando Siqueira, cirurgião de mão cheia, e escritor de mão mais cheia ainda. (Este Siqueira era dos que tomavam comigo e uma penca de outros estudantes maristas o ônibus da antiga linha Quitandinha de volta aos nossos lares terminadas as aulas, lá pelos idos anos '70. O assunto dá trela para maiores considerações noutra oportunidade.) Ambos foram dos pioneiros a fazer avançar, no Ceará, a operação anti-refluxo por via laparoscópica e, algum tempo depois, a operação bariátrica para a obesidade mórbida, seguindo os passos, nesta última, do também estimado doutor Luís Moura. A dupla já reuniu elevada casuística nessas operações e o Paulinho já esteve, se não me engano, mais de uma vez na Europa a apresentar sua experiência com a técnica das operações e os bons resultados obtidos por eles. 
          Ocorre que, como diz o meu querido Siqueira, eu sou um sacana. Ao que me parece, no melhor dos sentidos. E por que diz isso o amigo de desde o tempo em que usávamos cueiros? Ora, o caso é de uma simplicidade como qualquer das quatro operações matemáticas. Vamos a ele.
          Não pude deixar de me encher de vaidade e orgulho por ter como amigos dois expoentes da medicina do estado que já começavam a ganhar o mundo. Vamos e venhamos: - não é todo mundo que tem amigos famosos. Até bem pouco tempo o amigo mais famoso que eu tinha era o Casoba, vastamente conhecido até o dia em que resolveu dar sumiço em si mesmo, dar cabo da própria fama, desaparecer da vida como se já defunto fosse. Era tão famoso o Casoba e tão unha e carne comigo que eu não podia adentrar uma sala, uma bodega, uma oficina mecânica, um bar, um hospital sem que me perguntassem do homem. Os mais abusados diziam: -"Cadê o guarda-costas?" E outros: -"Como vai 'a sombra'?" Sim, era famosíssimo o Casoba, mas apenas por essas paragens; não na Suécia ou em França. Nem em Sobral, donde é filho o sumido amigo, se ouve mais falar dele. Assim, com o sumiço de meu mais famoso amigo corria eu o risco de perder o elo com o mundo da fama e da glória. Foi justamente nesse interlúdio que me chegam ao auge os amigos Paulinho e Siqueira. Já bateram, inclusive, o ex-famoso Casoba. Mas vejam que tanto falo e não falo do Paulinho.
          Nosso encontro foi repleto de calorosos e apertados abraços, como sói acontecer entre os que verdadeiramente se gostam. Ali mesmo, em meio àquela multidão, perguntei em alta voz se havia ali alguém que não conhecesse aquele "pica-grossa". 
          Ninguém pense que vai aí um termo chulo na caracterização do amigo. Para os que não sabem, "pica-grossa" é o sujeito que logra o posto da autoridade, do reconhecimento por feitos inéditos, da iconicidade em sua área de atuação. Destarte, desde que a dupla de amigos alcançou o disse-me-disse do glamour científico sempre os trato exatamente como exige seu posto: -"Como é que vai esse cirurgião 'pica-grossa'?" 
          E onde quer que seja, ao encontrar um ou outro, já vou cumprimentando: -"Bom dia, 'pica-grossa'!" Eles, por sua vez, viam nesse meu fanatismo incontido uma gozação, uma mordacidade, uma pilhéria de minha parte, e riam-se a não mais poder. Só levaram a sério a minha admiração e tributo quando pus em suas mãos minha mãe para se submeter a uma operação. Entrei na sala e, para não perder a viagem, bradei: -"Como vão os meus amigos 'picas-grossas'?" Desnecessário salientar que a operação foi um sucesso. 
          Dias depois reencontro o Paulinho à entrada do hospital. Puxa-me pelo braço a um canto e me diz com um sorriso aberto nas faces coradas: -"Lembrei-me de ti ontem, no consultório!" Quis saber: -"Por quê, 'pica-grossa'?" E passou a relatar o caso de uma senhora que ele operara. Era um enorme tumor de fígado nesta senhora, que viera do Norte procurar o famoso amigo. A fama faz dessas coisas milagrosas: põe face a face a oportunidade e o preparo. E dizia-me ele que era um tumor verdadeiramente gigante.
          Para os leigos devo esclarecer: - o fígado é um órgão difícil de se abordar cirurgicamente e, por isso, requer por parte do cirurgião que opera conhecimento anatômico detalhado, tirocínio cirúrgico, audácia consciente, habilidade, técnica cirúrgica apurada e experiência. Em suma: o cirurgião tem que ser bom! 
          Pois o Paulinho me dizia que arrancou o bicho inteirinho deixando à paciente uma nesga de tecido hepático que será o suficiente a que ela viva uma vida normal e confortável. Em outras palavras, curou a paciente. 
          Eu quis saber: -"E onde entro nessa história aí, Paulinho?" O sorriso se abriu ainda mais; ia de orelha a orelha: -"A paciente foi tão bem ao consultório que olhando para ela eu pensava: 'sou um cirurgião pica-grossa mesmo!" Gargalhei tão alto que os transeuntes se viravam a olhar pra mim.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Casa dos horrores

          Poderia ter preenchido três ao invés de dois atestados de óbito. O terceiro foi feito pelo colega do CTI, já que o paciente lá estava.
          O primeiro morreu no fim da tarde, sem ambas as pernas. Eu estava no bloco cirúrgico quando me chamaram às pressas, alguém dizendo que um dos doentes passava mal. Quando cheguei à enfermaria ele já estava morto. Ensaiei uma massagem cardíaca como se tivesse a obrigação daquela manobra nestas situações, mas sabia que ele já se fora e nada poderia trazê-lo de volta. Ademais, o que ele faria sem as pernas? Era muito pobre, socialmente ele não existia havia tempo, coitado. Pude perceber a dureza e inelasticidade de seu tórax; com certeza lhe quebraria algumas costelas se insistisse em massagear.  Também não pude deixar de notar que seria preciso deitá-lo ao chão caso houvesse uma chance de reanimá-lo, pois seu leito era fofo e não havia uma tábua que pudéssemos usar para apoiar durante a massagem. Suas feridas cirúrgicas estavam semi-abertas e a pele em torno anunciava a gangrena. O pus escorria malcheiroso. A cena era patética. Foi inevitável lembrar que ele chegara andando, ainda que ciente da ameaça de perder uma das pernas. Pois bem: a doença comeu a perna doente e o doutor comeu a sadia. Em consequência, a morte. E lá foi-se seu Hermes de Oliveira.
          O segundo morreu à madrugada, eram duas e meia. Acordei sobressaltado, a menina me chamando na enfermaria para fazer o atestado de óbito. Ela internara dias antes e também tinha a perna ameaçada pela gangrena. O pior é que seu coração era fraquinho e não suportou as duas operações. Poderia ter sido só uma, mas o doutor resolveu que seriam duas, para aumentar o risco. Tivera uma apoplexia após a segunda  operação. O fato é que aumentaram-lhe as chances de ter complicações e aí está a lei de Murphy que não me deixa mentir. Tudo poderia ter dado certo mas não se providenciaram os preparativos e as assistências necessários. Com efeito, e para falar a verdade, o hospital não é um hospital. São vários hospitais funcionando em único edifício. Tem gente de todas as especialidades médicas, mas ninguém se mete com ninguém. Em outras palavras, dissecaram a medicina que, no caso, chama-se "merdicina". O doente da cirurgia vascular, que também é doente do coração, e do pulmão, e dos rins, e dos olhos, e do cérebro, vai ter seus vasos desentupidos a qualquer custo, não importa que morra por outros motivos. Afinal, o doutor todo-poderoso cirurgião vascular tem que chegar à beira do heroísmo. Os outros, que não cuidaram devidamente do paciente, que assumam a sua responsabilidade. Isso sem falar no grande e verdadeiro responsável: o doente. Sim, o doente carrega duas culpas: a primeira por ter caído doente; a segunda por ter nascido no país de faz-de-conta-que-se-faz-medicina. E lá se foi dona Manoela Damaso.
           O terceiro morreu e só fiquei sabendo pela manhã. Foi o doente operado no dia anterior. Ou seja, não durou nem doze horas após acabada a operação. Acho até que durou muito. Pensei que fosse morrer na mesa, tamanha a agressão do ato. Sangrou todo o seu sangue e mais o transfundido. Perguntava-me como pode um paciente sangrar na mesa daquela maneira e quase nada ser feito pela equipe para evitá-lo. O pior é que o operador cantarolava uma música idiota enquanto dilacerava-lhe a aorta. Alguém, lembro-me, chamou a atenção para a situação crítica, mas de nada adiantou. Preferiu-se "dar sopa" pro azar. Claro é que isso é conversa fiada. Azar é se atravessar a Presidente Vargas segunda-feira às cinco da tarde, sem olhar para o lado, e ser atropelado por uma vaca. E que tal lembrar-se do adágio cirúrgico "first, do no harm"? E lá foi-se seu fulano de tal, pois nem cheguei a conhecê-lo, já que foi uma operação de urgência. Durante a operação se confirmou o que já se sabia com certeza – não havia urgência alguma. Se houvesse ele teria sido operado há quatro dias quando lhe foi constatada a suposta urgência. 
          Que será que diria o Richard Gordon ao saber de tudo isso? Presumo que iria querer incluir na próxima edição de seu "Os grandes desastres da medicina", cedendo-me parte dos direitos autorais. E eu bem que aceitaria. A diferença é que as vítimas, nas minhas histórias, eram eminências pardas.

Rio, 26.11.1998

sábado, 25 de agosto de 2012

Ardiloso faz-de-conta


          Foi o Assis Chateubriand quem disse: " Se quiser ter opinião, compre um jornal".  Ele queria dizer, na verdade, que para influenciar a mente das pessoas o sujeito teria de necessariamente ser proprietário de um jornal. Para ele, opiniões restritas a círculos de amigos ou a pequenos grupos sociais nada significavam nem em nada interfeririam no modo de pensar das pessoas, ao passo que de posse de um veículo poderoso como a redação de um periódico o sujeito poderia fazer e acontecer.
          Nada mais belo que a livre imprensa, assim como nada mais belo que a livre empresa. Por que também não dizer "nada mais belo que o livre governo!" ou "nada mais belo que a independência, a liberdade mútua, dos poderes da república!"? Se todos são livres, quem os controla? Resposta: eles controlam-se entre si; fiscalizam-se entre si. Caberia, a essas alturas do argumento, a seguinte questão: o que se poderia fazer para liberar cada um desses elementos do controle exercido pelo outro? Resposta: cada um se calaria ante o que faz o outro. Em outras palavras, cada um se venderia ao outro. Instalar-se-ia, então, a sociedade do faz-de-conta. 
          Não vejo porquê esses senhores defendem o controle externo da imprensa, por exemplo. É um temor desnecessário e infundado, o seu. Tudo está concatenado para se fazer muito barulho por nada. Já tudo está arranjado. Ninguém precisa se acabrunhar nem se preocupar. Todos estão a cuidar de todos. Por exemplo, os empresários se pelavam de medo das "esquerdas". E o que aconteceu foi que descobriram o inimaginável: - com as "esquerdas" no poder eles perceberam que poderiam ganhar ainda mais dinheiro. As "esquerdas", ao que tudo indica mais venais e corruptas do que seus arqui-rivais da "direita", promoveram um crescente no ciclo de negociatas do poder. 
          Que fizeram os empresários? Nada. Ou, melhor, participaram cada vez mais na política das "esquerdas", financiaram-nas cada vez mais, e receberam em troca mais e mais negócios rentáveis. Pouco importa a eles o que haja na educação, na saúde, na segurança pública. Eles continuarão vivendo em seu "país" particular, no Brasil paralelo que as "esquerdas" odeiam, mas que, ironicamente, através de suas próprias mãos ajudam a manter e até a medrar com mais pujança ainda. Continuam tendo suas escolas, hospitais e segurança particular. Dane-se o Brasil real! Não dão a mínima. 
          Paremos. A crônica está uma confusão só. Comecei falando no Chateubriand porque ia falar da imprensa. Alguém com o mínimo de bom senso que se dignar a ler o editorial da edição de hoje do jornal O Povo acabará por se indignar (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/08/25/noticiasjornalopiniao,2906609/sistema-de-cotas-justica-social-e-reforco-a-democratizacao.shtml). Em suma, o editorialista defende, como muitos outros insensatos, o sistema de cotas para as universidades. Diz ele que "administrações passadas" foram as responsáveis pelo recrudescimento do fosso social brasileiro por terem sucateado a rede pública de ensino e dado ênfase ao ensino privado. E completa sua argumentação desculpando o governo: "Contudo, a reconstrução da rede pública, como um todo, exige dispêndios financeiros vultosos e um intervalo de tempo cuja duração desemboca em prejuízos irreparáveis a milhares de alunos que só podem contar com o ensino gratuito. Assim, até que as instituições públicas de ensino alcancem o nível de qualidade exigido vai se apelar para o recurso de cotas sociais", etc. etc. etc. 
          Atente-se que o sistema de cotas nada mais é do que pôr nos bancos das universidades federais pessoas sem mérito e que alunos melhores ficarão de fora. Esses serão obrigados a ir para as universidades e faculdades particulares. Quem vai ganhar muito dinheiro com isso? As instituições financeiras que vão financiar muitos desses jovens.
          Observe-se que o tempo e os custos para se recuperar a rede pública são as justificativas, segundo o editorialista, para se lançar mão desse sistema que assassina o mérito. Há urgência. Os prejuízos serão irreparáveis. Se o exame admissional e/ou curricular não mais será o critério utilizado para levar o estudante à universidade pública, que qualidade terá o estudante dessa? Conseguirá esse estudante acompanhar e concluir seu curso? E, em concluindo, que qualidade terá esse profissional? Estará ele apto a concorrer ao mercado de trabalho? Ele o absorverá? Enfim, o sistema de cotas fará a justiça que pretende? mitigará o "prejuízo irreparável"?
          O sistema educacional brasileiro, além de ruim, virou laboratório. O tempo evidenciará os resultados desse inusitado e aparentemente irresponsável experimento. Quanto tempo durará ele? até que o resultado dos vultosos recursos financeiros surta o efeito esperado? Há um projeto sério em andamento que vise recuperar de fato e sem enganação a escola pública brasileira? ou é tudo apenas mais um enorme e ardiloso faz-de-conta?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O marido que (não) sabia demais

          Disse ontem a senhora Sally Thompson, uma das integrantes da comissão que analisa pedidos de liberdade condicional por parte de condenados nos Estados Unidos da América (http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=344039&modulo=965):
           -"Apesar de seus esforços positivos durante o cumprimento da sentença, a libertação neste momento prejudicaria enormemente o respeito pela lei e caracterizaria como corriqueira a trágica perda de vida causada por seu crime hediondo, despropositado, violento, frio e calculado".


          Ela se referia ao pedido de liberdade condicional feito por Mark Chapman, assassino confesso de John Lennon. Foi seu sétimo pedido; todos indeferidos. Ele está preso desde 1981 e foi condenado a prisão perpétua com possibilidade bienal de liberdade condicional após 20 anos de pena. 
          Vejam o que pensa a sociedade estadunidense sobre a lei, pensamento materializado no discurso da senhora Thompson. Por "esforços positivos" entenda-se o criminoso estar se esforçando no cárcere para demonstrar que estaria apto a voltar ao convívio produtivo na sociedade. Estaria "recuperado" de seu ato tresloucado; estaria "reabilitado". Mas qual! Demonstrar que a punição é exemplar é o maior objeto da lei, a fim de que seja temida e assim respeitada, importa e interessa muitíssimo mais à sociedade e aos que trabalham duro e honestamente. O senhor Chapman não faz mais do que sua obrigação em bem se portar enquanto preso está. Tirou a vida de um ser humano. Deve pagar por isso.
          Bem se vê que das duas uma: ou nossos juristas são gênios com a chave da solução sobre como penalizar o criminoso, ou são uns imbecis cheios de teorias fantasiosas e repletas de beleza retórica, mas de nenhum resultado prático. Se as penitenciárias norte-americanas estão cheias é porque lá a lei pune e trancafia o bandido. Aqui estão cheias as celas das delegacias e penitenciárias por uma outra razão: o governo trata os detentos como alimária nojenta e os deixa apodrecer em espaços exíguos e desumanos. Por isso estão a serviço do governo uma penca de juristas a vender a idéia nefasta de que cadeia não resolve o crime. Não resolve mesmo. Mas é ela que livra a sociedade de bem da ameaça de bandidos e facínoras conhecidos e incriminados em inquéritos científicos e tecnicamente quase perfeitos. Afinal, não queremos gastar com penitenciárias e cadeias. Como abaixo da linha do Equador a vida não tem lá essa importância toda, o governo deixa os bandidos matarem e ele mesmo se encarrega de tratá-los como ratos. O falso discurso dos juristas é só uma outra manobra de nosso eterno faz-de-conta. 
          Pois o Supremo Tribunal Federal –não, não! em maiúsculas não! – o supremo tribunal federal mandou soltar o senhor Regivaldo Pereira Galvão, o "Taradão" – atentem para a alcunha do elemento –, um dos assassinos da missionária Dorothy Stang ocorrido em 2005 (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1173301). Vê-se que as "instâncias" jurídicas brasileiras servem para absolutamente nada. Ou, melhor, servem a beneficiar os criminosos. O senhor Chapman matou em 8 de dezembro de 1980 e foi condenado em 1981. Está preso desde que foi capturado, antes de ser condenado.
          Mas deixemos nossas mazelas jurídicas e falemos de nossas mazelas políticas. Os leitores hão de estar acompanhando, embasbacados como eu, a história da mulher do vereador que estava inscrita no Bolsa Família. Com uma renda familiar de mais de 9 mil reais, ela se inscreveu como pobre para receber o benefício e fez 8 saques de – pasmem! – 32 reais. Lesou e enganou o povo brasileiro em 256 reais. O marido jura de pés juntos – de nada sabia. (Quem foi mesmo que teve a genial idéia de usar deste estratagema para livrar a pele? Desde então ele tem sido requisitadíssimo!) Há, além desta, outras denúncias contra o edil e sua família.
          Em seguida a empresa da vereadora Toinha Rocha, autora das denúncias, foi alvo de um atentado a bala na madrugada de hoje (http://tablet.opovo.com.br/app/opovo/destaque/index/2012/08/23/3958041/fachada-da-autoescola-de-vereador-do-psol-amanhece-cravejada-a-bala.shtml), horas depois de o incauto edil descer do plenário da câmara municipal a fim de realizar sua defesa em prantos, em invocações hereges ao santo nome do Criador e repleta de acusações e admoestações públicas à sua gananciosa mulher. 
          O detalhe é que os vereadores Leonelzinho Alencar, marido da miserável do Bolsa Família, e Toinha Rocha brigam por votos de Messejana, um bairro dessa pobre Fortaleza. A coisa toda se assemelha a uma disputa por um curral eleitoral, com direito a lances e recursos de toda sorte a fim de angariar votos para a eleição que se avizinha e de destruir o oponente ameaçador. Eu disse que a coisa "se assemelha" porque posso estar equivocado. Que a senhora Alencar recebeu ilegalmente recursos destinados aos miseráveis da nação não parece haver dúvida, pois sua inscrição consta no programa do governo federal. Não havendo como negar, o que se faz? Nega-se e se repreende publicamente a mulher, ora bolas! Mais: dá-se a ela o apoio incondicional de marido fiel, cúmplice, digo, companheiro e solidário na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na mentira e na verdade. (Desisti de "cúmplice" porque concedo ao marido o benefício da dúvida no referido episódio.) Como diria Nelson Rodrigues (Recife, 23.08.1912 - Rio, 21.12.1980), o marido não deve ser o último a saber – o marido não deve saber nunca! (Bem lembrado a propósito de seu centenário comemorado hoje!) O diabo é que, se o marido não sabia, outros sabiam e daí para seu conhecimento é um pulo.
          O que apõe uma nota de terror ao já terror da ganância por tão pouco, revelada na atitude da senhora Adriana Alencar, mulher do vereador Alencar, são os tiros na fachada da empresa da oponente. Quem poderia ser o autor intelectual do fatídico ato? A bem da verdade qualquer um. Correligionários do Alencar, com ou sem o seu conhecimento e anuência? A própria vereadora, usando de estratégia arrojada e ousada para incriminar o rival? Eleitores de um ou outro lado agindo à revelia? Não importa. A violência se achega à nossa campanha, como se estivéssemos em, sei lá, 1910. 
          Mas o que mais nos embasbaca é a cristalização da alma do brasileiro comum na atitude da senhora Adriana Alencar. Essa extrapola toda e qualquer tentativa de análise simples, intempestiva e temperamental. Com a palavra o Darcy Ribeiro. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Manada

          Perguntou o nosso governador, após receber críticas pela "festa" de inauguração do Centro de Eventos do Ceará em que o governo pagou 3 milhões de reais por ela e onde o tenor Plácido Domingo foi a atração principal, além de "somente" 3 mil pessoas terem sido convidadas: -"E quais pessoas seriam convidadas?" E justificava: -" Fortaleza tem dois milhões e meio de habitantes! " 
          Eis que hoje abro "O Povo" e me deparo com matéria publicitária do "Governo do Estado do Ceará" promovendo a grandiosidade do mesmo Centro. Está escrito assim: CENTRO DE EVENTOS DO CEARÁ - O BRASIL CABE AQUI. De imediato pensei, como uma possível resposta a ser dada ao nosso ilustre funcionário público número 1: -"Todos seriam convidados, ora essa! Não cabe lá um Brasil inteiro?" O diabo vai ser encontrar um cidadão honesto com coragem o bastante para lá ir lhe dar a topetuda resposta. 
          É provável que alguém no palácio, um ouvidor talvez, responda pelo homem dizendo que a peça publicitária apenas e tão-somente carrega uma força de expressão, uma espécie de figura de linguagem, e nada mais. O caso então será silenciosamente encerrado e quem foi, foi; quem não foi, não foi. Até porque ao dia seguinte do evento exclusivo para very important persons, o Centro de Eventos ofereceu circo à vontade do povo. Apresentações diversas fizeram a alegria da plebe local, que já deixou a mixuruca polêmica por conta de pouca conta. 
          Não seria possível uma tão perfeita coincidência na mesma semana que passou o Ziraldo, que, acho, é beneficiário de uma gorda pensão do governo por ter sido perseguido político durante os nossos "anos de ferro", vir de lá não sei onde e afirmar de fronte alta e erguida: -"Muitos pais não percebem, mas seus filhos se tornaram idiotas." Observe-se que uma frase como esta perde toda a sua força provocadora individual quando dita assim, publicamente, coletivamente, impessoalmente. Seria o caso, me parece, de ter ido o Ziraldo na festança milionária do governo desse paupérrimo estado e, após vênias e pedidos humílimos de desculpas ao senhor Domingo, anunciar, como diria Nelson Rodrigues, de olho rútilo e lábio trêmulo, essa verdade incontestável – a tautologia é a propósito – a cada um dos presentes, olhando-os bem nas fuças. 
         Mas o que mais me chamou a atenção foi o que disse nossa agastadiça e espevitadíssima prefeita Luizianne Lins a propósito do caos mais que instalado e vigente na saúde(?) pública de nossa Fortaleza: -"O Governo do estado deve muito a Fortaleza." Destrinçando seu discurso, ela está convicta de que o município de Fortaleza, sob sua gestão, tem feito a diferença para melhorar o quadro que ora vemos. Para ela, Fortaleza está ajudando o governo do estado por estar recebendo o "refugo" de pacientes vindos de municípios do interior. 
          Que está recebendo isso ninguém há de negar ou contradizer a prefeita, mas quanto a estar isso fazendo a diferença, vamos e venhamos – não faz a mínima. E não faz porque os hospitais da cidade estão trabalhando acima de sua capacidade resolutiva. Eles conseguem resolver os casos de ou lidar com determinado número de pacientes. Acima desse limite, que é inerente a qualquer sistema, tudo pode acontecer com o "excesso". Veja-se, por exemplo, o que ocorreu outro dia em um dos hospitais "da prefeita".
          A sala de recuperação pós-anestésica estava abarrotada de gente e o paciente, um jovem de vinte e poucos anos, que havia sido operado de apendicite aguda, cobrira-se inteiramente com o lençol de sua maca. Tinha frio, talvez. (Quem já viu aquela sala de recuperação sabe que ela "transborda" pacientes para os corredores e até para as salas de operação mais próximas; qualquer dia desses "transbordará" pacientes a todas as salas de operação e o Centro Cirúrgico do hospital entrará em colapso. Não será possível operar alguém.) A equipe de funcionários do setor – médico, enfermeiras e auxiliares – permanece inalterada em número, de modo que é bem possível que detalhes gritantes passem despercebidos de sua atenção. E o que aconteceu foi que o jovem foi encontrado sem vida sob os lençóis quando, momentos depois, teve a atenção da equipe voltada para ele. Do ponto de vista puramente técnico caberia a pergunta: o que teria ocorrido? 
          Eis, então, que fica evidente a verdade hedionda – todos somos co-responsáveis e co-participantes do sistema assassino que fundamos e mantemos. No caso particular que usei como exemplo vislumbra-se apenas o caráter irresponsável, incompetente e ignorante de nossos políticos e executivos públicos. Eles fazem suas m... porque nós lá os colocamos. Desse ponto de vista indagar-se-ia: é possível dormir assim? A culpa diluída é semelhante à impessoal frase do Ziraldo dirigida a todos  e a ninguém. Não se pode condenar uma massa, um povo, uma multidão, uma população de eleitores, de maus eleitores. Essa é a medida de nossa mais completa e necessária alienação. Sem ela não nos seria possível dormir. Melhor ir às nossas intermináveis e diárias baladas, onde esquecemos de tudo e nos embriagamos de mais ignorância e mais nos misturamos. Nossa face permanecerá, assim, oculta em meio à manada da qual fazemos parte.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Obstinações diversas

          Diz o meu amigo Gilson Melo, estudante da neurolingüística, que oitenta por cento das pessoas são "visuais". Detalhe importantíssimo: – entre as mulheres esse percentual chega a noventa por cento. (http://site.suamente.com.br/teste-voce-e-visual-auditivo-ou-cinestesico/) A melhor definição que encontrei diz: "Pessoas visuais fazem uso, mais do que as outras, da visão; por isso gostam de fotos, cinema, etc. etc." Mais: executam a leitura de forma rápida, não estando subentendido se esta é ou não uma boa leitura. Mais provável é que sua leitura seja tão superficial quanto corrida, a não ser que tenha a habilidade da leitura dinâmica, o que não é comum. O que me leva a fazer tal afirmação é outra característica dos visuais: – às vezes saem da sintonia quando o "negócio" obriga a ter atenção durante muito tempo.
           Constato tudo isso quase que cotidianamente na rede social. Na rede social postei fotos de minha última viagem e posto sempre os textos que escrevo em meu blog. Fato notório e insofismável: as fotos são muitíssimo mais vistas do que os textos. Qualquer um pode ir lá e confirmar o que estou a dizer. Infelizmente os visuais perdem os detalhes da imaginação que a leitura proporciona. Para citar apenas dois exemplos, assista-se a "O amor nos tempos do cólera", de G. G. Márquez, e "Meu nome não é Johnny", do carioca João Guilherme Estrella. Mas não sem antes ler-lhes os livros em que são baseados. Os livros são infinitamente melhores do que os respectivos filmes os quais, muitas vezes, lhes omitem passagens importantes que dão às histórias um sabor todo único e próprio. Não há comparação. Muita gente, como diz a estatística, há de preferir as películas. Fazer o quê, ora bolas!? As pessoas relutam; resistem; recalcitram. Sabem do que sabem mas parece que não sabem.
             Por exemplo, na entrevista que o cirurgião cardiovascular americano Mehmet Oz deu a uma revista de grande circulação nacional ele afirmou o seguinte, a propósito de hábitos que proporcionam longevidade: "estreitar o relacionamento com as pessoas próximas e abster-se de julgá-las". A repórter insistiu: -"Abster-se de julgar os outros ajuda a manter a juventude?", ao que ele respondeu: -"Sim, da mesma forma que resolver situações de conflito." E sapecou: -"O conflito não traz nada de positivo. É apenas desgastante." E aconselhou a quem tem conflito com alguém a procurar esse alguém e resolver o impasse. É como eu disse: as pessoas relutam; resistem; recalcitram...
            Uma amiga foi taxativa: -"Não quero viver para sempre!" Lembrei-me do que cantava o Freddie Mercury:
           "Who wants to live forever?
           Who wants to live forever?
           Forever is our today
          Who waits forever anyway?"
          Caberia a pergunta ao solitário leitor: o prezado gostaria de viver, se não eternamente, ao menos uma longa, produtiva e saudável vida? A querida amiga deve saber que o Criador já nos fez essa indagação há muitos séculos: "Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que morrereis, ó casa de Israel?" (Ez., 33:11) E resistimos e teimamos...
            Contudo, há ainda mais, e bem mais. Veja o leitor, se é que os tenho, o artigo da jornalista Carol Castro para a revista Superinteressante de 5 de julho de 2012 intitulado "Torcedores de times campeões vivem mais" (http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/torcedores-de-times-campeoes-vivem-mais/). Embasada em evidências do método científico, a matéria dá conta, em outras palavras, de que torcer por time perdedor pode ser precocemente mortal. Ora, minha preocupação voltou-se incontinenti, tão logo a li, aos meus amigos Chico Heli e Guilherme Lisboa, além de meu afilhado Marcelo Lima, todos torcedores do Ferroviário, nosso Ferrim. É bem conhecida de todos a tristeza perene que acomete os torcedores desse tradicional clube do pobre futebol cearense. E por quê? Ora, pois não vive a perder o Ferrim?
            Diz a reportagem o seguinte. Veja o leitor e depois me diga se é ou não preocupante a situação dos torcedores corais: "Quando o time perdeu, os cientistas perceberam um aumento de 15% na taxa de mortalidade entre os homens e 27% entre as mulheres. Eles acreditam que o prazer de um título anula o estresse enfrentado durante o jogo". Ora, o Ferrim, além de jogar mal e irritar o pobre torcedor a partida inteira, ainda termina perdendo. A derrota do Ferrim é quase como a morte: uma certeza. Já nem me lembro a última vez em que o time foi campeão, e me parece que na última vez que o foi já se iam mais de dez anos da penúltima. Enfim, uma completa e humilhante lástima. 
           O diabo é que meus citados amigos, e outros, e outros, persistem e teimam em "amar" um clube tão destituído de glórias como esse Ferroviário. Dá pra entender? Bem dizia o Dan Ariely: o ser humano é um animal previsivelmente irracional.

Adendo: após poucos minutos da publicação deste texto na rede social o meu querido amigo Vinícius Tavares, um de meus pouquíssimos leitores, me escreveu informando que o último título estadual ganho pelo Ferroviário foi em 1995, há, portanto, 17 anos.

Um criminoso de 14 anos

          O meu querido amigo Luís Júnior tem uma maneira peculiar de resolver certos, digamos, incômodos. O leitor desde já fique ciente de uma característica de meu amigo que lhe serve como uma marca de vaca de pasto, uma idiossincrasia, um código de barras: o homem torce pelo Fortaleza. Dizendo assim parece que estou a usar de um estilo caricatural, mas, garanto, não é o caso.
          Alguém que o conheça dirá que ele é "doente" pelo Fortaleza, e direi que é pouco, muito pouco. Basta que apreciemos o que ele faz quando perde o Fortaleza para o Ceará. O Fortaleza pode perder para o Icasa, para o Ferrim, para o Maranguape, e para quem quer que seja; mas não pode perder para o Ceará, seu arqui-rival. Perder para o inimigo número um leva meu Luís Júnior a sofrer de agonias, cólicas e anginas excruciantes e cruéis. Tamanho sofrimento físico, moral e espiritual seria impossível de se suportar sem a ajuda de medida radical e drástica. Assim, que faz o Luís Junior? Resposta: vai para Miami no primeiro avião que parta após a derrota, e por lá fica até que passe a euforia dos torcedores rivais. Em agindo dessa forma evita as pilhérias, as gozações e as picardias inevitáveis e inexoráveis. 
          Aos amigos mais chegados confessa: -"Adoro Miami!" Até aí nada de mais. O que não consegue explicar é a coincidência que há entre as derrotas de seu amantíssimo clube para o Ceará e sua já previsível partida. 
          Não sei se por uma dessas combinações perfeitas que o destino por vezes reserva ou se por outra razão qualquer, meu querido Luís Júnior, já homem maduro quase podre, resolveu cursar Direito numa dessas inúmeras faculdades que existem hoje, onde conheceu e se tornou unha e carne de meu outro amigo Evandro Leitão, nada mais nada menos que o atual presidente do Ceará Sporting Clube. É verdade que à época, ao que me conste, Evandro nem sonhava em vir a ser o comandante supremo do clube que tanto ama. A propósito, é necessário deixar claríssimo como água que Evandro sente pelo Ceará o mesmo que Luís sente pelo Fortaleza, com uma diferença: se o Fortaleza surrar o Ceará, ele aqui permanece estoicamente e serenamente. 
          Vê-se, com toda essa lengalenga, que pessoas diferentes tomam atitudes diferentes frente a semelhantes situações. Nada mais natural, nada mais democrático, desde que preservadas a lei, a moral, o respeito voltairiano ao outro e a boa ética. Nunca, em nenhum momento, Luís e Evandro deixaram de ser os bons amigos que sempre foram desde o curso de Direito.
          Mas agora me pergunto o porquê de eu ter feito toda essa introdução. Ah, lembrei! Ontem ao sair do Instituto Dr. José Frota desejei ardentemente ir direto para o aeroporto, comprar uma passagem e fugir desse lugar. Não nutro nenhuma obsessão por algum destino específico como o meu amigo Luís Júnior, de modo que iria até pro Xapuri se me fosse o único destino possível. O leitor a essas alturas estará impaciente em saber que razão me deu o torporoso hospital para que ansiasse a fuga desesperada. Dir-lhes-ei.
          Fui vítima, no hospital, do que Nelson Rodrigues chamava de "Poder Jovem". Um fedelho de 14 anos de idade ocupava ontem, quando o vi pela primeira vez, um leito da unidade 18 daquela casa de saúde, acompanhado por sua mãe. Fora atingido por tiros nos membros inferiores e tivera lesões ósseas e arteriais. Havia duas versões para a história de seu trauma (os tiros). A primeira dava conta de que ele se metera a assaltar um cidadão que, por uma infeliz coincidência, era policial vestido à paisana  e que respondeu a tiros ao anúncio do assalto. A segunda dizia que ele e sua gangue entraram em confronto direto com outra gangue do bairro, e no tal confronto se deu mal. 
          Examinei-o e constatei: seu pé direito estava em processo de gangrena. Os médicos da emergência já o haviam operado e relatado por escrito em seu prontuário a gravidade do caso e a provável necessidade de amputação. Assim, fui direto e disse à mãe: -"Não é nada boa a situação do pé." E completei: -"Talvez ele o perca." 
          Teve início nesse momento um escândalo de proporções dantescas. O "garoto", um latagão, gritava e chorava alto com sua já máscula e grave voz, enquanto a mãe se descabelava e uivava, também chorando e dizendo: -"Ele é 'de menor'! Ele é 'de menor'!", como se sua menoridade fosse frustrar o êxito inexorável e trágico, consequência de seus atos ilícitos e criminosos. E me acusavam aos gritos e impropérios, ele decretando que eu não devia ter dito tal coisa na frente de sua mãe: -"Ela vai adoecer! Ela vai adoecer! Diz isso não, 'cara'! Diz isso não, 'cara'!"; ela se esgoelando: -"Diz isso pra ele ouvir, não! Diz isso pra ele ouvir, não! Ele é 'de menor'!" E, disseram-me depois os colegas da enfermagem, quando saí, em minha ausência, que ele me ameaçou. 
          Veja o leitor onde chegou o que nossa sociedade produz. Não existe o crime, existe exclusivamente o menor. Não há crime em seus atos, existe apenas e simplesmente sua menoridade. Um cadáver eventual produzido por um menor descaradamente não existe, como o da bela Marcela Montenegro, morta(?) a tiros por menores ou com a colaboração engenhosa deles. E já nem sei se está mesmo morta. Um menor nunca mata, não há crime possível entre eles. Definitivamente os idiotas tomaram conta de tudo.
         Cabe, então, a pergunta final: a quem denuncio um criminoso que me ameaça e que se esconde detrás de sua menoridade?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aqui não se vota em cretino!

          Uma amiga, que vai votar num desses sujeitos candidatos a prefeito desta decadente cidade, pretendeu publicar essa intenção em minha página da rede social. Em outras palavras, estaria estampada lá a propaganda do elemento, caso eu autorizasse. Ela, que deve estar a me ler agora, não deve nem pode se aborrecer com esta manifestação de desautorização. Cá entre nós – temos péssimos candidatos, péssimas opções. Minha única inclinação repousa no senhor Heitor Férrer, um político aparentemente combativo e corajoso.
           Não obstante, é do conhecimento de todas as pessoas esclarecidas nessa matéria que um homem, ou uma mulher, nada faz sozinho. E digo mais – é mais importante o voto que se dá no legislativo do que o que se dá no executivo. Isso, é óbvio, em país onde os poderes se mostram verdadeiramente independentes, o que não é o nosso caso. Aqui, infelizmente, não há uma nítida linha a dividir partidos de partidos e poderes de poderes. Somos o país da personalidade, votamos na personalidade, queremos a personalidade. Não há bandeiras. Nossos políticos não carregam bandeiras, não defendem idéias ou, melhor, defendem as idéias que melhor lhes rendam votos para, após eleitos, esquecê-las. E o povo, em submissa solidariedade, lhes acompanha no esquecimento. Os poderes se mancomunam para extorquir e oprimir os cidadãos e quando, aparentemente – apenas aparentemente –, se mostram divergentes, é justamente aí que estão mais aconchavados contra os indefesos brasileiros. 
          Este é o país das obras. Todos querem obras. E os governos obram. Mesmos que elas gastem o quádruplo ou mais do que foi inicialmente orçamentado, queremos as obras; mesmo que a robalheira e o desvio de dinheiro – razão de os políticos amarem mais as obras do que o cidadão comum – sejam deslavadamente conhecidos e apurados sem que ninguém durma uma mísera noite no xadrez, queremos as obras; mesmo que elas nunca sejam concluídas sem que nada aconteça de ruim aos conhecidos larápios, queremos as obras; mesmo que uma vez concluídas elas se mostrem incompetentes para atingir o fim a que se destinaram, as queremos sempre. As obras são o sintoma de que o político é atuante, e as chamadas "emendas" aos orçamentos sua mais vibrante realização. 
          Fiz todo esse introdutório para relatar o que me ocorreu outro dia no táxi. Carlão, o motorista, já meu conhecido de outras corridas e outros carnavais, perguntou-me se eu conhecia a vereadora Magaly Marques. Ela é novamente candidata à vereança. Carlão ia nela votar. Motivo: foi ela quem o ajudou no internamento e operação de sua mãe em certo hospital conveniado do SUS. (Magaly Marques é médica.) Explicou: -"Vou lhe retribuir o favor!"
          Vejam que interessante. O homem vai votar por favor. Ora, se está fazendo à vereadora candidata à reeleição um favor, é porque é uma coisa muito boa ser vereador. Se é muito bom verear, deve-se ter lá as vantagens. Se tem-se lá vantagens, deve valer a pena gastar os tubos de dinheiro, como gastam os infinitos senhores candidatos, para tentar se eleger e reeleger. (Outro dia vi que, na Suécia, o equivalente ao nosso vereador ou deputado não dispõe de mordomias nem vantagens materiais, exceto um salário comum. Ao contrário, aos olhos do jeito brasileiro de se fazer as coisas, é um mau negócio ser deputado ou vereador por lá. O sujeito está lá para servir, e só servir, a comunidade.) 
          Outra coisa interessantíssima. Quando Carlão dá à candidata um voto "por favor" e em retribuição ao que ela lhe prestou individualmente e primeiramente, está pensando somente em si e nos seus, e em nada na coletividade. Retribuído o favor, a vereadora não mais mantém nenhum laço ou vínculo com o dono daquele voto e estará livre para fazer o que bem entender, e Carlão que vá reclamar com o bispo. (Antigamente, não faz muito tempo, o bispo tinha poder.) O mesmo raciocínio se aplica a "categorias" de trabalhadores que votam em candidatos que aparentemente não irão contrariar seus interesses, como uma amiga e sua categoria que votaram  em candidato(a) a presidente porque temiam que o outro lhes vetasse as mordomias ou o aumento salarial se eleito fosse.
          Fica também estampada na realidade, e longe das lucubrações dos boatos e mitos, a incompetência de nosso sistema público de saúde. Se ele de fato funcionasse não teríamos políticos colhendo dividendos eleitorais por sua contumaz falência. Este é o país do favor. Só se consegue no serviço público o serviço de que se precisa de forma rápida e eficaz através de favor. Uma mão lava a outra, e assim vamos fazendo e recebendo favores. Sem os favores o Brasil teria um colapso; quiçá nem as eleições fossem viáveis. O povo não saberia em quem votar; precisa do favor de alguém para decidir.
          O que essas pessoas não entendem é que reclamar da maneira de se fazer política no país não mudará jamais se elas próprias não modificarem a maneira de elas mesmas pensarem a política e de fazerem política. (Ou votar não é fazer política?) Ainda que o candidato venha a manter de pé se eleito os acordos previamente acertados com determinada classe, não preocupa a essa classe o que esse candidato fará com a educação, a segurança e a justiça? (É esse o único critério usado por muitos para escolher um candidato.) De nada lhes adiantará melhores salários se não puderem sair à rua para um passeio porque os criminosos estão de tocaia prontos a atacá-los e a seus filhos, ou se esse candidato nada fizer para interromper o grassar da ignorância na imensidão da nação. Tal comportamento expõe outro aspecto de nossa maneira de fazer política – o individualismo.
           Vejam que há ainda acontecimentos anedóticos a ocorrer nas relações entre políticos e eleitores nessa decadente cidade. Foi nessa história Amorim o protagonista do povo, e o político um vereador do famigerado PT, cujo nome me abstenho de declinar em atenção ao querido amigo. 
          Eram amigos dantes mesmo de o vereador se tornar vereador. Eram amigos de faculdade, onde se conheceram. O vereador, moço bem parecido, bem falante, presente e ausente nas comunidades pobres, currais aqui e ali. (Um grande fazendeiro o invejaria.) O amigo por ele nutria uma admiração e deferência quase deíficas. Amorim, também na flor dos trinta e poucos, arregimentara a família – agregados, cunhados, pai, mãe, irmãos, irmãs, namorada – a votar no jovem e eloqüente edil. Amigos fiéis...
         ...até o pacto. O camarista se divorciara e Amorim andava já há um bom tempo, como se diz no bom cearensês, solto na buraqueira após o final do último namoro. Fizeram, então, o pacto: –nenhum deles se envolveria com qualquer uma das ex do outro. E assim passou a viger a regra que expunha de cada um sobre o outro um conceito nada confiável em se tratando de fidelidade.
       Não sei se é sabido, mas Amorim, também rapaz bem apessoado – um Ronnie Von do segundo milênio –, vai ao samba ali no Centro Cultural como quem vai ao caixa eletrônico da esquina. (Quisesse alguém matá-lo bastava lá ir procurá-lo.) Não se sabe se por acaso ou não, eis que certa noite deu de cara com a ex-mulher do valente camarista. Amigos por tabela, a jovem senhoraça se arreganha para cima do testosteronizado mancebo, que nem tempo teve de raciocinar. Abufelou-se sobre ele como quem está faz dias na ira, e estava desenhado o cenário.
        Amorim pode ser tudo, menos mentiroso ou omisso, inda mais em se tratando de pactos com amigos figadais. Bateu o telefone para o comparsa vereador e relatou – antes que sua ex o fizesse –o que para o outro foi a maior punhalada de sua vida. (Ex adora sair com os amigos do ex! É o chifre que não é chifre já sendo chifre lá atrás, se se levar em conta que as guampas estão bem postas ainda e já à imaginação e desejo.) A amizade balançou, balançou, balançou... Balançou tanto que o político nem se importou em contabilizar fora de sua urna os tantos votos a que devia ao ex-amigo fiel. A família de Amorim, desde o cachorro até a secretária do lar, já decretou: – aqui não se vota em cretino!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Bem debaixo de nossos narizes

          Outro dia falei das imposturas de nosso tempo (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/08/imposturas.html).
          Eis que estou hoje a almoçar e ligo a TV. Via o jornal. A matéria dava conta de crimes cometidos por jovens menores de idade. Foi o seguinte. 
          Há cerca de um mês, não me lembra onde, mas aqui mesmo nesse Brasilzão, um garoto de dezesseis anos entrou numa locadora de vídeo empunhando uma arma de fogo na intenção de realizar um assalto. Segundos depois outro jovem, também menor, estava morto ferido por um tiro no peito. As câmeras de segurança filmaram toda a cena, que foi exibida e reprisada mais de uma vez, e mesmo o momento em que o assaltante deflagrou a bala que atingiu o peito do garoto, funcionário da casa. (Uma câmera de segurança não provê segurança nenhuma já que não impediu que o garoto fosse alvejado, nem vai contribuir em nada para uma punição exemplar do agressor, como logo se verá.) Eis o resumo do fato.

          Conseguiu-se uma autorização do juizado de menores para entrevistar o jovem assassino. E disse duas coisas que me encheram de horror. Verei se as lembro textualmente. Acho que não consigo lembrar as palavras exatas, mas a primeira foi mais ou menos assim:
          -"Eu queria uma moto. Pedi a moto a meu 'vô e ele não me deu; pedi a meu pai e ele não me deu; pedi à minha mãe e ela não me deu... Avisei a eles que ia dar um jeito de comprar a moto... Avisei!..."
          Não sei se percebem o tom de ameaça que está aí implícito. Ou, melhor, não está implícito – está deslavadamente explícito. Não sei se percebem também que aí fala um garoto de dezesseis anos que das duas uma: ou nunca foi contrariado, nunca lhe disseram "não"; ou nada respeita nem nada será capaz de lhe demover de realizar seus desejos mais tolos. Ou ambos. 
          A segunda estarrecedora fala do menor assassino foi quando lhe perguntou o repórter o que ele achava de estar preso e de poder pegar a pena máxima, três anos detido num desses alojamentos da famigerada FEBEM para se submeter a medidas "sócio-educativas". Respondeu friamente e secamente: -"Estou vivo. Melhor que estar morto ou aleijado..." (Menores criminosos não são presos no Brasilzão – ficam "apreendidos".) Está, nesse jovem, oculta sob o tão tênue véu de sua gelada voz, a personalidade do psicopata?
          (Pergunto a meus entediados leitores: quantas imposturas os senhores já lobrigaram nessa trágica história até o presente momento?)
          Há mais. E pior.
          Corta-se a cena em que se entrevista o garoto, cuja face fica permanentemente encoberta a fim de resguardar sua identidade para "protegê-lo" sabe-se lá de quê ou de quem, e eis que aparece um "educador", o senhor Mário Sérgio Cortella, a falar. Diz ele fundamentalmente o seguinte: diminuir a idade penal no Brasilzão não vai contribuir em nada para diminuir ou prevenir a criminalidade, haja visto os Estados Unidos da América, onde não existe a maioridade penal e onde está a maior população carcerária do mundo.
          Vejam que um discurso imponente pode conter uma infinidade de imposturas a serem reveladas. O que se há de revelar sob a fala autorizada de tão exímio "educador"? O que nela estaria a merecer questionamentos e esclarecimentos? Cabem algumas perguntas, basicamente duas. Primeira: não seria a elevada população carcerária estadunidense reflexo de suas rígidas leis e de seu sistema judiciário mais ágil e eficiente? ao invés de reflexo de uma criminalidade elevada ou "on the rise", como quis fazer parecer o ilustre "educador"? (Não pensem os queridos e pacientes leitores que minhas aspas vêm a propósito de revelar algumas das imposturas, por favor!)
          A segunda indagação, necessariamente elaborada a fim de preencher nossa ignorância em todos os pontos e conceitos no vasto mar de conhecimentos da ciência pedagógica, diz respeito ao seguinte:...
           Uma pausa. De fato a segunda pergunta não seria bem uma pergunta, mas uma ousada e topetuda lucubração. Sabe-se que esse é o país dos ladrões. Lembre-se o sambinha do Bezerra da Silva que já dizia não sei bem em que ano:
          "Se gritar pega ladrão, 
          Não fica um, meu irmão..."
          E mais ainda dizia, a fim de se dirimir alguma dúvida quanto ao estrato social onde se encontram os maiores: 
          "Aqui realmente está toda a nata
          Doutores, senhores, até magnata
          Com a bebedeira e a discussão
          Tirei a minha conclusão:
          Se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão!"
          Cresce o tráfico de drogas, pessimamente combatido pelas autoridades; cresce o número de homicídios, já em índice de zonas de guerra; cresce, em suma, a violência. Em contrapartida cresce assustadoramente a incapacidade da justiça de fazer justiça; "cresce" uma polícia arcaica que caminha a se tornar paleozóica, usando método nenhum de investigação, a anos-luz de distância de uma polícia científica; leis repletas de brechas e badulaques que visam beneficiar os grandes criminosos; judiciário lentíssimo a bem do crime; múltiplas instâncias jurídicas que não se valorizam; enfim, o caos jurídico a facilitar a sobrevivência impune de tantos e tantos e tantos criminosos – ladrões, assassinos, traficantes, políticos corruptos, larápios do erário... Assim, conclui-se que onde grassa o crime necessariamente se deve ter uma elevada população carcerária mesmo, se a justiça funcionar. 
          O insigne "educador" parece não perceber que o Brasilzão tem a maior população carcerária potencial do planeta que, tornada real, sobrepujaria em muitas vezes, sem a menor dúvida!, a dos norte-americanos. Faltou ao nobre pedagogo enfatizar a incompetência e irresponsabilidade de sucessivos governos na gestão da Educação do povo brasileiro e que a existência de uma justiça atuante é a primeira grande lição que a criança e o jovem aprendem sem olvidar. Não é possível se educar sem justiça; ambos caminham lado a lado. Cresce a noção de que a justiça existe para corrigir, quando na verdade ela deveria estar aí para punir. A correção que evita o crime é a punição do jovem e da criança na escola e no lar. O "educador" limitou-se a dizer que estamos sofrendo as consequências de "nossa recente desatenção ao jovem". Ninguém se digna a bater no governo.  Como dizia o Nelson Rodrigues, "nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira". Por isso inventou a entrevista imaginária no terreno baldio, tendo por testemunha única e exclusivamente uma cabra vadia. A entrevista imaginária seria "a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto".
          Também faltou mais uma vez à imprensa, desta vez a do Sul do Brasilzão, transpirar um mínimo de indignação. Os âncoras enfatizaram o drama das famílias dos jovens envolvidos, da vítima e do assassino, e nenhum comentário se fez sobre a hediondez da tragédia maior: a do Brasilzão onde se desenrola diariamente todo esse caos, bem debaixo de nossos narizes. 
          

"A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe" (Prov., 29:15)

"Corrige o teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma" (Prov.,29:17)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Alhos e bugalhos

          Não pude deixar de rir até não mais poder ao ler a coluna de ontem do jornalista Lustosa da Costa no jornal Diário do Nordeste. Com efeito, sua coluna é uma piada, às vezes um primor de humor negro. Hoje o homem resolveu escrever sobre infidelidade e convivência
         Começa ele dizendo a seguinte pérola, que até então era do desconhecimento de todos: "nem todo marido enganado mata mulher e amante; ou expulsa a mulher de casa." E passa a relatar a interessante história de certo corno conhecido por solteirão convicto, até conhecer a musa que o levaria ao altar e, na seqüência, às bem postas e frondosas guampas. Ainda que trancada em casa a sete chaves após o enlace, o único filho que lhe deu, confessou-o antes de ser expulsa do lar, não era seu. Quis matá-lá, no que foi impedido por vizinhos. Reteve consigo, entretanto, o fruto do pecado, por amor e apego ao pequerrucho. 
          Prova, então, nosso exímio escritor que há, de fato, homens que expulsam de casa a mulher infiel, mas guardam consigo o filho da infidelidade. Em outras palavras, amam o fruto mas odeiam a árvore. (Não vejo outra forma de entender o caso.) 
          Ao final da coluna ele conta de um amigo que, próximo ao fim da vida, confessou-lhe que os cinco filhos que tivera com a mulher haviam sido gerados com a "colaboração de 'terceiros'". Difícil para o leitor discernir se a colaboração teria sido de "terceiros" ou de "quintos", ou de "quartos", ou de "segundos", ou de um único. E eis aí todo o conteúdo do que tinha a dizer ontem esse insigne articulista da imprensa local.
          Ia esquecendo o principal. Para embasar sua tese, exposta logo ao início, o colunista faz uma referência a "Dom Casmurro" de Machado de Assis. Diz ele: "em Dom Casmurro, de Machado de Assis, o personagem Escobar largou Capitu e o filho, quando soube que ele não era o pai". Ora, comete um erro crasso o ilustre escritor. O marido de Capitu do romance "Dom Casmurro" e que suspeita não ser o pai de seu filho Ezequiel é Bentinho e não Escobar; este é, nada mais nada menos, que o suspeito de lhe traçar a mulher, dúvida que lhe consome as entranhas até o final e que para muitos estudiosos da obra não se dissipa até hoje. 
          Deixando de lado o Machado e seu atormentado Bentinho, confundido por nosso ilustre escritor como o próprio amante e comedor da mulher alheia quando na verdade era a vítima indefesa, estou até agora me perguntando a que veio o nosso Lustosa da Costa. Não lhe vi nenhum propósito no texto. Sua tese não é tese, é fato sobejamente conhecido e até trivial; nem seu personagem é o verdadeiro, já que confundiu alhos com bugalhos e acabou prestando um desserviço à literatura brasileira. Será que trouxe tudo isso à baila enlevado por tão lamentável fato ocorrido acho que ontem, quando um professor de música matou a mulher a tiros e facadas? Não saberia eu dizer. 
          Devo alertar ao expoente escriba que em sua primeira história da coluna de hoje o marido só não matou a mulher porque os vizinhos o impediram, de modo que lhe sobrou o amigo de sua segunda história , que presumo já morto, que não se incomodou em criar os cinco filhos de sua mulher gerados em não flagrados adultérios, e o Bentinho do Machado, grotescamente confundido com Escobar, o amigo eternamente suspeito em caso jamais esclarecido. 
          O diabo é que o nosso Lustosa, quando não está a escrever essas farináceas letras, nos afronta a inteligência e o livre pensamento com suas eloqüentes máximas que revelam seu amor incondicional ao famigerado ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, seus asseclas, seus comparsas e suas crias. Temos aí quase um retrato do jornalismo local. 
          Mas o principal eu ainda não disse: onde estava, em nome da virgem Maria, a cabeça dos revisores desse Diário que não surpreenderam a grotesca topada de seu nobre colaborador? No mundo da lua, quiçá, como a do próprio, em devaneios indizíveis e delirantes...

sábado, 4 de agosto de 2012

Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!

          Dizia-me o meu amigo Mauro Oliveira, o homem do "Kamarada": "Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E completava: -"Um homem só é verdadeiramente inteligente e feliz se buscar obsessivamente uma boa qualidade de vida!" Saíamos da piscina do clube, após os 2 mil metros. Era o quê? terça ou quarta-feira, acho. Era cedo, algo em torno de oito da manhã. O disco solar aspergia uma linda luz branco-amarelada ao céu azul turquesa límpido e fresco. O ar estava leve e uma suave e fria brisa nos tocava suavemente o corpo e balouçava as copas das árvores e arbustos dos jardins do clube e da rua. 
          Mauro exorcizava o fast-living, o corre-corre, o modo "moderno" de se viver; queria o bem viver, o desfrutar daquele sol, daquela água, daquele vento, daquele céu; do mar que se espalhava ali, à nossa frente, infinito no horizonte onde se encontravam, na curva da Terra. Ainda que zunissem os carros da metrópole em sua inexplicável pressa, Mauro deleitava-se em fazer proselitismo à lentidão no viver. Que corressem, bolas! Não sabiam o que estavam perdendo!...
          E insistia: -"Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E por que não daria tempo, se Mauro não estava disposto ao ritmo? ah, esse meu Mauro! Um traquinas de marca maior! Um gozador! Um falso vilão e mordaz vivedor! E sorria o seu sorriso mais amplo onde luzia e refulgia sua privilegiada inteligência. Daria tempo para tudo; e, se não desse, paciência! Que é o tempo na instância das pressões que são aplicadas a nós por paradigmas dos ditos "tempos modernos"? O tempo é tudo e, volto a dizer, o tempo é tudo! Dizem que tempo é dinheiro. Ora, se para o presente momento o tempo é tudo e se tempo é dinheiro, então o dinheiro é tudo.
          Descemos, Mauro e eu, ao mar, ali, à frente do clube. Queria que eu conhecesse como é nadar no mar. Entre os dois quebra-mares iam setecentos e cinqüenta metros; um piscinão de águas mornas e serenas, sem correntezas, sem ondas, sem recifes. E Mauro queria nadar próximo à beira, próximo à margem. Sugeri entrarmos mais ao largo, nos extremos dos quebra-mares, onde supunha águas ainda mais calmas. Meu amigo foi enfático, lembrando-me os perigos do mar: -"O mar é o mar!" E repetia, me olhando nos olhos com aquele seu maroto olhar: -"O mar é o mar, meu chapa!" 
          Saímos para banho em água doce, a retirar a areia dos pés, beber água de côco, limpar o equipamento e se refestelar da paisagem. E Mauro: -"Trabalho só às 10! Não vai dar tempo! Não vai dar tempo!" E assim nos despedimos, ansiando o dia seguinte. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Imposturas


Eu diria que vivemos, cada vez mais, tempos de imposturas. Não sei se o Nelson já o dizia ao seu tempo. Se o dizia, e se vivo fosse, constataria a verdade inapelável: - esse é, de fato, um tempo de imposturas.
            Há quase três anos escrevi sobre o plano “consulta zero” em meu outro blog “O Desocupado” (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/O-plano-consulta-zero-b1-p103.htm). Resumirei o que lá digo. Àquela época lançava-se o plano “consulta ambulatorial”, cujos produtos eram a consulta médica e exames complementares simples. É provável que o plano tivesse limitações quanto ao número de consultas a que o freguês tivesse direito cada mês. Para ser franco não conheço detalhes desse fabuloso produto da assistência médica nem se o mesmo ainda está à venda, mas era basicamente isso. Quem o comprasse pagaria uma mensalidade no valor de trinta e cinco a quarenta reais.
            Imaginemos que o sujeito não tenha nenhuma doença crônica que exija sua ida ao médico numa base regular. Imaginemos que ele vá ao médico uma única vez ao ano para uma consulta “preventiva”. Se o indivíduo em questão for assim muito agraciado pela sorte, pode prescindir do referido plano e pagar uma consulta particular no valor de, digamos, duzentos reais, que é o valor que os médicos estão cobrando em nosso Estado. (Não esqueçamos – esse é o Estado do salário mínimo e de seus múltiplos menores, duas ou três vezes no máximo!) Os exames complementares mais simples são baratos – um hemograma completo particular custa cerca de quinze reais –, de modo que ele provavelmente possa, de fato, se dar ao luxo de nem pagar por qualquer plano, gastando em saúde menos por ano do que se pagasse por ele.
            Agora imaginemos, em outro extremo, o sujeito portador de doença crônica que necessite ir a médicos com regularidade durante o ano. Esse indivíduo se beneficiaria deveras do plano consulta ambulatorial, desde que não necessitasse de internações também regulares. Se o serviço público oferecesse leitos hospitalares tanto quanto oferece atualmente indignidades aos seus usuários, esse indivíduo poderia fazer uso desses leitos sempre que necessitasse. Essa pessoa estaria relativamente tranqüila quanto à sua assistência médica.
            Entre as duas hipotéticas situações acima estariam as pessoas que necessitam de tratamentos caros em nível ambulatorial e hospitalar, inclusive em Unidade de Terapia Intensiva e procedimentos cirúrgicos e invasivos. Nesses casos o plano consulta ambulatorial de nada serviria. Só restaria a essas pessoas o serviço público de saúde e suas enormes e permanentes deficiências.
            O que quero dizer é o seguinte. Os planos de saúde deveriam – não sei por que não o fazem, por que razão ainda não o fizeram – dispor de um produto que contemplasse tudo já no minuto seguinte à sua contratação. Eu disse tudo? todos os tratamentos, e procedimentos, e órteses, e próteses, tudo? Sim, isso mesmo – tudo, exceto uma coisa: a consulta médica. Toda e qualquer consulta que essa pessoa quisesse ou necessitasse fazer seria particular, ou ela que procurasse uma consulta no serviço público. Vejam que interessante. Certamente seriam planos ainda caros, não obstante a retirada da consulta médica de sua lista de produtos. É provável que esse plano fosse comprado pelos altos salários e pelos grandes negócios, que o descontariam integralmente, junto com a consulta particular, em seu imposto de renda.
            O que quero também dizer é que entre o plano ambulatorial já lançado e o plano consulta zero nunca nem sequer aventado – ou se o foi não me consta, e aqui admito uma abjeta e imprópria ignorância –, teríamos planos ao gosto de cada freguês. O sujeito compraria o que lhe desse na telha e não poderia ajuizar ações contra o vendedor do plano uma vez que tudo estaria claro e esclarecido desde o princípio. Dirá alguém que tal cláusula seria inconstitucional já que na Carta se dá como direito inalienável e inegável a saúde de todo bom brasileiro, e eu diria que aí está a primeira grande impostura de nosso tempo. Se assim fosse, quase todo gestor de saúde do país estaria preso, inclusive os ministros e secretários de saúde. Não é o que se vê. O que se vê é justamente o oposto, direitos constitucionais “pétreos” negados pelo próprio poder que o “assegura”. É ou não isso uma grande impostura?
            Vejam, por exemplo, a nossa Unimed Fortaleza. Uma amiga precisava de uma endocrinologista que atendesse pela Unimed Fortaleza. Ela paga mensalmente à Unimed Fortaleza cerca de duzentos reais. E o que lhe diziam as atendentes dos endocrinologistas credenciados da Unimed Fortaleza? Diziam que consulta pela Unimed Fortaleza só para daqui a três ou quatro meses, e que consulta particular já para o dia seguinte. E, como com os endocrinologistas, para todas as outras especialidades há médicos que permanecem credenciados à Unimed Fortaleza mas que não mais atendem pela Unimed Fortaleza. Valor da consulta particular: - duzentos reais, precisamente o valor que minha amiga paga por mês à Unimed Fortaleza, como já disse.
            Dirá alguém – sempre há alguém a retrucar algo, e é bom mesmo que haja – que a Unimed Fortaleza não possui credenciados mas, sim, cooperados, já que ela é uma cooperativa e não um "plano de saúde"; uma cooperativa que foi criada com o intuito principal e primordial de proteger o médico da exploração por parte das empresas de medicina de grupo. Então direi que eis aí outra grande impostura: - não importa qual a forma jurídica em que se enquadra a Unimed Fortaleza, a sétima maior empresa do Estado do Ceará, mas sim como seus médicos conveniados se sentem nessa “parceria”. Se se sentissem bem e protegidos da exploração das outras empresas de medicina de grupo, não estariam se negando, de forma velada e cínica, a atender seus pacientes. Ao que parece se tornou, ela própria, exploradora do trabalho de seus médicos cooperados. Estes, por sua vez, fomentam ainda mais tal impostura ao permanecerem credenciados quando a atitude coerente seria se desvincular ou fechar seus consultórios.
            A ironia de tudo isso é a seguinte. Agindo dessa forma, muitos médicos “cooperados” da Unimed Fortaleza estão criando e pondo em prática, de maneira informal e unilateral, o plano consulta zero. Os clientes da Unimed Fortaleza ainda não foram informados de que providenciaram alterações em seu plano de saúde. Deveriam ser! Falta, portanto, à Unimed Fortaleza e a seus médicos cooperados a hombridade de iniciar a debater em seus círculos mais íntimos e com seus cooperados o que está a ocorrer na prática, para depois trazê-lo à luz da verdade e da clareza. É lícito. É justo. Os clientes que nela acreditam agradecem, bem como os cooperados que queiram continuar acreditando que vale a pena estar a ela associados.