quarta-feira, 28 de março de 2012

Dois bebês, um divórcio e um novo apartamento


Depois de certa idade – nem falemos mais dos 40 que esses já são anos idos e vividos – depois de certa idade descobre-se que a vida tende a tornar-se tediosa e repetitiva. Eu disse ‘tende’ porque é exatamente isso – apenas uma tendência. Inda mais se se permanecer muito tempo num único lugar, numa mesma cidade, aí é que a coisa pega. Em se tratando de cidade brasileira então, a mesmice cresce assustadoramente; e se for uma cidade nordestina, aí estaremos qual aqueles canais de televisão que repetem o mesmo filme duas vezes por semana. Agora, se se mora em Fortaleza capital do Ceará, estaremos diante de um aparato de tortura medieval daqueles que a vítima desejaria ardentemente que a morte se lhe chegasse sem demora. A mesmice por aqui beira o ridículo, o patético, o hilário, o terror e, acima de tudo, a tortura medieval. O sujeito aqui se sente como aquele coitado manietado ao leito em decúbito dorsal com uma torneira a lhe gotejar à testa. Vejam que a paisagem não incomoda por aqui, ao menos para nós privilegiados que moramos, usando um termo vago e não menos preciso, bem. Moramos bem. (Falemos aos sussurros que cresce por aqui mais que em outras paragens brasileiras a idéia de que não há o mal nem o erro, e que a propriedade privada implica em ônus social inadmissível.) Os que moram mal e o os que não moram dirão, certamente, que até a paisagem é de arrepiar. Eu não os culparia. Tirando esses excluídos da esquerda – as esquerdas também têm seus excluídos -, cuja paisagem a se lhes descortinar é de uma feiúra incomparável, para nós que moramos bem o que nos tortura é o sempre mais do mesmo. Diria até que saber da perpétua existência de nossos excluídos é parte de nossa aflição e angústia. Eu disse ‘nossa’ mas de fato ela assalta apenas e unicamente às vítimas e aos nossos homens e mulheres de bem. Seja na imprensa televisiva, escrita e falada, seja em rodas de amigos pouco amigos e até hostis, seja no local de trabalho, seja nas ideias que se propagam, seja na política, é tudo um tédio só. É preciso o sujeito sair um pouco para dar uma resfolegada e um suspiro, a fim de se aliviar.
            Dirá alguém que alhures e algures é a mesma coisa, e é provável que tenha razão. Não sei se alguém aí já esteve nos Países Baixos. Tomemos como exemplo Leiden, uma cidade holandesa. Direi apenas, dentro da perspectiva da mesmice da vida após os 50, que estar e permanecer em Leiden pelo resto da vida haverá de ser um melífluo e suave suplício, se é que isso fosse possível. Óbvio é que tal constatação seria compartilhada apenas, mais uma vez, por homens e mulheres de bem apenas. Os canalhas que proporcionam nossa maligna mesmice odiariam qualquer paraíso onde vicejasse um mínimo de virtude e seus resultados.
            Entretanto, apesar de nossa coletiva previsibilidade, sempre há um ou outro cidadão que nos brinda com algo novo e inusitado. Sim! e ainda bem! Com efeito, somente os amigos figadais e homens de bem são capazes de, nesse estéril e improfícuo environment, nos trazer algo de útil, diferente e que nos sirva à reflexão. Pois esta última semana próxima passada foi bastante produtiva quanto a isso. Se não, vejamos.
            Ligou-me a mulher do Mesquita, já ao ocaso da sexta-feira. Preocupava-a o marido, acometido de uma tristeza inexplicável. Sem razão que a justificasse, era notória a tristeza do Mesquita nos últimos meses. Haviam feito uma viagem à Norteamérica a passeio, com quase toda a família. (Todos sabem – os Mesquita só viajam em rebanho. Entre eles não há viagem a dois, ou a três, ou mesmo a quatro. Sempre viaja a família inteira. É permitido que fique um ou outro, mas seu índice de adesão às viagens é elevadíssimo.) Pois o Mesquita passou quase 20 dias de flozô na Califórnia, pra cima e pra baixo. Ausentou-se por um bom tempo de nossa mesmice renitente e, ainda assim, acometia-lhe uma melancolia enorme antes e após a viagem. Ela queria que eu interviesse. O homem estava indo ao psicólogo, que por sua vez lhe indicara um psiquiatra. Em suma, a coisa estava tão séria que queriam medicar o Mesquita com uma dessas drogas levanta-defunto.
Quinze minutos depois estávamos ele e eu tomando um drinque ali no boteco. Abriu-se comigo – contou da viagem e da tristeza. A mim me parecia o velho e bom Mesquita, amigo-irmão desde que tínhamos 10 ou 11 anos de idade. Não é algo a se levar em pouca conta. Jogamos boa conversa fora e me tranqüilizei vendo-o patuscar e planejar novas investidas para a vida. Programamos viagem só os amigos, à casa de amigo comum do tempo das fraldas que mora a 600 quilômetros. Só os homens. Nada de mulheres, esposas, namoradas, noivas, nada. Um clube do bolinha a 600 quilômetros. Era disso que ele precisava, pensei. Batemos o telefone para os outros comparsas e acertamos detalhes. Mesquita já ganhou, com isso, novo e revitalizante humor. E assim nos despedimos.
Dia seguinte, sábado, ligo para o Chico. Íamos nos encontrar, agora a rapaziada do bairro amigos também desde as fraldas, à noite em casa do Gegê, recentemente pai de um lindo bebê às portas dos 51, para uns drinques e um churrasco regado a três violões. Há tempos não via o homem, o Chico. Nosso compadrio tem se ressentido das forças centrífugas da vida. O amor entre amigos não se dissipa um angstrom sequer, no matter what. Íamos dar uma força ao Júnior, última vítima de certo juiz de direito que o pôs para fora de casa após cair na armadilha peticional do advogado da ex-sua mulher, levado a concluir que ele estava para matá-la. Sua excelência comprou a idéia do bom advogado da mulher. Resultado: pé na bunda do homem, pensão alimentícia e outras tragédias embutidas. (Sempre me impressionou a facilidade com que estes senhores, deuses podres das varas de família, tomam decisões que impactam tão violentamente a vida das pessoas e das famílias sem um mínimo de análise do coração, dos dramas e, acima de tudo, do caráter das pessoas envolvidas.) Chico, diante do convite, foi categórico: -“Tô dentro!” E assim nos despedimos. Veio a madrugada cheia de cantoria e o Chico não apareceu. Não incomodamos os faltosos, ainda que a saudade e a vontade de com eles estar sejam enormes. Todos estão sujeitos a algum imprevisto de última hora.
Ontem, dois dias após tão delicioso encontro, o Chico me bate o telefone. Explicou seu imprevisto de última hora. Na noite de sábado, a noite de nosso rega-bofe, a mulher se aproximou e, de supetão, fuzilou: -“Estou grávida.” Será o quinto filho do compadre, que está às portas dos 52. O susto foi tão grande que o compadre entornou goela abaixo as cervejas que dormiam em seu freezer e foi também dormir.
Hoje tudo ficou claro. A tristeza do Mesquita se dá por conta de seus gastos astronômicos. Em off contou-me o Braga: o homem está a comprar outro imóvel caríssimo. Quando viu a montanha de dinheiro que tinha na conta minguar, passou a não dormir e a ter tristezas abissais. Presumo que ele não deva ter dito isso ao terapeuta. Se o fizesse o homem não lhe prescreveria o psiquiatra, mas uma boa costura aos bolsos.
Assim, após dois bebês, um divórcio e um apartamento novo não se pode dizer que vamos mal. São quatro eventos felicíssimos! Há quem discorde do divórcio. Eu não. A curto prazo o divórcio é um mal negócio, mas no médio e longo prazo é um excelente investimento. Mesmo para um homem de 51 anos como o Júnior. Alguém aí discorda?

terça-feira, 27 de março de 2012

Paulão


O codinome era “Paulão”.
De fato, era um homem grande e alto. O aumentativo vinha bem a calhar. Numa terra onde a estatura mediana configura-se o mais comum, ser “Paulão” seria, no mínimo, uma singularidade.
            Casado, pai de filhos, bem apessoado e de nobre profissão, tinha taras. A mulher sequer imaginava. E era uma bela mulher, diga-se. Quem há de explicar tais e quais desvios? Até então ninguém de nada sabia. “Paulão” era conhecido apenas nos círculos do submundo da pornografia e do sexo livre. 
Ser “Paulão” era dar vida à outra personalidade encravada e oculta na essência do homem de bem. Tinha agenda com mais de uma centena de nomes, mulheres dadas a programas, realizadoras dos sonhos impossíveis da vida normal.
Fora da vida profissional, social e familiar era um devasso desconhecido. Ninguém diria ou imaginaria que nele existiria outro ser, outra personalidade, outra entidade, completamente diversa da que todos conheciam. O temperamento sereno, o sorriso franco, os modos calculados e comedidos, tudo lhe cobria daquela virtude indubitável e inerente a homens como ele.

                                               ***

A desconhecida avançou contra o carro. Ele vinha com a mulher, que a tudo assistia boquiaberta:
- Cachorro! Vagabundo! Canalha! Tu me paga, seu filho da puta! Vou te processar! Viado!
Esmurrava o vidro lateral e dava chutes na lataria. A sorte foi o porteiro, que saiu da guarita e de lá veio socorrer o casal. Segurava a desconhecida enquanto ele acelerava o carro.
A mulher quis saber: conhecia aquela pessoa? aquela sirigaita? Ele nunca a tinha visto, garantia. Teria bebido ou seria maluca.
Na volta a mulher foi ter com o porteiro. O coitado nada entendera. A mulher não dizia coisa com coisa.
Deixou-se o dito pelo não dito.

                                                ***

Ela vinha voltando para casa quando viu acesa a luz do apartamento. Era um apartamento, uma herança ou coisa que o valha, que tinham perto de casa e que pretendiam alugar. Muito esquisito aquela luz acesa num imóvel que estava vazio, fechado, esperando gente para habitar. Seria possível que a faxineira a tivesse esquecido? Foi em casa buscar o molho de chaves.
Quando entrou, a surpresa: “Paulão”, o marido, de cuecas na companhia de uma pequena menos vestida ainda. Entendeu tudo: - já haviam consumado o ato e estavam a se despedir.
Não houve bate-boca. Ele se explicou se dizendo insatisfeito em casa.
A mulher correu para casa a chorar. Já se sentia a responsável, a culpada de tudo.

                                                 ***

Em meio à correspondência veio o envelope com o brasão da polícia, endereçado a ele. Abriu. O delegado o chamava para depor num caso em que uma mulher o denunciava e o acusava de difamação.
A desconhecida que lhe assaltara à saída de casa o acusava de ele ter posto na rede mundial de computadores um filme que fizera, ela nua em pelo e em cenas de sexo com ele. O delegado foi logo dizendo: -“Doutor, o negócio tá difícil. A mulher tá cheia de provas contra o senhor. Vou ter que abrir um inquérito.”
Apavorou-se. O jeito era chamar advogado amigo do tal delegado. O causídico lá foi e conseguiu abrandar a gravidade da situação. Cobrou um preço sem o confessar, no entanto: relatou tudo à mulher de “Paulão”.
Percebendo que a situação do marido era mais grave do que supunha ao início, tomou a decisão radical: iriam morar no estrangeiro, onde ele pudesse se “recuperar” de suas estripulias. Rapidamente arranjou um mestrado no outro lado do mundo, e partiram com os filhos.

                                                ***

Haviam voltado há pouco mais de um ano depois de quase quatro fora. A lonjura das terras estranhas e o passar do tempo deixaram aqueles fatos no esquecimento. Tudo ia bem, até o dia em que a mulher descobriu a agenda, a de mais de cem mulheres. Eram nomes, telefones, endereços eletrônicos, e até endereços residenciais. “Paulão” lá escrevera até as próprias senhas, que eram tantas para confundir.
Ela passou a semana a buscar os sites na internet onde “Paulão” costumava arrebanhar aquele povo. Entrava e ficava ali, vendo aquelas pessoas conversar sobre sexo e combinar encontros e orgias. Resolveu ela também virar um personagem. Queria saber até onde teria ido o marido, como se já ainda fosse preciso. Entrava a conversar com homens à procura dele.

                                                ***


Estava no trabalho à noite. Abriu o computador em momento de descanso e saiu em busca de nova presa. Parecia ter conhecido uma mulher bem interessante. Conversa vai, conversa vem, ela pediu que ligasse a câmera. Queria conhecê-lo antes do primeiro encontro. Era normal, tendo em vista os propósitos dos interlocutores daquele ambiente virtual.
Quase teve um infarto quando viu quem estava do outro lado: era a fulana, sua mulher. Foi ligar e dar com a mão no aparelho fazendo-o cair ao chão e desligá-lo com o baque.
Ao chegar à casa suas malas estavam prontas. Ela não queria mais vê-lo nem vestido em ouro. Sem mais tencionar manter-lhe a pose, abriu o jogo com a família – casara-se com um maníaco sexual. Ele, contudo, mantém até hoje o ar de homem sério e normal. Vendo ninguém acredita. Quem te conhece que te compre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

"TUDO PASSA SOBRE A TERRA"

Chamou-me a atenção matéria publicada no jornal O Povo de hoje cuja manchete diz: “Vândalos cortam as mãos da estátua de Iracema”.
            Segundo a reportagem, a estátua da índia já foi alvo da ação de “vândalos” em outras duas vezes, em 1996 e 2001. Em ambas furtaram o arco que a índia segura(va). Desta vez serraram-lhe as mãos e nelas deram sumiço juntamente com o arco que seguravam. O monumento está cotó.
            Sugeriu-se, segundo a matéria, a vigilância ininterrupta da estátua, doravante. Ainda, foi dito que na Praia de Iracema já funciona uma base comunitária da Guarda Municipal, mas que seus agentes não perceberam a ação criminosa. Eu disse “criminosa”? De fato, a reportagem em nenhum momento usa essa palavra para qualificar a atividade de depredar o patrimônio público, mas seguramente há de existir no Código um ou outro artigo que aponte isto como tal. Não obstante, com a crescente noção de que não mais existe o erro e não mais existe o mal, é possível que de crime passássemos a ter uma contravenção, duas facetas da mesma coisa mas com implicações tão distintas que eu não entenderia nem que me pusessem enterrado no encéfalo um minúsculo chip a me excitar o que me falta em inteligência.  
            Agora imaginem o poder público a atender a sugestão, feita por humilde e honestíssimo cidadão que freqüenta o local há anos, de manter monumentos sob contínua vigilância. Seria viável? Seria factível? Até que nossa pobre capital não tem lá tantos monumentos assim. Mesmo a se constatar tal evidência, pergunto novamente – seria possível manter as estátuas vigiadas dias e noites a fio? Os guardas de olhos presos sem desviar a atenção nem por um segundo... e vai que os coitados precisem urinar? e, mesmo que o façam muito rápido, que não tenham nem tempo de balançar as pirocas? sob pena de entre uma sacudida e outra vir o vândalo surrupiar o velho e já surrupiado arco ou amputar outra parte das já tão combalidas partes da estrutura do equipamento... Bem se vê que a tarefa não se mostra tão fácil assim e que sua exeqüibilidade longe está de ser claramente útil.
            Pergunto-me, desde o instante em que li a matéria, se os vândalos que atacaram primeiramente o monumento seriam os mesmos a repetir o feito nas duas outras vezes. Há várias possibilidades, como é fácil depreender. Uma análise combinatória e estatística acuradas dar-nos-iam a pista para responder a essa intrigante questão, pelo menos até que as câmeras de circuito fechado instaladas próximo ao local possam fornecer os indícios de quem seria(m) o(s) autor(es) do delito. (Afinal, seria delito ou não?) Saudades do Irmão Valetim, o Theonesto Louvathel, bambambam da análise combinatória!... será que ainda lembrar-me-ia das equações e fatoriais de tão útil ramo da matemática?
Sejam os 2,5 milhões de habitantes dessa enorme e depauperada Fortaleza, e A, B e C os três assaltos consecutivos à Iracema Guardiã. A probabilidade de um dos habitantes da cidade, sozinho, ser o “contraventor” a depredar o patrimônio em questão na última vez é de 1 em 2,447409 milhões ou 4,085953 x 10 elevado a -7. Já para o segundo roubo/assalto, há pouco mais de 10 anos, seria  de 4,66983 x 10 elevado a -7, um pouco maior, já que a população era, então, menor. E, por fim, se conclui facilmente que em 1996 essa probabilidade seria ainda maior. Notem que “maior” aqui não deve remover a noção de quão pequenos são esses números. Se o mesmo indivíduo executou a mesma proeza as três vezes, temos que essa probabilidade seria de aproximadamente 12 x 10 elevado a -21. Vejam que a matemática está nos ajudando em absolutamente nada na identificação do mau(?) elemento responsável por ato tão bestial. Ela apenas nos diz muito bem que é muito pouco provável que o identifiquemos, dadas as enormes possibilidades. Se o delito(?) foi perpetrado por dois ou mais elementos, as possibilidades para o último evento ampliam-se a um fatorial de 2.447.409 em três eventos distintos, aproximadamente. Conclui-se que sem as câmeras olheiras a matemática do Irmão Valentim só nos serve de lucubração e divertimento.
Diz a reportagem que mais uma vez a prefeitura vai fazer a restauração do patrimônio lesado, segundo consta, com o auxílio da iniciativa privada. Não se sabe quanto vai custar mas o certo é que a Iracema Guardiã não ficará imune a novos ataques, nem se pode prever com exatidão quando seus agressores voltarão à carga. Quanto à vigilância perene e infalível nem se cogita fazer e, de fato, seria um exagero lhe levar a cabo. É restaurar e fazer um fundinho de caixa para eventuais reparos.
Outro de meus pensamentos quanto à estátua da índia Iracema, personagem central do romance alencarino (http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000014.pdf), é o de que seus algozes nem lhe conheçam a origem. Não é de surpreender. Os indicadores educacionais de sua terra apontam para sua bem provável ignorância. Num lugar onde a tradição é não ter tradição destrói-se tudo. Será o caso?
Bom mesmo seria se os bandidos – há bandidos? – levassem logo a estátua inteira. Assim não se fariam mais reparos e economizar-se-ia dinheiro público e privado. Ou que, antes disso, ela fosse removida de onde está e lhe dessem sossego numa finissage honrosa. Seu autor poderia guardá-la em seu atelier onde ela bem estaria protegida do assédio de nossos não educados cidadãos.
Outro dia afirmei que o que nos falta é a guerra, já que não temos terremotos, maremotos, tsunamis, furacões, tornados e nenhuma dessas catástrofes que não poupam nem ricos nem pobres. Assim cresceria em nós o sentimento de nação, de solidariedade, da necessidade do outro, de espírito de corpo e de unidade coesa e indivisível. O problema é que ninguém nos quer invadir. Presumo que nossos inimigos saibam direitinho a trabalheira que teriam conosco após a conquista. Seremos tão fáceis que nem glória teriam em tal empreendimento. Ademais, pra que invadir? se já lhes damos de graça o que eles tanto desejam? Parece que o maior inimigo do brasileiro é o próprio brasileiro.

terça-feira, 20 de março de 2012

O melhor para o povo?


Vejam – os números são fogo! Se alguém quiser fraudar um demonstrativo financeiro, por exemplo, terá que lhe atribuir números de seu interesse. Basta que apenas um deles esteja fora da verdade numa operação contábil e todo o resultado estará comprometido. Corrijam-me aí os contadores se estiver afirmando uma asneira.
            Contudo, e é aí que a vaca torce o rabo, se os números a servir nos cálculos estiverem corretos, teremos a verdade nua e cristalina de fatos sobre os quais o comum brasileiro deveria se debruçar. Tomemos como exemplo duas matérias publicadas hoje no jornal Diário do Nordeste, uma à página 11 do primeiro caderno, a outra à pagina 3 do caderno Negócios. Ambas expõem um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) que concluiu que 83% de 5.266 dos 5.563 municípios brasileiros “não consegue gerar nem 20% da receita de seu orçamento”, e que “apenas 95 prefeituras têm excelente gestão de finanças”.
            Para o glorioso estado do Ceará os números são um pouco piores. Diz a reportagem o seguinte: “85,5% das cidades cearenses não conseguem se sustentar com recursos próprios, dependendo diretamente das transferências realizadas pelos governos estadual e federal”. (É bom que se lembre que também os governos estaduais são destinatários de recursos da União.)
            Por que o bom e comum brasileiro deveria se debruçar sobre um assunto tão tedioso e enfadonho quanto este da qualidade da gestão fiscal de seu município? Uma das razões a reportagem esclarece: ela “interfere diretamente na qualidade de vida dos munícipes”. A outra razão, que a reportagem omite, é que é o dinheiro dos impostos que o munícipe paga que não está dando para cobrir as despesas. O cidadão comum poderia dizer: “Ora, se já pago tantos impostos, para onde está indo toda essa montanha de dinheiro?”
            Há ainda mais. No Ceará, os municípios gastam em excesso com pessoal e não têm liquidez por “não possuir recursos suficientes para cobrir os restos acumulados a pagar de gestões anteriores”.
            O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), senhor Paulo Ziulkoski, explica que 4.500 municípios brasileiros são de perfil econômico rural e a Constituição os impede de tributar a renda oriunda do campo, reduzindo bastante a base tributária, já que todos têm menos de 50 mil habitantes. Ou seja, esses 4.500 municípios só podem tributar a área urbana. O que é produzido no campo não paga imposto.
            Como se vê, há um conjunto de fatores que, mantidos, perpetuarão esse estado de coisas nesse mundão chamado Brasil. É sabido que Brasília fica com mais de 60% do que é arrecadado em impostos.
            O que a reportagem quer dizer, trocando em miúdos, é que a economia dos municípios brasileiros, e particularmente a de nosso glorioso Ceará, gira em torno do serviço público. Quase todo mundo é funcionário público. As prefeituras recebem dinheiro do estado via Brasília ou diretamente da própria para pagar as despesas com pessoal e dívidas deixadas por gestores que por lá já passaram. O prefeito de hoje está a pagar o papagaio do gestor de ontem. O que eles arrecadam em impostos municipais é muitíssimo pouco, já que a maioria deles não tem de onde tirar, e sua atividade agropecuária, que é a principal depois da dos salários dos servidores públicos, não é tributada. Arrecadam, talvez, do IPTU e de outras poucas mixarias.
            Essa situação é a mão na roda para a perpetuação não somente da pobreza mas também das hegemonias políticas. O prefeito equipara-se ao mendigo diante do esmoler-mor. Como estão sempre querendo dinheiro, estão sempre mendigando em Brasília ou na capital de seu estado. Isso sem falar nas tais “emendas” ao orçamento, que são produto da ação de deputados e senadores em prol do reforço orçamentário dos prefeitos para as obras que dão voto. E, todos sabem, obras são feitas pela iniciativa privada; e iniciativa privada ao lado de políticos só pode dar em merda.
            Nesse cenário está o povo não educado e povo não educado, além de se vender a preço de banana, não serve para trabalhar na eventual indústria que viria se instalar no município, e que não vem mais porque sai caro montar a indústria e ainda trazer de fora funcionários para nela trabalhar. Mas seriam as indústrias, as fábricas, as montadoras, etc., que gerariam empregos – se o povo fosse educado – e receitas em impostos ao município. Isso, é claro, se Brasília resolvesse que o Brasil deveria finalmente se tornar uma verdadeira república, uma verdadeira federação, e deixasse de lado esse negócio de permanecer um grande feudo cujo poder central tudo (des)controla e (des)manda.
            Assim, em pequenas duas matérias a imprensa cearense contribuiu de forma avassaladora e notável para o esclarecimento do porquê de nossa pobreza eterna e renitente. Seria bom que o povo das esquerdas, mormente suas mentes mais brilhantes e apaixonadas, deixasse-lhe entrar na mente tão óbvias conclusões. O povo não educado não é burro – é mau caráter. Sabe, sente em suas entranhas mais centrais a responsabilidade que lhe caberia ao se “emancipar”. Já nossas brilhantes mentes da esquerda não podem se abstrair de um envolvimento mais profundo e real no problema. Não querem o melhor para o povo? É preciso lhes dar o melhor mesmo que não queira. Ou não?

quinta-feira, 15 de março de 2012

Obstinada obsessão

          Encontrei ali ao calçadão o Saldanha. 
          Como de praxe, foi logo dizendo: -"Trabalho muito!" E passou a enumerar as últimas mudanças na vida. 
          Casara e comprara uma nova casa em bairro distante. De fato, era  a imagem encarnada e esculpida do homem casado – engordara além da conta, com direito a um desses ventres rotundos e esféricos. As faces se cobriam de bochechas. Com efeito, o Saldanha não era o Saldanha – era uma rechonchuda bochecha encimando uma voluptuosa barriga.
          Não pude me conter. Disse-lhe: -"Engordaste, rapaz!" Ele justificou o desleixo: -"Trabalho demais!" Cheguei a pensar que nem dormia. 
          Quis minimizar: -"Cinco quilos!" Cinco quilos eram somente as bochechas. Cinco quilos a mais com aquelas bochechas e o ventre descomunal seria um eufemismo nutricional e culinário. 
          E queria deixar claro: -"Tenho trabalhado muito!"
          Ora, desde que fomos apresentados, desde a primeira vez em que conversamos após o aperto de mãos, ele sempre fez caso a deixar evidente sua dedicação ao trabalho. Dizia, numa dessas confissões laxativas e catárticas: -"Levanto às cinco e trabalho até a noite!"
          Eu, que sou um preguiçoso de marca maior, sentia, desde então e ao encontrá-lo,  uma espécie de humilhação nauseante. Ontem tinha tudo para não ser diferente. Todo esse tempo sem o ver me levara a esquecer esse vertiginoso sintoma. Se ele volta a circular por perto é sinal de que me seria mais sensato andar com os bolsos entupidos de metoclopramida, conhecido anti-hemético. 
          Para minha sorte não se permitiu ficar por mais que cinco minutos. Dentro em pouco veio encontrá-lo a filha, e partiram. E, vejam, em pouco menos de cinco minutos o homem garantiu por três vezes: -"Trabalho que nem um burro de carga!"
          Contudo, – curioso –, nada senti dessa vez. Sua apologia à labuta penitente em nada me impactou. Com efeito, saí a me rir daquela figura  e de sua duvidosa autenticidade. Alguém dirá que ele é enfático, e direi que não, que é, na verdade, repetitivo. Diria até que o repetitivo é tudo menos enfático. 
          O repetitivo é, antes de mais nada, um chato de galocha. Não sei se já ouviram aquelas "orações" de frase única em que um indivíduo a declama, inicialmente, para em seguida um coro de um sem-número de pessoas repetir. E isso inúmeras vezes, horas a fio. Se imaginarmos que haja um santo a ouvi-la no além, e se presumirmos que o santo é um elevado ser com ocupações sérias e inadiáveis, não se irritará o santo com aquela lengalenga interminável? Eu, um reles e entediado mortal, me irritaria a não mais poder. Seria uma tortura maior e mais cruel do que a de qualquer objeto medieval apropriado a esse fim. Além disso, a repetição obstinada de uma frase ou de um dizer por parte de alguém levanta a suspeita de que esse alguém não tem lá muita fé no que diz nem em quem ouve. Seria uma espécie de zombaria com o suposto ouvinte, posto que duvide de sua existência. 
          E o caso do Saldanha? Ele não acredita qu'eu nele acredite quando diz que muito trabalha? É precisamente isso o que penso : o amigo duvida de mim. E – pior! – duvida que alguém acredite, já que não é somente a mim que tortura. Ou isso ou ele duvida de si mesmo. Duvida que trabalhe tanto quanto alardeia. Talvez durma até o meio-dia e sonhe que já desde as cinco esteja acordado. Será que o homem está a tomar ácido?

terça-feira, 13 de março de 2012

"Corrige o teu filho, e te dará descanso..."


Tocou-me deveras o artigo da excelente jornalista Adísia Sá à página 6 do jornal O Povo de hoje. Intitulado “Matança de Inocentes?”, lá ela faz ainda outras indagações. Pergunta: “O que está acontecendo com os nossos jovens recém saídos da adolescência, que são detidos após assaltos, arrombamentos e assassinatos?” E mais – confessa publicamente: “Isso me tem angustiado e arrastado a especulações...” etc. etc.
            Dizem que as perguntas são mais importantes que as respostas, que o conteúdo da pergunta tudo evidencia, tudo projeta, e expõe a gravidade do problema. Em minha humílima opinião as seguintes adquirem uma dimensão ainda mais lucubratória: “Quem está se debruçando sobre esse doloroso quadro?” e “Onde estão suas famílias?”.
            Lucubremos, então.
            Se está acontecendo algo aos jovens, podemos concluir que é algo estatisticamente significativo, já que chama a atenção da respeitável articulista. E é. Ela diz: “Todos os dias há notícias de crimes envolvendo menores...” E, se está acontecendo, o que está acontecendo, afinal? Ora, há um número crescente de menores criminosos. Diz também ela que isto é um problema. Jovens menores de idade “vivendo no e do mundo do crime” não é uma coisa normal nem desejável.
            A mim me pareceu que a nobilíssima jornalista esqueceu de formular a pergunta mais instigante, posto que seja o que mais intriga: por que isso acontece a esses menores? Somente sabendo e conhecendo as razões que tangem esses jovens rumo à marginalidade é que se poderá se lançar às soluções porventura existentes.
Não sei se devo arriscar, mas ao que parece esses jovens são “egressos” de famílias pobres, mal estruturadas e cujo nível de educação de seus pais é o pior possível. Como são não-educados não têm oportunidades para crescer como seres humanos e estão sujeitos a sempre se vender às migalhas que o estado lhes oferece. Muitos não carregam em si valores religiosos, morais, humanitários. Como são ignorantes, não adquirem o senso crítico que lhes permita escolher o que lhes é mais proveitoso e idôneo.
Tem sido também bastante noticiado o desmonte dos tais “conselhos tutelares”. O que são esses “conselhos”? Eles surgiram com a lei que criou o estatuto da criança e do adolescente. São órgãos municipais destinados a zelar pelos direitos da criança e do adolescente. Vejam o que está escrito resumidamente sobre a função desses conselhos: “o conselho tutelar é composto por cinco membros eleitos pela comunidade para acompanharem as crianças e os adolescentes, e decidirem em conjunto sobre qual medida de proteção para cada caso.”
Agora, vejam o que diz o site do Conselho Tutelar (http://www.conselhotutelar.com.br/): “são imprescindíveis a um pai, mãe ou à pessoa que seja responsável por uma criança/adolescente o cuidado e a sabedoria necessários para instruir o menor de idade”. E continua: “além de auxiliar os menores garantindo seus direitos, deve dar atenção e fornecer conselhos aos indivíduos que possuem a guarda dos jovens”.
Tomemos as palavras que realcei no parágrafo que precede o anterior – zelar, acompanhar, comunidade, proteção, caso.  Tomá-las-ei como palavras-chave. Não são os pais que devem zelar por, acompanhar, alimentar, proteger, dar abrigo, e educar o filho? A isso se chama seio familiar. Bem, era assim antigamente.
Contudo, devia haver algo muito errado com a família para vir alguém que julgasse necessário escolher um grupo de pessoas da comunidade para acompanhar as crianças e decidir quais medidas protetivas cada caso exige. Lembremos que o termo comunidade nesse contexto reporta-nos a uma comunidade pobre, e tudo o que é pobre nesse imenso país é retumbantemente e solenemente esquecido. Comunidade é um termo usado por políticos e gestores públicos em seus discursos medíocres e fantasiosos. Observem também que o conselho se atem a resolver casos. Caso lembra problema, e problema sério. O conselho propõe-se a ser o “remédio” salvador da pátria dessas miseráveis crianças que deram o azar de vir nascer de gente pobre num lugar onde a vida humana não tem a menor importância e onde pobreza vem bem a calhar a projetos de poder inescrupulosos.
No site o conselho reconhece que os responsáveis naturais pela criança/adolescente têm de ter sabedoria para educá-los, e se propõe a auxiliá-los nesse sentido e a garantir-lhes seus direitos. Ora, esse mesmo estado que criou esse “conselho” negou a esses responsáveis naturais por essas crianças a oportunidade de obter a sabedoria que deles exige. Negou-lhes educação e, com isso, trabalho digno. Negou-lhes todas as oportunidades. Virou-lhes a face.
Se podia lhes ter dado educação de qualidade e os tornado cidadãos de discernimento impedindo que gerassem filhos criminosos, por que o estado vem e cria o famigerado estatuto que cria os conselhos tutelares para fazer papel de pai e mãe? O estado quer “estatizar” a família? Quer substituir o amor do seio familiar por cinco basbaques metidos a besta a fazer papel de palhaços? Esquece o estado que a família é antes de tudo uma célula de amor. Parece ser o caso, já que também pretende criar a “lei da palmada”, e impedir que os pais criem seus filhos na disciplina e no amor.
É tudo muito simples, cara Adísia Sá. O estado brasileiro, em todas as suas instâncias, quer enfumaçar sua incompetência criando esses badulaques comunistas que dão a impressão que está a zelar por seus cidadãos quando, na verdade, os está condenando a maior exclusão ainda. É da índole desse estado a política do faz-de-conta. Se assim não fosse não seria redundante em leis cujo objeto já o é em outras, como esse estatuto da criança e do adolescente, o estatuto do idoso e a lei Maria da Penha.
Isso responde às tuas perguntas. Ninguém está, de fato, debruçado sobre o problema. Faz de conta que há uma legião prostrada sobre ele, mas não há. E mesmo que houvesse. A solução do problema é devolver o cidadão à dignidade de sua família. E para isso impõe-se educação de qualidade. Nem que se criem milhões de conselhos tutelares se resolverá o caso.  
E onde estão as famílias desses menores? Estão entregues à escuridão da ignorância, da pobreza de espírito, da subserviência cega aos projetos de poder dos políticos mais safados do mundo.

“A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe.”
“Corrige o teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma.”

Prov; 29: 15 e 17  

domingo, 11 de março de 2012

Uma ditadura sem fuzis e baionetas


DEVO ser um sujeito neurótico, e, com efeito, o sou, admito. Há aquela velha definição do neurótico: neurótico é o sujeito que sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. É precisamente o meu caso. Não obstante, sinto-me deveras confortável em meus processos neuróticos. Meu conforto baseia-se numa alucinação numérica – a de que algumas poucas dezenas de milhares de brasileiros também o são. Essa enorme solidariedade me sinaliza que, sim, não é tão mau assim ser neurótico. Sigo, então, orgulhoso de minha neurose tão amplamente compartilhada.
O que me suscitou a consciência de minha condição psicológica foi o último artigo do excelente jornalista Fábio Campos em sua coluna de ontem do jornal O Povo intitulada “Lei é lei, pero no mucho”. O que diz lá o senhor Campos deixaria os ossos de nosso grande Rui Barbosa tinindo de algias pos-mortem. Ao terminar de ler-lhe o artigo chega-se a uma estarrecedora conclusão, uma que já de há muito se suspeitava: no Brasil tudo é possível e, portanto, ninguém está seguro. (http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2012/03/10/noticiasfabiocampos,2799180/lei-e-lei-pero-no-mucho.shtml)
As Medidas Provisórias são instrumentos constitucionais que permitem ao Executivo “legislar” sobre temas cuja urgência e relevância as justificariam. O que fez o Executivo? Uma farra. Para tudo adotava uma Medida Provisória (MP), não importando se o assunto a que ela se destinava era urgente e/ou relevante ou não. Após sua adoção a MP deveria ser submetida ao Congresso Nacional para apreciação, convertendo-a ou não em lei. Assim, o Legislativo não legislava; fazia política, conchavos e esbanjamento do dinheiro público. Já o Executivo não governava – editava MP. Ou seja, legislava. A torto e a direito. Mas de tudo isso já sabíamos. Toda a nação tinha ciência das idiossincrasias desses dois poderes de nossa república.
O que não sabíamos relata-nos agora o Fábio Campos em seu artigo – o Judiciário não julga. Ou, dizendo melhor, julga, mas julga a favor da ilegalidade, da inconstitucionalidade.
Em primeiro lugar, informa-nos ele que “a Câmara dos Deputados e o Senado jamais fizeram funcionar a comissão mista para analisar as Medidas Provisórias. No fim das contas, desde então, nada mais, nada menos que 560 MPs foram aprovadas e ‘viraram leis’ (aspas minhas) sem passar pela devido e obrigatório trâmite”. O que aconteceu, então? Ora, aconteceu o que aconteceria um dia, mais cedo ou mais tarde – o Supremo Tribunal Federal foi provocado em relação a uma dessas MPs. Nem mesmo entremos no mérito da flagrante e contínua desobediência à Carta Magna da nação, que obriga a apreciação das MPs pelo Congresso em tempo hábil.
Continua o Fábio Campos: “E o que o Supremo fez? Ora, muito simples: concluiu que a referida MP foi aprovada de forma inconstitucional. Portanto, deveria ser anulada. Perfeito? Nem tanto. Afinal, o que fazer com as outras 559 Medidas Provisórias aprovadas da mesma forma?” Vejam que, se essa MP fosse anulada, as outras 559 teriam obrigatoriamente de também o ser.
Diante da visão de um imbróglio de tamanha magnitude, que fez a elevada corte? Quem nos responde é o próprio Fábio Campos: “Deu-se o inusitado: dois dias depois, o Supremo recuou de sua decisão e criou um absurdo jurídico. A saber: a decisão só valeria para as Medidas Provisórias apresentadas a partir de agora”.
Conclui o jornalista na revelação limpa e seca de duas evidências estarrecedoras, para as quais o povão e mesmo a “elite pensante” não dão nem darão a mínima: primeiro, “temos 560 Medidas Provisórias fora da lei que o País e a Suprema Corte vão fazer vista grossa”; segundo, se a primeira decisão da Suprema Corte foi a favor da e segundo o que manda a Constituição, e a mesma foi logo a seguir revogada pela mesma Corte, conclui-se que o Supremo Tribunal Federal julga contra a Lei Maior. Ou seja – a Suprema Corte do país não somente a rasgou, mas também a queimou. Não lhe restou uma mísera letra. Nada do que lá está escrito tem valor.
Se nada lá tem valor ou está sujeito à “vista grossa” e revogações por parte de quem por ela deveria zelar seu rígido cumprimento, em que ambiente jurídico nos achamos imersos? Qual segurança o cidadão comum tem de que goza plenamente seus direitos? Quem garante o que não garante a Constituição? É de se suspeitar que os deveres do cidadão permaneçam pétreos e sujeitos à cobrança do Estado. Se assim for, estamos diante de uma ditadura branca. Vivemos uma ditadura sem fuzis e baionetas. Não há que se iludir. É, de fato, estarrecedor.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulher

          No primeiro livro das Sagradas Escrituras – Gênesis –, logo ao seu início, descreve-se a criação do homem. Ao capítulo 1 seu Autor diz: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." (verso 27) Aos que propagam que o Autor do homem não tem face nem imagem, há razão a que um mortal Lhe retruque? Chama-se a isso ignorância autoimposta. 
          Ao capítulo 2 o Autor dá detalhes dessa criação: "Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente." (verso 7) Após isso, o homem é orientado quanto ao seu alimento e quanto aos cuidados com o jardim. Depois o Senhor lhe trouxe todos os animais para que lhes desse nomes. 
          Depois o Senhor observou que "não é bom que o homem esteja só" e concluiu: " Far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea".
          Eis, então, que o Autor da mulher nos ensina como a construiu, como a fez, de onde a formou: "Então, o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe." (versos 21 e 22).  
          O texto Sagrado é conciso, nada prolixo. As conclusões são óbvias na medida em que outras não são possíveis. 
          Se o Senhor diz que a auxiliadora do homem precisa ser idônea, basta irmos ao pai dos burros para saber o que Ele quis dizer. Lá está escrito sobre "idôneo": aquilo que é considerado técnica e moralmente apto a ocupar um cargo ou a exercer determinada função. Assim, a mulher foi criada para estar à altura do homem e que o homem então formado era um ser moralmente elevado e perfeito. Conclusão: o Senhor criou homem e mulher então moralmente perfeitos, irrepreensíveis e iguais. O fato de a mulher ter sido criada após a criação do homem não a diminui. 
          Mais. A mulher foi criada do pó, posto que retirada do homem que foi, também, formado do pó da terra. O Senhor poderia tê-la formado a partir do pó retirado diretamente da terra, mas não o fez. Por quê? Ali estava selado o destino de ambos, num casamento eterno, como "uma só carne". Esse foi o propósito do Senhor: uni-los eternamente. Duas "almas viventes" indissoluvelmente unidas.
          Poderia também o Senhor ter trazido Seu Filho ao mundo "formando-o" do pó da terra, mas ainda não o fez. Por quê? Para ratificar a elevada posição da mulher em Seus desígnios, mostrando estar ela à altura do homem e do plano da Redenção. 
          A todas as mulheres o respeito que lhes é devido. 

Jó, Nabucodonosor e Salomão num homem só

          O homem escreve seu destino por linhas tortas; por vezes tão tortas que começa a pensar que talvez fosse melhor nunca chegar ao tal destino. O dito popular é até ingênuo, a julgar pelos atos e atitudes do homem. Certos comportamentos são tão irresponsáveis, ou tão esdrúxulos, que não há como não se prever o desfecho de certas histórias. 
          Tenta-se acertar, mas ao lado da razão está a emoção e, ao lado de ambas, os mais primitivos instintos. Como subjugá-los?, eis a dúvida acachapante. Mostrou o Dan Ariely por A+B que o homem é tudo menos racional. E, se o homem é, na maior parte de seus dias, um jegue  que sacode o rabo a afugentar de si moscas e mosquitos, não se pode esperar dele destino que preste. Então, conclui-se pela impossibilidade da subjugação daqueles instintos.
          O sujeito gostava de funcionárias do lar. Não vai aqui juízo de valor ou preconceito. Pode-se até gostar de funcionárias do lar, mas eis o grave problema quando se é casado e se tem o hábito de assediá-las ao sacro ambiente do reduto familiar. Era o caso do sujeito. E reincidia. Eram os instintos a lhe fustigar.
          Ao mesmo tempo desconfiava da mulher. Contratou profissional da bisbilhotice para bisbilhotá-la. Pôs escuta telefônica, detetive, o diabo a quatro a vigiá-la. (Sabe-se que o que trai julga que todos traem, e mais ainda seu cônjuge. Projeta-se a si mesmo no outro.) Como era de se esperar, nada encontrou. O sonhado flagrante delito seguia sendo apenas um delírio de marido safado e prevaricador. Foi ouvir a fita cassete e nada encontrou que desabonasse a companheira. E deixou a tal fita lá não sei onde, numa gaveta qualquer do birô. 
          Foi depois de o quê?... talvez um ano ou pouco mais. A mulher, preocupada com a bagunça em casa, queria uma faxina. Pôs tudo abaixo. Foi quando se deparou com aquela estranha fita na gaveta da escrivaninha. Antes de lançá-la ao lixo convinha ouvir-lhe o conteúdo. Não queria jogar fora algo importante. O que ouviu a levou aos prantos e à primeira desilusão: o sujeito namorava, e nem cuidava em ser discreto. Deixou tudo impresso na armadilha que ele próprio armara para desmascarar a mulher, aquela história de o feitiço virar contra o feiticeiro.
          Sem estrutura para suportar a decepção, tomou veneno de barata. Foi parar no hospital. O hálito de Baygon enchia seu choro sofrido e maldizente de si mesma. Foi uma cena patética, que se iniciou dentro de casa, e cujos sons escalaram os muros a incomodar os vizinhos. A vizinha veio em seu socorro tão logo se deu conta de uma possível tragédia na casa ao lado. Felizmente saiu do hospital sem maiores complicações, mas levava um coração dilacerado e ferido de morte.
          Gostava de funcionárias do lar. Suspeita-se que a da fita fosse uma delas, demitida meses antes. Dali em diante, após o cassete traidor, jurara conduta ilibada e fidelidade eterna. A razão assim o queria. Mas o homem é um jegue a ruminar o mato que mastiga e a espantar insetos voadores com a cauda que mais parece um chicote. Os instintos ali estavam, permaneciam, somente aguardando a desmantelar todas as lógicas e sensatezes. 
          Fosse um bicho que pensa resistiria aos impulsos e maus pendores. Tomaria a decisão que a lucidez manda e orienta, a viver em paz e na paz. Mas qual! Não pensa. E, com efeito, bicho não pensa. As inclinações primitivas pesam em demasia para se lhes resistir. Há, por outro lado, toda uma moralidade e uma ética a seguir  e manter. Outra ética não é ética; outra moral não é moral. Inexistem as outras, por assim dizer. Serão coisas de outro tempo ou de outro lugar. Ética e moral só mudam com o tempo e com o lugar. Não se as trocam da noite para o dia, nem indo ali a Sobral. Serão grandes distâncias e ainda maiores tempos a permitir outras. Aqui e agora são estas. E daí?, se o absoluto manda às favas a moral e a ética? O absoluto é o laissez faire,  laissez alle, laissez passer. Ajamos na conta do absoluto!
          Ele estava nos aposentos da funcionária do lar quando a mulher os surpreendeu. Foi caso de demissão sumária. Há quase três anos se engalfinham em seu inferno particular, que promete chegar ao fim nos próximos seis dias. Um juiz de direito o condenou a deixar o lar conjugal pagando a pensão e as custas do processo. Contraíra dívidas astronômicas para embelezar a casa e satisfazer a família. Sai sem dinheiro, sem lugar para morar, e sem os filhos. Lembra Nabucodonosor em sua loucura, Jó em suas desgraças, e Salomão em sua concupiscência. Sai desgraçado, mas ainda de caso com a funcionária demitida em roupas íntimas.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Inércia, amém!


            Eu ia escrever sobre minha inércia e desisti. Ato contínuo, voltei a pensar no assunto e reconsiderei a possibilidade de ainda escrever sobre ela. Será que consigo?
            Diz a física que inércia é a tendência de um corpo permanecer como está. Se bem me lembro, ela é o tema central da primeira lei de sir Isaac Newton. Diz lá o seguinte: na ausência de uma força um corpo em repouso permanecerá em repouso, e um corpo em movimento permanecerá em movimento indefinidamente e em velocidade constante. Corrijam-me lá os entendidos se me equivoco. Se não, aí está.
            Antes de ir adiante, não sei se já ouviram falar do parecer. O que é um “parecer”? A definição mais sucinta que encontrei diz que “é uma opinião sobre uma determinada situação que exija conhecimentos técnicos”. Presume-se daí que o parecer médico é uma “opinião” de um médico sobre determinada situação clínica de um paciente. Vi outro dia alguém querer saber a diferença entre um parecer médico e uma consulta médica. Quem respondeu disse o seguinte: “numa consulta médica o profissional avalia, diagnostica, examina e medica, se necessário, o paciente”. E continuou: “o parecer médico é dado quando o paciente precisa da avaliação de um profissional para um caso específico”. 
            Quando se fala em “profissional para um caso específico” evoca-se a idéia de “especialista”. Então, diríamos que o parecer médico é solicitado quando o médico não especialista solicita a avaliação de um especialista em determinada área. O médico não especialista pode ser um especialista em outra área que não aquela para a qual pede o parecer, ou pode ser um médico generalista/clínico geral. O generalista á aquele médico que concluiu o curso de medicina e não cursou nenhuma especialização/pós-graduação, ao passo que o clínico geral é aquele que tem Residência Médica em Clínica Médica ou Clínica Geral.
            Outro dia escrevi sobre “o clínico”. Dizia que ele é “o médico”, porquanto seus conhecimentos abarcam todos os ramos da medicina numa profundidade de Fossas Marianas. O clínico que é clínico dá o diagnóstico de qualquer especialidade e referencia o paciente apenas e tão-somente para o tratamento com o especialista. O clínico que é clínico funciona de padre, psicólogo, confidente, conselheiro, pastor, ouvinte, e tudo o mais que um ser humano resignado e sábio possa oferecer a seu igual. “O clínico” dá tanta atenção a seu paciente que gasta muito de seu tempo com ele, sendo-lhe literalmente impossível acumular pacientes na sala de espera.
            É bem conhecido o episódio envolvendo o grande médico desta terra, doutor George Magalhães, que se autodiagnosticou como portador de apendicite aguda. Ligou, então, para o cirurgião de sua confiança e disse-lhe: -“Fulano, me encontra no hospital daqui a meia hora que eu estou com apendicite aguda e você vai me operar!”
            Não tarda e levantar-se-ão de seus buracos - eu ia dizer trincheiras - os idiotas da objetividade, como diria Nelson Rodrigues, a argumentar que hoje não é mais possível ser médico assim, que o corre-corre do médico não lhe permite dedicar tanto tempo a seu paciente, que o modelo de nosso sistema de saúde corrompeu o exercício, que o médico é vítima do sistema, et cetera e tal. Bem se vê que não lhes seria mesmo possível usar as trincheiras - nelas estão soldados a lutar.
            De tanto falar não vou ao ponto. O que quero dizer é que se criou, e cada vez mais se hipertrofia, a cultura do “parecer” no meio médico, mormente em grandes hospitais públicos. Funciona assim. Como o médico não mais examina seu paciente, põe outro a examiná-lo utilizando-se do pedido de “parecer”. Ora, ser especialista em traumatologia não implica em abrir mão do exame da circulação do membro de paciente vítima de trauma sobre aquele membro. A recíproca é absolutamente verdadeira - o cirurgião vascular deve examinar ossos e articulações em pacientes vítimas de trauma sobre membros, bem como solicitar os respectivos exames radiológicos se julgar necessário. Caso encontre fratura e/ou problemas articulares lançará mão do parecer do traumatologista, que encaminhará a vítima ao tratamento adequado.  O que se faz hoje? Chama-se o traumatologista para examinar o paciente quanto à existência de problemas ósteo-articulares. Pergunto: o especialista desaprende o que aprendeu sobre as áreas nas quais não é especialista?
            Cada vez mais ganha terreno a anedota que define o que seja o especialista e o que seja o generalista: o especialista é aquele que sabe quase tudo de quase nada; o especialista é o que sabe nada de quase tudo. Observem que a anedota nem leva em conta a existência de “o clínico”. Pressupõe sua completa extinção. Daqui a 65 milhões de anos serão lembrados como hoje se faz com os dinossauros.
            E minha inércia? Não há perigo de esquecê-la. O sujeito que se incomoda, que não se conforma com o engano e o erro, que não se adapta aos maus modos ainda nunca ficará inerte. É um neurótico de carteirinha. Amém.