sábado, 22 de março de 2014

Vou xingar o Fábio Motta

               Ontem encontrei, nos corredores do hospital, o meu querido amigo Erivan "Feio À" Bessa, do tempo dos bancos universitários. (Seu nome é Erivan Bessa, mas impossível é esquecer-lhe as "virtudes" estéticas.) Ora, o meu amigo é autor do apelido que constará de meu epitáfio: - "Fernando da Gata".
               Não sei se os amigos conhecem o contexto em que surgiu o "Fernando da Gata" e, por isso mesmo, farei um résumé. Foi o seguinte.
               Corria o ano de 1982. Xuxa Meneghel era a rainha dos baixinhos e dos altinhos, uma mulher linda e desejada, o exemplar mais fiel do padrão de beleza feminina. O Bessa, loiro, branco, de olhos verdes e, contrariando a noção preconceituosa de que todo loiro branco de verdes olhos é bonito, é, com efeito, mais feio do que o Zé Bonitinho. Eu, matutando uma forma de afugentar o tédio por conta de uma aula de Patologia ministrada por um professor competente e honesto – dava sempre as duas horas ininterruptas de aula –, olhei em volta e, invocando o meu amigo, chamei-o em voz alta: -"Xuxa"! Toda a turma veio abaixo numa pilhéria incontrolável. Até o professor saiu a gargalhar-se. 
               Ele, bicho-do-mato das bandas do interior, desses que metem facilmente uma faca no bucho de desafetos e gozadores, passou alguns dias amuado e ensimesmado, talvez pensando em como me armar uma emboscada definitiva e fatal. Ocorre que o crime de morte por pouca coisa era, àquela época, punível exemplarmente e diferentemente de hoje. Para piorar a história, fugia da polícia, após escapada espetacular de uma penitenciária no Sul, o criminoso cearense alcunhado de "Fernando da Gata". Ladrão, assassino confesso, estuprador, Fernando da Gata corria solto pelas Minas Gerais, a polícia em seu encalço. Os jornais locais, talvez ávidos pela até então bem sucedida fuga de nosso conterrâneo mais famoso daquele tempo, estampavam quase que diariamente manchetes que davam conta da perseguição a criminoso tão simpático. 
               O Bessa, em sua lucubração de frustrado, facilmente achou sua vingança contra minha presepada. Na sala, depois de uma semana, a mesma Patologia maçante, um sábado ensolarado e aerado, lá pelas onze e meia – a aula terminava ao meio-dia –, ele ergueu-se e, apontando o dedão para mim, fuzilou sem chance de defesa: -"Fernando da Gata"! A zorra foi geral, pior que ao anúncio do "Xuxa". O resultado foi que o apelido apegou-se a mim como marca de boi de fazenda... 
               Pois ontem, ao vê-lo no corredor, chamei-o a dois dedos de prosa. Perguntou-me sobre a motocicleta. Motociclista recente, desfez-se de sua máquina após um susto que, segundo ele, o fez repensar o veículo. De fato, continua motociclista, uma dessas lambretinhas econômicas e úteis. O susto teria ocorrido ao pilotar uma motocicleta maior. Resolveu que sua experiência sobre duas rodas deveria primeiramente crescer no uso da lembreta para, em seguida, voltar a pilotar estrutura mais robusta. Dali a pouco nos despedimos, não sem antes recordarmos o tempo do "Xuxa" e do "Fernando da Gata". 
               Desço e encontro o Rogério Cruz Saraiva, cirurgião pediátrico de primeira estirpe. Colega dos tempos da Residência em Cirurgia Geral, Saraiva exibe um nariz que o credenciaria a atuar no teatro de Edmond Rostand representando, no papel principal, a universalmente conhecida Cyrano de Bergerac. Tão vistoso é o nariz do Saraiva que, já nos tempos da Residência Médica nosso ilustríssimo chefe, Dr. João Evangelista Bezerra Filho, atalhou tão logo o viu: -"Nunca poderia jogar futebol na posição de centro-avante"... Eu, não alcançando a mordacidade do pensamento do chefe, quis saber: -"Por quê, Dr. João"? E ele respondeu piscando ferozmente os olhos enquanto os mantinha quase fechados, num sinal inequívoco da galhofa que diria a seguir: -"Porque estaria sempre em off-side"!... Pela bilionésima vez relatei a história ao próprio Rogério como se, ao relembrá-la mais uma vez, voltássemos o tempo à nossa verdura dos anos para cheirar-lhe o agradável odor.
               Por falar em verdura dos anos, eis que amanhã faz aniversário o meu amado amigo Fábio de Oliveira Motta. O encontro com o Bessa e o Saraiva me levou a revisitar causos cômicos de nossas vidas. A aproximação da data de comemoração do natalício do Fábio Motta, ao contrário, me leva a confessar: - estou a sentir uma ponta de apreensão. Os leitores, cada vez mais raros, quererão saber a razão e direi que é o próprio Motta o responsável por despertar este sentimento em seus amigos mais chegados. A razão é que, nos últimos dois anos, Fábio Motta aderiu ao mais novo esporte de alguns aniversariantes de meia idade, qual seja, esconder-se no dia de seu natalício. A ninguém quer ver, nem receber, nem atender... Isola-se, sabe-se lá onde, desliga o telefone portátil e estamos conversados. 
          Ano passado perdi um enorme tempo tentando estabelecer um fraterno e alegre contato com o amigo, a fim de dizer-lhe do meu bem-querer e da minha admiração. Em vão. Conhecidos desde os tempos em que vestíamos cueiros, queria lhe dizer que sua presença em minha vida a fez mais prazenteira e suportável; que sua companhia sempre foi para mim motivo de anelo e alegria, mesmo e principalmente nos momentos mais difíceis; que nossas vidas vêm caminhando lado a lado desde aqueles inolvidáveis tempos e que isso sempre foi uma fonte de conforto e tranqüilidade para mim; que sem ele, enfim, teria sido mais difícil, bem mais difícil... Assim, amanhã estou querendo dizer ao amigo que os parabéns de então não serão para ele, mas para nós, seus amados e amantes amigos, que tiveram e ainda têm o prazer de desfrutar de sua tão especial presença...
               Entretanto, é o seguinte, e que não se tome isso como uma cominação. Se ele não me atender por conta dessa frescura de sumir, justificando-se com depressões e choraminguices; se somente ao dia seguinte conseguir dizer-lhe tudo o que quero e pretendo, já com o entalo próprio dos que têm urgência; se impuser-nos, a seus diletos amigos, nova e insistente desfeita, vou acabar por transmitir-lhe o que vai de bom em meu coração. Mas, ao final, farei o que só aos verdadeiros amigos é permitido quando indevidamente contrariados: - vou mandá-lo à puta que o pariu!

quinta-feira, 20 de março de 2014

A mais pura verdade disso tudo

               ACHO que devo ser... não, não: - sou, de fato, aos diversos olhos, um sujeito pedante e maçador. Disse “diversos” e corrijo: - sou um sujeito pedante e chato aos olhos daqueles que não me conhecem. No outro extremo, onde estão os poucos que me veem o coração e todas as suas cordoalhas, o conceito que têm de mim é o mais oposto possível. Para estes, sou um gozador, um pilhérico, um bon vivant... Onde está a diferença entre os pólos? Resposta: - a diferença está no peso. Para uns sou um fardo, para outros uma pluma.
               Infelizmente, não sei onde andará o meu querido e amado amigo Casoba. Fugiu o Casoba de mim como o diabo foge da cruz. Apreciador do Pessoa, dizia ele, antes de sua voluntária abdução, e já dando toda a pinta de que nunca mais o veríamos: -“Morrer é apenas não ser visto”...  Ele, outro dado aos folguedos, chegou certa vez a dizer que eu era um pomada. E por quê? Porque, segundo ele, eu seria dado à atividade de bajular, tudo com o simples e rudimentar propósito de agradar a todos. Eu não seria um pomada interesseiro, mas um pomada conciliador ou, melhor, um pomada que a ninguém quer contrariar. Presumo que ele se risse em divertido horror ao tomar conhecimento de que renunciei àquele tipo tão etéreo. Adquiri, pelo que consta, algumas antipatias e olhares enviesados.
               Diria o Casoba, se vivo fosse e aqui estivesse, e no que eu concordaria inteiramente, que progredi deveras, posto que adquirisse alguns antiamigos. O homem não deve agradar a todos. Posicionar-se é necessário. Não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e ao Diabo. Não sou nem um pouco afeito ao modus vivendi, por exemplo, do vereador Carlos Mesquita, comemorado por sua longa vida na vereança, e que afirmou, sem o menor constrangimento e em tom professoral: -“Sou de direita, de centro e de esquerda”... Seguramente, lá ele está na vereação há tanto tempo em consequência de sua “maleabilidade” ideológica. Essa “maleabilidade” garante seu livre trânsito em todas as questões e situações, sem que se obrigue a ater-se a princípios norteadores de conduta. (Vejam que não estou a defender o radicalismo e a intransigência, mas a atividade política é, essencialmente, uma atividade desonesta justamente porque nela aprende-se a transigir e negociar com o erro.) Dependendo do cenário, o senhor Carlos Mesquita usa a vestimenta mais adequada. E assim vai sobrevivendo lépido e fagueiro na política desta capital, eivada de subserviências, de currais, de fisiologismo e de superficialidade resolutiva.
               Esteja onde estiver o Casoba, fique ele sabendo que seu velho e bom amigo mudou. Contudo, ainda ouso tecer algumas considerações sobre essa mudança. E começaria por dizer que, na verdade, é bem provável que seu amigo não tenha mudado tanto assim. Permanece o mesmo nas boas crenças e nos bons propósitos. Imperfeito como todo ser humano, mas querendo sê-lo melhor. O que mudou foi o environment. Diria, e ao dizê-lo parecerei pedante, que esse environment mudou em demasia e para pior, bem pior.
               A primeira grande, sensível e principal mudança foi a noção de que não há o mau nem o mal; e se não há o mau nem o mal, também não há o ruim nem o pior. Se não há o mau(l), nem o ruim, nem o pior, também não há o crime, nem o criminoso, nem a vítima, por exemplo. O resultado é que a letra dos Códigos está morta. Se os Códigos são o resultado das demandas sociais orientadas por princípios e se suas leis não solucionam/mitigam aquelas, então conclui-se que mortos estão também os princípios. Eis aí a grande razão das mudanças para pior, bem pior, do environment: - a morte dos princípios. 
               Dirá alguém que estou a fazer uso de uma figura de retórica e direi que não. Afinal, os Códigos estão aí para quem quiser ler, não é mesmo? Direi que os Códigos estão, sim, escritos e bem escritos. Tão bem escritos que seus artigos são belíssimos, um primor! O que se tem que atentar é que as sanções que lá constam são um conjunto patético e anedótico de muito mau gosto. Diria ainda mais. Os Códigos trazem dentro de si, de cada um, as benesses que aliviam as sanções mais duras, levando-as a um existência meramente virtual, como se morressem tão logo viessem a existir. Nossas sanções assemelhar-se-iam a certas partículas subatômicas cuja vida se mede em bilionésimos de segundos. No Direito, dir-se-ia que o preceito secundário, a sanção, é uma farsa porquanto o preceito primário, a conduta proibida, bebeu na fonte de uma insensatez.
               Vejam como, de fato, os princípios são mais importantes do que as leis. Com a morte dos bons princípios, forçoso dizer – alguém dirá que, se não existe o mau, também não existe o bom e, portanto, não faz sentido falar em "bons princípios" –, não desapareceram as boas proibições; o que deixaram de existir foram as boas sanções. Em seu todo, pelo fato de o preceito primário pretender defender um bem precioso, como é sempre o caso com o Direito Penal, a lei como um todo reveste-se de uma aparência agradável, imponente, e até solene. O mesmo alguma vez ocorre com seu preceito secundário, que pretende estabelecer punição exemplar. Mantiveram-se as boas proibições, os bons preceitos primários, é o que se é obrigado a concluir, apenas para enganar a torcida. É nos parágrafos que se sucedem, como nos rodapés das propagandas mal intencionadas e dos contratos maldosos, que tudo é posto a perder. Neles constam os abrandamentos e as concessões a favorecer o crime e o criminoso e a lei resulta incapaz de efetivamente punir.
               Se tal está a ocorrer no campo de tão importante ramo do Direito, o que se pode esperar nas regras mais simples e mais elementares da vida social? Resposta: - o desprezo completo a elas, como estamos a ver diariamente em todas as nuanças e todos os aspectos da vida nacional. Se uma norma punível quando violada não pune, calcule-se uma regra  simples, cuja quebra levaria somente à vergonha e ao constrangimento. Se uma punição não se concretiza quando tudo prova a culpa do agente, que livra-se desdenhosamente de uma justiça morta, mais desdém ainda demonstram os que violam as regras da boa educação. A partir daí cada um age como bem entender, levado apenas por suas paixões e impulsos pessoais, no trabalho, nas ruas, no trânsito, na vida civil, enfim. E mais. Quando o Estado, o próprio Estado, deixa de cumprir a lei por se saber "superior" e inatingível, que se esperar desse caótico cenário? 
                Destarte, é perfeitamente natural que aquele que não ceda ou concorde com as nefandas e diabólicas mudanças e finque o pé na resistência à sua propagação posicione-se contra os maus elementos dela fomentadores e promotores. Esses – há milhares deles, talvez milhões – são os que não mudaram com a morte dos princípios.
               Casoba, ouça aí, meu caro amigo. Dizem que mudei, que hoje sou um sujeito que por tudo briga, por tudo cria caso, por tudo esperneia. Não sou mais, falam, aquele sorridente companheiro de trabalho, feliz da vida por estar ajudando a amenizar e confortar a dor do ser humano. Hoje sou um sujeito que segue fazendo o mesmo pelo que sofre, mas meu coração empederniu-se, inolvidável amigo. Por não suportar ver prosperar a canalhice latu senso e a canalhice oficial é que me indigno, é porque berro, é porque xingo, é porque me encho de pletoras e dispnéias. Talvez não me reconhecesses ou, quem sabe, que ao menos esquecesses o apelido com o qual me apelidaste. Enfim, na verdade verdadeira sou o mesmo. O que aconteceu foi que cresceu à minha volta a súcia boquirrota, incompetente, hipócrita e venal. Essa é a mais pura e cristalina verdade disso tudo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Quase tudo sobre quase nada

               Outro dia falei de reuniões. Que disse eu sobre elas? Disse, por exemplo, que as detesto. Disse também que elas nunca resolvem aquilo a que se propõem, tudo em função do mais recente e lapidar princípio da gestão brasileira, o princípio do faz-de-conta. 
               Hoje tive o desprazer de estar numa reunião. A certa altura, eu disse: -"Minhas colocações baseiam-se em princípios, senhores"... Qual era o contexto? Referi-me, em primeiro lugar, aos princípios da boa prática e, em seguida, defendia o que chamo de "princípio da independência técnica". São princípios da boa prática ouvir e examinar o paciente com calma e delicadeza. A pressa é, definitivamente, a maior causa de erros e omissões. E o que diachos seria esse "princípio da independência técnica"? Simples: - quanto mais "cirurgicamente" capacitado estiver o cirurgião a resolver problemas diversos numa Emergência Cirúrgica, menos necessitará da ajuda de um especialista. (No Direito, os princípios são mais importantes do que as leis.)
               Agora pergunto: - é bom o princípio da independência técnica? E, antes que me respondam, vou mais longe. Quero também saber: - é bom o princípio do faz-de-conta? (Só agora percebo que não expliquei o que seria ele. Mas é muito simples. Quando se tem um problema que se sabe difícil de resolver ou não se quer resolver, o gestor público faz de conta que está empenhado em resolver ou, ainda pior, faz de conta que o resolveu. Não sei se me faço entender.) Assim, repito a pergunta: - é bom o princípio do faz-de-conta?
               Tem-se duas respostas para esta indagação. Sim, ele é bom, muito bom, pra lá de bom, quando usado eleitoreiramente para uma massa de gente ignara; e não, ele não é bom, porquanto perpetua e até aprofunda a gravidade do problema que se pretendia resolver. Então, conclui-se que há maus princípios. O do faz-de-conta é um deles. 
               E o da independência técnica? Bem, mais uma vez temos duas respostas. A primeira é que ele não é bom. Na verdade ele é mau, muito mau porque... porque... porque... Não consigo achar uma única e mísera razão pela qual possamos julgar que seja mau o princípio da independência técnica, a não ser para o preguiçoso, para o que não quer fazer, para o que prefere que outros façam aquilo que sua função exige e para a qual foi treinado em algum momento de sua formação. Para esses, o princípio da independência técnica é um transtorno, uma dor de cabeça, um pesadelo...
               (Digo isso e já nem sei se quem exige é a função ou o gestor. Bem, o gestor nada exige... a quem deveria exigir. Exige de quem já faz, de quem trabalha, de quem cumpre seu papel. E por que razão age assim, cobrando de quem faz e não cobrando de quem deveria fazer? A razão é muito simples: - quem não faz, jamais fará, ao passo que quem faz possivelmente fará.) 
               E, afinal, é bom o princípio da independência técnica? Resposta: - num momento de parcos recursos humanos e elevada demanda ele seria simplesmente a solução. Como seria a solução?, perguntará o mais cretino dos viventes. É tudo, mais uma vez, muito simples. Senão, vejamos.
               O que é o especialista? Segundo uma anedótica definição, especialista é o sujeito que sabe quase tudo sobre quase nada. Se o sujeito sabe um montão de coisas sobre uma unha – presumindo que uma unha seja uma coisa infinitamente tendente ao nada –, presume-se que seu conhecimento não é muito útil quando, além de unhas, dedos, pés, pernas e braços fizerem parte do problema. Isso é tanto mais verdade quando o maior problema da unha for sua quebra por forças externas. É muito provável que uma força externa, ao quebrar uma unha, quebre também ossos e partes moles do dedo ao qual pertence essa desafortunada unha. Se ao lidar com o problema da unha formos obrigados a necessitar do especialista em ossos e do especialista em partes moles, já teremos três especialistas envolvidos. Todos sabem: - o serviço público de saúde brasileiro é uma lástima, para não dizer um crime. Não há especialista que chegue. 
               Se, ao contrário, o sujeito entender de unha, ossos e partes moles danificadas, a coisa já muda de figura. Ele, sozinho, será capaz de resolver tudinho utilizando-se de seus conhecimentos em unhas, ossos e partes moles danificadas. Vejam que ele nem necessita conhecer doenças outras das unhas nem dos ossos para lhes reparar o dano inicial. Em outras palavras, ele, ao invés de tratar de unhas danificadas somente, será capaz de tratar dedos inteiros. 
               A reunião acabou e o gestor só a muito custo entendeu todo esse blablablá sobre independência técnica, unhas e dedos machucados. Idiota sou eu que não sei usar analogias mais apropriadas.

terça-feira, 11 de março de 2014

Um assunto emocional

                Não sei se viram, deu no jornal.
                (Devo admitir: - passei um tempão sem ler esses tediosos e repetitivos periódicos, mas a disponibilidade de tempo foi a razão de meu lamentável retrocesso.)
                Pois, como ia dizendo, deu no jornal que vão retirar as árvores do canteiro central das avenidas Santos Dumont e Dom Luís. É parte de um plano “emergencial” para tentar melhorar o trânsito naquelas regiões da cidade. Segundo a matéria, as árvores serão transplantadas para outros locais ou calçadas das próprias avenidas. A região, caso a vegetação seja removida para outros locais, ficará sem o verde.
                Deu também que 11 vereadores e 17 deputados estaduais esticaram o carnaval e não apareceram na quinta, depois das festas, para trabalhar. Estou ansioso pela edição de sexta. Nela há de vir a informação sobre a freqüência desses senhores ao trabalho ao último dia da semana. Se soubesse da presepada desses malandros homens públicos, teria também esticado e não teria ido trabalhar. Dirá alguém que os digníssimos parlamentares tudo podem, ao passo que eu... quem sou eu? Um reles funcionário público que o governo detesta. Se faltasse, cortariam o meu ponto e descontariam de meu salário, fazendo uma boa economia para os cofres governamentais. Em resumo: - eu, sozinho, sairia perdendo.
                Na área da (in)segurança a novidade é que durante o carnaval mataram 71 pessoas no estado do Ceará. A autoridade da pasta da segurança, à divulgação dessa informação, tomou a atitude mais inusitada possível: - indignou-se, na pessoa não sei se do secretário da pasta ou se de outro graúdo de lá. Achou o homem que a comparação desse número com o do ano passado é indevida porquanto a festa ocorreu em datas diferentes. Vê-se bem como o mau gestor adora surfar na maionese do falso tecnicismo para tentar justificar o injustificável. Enquanto se discute as técnicas estatísticas, morre-se cada vez mais. E sobre as causas da insana violência nem um pio.
               O que fica bem evidente com todas essas matérias, mais uma vez, é o verdadeiro retrocesso a que me deixei submeter ao voltar a ler jornais. Até porque nossa realidade é a mais palpável possível. De boca em boca nossas mazelas nos chegam ao colo, sem a menor necessidade de esforço da leitura dessas mídias inúteis. Isso sem falar em seu conhecidíssimo estilo chapa-branca.
               Por exemplo, vamos à realidade. Outro dia, não faz tempo, conheci um médico das forças especiais da Organização das Nações Unidas, ONU. Brasileiro, filho único de embaixadores, concluiu o curso de medicina na Inglaterra, se não me engano, por força da mobilidade extrema de seus pais. Estávamos à uma mesa de bar e eu, como colega, morria de curiosidade em saber sobre seu estilo de vida. Relatou-me algumas de suas missões em zona de guerra. Diante de tais relatos, vi-me aterrorizado e concluí: - a guerra moderna, onde se usam armas de poder letal incomensurável, é a mais notória evidência de desumanidade e desamor. Como nunca, em tempo algum, o homem deixou de guerrear, pode-se deduzir facilmente que do ser humano não se pode esperar muito. Em seu relato ficou evidente que médicos em zona de guerra servem a uma atividade muita conhecida de nós, brasileiros: - a atividade de fazer de conta que se está fazendo algo.
               Dirá alguém que estou sendo duro, que não é bem assim, que a presença dos médicos nessas zonas é necessária e faz a diferença, etc. etc. etc. Em suma: - uma lengalenga medonha, como também nos é bastante característico. Pergunto: - qual será a taxa de mortalidade dos feridos nessas zonas? Ninguém sabe. Ou se sabe, mas não se divulga. Por exemplo, no Ceará se sabe que a taxa de mortalidade pelas lesões provocadas na intenção de matar é altíssima. Dizem até que ultrapassa a de zonas de conflito armado declarado. A diferença é justamente essa: - lá o conflito está declarado. O sujeito chega pro outro e diz: -“Segura aí que lá vai tiro”!... E o outro vai em casa, pega sua pistola e cava ali perto uma trincheira a fim de se defender do inimigo confesso. 
              Aqui não. Ou, como querem nossos sociólogos esquerdistas, os excluídos estão a vir sobre a “elite” a fim de cobrar sua histórica dívida. Só que os esquerdistas brasileiros são a elite da elite e não se consegue entender como a elite está a investir sobre si mesma. Fica, então, uma bruma onde se tem a impressão de que todos os gatos são pardos.             
               Eu não ia dizer nada disso. Eu ia dizer que, hoje pela manhã, tencionava submeter um pobre cidadão lesionado em acidente de motocicleta a uma amputação. (A propósito, a população de jovens mutilados no Estado cresce quase que diariamente. Geralmente são jovens vitimados pela falta de oportunidades e solenemente desprezados pela mesma elite esquerdista que vocifera e "reivindica" o ressarcimento da histórica dívida social. Você, caro leitor, que pensa que isso não te diz respeito, saiba que é você quem está pagando essa conta.) Há quase doze anos no poder, o governo esquerdista não tomou as medidas que, de fato, quitariam, no prazo médio e longo, a referida dívida. Apenas medidas para se perpetuar indefinidamente no poder: - medidas populistas e inúteis. O país segue pior que aos tempos da direita. 
                Como ia dizendo, a operação que pretendia realizar quase não foi possível porque a sala de recuperação pós-anestésica estava lotada – de fato, abarrotada – de pacientes lesionados por arma de fogo antes de ontem em tumultos de rua. Os tumultos ocorreram no contexto de uma partida de futebol chamada de "clássico rei". Torcedores dos dois times, qual homens das cavernas de tribos rivais, transformaram as ruas em praça de guerra. Oito pessoas chegaram logo depois ao hospital vitimadas por ferimentos por arma de fogo. Mais uma vez é o dinheiro que sai do bolso do trabalhador que vai financiar os gastos excessivos com o resultado da também inútil violência de nosso dia-a-dia.
                E por falar em dinheiro, ia dizer que, após o resultado das eleições da Unimed Fortaleza, lembrei-me de uma frase de Robert Kiyosaki, conhecido guru das finanças. Dizia ele várias vezes em seus livros: -"Dinheiro é um assunto emocional". Foi o seguinte. 
               Poucos dias depois da derrota da chapa situacionista, cruzo ali no corredor do hospital com um amigo, integrante daquela e participante da diretoria da gestão anterior. O salário do amigo era o quê?, uns vinte mil reais. Pois garanto aos estimados leitores: - o homem nem me viu. Passou a quinze centímetros de mim e não me viu. Também pudera. Vinha cabisbaixo, macambúzio, sorumbático... Dir-se-ia ser a personificação da tristeza e da  melancolia. Antes uma potência de felicidade e bom humor, agora a encarnação da angústia e da dor... 
               Agora pergunto: - tem ou não razão o Kiyosaki?

domingo, 9 de março de 2014

Ruminem, senhores, ruminem!...

          Sou um ruminante. Pareço uma vaca no pasto. Os porquês me incitam a essa ruminação. Não há, ao contrário do que alguns possam pensar, nada de emocional em minha ruminação. A ruminação, sensu lato, faz parte, pura e simplesmente, do processo digestório. A minha não; a minha ruminação é uma figura de linguagem, posto que é no campo das idéias e do pensamento que rumino. Por isso disse antes que ela nada tem de emocional.
         Por exemplo, no texto de ontem relatei a questiúncula de que fui involuntária vítima. Vejam que somente a respiração já é, ela própria, ato que vulnerabiliza o pobre ser. Ela, sozinha, pode suscitar não sei quais incômodos em semelhantes próximos e redundar em litígios onerosos e muitas vezes desnecessários. Tudo ocorreu na rede social, como os queridos e raros leitores hão de ter visto. Não entrarei a repetir os detalhes(http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/03/uma-questao-de-principios.html).
          Incomodei certa senhora, com meus textos, ao ponto do exaspero. Sua insistência era justamente o tamanho de seu incômodo. Diria mais. Diria que ela se mostrava indignada. A certa altura ela escreveu que minha fotografia vista repetidas vezes na página dos ex-alunos maristas chegava a incomodar. Para ela, eu seria um político em busca de votos. E tudo porque fiz duras críticas ao governador do estado.
          Ora, duas conclusões são possíveis: - primeiro, sou um sujeito feio, muito feio, pra lá de feio; segundo, ela é parente do governador. Não a "acusarei" do que ela me acusou, de ser um político de oposição. Vejam que, mesmo que eu fosse um atuante político de partido, nada disso seria ilegal ou imoral. Ser político não é imoral, em tese. Contudo, no Brasil, como os políticos são frequentemente flagrados em atos ilícitos e/ou imorais, o sujeito ao xingar o outro pode muito bem dizer: -"Seu... Seu... Seu político"!
          Ela dizia achar inapropriado o conteúdo dos textos naquela página. Talvez tivesse razão. Mas traiu-se ao enveredar para o confronto de idéias sobre o conteúdo em si. Ao final, ficou claro que era justamente o conteúdo político que a incomodava. Eu dizia coisas com as quais ela não concordava. Como desculpa, veio com a lengalenga da impropriedade.
          Discordar é normal e lícito. Mas, no Brasil, poucos sabem discordar e ainda menos gente sabe voltar pra casa com uma discordância na pasta. Tenho uma penca de amigos e conhecidos que discordam de mim e nem por isso vamos às vias de fato. Talvez o problema seja exatamente esse: - são amigos e conhecidos.
          Não conheço esta senhora e ela, por sua vez, não me conhece. Já que não nos conhecemos, a melhor maneira de discordar de um desconhecido, no "ambiente" da rede social, é escrever textos discordando de textos dos quais discordamos. (Essa esmagadora obviedade só poderia resultar numa frase como esta.) A coisa fica no plano das idéias e ninguém se verá ofendido. Afinal, critiquei o poder público com argumentos e fatos evidenciáveis, bem como usando de lucubrações pertinentes dentro do raciocínio lógico e silogístico. Não foram críticas levianas, por gratuita antipatia. (Dirá alguém que nem todos têm habilidade para escrever aquilo que melhor dizem com palavras faladas.) Morro de ver e ler coisas com as quais discordo na famigerada e inconveniente rede social e nem por isso saio feito um louco a querer apresentar meu contraditório. Cada um pensa o que quiser e faz o que quiser nos limites da moral e da lei. É preciso saber vez o monstro da insensatez e da estupidez e não se amedrontar. Ele não morde nem fere aos que são sensatos, como parece bem óbvio.
          Confesso: - escrevi "em off" para a referida senhora desculpando-me por qualquer inconveniente causado. Disse-lhe que não era bom que irmãos maristas se pegassem por pouquíssima coisa. Ainda aguardo uma conciliadora resposta, mas não perco o sono. Em que pese a ruminação que, por sinal, foi a inspiração para o presente texto, sua "atividade" não interferiu com a excreção liberal de minhas endorfinas. Para falar a verdade, embora faça parte de um processo digestório, ruminações funcionam sobretudo como catarse mental. Sendo assim, ruminem, senhores, ruminem!...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma questão de princípios

            IRRETOCÁVEL é o pior adjetivo que se pode usar para qualificar o texto de 27/02/2014 do jornalista Fábio Campos no jornal O Povo. Intitulado “A Era da Tolerância” (http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2014/02/27/noticiasfabiocampos,3213139/a-era-da-tolerancia.shtml), o referido texto, em rápidas e incisivas pinceladas, descreve o caótico estado em que se encontra a capital do estado do Ceará. De um lado o cidadão comum que desobedece às leis e regras mais elementares da boa convivência urbana, do outro o poder público inoperante, leniente e incompetente em sua função elementar de fazer valer e cumprir aquelas. O resultado inevitável é o caos absoluto.
           Implícita está, no artigo de Fábio Campos, a razão para tal estado de coisas. De fato, a razão não está tão implícita assim. Diz ele que o poder público justifica sua inação, por exemplo, e no que tange à questão da ocupação dos espaços públicos por negócios particulares, porque “não vai tirar o ‘ganha pão’ dos ‘pais de família’ que exploram o comércio na via pública”. Essa concepção traduz bem nossa entranha falso-esquerdista e/ou a inclinação de nossos políticos em não tomar medidas consideradas impopulares, ainda que exigidas por lei. Essa propensão de todo político, qualquer que seja o partido ao qual é afiliado, obedece à risca seu perene projeto de eterna permanência no poder ou, em outras palavras, sua reeleição. Assim, suprime-se o projeto da cidade a bem do projeto pessoal. (Outro dia, o diretor clínico do Hospital Geral de Fortaleza, lá posto a serviço não do povo mas dos políticos que ora dominam o Estado, disse, em reunião com servidores daquele hospital em alto e bom som, e após a interpelação por parte de um deles que questionava a legitimidade de não servidores em postos de chefia: -"Estamos no Brasil; e no Brasil tudo é possível"... Quem quiser entender que entenda. Quem não quiser, paciência. Ao ouvir o relato da reunião por parte de uma amiga, fui obrigado a dizer: -"Triste e melancólica verdade... No Brasil tudo é possível".)
               O artigo do Fábio Campos diz mais que tudo. Diz o que a esmagadora maioria de nossos venais jornalistas não diz. A esmagadora maioria de nossos jornalistas ou faz apologia a nosso estúpido esquerdismo ou faz apologia à mais cristalina superficialidade de nossa "high society". Mas, chega do querido e admirável Campos. 
          Ou talvez não, não chega. O que me impressiona é a presença de um jornalista de sua estirpe em mídia tão populista quanto aquela na qual escreve. Pergunto-me por que ele lá está, e sou tentado a raciocinar segundo o mais conhecido personagem de Sir Arthur Connan Doyle, Sherlock Holmes:  - se uma hipótese parece absurda mas tudo explica, ela deve ser a verdade. Trocando em miúdos, o Fábio Campos lá está a bem das vendas ao dizer o óbvio. Ele e o senhor Plínio Bortolotti fazem a chamada "dupla de área" desse time APARENTEMENTE controvertido, por exemplo. A outra hipótese, na qual prefiro acreditar e batendo de frente no ensinamento de Holmes, é que ambos sejam completamente independentes e seus editores meros "copy desk". Isto provado, teríamos a grande e inusitada chance de ver, no pobre jornalismo local, o embate entre a lucidez e o obscurantismo; entre o óbvio e o brumoso; entre a inteligência pura e o maldoso interesse...
          Mas, não entremos a ensaiar algo semelhante a um rasteiro maniqueísmo. A bem da verdade, todos precisamos nos posicionar. Quem não está de um lado, está do outro. Parece-me isso de uma retumbante clareza. E disso não há que se envergonhar ou se encher de falsos pudores. Eu, que escrevo o que me dá na telha como os senhores podem ver acima, ponho a cara a tapa e às ácidas críticas. Diz o adágio que quem diz o que quer, ouve o que não quer. Pois posso garantir: - estou de ouvidos prontos para ouvir o que outrora não gostaria. Hoje não mais me importo e ouço as maiores asneiras da paróquia sem a mínima alteração em minha frequência cardíaca. Por exemplo...
          Meus parcos leitores e muitos amigos sabem de minhas severas reservas às redes sociais. Elas são a forma mais moderna e cristalina de desumanização, embora haja quem julgue justamente o oposto. Pois sucedeu-me hoje o seguinte.
          Faço parte de um grupo da rede social que reúne ex-alunos maristas. Estudei a minha vida inteira no Colégio Cearense Sagrado Coração, da congregação marista fundada pelo presbítero da Sociedade de Maria Marcellin Champagnat. Era, por assim dizer, minha segunda casa e, mais que uma segunda casa, meu segundo lar. Ao postar um texto em meu blog, publico seu link na rede social, precisamente nos grupos dos quais participo, entre eles o referido grupo.
          Eis que hoje, ao abrir minha página na rede, percebo que uma para mim desconhecida senhora está a me lançar questionamentos insistentes e, devo dizer, a reclamar com veemência do conteúdo de meus textos na página dos ex-alunos maristas. Segundo ela, eles eram "politicalha" e eu um político em busca de votos. Eu estaria desviando o propósito do grupo, qual seja, o de falar somente sobre assuntos relacionados ao colégio marista. Tudo isso porque ela lera os mais recentes textos publicados que, para sua tristeza e exaspero, versavam sobre temas políticos.
          Ora, sou político apenas no sentido aristotélico do termo. Nem a partido político sou filiado. Acho, a propósito, todos os nossos partidos políticos destituídos de representatividade e essência. Seus interesses são escusos já na hora de sua fundação. Nunca me passou nem de perto pela cabeça – sou um sujeito de juízo e de princípios – engrossar fileira nessas entidades de fachada. 
          A coisa não ficou por aí. Ela me acusou levianamente de escrever textos tendenciosos e insistia em querer saber se eu tinha mesmo coragem de falar mal do governador do estado do Ceará e do prefeito de Fortaleza, ambos filiados ao mesmo partido. Não me dei o trabalho de respondê-la. O que escrevi, escrevi. Está lá. Basta ler. A resposta à sua insistente pergunta está clara feito água potável, em meus textos. 
          Agora vejam os senhores leitores. Meus textos são, sim, tendenciosos. Tendo pelo Criador, pelo ser  humano, pela liberdade, pela justiça, pelo bem, pelo bom, e pelo mérito. Como ser imparcial numa vida de perenes e incessantes escolhas? O que esta desconhecida senhora esperava de mim? Ademais, vejam bem, o Colégio Marista Cearense hoje pertence a um passado de glórias, tendo existência somente em nossas ternas lembranças e em nossos corações despedaçados. Por que temas pertinentes à dura e difícil realidade brasileira aos dia de hoje destoariam do propósito de um grupo de ex-alunos na rede social? Nós, que fomos educados nos pilares princípios, precisamos debater e expor o que ocorre hoje em nosso pobre país. Porém, não foi essa a visão desta desconhecida senhora. Há que se respeitar. 
          Diante de tamanha celeuma, escolhi retirar todos os textos recentemente publicados naquela página a fim de não ferir opiniões contrárias nem inflamar egos sensíveis. E mais. A referida senhora acusou-me de me recusar a receber críticas diretamente no blog, posto que eu selecionasse somente os comentários favoráveis, segundo ela. Que fiz? Liberei o blog para receber comentários sem minha prévia avaliação. E assim julgo que acalmo ânimo tão exaltado. 
          Faço, entretanto, uma ressalva e repito: - o que está escrito no blog lá permanece sem a alteração de uma só vírgula. Os textos seguem, como este, sendo publicados em outros grupos e em minha própria página. A liberdade de expressão merece ser respeitada e, no que compete a mim, farei a minha parte, alterando posturas e condutas quando necessário, mas nunca os princípios. Estes permanecerão imutáveis. Como deve ser.

Luto

​           A morte do Colégio Cearense Sagrado Coração representa a derrota do ensino holístico formador de cidadãos ante o ensino compartimentalizado e moldador de seres cibernéticos e desprovidos de moral, religião e arte. 
          Muito se especula sobre as causas da evasão de alunos do Marista Cearense, que hoje teria apenas cerca de 10% do número de alunos que tinha nos anos '70. Confesso que não me aventuro a entrar nesta discussão pelo simples fato de que ela já está desprovida de sentido: - o defunto já é velado e decretada foi a sua morte para o dia 31 de dezembro do corrente. Já se vão 28 anos de formatura de minha turma, e de lá para cá muitas coisas aconteceram. Contudo, fico imaginando qual a importância disso tudo. A constatação inegável é a do completo e total desprovimento de tradição e valores de nossa sociedade. Como aconteceu com a morte da Praia de Iracema nesta decadente cidade, a morte do Colégio Cearense é culpa de todos nós, desde nossos pais até nossa comunidade "educativa", passando por nós, seus saudosos alunos. Todos somos culpados.
          ​Se não perceberam ainda, convoco-vos a uma reflexão, um mea culpa: - não cultivamos e regamos no dia-a-dia de nossas vidas nossas verdadeiras tradições e instituições seculares. E sabem por quê? Porque não temos princípios. Em que pese o fato inconteste da queda do prestígio católico em nossa sociedade, estudar em instituição que ensina princípios leva seus alunos a, no mínimo, questionarem com inteligência e liberdade de pensamento os princípios em si ensinados e as conseqüências do desvio de seu caminho. Não importa a religião, elas ensinam princípios morais e virtudes de valor inestimável. Nenhuma religião ensina a matar, roubar, transigir, desrespeitar, desonrar, maltratar. Então, mesmo e até os católicos, para aqueles que lhes têm restrições, ensinam que existem os princípios. William J. Bennet os listou, referindo-se às virtudes: disciplina, compaixão, responsabilidade, amizade, trabalho, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Stephen R. Convey também os enumerou: integridade, humildade, fidelidade, persistência, coragem, justiça, paciência, diligência, modéstia, e - a regra de ouro - fazer aos outros o que desejamos que nos façam. As escolas de hoje estão falando sobre isso com seus alunos? Os professores estão falando com seus discípulos sobre os princípios? Estamos punindo as crianças quando elas os ferem? Os pais estão cumprindo seu papel de educadores? A Justiça constituída no Poder Judiciário está fazendo justiça? Para todas essas perguntas a resposta é, talvez, um doloroso não. Educar crianças prevê punir. Só o medo da punição que gera vergonha é capaz de coibir o comportamento inadequado. Só a imposição e o estabelecimento dos limites aliados ao ensino e exemplo dos princípios constroem o caráter de um ser humano. A verdade é que o país soçobra num mar de desvãos e loucuras, perversão e insensatez. Como podem os pais dizer aos filhos que não é certo tirar o que é dos outros quando impera a impunidade para os que o fazem?
          ​Sejamos honestos: somos um poço de paixões e desvarios. O coração do homem abriga a energia destrutiva de todas as bombas atômicas do mundo. Na formação de seu caráter são criadas as pilhas que regulam a massa de nêutrons que bombardeiam os núcleos dos átomos de seu desvario. Sem elas... Bum! E apareceram os "educadores modernos" e o "estatuto da criança e do adolescente" em substituição às escolas maristas. Os bandidos e facínoras se abancaram no poder. Encheram de mentira, soberba, desonra e crueldade as instituições e as cortes. Fizeram prevalecer o ódio, a derrama, a condescendência, a tolerância com o crime e os vícios. Fizeram a todos acreditar que o poder e o dinheiro são fins em si mesmo. Pela gana do dinheiro vendem-se nossas filhas em nossas ruas para estrangeiros que nos desprezam e nos zombam. Pelo gana do poder prosperaram as escolas que vendem a idéia do sucesso fora da família e dos princípios morais. E mantêm-se os incautos e insensatos no assistencialismo de um Estado débil, inútil e ditador. E ninguém – repito: ninguém! – sabe para onde estamos indo. Somos uma súcia de porcos gordos e fedorentos no rumo do cutelo. Abdicamos de pensar e escolhemos a embriaguez eterna da supressão dos princípios. Não temos idéia do que nos tornamos.
​          Afirmo peremptoriamente que não sou católico. Mas sou Marista. De Maria, a mãe de Jesus. E já nem sei se creio, mas sou de Maria, mãe de Jesus. O que quer que faça, aonde quer que vá, carrego imprimido na alma o "M" do logotipo cuja força não estava no demonstrativo do resultado, mas na fornalha que molda homens. A sociedade local, nós, nossos pais, deixamos escapar ao longo de todos esses anos o repositório de nossas esperanças de um país melhor. O que nos resta a não ser reconhecer nossa insensatez, mais uma? O que nos resta a não ser as elucubrações dos porquês, cujas respostas já sabemos no íntimo? Resta-nos a vergonha; a frustração; a sensação de impotência e derrota. Rogo apenas - que nojo de mim! - que não se implodam os edifícios, as fachadas, a capela com a luz vermelha acesa 24 horas anunciando a presença de Deus; que não se reformem os auditórios e salas com suas madeiras de lei; que não se apaguem os traços e cheiros do Irmão Urbano, do Irmão Ovídio, do Irmão Luís, do Irmão Valentim, do Abrahão, tocador do acordeom e da vitrola do recreio; dos professores queridos, Eliane, Eglacine, Cassundé, Nair, Maria de Lourdes, Romélia (que me ensinou a ler), Iêda, Lúcio, Lucas, Flamarion, Nemésio, Fausto, Wilton, Leonardo, Dioguinho, Onélio Porto, Genésio, Walter, Alzir Brilhante, Waldir Sombra, Itamar, e tantos outros; que não soterrem as fontes de água mineral com gás nos bebedouros; que não se triturem os azulejos e pastilhas das paredes azuis e cor-de-rosa; que não se arranquem os postes com as bolas penduradas nas cordas; e que nós ainda guardemos os boletins e agendas com as repreensões do dia. Já muitos de nós se foram. Já muito de nós tiraram. A vida é especialista em nos fazer órfãos. Todos os dias morremos e morre o que amamos. Mas não precisamos contribuir para isso. Não morram os edifícios. Já o burburinho das crianças no recreio silencia. E os pátios estão desertos.
          ​Não posso evitar a lágrima que me desce a face...

Fernando Cavalcanti, 22.09.2007