quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Cinco reais

​​                 Sua pureza começava no nome: Angélica.
​               Era ascensorista no hospital. Vivia subindo e descendo com a gente de toda estirpe. De tão simpática, era querida. Era pura e humilde, não menos educada. Seu salário de miséria não a intimidava nem lhe baixava a auto-estima – vivia de bom humor. A lida com a gente diversa a ensinava a missão maior: servir. E com que prazer o fazia!
​               Certo dia, sozinho com ela na cabine, pediu-me, reservadamente, um favor. Seria uma coisa muito discreta, muito íntima, queria meu completo sigilo. Percebi de sua parte um sentimento de culpa por algo que estava para fazer, e tratei de tranqüilizá-la quanto à minha incompetência para juiz. Prontifiquei-me a ajudá-la com toda minha discrição. Só então contou-me o caso desde o início.
​               Há cerca de um mês ela conduzia em seu elevador um ícone médico do Ceará. Como diria o meu amigo Glauco Kleming, um pica-grossa. Em que pese seus títulos e notável saber médico, é um sujeito dado às galhofas, e sua simpatia o exime da soberba comum neste tipo. De tão dado a se trocar com as pessoas, ele não fez a menor cerimônia em pedir a Angélica cinco reais emprestados para fazer um lanche na cantina. Saíra de casa açodado, nem tivera tempo para uma média. A operação começara cedo. Estava faminto.
               ​Naquele dia, por uma dessas coincidências que só o destino concebe, a pobre moça tinha apenas, e justamente, uma nota de cinco reais em seu bolso, sobejos de seu magro salário do mês que ainda tardava para terminar. Mesmo assim, e com o coração nadando em prazer por poder ajudar tão ilustre figura, meteu a mão no bolso e de lá tirou a nota amarrotada, passando-a ao engravatado esculápio. Ainda que entregasse todas as suas últimas economias, o resto do dia foi de uma alegria só – matara a fome do doutor pica-grossa! Seu senso de servir prevalecia. Além do mais, receberia o dinheiro de volta em breve, amanhã quem sabe.
               ​O doutor de jaleco branco impecável pagou Angélica quinze dias depois – deu-lhe um cheque cruzado, no valor de cinco reais. Toda contente, a jovem foi à agência bancária que funciona dentro do hospital só para tomar ciência de que cheques cruzados não se prestam ao desconto na boca do caixa – teria de depositá-lo na conta.
               “Que conta, doutor Fernando? Não tenho conta, não!”, confessou-me quase chorando. Com rendimentos tão curtos, não possuía conta bancária. Saiu, então, a explicar-me o que queria de mim: - que eu falasse com o devedor pica-grossa e trocasse com ele o cheque.
​               Cobrei-lhe o cheque com multa e juros de mora, e ainda incluí cem por cento de juros no custo do dinheiro de Angélica. Afinal, seu dinheiro é muitíssimo caro e emprestá-lo ao doutor pica-grossa se mostrou uma operação arriscada. E nada cobrei por esse serviço. Ela merecia muito mais.

Fernando Cavalcanti, 01.01.2010

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O velho e o monstro

               Esta bem que poderia ser uma história de terror, não fossem seus contornos cômicos e patéticos. Os leitores hão de julgar.
               Ocorreu em hospital público desta cidade, recentemente notabilizada por seus descaminhos, seus horrores e seu incaracterístico odor. O dito hospital bem pode representar tudo o que ela tem de pior, visto que ali desembocam todos os seus rios e todas as suas tragédias. Enquanto representantes do povo fazem valer o que é do interesse do próprio povo, rios de sangue, ignorância e escuridão afluem a seus portões para gerar o caldeirão de ácido fervente de seu dia-a-dia. Foi assim. 
               O velho acusava o outro, seu companheiro de enfermaria, de tê-lo furtado o dinheiro, uma quantia irrisória, uns cinqüenta ou sessenta contos. Sobras da aposentadoria, daria para passar o resto do mês. Agora, roubado, via-se em maus lençóis, inda mais se os médicos resolvessem mandá-lo para casa. Seu caso poderia esperar, não era grave. Os médicos cogitavam cuidar, primeiramente, dos casos mais sérios e dar alta aos outros, que seriam chamados depois. O suposto larápio, elemento mal-encarado de corpo tatuado, estava preso ao leito devido a tração aplicada aos ossos da perna por causa de uma fratura.
               O que não se explicava era o seguinte. Como um sujeito incapacitado daquela forma ainda poderia ter roubado alguém? Não era nem besta!... Isso usava em sua defesa. “Esse ‘véi’ ‘tá é maluco!”, exclamava o acusado. O velho não deixava por menos: -“Roubou, sim, cabra safado!” A confusão e troca de insultos já se arrastavam por vários dias sem que se desse uma solução ao caso. Até o dia em que a coisa ficou mesmo feia, o idoso ameaçando avançar sobre o acamado e agredi-lo.
               Chamou-se a segurança. Vieram os soldados e o comandante. Acalmados os ânimos, os policiais acataram a acusação e resolveram dar uma batida nos pertences do suposto ladrão. Reviraram tudo. Desnudaram o colchão, os lençóis, as fronhas do travesseiro. Até as molas e engrenagens da cama foram inspecionadas, e não se esqueceram de virar o leito de ponta-cabeça a fim de olhar dentro das ocas colunas de metal que lhe serviam de pernas. Terminado o serviço, nada acharam.
               O suposto mau elemento já troçava com o pobre homem: -“’Num’ disse, ‘véi’? Tu ‘tá é virado! tantã das ‘ideia’”! O velho, os olhos fixos nos do outro, não arredava: -“Me roubou, ‘fi’ de rapariga”!... Os outros doentes da enfermaria já se riam dele, e dali em diante pensou-se mesmo que o homem sofresse de tal ou qual prejuízo do juízo. Ainda assim, não se retratava: -“Quando sair daqui ‘vô’ matar ess'escroto! Ladrão vagabundo! Cabra ‘senvergóim’!”
               Apesar do clima tenso, a coisa amainou nos dias que se seguiram.
               Certo dia, vai para a cirurgia o inocentado. Na mesa cirúrgica o anestesiologista lhe faz um bloqueio. (Esses bloqueios neurais têm o efeito de promover um completo relaxamento da musculatura pélvica.) 
               Feito o bloqueio, as meninas começam os preparativos para a anti-sepsia. Neste momento, uma delas percebeu algo esquisito saindo pelo ânus do paciente. Não seria o conteúdo habitual. 
               “Que é isso, gente”?, indagava de si para si a auxiliar. Foi quando tudo se fez claro.  Era um saquinho plástico contendo seis notas de dez e uma de cinco reais: - sessenta e cinco reais roubados do velho maluco guardados por vários dias no reto do presepeiro.
               Que nome se dá a isso no juridiquês? 

Fernando Cavalcanti, 12.11.2010

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PERIGOS MORTAIS NA AUSTRÁLIA

               Ligou-me antes de ontem, direto do Piauí, o meu amigo Chico Medeiros. Queria saber como andam as coisas por essas bandas cearenses. No Piauí chove dilúvios, segundo ele. Aqui, por enquanto, nada... Os céus andaram meio nublados, pesadas nuvens negras e esparsas obliteraram a luz do astro-rei até ontem pela manhã. Depois se dissiparam e veio ele, o sol. Ou seja: - em termos pluviométricos estamos a perder feio para o Piauí. 
               Não pude deixar de lembrar ao amigo que, aqui, estamos do lado mais fraco da guerra que ora nos assola. Estamos do lado desarmado. Nossa única defesa é a sorte de não estar no lugar errado da cidade na hora do ataque surpresa. O amigo ponderou que por lá é a mesma coisa, em menor escala absoluta, mas em proporção semelhante. Concluímos: - nossa tragédia é brasileira; não é cearense, nem piauiense, nem maranhense... 
               Ia esquecendo de dizer. Meu amigo Chico Medeiros tem um apelido desde a infância e cuja origem nem ele saberia explicar. Era "Batata". Sim, seu apelido era "Batata". Hoje o homem é pai de dois filhos adultos que nem imaginam que o pai, em criança e na adolescência, atendia pelo apelido de "Batata". Já nós, seus diletos e diários amigos, irmãos que conviviam em tudo, ficamos à saia justa quando diante de pessoas de seu novo círculo. Como hão de encarar o respeitável pai de família e profissional exemplar que atendia pelo apelido de "Batata"? 
               Para nós, parece que foi ontem. Ele virou para nós e avisou: -"Vou-me embora pro Piauí". Eu disse: -"Mas, Batata, pro Piauí"? 'Num' tinha um lugarzinho melhor, não"? E fui explicar que o sujeito que mora num Estado miserável como o nosso tinha que pensar em ir para um lugar onde o dinheiro "rolasse", onde as oportunidades se apresentassem a toda hora, onde, enfim, as chances de sucesso profissional fossem maiores. Ele foi irredutível: -"Vou é pro Piauí"! Após uma breve pausa, fuzilou, pondo uma pedra no assunto: -"E estamos conversados"! 
                Após alguns meses por lá, retornou de férias. Perguntei-lhe: -"E aí? Que tal o Piauí"? Ele foi taxativo: -"Estou fazendo estágio para ir pro inferno"!..., e saiu a queixar-se da canícula piauiense. Dizia: -"Em Teresina tem ar condicionado até nos banheiros"... 
               Depois disso, e de volta ao Piauí, foi ficando, ficando, ficando... até que contraiu núpcias e se aquietou definitivamente por lá. Raro vir ao Ceará e, quando vem, não esquece de pôr na bagagem casacos de couro e de lã. "A gente se acostuma", explicou sobre sua perfeita adaptação ao clima. Numa sumária avaliação pode-se dizer o seguinte: - Batata, digo, Chico Medeiros, se deu bem no Piauí. Essa é a inquestionável súmula do resultado de sua emigração. 
               Tão bem foi o nosso Batata, digo, Chico Medeiros, que seu primogênito, que hoje estuda em São Paulo – veja-se que o filho foi mais ousado que o pai –, está cogitando voar mais alto. Resolveu com a mesma determinação do pai. Disse-lhe, certo dia e sem muita embromação: -"Vou morar na Austrália"! Ora, vivas! Dar um pulo em São Paulo foi apenas o estágio intermediário para pretensões mais elevadas. A família teve um sobressalto, nada sério, apenas incômodos da paternidade, zelo pelas eternas crianças que são os filhos. 
               Contudo, vejam que os cuidados que dedicam os pais aos  filhos muitas vezes beiram o desnecessário e, por que não dizer, beiram o cômico. Chico, após o meu comentário sobre nossa violência urbana, lembrou que "lá fora" também há perigos, sim, o exterior tem seus próprios riscos. 
               Por exemplo, lembrou ele, há lugares mais sujeitos a desastres naturais, maremotos, terremotos, tsunamis... "Ora, Batatinha" – eu já estava falando com ele como há quase quarenta anos quando o chamava para uma peladinha no terreno baldio –, "mas na Austrália não há tanto perigo de desastres naturais". Continuei: -"Fosse nas Filipinas, ou na Indonésia, vá lá...mas na Austrália? Não há perigo, meu chapa"! 
               Ele insistia nos perigos, e na Austrália há perigos , sim senhor! "Por exemplo", disse ele, "tão logo o menino resolveu ir pra Austrália, fui ler tudo sobre a Austrália. E, veja você, descobri o seguinte". Aprumei-me no sofá para ver que perigos há na Austrália que eu desconheço. "Descobri que há, lá, uma água-viva cujo veneno é capaz de matar um rinoceronte em questão de minutos"!, admirou-se ele. "E mais: - ela é do tamanho de uma unha do pé"! Juro que jamais ouvira falar numa medusa tão peçonhenta como essa medusa australiana. Disse-lhe que pedisse ao filho a que evitasse o banho de mar na Austrália. Ele fez uma ressalva como a tranquilizar a nós ambos: - essa água-viva habita os mares do norte do país, e seu filho irá morar numa cidade ao sul. A questão do perigo marinho parecia resolvida.
                "Mas não acaba por aí, meu chapa", disse ele tomando novo fôlego. "Das dez cobras mais venenosas do mundo, sabe quantas tem a Austrália"? Imaginei que a Austrália era o lar de onze das dez cobras mais mortais do mundo. "Oito, meu irmãozinho! Oito, viu"? Ora, Batatinha, é só dizer ao menino que não entre na mata e está resolvido! Simples assim, meu chapa! Ao que parece ele já advertiu o garoto sobre o risco desses acidentes ofídicos, embora não tenha me parecido plenamente convencido. 
               "Batatinha, meu filhinho, deixa de frescura"!, disse eu sorridente. "O menino vai sair do país onde habita o bicho mais mortal de todos"! Esperei um pouco antes de enterrar-lhe nos peitos, até o cabo, o punhal da verdade. "O bicho que mata mil vezes mais do que toda a população de águas-vivas e cobras venenosas do mundo habita aqui, meu querido amigo: - o bicho-homem, o brasileiro que odeia e mata por qualquer dez mil réis, Batatinha"! 
               E assim nos despedimos.

CICCIOLINA EM ANÁGUAS

           Dona Guilhermina tinha 86 anos. Chegou-me ao consultório para um check-up. Uma das filhas, que eu operara anos antes, me pedira para examiná-la já que temia por sua saúde. A velha senhora, ao que parecia, nunca fora a médico. Assim, ela e uma irmã mais velha vieram juntas com a mãe para uma entrevista comigo.
            Quando adentraram o consultório, percebi impressionado que a mãe, ainda que exibisse cabelos brancos como neve, parecia de uma jovialidade e firmeza que as filhas nem de longe mostravam. Dir-se-ia ser a mãe mais jovem que as filhas, que se mostravam bem mais “passadas”. Dona Guilhermina tinha a pele bem branca e suave, os cabelos arrumados graciosamente num ondulado delicado. Na face quase não tinha linhas de expressão. As mãos eram bem cuidadas e quase sem rugas. Os olhos eram penetrantes e expressivos, bem azuis, e irradiavam uma determinação e brilho desconcertantes. Ela tivera outros onze filhos, quase todos portadores de alguma doença mais ou menos grave, em algum momento de suas vidas. Ela mesma nunca estivera doente ou internada em hospital. Todos os seus partos haviam sido normais. Não usava medicamento algum. Dormia e se alimentava bem. Tudo isso me foi relatado por ambas as filhas que se alternavam no relato, ao mesmo tempo em que repreendiam a mãe por tanto desprezo pela própria saúde.
            E desciam a carga. Apesar de se alimentar bem, diziam, ela comia em demasia e exagerava no uso do sal; não fazia questão de evitar doces, apesar de ter uma irmã diabética. Há um mês queixara-se de opressão no peito e até o momento não fizera exame algum; era irrequieta e não se comportava como uma pessoa idosa.
            Dona Guilhermina ouvia as filhas em silêncio, olhando para uma e para a outra alternadamente à medida que falavam, com os braços cruzados sobre o peito. Eu, então, pedi que as filhas silenciassem e deixassem a mãe falar, perguntando o que ela achava de tudo aquilo e se estava sentido algo, particularmente alguma dor no peito. A velha e imponente senhora descruzou os braços e começou o relato mais impressionante e firme que eu jamais ouvira. A voz era potente e equilibrada.
            “Agora vocês calem a boca que eu vou falar. Eu não sei o que estou fazendo aqui. Eu nada sinto. Melhor dizendo, sinto-me ótima, melhor que vocês duas juntas”. Fez uma breve pausa e continuou: -“Sinto-me em meu pleno vigor físico” – e fazia muques com ambos os braços – “e sou capaz de ainda trabalhar as mais de doze a quinze horas por dia que estava acostumada a trabalhar. A opressão que sinto é angústia, suas bestas. Perdi o meu hotel e o governo, esse safado, com esses planos econômicos de merda só prejudica a quem trabalha sério. Trabalhei 40 anos em meu hotel e agora o perdi.” Olhou para mim e confessou: “Estou morando na casa dessa aqui” – e apontou uma das filhas – “de favor. Ela pensa que eu não sei, mas fique sabendo” – e virou-se para a filha com quem morava – “que sei que seu marido lá não me quer. Nunca precisei me escorar em ninguém e não vai ser agora que vou começar. Minha vontade é arrumar as minhas trouxas e ir embora. Me viro sozinha. Tenho força pra trabalhar, viu?” Nesse momento não conseguia segurar as lágrimas. Não admitia dó. Tinha orgulho de si mesma e de quem fora. Julgava lucidamente não ter deixado de ser quem era. Ela era, toda ela, um imenso orgulho ferido, uma dignidade ameaçada, um baluarte incompreendido.
            Examinei-a detalhadamente e nada de anormal encontrei. Ela era, até ali, um poço profundo de boa saúde e fortaleza do alto de seus 86 anos. Enquanto a examinava tirava brincadeiras com ela e ela relaxou e mostrou um apuradíssimo senso de humor. Àquelas alturas já ria e contava causos que protagonizara em sua vida de proprietária de hotel. Solicitei-lhe exames básicos e ela prometeu me trazer tão logo estivessem prontos. As filhas, agora mais tranqüilas, tentavam encerrar a consulta ao perceber que todos os procedimentos já haviam sido concluídos. Ela, por sua vez, falava e gracejava. Uma das filhas se retirou do consultório em direção à saída e a outra insistia a que ela também saísse.
            Ela então veio, me abraçou, e sussurrando ao meu ouvido, cochichou: -“Você não vai acreditar, meu filho, mas eu ainda tenho desejo!” Eu, fazendo-me de desentendido e não acreditando no que ouvia, fiz espanto: -“Desejo, dona Guilhermina??” E ela: -“De homem, doutor!” Sem conseguir me conter, caí na risada. Ela virou-se e já dava dois passos em direção à porta quando parou, voltou-se para mim e, aproximando-se, disse-me ao ouvido: -“O senhor nem imagina, doutor, mas vou lhe contar: - eu ainda me masturbo!” E saiu às gargalhadas e vaiando a platéia como se faz aqui no Ceará.

Fernando Cavalcanti, 01.02.2011 

sábado, 23 de novembro de 2013

Sim: - "no longo prazo todos estaremos mortos"

               O sujeito, hoje em dia, deve estar mais atento do que eunuco de harém. Sim, porque as investidas são diárias e horárias. Somente se estará livre dos assédios à hora em que se dorme. Tempos atrás uma senhora, mãe de uma amiga que se queixava de insônia, aconselhou a filha nos seguintes termos: -"A gente só é feliz enquanto dorme"...
               Quererão saber a que me refiro, e direi. Trata-se da propaganda, essa feroz devoradora de mentes do mundo contemporâneo. Outro dia falei do Josef Goebbels, talvez o maior manipulador mental que já existiu. Goebbels era o ministro da propaganda nazista. Vejam que o regime criou o inusitado: - um ministério da propaganda. Teria lá seus escritórios em edifício próprio e seu pessoal de expediente a estudar o funcionamento dos processos mentais humanos. Seriam psicólogos e neurólogos empenhados em atingir um fim: - controlar o pensamento e a vontade do povo alemão, induzindo-o a pensar como queria o regime. 
               Ligo a TV para assistir a qualquer programa enquanto almoço. Como se diz por aqui, caio na besteira de mudar o canal para ver o que se passa na rede. Se não me engano, houve um apagão em parte da cidade hoje pela manhã. Talvez descobrisse suas causas e desdobramentos nalgum telejornal local. O trânsito estava um inferno, talvez por conta da pane em vários semáforos. Em vez disso, aparece um sujeito na tela, a logomarca do Santander ao fundo. Com ar grave, começa: -"No longo prazo"... e para.
               Pausa... 
               Demora-se ainda a pausa... 
               Os poucos segundos parecem uma eternidade... 
               Durante esse lapso de tempo, mentalmente completei a frase: - ... "todos estaremos mortos". Quem a disse foi o economista John Maynard Keynes, referindo-se a investimentos no mercado financeiro. Mas o que o âncora da propaganda diz, encerrado o suspense e seu efeito já a agir, é justamente o oposto. Ele diz, agora um amplo sorriso estampado nas fuças e já comemorando: -"...todos estaremos vivos"!! E então inicia-se a idéia que a matéria publicitária pretende vender: - planos de previdência privada. 
               Vejam que a intenção é vender uma idéia para, após, vender um produto e lucrar. Nada contra o lucro. Sou pela livre iniciativa. Tenho ojeriza ao comunismo. (O Nelson dizia que a liberdade é mais importante do que o pão.) Justamente por esse excesso de liberdade é que se deve estar atento. Se estão querendo lucrar em cima de você, que pelo menos seja porque você vê, de fato, vantagens também para você mesmo. Não preguemos a relação perde-ganha, que essa é do feitio dos masoquistas. A relação mais sadia é a do ganha-ganha. 
               O problema é que o capitalismo brasileiro – meu amigo Danúzio alcunhou o capitalismo de "capetalismo" – nasceu, cresceu e se estabeleceu baseado na relação ganha-perde. Alie-se a isso o forte elitismo e preconceito de nossa burguesia e temos uma das causas do ódio que ora grassa por nosso rincão. Vejam que o "capetalismo" a que meu amigo se refere é infinitamente menos diabólico que o comunismo totalitário e assassino que ele prega. (Ele diria, lendo essas linhas, que não prega totalitarismo nenhum, nem incita a que assassinem ninguém. Parece que não sabe sobre quais bases o comunismo foi fundado, coitado... Ilude-se porque assim o quer, ele e outros "progressistas" endinheirados e "intelectualizados".) 
               Mas... voltemos à propaganda. Afinal, estaremos ou não mortos no longo prazo? A propaganda tenta induzir o telespectador a pensar que ele estará, sim, vivinho da silva no futuro para receber de volta o dinheiro que hoje colocará em seu plano de previdência privada. Pergunto: - estará mesmo? Resposta: - ninguém sabe. Ou melhor, sabe, sim. Dependendo de quão longo é o tal longo prazo, a resposta é clara: - no longo prazo, longo prazo mesmo, todos, sem exceção, estaremos mortos. 
               A verdade é que guardar para o futuro faz bem, desde que não se deixe de fazer o que se deve e se quer fazer no presente. Deixar de fazer hoje para somente fazer no futuro parece ser de uma insensatez enorme. Por outro lado, fazer tudo agora sem guardar um naco que bem servirá na frente pode significar outra sandice equivalente à primeira. Donde se conclui que há que se buscar o equilíbrio. A propaganda é enganosa, mas não completamente enganosa. A propaganda é verdadeira, mas não completamente verdadeira. 
               Nada que seja incompletamente verdade é plena verdade. Tudo que é parcialmente mentira é inteira mentira. A propaganda do Santander é, portanto, uma deslavada e hedionda mentira. 
               (Em seguida entrou a propaganda do Partido Progressista, do padre de Sobral que é deputado federal. Ora, o termo "progressista" é utilizado pelos comunistas para expressar sua linha de ação voltada para o "progresso". Para eles o "progresso" é, nada mais, nada menos, que sua "democracia", uma democracia de verdade, onde o povo de fato governa, diferente da democracia "capitalista", para eles uma farsa. Ocorre que governos comunistas não são dados à democracia. É só olhar os que ainda vigem no mundo e estudar os que já sucumbiram. Também não levei a sério a propaganda do partido do padre. A propósito, o padre de Sobral não seria a reencarnação do padre de passeata do Nelson?) 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Nevasca no coração

               Uma amiga fez o seguinte comentário na rede social. (Redes sociais são, cada uma delas, universos paralelos onde acontece de tudo, quase como na vida de nosso universo real.) 
               Disse ela: -"Começou a nevar... saco! Agora vai até abril"... A informação-chave é que, onde ela está – já, já digo onde é –, o frio já começou por lá. Se lá neva às portas de dezembro, presume-se que ela esteja no hemisfério norte, cujo inverno se inicia em 21 do próximo mês, data do solstício de inverno naquela parte do mundo, daqui a exatamente um mês contando de hoje.
               A outra informação que o discurso de minha amiga traz é pessoal: - ela, decididamente, não gosta de neve e, por presunção, não gosta de frio. Tanto mau gosto faz do frio que não pensa noutra coisa que não seja sua duração. "Agora vai até abril"..., diz ela. Por mais de quatro meses minha amiga vai sofrer com o frio que está a fazer por lá. 
               Tudo isso qualquer pessoa que esteja a bisbilhotar à rede social será capaz de deduzir com relativa facilidade, e desde que saiba um pouquinho de geografia ginasial. ("Geografia ginasial" é a expressão mais adequada para o uso deste autor: - sou do tempo do "ginásio".) Contudo, para que os leitores façam uma melhor apreciação do que estou para dizer, necessário é confessar onde está minha amiga. Ela está em Montreaux, na Suíça. E apresso-me a dizer: - ela não só está como mora em Montreaux. Não sei se já foram à Suíça. Se não foram, hão de desejar ir um dia. 
               Pois, certa vez, fui à Suíça. Lá chegando – foi em Zurique –, desci do avião e pensei: -"Onde está o povo"? O aeroporto era enorme e... não havia ninguém no aeroporto. Só havia um guichê aberto na imigração, justamente aquele onde nos postamos para a inspeção dos passaportes. (Os demais, incontáveis outros, estavam fechados.) E não chegaram outros voos no mesmo horário?, perguntarão os leitores. (Meus leitores são em menor número do que a população da Sibéria setentrional.) Resposta: - só o nosso voo, com pouca gente. Afinal, voamos de Paris a Zurique num CityJet, um aviãozinho provido de hélices, cujas asas eram encaixadas ao tubo por sua parte superior. 
               Peguei um táxi para a cidade e durante o trajeto percebi: - seria feriado ou coisa que o valha, já que nas autopistas não circulavam carros em quantidade que justificasse sua existência. Aquelas estradas largas, lisas e múltiplas estariam quase vazias por conta de algum feriado nacional, pensei. O motorista foi taxativo: - não era feriado. Onde estão as pessoas?, era o que queria saber. Ora, estão trabalhando!, respondeu-me olhando com uma expressão de divertido espanto. Com efeito, era uma segunda-feira.
               No hotel, ao sair do elevador para ganhar acesso ao quarto, ouvi um silêncio tão intenso que quase me fura os tímpanos. Poder-se-ia ouvir o som de um alfinete caindo ao chão. Pensei: -"Onde estão os hóspedes com suas crianças barulhentas"? Uma jovem camareira me esclareceu: - o hotel estava lotado, mas era assim mesmo. "As pessoas aqui não fazem barulho; apenas nos bares o senhor ouvirá algo parecido com um ruído mais intenso", continuou ela simpaticamente a me satisfazer a curiosidade neófita. 
               Subi no bondinho após comprar os passes numa espécie de banca de revistas. Segurava o passe à mão a espera do "trocador". De fato, ninguém apareceu para averiguar o passe, nem o meu, nem os dos outros usuários do bonde. Ninguém fiscalizava os passes. Perguntei a um jovem mancebo o que deveria fazer com o passe e ele me explicou que ele valia o dia inteiro. A fiscalização era eventual, mas se alguém fosse flagrado usando o bonde sem o passe seria severamente multado; tão severamente que não convinha arriscar-se. Ademais, as pessoas sabiam que o bonde existia para seu próprio uso e benefício, e seria uma estupidez não zelar por aquilo que todos usufruíam. Sabiam que a qualidade do transporte dependia em grande parte do próprio usuário. 
               Só agora percebo que não era nada disso o que eu queria dizer. Afinal, quem está interessado em saber do que fui fazer na Suíça? Voltemos à minha amiga de Montreaux.
               Disse-lhe, na rede social: -"Melhor a neve, infinitamente, do que nossa canícula meteorológica. Aqui neva nos corações, cara amiga... Estamos nos matando de tanto ódio". Eis aí tudo: - estamos-nos matando de tanto ódio. Minha amiga, que, ao que me conste, está a estudar em Montreaux, não percebe que o frio meteorológico de lá nem de perto se compara à nevasca que irrompeu cá, no mais profundo íntimo do coração do brasileiro. Estamos doentes do ódio, da vontade de morte do outro, da vontade de miséria do outro, moral ou patrimonial. Perdemos o senso, perdemos o norte. Somos quase duzentos milhões de solitários e de inimigos mútuos a sofrer a influência nefasta de uns poucos manipuladores, que transformaram nossa boa vontade em ânsia de odiar. 
               Milhões de vezes preferiria Montreaux e sua neve, olhando através da janela a bucólica paisagem, saudoso de minha terra idealizada à minha maneira, à quimera que bem entendesse... A neve de Montreaux tem data para se dissipar, amainar e deixar vir a estação das flores, que multicolorirão os campos e as matas e deixará vir os pássaros a beber o néctar após sua viagem de fuga... Ah! um frio exterior bem que vem a aquecer os corações!... 
               E os gélidos corações? a que vêm? Não se sabe... O Mal não tem propósito. Nem Ele o entende. Pobres de nós...
          

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Vá morrer pra lá!...

               Não perco a esperança: - alguém há de me dar notícias do meu amigo Sérgio Moura. E não somente uma notícia, uma vaga e inconsistente notícia. Nem será uma má notícia, que essas correm mais que o vento. Se demora, má é que não será. 
               Pois demora a me chegar uma notícia do Moura. Acaba de me ocorrer que demoras não muito demoradas podem significar uma morte "oculta". Não sabem o que é uma "morte oculta"? Bem, já comentamos sobre a morte simbólica. Esta o Sérgio Moura já morreu incontáveis vezes. Para os que não lembram ou não estão a acompanhar, faço uma suma. É o seguinte.
               Todo ano, entra ano e sai ano, o nosso Sérgio se esconde ao dia de comemoração de seu natalício. A ninguém quer ver, com ninguém quer falar; não lhe telefonem, não lhe enviem mensagens de congratulações, e muito menos lhe desejem "muitos anos de vida". Enfim, o homem vive, assim, uma morte. Viver uma morte não é coisa que se faça com facilidade. Se é verdade o que disse o Pessoa, que "morrer é apenas não ser visto", morre o Sérgio Moura no 15 de novembro e a cada 15 de novembro. Sabe-se lá quantas vezes já morreu o meu amigo.
               Presumo que meus raríssimos leitores tenham entendido o résumé. Se não entenderam, paciência. Por exemplo, este ano fiz o que o meu querido Sérgio Moura quer que se faça ao dia de comemoração de seu natalício. Que fiz? Resposta: - absolutamente nada. Sim, não lhe telefonei, não me utilizei de qualquer tipo de mídia para lhe enviar uma mensagem, não lhe incomodei. Se estiver vivo, se ainda for uma alma vivente e estiver a ler estas humildes e resignadas linhas, saberá o meu amigo que respeitei o seu desejo, fiz a sua vontade. Aos mortos pelo menos o respeito.
               (Aprendi isso recentemente em França. Assumo: - gosto de cemitérios. E fomos, Bella e eu – ela quase à força, eu por prazer –, a visitar o Père Lachaise. Lá chegando, sentei-me à borda de uma pobre laje, dentre as muitas que estão à beira de seus caminhos, para resfolegar. Eis que o segurança, um homem negro e sisudo, chegou-se a mim e, falando em inglês, admoestou-me: -"Senhor, levante-se, por favor! Há um ser humano aí"!...)
               Voltemos ao que seja a "morte oculta". A morte "oculta" surpreende o sujeito que está a experimentar a morte simbólica. O sujeito se trancafia a fim de "curtir" esta e acaba morrendo de fato e de vera, muitas vezes por atentado contra si mesmo. Vai ser encontrado três ou quatro dias depois em avançado estado de putrefação, coitado... Quero crer que não foi o que ocorreu ao meu querido Sérgio Moura, até porque tenho para ele um recado de nosso amigo Asclépio.
               O caso é que escreveu-me o Asclépio comentando sobre um de meus textos. Ao final, rogou-me: -"Abraços e lembranças ao Sérgio Moura". Respondi-lhe agradecendo o comentário e interpus: -"Acho que o Sérgio Moura não sobreviveu ao seu aniversário"... Eis aí como me sentia ao dar a resposta a meu amigo Asclépio, hoje pela manhã. 
               Olhando há pouco o histórico das chamadas que recebi ao longo do dia, deparo-me com uma surpresa: - havia uma chamada do Sérgio Moura. Seriam quinze minutos antes do meio-dia, hora em que uma operação me retinha no bloco cirúrgico. Ora, se o número do telefone portátil de meu amigo constava em minhas chamadas, das duas uma: – ou ligavam-me através dele para me participar de sua morte até então "oculta"; ou era o próprio Sérgio ressurgido de sua última morte simbólica. 
               Paralisado ante a possibilidade do pior, olhava agora para o telefone como se ele representasse uma janela aberta para o infinito. Relutava em fazer a chamada. Antes disquei para Bella, para o Tomás, para o Padilha... e nada de coragem de ligar para o Moura. Num ímpeto, saco do aparelho e deslizo o dedo sobre o bicho. O toque de chamada apita uma... duas... três vezes... Quando a quarta estava para soar, ouço a voz inconfundível: -"Diga aí, rapaz"...! Era o Sérgio Moura em carne e osso! Que alívio senti! Está vivo o homem! 
               E o mais intrigante, mas não menos esperado: - ele não demonstrou o mínimo aborrecimento por eu não lhe ter procurado ao dia 15 de novembro, momento em que, para todos os efeitos, vivia sua morte simbólica. Assim, claro ficou que o recém-aniversariante gosta de morrer em paz e assim há de o querer para o resto da vida. Até que venha a morte mortal dos que descem à tumba encimada por pesada laje, em que não se devem sentar os que não têm respeito pela morte alheia, real ou simbólica...
               Ainda assim, e com todo respeito ao querer de meu amigo, só me resta fazer-lhe uma última recomendação e para encerrar de vez esse já tão maçante tema: Sérgio Moura, vá morrer pra lá!...

sábado, 16 de novembro de 2013

A ingratidão da intimidade

Há favores tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão.
                                                                                             Alexandre Dumas

               Tão logo escrevi sobre a intimidade da gratidão, sugeriu-me o meu amigo Pedro escrever sobre a gratidão da intimidade. Ocorre que não há gratidão na intimidade. A intimidade é a condição sine qua non para a ingratidãoisso sim.
​       Pode parecer um paradoxo, mas não é. O que acontece é que a intimidade proporciona uma indevida aproximação entre os seres humanos. Essa intimidade permite o confisco do outro, da impolidez à zombaria. A intimidade da gratidão é apanágio dos que se sentem muito em débito. Nada mais. Não me sinto disposto a discorrer sobre essa mazela do homem, a ingratidão da intimidade. Contudo, preservo o título do texto. Eventualmente troco-o ao final. Quem sabe o que me virá à cabeça?
     ​Ligou-me hoje Vanusa, uma antiga paciente. Queria saber do consultório. É uma mulher excepcional. Desenvolveu dois tumores malignos, um em cada mama. Sincrônicos. Foi à careca, emagreceu, mas queria reconstituir o que fosse preciso. Não foi necessário. Não foi uma ressecção radical.
​    Durante seu drama, uma ameaça à sua vida, ia ao consultório tratar varizes. Eram varizes “estéticas”. Ainda queria preservar a beleza. Era namoradeira. Contava-me suas estripulias, seus casos de amor. Nunca os interrompeu por causa da doença. A morte se lhe achegava e ela clamava à vida. Às vezes, ao fim do dia, após a sessão de quimioterapia, chorava. Baixinho, só ela e sua fé, seu deus, sua força. Encostava os joelhos ao chão, na atitude humilde dos que se vêem fraquejar, a implorar por força, por energia, por não se sabe o que para suportar a provação e – quem sabe - a morte.
 ​Vamos e venhamos – não é todo mundo que morre sabendo que vai morrer. Morre-se após o dia de trabalho. Morre-se na partida de futebol. Morre-se à caminhada na Beira-Mar. Não se morre a morte decretada. A surpresa da morte é o que nos ilude. A morte sem surpresa é pior que a cadeira elétrica. Os da cadeira duram enquanto tramitam os requerimentos, as súplicas, os pedidos de clemência. A morte anunciada após a constatação da doença terminal não permite adiamentos, ou até permite. Mas há de ser uma das grandes controvérsias médicas, religiosas, éticas. O sujeito há de ficar vivo nem que sofra os piores horrores e torturas a que um ser humano tenha direito. É isso vida? Nunca os arautos saberão. Não são eles a sofrer a penitência dos CTI’s.
​   Mas não era sobre isso que eu queria escrever. O que eu queria dizer é que Vanusa não entendia o consultório fechado. O pior é que não consegui lhe explicar. E fiquei a pensar. E concluí. O consultório fechado é a minha resposta ao que querem que eu faça. Digo “Não!” ao que me querem que faça. Digo “Não!” na atitude, porque as palavras são demasiado pobres e incompreensíveis para expressar toda a minha indignação. Dei um basta nas conversas bobas. Dei um basta nas reclamações. E definitivamente respondi ao teste.
Um amigo certo dia de mim duvidou, dizendo que nunca havia sido testado. Pois bem, amigo: - renunciei às possibilidades mais ousadas, mais ardilosas, mais tentadoras. Quando se faz uma escolha, quem sabe aonde ela levará? A minha me levou aonde jamais supus. Levou-me a infernos e tormentas que nunca supus existirem. Levou-me à frustração e ao assombro, à decepção e, por fim, à serenidade. Após a reflexão da angústia, a me perguntar e avaliar o que foi feito, em mim não achei culpa. Antes achei em mim perplexidade. E a serenidade de mim se apossou. Paz. Paz de espírito.
E assim de Vanusa me despedi: - o consultório já não me realizava. Ela, em sua pureza e simpatia de sobrevivente – disse que estava maravilhosamente bem e namorando – usou do mais brasileiro de todos os sentimentos, a intimidade da gratidão, para desligar o telefone: - um beijo carinhoso para o seu médico mais querido. Quem pode resistir a esse teste, meu amigo? Que permaneça o título.

Fernando Cavalcanti, 19.02.2010

A intimidade da gratidão

               Adentrei a recepção do prédio e a nova recepcionista educadamente me chamou. É uma moça de seus trinta e muitos anos, penso eu. Sempre que passo ela me cumprimenta com sua voz altissonante: -“Bom dia, doutor!” Mesmo que seja eu o primeiro a cumprimentar, e mesmo na presença de várias pessoas, ela não deixa por menos: -“Bom dia, doutor!” Às vezes todas as faces se voltam para mim, já que cumprimento assim só se vê em quartel. Seria uma continência da vida civil. Ela me passa uma autoridade que não possuo. Hoje ela queria que me aproximasse a fim de me fazer uma consulta.
Consultas médicas ao meio da via pública, ou no toillete, ou no restaurante, ou na festa de casamento são uma constante, uma rotina. Querem o diagnóstico na bucha, sem hesitações, sem meias-voltas. Diz-se o sintoma, dá-se o veredicto. É claro que não há confiança nenhuma por parte do paciente. Ele já vai dando o tratamento: -“Não é melhor tomar tal remédio, não?” Se sabe o que o aflige e o respectivo tratamento, não há por que se aconselhar. Por que pergunta? Sabe-se lá. Ou melhor, sabe-se, sim: - não há a menor confiança e credibilidade, repito. Perguntar e discordar da resposta já são a repreensão: como me responde uma coisa dessas sem me examinar, seu imbecil!
               Hoje a confusão está tão grande que o doente vai ao especialista que lhe dá na telha. Ou o que o parente mais hipocondríaco da família acha ser o mais adequado ao caso. E por aí vai ao lixo a reputação do clínico geral. Todas as vezes que indico um clínico geral percebo um desdém acintoso. Ninguém mais quer ir ao clínico. Clínico não goza de boa reputação entre os leigos. Também pudera. A maioria dos clínicos dá diagnósticos como se estivesse à privada espremendo cravos, ou à fila do cinema chupando picolé Pardal.
               Em que pese tudo isso, posso garantir: o médico, o verdadeiro médico, é o clínico. Não esse da fila do cinema ou o da sentina, mas o clínico, à moda Sérgio Gomes de Matos, à moda Francisco Heli Lima. Esses não dão palpites ao sereno. O sujeito que não for ao seu consultório não vai ter o prazer de ser consultado por o clínico, o médico. Não sei se me entendem.
               A instituição da confissão já foi mais viçosa. O sujeito se aconselhava com o padre. De tudo sabia o padre. Hoje já não se usa mais o confessar-se como antigamente. Pois bem. O sujeito vai a o clínico e sai de lá mais leve que uma bola de algodão. É provável que suas somatizações se abrandem e sua suposta doença orgânica não exista. Após uma consulta a o clínico, não há mais padre nem psicólogo.
​    Volto à recepcionista. Disse-me lá o que a afligia e a orientei sobre como conseguir uma consulta com o especialista. E querem saber? Ficou muitíssimo agradecida. Entendeu que considerei seu quadro relevante o bastante a necessitar de uma consulta com o clínico. Ficou tão agradecida que se despediu de mim com um beijo, desses que se dão no ar com a encenação dos lábios unidos a pronunciar um splash. Vejam como somos os brasileiros. Vamos da formalidade respeitosa à intimidade da gratidão após dois minutos de prosa. A intimidade da gratidão implica um respeito ainda maior por parte de quem se sente ajudado, de quem se sente amparado e acolhido, mesmo que não seja você o elemento que vai trazer a solução do problema.
​   Horas mais tarde, ao interfone, ela me informava: -“Doutor Fernando? Meu amor, chegou uma encomenda para o senhor cá embaixo. Posso mandar subir?” É desconcertante a intimidade da gratidão. Para os que só vêem segundas intenções em tudo, fica o brasileiríssimo exemplo.

Fernando Cavalcanti, 09.02.2010    

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Duas justiças e inúmeras adesões

               Estão dizendo aí na imprensa que mandaram exumar o corpo do Jango. O homem foi sepultado em São Borja e estão trazendo-lhe os restos mortais para Brasília onde os inumarão novamente, desta vez com honras de chefe de estado. O objetivo da operação é, ao que parece, reparar uma injustiça e, talvez, esclarecer um assassinato. Jango teria sido envenenado pelos militares após a tomada do poder. Bem se vê que há ainda muita água pra rolar sob essa ponte. Os peritos vão se debruçar sobre seus despojos para tentar dirimir qualquer dúvida sobre a causa de sua morte. Há aí uns bons panos pras mangas das matérias jornalísticas e das discussões em plenários, com direito a frases de efeito e retórica rebuscada e falsa.
               O que causa uma certa estranheza na matéria jornalística que trata da exumação e investigação da morte do ex-presidente, e isso tem sido cada vez mais comum em matérias jornalísticas, é que ela empresta ao fato uma suspeição suspeita. Explica-se. É justamente esse o toque de efeito que instigará os debates. Ora, há uma explicação histórica para o golpe militar de '64 qual seja, a ameaça de implantação de uma ditadura comunista no país. Pelo menos é o que dizem os do lado de lá. Os do lado de cá, que agora estão a gozar das delícias e possibilidades do poder, nada alegam, exceto as torturas de que foram vítimas. A Revolução os teria perseguido e torturado, e a alguns até matado, por se oporem a ela de uma forma ou de outra. Sem entrar no mérito, e não esquecendo que matou-se de um lado e de outro, o caso é que os do lado de cá trabalham para fazer justiça ao presidente enterrado como um qualquer. Seria a reparação de uma injustiça cívica. O diabo vai ser se descobrirem que envenenaram de fato o homem. A quem vão prender?
               Coincidentemente estamos na véspera da "comemoração" dos 124 anos da proclamação da República no Brasil. Conta o Laurentino Gomes em seu "1889" que Dom Pedro II, a Imperatriz e toda a casa imperial foram literalmente expulsos do país à maneira mais humilhante possível após o fato. Não houve uma única alma que se tenha posto entre os golpistas e o governo de Sua Majestade. Não houve luta, não houve comoção, não houve nada de anormal nem contundente ao dia 15 de novembro de 1889. E mais. A família Imperial, convidada a deixar o país o mais rápido possível, o deixou mais rápido ainda do que o inicialmente estipulado. Marcada a partida para o dia seguinte, às 2 da tarde, o já então ex-Imperador e os seus foram acordados na madrugada de 16 e levados às pressas para o navio onde esperariam os netos que ainda desciam a serra para com eles partirem. A desculpa: - evitar tumulto por parte de republicanos e monarquistas à partida dos reis. Até aí tudo bem. Golpes servem a maltratar os depostos e, às vezes, a tirar-lhes a vida, como se suspeita tenha havido com o senhor João Goulart.
               Quando morreu o ex-Imperador no exílio em França, recebeu, por parte do governo francês, honras de Chefe de Estado e vieram enterrar-lhe os ossos próximo à sua Teresa Cristina em Portugal. As exéquias francesas irritaram os republicanos de cá, por certo enciumados. Por aqui trataram de mudar os nomes das ruas, das praças, das escolas e tudo o mais que lembrasse o império e a família imperial. Queriam apagar todo e qualquer vestígio do governo anterior. Somente em 1921 trouxeram os restos mortais do monarca e da Imperatriz a repousar em solo pátrio, como ele sempre manifestou querer. Vê-se que Jango e D. Pedro II tiveram fim político semelhante.  
               Hoje, em sua coluna do jornal O Povo, o excelente jornalista Fábio Campos escreve sobre um vício, mais um dentre tantos, da política e dos políticos brasileiros: - apagar de vez o que fizeram de bom os antecessores. Entra gestor e sai gestor, entra político e sai político, e sempre é a mesma coisa. Faz-se de tudo, e geralmente com grande sucesso, para destruir os feitos de quem o precedeu. Se não isso, faz-se pior: - apodera-se do legado realizado como se de sua autoria fosse. E mais: - nisso não há um único e mísero santo. Todos, sem exceção, praticam e seguem praticando essa vergonhosa fraude, esse verdadeiro estelionato sobre as realizações alheias. Para que destruir o que se fez de bom quando se pode amealhar o feito como seu e ainda colher os dividendos? Burros foram os recém "empossados" republicanos de cem anos atrás. 
               Há mais. Segundo o Fábio Campos, ou melhor, segundo o Laurentino Gomes, à medida que a república se "instalava", crescia o número de "adesões" à nova forma de governo. Uns poucos descontentes pipocaram aqui e ali, mas nada significativo resultou. A maior reação contra a república partiu da província da Bahia, onde o general Hermes da Fonseca, seu comandante de Armas, se dizia fiel ao Imperador. Aquietou-se quando soube que o chefe da conspiração era o seu irmão, o Marechal Deodoro. Ou seja, se agora é a república, que venha a república ou o que quer que seja. Sendo ela inevitável – que, a propósito, foi o que pareceu ao próprio marechal –, que a louvemos e a bem recebamos. A mesmíssima coisa acontece hoje às raposas da política. Basta que se veja como o empresariado, ou pelo menos boa parte dele, cedeu aos encantos de nossos últimos governos "de esquerda". Ora, todos lutam para se inserir e prosperar na nova ordem, já que ela é, aparentemente, inevitável. As empresas, que são a prova mais contundente de uma economia capitalista, podem, sim, sobreviver e até muito lucrar em regime "comunista". A razão disso é que, na verdade e de fato, comunista mesmo o regime não é. 
               Assim, enquanto hoje se luta uma lutinha boba para "fazer justiça" ao ex-presidente João Goulart, justiça já se fez há muito a Dom Pedro II. Uma pena que essas "justiças" se façam somente após a morte dos injustiçados , quando participação nenhuma têm mais no que ocorre debaixo do sol. Hoje, também, seguem a passos largos as adesões aos novos governantes e seus grupos, sejam eles quem forem e o que quer tenham intenção de fazer. O que importa é fazer parte do jogo, da "panela", do caldo que compõe aqueles que controlam os orçamentos e as decisões, enquanto uns poucos abestados ficam a berrar seu idealismo inútil e defendendo o indefensável. Deviam era ter mais o que fazer.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O anjo da morte é o governo

          Admitamos: - dessa vez até que o senhor Plínio Bortolotti disse menos besteiras. Uma besteira é sempre uma besteira, nada mais, nada menos. Que disse ele desta vez? Bem, de fato ele nem chegou a dizer; apenas insinuou. Insinuou que o médico brasileiro, “com as devidas exceções”, não admite ser questionado. Não, não insinuou. Estou a lhe reler o texto de ontem no jornal O Povo e vejo que ele o afirmou categoricamente. Para insinuar, trouxe à baila o que lhe teria relatado um médico sobre como um colega nutria verdadeira fobia por seus pacientes, a ponto de pregar ao chão a cadeira onde eles se sentavam para a consulta, a fim de não correr o risco de dele se aproximarem.
            O fato tem tudo para ser verídico. Afinal, não há ser humano perfeito, assim como não há médico perfeito, nem padre perfeito, nem engenheiro perfeito... Mas insinuar que, além de não gostar de ser questionado, o médico brasileiro tem fobia pelo ser humano, já é demais.
            Por exemplo, não tenho fobia a jornalistas, embora considere, como já deixei claro inúmeras vezes aqui neste modestíssimo blog, que o jornalismo que se faz nesta terra é de uma pieguice sem tamanho, de péssima qualidade mesmo. E confesso: - já nutro uma verdadeira fobia e um cristalino horror por esse jornalista, o senhor Plínio Bortolotti. Ele é tendencioso e falacioso. Escreve – vejam bem: escreve! – sem conhecimento de causa. O sujeito que tem a função de informar e mal informa torna-se uma praga informativa e uma fonte pra lá de duvidosa. Que ele tenha lá suas preferências nada mais justo, nada mais natural. O que ele não pode nem deve é divulgar sua míope e tendenciosa visão como a verdade absoluta do século. 
            Minha opinião sobre o jornalismo que aqui se faz tem embasamento, e os textos do senhor Bortolotti me vêm bem a calhar na prova de minha tese. Diria eu a ele: - senhor Bortolotti, não dê carne a gato que o gato vem e come...! Agindo assim, como porta-voz desse governo de canalhas, tornar-se-á um canalha. Aliás, o sujeito para aprovar canalhices e ter-lhes simpatia há de ser, desde as fraldas, um canalha. Pois é isso mesmo o que quero dizer; não estou insinuando: - há fortes indícios de que o senhor Bortolotti seja um rotundo e espesso canalha.
            Dizia o Nelson que hoje em dia é muito fácil ser canalha. Por exemplo, para se fazer uma péssima medicina pública não é necessário maus médicos. Para fazer e oferecer uma péssima medicina pública é necessário, apenas e tão-somente, um governo de canalhas. E sabe por que, senhor Bortolotti? Porque a medicina não se resume ao médico, à pessoa do médico, à atividade do médico, embora este tenha papel angular naquela. A medicina é um conjunto de ações que visam um resultado pretendido. O médico executa muitas dessas ações, mas sua atividade depende diretamente dos recursos disponíveis. Tenha um infarto a bordo de um jato sobre o Atlântico e, se sobreviver, entenderá o que digo.
            Já a qualidade do jornalismo que se faz em determinado jornal não necessariamente dependerá de um conjunto de ações concatenadas e ordenadas. O jornalismo não pretende um resultado dentro de uma escala axiológica. Sua função é meramente informar. Governos não têm a função precípua de informar, exceto quando falam pela boca de canalhas a serviço da mentira. No Brasil, todos sabem, os governos não dizem a verdade. O povo teme o governo, como é bem típico do subdesenvolvimento, e justamente porque, quando fala o governo, boa coisa é que não é. Em países de população educada o governo teme o povo, justamente o oposto do que acontece por essas desafortunadas plagas. Naqueles países o governo é obrigado a ouvir a voz do povo sob pena de seus elementos amargarem, dali em diante, o ostracismo vitalício. 
             O jornalismo de má qualidade resulta da atividade tendenciosa e/ou superficial daqueles que informam. Eis aí as duas características marcantes do jornalismo local: - tendenciosidade e superficialidade. As conseqüências do mau jornalismo podem ser desastrosas ou inócuas, a depender da qualidade do leitor. O leitor preparado fareja a podridão do jornalismo marrom. O leitor alinhado à mentira que o jornalista escreve dá vivas de satisfação. Os demais, a arraia miúda, a plebe, nem lê, e, se lê, não entende. No caso do falacioso “Mais Médicos”, o tempo, senhor absoluto da verdade, em breve demonstrará, pela boca e testemunho daqueles pobres brasileiros a quem o programa é dirigido, onde ela, a verdade, está. Provavelmente os que fazem o jornalismo ideológico chapa branca, como o senhor Bortolotti, não permitirão que fale em suas colunas a boca do povo. Os humildes não entendem pelas letras, mas pelas dores e provações. Vê-se, então, que é pouco provável que as consequências da mentira jornalística sejam, de fato, catastróficas, ao passo que as da má medicina pública traduzem-se em perdas de dignidade, felicidade e vidas humanas. Daí porque, em que pese meu pavor à figura desse pernicioso "informador", nem atenção ele merece. O antídoto à sua peçonha é o desprezo.
            Uma medicina pública de péssima qualidade não se faz com um ou outro médico imprestável, discípulo de Josef Mengele, o anjo da morte, senhor Bortolotti. Como se vê, ao governo brasileiro está bem mais adequada a comparação. Pela irresponsabilidade deste governo é que morrem os doentes em filas, ou sem medicamentos, ou sem vagas em hospitais. A esmagadora maioria dos médicos brasileiros, ao contrário do que diz o senhor, ama o ser humano e se condói de seu crônico sofrimento. Sem ser piegas, o médico brasileiro é um imitador, um plagiador nato. Por beber na fonte de mestres admiráveis, pretende imitá-los no saber, na cultura, no humanismo, na infindável busca pela perfeição que nunca alcança. O médico brasileiro, dizia o grande pediatra Alberto Lima de Sousa, é o melhor do mundo porquanto é capaz, muitas vezes, de fazer diagnósticos usando somente a básica Semiologia e a Clínica Médica. 
           Entretanto, o doente desidratado só pode ser tratado, senhor Bortolotti, se houver água potável ou soluções endovenosas e seu aparato para injeção. Pense nisso à próxima vez que pensar em escrever ou insinuar suas asneiras.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

...tanta desgraça grassa...!

               Que dia é hoje, mesmo? Ah... aqui está: - 7 de novembro. Se hoje é 7 de novembro, daqui a oito dias será 15 de novembro. Há quase 124 anos um pouco convicto e, por conseguinte, hesitante Deodoro proclamou a República. E por que hesitava o marechal? Porque ele não tinha nada de republicano. Era, isso sim, um monarquista até o semi-eixo. A um sobrinho que estudava em escola militar no Sul, integrante da "mocidade militar"– jovens estudantes de escolas militares no Brasil com aspirações republicanas –, escreveu um ano antes: "Não te metas em questões republicanas, porquanto República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa; os brasileiros nunca se prepararão para isso, porque sempre lhes faltarão educação e respeito". 
               Eis aí o Brasil como sempre foi: - o país onde o acaso frequentemente se intromete nas causas e concausas, levando à escrita de livros que só enfatizam o primeiro, tentando, talvez, embutir, no fato, uma necessária mas ausente glória. Isso sem falar que o pobre marechal quase não se sustentava em pé de tão doente que estava, ao dia em que subiu ao cavalo para ir proclamar a nova forma de governo. Deveria lá ter ido o Benjamin Constant, coronel e professor de matemática da Escola Militar e republicano convicto. Vai ver foi justamente a debilidade do marechal e sua pouca firmeza nos ideais monárquicos – era monarquista mas já a sabia débil – que emprestava então uma simbologia tão apropriada ao ato. 
               Mas, que fique para lá a proclamação e o 15 de novembro histórico. Cento e vinte e quatro anos anos não são cento e vinte e quatro dias embora, vez ou outra, surjam aqui e ali alguns que se auto-denominam "monarquistas" tentando ressuscitar a polêmica sobre se a mais que centenária república é mesmo a melhor forma. Estarão se valendo da frase do marechal? que diz que no Brasil República e desgraça são a mesma coisa? (Oh, Senhor!... No momento tanta desgraça grassa...! Pobres de nós!...) 
               (Falo às pampas e não entro no assunto.) 
               Pois o que eu queria dizer é que o que me interessa, neste exato momento em que escrevo essas notas, é chamar a atenção para o próximo 15 de novembro, data de comemoração de aniversário do meu querido amigo Sérgio Moura. Fará o que?, cinqüenta e poucos anos, se tanto. O jovem atual ouve "cinqüenta e poucos" e parece que está a ouvir a propaganda das lojas Vox. Os velhos de minha infância, que eram os mesmos da do Sérgio Moura, eram velhos bem velhos, com aparência de velho, cabelo de velho, roupas de velho, e tiques de velho. Explico melhor.
               Quando eu era menino, meu pai era um galã de cinema e minha mãe uma princesa de conto de fada. Ele usava calças à Beatles e penteava os cabelos como o Tyrone Power; ela usava gigoletes e tiaras como os da Grace Kelly, e tinha a pele como a da Grace Kelly, e as mechas da Grace Kelly, e o olhar da Grace Kelly. Assim, não me parecia a mim que eram velhos. Não eram velhos. Os velhos de minha infância – eis o que quero dizer – eram velhos mesmo. Eles cheiravam a talco PomPom e quando morriam, morriam tão docemente quanto viviam, e eram velados na sala de estar.
               O Sérgio Moura, não é o caso do Sérgio Moura. Digo, o Sérgio está muitíssimo longe da velhice. Vejam que o meu amigo, em que pese sua cabeleira inteiramente encanecida, é uma potência de cabeleira, por exemplo. Permanece aquele jovem das tardes e manhãs maristas e, depois, aquele jovem das noites e toadas soteropolitanas. Levou lá as bordoadas que a vida dá e, de passagem, aplicou à vida a sua contribuição de homem normal. Assim, não se justifica e, necessário repetir, não se justifica o que ele faz. 
               Que faz o Sérgio à zero hora do dia de seu natalício? Faz o seguinte: - desliga o telefone portátil. Entra ano e sai ano e o Sérgio Moura, ao dia de comemoração de seu nascimento, desliga o telefone portátil. E mais. Não somente desliga o telefone portátil, como também desliga o telefone fixo, as redes sociais, o correio eletrônico, o radinho de pilha – ele é daqueles que adoram radinho de pilha transmitindo aquele sujeito de voz esganiçada se esgoelando a narrar o lance –, e desliga até a TV a cabo. Desconfio que trancafie-se no quarto e até despache a mulher à casa de algum parente mais próximo.
               É tão impressionante a atitude do amigo que ele já começa a fazer escola. Tanto que o Fábio Motta, dono do mais pagão santo sudário da atualidade, também deu ultimamente para essa abduções voluntárias e inexplicáveis. No último 23 de março, dia de seu aniversário, sumiu o Fábio Motta. Reapareceu ao dia seguinte com uma lista de desculpas as mais esfarrapadas possíveis e previsíveis. Mal sabe ele que sua mulher, interessada em lhe remover daquela tristeza abissal, relatou-nos seu lamentável estado de putrefação. Assim, já são dois os amigos que contam-se no grupo dos apreciadores de uma deplorável e desnecessária "morte simbólica". Estão a beber no poema do Pessoa que diz: – "morrer é apenas não ser visto".
              Por tudo isso é que resolvi acabar com esse negócio. Aí está. Venho voluntariamente propor ao Sérgio Moura. Sim, venho pedir, implorar, exortar. Promovamos o rega-bofe, meu caro. Em tua casa. Em teus domínios. Que tal na véspera, dia 14? Ainda podes chorar ao 15, se quiseres. Percebeste? Sei, sei que dá um trabalho danado, sujam-se pratos, copos, talheres, a churrasqueira, o urinol, a pia... Levamos tudo, inclusive o churrasqueiro, que ao final dará cabo da sujeira. Queremos apenas te convidar. Compreendeste? Levanta-te, Sérgio Moura!...

Alma viúva das paixões da vida,
Tu que, na estrada da existência em fora, 
Cantaste e riste, e na existência agora
Triste soluças a ilusão perdida;

Oh! tu, que na grinalda emurchecida, 
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;

Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e pesar negro e profundo, 
Esconde à Natureza o sofrimento,

E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.

(INFELIZ, Augusto dos Anjos)


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A "verdadização" da mentira

               O pior problema que se vive hoje no país é o da "verdadização" da mentira. Que seria isso?, perguntar-me-ão os caríssimos e pouquíssimos leitores. 
               Outro dia o meu amigo Paulo Prado, comunista até o semi-eixo – comunista mesmo, de verdade, ele não é, já que não distribui dinheiro (a mais valia) e não quer nem nunca quis morar em Cuba – mandou-me ler o Mein Kampf, sugerindo que eu o adoraria já que, para ele, sou um "reaça" de carteirinha. 
               Esse pessoal que se diz "de esquerda", por exemplo, bebe em fontes cujo conteúdo é qualquer coisa, menos a verdade. Vejam o Paulo Prado. Para ele o nazismo foi uma ditadura de direita. Por isso mandou-me ler o livro do segundo maior assassino de todos os tempos (o primeiro é o Stalin). Esqueceu-se que os nazistas odiavam os judeus justamente porque, para eles, o capitalismo – vejam bem: o capitalismo! – que tinha sua base nos judeus alemães, e a democracia eram os grandes responsáveis pelo caos da Alemanha na República de Weimar. Mais ainda. Para eles, os judeus e o comunismo eram os culpados pela crise econômica e política européia. O fato de os nazistas desprezarem também o comunismo, é provável, leva o meu amigo e outros de nossos comunistas a afirmarem peremptoriamente que os nazistas eram a direita encarnada e esculpida.
               Esqueceu-se também e convenientemente o meu amigo que os nazistas assinaram com Stalin o Pacto Germano-Soviético, uma espécie de promessa de não-agressão bilateral. Nem por isso diremos serem os comunistas nazistas disfarçados. Mais tarde Hitler invadiu a União Soviética e o Pacto foi para as cucuias, como é bem sabido de todos.
              Ora, Hitler e seus comparsas tinham um projeto de dominação global, caro Paulo Prado. Não queriam o capitalismo. Afinal, a Primeira Guerra deixou a Alemanha com ele, o capitalismo, seriamente endividada. Dos comunistas só queriam o apoio da classe trabalhadora e nada mais; e não queriam os livros nem nada que não fosse engendrado pela poderosa máquina de propaganda nazista. Josef Goebbels, quando líder regional do Partido Nazista em Berlim, utilizou seu dotes de propagandista para combater o Partido Social Democrata da Alemanha e o Partido Comunista da Alemanha. Os nazistas não queriam nem gostavam do comunismo, não queriam nem gostavam do capitalismo, não queriam nem gostavam da democracia, não queriam nem gostavam dos livros que não dissessem o que eles queriam fosse dito. O que eles queriam e do que eles gostariam, Paulo Prado? Queriam o Terceiro Reich, meu prezado falso comunista! Gostariam de ter dominado o mundo, eis aí a verdade verdadeira.
               Falei tudo isso apenas para dar um exemplo de tentativa de "verdadizar" a mentira. Os fatos já vão longe, mas a história está aí a mostrá-los. O senhor Goebbels, competente ministro da propaganda nazista, tinha como princípio pétreo e fundamental de sua propaganda justamente a "verdadização" da mentira. Segundo ele, uma mentira repetida tantas e tantas vezes tornar-se-ia uma verdade em curtíssimo espaço de tempo. Quanto mais se repetisse a mentira, mais verdade ela seria. E assim, o povo alemão, com honrosas exceções, foi completamente dominado pelas idéias que este senhor, mancomunado a seu amado e idolatrado líder, o Führer, fez vicejar e divulgar naquele pobre país. 
               Pois eis que saí ontem a ler o editorial do jornal O Povo. Há algum tempo tenho observado que o jornalista que o escreve tem-lhe trocado a cor da chapa. Ou, melhor, a chapa era meio acinzentada, mas nos últimos anos passaram-lhe um alvejante e ela transmutou-se numa exuberante chapa branca. Pois o editorial do O Povo de ontem (31.10.2013) foi escrito com a mesma mão que acaricia o saco dos poderosos do momento. Que diz, afinal, o tal editorial? Vejamos.
               O título é emblemático: "Bolsa família: dez anos de retração da miséria e da exclusão" (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/10/31/noticiasjornalopiniao,3155798/bolsa-familia-dez-anos-de-retracao-da-miseria-e-da-exclusao.shtml). Por aí já se vê uma tentativa de engano, mas o autor cuidou, manhosamente, de, ao desenvolver o tema, pontuar os vários índices supostamente melhorados com o bolsa família, os vários prêmios internacionais ganhos pelo bolsa família, os vários reconhecimentos do bolsa família por parte de entidades que desenvolvem atividades contra a miséria no mundo.
               O termo "retração" é enganoso porquanto carrega uma carga de ambiguidade inaceitável. Dizendo de outra forma, por ser um tema de indiscutível potencial de uso como moeda de troca política, o termo de ambíguo passa a ter o caráter da mentira. Por exemplo, digamos que o sujeito tenha um grande tumor maligno nas cordas vocais. (O sítio primário desse tumor é proposital. O exemplo é meu e faço o tal tumor crescer onde bem quiser e entender.) O pessoal lhe faz um tratamento radioterápico e, após algumas semanas, vem a notícia: - houve uma retração do tumor. Fosse eu o paciente exigiria de meus médicos uma imediata e detalhada explicação do significado e importância dessa tal retração. Vá enganar o cão com reza! Na "retração" da miséria do bolsa família a mesma coisa. 
               O que sei é o que vejo. E o que vejo – e não estou a ver sozinho – é ainda muita miséria, e miséria da grossa. E ainda muita fome, e fome da grossa. Assim, das duas uma: ou sou um sujeito de enorme má vontade, ou a retração foi insignificante, como o deslocamento da placa com o terremoto do Chile. (Foi no Chile ou foi no Haiti?) Os índices do editorialista? São as ferramentas de "verdadização" da grande mentira que é esse bolsa família. Percebam: - na "verdadização" a mentira adquire, definitivamente e irremediavelmente, o status de verdade. Somente uma hecatombe pode destruí-la.