quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A espera


Por dias me abateu uma esterilidade de temas. Ainda me abate. Não me arreda o pé. Como uma saudade que tive – e ainda tenho – a escassez persiste. A mim me parecia ser justamente este o momento de algo. Não há artista sem dor. A dor, o abandono, a rejeição e as saudades fertilizam nossos jardins da alma como adubo excelente e viçoso. Não é o que me está a ocorrer. Há dias que passo sozinho, sem trocar única palavra com semelhante. Obrigo-me a pensar, a refletir. Como um Crusoé da selva de pedra, gasto as horas vendo o sol passar do lado direito ao lado esquerdo de meus muros. Leio algo, ouço a música, me meto nas sombras do crepúsculo que anuncia o fim de mais um dia. Tanto a dizer, não sei como. Não acho as palavras; não encontro metáforas, metonímias, hipérboles ou quaisquer figuras que me ajudem.
            Aproxima-se a hora.
Minha vida me passa como uma película enodoada. As decisões, os erros, os enganos, as ilusões, as transições, as feridas, as perdas, tudo num instante.
Aproxima-se o momento.
Memórias do que foi bom persistem enquanto esqueço o que foi mau. Um esforço não seria o bastante para lembrá-los, nem seria sensato tentar fazê-lo. Para quê? Por quê?
Aproxima-se o instante que tanto espero.
Sinto um leve incômodo a me alvoroçar e não me agrado dele. Não tentarei explicá-lo a mim mesmo. Na hora certa a resposta virá, as razões virão. O tempo sempre deve ser utilizado a favor da resolução da dúvida ou do que ainda não se revelou plenamente. Por que exasperações gratuitas? Muitas vezes, sem nenhuma razão, nos invadem maus sentimentos ou pruridos mal definidos, cujos motivos nos fogem ao entendimento.
Espero. Ainda restam 3 horas. Até lá espero.
O que me incomoda se revela – as palavras que um dia falei. “És senhor do que cala e escravo do que fala”, diz o velho ditado. Eis o pecado. Falei. Não devia, mas o fiz, e o que está feito está feito. “Três coisas não voltam mais: a pedra lançada, a oportunidade perdida, a palavra emitida”, o outro ditado. De ditado em ditado vou me angustiando. Nada a fazer, nada a dizer; quanto menos dizer, melhor.
Se escrevo, pior. E estou cá a escrever, em que pese toda uma esterilidade inexplicável. Falo coisas sem nexo, traduzo idéias mastigadas e não digeridas, tudo uma minúscula parte de meu imenso e único universo. Quem entenderá? Ninguém, sem dúvida. Ou alguém, quem também está a esperar. Ou talvez também não entenda, a não ser quando digo da espera. Esperamos, ambos, a hora que ainda tarda.
O escrever não deve escravizar. Não se escreve para se tornar escravo, mas para se libertar das amarras da gravidade e dos aguilhões da alma. Escreve-se em tributo à liberdade. Palavra falada carrega consigo, muitas vezes, o tempero da intemperança, ao passo que palavra escrita, ainda que se possa apimentá-la, vem lastreada da certeza de seu alvo e de seu nascedouro.
Ainda espero.
Ia escrever dos que morrem para dar vida ou curar alguém; ia falar dos que adoecem de doenças evitáveis e preveníveis, e que não se previnem devido ao nosso desprezo pela vida alheia, ao nosso pouco caso com o outro. Ia dizer que não há o que comemorar quando os que morrem não deveriam morrer, e quando os que adoecem não deveriam adoecer. Não há o que comemorar em omissões tão criminosas. Não há o que comemorar na solução complexa quando a simples se mostra tão fragorosamente em sua pragmática e econômica simplicidade. Os números que se divulgam não deveriam ser motivos de regozijo, mas de vergonha. Chega a ser ridículo, mas não é – é criminoso mesmo.
Ia escrever, mas não consegui, a não ser por essas poucas e diáfanas linhas. E queria dizer o seguinte: tudo não passa de falácia, e nada mais. Alguém entenderá? Alguns. De fato não estou a escrever – é o mais puro devaneio à ponta dos dedos.
É chegada a hora.
Vou.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

TEOREMA DO POSCONCEITO


... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (João,8:32)

Estive a utilizar recentemente em descontraídas conversas o neologismo posconceito (ou pós-conceito). Não sei se fui o primeiro. Por várias vezes estive a usá-lo e, não sei se meus interlocutores perceberam, ele não consta nos dicionários.   
Creio que, com as novas regras da língua portuguesa, a escrita correta seria a segunda, mas me agrada a primeira por ser um “antônimo de simetria” com a palavra preconceito.  
            Conceito, segundo o Aurélio, seria o que se concebe sobre algo ou alguém no pensamento, na idéia; seria um modo de pensar sobre algo; seria uma noção, uma idéia, uma concepção. Seria ainda uma opinião.
            Diz ainda o Aurélio sobre preconceito: opinião ou idéia preconcebida sobre algo ou alguém, sem conhecimento ou reflexão; prejulgamento.
            Assim, vê-se facilmente que tanto o conceito quanto o preconceito são frutos de uma avaliação própria, individual, baseada em crenças, opiniões ou noções pessoais sobre algo ou alguém. Não há aqui referência à profundidade do conhecimento que o indivíduo possui sobre o objeto em questão, presumindo-se que é possível que não se tenha nenhum conhecimento sobre determinado assunto e ainda assim se elabore uma opinião a seu respeito.
            Diz o Robert Kiyosaki que, se você não pode provar que algo é um fato, então é uma opinião. Dado o número de seres humanos que têm opiniões sobre os mais diversos assuntos, temos que abundam os conceitos e, principalmente, os preconceitos. Conhecimento abalizado sobre alguma coisa ou alguém é algo bem mais raro. Foi então que me veio a noção do que seria um posconceito (firamos a nova grafia a fim de que os “antônimos simétricos” se assemelhem).
            O que seria um posconceito? Visto que o conceito parte de uma idéia no pensamento, ele pode gerar conhecimento na medida em que o ser busca prová-lo como verdade a fim de incluí-lo no cabedal de seus conhecimentos.
Concebeu-se a idéia do Big Bang a partir da observação da mudança do espectro de luz para o vermelho das galáxias distantes, uma luz de comprimento de onda mais longo. Hubble pensou que essa mudança se dava pelo afastamento das galáxias do observador e entre si e que, portanto, o universo estaria em expansão. Se o universo está em expansão – conceberam os cientistas – ele deve ter sido, no passado, um ponto minúsculo que explodiu numa hecatombe criadora. Este é um exemplo de uma idéia, de um conceito que se tenta provar como fato a fim de que deixe de ser uma opinião.
            (Devo alertar que, em contraposição à explicação da mudança do espectro da luz para o vermelho que leva à noção de universo em expansão, há a explicação da teoria da luz cansada. Como a luz é uma onda, e onda é energia em propagação, a luz perderia energia ao percorrer as colossais distâncias do universo e seu comprimento de onda tornar-se-ia maior. Quanto maior o comprimento de onda, menor a energia da onda. Se essa teoria se mostrar factível, o universo não estaria em expansão e estaríamos vivendo em um universo estático.)
            Então, o que diferencia o preconceito do posconceito é o grau de conhecimento sobre a realidade dos fatos. Um é uma opinião; o outro, um fato demonstrável. Assim é que um conceito pode ou não levar a um conhecimento abalizado. Um conceito pode vir a se tornar a origem de uma teoria científica ou permanecer somente uma hipótese, se não se buscar a inteireza de sua veracidade, um preconceito. Quando o conceito evolui de idéia, de noção, de pensamento para fato ele torna-se um posconceito. Eis aí tudo.
            O que ocorre com desmedida freqüência é o taxar de preconceito o que na realidade já se tornou posconceito. Conclui-se facilmente que muitos conceitos que estão em vias de se tornar sólidos posconceitos são, eles próprios, vítimas de atrozes e ferrenhos preconceitos. O exemplo é a teoria da luz cansada, vítima de preconceito pela comunidade científica positivista interessada em tornar o Criador uma impossibilidade definitiva. Por isso seguem a “pregar” a teoria do Big Bang como a verdade absoluta do surgimento de tudo quando ela está bem longe de tal façanha, segundo as próprias evidências que se acumulam.
            Vejam que até nos mais sérios meios científicos tenta-se manter os homens ignorantes gerando preconceitos que só contribuem para a manutenção da medievalidade em plena modernidade. 

domingo, 18 de setembro de 2011

Na perdição do sem saber


Não sei se já perceberam, mas vivemos à era da psicoterapia, à era do psicólogo. E não só isso. Vivemos à época da abundância do profissional da psicoterapia. São tantos e tantos que até se aboliu a necessidade do canudo para o exercício de tão nobre labuta. Vejam, por exemplo, o que acontece ao Amorim.
Teve uma desavença séria com a mulher e a largou. Os amigos, uma China deles, o avisaram: -“Não é mulher pra ti!” E puseram-se a opinar e resolver-lhe a vida amorosa. As amigas, mais opiniosas ainda, fuzilaram: -“Mereces coisa melhor!” Outros, conhecidos, pessoas da periferia de sua vida, sem nada saberem da história do casal, do drama dos filhos, se saíram com essa: -“Nada tem a ver contigo!”
Certa vez, pouco depois da tragédia familiar, todos os psicólogos do Amorim se encontraram no bar da esquina e meteram-se a debater o drama do amigo e conhecido. Foi um verdadeiro seminário de psicologia. O drama do Amorim era um case. E assim concluíram que Amorim fizera a maior besteira de sua vida ao contrair matrimônio com aquela que veio a se tornar a mãe de seus filhos. Pisaram-lhe a família e sua dor. Nada ou pouco consideraram.
Dali a poucos dias Amorim, sem saber o que dizer, o que fazer, quis saber: -“E como deveria ser a mulher que servisse pra mim?” Ninguém sabia a resposta. O amigo concluiu que os amigos, a nova leva de psicólogos, sabiam de tudo, mas não sabiam de nada.
            Comigo foi ainda pior. A mim me deram o diagnóstico fatal: estava perdido. Disseram-me: -“Estás perdido.” Disseram-me: -“Não sabes o que queres!” Tão perdido fiquei com o nefando diagnóstico de que estou perdido que saí a esmiuçá-lo.
            Se estiver perdido, onde me perdi? Em que momento me perdi? Quando não mais me dei conta de mim mesmo? Que terei feito durante o tempo em que estive por aí, a esmo, perambulando por minha própria vida sem a noção de que ainda vivia? A quem feri? Terei-me autoinfligido dores?
            Chacoalharam-me a ver se despertava daquela alienação não percebida. E o que aconteceu foi que continuei perdido. Não me achei após a violenta e veemente chacoalhada. Parado estava, parado permaneci. Como o herói kafkiano, segui desconhecedor de meus processos. A mim me parecia que a normalidade era minha companheira. Mas, não. Estava perdido. E me perguntava, sem desespero algum: como me acho? Ninguém pôde me dizer. Ninguém sabia.
            E, como estava perdido, também não sabia o que queria. Nada mais natural em semelhante situação. Um perdido não sabe o que quer. Do contrário não estaria perdido. Alguma pessoa poderia ter querido por mim, me emprestado sua vontade, e ter dito, como quando levamos uma criança ao restaurante, o que supunha eu iria querer. Nem isso fizeram. Não me restou um amigo para me socorrer quando me fugiu a razão, o juízo, a lucidez. Só apareceram os psicólogos com seu nefando diagnóstico: -“Estás perdido!”
Há algum tempo, após o segundo divórcio – estaria eu já então perdido? –, me perguntaram: -“Que queres da vida?” Perdido ou não, respondi: -“Viver.” Não sei se me perdi antes ou depois da pergunta letal. Se novamente me perguntassem, hoje, o que quero da vida, responderia com a cara mais lisa do mundo: -“Viver.” Embora perdido, teria a resposta, a mesma, na ponta da língua, clara, lúcida, indubitável. Assim, é provável que a pergunta de aparência sábia pareça agora ainda mais estúpida do que à primeira vez que me foi formulada. Não se faz tal pergunta a quem está perdido, a quem não sabe nem mesmo quando está com fome.
É fato – hoje em dia desconheço quando me vem a fome. Vem-me a fome e não sei. Corro o risco de morrer de inanição, de um kwashiorkor tardio que afetasse um homem obsoleto. Tenho sobrevivido por conta de amigos que, no dia-a-dia, me lembram a hora das principais refeições ou me chamam inadvertidamente para um lanche fora de hora, um cafezinho, um suco. E não sei o que quero comer, segundo meus inúmeros e honoráveis psicólogos.
Uma coisa é certa: - quando melhorar me avisarão. Quando souber o que quero, eles me dirão. De fato eles me dirão quando devo saber o que quero. Enquanto isso não acontece, sigo a viver minha vida de extraviado. E peço aos amigos, muitos deles meus psicólogos, que quando me acharem por aí me tragam para casa. Nem de meu endereço me lembro.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Não me amem!


Após quarenta e oito anos de uma existência ativa e relutante, peço em alto e bom som: não me amem! E requeiro: respeitem-me, pois que estou a respeitar a todos.
            Haverá sempre os que não pensam, ou que pensam que pensam, mas que pensam a partir de equívocos e regras preestabelecidas e comprovadamente ineficientes em produzir bons resultados. Vitimei pessoas em amores possessivos. O resultado é que fui também vítima de tais amores. Criei um monstro, e por ele fui mordido. Ainda hoje vejo pessoas a aprisionar seus amores, a criar os monstros que as mordem. Uma pieguice sem tamanho!
            Também fui vítima dos amores essenciais, aqueles que os que nunca o tiveram reivindicam nos divãs dos psicoterapeutas e/ou nas ruas da marginalidade. O paradigma manda-me ser feliz por ter sido agraciado com tão nobre e “protetor” sentimento, mas ainda este me mordeu. Não fosse minha maturidade plenamente resolvida e assumida, eu estaria a chorar e a me afligir por culpas que não tenho.
            Não me amem, mas me respeitem, é tudo que peço. O amor dos homens não é pleno, e cobra tributo. Sempre amam esperando a paga, que pode ser o amor em troca, mas que pode também ser a matéria que pretende simbolizar o intangível. Quem ama quer ser amado, dizem. Por isso, não me amem. Não me sinto disposto ao comércio do amor, lamento dizer. De nada adiantaria se dissesse, em sinal de alerta, que não garanto o retorno. Não bastaria ser sincero. Ainda que o fosse, estaria endividado com quem diz me amar. Por isso, rejeito qualquer amor. Ou melhor, aceito o amor distante, o amor da quase nenhuma interação, da quase nenhuma convivência, do quase nenhum conhecimento. Esse é o único amor que me é possível. E por quê? Porque me respeita, ainda que tal respeito seja imposto pela volatilidade de meros e frugais encontros.
            Respeitem-me! Aceitem minha ilha de sensibilidade! Aceitem esse meu espaço vital! Ele é meu, a mais ninguém pertence! Não está a invadir terceiros.  Fartei-me das convivências que comentam de mim; julgam-me, observam-me, resolvem-me, criticam-me destrutivamente, não me olham nos olhos, e nunca me perguntam com a alma desarmada e repleta de genuíno interesse: -“Como estás?” Fartei-me da insensibilidade dos que se furtam à observação de minhas atitudes e comportamentos, e ainda nem em minhas palavras acreditam. Por que agem assim? Por que insistem em não ver, em não me ver? Em nada lhes posso ajudar. Sentir-se-iam privilegiados ante aqueles que só lhes me permito ver em minha mais cínica superficialidade.
            Respeitem minha escolha que a ninguém fere, que nada de alguém subtrai. Minha abstração quer demonstrar o respeito máximo que procuro ter pelo outro. Também me fartei de minhas semelhanças com todos esses que me cansam. De mim mesmo senti tédio: fui impelido à mudança. Quis mudar. Quis me revolucionar.
            Ainda assim, taxam-me. Litigam comigo no mínimo de tempo que gasto com eles. São os que me amam. Concluí, então, que o amor - este amor - e o respeito que me devem seguem caminhos opostos. Entre um e outro escolhi o respeito, pois que nele está a demonstração do verdadeiro amor e do desinteresse. A paga que de mim recebem, quando me amam com esse amor, não é a que demandam. Recebem de mim a distância segura e o amor desinteressado. Recebem de mim minha visão frívola da vida, ou, para não ser tão duro, minha visão desprovida das catarses e ilusões da vida. Recebem de mim – não percebem porque são estúpidos em sensibilidade! – legítimo apreço, consideração e, quando é o caso, gratidão e reconhecimento. Recebem de mim tudo o que posso fazer em seu auxílio.
Ainda assim, exigem minha punição pelo que consideram pouco que fiz. Seria como se nada tivesse feito. Lutam a que a culpa me roa as entranhas, de modo que eu definhe na prisão de minha autopunição. E, nesse momento, demonstram que não são tão insensíveis assim: sabem-me responsável o bastante para me tentar imputar a culpa. Ah! não fosse eu esse empedernido da vida!... Graças à minha ilha e ao meu espaço vital posso sobreviver. Que seria de mim sem mim mesmo? A quem recorreria antes do colapso?
Há aqueles que julgam que me considero auto-suficiente, e que por isso me dou a esses devaneios impróprios. Enganam-se. O que fazer com as mudanças que em mim ocorreram? O que fazer com as camadas de células mortas de meu ser que foram sacrificadas no altar de meus suplícios? Devo esquecê-las? Devo fingir que não existem? Não seria possível, obviamente. Nada estaria mais longe de mim do que eu mesmo. Como poderia me abandonar? Devo vitimizar-me como os que querem me impressionar com suas próprias tragédias hipertrofiadas e desnecessárias? Isso os faria felizes? Ah! ainda que pudesse, eu não o faria!
Não chega a ser melancólico o descobrir-se invulnerável às manipulações alheias. O pesar maior é surpreender em por quem tenho apreço a malícia da dissimulação a tentar me abater o espírito. Em tempo hábil desmascara-se o estratagema, e não há tempo para as decepções de praxe: de tudo é capaz o ser humano, quem quer que seja.
Por tudo isso, não me amem! Se esse amor vem para meu mal, prefiro que me respeitem. Antes o respeito ao amor. Antes o respeito à liberdade ao ciúme que corrói. Antes o amor próprio sublime e a auto-estima positiva à insegurança de quem se propõe fazer alguém feliz. Antes a força interior para contribuir com outros a que encontrem sua voz interior à definição brusca e tosca desse meu falso egoísmo.
Prefiro que me tirem da memória, que me esqueçam o telefone, que me imputem as piores qualidades de um ser humano. Prefiro ser canalha, um canalha mudo, que nada responde, que nada resmunga, que não pretende se defender. Já vai muito longe o dia em que tentei pela última vez a justificativa, a explicação, a ânsia de ser entendido. Não me entendam. Não me amem. Respeitem meu laconismo. Minhas muitas palavras, minha verborréia – que já alguém me apontou – guardei para estes que as merecem, discurso vazio e inconsistente, onde me escondo e onde pareço o imbecil que ri. Escarneço. Rio como uma hiena faminta.
Por isso insisto em que não me amem. Peço que de mim desistam. Não sou o futuro de quem quer que seja. Nada devem investir em mim. Se soubessem quem são e o que podem fazer, não estariam a me buscar, a me pressionar, a me induzir a mais uma tentativa de me manipular.
Tudo o que quero é paz. Sem o seu amor, mesmo que não me respeitem, terei minha paz em meu espaço vital, em minha ilha de sensibilidade, em meu silêncio pessoal, onde minha voz cala para que eu ouça o que de mais profundo tenho em mim. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Hoje eu quis...


Hoje quis me esconder, me cobrir de lençóis e panos, e me encolher. Hoje quis ser nada, nem um grão de areia, nem um átomo, nada. Porque queria saber dos amores que nutrem por mim, me anulei. Quis despir-me de tudo o que me qualifica, de tudo o que pretendem me engrandecer, de tudo o de valor que me imputam. Se sendo nada me ainda amassem os que dizem me amar, então verdadeiramente me amariam.
            Hoje quis desenhar em minha face uma máscara odiosa, assimétrica, repleta de imperfeições e sulcos da marcação do tempo, para que sentissem por mim repugnância e asco. Porque queria saber dos amores que por mim nutrem, queria me deformar. Quis despir-me de qualquer traço físico que incitasse por mim atração ou desejo. Se sendo um ogro ainda me amassem, então verdadeiramente me amariam.
            Hoje quis me desfazer da tralha material que ajuntei na vida, estar nu como quando vim a ela, estar desprotegido do calor e do frio, sem mesmo uma árvore que me desse sombra. Porque queria saber do amor com o qual dizem me amar, quis me empobrecer. Quis tirar de mim, de meu poder, toda matéria que, sendo de minha posse, me atraísse a ganância dos amores que não amam. Se na mendicância ainda me amassem, então verdadeiramente me amariam.   

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Como um soldado russo

As garrafadas não foram o bastante para lhe tirar os topetes, embora nunca mais tenha sequer sonhado em novamente jogar garrafas ao chão.
            O diabo é que seguia briguenta. Por qualquer coisinha peitava o namorado, outro que não aquele das bordoadas térmicas. Nem se lembrava depois, ao final da intriga, por que implicara. Era assim.
            Vinham no carro e ela iniciava a confusão. Qualquer motivo era o bastante. E queria sair, descer do carro. Uma vez quase abre a porta com o veículo em movimento. O rapaz, apavorado, freou, puxando o carro pro acostamento. Dali ela saiu andando aquele andar de soldado russo em parada, na calçada. Ele vinha bem devagar, dirigindo, apelando para seu bom senso; que subisse de volta ao carro, que as pessoas estavam notando, que não havia razão para aquilo, e tal, e coisa.
            Ela, ranheta que era, batia o pé mais forte no chão e gritava: -“Não subo!” No final, depois de adulações mil, ela sempre voltava ao carro e acabavam por se apaziguar.
            Teria agido assim sei lá quantas vezes, até certo dia em que ele a buscou no trabalho para o almoço. Foram a um restaurante refinado, um pouco distante. Ele fazia tudo pra agradar a pequena. Dir-se-ia um desses cavalheiros escassos ao dia de hoje.
            De volta, não sei por qual razão, ela encheu-se de cólera. Tão logo subiu, tão logo desceu do carro do namorado. E dava todos os sinais de que voltaria ao trabalho a pé. Ele uma única vez pediu para que ela voltasse ao carro. Ela foi taxativa: -“Nem morta! Pode ir embora!”
            Nem um segundo se passou e ele arrancou com o veículo e saiu quase voando. Ela não acreditou, e saiu correndo gritando por ele: -“Fulano, volte aqui! Não me deixe aqui sozinha!”
            Teve de andar, como um soldado russo em parada militar, os dez quilômetros de volta ao trabalho. Não tinha um tostão no bolso para pegar um táxi. E ainda atrasou-se ao bater o ponto.
            Dois dias depois ele ligou. Ela lhe passou um desses esculachos constrangedores, mas ele não saiu dos sapatos. Disse apenas: -“Mas eu apenas fiz o que você me pediu, meu amor – fui embora.” Ela caiu em si, e não pôde dizer mais uma palavra sobre o assunto. Despediram-se sem ele lhe pedir desculpas.
            Nunca mais desceu do carro de ninguém à espera de paparicos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bem feito!

Em casa, entre os pais, adquiriu um sestro extremamente perdulário – quebrar garrafas térmicas. Começou assim.
            A mãe, certo dia, chamou-a para o desjejum. À mesa, café preto na garrafa térmica e pão. Reclamou com a mãe que detestava desjejum só com café e pão, e lançou a garrafa com café ao chão. Num muxoxo, virou-se e foi-se meter no quarto.
            E assim, desde aquele dia, quebrou não se sabe quantas garrafas térmicas com café. Podia ser pela manhã ou à tarde no lanche, se a mãe servisse café e pão, lá se ia outra garrafa ao chão acompanhada dos também costumeiros esgares. A mãe, coitada, pecava por esquecer tão recalcitrante ódio. Quase toda semana era obrigada a comprar nova garrafa para substituir as que a filha, uma mulher de seus quase trinta, quebrava.
            Passado algum tempo, arranjou um namorado. Sujeito bem apessoado, educado, modos estudados e equilibrados. Já iam íntimos quando, ao acordar em casa do distinto após longa noite de amor, ele a chama para o desjejum. Vinha da sala e acabara de pôr a mesa. Avisou: -“Vem, querida, tomar café!”
            Aproximando-se da mesa, ela pergunta: -“O que temos aqui para comer?” Ele, em sua mansidão de animal doméstico: -“Pão e café!” Ela se enche de ódio em sua fisionomia assassina, toma a garrafa pela aba e quando vai jogá-la ao chão ele a segura pela mão e, num gesto rápido, toma-lhe a garrafa: -“Epa! Aqui você não quebra nada, não!” E passou a surrá-la com a própria garrafa. Bateu-lhe com o objeto em todo o corpo e, ao fim, expulsou-a de casa gritando, possesso, enquanto batia-lhe a porta na cara: -“E não volte mais aqui, sua louca!”
            Chegou à casa a cara e o corpo equimosados. A mãe queria saber o que seria aquilo e ela, choramingando, contou do ocorrido. A velha senhora, ao final, virando-lhe as costas após um esgar de nojo: -“Bem feito!”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Várias perguntas cretinas


Muito me impressionou o artigo do senhor Neal Gabler, do The New York Times de 21 de agosto passado, intitulado A enxurrada de enganosas grandes ideias (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-enxurrada-de-enganosas-grandes-ideias,761580,0.htm). Acabo de deixar o link onde se o pode ler na íntegra, mas duvido que alguém o faça. Por duas razões. A primeira delas diz respeito ao que o artigo traz em seu bojo: queremos informação inútil, e rapidamente. A segunda é que não queremos degustar idéias, ainda mais quando alguém escreve que nossa aversão a elas é visível e inegável. Não queremos ler esse maldito texto.
Haveria talvez uma terceira razão: poucos quererão ler um texto que tem caráter positivista. Quanto a este aspecto digo que também a mim ele não agradou, mas isso não lhe tira os méritos. É preciso conhecer as idéias que nos contrariam. Aventuro-me a imputar à ignorância do senhor Gabler esta característica marcante de seu texto.
Embora cite idéias revolucionárias em vários campos do conhecimento humano a fim de demonstrar talvez sua relativa antiguidade, o senhor Gabler parece ignorar, como a maioria dos viventes ignora, as inúmeras falhas da ciência em explicar os problemas essenciais da existência humana. Cita a teoria do Big Bang que imputa a esta singularidade a existência de tudo. Sabe ele que os cientistas positivistas – essa seria uma escrachada tautologia não fosse a minha intenção proposital – debocham do criacionismo científico ao perguntarem onde estava Deus antes de criar o universo e seu esplendoroso conteúdo.
Ora, onde estava a partícula de densidade infinita antes que explodisse num gigantesco caos inicial, e que se desdobraria em sistemas organizadíssimos, contrariando já àquela época a segunda lei da termodinâmica? É possível que minha pergunta seja de uma estupidez bigbânguica, mas ainda assim ela estaria desde já justificada, já que os cientistas são ases em matéria de enxertar novas e estúpidas idéias para obrigar seus modelos a serem totiexplicativos. Que fazer? O mesmo que eles – adjuntar todas as possíveis cretinas perguntas e lançá-las a um texto como este. Talvez o senhor Gabler devesse saber que esta pergunta sobre onde estaria a densíssima partícula existe, e que ela faz tanto ou mais sentido que a outra. Como a responderam, a outra? Simples. Aboliram todas as leis naturais na singularidade, até porque é por esta razão que a denominaram singularidade. Pronto e ponto final.
Mas o senhor Gabler vai bem quando fala de nossa ânsia por informação sem a menor utilidade prática e sobre nossa aversão por boas idéias. Nessa linha não poupou as redes sociais, propagadoras preferidas da informação peito-de-homem. Sobre a escassez de idéias atribuiu-a à troca delas pela informação fajuta. E estamos conversados. Eis aí um resumo resumidíssimo do excelente artigo do senhor Gabler.
Diante de tal alerta, cabe outra pergunta cretina: - por que será que as idéias novas, notadamente as científicas, as que nos fazem repensar o mundo e o universo, não mais surgiram? Faltam Eisnteins, Freuds, Stephens? Certamente não faltam. O que faltam mesmo são as malditas idéias. Escassearam mesmo as tiradas da imaginação que resolviam problemas pendentes em teorias científicas acrobáticas e incompreensíveis. Por quê? Há outro telescópio maior e mais potente que o Hubble que em breve irá substituí-lo. Lançará os olhos do homem a ainda mais remotos confins do cosmo.
Enquanto isso os cientistas criacionistas estão repletos de idéias palpitantes sobre tudo isso e ninguém dá a mínima. Esta será, por agora, a minha última pergunta cretina: - por quê?