terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O LEGÍTIMO VESTE-CALÇAS


Vejam vocês que certas profissões são ofício de 24 horas. O sujeito que é padre é padre enquanto dorme, mesmo que esteja a sonhar com a mulher melancia. Vamos e venhamos, não somos culpados por sonhar. Ninguém há de condenar alguém, mesmo o pobre sacerdote, por ter sonhos libidinosos. E, no caso, nem será necessário lançar mão de argumentos freudianos para explicar por que cargas d’água um padre sonha com a mulher melancia. É perfeitamente compreensível.
            Da mesma forma o médico. Em que pese o fato de alguns julgarem despir-se do celibato tão logo lança o jaleco ao cesto de roupas sujas, é ainda mais médico quando chega à casa do que no hospital. Lá, no hospital, a função se dilui entre outros da mesma estirpe, e o que um não faz o outro fará. Em casa não. Se o buscam aí, terá que dar uma solução ao caso, nem que seja o atestado de óbito, que Deus o livre. E se o procuram no bar, quando estiver a bebericar com comparsas? O pileque torna-se, para aquele ce-erre-eme, um escândalo de proporções tremendas. Como diz o apóstolo, tudo podemos, mas nem tudo nos convém. Em suma, ser médico é também função de 24 horas. Vê-se por todo o exposto que não convém ao padre dormir nem ao médico bebericar.
            Contudo, somos humanos. E falhamos. E, se falhamos, que no máximo a falha seja uma titica de nada. Até porque há falhas e falhas. A do padre reside nas profundezas do subconsciente onde o id rosna como o leão liberto das amarras do superego que ronca. Que se pode fazer? “Orai e vigiai para não cair em tentação”. Não vigiou...
            O pior não é nem o médico que, se não estiver de serviço como o soldado na guarita do quartel, e se não houver mexido nas entranhas do povo momentos antes, pode até se dar ao luxo de bebericar e consultar. De preferência por telefone, de modo a que não lhe cheirem o bafo de tigre. Ninguém há de merecer. No consultório jamais, que não pega nada bem. E ainda por cima sem excessos para não perder a compostura. Há que se lembrar, como exemplo, um mau exemplo, o último presidente da república, várias vezes flagrado por câmeras fotográficas em visível estado de libação alcoólica. E põe libação naquilo!... Vejam que o sujeito se deixar perceber bêbedo numa fotografia é porque está a deixar Dionísio cheio de inveja e temendo perder-lhe o posto de deidade do descomedimento. Toda uma nação viu. Um pileque testemunhado por quase 200 milhões de expectadores deveria ir parar no livro dos recordes, sob qualquer aspecto de sua grandeza.
            Pois não foi o que me ocorreu outra noite quando estava a bebericar com amigos. Meus pileques não são pileques – são arroubos de felicidade e sorrisos. E aqui perceberão que, muitas vezes, é a consulta que nos fazem, aos médicos, a maior inconveniência. Desde que inventaram a engenhoca que é o telefone portátil que, por medo de perder alguma oportunidade ou qualquer outra coisa que nem sabemos se nos interessa, nos enfronhamos muitas vezes em situações periclitantes.
            Estou ali na Zug e me toca o maldito/bendito telefone portátil. Já eram umas horas de modo que, ou a coisa era muito boa, ou era muito ruim. No display estava escrito: AMORIM. Assim mesmo, em letras garrafais. Não se trata da presbiopia, que esta se compensou com a pouca miopia. Os nomes em letra maiúscula em minha agenda denotam o grau de importância do amigo, ou o grau de perigo que representam. O caso do Amorim se reveste de uma dualidade explicável.
            Atendo. A voz do homem denunciava seu dionisíaco estado. Parecia que a língua se lhe misturava entre os dentes, ou que os dentes estivessem soltos e a língua tentasse mantê-los quietos enquanto falava. Ao início nada entendi, mas em dois tempos a coisa se fez clara. Como o amigo é, além de pau d’água, um hipocondríaco de carteirinha, estava “passando mal”. E dizia: -“Não tô conseguindo... não tô conseguindo...” Eu perguntava: -“O que não estás conseguindo, homem?” Ele apenas dizia: -“Não consigo, Fernando... não consigo...!” (O ponto de exclamação é a minha tentativa de exprimir sua entonação de exaspero, frustração e indignação.) Dali a pouco ele diz: -“Tô aqui com uma menina... ela vai falar... fala aqui com ela...”
            Houve uma pausa mais ou menos breve, preenchida por sussurros ao fundo, como se a mulher hesitasse em falar ainda que o amigo insistisse. Ela disse: -“Oi, aqui é a fulana. Estamos aqui no motel e ele não consegue ter uma ereção... Quer saber de você o que deve fazer.” Percebi o risinho de escárnio da garota por estar falando com outro homem a fim de que ele resolvesse o problema de ereção de seu “cliente”. Ela provavelmente jamais passara por semelhante e hilária proeza.
            Um processo de ira começou a se instalar em mim. Essa o Amorim havia de me pagar, aquele pulha! Falei pra garota: -“Meu amor, faz aí um coquetel de Viagra e boquete nesse filho da puta. Se ele não levantar, amanhã eu amputo esse troço!” E “bati” o telefone na cara dela.
            Pergunto: foi pra isso que me formei? Tenham a santa paciência!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A marca da dissensão gratuita

         Uma amiga escreveu para me informar, de forma didática, e como se me fazendo um supremo favor, o seguinte: -"Mulheres não são escatológicas!"
         O caso é que escrevi um texto onde conto dos problemas digestórios de meu antigo amigo Amorim (http://umhomemdescarrado.blogspot.com/2011/11/peidorreiro.html). Sem usar da falsa modéstia, devo dizer que o episódio é por demais hilário para se o desprezar. E por que digo isso? Porque minha amiga, para completar, fuzilou: -"Não lerei!" Vejam que o título do texto, "Peidorreiro", dá bem uma noção de qual seja o mal digestivo a afligir meu querido e atribulado amigo. Alguém esperaria algo mais ou algo menos? 
        Devo dizer, assumindo desde já minha colossal ignorância, que pensei a princípio que a amiga estivesse a se referir a um suposto fim próximo de meu amigo. Imaginei que quisesse externar, falando por todas as mulheres do mundo, o elevadíssimo senso de otimismo do mulherio quanto ao fim da vida. Foi somente no segundo seguinte, quando disparou a frase que denotava sua indignação, que percebi que ela se referia à escatologia sinônimo de coprologia, o estudo científico das fezes para fins diagnósticos.
          Ela, presumi, dizia que o mulherio não se presta a este estudo, ou a conversar sobre ele, ou a ler qualquer coisa que lhes faça lembrar minimamente a sebosa matéria. Quando têm filhos não mais lhes trocam as fraldas e cueiros (Sou do tempo dos cueiros). Os pequeninos são trocados pelas babás ou pelo pai. É provável que não haja, no mundo inteiro,  uma única e solitária mulher a trabalhar em laboratório de análises clínicas, a examinar material fecal de quem quer que seja. Presumo que só homens estejam sendo contratados para essa tão ignóbil função. Há uma abjeta escassez de mulheres no laboratório, e ainda mais – há uma escassez de mulheres na Proctologia, a área da medicina que trata das doenças da parte baixa do tubo digestivo. A bem da verdade, em toda a minha vida de médico só conheci três mulheres na área da especialidade. Duas conheci pessoalmente e a terceira é uma sumidade na matéria, a doutora Angelita Habr-Gama, conhecidíssima até em além-mar. E por que tudo isso? Porque as mulheres não são escatológicas, como fez questão de frisar minha amiga.
         O que é necessário que seja dito é de uma obviedade que beira o desnecessário, e que a amiga não percebeu: o texto não foi escrito para as mulheres. O texto foi escrito para quem tem senso de humor, para quem aprecia o riso e galhofa após uma boa história, para quem aprecia banhar-se em endorfinas e exorciza a carranca. Em suma, o texto não tem outra intenção que não seja o prazer do divertimento, para os que se comprazem em se divertir com uma boa história. Acima de tudo, e numa única palavra – o texto foi escrito para o ser humano normal, sem distinção de raça, gênero, ou religião. 
       O que é provável que tenha ocorrido é que o texto foi postado em página de rede social onde abundam mulheres. Minha amiga julgou, e talvez tentasse me dizer exatamente isso, que ele não convinha bem ao "lugar". Mas... Será que todas as mulheres que o leram – se é que houve alguma destoante – pensam também que as mulheres não são escatológicas? Se for o caso estaremos diante de uma rebelião de mulheres contra um reles texto de humor. Seria a primeira revolta contra a pilhéria de salão. 
          Após sua intervenção, e ainda temendo ser mal interpretado, respondi-lhe com uma pergunta: "-E nem senso de humor têm as mulheres?" Dizem lá os entendidos da personalidade que o senso de humor é a marca de uma inteligência privilegiada. Não se fala do humor grotesco, do humor que humilha, do humor que constrange, mas do humor que se tira daquilo que de outra forma seria um fato ou um elemento natural ou até aborrecedor.  "Basta observar: quanto mais fino o humor, mais relações soube a pessoa captar entre os nomes e as coisas, os nomes e os outros nomes, as coisas e as demais coisas". Se assim for, que dizer de quem não o tem? 
           Não é uma questão de gênero, minha amiga. É uma questão de cérebro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma ficção repleta de realidade


Não pude deixar de assistir, mais uma vez, ao filme de José Padilha "Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro", de 2010. É, agora, o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com mais de 11 milhões de espectadores. Já devo tê-lo visto uma dezena de vezes, por inteiro ou a partir do momento em que o surpreendo na televisão a cabo. Pessoalmente me interessa a parte do filme que trata das milícias, sua origem, sua relação com a política, com os políticos e com o poder constituído. Pois acabo de vê-lo novamente, e justamente ao término da leitura da entrevista, numa revista de grande circulação nacional, com o senhor Cláudio Beato.
O que faz mesmo o senhor Beato? Lembrei: ele é sociólogo e hoje "tem se dedicado a entender as milícias". Ora, de um lado o filme, uma obra de ficção, com sua milícia; do outro o respeitado sociólogo a dissertar sobre as milícias nada irreais de nosso dia a dia, mormente as do Rio de Janeiro. O filme mostra as milícias do Rio, o senhor Beato fala justamente delas. Em comum entre a ficção e a realidade a milícia e a cidade onde atua. Haverá mais alguma coincidência? Perguntando de outra forma, haverá algo mais em comum entre a fita e o mundo real?
Vamos a ambos numa tentativa de nos extrair dessa dúvida cruel e preocupante.
Diz o senhor Beato o seguinte, sobre o mundo real: "É preciso empreender uma faxina na polícia do estado [do Rio de Janeiro], que figura entre as mais corruptas do país. A podridão não se limita às bases da corporação, mas está entranhada nos mais altos escalões". Para exemplificar cita o fato de um tenente-coronel, envolvido com grupos de extermínio, ter sido descoberto como o mentor do assassinato de uma juíza, evento amplamente divulgado na mídia e de conhecimento da sociedade brasileira. Diz ainda mais o senhor Beato: "Torturam, matam e expulsam as pessoas de suas casas. Infiltram-se também no dia a dia dos cidadãos, explorando serviços essenciais como transporte coletivo, água e gás". E – vamos logo ao pior: "... seus líderes operam de dentro da polícia e se mantêm ali quanto podem, galgando postos na hierarquia e evitando que os próprios crimes sejam investigados. Eles têm poder no mundo formal. Desfrutam de ampla inserção no meio político".
Ora, mas o senhor Beato está falando do filme do José Padilha! A película mostra tudo isso! Não foi dito na entrevista/reportagem que ele fosse crítico de cinema. Mas não – o senhor Beato fala do mundo real, onde as coisas acontecem de fato. No filme, o coronel Nascimento, após uma manobra desastrada de seus comandados numa rebelião em certo presídio, passa a funcionar como subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro. A certa altura ele relata: "A Secretaria é o coração do 'sistema'". O "sistema" a que ele se refere é a organização criminosa oficial, institucionalizada. Os bandidos da rua funcionam apenas para serem mortos e/ou presos em operações militares de invasões e estouros de morros repletos deles, no intuito de produzir dividendos políticos para o mesmo "sistema". A milícia realiza operações criminosas no morro ou na favela apenas com o objetivo de justificar a invasão e a matança de traficantes que a sociedade exige. Em troca, chuva de votos para o "sistema".
Ao final, Nascimento pergunta ao espectador quando a cena muda e nos desnuda a esplanada dos ministérios em Brasília: "Me diz uma coisa: quem você acha que mantém tudo isso (o 'sistema')?" E a câmera avança a mostrar a Praça dos Três Poderes (ou seria "Praça dos Três Podres"? Basta suprimir uma vogal.) Após uma CPI impensável no mundo real, Nascimento levara, através de seu depoimento, vários políticos à cadeia e a um rearranjo do "sistema" – uma queima geral de arquivo, uma reorganização dentro da organização criminosa, um troca de mãos geral e conveniente à sua sobrevivência. E conclui, enfaticamente e em tom de lamento: "O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente".
Não me lembra que após os créditos finais tenha aparecido o célebre lembrete "essa é uma obra de ficção; qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência". Se apareceu, há que se lhe retirar. Seria a única mentira deslavada da película irretocável.
Pobres de nós que ficamos a nos debater em nossas vidinhas virtuais e enganosos caprichos reais. O real está repleto do horror que teimamos em não enxergar. Reprimimos diuturnamente seu conhecimento a fim de que seu fardo não esmague nossas consciências.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crime e querela na rede social


Sei que sabes, Casoba, de minhas reservas às redes sociais. E parece que as razões delas estão a se deixar revelar através de fatos gritantes e assustadores.  
Por exemplo, no último sábado uma querida amiga me relatava o que lhe ocorreu na rede social mais badalada do momento. Alguém, não se sabe quem e é provável que nunca se chegue a saber, "montou" uma falsa página com um falso perfil de minha amiga. Esse(a) criminoso(a) virtual lá posta o que quer e bem entende e – pior! – está a postar as mais esdrúxulas e pavorosas aberrações sobre minha amiga. Ela, impotente diante de tudo, apenas observa com o coração aos solavancos e a alma em frangalhos. Eu mesmo tive o desprazer de visualizar a tal página, cujo link ela me enviou depois, e pude aquilatar o tamanho do estrago que isso pode fazer na vida de uma pessoa de bem. Que fazer?, ela se perguntava em minha presença. E concluímos – no curto prazo talvez pouco se possa fazer. Ela tenta, desesperadamente, junto aos administradores da rede, tirar a falsa página do ar o mais rápido possível. Eis aí uma confirmação do porquê de minhas reservas a essas redes. Um outro fato, Casoba, obterá menos unanimidade quanto à geração de reservas às redes.
Senão, vejamos.
Tenho usado a badalada rede para divulgar os textos que escrevo em meus blogs. E ontem, creio, postei um texto de meu blog "O Desocupado" (fecavalcanti.facilblog.com) intitulado "Vergonha sobre mim" (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Vergonha-sobre-mim-b1-p29.htm). Divulguei-o em certo grupo e qual não foi minha surpresa ao perceber que o texto suscitava, entre as mulheres do grupo, uma reação que beirava a hostilidade. Elas interpretaram a minha indignação como uma aversão, de minha parte, ao que elas denominavam "crítica".
O interessante foi a resposta que o mesmo texto obteve fora desse grupo, mesmo entre as mulheres. Uma amiga escreveu, se referindo ao conteúdo do texto: -"Vixe... acabei de te elogiar! Mas entendi muito bem o que quis dizer... ô povinho falso!" Enquanto uma amiga que me conhece pessoalmente entendeu o que escrevi nas entrelinhas, as amigas virtuais nada entenderam ou, por outra, entenderam justamente o oposto. E aí está uma outra das razões de minhas reservas – nada substitui uma amizade real, mesmo que uma virtual possa vir a sê-lo.
Uma amizade virtual é amputada de todos os elementos que possui a amizade real. Nela falta o conhecimento da essência do outro, da história do outro, do caráter do outro. Cícero afirmou que só é possível a amizade entre os de bom caráter, e talvez ela até seja possível na virtualidade das redes. Algo me diz que, sim, é possível. Desde que os recentes amigos virtuais se esforcem por descobrir o outro, anelem em algum momento a realidade e a presença do outro, seria possível a cristalização de uma amizade de fato. Até lá, ao que me parece, impõe-se ainda mais zelo e cuidados ao amigo virtual de forma a não feri-lo naquilo que ainda não sabe do outro. Isso seria demonstração do caráter necessário à amizade. Seria o mínimo a ser feito.
As amigas virtuais entenderam que não tolero críticas por lhes acusar a obtusidade na interpretação de meu texto. Os amigos reais, de fato e de direito, sabem que nada está mais distante da verdade. Por que iria eu entrar a me enfronhar numa querela internáutica com quem jamais vi na vida? Lamentei a oportunidade perdida de nos conhecer melhor e pessoalmente a fim de levar a cabo papos literários ou não, usando do mínimo de inteligência que a maturidade exige.
Eis então, caro amigo, dois exemplos das mazelas maiores das redes sociais, sem esquecermos outra de igual tamanho – sua propensão à disseminação da informação peito de homem, aquela que para nada serve.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O ônus da amizade


Vejam vocês como o sujeito está vulnerável a todo tipo de impropério por parte dos amigos. Inda mais hoje em dia, ao tempo das redes sociais, onde tudo se publica e tudo se divulga, o sujeito em casa nem sabe o que se está a ventilar a seu respeito. Se não se ligar às redes ficará mais alienado que cachorro com dor de dente. (Suponho que já tenham visto um cachorro com dor de dente.)
Dito isso, passo a relatar o que me ocorreu em espaço de tempo menor que a prenhez de uma Escherichia coli. Foi precisamente o seguinte, tudo escancarado na rede social. Antes, porém, um breve comentário referente a uma curiosidade vernacular no ambiente da rede social, e envolvendo seu próprio nome. Outro dia eu comentava que nós brasileiros somos, em tese, uma nulidade em matéria de ciência. Nada descobrimos, nada inventamos, nenhuma descoberta científica fizemos que mudasse a face do planeta. Os ufanistas, discípulos do já antigo Policarpo Quaresma, hão de me jogar enormes paralelepípedos citando Santos Dumont e seu 14 Bis e direi que há controvérsias. Vide a história dos irmãos Wright. Não minto. Pois também a rede social não é invenção de brasileiro, e por isso mesmo seu nome não se pronuncia em português. Há até o filme a contar a história dos garotos que a criaram. Eles são brancos, loiros e falam inglês. Dito isso, e sem saber por que o disse, relato o fato.
Uma querida amiga escancarou na rede social a sua cruel e implacável insônia. Não conseguia dormir. Há sei lá quantas noites não dormia. Sua frustração era tão intensa que não lhe restou outro remédio que não fosse difamar seu algoz, a insônia. Tornou-se, naquele exato momento, a insônia mais difamada de que se tem notícia. Tão execrada foi a insônia de minha amiga que temo que ela, a insônia, a processe por calúnia. Mas o fato é que estava lá na rede social a mais pública insônia de todos os tempos.
Minto. Houve na rede social, recentemente, uma outra exposição pública ainda mais notória e excrescente: a de uma cólica menstrual. Melhor dizendo, não foi uma cólica menstrual – foi uma tensão pré-menstrual, a conhecida TPM. Uma outra amiga a levou a público tamanho o sofrimento que a tal cólica – fiquemos com esta por ser, ao que parece no caso de minha amiga, o sintoma cardinal de sua TPM – lhe trazia. Queria, como a primeira amiga, caluniar a miserável da cólica. E fez pior – fotografou a cólica. Imaginem os senhores a foto de uma cólica. Muitos a viram. Estava, na rede social, como o cadáver do gato à beira da estrada após o atropelamento. E, se querem mais detalhes, lhes adianto – foram, na verdade, inúmeras fotografias a compor um desses painéis que muitos adolescentes têm em seu quarto de dormir. A cólica foi fotografada em todas as posições – em pé, em decúbito dorsal, em decúbito ventral, de lado, com o travesseiro entre as pernas, com o travesseiro na barriga, com um lenço a cobrir-lhe os olhos, e assim por diante. O quadro era tão dantesco que cheguei, eu mesmo, a sentir a cólica a me importunar. Ela ganhou até nome – alcunharam-na de "amostra grátis de parto". Por aí se tem uma idéia do drama.
Mas – ainda sobre a cólica, que a esta hora deve estar a consultar seus advogados – há pior, como diria o Nelson. Quase duzentas outras cólicas se apressaram a comentar a de minha amiga. Foi uma tempestade de cólicas a se solidarizar com aquela, fato que me faz supor que um eventual processo por difamação e calúnia há de ser considerado como um "mau direito" da parte da cólica ultrajada em sua privacidade violada.
Voltemos à insônia caluniada de minha primeira amiga. Um amigo, na tentativa de ajudá-la, sugeriu escancaradamente na rede social, e já armando o bote pra mexer comigo, que ela procurasse a minha ajuda. Ela respondeu: -"Esse aí tá mais pra causa que pra cura de insônia!" Confesso: pus-me a gargalhar na rede social. Sim!, hoje é possível se gargalhar na virtualidade e na rede social! Foi realmente muito divertida e espirituosa a tirada de minha amiga, própria dos de inteligência aguda e digna de elogio, não fosse por um detalhe: expôs-me na rede social. Fiquei tal qual sua insônia e tal qual a cólica da outra donzela – difamado e caluniado.
Minha amiga, que exerce a nobre profissão dos causídicos, bem sabe que eu poderia levá–la às barras da justiça por tão engenhosa e gostosa pilhéria. Entretanto, como me bem conhece e sabe que me dou melhor com o falso vitupério que com o falso elogio, presume acertadamente que nem de longe teria a intenção de agir nesse sentido. Afinal, aos amigos tudo é permitido. É o "ônus" que se paga para tê-los.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O mais abençoado dos seres


"Mulher, mulher
Na escola em que você foi ensinada
Jamais tirei um dez
Sou forte mas não chego aos seus pés”


Uma amiga escreveu-me para me comunicar uma constatação – eu não devo gostar de mulheres. E justificou-se: os meus textos, segundo ela, sempre depreciam a figura da mulher. O que ela evidentemente não percebeu é que, baseando-se no que escrevo, também não enalteço em nada a figura masculina. Não faço apologia à figura masculina e, com efeito, deprecio ainda mais a figura do homem. Em que pese ter-lhe escapado esse detalhe singular, prometi-lhe uma retratação na forma de um texto sublimador sobre a mulher. E fui direto; disse-lhe: -"Adoro as mulheres!"
E, se querem saber, é fato – adoro as mulheres. Tudo o que se faz na vida, desde colher o lixo na rua até colocar pontes de safena, é mais prazeroso se for feito na companhia da mulher, de uma mulher no mínimo. Se for possível contar com mais de uma delas, tanto melhor. Se você é o único homem em meio a um time de mulheres, considero que você, meu chapa, é um homem abençoadíssimo. Estar sozinho de homem em meio a tantas mulheres é, sem dúvida, um privilégio para poucos que invejo com todas as minhas energias e vísceras vitais. Feliz o homem a quem se achega o mulherio.
Sei que essa confissão seria muito pouco para levar ao convencimento de minha amiga. Afinal, uma mentira bem engendrada é sempre uma possibilidade, inda mais partindo de um homem. É cediço que o homem se julga um ás no quesito "como enganar uma mulher". Assim, não me tentarei defender excluindo-me desse grupo pouco ético. Até porque a falta da ética do universo masculino no referido quesito lhe é retribuída com a sagacidade e inteligência femininas a desvendar-lhes as marmotas e subterfúgios. Então, humildemente confirmo e afirmo já ter sido uma vítima recalcitrante da agudez da inteligência da mulher. Resta-me, após tantos e repetidos insucessos, a despretensiosa solicitação de um voto de credulidade quanto a este assunto.
Atente-se para um detalhe inolvidável e incontestável: todos os seres humanos nasceram de uma mulher, sem uma única e mísera exceção. Mesmo o Filho do Deus vivo, Jesus, nasceu de uma mulher, Maria. Àqueles que tomam as formas e rituais do culto e adoração a Deus como machistas fica a gritante demonstração do papel angular da mulher na obra da redenção. Nela o divino mesclou-se ao humano para conceber o Salvador. E ainda que venham de lá os inexplicáveis ateus a considerar que tudo isso seja balela e invencionice do gênio humano, ainda assim o suposto machismo é retumbantemente pisoteado pelo exemplo de Maria.
Recentemente fui impelido à leitura despretensiosa de certo livro de uma senhora chamada Ayaan Hirsi Ali, "Minha Vida". A cada página uma sensação de terror me invadia para se deixar substituir, ao final, por profundo sentimento de respeito e admiração pela autora. Minha exultação foi tão grande que me vi impelido a visitar-lhe a página na rede mundial de computadores e me pôr à sua disposição para ajudar-lhe a levar a cabo sua luta contra a opressão da mulher no mundo islâmico. Ela me respondeu com um deferente agradecimento e votos de estima. Em seu primoroso texto ela teve a coragem de expor as vísceras do fundamentalismo islâmico em seu viés opressivo ao sexo feminino. Hoje vive na América do Norte em local desconhecido. Foi jurada de morte por seus denunciados.
Não sei o que dirão aqueles cuja criação, no sentido de "educação", não se tenha devido à presença maciça da mãe. Pois lhes direi em alto e bom som: fui criado por minha mãe. Comigo ela esteve nos momentos mais críticos da vida de uma criança. Castigou-me quando se impunha e silenciou sobre meus sucessos, um silêncio que transbordava de genuíno orgulho materno ante os indícios do crescente preparo da cria para as vicissitudes e dissabores da vida. No ano que antecedeu o de sua morte, telefonou-me ao dia de meu aniversário de 48 anos e, chorando, disse: -"Você é um vencedor, meu filho!" Seu elogio era o inconsciente elogio de si mesma. Sobre ela e outras guerreiras de minha numerosa família repousavam os alicerces mais enraizados de cada subfamília. Sem cada uma delas não teria sido possível. É sobre a mulher que se assentam e se cravam em solo pétreo seus alicerces.
É o universo mulheril o responsável pelo milagre diário do amor, da sensibilidade, da compreensão, da cordialidade, da humildade, da nobreza, da coragem e da doação, ausentes tanto quanto possível da selva da truculência masculina e suas mais funestas conseqüências. E, de fato, tal truculência vem bem a esconder a imensurável e vergonhosa fraqueza masculina, como bem cantou Erasmo Carlos.