sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O dia da vaca

          Foi no tempo em que servia o exército. Tinha lá seus vinte e oito e era o médico oficial de dia. O soldado enfermeiro foi ao quarto chamá-lo. Alguém esperava ao telefone, numa ligação interurbana. Ergueu-se num salto, vestiu a camisa e seguiu para a Emergência. 
          Era uma mulher, uma voz macia. Queria saber de alguém, um oficial médico recém-transferido, vindo de Belém do Pará. Foi taxativo: - conhecia todos os oficiais médicos na guarnição e podia jurar que o fulano não estava entre eles.
          Pareceu-lhe a voz de uma moça, uma jovem. Apostava: - havia de ser uma beldade. De fato, nem imaginava como seria aquela mulher que ligara procurando um determinado militar supostamente recém-chegado à cidade. Tinha pressa de encerrar a conversa. O cansaço o abatia.
          Ela, porém, era persuasiva, um circunlóquio danado. Fazia perguntas. Já nem parecia querer saber do tal homem. A voz era bonita, penetrante, sensual. Agora já queria saber de seu interlocutor. Perguntava de sua profissão, de seu trabalho no hospital, e até de sua vida pessoal. Ele, pelo sim pelo não, omitiu seu deplorável estado civil: - era casado. O comportamento recalcitrante tornara-se um hábito. 
          Tentou alertá-la: - a ligação lhe sairia cara. Já estavam a prosear há quase uma hora. Ela o tranqüilizou: - dinheiro não era problema. Meia hora depois despediram-se com a garantia de que voltariam a falar no dia seguinte.
Ele tinha aquela dificuldade de dormir em plantões. Ficou, então, a lucubrar sobre a jovem que acabara de conhecer ao telefone. Falara pouco de si, o que acabou por açular-lhe a imaginação. Por sua vez, deliciava-se em conjeturar. Imaginava como seria a boca de onde saía aquela voz, a linda voz. Dir-se-ia ser a voz uma janela aberta para o infinito…
  Ao dia seguinte, na enfermaria, vieram chamar-lhe para atender uma ligação. Era ela. Como ao dia anterior, a conversa se arrastou. Começava a  achar que a moça era sócia da companhia telefônica.
          Com efeito, e para não faltar com a verdade, passaram a falar diariamente. De tanto confabularem, ele acabou abrindo-lhe o coração e admitindo: - o casamento não ia bem. A jovem não pareceu se importar com esse novo dado e, de fato, tornaram-se íntimos, cúmplices. 
          As confabulações e chamadas diárias acabaram expondo os fatos. Houve, então, uma unanimidade: - ele estava apaixonado. E arriscavam: - ela também estaria. Cá entre nós: - ele estava, de fato, apaixonadíssimo. Caído de quatro. Lambia o chão de tão enlevado. A coisa já durava meses. Fazia planos para um congresso fictício a fim de conhecê-la pessoalmente. A mulher era uma fera e ele não podia dar moleza. Se ela o flagrasse pulando a cerca seria seu fim. O congresso de mentirinha já se desenhava em sua imaginação. Tudo o que precisava era de um “estímulo” a mais. 
Certo dia, a pequena contou-lhe a novidade: - resolvera enviar-lhe fotos. Já deviam estar chegando, disse. Ficasse tranqüilo, as enviara para o hospital. Não queria causar-lhe problemas.
Dali a poucos dias o estafeta vem entregar a correspondência do setor. Nervoso, o tenente esmiuçava o pacote. De lá sacou um gordo envelope endereçado a ele. A letra bem desenhada só podia ser a de uma linda mulher. Abriu-o frenético. A fotografia não deixava dúvidas: - era belíssima. Como uma vênus. Saiu pelos corredores e salas; queria que todos a vissem. Os que antes lhe caçoavam admitiam: - é uma maravilha! E emendavam: -“Tens de ir ter com ela o mais rápido possível!” Era o estímulo que faltava.
O diabo é que, dias depois, brigaram. Discutiram ferozmente sobre qualquer coisa e desmancharam o namoro. Ela lhe bateu o telefone na cara, aos prantos. Ele permaneceu amuado alguns dias. Encontrou conforto no ombro de uma amiga, que lhe aconselhou mandar flores. A beldade não resistiu: - quando recebeu o presente, uma corbeille de flores vermelhas, bateu-lhe o telefone cheia de dengos e declarações de amor eterno. Foi uma reconciliação estrondosa, sem dúvida. Restava a cartada final: - a ida ao seu encontro. 
 Para falar a verdade, a paixão era menor que o medo. Hesitava. Procrastinava o “congresso”. Temia comprar a passagem e se ver impossibilitado de voltar atrás. As coxas roliças, a cintura esguia e o belo rosto da deusa nada eram ante o pavor. Esperava. Esperaria. Deixar-se-ia ficar até... sabe-se lá. 
            De tanto esperar, certo dia chamam-lhe ao telefone. Era a beldade. Instigou: -"Te dou um doce se adivinhares onde estou"... O mancebo quase tem um troço. Ela estava num quarto de hotel da cidade, esperando que ele viesse encontrá-la tão logo acabasse o expediente. Bom demais pra ser verdade!, pensou ele. "E sem gastar um tostão"! Era a avareza a se manifestar, um traço familiar incoercível. 
          Faltavam quinze minutos para o final do expediente. As mãos suavam, as canelas tremiam, o coração subia à boca. Precisava se controlar. Ia dirigir o carro. Não seria prudente tanta excitação ao volante. Mas... que diabos! Estava feliz que nem um moleque ao ganhar a primeira bola de futebol. 
       Meia hora depois adentrava a recepção do hotel. “O apartamento tal é ali, assim, assim...”, ensinou o recepcionista. Ele enveredou por um labirinto de corredores. O edifício fora construído de modo a que as portas dos apartamentos se escondessem em recuos, longe do passadiço. 
          Defronte ao número 110, bateu. Sem demora abriu-se a porta. Diante dele estava uma mulher. Polidamente disse: -"A senhora poderia chamar a fulana"? A mulher respondeu: -"Sou eu"..., e atirou-se em seus braços. Por um ato reflexo ele a conteve, não sem algum esforço. Queria, insistentemente, abraçá-lo e, talvez, beijá-lo. Poucos segundos se passaram nessa "luta". Súbito, ela parecia resignar-se e desistir de abraçá-lo. Ele, então, pôde vê-la melhor.
          Era uma mulher dolorosamente feia. Bem mais velha, era desleixada no vestir e exalava um odor de perfume barato. Devia ter seu metro e cinqüenta. Ele, em sua farda militar melindrosamente alva e elegante, empurrou-a para o lado e adentrou o quarto, temendo ser visto naquela situação. Era tanta a sua decepção que veio sentar-se ao chão. 
          Meneava a cabeça e perguntava de si para si: -"Como fui cair nessa furada"?... Ela agora lhe pedia perdão. Obviamente ela não era a linda jovem das fotografias. Quem é?, quis saber. Uma sobrinha, uma linda e apetitosa sobrinha... Ele já nem sentia a presença da mulher. Pensava em voz alta, e dizia: -"É uma mentirosa... uma mentirosa... Como pude acreditar?...", e meneava a cabeça, desolado. Ela, por sua vez, puxava-lhe pela mão e insistia em que ele se erguesse para beijá-lo. Argumentava que ele deveria amá-la pelo que ela era e não por sua aparência.
          De um salto e num supetão ele ergueu-se e a repeliu. Num único movimento chegou à porta e deslizou para a saída do hotel como um relâmpago, deixando a mulher a falar sozinha.
No hospital, ao dia seguinte, não se conteve: - relatou a todos o fatídico episódio em seus mais sórdidos detalhes, enquanto demonstrava sua imensa contrariedade. O resultado é que dali a poucos dias ele mesmo se ria da arapuca onde se enfiara. E dizia: -"Não se pode ser touro todo dia. Ontem eu fui a vaca".

Fernando Cavalcanti, 05.08.2009

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma inveja danada do Seixas

          O sujeito pode ser pouco ou muito conhecido. Por exemplo, o meu amigo João Seixas Lima Filho.
          O Seixas é dos sujeitos mais puros que conheço. Cirurgião Geral de mão cheia, jamais se encheu da empáfia e da vaidade comuns a esse tipo de gente. Conheci-o há, sei lá, quase trinta anos, quando era médico residente no Hospital Geral de Fortaleza. Ele já atuava no setor de Emergência do hospital. Depois me tornei seu parceiro na mesma Emergência e, em seguida, na enfermaria do pós-operatório. É fato: - doutor Seixas não mudou nada em seu caráter aparentemente taciturno, em seu humilde exercício da profissão, em seu deslavado desprendimento e, acima de tudo, em sua excelência técnica e humanismo. Diria, pelo contrário, que os aperfeiçoou e aprimorou.
          Falei de seu caráter taciturno. Se levarmos em conta uma taciturnidade que evoca a pessoa silenciosa, pouco falante e nunca prolixa, essa será a característica mais marcante do Seixas. Ele não é tristonho e muito menos sombrio. Dirá alguém: -"Torce pelo Ferrim"! É ponto pacífico que o torcedor do "Tubarão da Barra" é, acima de tudo, um resignado, um manso, o que aparentemente coloca o Seixas dentro do perfil do torcedor coral. Pois pasmem: - o homem é torcedor do Ceará. Nunca aquele torcedor iracundo, dado a arroubos de violência ou descontrole emocional. Seu equilíbrio não advém de uma vigilância auto-imposta, própria daqueles que sabem existir dentro de si, como no romance de Robert Louis Stevenson, o monstro prestes a emergir, mas de seu natural estado de espírito, sempre propenso à mansidão, à delicadeza. Os decibéis de sua fala são tão suaves que por vezes torna-se difícil escutá-la em ambientes turbulentos e ruidosos. (Imagino-o assistindo a um clássico Ceará X Fortaleza no “Arena”. O gol do Ceará e contra o Ceará não lhe afetará em absolutamente nada.) 
          Alguém há de insinuar que pessoas assim só se deixam revelar, muitas vezes, quando tomam um gole de cerveja ou similar. Garanto: - dez goles de cerveja em nada alteram a essência e a superficialidade do Seixas. (Disse dez goles mas poderia ter dito vinte, ou trinta.) O Seixas de dez goles de cerveja é o mesmo do de nenhum gole, do de vinte goles, do de trinta goles... Quero crer que seu pileque seja o sono mais profundo e suave do planeta. 
          Mas estou aqui falando do Seixas e quase me esqueço de falar ao que vim. O Seixas, por seu temperamento reservado, há de ser um sujeito pouco conhecido, eis o que queria dizer. Apesar de todas as sua excelentes qualidades, Seixas permanece quase no anonimato profissional ou, melhor, somente os humildes o conhecem. Em suma, é feliz em sua pacata e serena vida. Não frequenta as redes sociais, e sua única paixão – por sinal uma paixão sem o fervor do mais amiúde – resume-se aos jogos do Ceará. Seu exercício profissional está repleto de sucessos, mas nada disso vem ao conhecimento do público, tanto pela natureza discreta de seu caráter quanto pelo classe de pacientes que ajuda. Diria também que sua natureza reservada não atrai a simpatia da maioria das pessoas, de modo que sua atuação exitosa não sensibiliza uma sociedade que tanto odeia.
          Ora, a discrição de meu amigo é tamanha que até ofende. A mim, por exemplo. Tempos atrás o Rodriguinho Landim virou-se e falou: -"És amigo de todo mundo"! Aquilo foi um soco no estômago. Como, por todos os santos, posso ser amigo de toda uma China e mais que uma China, de todo um planeta?, era o que me perguntava. Sou um sujeito de poucos amigos e de muitos amigos. Dito de outra forma, sou um sujeito de muitos poucos amigos. Significa que os poucos amigos que tenho são muitos. (Não sei se me entendem.) O que quero dizer é que, comparado à maioria das pessoas, considero que meus poucos amigos são muitos. É isso.  
          Antes disso, anos atrás, o Casoba dizia: -"És um 'pomada'"! Ele queria insinuar que sou dado a atividade de "lubrificar" minhas relações à guisa da satisfação de meus interesses. Vê-se que melhorei. De "pomada" passei à amizade planetária e além fronteiras.  (Ele estava, de fato, enciumado com meus muitos poucos amigos. Essa é que é a grande e inegável verdade. Chamar-me de "pomada" era um chiste, uma galhofa.) Meus interesses? Meus únicos são o amor dos que amo e paz. Como poderia ser um "pomada"?
          Outro dia, acho que foi ontem, estou ali defronte ao mercadinho da esquina esperando ficar no ponto o frango assado que queimava na churrasqueira. Os carros passavam descendo a rua e eu beliscava a porção de frutas secas que comprara pouco antes. Súbito, para, no meio da rua, aquela caminhonete preta, dessas rechonchudas providas de potentes motores e apetrechos e que custam os olhos da cara, e o vidro do motorista começa a descer. O sujeito que dirigia o veículo estampava no rosto o sorriso aberto e franco e na cabeça uma cabeleira vultosa e aloirada, difícil de encontrar em indivíduos de sua idade. Olhava para mim e dizia qualquer coisa.
          Não foi necessário entender o que ele dizia. Era algo carinhoso que denotava sua felicidade em encontrar-me. Numa fração de segundo o reconheci: - era o meu amigo Héverson Paranaguá da Paz, oftalmologista de primeira estirpe e irmão de armas. Estreitamos nossos laços de amizade ao tempo da caserna. Ele ia estacionar o carro no meio da rua para melhor falar comigo quando alertei-o, em tom de brincadeira, que se o fizesse causaria um transtorno ao trânsito. Ao mesmo tempo bati-lhe a continência e disse: -“Meu querido tenente”!...  Ele sorriu, acelerou e foi-se. Se Bella estivesse comigo diria: -"Você conhece todo mundo"!... 
          Por isso estou escrevendo estas notas. Estou sentindo uma inveja danada do Seixas...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dinheiro, votos e beijos

          Bateu-me o telefone o Aristides para dois dedos de prosa. 
          Não, não, esperem aí. Ninguém sabe quem é esse Aristides. E por que não se sabe quem é ele? Simples: - ele é conhecido por seu apelido e somente pelo apelido. Desde criança, um corpo mirrado de fazer dó, chamam-no de Pitoco. Cresceu, ganhou corpo ainda que permanecesse magro, e não deu outra: - Pitoco e sempre Pitoco. 
          Pois eis que ligou-me o Pitoco. Foi um blá-blá-blá medonho, ao fim do qual se despediu. Disse: -"Pois então 'tá certo. Um beijo"! E eu: -"Um beijo"! 
          Os amigos leitores hão de estranhar, ou talvez não estranhem. Hoje em dia nada mais assusta. Ou, melhor, assusta, sim; mas não se tem a devida coragem para demonstrar a inevitável indignação. Assim, e antes que um ou outro tenha acessos, direi que aos irmãos se permitem beijos, independentemente do gênero. 
          Minto. Não é somente aos irmãos que são permitidos os ósculos: - a todos os que querem demonstrar apreço é permitido o beijo. Aliás, o que mais falta hoje é o beijo. Dirá alguém que estou a dizer asneiras porquanto beija-se a torto e a direito, e direi que não, em absoluto, não se beija nem um milésimo do que o momento exige. Está em falta, portanto, o beijo. 
          Não falo do beijo interesseiro nem do beijo social, cumprimento deveras impróprio para intimidades inexistentes. A essas ocasiões serviria melhor e mais apropriadamente a saudação inglesa, formal e respeitosa. É essa inflação de beijos inconvenientes que transmite a falsa sensação de sua abundância. Mesmo o Cristo foi traído com um beijo, de modo que há beijos e beijos. Há de existir um animal que "beije" a presa antes de devorá-la: - precisamente o bicho homem quando abandona sua humanidade. 
          Hoje ao abrir o jornal, por exemplo, dou de cara com mais de meio milhão de beijos, o que pareceria um paradoxo ao que acabo de afirmar. Logo se verá que não é esse o caso. Foi o seguinte. 
          O ilustre ex-deputado José Genoíno foi condenado e apenado a seis anos e onze meses de prisão mais multa de R$ 468 mil no processo do mensalão. A esse valor há ainda que se somar correção monetária. Que fez a família do homem? Iniciou uma campanha para arrecadar dinheiro para o pagamento da citada multa. 
         Ontem venceu o prazo para o pagamento da penalidade, o que foi feito sem o menor atraso. A família do homem fez, na Justiça, o depósito de R$ 667,5 mil, valor atual da pendência. Consta que ainda sobrou dinheiro, mas não se divulgou quanto. Estou quase acreditando que arrecadou-se quase um milhão de reais nessa brincadeira. A campanha foi, como se bem pode ver, pra lá de bem sucedida.
          Agora vejam os senhores. Esse Genoíno é irmão do também deputado José Guimarães, do PT, aquele cujo acessor, José Adalberto Vieira da Silva, então secretário de organização do PT no Ceará, foi pego tentando embarcar no aeroporto de São Paulo, em julho de 2005, com 100 mil dólares escondidos na cueca e 200 mil reais guardadinhos na bolsa. Uma dinheirama dessa, carregada por aí dessa maneira, indica que boa procedência ou bom destino ela não tinha. Resultado: - Genoíno foi obrigado a deixar a presidência do PT, na época, e foi condenado pela Suprema Corte no processo do mensalão.
          Estarrece o fato de que uma manada de gente tenha contribuído para dar dinheiro para o pagamento de uma multa advinda de uma sentença condenatória transitada em julgado na mais alta Corte do país. Ou seja, não era um único o condenado: - era uma manada de condenados que faziam questão de ser condenados e contribuíram como condenados. A manada não agiu como Judas, que traiu; nem como Pedro, que negou. A manada se acumpliciou e assentiu, ratificou o crime, beijou com amor não o criminoso, mas seu ato delituoso. A manada renegou a sentença do criminoso e, se pudesse, a rasgaria em picadinho. 
          O José Guimarães, irmão do condenado, livrou-se da acusação de envolvimento com a gangue do mensalão e com o dinheiro que o acessor transportava. Como prêmio, quatro anos depois do episódio da roupa íntima que serve ao transporte de elevados valores de procedência criminosa, ele recebeu 210,3 mil votos para deputado federal e tornou-se o segundo candidato mais votado nas eleições de 2010. Vejam que os beijos abundam para todos os lados, ainda que sejam beijos da pior espécie. Duzentos e dez mil e trezentos beijos não é coisa a se desprezar. 
          Mas há pior, bem pior. Estamos prestes a assistir de camarote à avalanche de beijos que promete cobrir as raposas brasileiras, desde as mais conhecidas e até as aparentemente improváveis. Serão beijos ardentes, apaixonados, calorosos, aprovadores. Serão os beijos dos cúmplices, dos cegos e dos omissos. A indignação, ao lado do beijo entre irmãos, está, definitivamente, em baixa. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um fato (de cabritos)

               Manchete esportiva no jornal de hoje: "Ferroviário não resistiu ao poderio do Horizonte". Oitocentas e setenta e três pessoas assistiram, ao vivo, no "Arena", a esta fantástica partida de futebol. Renda: - pouco mais de quinze mil reais. Suponhamos a eqüitativa divisão da receita entre os vinte e dois atletas. Para cada um seiscentos e oitenta e um centavos. O diabo é que há que-se pagar outras tantas contas, a energia elétrica, a água, os funcionários do estádio... Mas, digamos que se dê um calote na COELCE, na GAGECE, nos trabalhadores e se paguem apenas os jogadores. Cada um receberia essa magistral quantia.
               Vejam que, desse público, pouco mais de oitenta entraram sem pagar. Se levarmos em conta que a torcida do Horizonte é uma miragem dessas que avistamos no asfalto em dias quentes, a torcida do Ferrim não se qualifica melhor. Pela televisão dá para comprovar tudo isso. A cada gol – o Horizonte meteu-lhe 3X0 – não se ouviu ninguém vibrar na arquibancada. Conclusão: - os quase oitocentos torcedores corais entraram mudos e saíram calados. Não vibram com o gol porque o time não os faz, nem vaia sua performance que, diga-se de passagem, foi a pior possível.
               Com o epíteto de "O Tubarão da Barra", o Ferroviário mais se assemelha a piaba de aquário ornamental. Em dois jogos o time levou sete gols e não fez unzinho sequer. E nem lembremos que perderam um pênalti no penúltimo jogo e tiveram um jogador expulso neste último. No cômputo geral, dir-se-ia que o escrete apresenta um comportamento de time de várzea. 
               O técnico disse: -"Alguns jogadores têm que se doar mais. Os jovens têm potencial para fazer mais e acabam ficando no campo, andando”. Por seiscentos e tantos reais só dá mesmo pra andar, né não? Doar sangue é de graça, mas vá pedir ao Neymar pra jogar profissionalmente por seiscentos reais!... Ele até que joga, mas uma peladinha. E por apenas cinco minutinhos. Afinal, para ele, qualquer ato futebolístico lhe é promocional. O técnico precisa entender, também, que os jogadores andam porque não há outra alternativa.  Pior seria se sentassem ao gramado e ficassem a papear. Os jogadores do Ferrim, mal sabe o técnico – e a torcida –, foram fazer, ontem à tarde, sua caminhada diária à guisa de lazer. Trocaram a Beira-Mar pelo gramado do novo estádio. Foi isso.
               Agora vejam: - eu nunca soube desse "poderio" horizontino. Escrito numa manchete, imagina-se um Flamengo de Júnior e Zico, um Palmeiras de Leivinha e Ademir da Guia, um Santos de Pelé e Clodoaldo e, vá lá, um Ferrim de Simplício e Cocacola. Pois eis que elevou-se o Horizonte ao status de poderoso irresistível e imbatível. (Que me perdoem a ignorância e intransigência os amigos e leitores que apreciam o futebol local.)
               Na véspera estive com o Chico e o Marcelinho. O Chico estava fulo com a última derrota coral, para o Fortaleza, domingo passado, mas não cogitou "virar a casaca". Como é sabido de todos, o torcedor do Ferroviário não vira a casaca. Sofre – ou não sofre – bem caladinho. E dizia sábado o Chico: -"Cabrito bom não berra"! Há de ser esse o lema da torcida do Ferrim. Somente, então, vi tudo: - a torcida do Ferrim é um fato (de bons e excelentes cabritos). 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O brilho fátuo da amizade

Tarde chego a casa e, espírito revolto, procuro-me ao espelho.
De fato, lá estou, a cara murcha, cabelos hirtos, quase cinqüenta aos couros.
         Vejo-me mais um pouco e penso: como hoje, ainda agora, me deixo ser vítima da decepção, esta mazela que depende inteiramente de mim? Decepção é a frustração dos tolos.
          Tolice é esperar no outro. Que faz o outro? Faz o que quer. Ponto final. Não faz o outro o que queremos, ou o que julgamos ser justo, correto, bom. O outro faz o que quer e bem entende.
           Que pensa o outro? Pensa o que quer e bem entende, a seu bel-prazer. Escolhe pensar o que o exime da culpa, sem a consciência a lhe importunar.
             Um amigo – já nem sei se a alguém é possível imputar tal comenda, mas vá lá – um amigo, que se diz ateu e estava às turras com Deus, bradava feroz: -“Irão para a destruição eterna os maias e os incas? Que absurdo!” Direi a ele que, como Deus é justo, há de julgar cada maia e cada inca segundo cada consciência. Em suma: - só Deus, que tudo fez e tudo sabe, é capaz de saber onde está cada consciência, cada intenção. Ainda que tenha dado a Lei, saberá julgar com sabedoria cada coração e cada suspiro que não aprendeu a Lei. O guarda de trânsito não o isentará da multa por desconhecer a lei.
              Ocorre que o guarda não é Deus. E, afinal, quem pode sondar o espírito de Deus? Decepciona-se aquele que o faz. É um tolo, mais um tolo. A decepção para com Deus é a maior das tolices que o néscio pode cometer. Ao dilúvio só Noé e sua casa sobreviveram. Todos os demais eram uns bobões. Pereceram em sua tolice.
               Conheço um cara que mostra como faz para ganhar sua fortuna, a quem o quer imitar, dentro de seu próprio avião. Eles, os que o ouvem dentro de seu avião, têm o disparate de lhe dizer na cara que o que ele faz não funciona. Que burrice!... Conclui-se que os tolos desencaminham.
               Quantos amam um tolo? Muitos e muitos. Um tolo desencaminha muitos e muitos. Os muitos e muitos que um tolo desencaminha são ainda mais tolos que seu guru. Os brutos também amam, todos sabem. Os brutos são tolos. Assim também os  tolos amam. Nada é mais pernicioso que um amor de tolos. É como um câncer metastático que comprime ao crânio o mínimo de massa cinzenta residual.
                Ah!... minha decepção atesta de meu resquício de tolice, não importando seu tamanho. Que importa que tamanho tenha a tolice se sua hediondez é a mesma? Olhando no espelho me enfatuo de minha própria estupidez. Morar sozinho ainda não é o bastante. Seria o caso viver só? Dize-me com quem andas etc. etc. etc.
                 É tarde. Decido amanhã se ainda assim ando.

Fernando Cavalcanti, 23.07.2010

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Baluarte

              Sei que meus pontuais leitores, se é que ainda os tenho, detestam que se fale de futebol; e pior: - detestam quando se fala mal do futebol. Tanta coisa há para se falar sobre tanta coisa que, para eles, nada justifica que se fale de futebol e mal do futebol. Isso sem se mencionar que estamos em ano de copa do mundo e copa do mundo no Brasil. Vivemos num país maravilhoso, onde tudo corre às mil maravilhas; as crianças estão sendo educadas no mais elevado padrão moral e técnico; os serviços prestados pelo setor público estão entre os mais eficientes do mundo; nossas cidades são lugares aprazíveis e nelas somos felizes por nos sentirmos seguros e usufrutuários de bons transportes, serviços de saúde, escolas de alto nível. Enfim, a copa do mundo demonstrará ao resto do mundo que atingimos o tão almejado desenvolvimento, representado por nossos últimos índices econômicos e sociais. Ainda mais. Nosso povo, pacífico e gentil, traz na face sua mais cristalina felicidade, diferente da falsa felicidade de anos passados, lastreada em puro e simples hedonismo e superficialidade, quando a vida era encarada e vista como um momento único para se aproveitar ao máximo suas delícias e prazeres. Para o completo aproveitamento desses prazeres importava, durante aqueles negros tempos, acumular o máximo de dinheiro e bens a qualquer custo e utilizando-se de qualquer meio. Nossa felicidade, após a implantação de nossa educação esmerada, a qual nos encheu o coração de humanismo, sensibilidade, humildade, amor gratuito e respeito extremo pela vida, mudou radicalmente sua base. Finalmente, viramos gente.
               O diabo é que os amigos que adoram futebol e torcem apaixonadamente por seus times de coração me escrevem para opinar. Por exemplo, o Betinho Limeira e o Sérgio Moura. Um é Ceará, o outro é Fortaleza, dois times de primeira linha do futebol brasileiro. Ambos são ratos de estádio de futebol. O Sérgio, de tão apaixonado pelo esporte, não poupa estádios. Vai a qualquer um onde jogue seu escrete. Vai até no Alcides Santos, o estádio do Fortaleza. O Alcides Santos, apesar da posição do Fortaleza no ranking do futebol nacional, não é um estádio do qual se possa dizer "nossa! que estádio fantástico!". Não, absolutamente. É um estádio assim mixuruquinha, pequeninhinho e, de fato, mais se parece ao zoológico do que a uma praça de esportes. Lá abundam os cajueiros, as bananeiras, as goiabeiras, os limoeiros, os pés de sirigüela... Nessas árvores vivem os soins e, quiçá, macacos-pregos desses que servem de macaco de realejo. Vez ou outra o Fortaleza lá recebe algum adversário para o embate futebolístico. (Parece que o último foi o Itapipoca, grande e tradicional escrete do futebol brasileiro e mundial.) Pois o Sérgio despencou-se da paz de seu aconchegante lar, onde cultiva belas, coloridas e odoríferas flores e mantém um deck com churrasqueira e piscina, e embrenhou-se no Alcides Santos, localizado, se não me engano, no Pici, um nobre bairro da capital cearense repleto de magníficas praças e atapetadas ruas e avenidas, para assistir ao jogo entre seu time e o glorioso Itapipoca. Sua empreitada foi recompensada com a vitória tricolor. (Faço esses comentários apenas para demostrar o efeito da paixão futebolística sobre o cérebro desses nobres varões vigorosos.)
               Eu ia dizendo que me escrevem os amigos. Escreveu-me, pois, o Beto Limeira para fazer uma ressalva. Ele, repito, é um apaixonado torcedor do Ceará e vai ao estádio de futebol desde o tempo das fraldas. Pois eis que ele assistia, n'algum dia em longínquo tempo, a um jogo entre seu time e o Ferroviário. Como ia o jogo? Ora... Diria que o Ferrim apanha desde tempos imemoriais e que não foi diferente àquele dia: - o Ceará aplicava uma senhora tunda ao tricolor. Súbito, uma senhora de certa idade, torcedora do time coral, ergue-se na arquibancada e, rodopiando a bolsa no ar, exclamou: -"A porra desse time é como asma: - melhora mas nunca fica bom"!... E partiu praguejando o Ferrim até a décima geração passada e futura. 
               A ressalva é a seguinte. Após dizer de minha ojeriza ao futebol atual, eu disse ontem que os torcedores corais são os lordes do futebol universal. O fato ocorrido com o Betinho demonstra que exagerei um pouco, não muito. E até é compreensível o comportamento da sofredora torcedora. Ninguém aguenta sofrer calado a vida inteira. Chega o dia em que o cristão explode e desce dos sapatos para amaldiçoar seu algoz, que ninguém é de ferro. Tenha a santa paciência!... Terá sido exatamente o que aconteceu. 
               Escreveu-me também o Sérgio Moura. (O Sérgio, aos que se não lembram, é o amigo que "morre" a cada 15 de novembro, dia de comemoração de seu aniversário.) Como é torcedor do Fortaleza, exultava pela vitória sobre o Itapipoca no Alcides Santos. Escreveu: -"Torcer é bom. Futebol idem. Mas torcer Ferrim, aí é demais"! Devo admitir que concordo com meu amigo na última frase do período: - torcer Ferrim é o cúmulo! O Ferrim bem poderia ser elevado ao mesmo status do Ceará e do Fortaleza como time de notória qualidade no cenário nacional. Mas aí já seria, como se diz, "esticar a baladeira". 
               Os amigos que torcem pelo Ferroviário, como o Chico e o Marcelinho, hão de agastar-se comigo por eu ter fantasiado tanto com o Fortaleza, o Ceará, e até o Itapipoca. O sujeito que torce pelo Ferrim é raramente fulminado por ataque cardíaco por conta de uma emoção futebolística. Já os torcedores do alvinegro e do tricolor do Pici, ao contrário, estão altamente propensos a este funesto e potencialmente letal evento. O comportamento errático e irregular desses clubes gera, muitíssimas vezes, expectativas positivas além de suas verdadeiras potencialidades. Assim, são comuns as frustrações abissais que eles suscitam em seus torcedores. O sujeito portador de uma placa de ateroma nas coronárias pode, numa situação como essa, ser vitimado por um infarto. Felizes os torcedores do Ferrim. Pobres torcedores do Ceará. E do Fortaleza. 
               O Itapipoca? Até há pouco nem time de futebol tinha. Cadê o Calouros do Ar? E o Maguary? O futebol cearense é, de fato, um baluarte do esporte brasileiro.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cegueira e omissão, dois crimes brasileiros

               Só não vê que o país está em queda livre no buraco do subdesenvolvimento – sim, estamos ficando ainda mais subdesenvolvidos – quem não quer. E o pior cego é aquele que não quer ver. Conclui-se facilmente que estamos infestados dos piores cegos do universo. Infestados? Não, não. Somos uma nação de cegos, uma nação de policarpos quaresmas, ufanistas do atraso cujos olhos vêem uma distorcida imagem de si mesmos ao contemplar-se ao espelho da cidadania. 
               No caso do Maranhão, por exemplo, vemos toda a verdade. Atentem: - disse que vemos. Se somos um país de cegos, quase ninguém está a ver nada. Está tudo na mais perfeita ordem e tudo não passa de episódios do cotidiano normal da nação. De fato, se normal é o que é o mais comum – coloque-se tudo sob a curva de Gauss –, os fatos do Maranhão, dos incêndios ateados aos coletivos com a queima de crianças às decapitações da penitenciária, são absolutamente "normais". Assim, os cegos que me lêem que me perdoem. Estão a ler o delírio de um homem louco e insano: - eu. 
               Fiquemos ainda um pouco no caso do Maranhão. O Maranhão, todos sabem, é o estado mais pobre da nação. Pois vejam que uma comissão de advogados de Direitos Humanos entrou com o pedido de impeachment, na Assembléia Legislativa do Estado, contra a Governadora Roseana Sarney. Eles, os advogados, têm a mais absoluta convicção de que ela tem responsabilidade direta sobre os fatos ocorridos naquela prisão e querem puni-la com a perda do mandato e de seus direitos políticos. Se os deputados acolherem a denúncia, cassarão o mandato de Roseana. O detalhe é o seguinte: - a Governadora detém o apoio da maioria dos deputados na Assembléia. 
               Foi amplamente divulgado na imprensa o silêncio, inicialmente absoluto e depois relativo, da presidente da república em relação ao caso da violência no Maranhão. A explicação para o silêncio presidencial: - Dilma, a guerrilheira, não tinha intenção de interferir em assuntos de um grande aliado político. Se interviesse poderia perder seu apoio em sua campanha para a reeleição. O Cardozo, ministro da (in)Justiça, foi despachado ao Maranhão mais para apoiar a Governadora contra as inevitáveis cobranças por parte da população e das instituições que lutam por um Brasil melhor do que para lhe cobrar ações imediatas contra o descalabro que lá estava a ocorrer bem debaixo de seu nariz. Vejam, os que não são cegos, que o que comanda as ações dos políticos brasileiros é sua eterna paixão pelo poder, sua eterna pretensão de permanecer no poder, custe o que custar. 
               Roseana não deve estar preocupada com aqueles que estão a pedir sua cabeça. Faz parte do modus operandi dos políticos de posse de elevados cargos no executivo angariar o controle de seu legislativo correspondente. Se dissesse que é isso o que ocorre em todos os estados da federação, estaria correndo o risco de estar 100% correto. Presidente, governadores e prefeitos raríssimamente governam com oposição. A política do "amém, sim, senhor!" impera do Cabedelo ao Xapuri, do Oiapoque ao Chuí: - inventamos a ditadura branca e dela usufruímos em todas as esferas de poder. Assim, é possível que haja quem acredite que a gloriosa Assembléia Legislativa do Estado do Maranhão acolha a denúncia contra Roseana, mas isso não estaria de acordo com a praxe. 
               Tudo isso só confirma nossa propensão à cegueira. Se não for isso, seria nossa propensão a uma forma de cumplicidade idealizada por nós: - a cumplicidade passiva. Talvez devêssemos chamar a atenção dos cegos que consta no código penal o crime omissivo, aquele em que nos abstemos de agir quando temos os meios de evitar o resultado funesto. A cegueira não seria propriamente um atenuante ou excludente. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Para Rousseau, o futebol seria uma merda

               Meu compadre Chico Heli esteve ontem a me tentar. Mais que uma tentação, a coisa era, de fato, uma mofa, um gracejo. Ele queria saber se eu permanecia em minha ojeriza ao futebol.
               Fomos almoçar, botar a conversa em dia, jogar conversa fora. No restaurante bateu o telefone pro Marcelinho, o caçula e meu afilhado. Dali a pouco chega o garoto e resolvem: - vamos ao jogo. Às cinco da tarde, no estádio Castelão – hoje americanamente chamado "Arena Castelão" – jogariam Fortaleza e Ferroviário. (Os torcedores do Ferroviário o chamam carinhosamente de Ferrim.) 
               Resolvido que iriam, sacaram do telefone portátil e falaram com o amigo Denys Godin, o mais brasileiro francês que já conheci. Ele demonstrara, em certo episódio, sua vontade de conhecer o novo e, segundo dizem, maravilhoso estádio. Não deu outra: - o francês topou na hora. 
               (Denys é tão brasileiro, mas tão brasileiro, que resolveu se aposentar em Paris e vir morar no Brasil. Vejam que há gente pra tudo. Não apenas resolveu o Denys vir morar no "gigante" entorpecido, digo, adormecido como escolheu Fortaleza a cidade para viver o resto de seus dias. Observem que ele é um homem novo – tem 49 anos – e que "o resto de seus dias" tem tudo para ser uma penca de dias. Se assim for, Denys envelhecerá à medida que a cidade piorar, já que tudo aponta para isso. Enquanto isso, Paris...) 
               Assim, o grupo do Chico para ir ao Fortaleza X Ferrim estava quase formado. Faltava apenas uma pessoa: - eu! Tão logo desligou o telefone, após falar com o Denys, ele virou-se para mim e fuzilou: -"Vamos ao Castelão, bicho"? A pergunta vinha eivada da entonação que apela para o coração e para a companhia de bons amigos a se divertirem num estádio de futebol. 
               Ora... Por uma fração de segundos, devo confessar, admiti a possibilidade de ir com eles. A única razão para isso era a vontade de estar com os amados amigos. Contudo, lá estava ela, a ojeriza, inabalável, inteira, indubitável, genética. (Meu avô paterno detestava futebol. Até a copa de França, em 1998, eu ainda nutria por esse esporte a simpatia e o furor que muitos de meus amigos apaixonadamente lhe dedicam. Desde então, o gene de meu avô paterno pareado ao da indiferença vindo do lado materno foi ativado, assim como ocorre à certa altura da vida com outros tipos de genes que são "ligados" em determinado momento de nossas vidas.)
               Os pouquíssimos leitores que tenho, além de tudo isso, devem lembrar-se do que eu já disse sobre torcer pelo Ferrim. Aos que não se recordam e aos que não tomaram conhecimento do que eu falei, repito: - a emoção daqueles que torcem por esse time de futebol é semelhante àquela do que joga ou assiste a uma partida de paciência. E não somente uma, mas cem partidas, ou mil, ou dez mil, tanto faz. Uma partida de paciência não altera em nada a frequência cardíaca do jogador nem do espectador. Ambos saem da partida em incoercível e incontrolável torpor serotonina-induzido. 
               Voltemos ao Chico e seu projeto de assistir pessoalmente ao chamado "clássico das cores". Que fiz, afinal, após um leve, muitíssimo leve ímpeto de acompanhá-los? Resposta: - neguei-me peremptoriamente. A recusa foi tão veemente que nem Marcelinho, meu afilhado, ousou tentar-me convencer. Voltei para casa e eles foram-se à "Arena". O Chico me falava, durante o almoço, de um tal Iarley, contratado pelo Ferrim, jogador de excepcionais qualidades que fizera não sei quantos gols num time cujo nome justo agora me escapa. A esperança ia de vento em popa com a recente aquisição do para mim desconhecido Iarley: - o Ferrim havia de botar o Fortaleza no saco. (A bem da verdade e com exceção das sumidades, todo jogador de futebol é para mim, repito, um ilustre desconhecido.)
               Hoje, ao abrir um de nossos péssimos periódicos, deparo-me com a seguinte notícia: "Ferrão leva sacode". Que significa isso? Fui ver. E achei o seguinte: - o Ferroviário levou do Fortaleza uma coça, uma goleada, uma "lavagem", como se diz na gíria do futebolês. Perdeu de 4 X 0. Não houve Iarley que desse jeito. Olhando a escalação, publicada no jornal, percebi que o elenco coral incluía até mesmo um ator de cinema, o Jack Chan. O repórter deve ter-se enganado pois o nome correto do homem, que de fato é seu ocidental pseudônimo, é Jackie Chan.
               Só agora percebo que não falei o principal. E o mais importante a ser dito é que o Chico e o Marcelo torcem pelo Ferroviário. Como na genética da ojeriza pelo futebol, pai e filho torcem pelo sofrido Ferrim, que de tanto apanhar nem mais assusta. E melhor. De tanto apanhar, o Ferrim, que a reportagem chamou de Ferrão, nunca perde torcedores para a conhecida "virada de casaca". (Ia esquecendo de dizer que o Chico torce pelo Ferrim porque seu pai, o "véi" Heli, assim torcia, noutra demonstração da real existência de uma genética do e para o futebol, seja para a ojeriza, seja para o amor a ele.) 
               Os torcedores do Ferrim são verdadeiros fósseis do chamado esporte das multidões. (Tudo que se refere à multidão me enoja. Aonde vai a manada, é aonde não vou. Se ela vai para o norte, vou para o sul; se ela vai ao leste, vou para o oeste, e assim por diante.) Mas, como ia dizendo, o sujeito que torce pelo Ferrim é um baluarte, um empedernido, um teimoso de carteirinha e sindicato. Nunca, jamais, em tempo algum conheci um torcedor do Ferrão que fosse fanático, desses que choram ou brigam quando as coisas não vão bem para o time. (Para o Ferrim, quase sempre as coisas não vão bem.) O torcedor do Ferrim é, antes de tudo, um resignado, um conformado, um manso. São bem educados e não fazem barulho; nunca se metem em confusões, comuns nos estádios de futebol a propósito da imbecilização do sujeito quando parte de uma massa. (Vide o Rousseau e, se não me engano, o Rubem Braga.) 
               Em suma, os torcedores do Ferroviário Atlético Clube são os lordes do futebol, um esporte repleto de trogloditas e tubarões. E mais. São lordes não somente do futebol nacional, mas do futebol universal. (O futebol mundial é uma alucinação, uma miragem, uma idiossincrasia. Ele só existe como mercado. Nele se vendem tênis da Nike e camisetas do Messi. O legítimo futebol, o verdadeiro, o real é, de fato, universal. Quando o homem puser os pés em Marte há de surpreender um Fla X Flu marciano com uma Arena lotada.)
               Há pouco bati o telefone para o Chico. Ele não atendeu. Estou absolutamente convicto de que nada tem a ver com a humilhante derrota de seu time para o Fortaleza ontem. Pro Marcelo não ligo. Ele está muito ocupado estudando para fazer um concurso público. Padrinhos são pais que ficam na reserva. Sem trocadilhos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

POSCONCEITO FEMINISTA

               Seu Valmiro Queiroz está cansado. Sim, esse ano foi de morte. Nada deu certo. Percebe-se facilmente em seu semblante que está se segurando para não explodir, ou não fazer uma besteira. Para falar a verdade, não foi somente agora que as coisas desandaram. Já faz algum tempo.
               Até há dez anos – hoje tem sessenta e um – era o maior salário de uma grande e conceituada empresa. Tinha imóveis, carros, obras de arte... Todo ano trocava de carro duas vezes, no mínimo. A mulher e o filho metido a galã também tinham carros caros, ostensivos, brilhantes. Fins de semana em qualquer lugar do país não eram exatamente um problema. Coisa de rotina. Não precisava esperar as férias para fazer uma viagem. Encafifava e ia bater em qualquer lugar com a patroa, que ele hoje chama de "dona encrenca". Há dez anos não a chamava assim. Afinal, dona encrenca tinha tudo. Gastavam o que tinham e o que não tinham. Em suma, levavam uma vida confortável e invejável. Até o plano de saúde era coisa de tirar o fôlego: - trezentos e oitenta reais por cabeça! Bons tempos aqueles...
               ​Então, veio a cacetada. Perdeu o emprego, e o maldito Plano Collor lhe tomou todo o dinheiro da venda de uns imóveis que pusera na poupança. Era um caixa dois, mas não importa. O governo rouba a gente, a gente rouba o governo. A venda de um terreno em Camboinhas defronte à praia lhe rendera duzentos mil dólares. Numa outra venda, um apartamento na Barra, apurara outros duzentos mil. Perdeu tudo num piscar de olhos.
    ​           O bom da história é que sobraram alguns imóveis de menor valor, e que hoje lhe rendem algum dinheiro de aluguel. A droga da aposentadoria da previdência social lhe paga uma miséria. Não dá para nada. Só o condomínio do prédio onde mora custa duzentos e vinte reais. E ainda tem que pagar a luz, o telefone e a gasolina do único carro que lhe restou, um Gol 95. Não sabia ele, então, que o pior estava por vir: - o implacável diabetes. Sim, um mal que insidiosamente morde o indivíduo dia após dia pelo resto de seus dias. Consome cada órgão, cada parte, cada vida.
               ​Pois o maldito diabetes consumiu-lhe os rins. Nunca mais urinou. Por isso furaram-lhe o corpo todo. Para filtrar o sangue seria preciso colocar um tubo grosso numa veia grossa. Puseram-lhe tubo nas virilhas, nas clavículas, no pescoço... Depois já era preciso a maldita fístula. A primeira não deu certo, a do punho direito. Teve que fazer outra no cotovelo do mesmo lado, que também não prestou. Depois lhe fizeram outra no outro punho. Outro fracasso. Finalmente, a quarta tentativa desenvolveu a porcaria da fístula. No começo funcionava que era uma beleza, mas depois deu problema. Começou a roubar o sangue do resto do braço. A mão ficava fria e dormente. Temia perdê-la para a gangrena. Com essa fístula ladra não seria possível fazer a diálise e tirar finalmente o tubo do pescoço. Meu Deus, já não agüentava mais aquele troço preso, pendurado com aqueles esparadrapos no pescoço...! Tinha ímpetos de arrancá-lo. Só não o fazia porque sua vida dependia dele. Vida só com o tubo. Nem pensar em removê-lo!
               Ah... como fora infantil até dez anos atrás! Depois disso estivera internado em quase todos os hospitais da cidade. O ano corrente? Já não via a hora de ele acabar! Fora um péssimo ano. Parecia brincadeira, mas, para completar, a unha do pé esquerdo crescera encravada, obrigando-lhe a usar chinelos. O maldito chinelo lhe fez dois calos enormes no outro pé. Ainda assim, só podia andar de chinelos. Aonde quer que fosse tinha que usar os chinelos. Dona encrenca vivia implicando com ele por isso. Onde já se viu o sujeito andar de chinelos pra cima e pra baixo?! Por isso largara dela. Não queria vê-la nem pintada! Que diabos! O sujeito doente, perambulando por hospitais dia e noite, ligado permanentemente a uma máquina, a vida em função da maldita máquina, tentando salvar o braço doente que o tratamento criara, e a mulher azucrinando por causa dos malditos chinelos!!...
         Contou-me tudo isso debruçado na amurada do posto de enfermagem, melancólico e nostálgico.
        -"O senhor bem que deve encher o saco da mulher também, né"? - perguntou uma Cacau feminista até os sapatos e ouvinte de resto de conversa alheia. 
           -"Mas eu sou apenas em homem doente e mais nada!...", implorou franzindo a testa e perplexo por perceber que ainda assim não havia perdão para ele.
     Fiquei olhando-o afastar-se com seu andar pesaroso e frustrado. Não derramara uma única lágrima. Apenas foi embora para mais uma sessão de diálise. 
          E Cacau? Bem, ela não deu a mínima. Dali a pouco encontrei-a em sua sala remexendo alguns papéis e certamente pensando: -"Foda-se o marido doente!"
          Nunca pensei que as mulheres pudessem ser mais implacáveis que o maldito diabetes.

 Fernando Cavalcanti
Rio, 18.11.1998