quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A encarnação de Goebbels?


“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”
(Nelson Rodrigues)

          Tenho amigos petistas.
          (Escrevi a frase acima e, confesso, senti um comichão no peito e nas partes....) 
          Tentemos novamente. 
          Tenho amigos idealistas. Não sei se algum dia algum deles leu "O Manifesto...", mas o brasileiro mediano ainda se arrasta na crença de que uma sociedade igualitária é aquela em que todos são iguais.
          É de uma obviedade abissal o fato incontestável – "fato incontestável" é uma deslavada tautologia, se me dão licença – de que todos somos diferentes. Esquecem que a sociedade igualitária é aquela em que as oportunidades são iguais para todos. Cada um faz com as oportunidades que recebe o que bem entender. Se quiser jogá-las pela janela, paciência. Todos arcam com as consequências de suas escolhas. Em suma, é no uso distinto das oportunidades que se manifesta a mais escrachada diferença entre os seres humanos, da Sibéria às Ilhas Malvinas, do Alaska à Austrália.
          Não sei por que cargas d'água me veio agora à cabeça a lembrança da amizade entre o Erasmo de Rotterdam e o Thomas Morus; e também agora me dou conta de que não me recordo se a obra do primeiro ("Elogio da Loucura") veio antes ou depois da obra do segundo ("A Utopia"). Lembra-me que o Erasmo dedicou a sua ao amigo em carta e em viagem. Estou a imaginar se o "Elogio..." não seria uma mordaz crítica ao onírico sonho de seu amigo quanto à existência de tal lugar onde as coisas funcionavam tão perfeitamente. Qualquer dia desses vou ali à minha biblioteca rever essas duas pérolas da literatura mundial e a relação entre ambas, se é que há. 
          Será que o Erasmo pensava que o amigo sofria de algum distúrbio mental ao descrever Utopia? Em todo caso ele chegou a uma conclusão imbatível: só os loucos são felizes. 
          Mas eu não queria nem pretendia falar nada disso. O diabo é que, mais que os comichões no peito e nas partes quando taxei alguns amigos de "petistas", foi os que me assaltaram quando li hoje em diário da capital a reportagem onde o presidente do PT, um tal de Rui Falcão, afirma que a mídia – entenda-se a imprensa – "abre campo para as aventuras golpistas". Disse ainda mais este senhor, "que a imprensa e setores do Ministério Público tentam 'interditar' a política e por isso devem ser combatidos pelo partido. Em reunião da bancada do PT na Câmara, associou essa suposta prática ao nazismo e ao fascismo (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/01/31/noticiasjornalpolitica,2998090/rui-falcao-associa-imprensa-ao-nazismo.shtml).
          Vejam que nazista e fascista é a idéia que este senhor tem do papel da imprensa e da mídia em geral. Para ele a imprensa deve ser combatida e, para tanto, deve ser controlada. Óbvio é o eufemismo: - a imprensa, para ele, deve ser amordaçada. E não somente a imprensa, mas o Ministério Público. Para ele deve-se tirar o poder de polícia do Ministério Público. (Será que tenho amigos petistas?) Ele não quer nenhuma polícia a escarafunchar os atos criminosos de seu partido. 
          O que me fez perder a noção do tempo – minha secretária veio-me cobrar seu pró-labore após terminado o serviço porque, de tão malignamente enleado na questão, acabei por esquecê-la – foi minha lucubração sobre o que significaria a expressão "interditar a política", usada por este senhor. 
          Ora, não estão funcionando plenamente as ditas instituições democráticas do país? Não vivemos sob regime de pleno gozo das liberdades civis? Não estamos a pensar o que queremos e a expressar livremente esse pensamento? Isso tudo não é fruto da política em ação? da política que está a funcionar sem óbices nem entraves nem obstáculos? A atuação da imprensa e do Ministério Público, agindo livremente, não é também um reflexo do pleno gozo do estado de direito? Então, em nome de todos os santos, onde está a evidência de que mídia e Ministério Público estão tentando "interditar a política"? (Gostaria que algum amigo "petista" me dirimisse essa dúvida, mas preferiria que não. Detestaria saber que tenho amigos petistas e que compartilham dessas idéias idiotas.)
          Para piorar – não sei em que parte de meu cérebro estava esta imagem inolvidável – este senhor Rui Falcão muito se assemelha fisicamente ao Joseph Goebbels, assecla apaixonado do senhor Adolf Hitler. Notem o físico apoucado e o tórax raquítico. Vestidos em passeio completo são de uma semelhança brutal. Observem a fronte alta e ampla, os lábios finos e o nariz algo afilado, mais ainda no morto que no vivo. Os olhos são tão iguais, mais na expressão do olhar do que propriamente no formato, ainda que este seja praticamente o mesmo. É incrível! Falta ao Goebbels a leve armação que a ave de rapina traz às fuças, e é de se notar que este está em idade  (70 anos) à qual o outro não chegou por ter morrido com apenas 47.
          Assim, este senhor com nome de ave de rapina atribui aos outros atos e comportamentos que lhe são, a ele próprio, visíveis e demonstráveis. Seus eufemismos não são capazes de camuflar as intenções das ideias que são suas e de seu partido, já há muito conhecidas e divulgadas e até agora rejeitadas na medida certa. 
          Sabe-se lá por quanto tempo. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Feliz da morte


          Já nem sei há quanto tempo escrevi a última vez sobre a Unimed Fortaleza ou sobre temas a ela relacionados. Mas de uma coisa sei: - faz tempo. E por que não mais escrevi? Porque desisti. Tudo nessa vida pode vir a tornar-se objeto de nossa obsessão, e estava a me ocorrer que seria esse o caso entre a Unimed Fortaleza e eu. Que fiz? Desisti, repito. Capitular não significa necessariamente a derrota e, de fato, pode sinalizar sabedoria ou, pelo menos, uma tralha a menos a se carregar às costas. Que tenho eu com a Unimed Fortaleza? Que representa a Unimed Fortaleza em minha doce vida? Resposta: - absolutamente nada. 
          Ainda assim devo dizer que tudo o que merece apreciação, merece apreciação. Ora essa! Por que deveria eu, por outro lado, esquecer-me completamente da Unimed Fortaleza? Afinal, ainda sou cooperado. Há mais de três anos inativo, mas ainda cooperado. Esta há de ser uma situação irregular, mas sou cooperado. Pus lá dentro dinheiro do meu bolso, e o que em meu bolso entra não entra fácil.
          O que eu queria dizer é que mais uma vez está para acontecer a eleição para o Conselho Fiscal da  cooperativa Unimed Fortaleza. Será daqui a pouco mais de uma semana. 
          Antes de continuar devo acenar para os leitores que detestam o tema. Uma amiga de Maceió à última vez em que lá estive fuzilou: -"Detesto quando escreves sobre a Unimed!" Paciência... Calado estava, calado permaneci, e perguntei-lhe sobre a chuva e sobre o tempo. Ela esqueceu-se da Unimed e nossa conversa ganhou ares praianos. Assim, não se agastem os leitores menos afeitos ao assunto. A razão é muito simples: o jogo pelo poder dentro da Unimed Fortaleza representa um micro-exemplo do que ocorre no jogo do poder por esse Brasil afora. Conchavos, cooptação de adversários, criação de cargos-cabides, tudo o que ocorre na nojenta política brasileira também ocorre na política da Unimed Fortaleza. Seria engraçado se não fosse trágico. O leitor que julgue nada ter a ver com o caso surpreender-se-ia se sobre ele se debruçasse.
          Com quase quatro mil cooperados – 3.815 parece ser o número exato – e cerca de 370 mil usuários , a Unimed Fortaleza arrecada e movimenta uma montanha de dinheiro que faz brilhar os olhos das raposas. Não é à toa que, já se vão 11 anos, o mesmo grupo ocupa os cargos de direção da cooperativa. Esses diretores são, hoje, milionários após esses anos percebendo pró-labores elevadíssimos. A maioria, senão todos, desde então nunca se sentou à cadeira de seus antigos consultórios para atender seus pacientes, hoje minguados ou inexistentes. Jamais outra vez, desde que lograram o controle da cooperativa, sentaram-se à cadeira de seus consultórios para provar das medidas que implementaram e que propagam ter sido vantajosas para o médico cooperado. Especializaram-se em anunciar percentuais quando se sabe que percentuais nada dizem se não sabemos sobre qual valor incidem, e dizem ainda mais quando sabemos que esse valor é de uma pequenez abjeta e humilhante. Cem por cento de 1 é 1, e menor que 1 só o zero. Quanto é 100% de zero? Assim, os diretores da Unimed Fortaleza compreensivelmente optaram por continuar a usufruir das benesses e da força e poder do vil metal em quantidade, muito mais certas e melhores que o parco e diminuto advindo do árduo trabalho da prática médica diária.
          Como ia dizendo, eis que avizinha-se a eleição para os novos conselheiros fiscais da Unimed Fortaleza. E o que volta a ocorrer, mais uma vez – pode parecer uma tautologia, mas não chega a ser o caso – é a polarização da disputa: uma chapa "apoiada" por aqueles que historicamente vêm fazendo oposição à direção, a outra "apadrinhada" pela própria. 
          Que candidatos a conselheiros fiscais sigam uma linha oposicionista ou, no mínimo, neutrista não surpreende. O conselheiro deveria ser o elemento que faz, de certo modo, oposição responsável e lúcida quanto aos investimentos, gastos e patrimônio da empresa. Está sempre vigilante quanto ao seu balanço financeiro e contábil e à evolução de seu ativo e passivo. Conselheiros fiscais não podem ser "da situação", uma vez que estão lá para fiscalizar. Eles são a força opositora que dá equilíbrio à "natural" força impetuosa do gestor. (Se estiver errado que me corrijam os amigos entendidos na matéria, excetuados os da direção da Unimed Fortaleza.)
          O que quero dizer é que causa espanto e indignação a descabida existência de uma chapa candidata ao Conselho Fiscal para a qual a direção trabalha no intuito de elegê-la. Diria que chega a ser vergonhoso, escabroso e tenebroso. É, a meu ver, uma gritante distorção que põe em dúvida o papel que esses conselhos têm tido ao longo desses anos. Precisamos mesmo deles? Eles avalizam ou fiscalizam. 
          O indicador econômico-financeiro da Unimed Fortaleza que entra no cálculo de seu Índice de Desempenho de Saúde Suplementar (IDSS) da Agência Nacional de Saúde mostrava em 2011que a saúde financeira da cooperativa não era lá dos melhores. Esse indicador "acompanha o equilíbrio econômico-financeiro das operadoras de plano de saúde sob o ponto de vista das condições de liquidez e solvência, avaliando a capacidade de manter-se em dia com suas obrigações financeiras junto a seus prestadores para o atendimento com qualidade e de forma continua a seus beneficiários" (http://www.ans.gov.br/index.php/planos-de-saude-e-operadoras/informacoes-e-avaliacoes-de-operadoras/programa-ans-de-qualificacao-das-operadoras). Numa faixa de notas entre 0(zero) e 1 (0; 0,2; 0,4; 0,6; 0,8; 1), sendo zero=RUIM e 1=MELHOR, a Unimed Fortaleza tirou 0 (zero) em 4 dos 5 desses indicadores (liquidez corrente, liquidez de necessidade capital de giro, provisão de sinistros a liquidar, suficiência em ativos garantidores vinculados). 
          Deixo a análise detalhada do tema a quem tenha a capacidade de compreender. A mim interessa o alerta sinalizado por esses dados. Vale lembrar que o IDSS é sempre retrospectivo. Ainda assim creio ser possível utilizá-lo como parâmetro de gestão financeira da presente administração, que aí está há mais de dez anos. 
          Outro dia, semana passada, encontrei o meu querido amigo Paulo Ferreira. Há tempos não tinha o prazer de encontrá-lo. Abracei-o efusivamente e ele quis saber se meu número de telemóvel mudara. Tentara me ligar e não conseguira. O que queria?, perguntei-lhe. Queria muito ter podido ajudá-lo, enfatizei. Ele, então, foi ao ponto: - queria meu voto para a chapa apoiada pela direção da Unimed Fortaleza. 
          Ora, é sabida e conhecida minha ojeriza ao que ocorre nessas eleições para conselho fiscal dessa cooperativa, justamente por causa dessa imoral distorção que os envolvidos teimam em afirmar não existir. Tamanho cinismo só faz ampliar meu horror e indignação. Perguntei ao Paulo o que ele pensava sobre tudo isso e ele me explicou que o apoio da direção da Unimed Fortaleza a uma das chapas candidatas ao conselho fiscal seria lícito uma vez que os diretores são, antes de tudo, cooperados e como tal podem e devem apoiar a quem bem entenderem.
          A explicação seria perfeita não fosse o fato, notório e evidente, de que todos os membros da direção apóiam a mesma chapa, justamente aquela que fica conhecida por estar sendo apadrinhada por esta mesma direção. Ora!, se o apoio fosse do cooperado que está à frente da direção e não do diretor que por coincidência é também cooperado interessado em defender sua posição dentro da cooperativa, cada um apoiaria a chapa que bem entendesse. Mas não parece ser isso o que ocorre. O apoio à chapa é "institucional", não pessoal. O apoio é da direção, não é dos cooperados que estão na direção. Não sei se me entendem. 
          Assim, estamos a ver, ainda mais uma vez, mais da mesma ópera bufa. Agora entendo o porquê quando minha bisavó me disse, certa vez, quase aos 100 anos, que estava cansada de viver. Para ela, então, já tudo era um repeteco danado, uma mesmice medonha. Morreu pouco tempo depois feliz da vida. Ou, melhor, feliz da morte.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sobre tragédias

          Alguém da imprensa dirá que não, mas as tragédias são lucrativas para a mídia. Um avião que caia, um morro que desabe a cada janeiro na estação chuvosa soterrando compatriotas teimosos, uma chacina no cenário do incombatível tráfico, tudo é foco na lente inescrupulosa dos que tomam para si a missão de informar. Estamos, agora, sendo alvos da exposição do intenso sofrimento de famílias de jovens mortos que não deveriam estar mortos.
          Em sua página na web (http://www.gabeira.com.br/wordpress/2013/01/santa-maria-as-causas/) diz o Fernando Gabeira: "Nos quase dez anos que vivi na Suécia, percebi que existe uma diferença essencial entre países avançados e atrasados. Esta diferença é o respeito pela vida humana, presente não só  nas leis mas nas atitudes do dia a dia." Ele se refere aos inúmeros descasos que se evidenciam na tragédia da boate em Santa Maria. Ele disse, de fato, que o brasileiro não tem respeito pela vida humana.
          Se na Suécia e nos outros países do Velho Continente, ou desenvolvidos de outras partes do mundo, se tem hoje extremo respeito pela vida humana é porque nesses lugares já se a desprezou em demasia ontem. Só a dor das tragédias, das grandes tragédias, das tragédias que acometem o maior número de cidadãos de uma nação, tem o poder de mover o coração de seus habitantes na direção oposta. 
          Sim, temos tragédias. No Brasil há tragédias. Mas são tragédias pontuais, tragédias que poupam bastantes pessoas, a maioria, a esmagadora maioria. Nossas tragédias, e até usando como exemplo a atual de Santa Maria, afetam poucas pessoas. Nesta, em particular, foram afetadas duzentas e tantas famílias. E só. Se o país guarda 50 milhões de famílias, qual o poder do sofrimento dessas poucas para mudar nosso desdém pela vida humana? 
          O que quero dizer é que há apenas 500 anos iniciaram-se nossas tragédias, e de lá para cá as temos aperfeiçoado e multiplicado competentemente. Entretanto, e para a infelicidade dos que estão ainda por vir, é provável que nem nos próximos 500 anos tenhamos gerado a grande e necessária tragédia nacional. As tragédias pontuais, aquelas que afligem apenas poucos de nós, continuarão por mais esses tais 500 anos a indignar os indignáveis e a poupar os que têm sorte. E é exatamente nessa loteria onde está o nosso grande mal, a nossa grande deficiência. A tragédia que afetasse a pelo menos a maioria de nossas famílias, entre ricos, não-ricos e pobres, seria a essencial, a que mudaria nosso destino, a que nos transformaria de medíocres e pobres em grandes e ricos. 
          Imaginei para nós o grande terremoto de 9 graus na Escala Richter que baloiçasse todo o território nacional, mas me vi diante de grave problema. Um tremor dessa magnitude poria em sério e real risco a própria viabilidade do planeta, de modo que ela não nos serviria. De nada nos serviria a grande e redentora tragédia se o preço a ser pago fosse o fim do mundo. O terremoto em área restrita, que abalasse somente o Piauí, por exemplo, também em nada ajudaria. Faria o Piauí mais pobre e menos populoso e iludiria o resto de nós com a a falsa sensação de segurança, tal qual nos acontece quando apreciamos a tragédia que cerceia a vida de outros concidadãos. Já o abalo em São Paulo só se prestaria a uma majoração de nossos impostos para compensar o baque de nosso centro financeiro, e de impostos elevados – outra de nossas tragédias – já nos acostumamos sem uma reação à altura. No Japão o grande tremor dá certo porque é um pequeno país que sofre nacionais e milenares tragédias. Os japoneses o reconstruíram já nem sabem quantas vezes.
          Considerei uma grave epidemia a afetar vários de nossos Estados, mas o avanço da medicina atual e o risco a que se submeteriam outros países impediriam que essa evoluísse como nossa imperiosa hecatombe. 
          Excluí um evento cósmico como o choque de um asteróide de 12 quilômetros de diâmetro a se espatifar em território nacional pelas mesmas razões já aventadas ao tremor de terra.
          Assim, restou apenas e unicamente a guerra onde morreriam milhões de brasileiros, jovens e não tão jovens, pretos e brancos, ricos e pobres. A guerra contra um poderoso país havia de nos redimir de nossas mazelas, se nossos vícios, de nossa hipoestesia, de nossa indolência e permissividade. Essa, sim, a guerra, bem seria possível de nos aparar os modos e depurar nossas chagas, porque foi o que ela fez aos povos que muito guerrearam, e que nela muito morreram, e que muito sofreram com seus horrores. O diabo é que com a guerra também me deparei com problema sério e irremediável: – não há um único país que necessite guerrear conosco para conseguir de nós o que quer. Todos os que intentam nos explorar ou conseguir de nós o que querem são muito bem sucedidos. Nós somos uma mãe para todos e lhes entregamos de bandeja todas as nossas riquezas e valores sem um mínimo de pudor. Eles não precisam tomar de nós nada do que querem. Conseguem todas as vantagens sobre nós sem disparar um mísero tiro de espingarda de chumbinho. 
          Assim, nossa guerra teria de ser com o próprio brasileiro, o mau brasileiro, o grande mal desse rincão. Como o mau brasileiro é figura das mais comuns do Oiapoque ao Chuí e do Cabedelo ao Xapuri, percebe-se claramente a gravidade de nossa situação, em como estamos enfronhados em equação do décimo grau sem solução no conjunto dos números reais. De tragédia em tragédia vamos vivendo a vidinha que escolhemos viver, enquanto os de menor sorte perecem evitavelmente e escabrosamente a olhos vistos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mais do mesmo, mais uma vez

           Chamou-me a atenção a manchete de certo periódico local que dizia: “Sargento da Marinha morre após se afogar”. 
          Segundo o pai dos burros, exceção feita aos sentidos outros que tem o verbo, os figurados, afogar-se significa “morrer na água por asfixia”, “fazer morrer por asfixia num líquido qualquer”.
          Se substituirmos, na manchete, “se afogar” por um de seus dois sinônimos, teremos que certo “Sargento da Marinha morre após ‘morrer na água por asfixia’”. Bem se vê que há uma redundância na construção proposta. Bastaria ao referido diário ter dito que o sargento da Marinha afogou-se e já saberíamos do desfecho fatal do caso.
          Assim como “descer para baixo” e “subir para cima” estão incorretos, “morrer afogado” também o está, pois não?  
          Vivemos ao tempo da redundância e das redundâncias, notadamente a das palavras. E por quê? Porque as palavras, ao que parece, perderam e vêm perdendo cada vez mais seu valor. É preciso dizer “não” uma meia dúzia de vezes antes que se entenda plenamente que se está negando algo. Mesmo o “sim”, com toda a sua permissividade implícita e explícita, está sujeito a repetições incômodas e desnecessárias, ainda que em menor proporção. 
          A pergunta que se pode fazer é: por que cargas d’água a negação tem sido tão menosprezada?, tão maltratada?, tão pouco crível?, tão pouco aceita? Ao que parece, vivemos um tempo de aceitação completa a tudo que se nos impõe e a tudo que nos é sugerido. Existe uma cultura da aceitação completa, uma vez que se parou de pensar. Quando não mais se pensa, o sim está na ponta da língua.
         Se não se pensa, estamos diante de uma vida que mais se assemelha a um algoritmo já bem traçado e bem delineado. Temos preparadinhas a reação e a resposta para tudo, e uma resposta afirmativa, necessário dizer, sob pena de sanções diversas.
          Perceba-se que dizer que o sargento afogou-se, aos nossos dias, é pouco, muito pouco. Se o disséssemos, correríamos o risco de não nos fazer entender e alguém indagaria “como está o sargento após seu afogamento”? ou “está internado o sargento depois que se afogou”? Assim, para “garantir” e assegurar a morte do pobre homem, a manchete afirma que ele morreu mesmo, de fato, “de vera”, após morrer na água por asfixia. Não pode haver dúvida.
          Pode-se, talvez, concluir que o não não é mais resposta que se dê. Mesmo que se tome atitude que indique claramente que o ser está a negar o que se o propõe, ainda assim perguntar-se-á explicitamente a fim de que se dê chance à rejeição do não. 
          A descarada desvalorização do não tem ainda outra razão: - a elevada freqüência e prevalência da dúvida entre nós. Quanto mais dúvida, mais nãos rejeitados. Não sei se me faço entender. 
          Eis que, então, vem acontecendo o seguinte. O governador deste pobre Estado do Ceará, filho de uma classe de família que bem poderia se taxar de "família sem papas na língua", debochou do procurador-geral de contas do Estado por ele estar fazendo o seu trabalho  (http://tablet.opovo.com.br/app/opovo/canais/politica/2013/01/23/4129051/cid-diz-que-procurador-do-mpc-quer-aparecer-no-caso-do-cache-de-ivete.shtml). Como o trabalho do procurador é fiscalizar os gastos do executivo, o senhor governador irritou-se com sua insistência em questionar seus gastos. Semelhante ao pivete mal-criado, filho de pais indolentes e permissivos que nunca dizem não, o executor-mor da província classificou o procurador como "garoto que deseja aparecer e fica criando caso". 
          Puxemos a sardinha aqui pro nosso tema. O governo parece ter gasto além da medida e, na hora de prestar contas, o fiscal não gostou porque entendeu que o governo gastou além da medida. Que fez o fiscal de contas? Disse: -"Não!" Como se julga incontrariável, o senhor governador se saiu com o desdém. Talvez pense que o procurador-geral está em dúvida sobre sua própria contestação e recue no último instante. 
          Para a decepção do governador, o procurador e os órgãos e associações ligados ao Ministério Público de Contas retrucaram à altura e demonstraram que a infantil atitude partiu dele próprio, evidenciando seu pouco zelo pelas instituições democráticas. 
          Observem os já entediados leitores que os de tendência tirânica são, no poder, uma ameaça à liberdade de expressão e à atuação de órgãos que lhes fiscalizam as atividades e atos. Na vida social, idem, querem-nos à mercê de tudo o que se impõe e que se estabeleceu como norma pétrea. Não nos é permitido agir ou querer diferente porque os pensamentos tirânicos estão até mesmo a engendrar leis que prevêem punições severas àqueles que ousarem pensar de outra forma. 
          Todo o imbróglio entre as aludidas autoridades se refere ao pagamento de um cachê a uma artista da música, que se apresentou em espetáculo promovido pelo governo do Estado quando da inauguração de um hospital no interior. O povo – sempre o povo! – compareceu maciçamente, sem dúvida, não se importando quanto o governo pagou pela festa em que este mesmo povo se empanturrou de sua contínua e perene catarse. 
          Na capital, muitos dentre o povo, os politicamente lúcidos, se manifestaram contrários ao cachê pago e se indignaram com mais essa lambança com o recurso público, alinhando-se ao Ministério Público em sua cobrança por austeridade no uso do dinheiro.
          Entretanto, a maioria, a esmagadora maioria, há de se ter posto ao lado do "circo" do governante absoluto, dando-lhe legitimidade em sua gastação desenfreada. O não do Ministério de Contas, na pessoa do procurador, há de ser, assim, um grito sufocado em meio à multidão ensandecida e sedenta de ignorância. 
          Portanto, mais do mesmo. Mais uma vez.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Pobreza sem fim...


          Deu hoje no jornal, não sei se viram – os assassinatos em Fortaleza, em um ano, subiram 47%. De 1.107 em 2011, foram para 1628 em 2012.
          No mesmo jornal, ontem, o Elio Gaspari anunciou em alto e bom som: o Brasil vai muito bem, obrigado. Para justificar o que anunciou, citou dados que confirmam que o pobre de ontem hoje viaja de avião, tem TV a cabo, compra carro e LCD.
          Outro dia outro jornalista indagava: quem não tem medo em Fortaleza? Se as pessoas podem comprar, se podem consumir – nosso “comunismo” é tão imbecil e incoerente que se o mede pela capacidade de consumo do povo; o consumo, justamente aquilo que ele, “comunismo”, combate – se podem as pessoas consumir, por que se tem medo? Aliás, não seria a distribuição de renda um fator mitigador da violência? Admito: – estou simplificando o que é mais complexo. Como diria meu amigo Danúzio Carneiro, psiquiatra de elevada estirpe, minhas análises são destituídas de fôlego teórico.
           Afinal, está ou não tudo bem? Não sei se minha burrice é capaz de acompanhar a explicação desse aparente paradoxo. Se encontrar alguma dificuldade, por favor, não estranhem os meus queridos leitores.
           É possível que o paradoxo se explique pela questão geográfica. Vai tudo bem com o Brasil, mas Fortaleza seria a gritante exceção. Seria isso, talvez.
          É possível, por outra, que se possa explicar o paradoxo assumindo que tudo possa ir muito bem, obrigado, dentro de um cenário de guerra em que a vítima possa ser qualquer um, até mesmo você. Seria possível isso? Vai ver acham que sim. Parece que o Elio Gaspari acha que seja possível. Quem saberá o que vai na cabeça de tamanha sumidade do jornalismo econômico?
          Por outro lado, digamos que o “x” da questão seja entender o que seja algo “estar ou ir muito bem”. Para o Gaspari e uma penca de gente idiota, ir bem é ter dinheiro e bens, consumir produtos e serviços, e por aí vai, nem que isso custe a paz de toda uma sociedade.
          No outro jornal a mais nova era "Cai número de assassinatos no Estado do Rio". Lá mataram 3.650 pessoas em 2012, entre fluminenses e cariocas, uma redução de 7,2% em relação a 2011. 
          O que faltou às matérias dos jornais foi a entrevista com o sociólogo. De preferência um de "esquerda". E o que ele, ou ela, diria? Diria que a exclusão social etc. etc. etc.... Seria uma lengalenga daquelas que já estamos acostumados a ler, ouvir e ver. Pareceria que a entrevista estaria sendo feita à época dos governos "a serviço do imperialismo americano e do capitalismo". Ninguém haveria de se lembrar que há mais de dez anos respiramos a atmosfera das mudanças promovidas por governos nitidamente populares. 
          O Elio Gaspari, em seu artigo, distribuiu elogios a todos os governos recentes, desde o de Itamar Franco – não seria do Collor? – até o da senhora Roussef. Segundo ele, o Brasil vai muito bem porquanto todos deram a isso sua contribuição. Não sei se o jornalista leva em conta o fato de que, ao se mexer nas engrenagens de um país claudicante como o nosso, os resultados dos reparos somente hão de ser vistos décadas após. Portanto, a herança dos mais ainda recentes, os de "esquerda", só será melhor apreciada no porvir. Aguardemos. Quem viver verá. 
          Mas, e os assassinatos? E nossa guerra? Quem dá jeito? Que têm os governos com isso? Fortaleza está aí como um campo de guerra. O mapa da violência demonstra com clareza: morre mais gente pobre e em bairros pobres. Vou pelas beiradas como quem come papa, que talvez haja um sociólogo comunista a ler-me e estarei em maus lençóis. (Sociólogo comunista é uma deslavada tautologia, se me permitem.) 
          Se estão matando os pobres numa chacina desenfreada, dentro em breve não haverá mais deles. Era assim que os últimos governos, os populares, tencionavam acabar com a pobreza? Eu julgava que eles fossem mudar o cenário das oportunidades; julgava que fossem transformar o judiciário de cima a baixo, de cabo a rabo, de vante à ré; julgava que fossem melhorar o ambiente de negócios; julgava que fossem jogar quase todo o dinheiro dos impostos na Educação; julgava que fariam o que os governos "capitalistas" supostamente, e segundo eles, não fizeram.
          Mas deixemos essas macro-questões e pensemos só em Fortaleza. Dizem que é a quinta cidade do mundo onde o fosso entre ricos e pobres é mais profundo. Essa é a cidade do salário mínimo. Quem aqui vive, sabe. Imaginem se não houvesse o salário mínimo. Teríamos aqui o retorno da escravidão ou quase isso. No mínimo o salário mínimo impede a volta dos navios negreiros.
          O rico daqui mora em mansões de muros altíssimos, ou em prédios cercados como penitenciárias. A seus funcionários pagam o tal salário mínimo, e os de bons currículos são impiedosamente rejeitados – dizem que não têm como pagá-los. Afinal, oferecem serviços de baixíssima qualidade, enquanto nossa indústria continua quase como há cinqüenta anos. Juízes e desembargadores bebem uísque com legisladores e executivos corruptos, enquanto jornalistas hipócritas e pseudo-cultos lhes emolduram os encontros em society pages de seus marrons jornais. 
          Nossos garçons são despreparados, nossos vendedores idem, e quem não tem renda que preste recorre ao governo pedindo seu "bolsa". Os outros, jovens aguerridos e testosteronizados, vão para o crack como usuário ou traficante e lá, cedo ou tarde, dão entrada no hospital ou no Instituto a fim de serem necropsiados. 
         Quem arrisca um palpite para o ano corrente quanto ao número de gente a morrer por obra de outrem? Tudo está como estava, nada foi feito. Tudo é como era, nada mudou. Porque em nossas cabeças trazemos mais do mesmo – uma pobreza sem fim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Elogio de bêbo

              Recostado a uma das colunas do restaurante, próximo à mesa do doutor Costa, olhava aqueles machos sentados a bebericar e apreciar os deliciosos acepipes do lugar.
          Ô vontade de tomar uma pinga!... Lambia os beiços que nem cachorro de três dias sem comer. Sim, mas aqui a lambida num era de vontade de comer a deliciosa panelada da dona Moça, mulher do Zé, o dono do pedaço, cozinheira de vante à ré, mas de vontade de beber uma braba. Enchia o copo até a tampa, um desses de requeijão, de vidro, quase meio litro o bicho devia de ter, e entornava ele de gute-gute. Eita, sensação boa! Tinha coisa melhor, não! Tinha dia que já levantava na ira e na intenção da danada. Cachaça boa é o cão! Eita, bicho bom! E de manhã cedinho? Tem coisa melhor, não! Era de café da manhã, de desjejum, como diria a mulher de um bacana qu'eu conheci uma vez. Hoje em dia o difícil é encontrar o diacho do copo de requeijão. Vende mais, não. É tudo de plástico pra num quebrar. A sorte é que guardei uma ruma desses lá no barraco. Mas nem preciso deles porque nunca chego com a cana em casa. Bebo tudo antes. Chego com a bicha na barriga e no juízo. Bicha boa da peste! Vô nem mentir...!
          O diabo é a liseira, a maldita pindaíba. Num tinha um tostão furado nos bolsos.  Tinha gasto tudim no dia anterior, ontem, numa meiota de Ypióca das boas, da branca que a amarela parecia num fazer mais efeito. Devia de ser coisa da minha cabeça. Cachaça é tudo igual. Nem sabia se tinha diferença entre uma e outra. Num devia de ter. Qualquer dia pergunto o doutor Costa. O que botassem, eu bebia. Queria lá saber disso! O negócio era filar a meiota do dia e, se desse, outra pra ir dormir cheio das idéias que dão no sono dos bêbos. Inda bem que hoje a casa ‘tava cheia e o Zé deixava ele vadiar por dentro do estabelecimento. Num fosse isso e... queria nem pensar! Onde arranjaria quem lhe financiasse a gostosa cachacinha? O dindim qu'ele gastou com a cachaça ele ganhou vigiando uns carros na porta da igreja. Cana é bom por isso. É barato que só bolo em fim de festa. É só ajuntar umas moedinhas e pronto.
          Num gostava de trabalhar. Vivia de uns bicos, uns servicinhos que fazia pras pessoas mais conhecidas, emendar um cano furado, rebocar uma parede, caiar um muro novo... Ia levando a vidinha como queria Nosso Senhor. Cachaceiro também é gente! Aproveitava que a negada tinha uma certa pena dele. Não era por ele ser cachaceiro. Era homem de bem, num fazia mal a uma barata, respeitava todo mundo, ajudava as senhoras a carregar peso, e servia às vezes de leva-e-traz nas fofocas picantes e causos de amor proibido. Sabia guardar segredo. A negada confiava nele. Se não lhe compravam a meiota, num usava de chantagem pra conseguir isso, não. Ficava por conta de cada um. Num era nem dedo-duro! Isso lá é coisa de home?!
          A pena que sentiam dele é porque sabiam de sua dificuldade financeira e de sua vida de vira-lata e cachaceiro. Se importava com isso, não. A vida é essa coisa sem rumo mesmo. Num queria nada além de viver apreciando, todo dia, o produto do alambique. Até pouco tempo atrás num sabia de onde vinha a cachaça, mas o doutor Costa, médico do lugar, outro dia lhe deu uma lição sobre o assunto. Falou um monte de coisa que ele num tinha entendido direito. Mas que a bicha era fabricada nesse tal de alambique isso ele num esqueceu de jeit'nenhum.
          Aliás, doutor Costa era o homem mais culto que tinha conhecido. Botava o Zé no bolso. O Zé, com aquela mania besta de parecer sabichão, num sabia era de nada. Quem sabia mesmo das "coisa" era o doutor Costa, médico operador e consultador. Intendia de tudo quanto era doença. Só vendo. Tinha curado uma ruma de gente, umas cortando, outras com remédio de beber. Homem de se admirar, esse doutor Costa. Chegava até a se orgulhar de ter ele como amigo. Doutor Costa num tinha essas frescuras que os outros médicos "tem". Esses são cheios de leriado, de mugangas feito muié de nêgo. Doutor Costa não! É homem humilde, metido com o povo, sabedor da precisão do povo. Conhecia a negada tudim. Outro dia, nem se lembrava mais quando, o Zé levou um passa-fora do doutor Costa que tive foi pena! Foi querer falar de doença causada pela cachaça com o home e se deu mal. Tive foi pena!...
          O diabo é que doutor Costa ia já, já embora e, pelo visto, era o único que podia lhe pagar a meiota de hoje. Queria ferrar a cachaça do doutor, que é home de ganhar um dinherim bom. Faz falta pra ele nadinha. Pra isso foi-se achegando mais, assim como quem num quer nada, rindo das piadas que a negada contava na mesa do doutor, e mais ainda das que ele mesmo contava. Era cheio de puxa-saco, esse lugar. Gente mais besta, essa! Antes que o home saísse, queria demostrar sua admiração por ele. Ficava mais fácil assim. Foi se achegando, se achegando..., aí disse:
          -“Doutor Costa!... aí eu vô dizer...!” – balançava a cabeça positivamente e apontava pro home como quem vai dizer coisa boa. E de novo dizia, cabra besta da muléstia!:
          -“Aí eu vô dizer...” – e rematou:
          -“Nem digo nada!”
          Aí doutor Costa meteu a mão no bolso e pediu o garçom pra trazer a meiota do papudim...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Bem feito!


          Não é que hoje voltei a consultar os jornais?!
          Sou, basicamente, um leitor de manchetes. Se quisermos lobrigar, ao longo do intrincado tecido do tempo, e que está delineada às headlines, nossa história mais recente e mesmo a não tão recente, leiamos as de hoje, as de uma semana atrás, as de um mês, as de seis meses, as de 1 ano, e assim por diante. A mais interessante de hoje foi justamente a da capa de um de nossos diários.
          Diz o seguinte, não literalmente: os prefeitos eleitos para cidades do interior do Ceará no último pleito encontraram as prefeituras em petição de miséria, ou repletas de dívidas e irregularidades. É o que se tem chamado de "desmonte". Em bom e claro português, os prefeitos que saíram deixaram uma montanha de sujeira moral, administrativa e financeira após satisfazer seus interesses no exercício do poder municipal. 
         Se há alguém a padecer em consequência da atitude desses senhores e senhoras, esse alguém é o povo. Não obstante, uma verdade deve ser dita: - é esse mesmo povo o que se vende a esses políticos canalhas e os elege. Então, merece esse mesmo povo que o digamos: -"Bem feito!" Vende-se barato, a conta sai cara, não há outro jeito.
          Mas há pior, no outro jornal que cobriu a posse do criminoso na Câmara Federal. Sabem o que disse o condenado? Disse algumas frases que só são mesmo proferidas neste rincão sem dono. Uma delas é essa pérola: -"Sinto-me confortável [em assumir o cargo de deputado federal após a condenação] porque estou cumprindo as regras e as normas de meu país". 
          Ora! se sente-se confortável por cumprir uma regra, deveria também assim se sentir por cumprir todas as outras, e não somente algumas, aquelas que lhe beneficiam. E completou, referindo-se a sua condenação: -"Espero que mais cedo ou mais tarde a verdade apareça. Estou cumprindo a Constituição." Se para ele a verdade ainda não apareceu, o nobre deputado está claramente declarando que todo o julgamento do Supremo Tribunal Federal foi uma mentira deslavada e pública e que seus ministros e elevados juízes são uma farsa, e com isso estão infringindo a Carta Magna. Não é de admirar que o excelentíssimo deputado afirme tais disparates assim abertamente quando sabe-se que seu partido tem como alvos principais, no presente momento, e como únicos obstáculos ainda a serem vencidos na implantação de seu projeto de poder infinito, a imprensa livre e o Poder Judiciário. 
          O elevado funcionário da República disse ainda que alguém só é considerado culpado, e citando novamente a Constituição, após o processo ter transitado em julgado. Ou seja: ele acredita que os recursos de apelação de sua defesa – que foram criados neste país apenas para serem citados por criminosos como ele quando interpelados sobre os crimes que cometeram – ainda lhe beneficiarão em alguma coisa. E – pior! – lhe beneficiarão mesmo, já que este criminoso ainda terá a chance de exercer seu mandato por um ano, pouco mais ou pouco menos, enquanto julgam-se o mérito dos referidos badulaques. 
          Para fechar a entrevista com chave de ouro, o homem saiu com a seguinte jóia, após desrespeitar a Corte Suprema através de seu discurso difamador: -"Respeito os poderes, mesmo discordando de certas decisões." Ora! o homem implicitamente desrespeitou e depois explicitamente disse respeitar! Vejam que o político é um ser letrado na tergiversação e no discurso oportunista e caviloso. Não há que se surpreender. 
          O que quer que aconteça ou que venha a seguir, o mais cômico de tudo é que o senhor José Genoíno, em assumindo seu mandato de deputado federal, torna-se legislador, o homem que faz as leis, as mesmas que ele quebrou, embora alegue não as ter quebrado, mesmo sob o peso das provas contra ele. Seria irônico além de cômico? ou seria trágico além de patético?
          (Acho que passarei uns três ou quatro dias sem abrir os jornais...)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A morte do óbvio


          "Paz, felicidade, e alegria para o ano de 2013!", dizia a entrevistada de certo telejornal. Antes o âncora anunciara latrocínios, assassinatos, pessoas que pereceram à porta do hospital a espera de atendimento, acidentes automobilísticos fatais, assaltos, e tudo o mais de ruim que somente o bicho homem é capaz de proporcionar. Tudo isso aqui, por esse Brasilzão afora.
          O estado de saúde do famigerado Hugo Chavéz piorou e na Venezuela as comemorações do ano novo foram canceladas. Há de ter sido uma senhora piora já que o homem é, para eles, um senhor presidente. Sobreviverá seu líder ao ano que vem? Ninguém sabe... Em todo caso, e ao que parece, os venezuelanos preferem se condoer de um único mau prognóstico. 
          Por aqui, mesmo sem uma trégua em nossas contínuas e perenes tragédias como anunciado no já referido telejornal, o prognóstico para o ano é de "paz, felicidade, e alegria". 
          É mesmo? Será que é mesmo? Deve ser, porque não seria "politicamente" correto pensar de outra forma. Por exemplo, como a nossa festa de Réveillon. Quem ousaria divergir de tão arraigado paradigma? Devo admitir: quando nossa loira e desvairada ex-prefeita anunciou que a prefeitura não realizaria, esse ano, nossa festa de Réveillon, vibrei de contentamento. Não obstante, que importa o que penso e o que acho? Nada importa, a ninguém importa – essa seria a mais absoluta verdade.
          Quem liga se disser o que todos estão carecas de saber? Quem liga para frases de efeito e, mais ainda, para textos de efeito, que se debruçam sobre nossa insensatez e teimosia em seguir com mais do mesmo? Ninguém liga. O óbvio está se tornando cada dia menos óbvio e é muito possível que um dia desapareça. Em breve o jornal trará estampado na manchete de capa em letras garrafais: "Morre o óbvio"; e a matéria iniciará dizendo: "Morreu ontem de velhice um velho conhecido de todos, o óbvio. Ele estava no CTI há vários anos e não resistiu aos incontáveis insultos sofridos nos últimos meses. O sepultamento será amanhã etc. etc. etc."
          E, assim, ninguém mais ouvirá falar de sua existência. Será esquecido tão rápido que nem lhe farão a missa de sétimo dia, por pura falta de memória. Dele não sentirão saudades. Terá ido tarde, eis a verdade. Depois disso nada será como antes. Sem ele nada mais será óbvio. Tudo há de merecer as explicações mais estapafúrdias e esdrúxulas que se poderão dar. Novas profissões nascerão, e novas escolas serão criadas para estudar os fenômenos cuja razão de ser pereceram com o óbvio.
          Segunda passada, ao chegar ao hospital, me deram a notícia: -"Faleceu o Zé Milton!" (O Zé era o funcionário da segurança no segundo andar, à entrada da unidade 11 e do gabinete odontológico.) Morreu no sábado, 29 de dezembro de 2012, a menos de três dias do ano que estava para chegar. Na sexta ele veio de lá, seu velho sorriso estampado no rosto simpático, a me desejar o óbvio para o ano que se inicia. Como de praxe, é óbvio, desejei-lhe o mesmo. Pois aconteceu-lhe o óbvio. Como o óbvio está no CTI, nas últimas, preciso encontrar urgentemente alguma explicação que me convença do porquê dessa tão inconveniente morte.
          Hoje, por uma infeliz coincidência do destino, fui chamado a amputar um membro. Era uma criança, uma criança de 10 anos, uma linda criança do sexo feminino, cuja voz denunciava sua exuberante inocência diante da crueldade de que fora vítima. Aconteceu-lhe o seguinte.
          Seu pai, proprietário de um pequeno comércio na cidade de Icó, no interior do estado, foi vítima de um assalto. Maria Eduarda, sua filha, brincava à entrada do local quando chegaram os facínoras atirando para todos os lados. Uma bala atingiu-lhe a perna e estraçalhou-lhe os vasos sangüíneos. O tempo entre a agressão e o socorro e a gravidade da ferida contribuíram para o mau resultado do reparo vascular inicial, e ela evoluiu com uma gangrena isquêmica da perna esquerda. 
          O óbvio, que está a agonizar no CTI junto com a saúde e a segurança pública, teve acessos e convulsões. Dir-se-ia ser seu momento final, seu último suspiro. O que representaria seus ataques e apoplexias? Talvez queira dizer que não importam que se lotem as cadeias e se alastrem as novas penitenciárias em território nacional com as desejadas e bem-vindas mudanças no Código Penal, como a prisão perpétua e o desaparecimento de badulaques jurídicos criados para livrar a cara dos tubarões do poder, e que acabam por beneficiar bandidos de carreira, desde que se trancafiem esses malfeitores que trucidam pessoas de bem e crianças inocentes. Mas ele está de mal a pior, o óbvio. Já não lhe creditam uma nesga de seriedade. Se os bandidos fazem as leis, ou têm o poder de mudá-las, por que as mudariam? se ela, a lei, vai servir a puni-los? O óbvio usaria de tal argumento, mas ele está quase morto e enterrado; é só uma questão de tempo.
          E eis que um criminoso, um dos tais tubarões, um tal José Genoíno, julgado e condenado a quase 7 anos de cadeia na maior instância jurídica do país por corrupção ativa e formação de quadrilha, assumiu hoje seu mandato de deputado federal como se sobre ele não pairasse um "tudo consta". Que nos diria o óbvio se disso soubesse? e antes que se vá de vez? 
         Antes da triste missão a mim imposta, mutilar por necessidade imperiosa uma criança na flor da infância, recebi por correspondência eletrônica, de um amigo, um artigo dando conta de que a imprensa inglesa está em guerra contra o Brasilzão porque os interesses dos investidores britânicos estão sendo reiteradamente contrariados por nossos competentes e sérios governos de "esquerda"; dando conta de que o desemprego lá aumentou e aqui encolheu; dando conta de que nossa economia cresceu e a deles minguou; dando conta, enfim, de que nosso país está um primor e o deles uma bela porcaria. 
          Não saberia dizer o que mais me indignou, se a tibieza do amigo – um homem bem formado, viajado, bem alimentado, bem casado, asseado, de bolsos recheados do bom e tão combatido vil metal –, se a afronta ao pobre e indefeso óbvio, nunca antes tão insultado em toda história da humanidade. 
          Ainda agora me escorrem as lágrimas, não pela Inglaterra e sua tragédia econômica que ninguém vê; não pelos eleitores do José Genoíno, seguramente pouco incomodados de terem votado em criminoso condenado; não por mim mesmo, um tolo a perder tempo injetando às veias de um moribundo – o pobre óbvio – um soro tão diluído quanto café de preso. Choro por Maria Eduarda, cuja vida foi tragicamente e radicalmente mudada por uma sociedade podre, canalha e egoísta; choro por meus amigos idiotas que se negam a ir ao CTI visitar o óbvio em seus momentos finais, enquanto ainda há tempo e enquanto os britânicos não resolvem invadir seu Brasilzão; choro por quem acredita em prognósticos tão favoráveis, quando os "critérios de Ranson" apontam para uma pancreatite fulminante e evidentemente fatal; e choro pelo Zé Milton, tão jovem e tão do bem, prematuramente passado da vida para o além. 

O NARCISO DO MEIRELES

Moravam numa bela casa no Parque Manibura.  Ela implicava com ele quase que diariamente. Era da velha guarda, do tempo em que o homem saía c...