domingo, 31 de julho de 2011

Dia do orgasmo

Conta a crônica da mitologia corporativa que certo professor, ao iniciar palestra sobre o impacto da mágoa no coração do homem, teria pedido a seus alunos que tomassem as lisas folhas de papel ofício que jaziam sobre cada uma das mesas à sua frente e as amassassem bem. Assim o fizeram. Em seguida, o mestre solicitou que eles tentassem restaurar as folhas de papel à sua condição inicial, abrindo-as e esticando-as. Ficou então óbvio que as folhas jamais poderiam voltar a ser como antes. Ele, por conseguinte, arrematou: -“Assim é o coração humano.” O efeito da experiência na mente dos pupilos foi notável e impactante.
            Por uma dessas felizes coincidências descobri que hoje, 31 de julho, é o dia do orgasmo. Fui numa das redes sociais e anunciei: -“Hoje é o dia do orgasmo!” (Esses são dos melhores temas a se anunciarem nas redes sociais.) Seguiu-se uma avalanche de comentários. Alguém, abismado, queria saber quem teria criado tal “homenagem” ao clímax do prazer.
            O tal dia foi criando na Inglaterra por redes de sex shop. Elas teriam realizado pesquisas que revelaram que 80% das inglesas não têm orgasmo em suas relações. Pesquisas nacionais mostraram que 50% das brasileiras têm “problemas” orgasmáticos e que “12 milhões de nossos homens sofreriam de alguma disfunção sexual”. Justifica-se, assim, do ponto de vista médico, a criação do dia.
            Que 80% das inglesas não gozem não é assunto que nos interesse. Já os 50% de brasileiras que fingem são um problema de segurança nacional. Imaginem a dimensão da coisa: de cada duas mulheres, uma não goza nem que a vaca tussa. Se você, meu amigo, já esteve na cama com vinte mulheres saiba que dez delas já te esqueceram há muito, exceto a que se tornou amiga do peito. Vejam bem que não estou a incitar a que se conte o número de parceiras que se já teve. Eu sei que tem uns caras aí que são dados a esse esporte pouco romântico e chauvinista, mas o que digo me serve apenas como ponto de análise a ser apreciado na prática.
            Invertamos o gênero na berlinda. Quantos homens sexualmente ativos tem o país? Digamos que tenha 50 milhões, e não me perguntem por que escolhi esse número. (É o resultado de um rápido cálculo mental cujos métodos e parâmetros eu não confessaria nem ao médium depois de morto.) Então não seríamos 50 milhões; seríamos de fato 38 milhões, já que 12 milhões estão a viver tentando, e nada ou pouco conseguem.
            Ponhamos novamente o sexo frágil à berlinda. Digamos que haja também 50 milhões de mulheres sexualmente ativas. Dessas, 25 milhões são elegantes e cínicas fingidoras. Eis, em poucas palavras, uma visão geral e comedida de nossa tragédia nacional. Temos 37 milhões de frustrados sexuais e, quiçá, outro número enorme dentro deste, de punheteiros, siririqueiras, voyers, e tantos outros tipos alternativos de “sexo” que visam compensar o normal que lhes é impossível.
            Bem se vê a importância do dia 31 de julho como o dia do orgasmo. Uma multidão sem ele implora a que sejam lembrados, numa tênue esperança a que um dia venha compartilhar de seus benefícios.
            Não sei se fale sobre a relação de cada gênero com o orgasmo. Será que falo? Não falo... Vou falar só um pouquinho.
            É sabido que a mulher tem uma relação conflituosa secular com o orgasmo, e há povos que impõem a ela a própria mutilação para impedir que os tenha. Aos que duvidam sugiro Infidel – my life, da somali Ayaan Hirsi Ali, um contundente e impressionante relato de uma vida em busca da liberdade e, hoje, em fuga dos ainda vigentes opressores. Há de residir nesse conflito e opressão da mulher grande parte das causas de sua infelicidade sexual e escassez orgástica.
            Ao homem resta o artefato da necessidade de corresponder à expectativa do macho e garanhão, máquina incansável de sexo, exemplo de espécime que dá duas ou três sem tirar. É muita responsabilidade. Duas ou três sem tirar beira a insanidade fisiológica e a anormalidade patológica. É caso para internamento ou remoção da prótese.
            Assim, que tenham todos um excelente dia do orgasmo. Sem culpa e com benefícios para a saúde. O orgasmo não deve tornar o coração do homem (e da mulher) como o irremediável papel amarrotado que não se refaz; não deve ser fonte de sofrimento e dor. 

sábado, 30 de julho de 2011

Nova quizumba do Amorim

Outro dia Amorim me confessou, numa profunda melancolia: -“Só sinto prazer no cigarro”. E completou, como para não deixar a pender nenhuma dúvida: -“É meu único lazer”. E passou a explicar o porquê de acender um cigarro no outro.
            O caso é que o homem está a se divorciar, num processo difícil e complicadíssimo. Quer pôr a mulher fora de casa, ao que ela já deblaterou: -“Não saio nem a pau!”
            Habitam, assim, e não se prevê por quanto tempo, sob o mesmo teto. Perguntei-lhe como dormiam. Respondeu-me: -“Dorme no quarto da filha.” Abandonou o leito matrimonial desde que descobriu o caso do marido com a secretária do lar, e após lhe enxotar solenemente "para o quinto dos infernos”, nas palavras do próprio Amorim. Comunicou à justiça a separação de corpos.
            Ao início trocavam farpas e alfinetadas. Houve vez em que quase desceram às vias de fato. Ela, astuta, deu queixa do homem na delegacia da mulher. Não lhe tocara num único fio de cabelo, mas elevara a voz, ou a ameaçara de alguma forma. Talvez tenha se sentido em perigo. Quem há de saber? Parece que foi chamado pela delegada a dar explicações. A verdade é que Amorim é incapaz de fazer mal a uma mosca.
            Todavia, mesmo os que não fazem mal às moscas e se pelam de medo de baratas, às vezes, são vítimas de acessos. Quem sabe do monstro que nos dorme às profundezas? Ninguém, eis a verdade. As fúrias já fizeram incontáveis mártires, suscitadas pela química visceral.
            Hoje desfrutam, Amorim e a mulher, de uma paz conveniente, à espera da audiência de “conciliação”. Afinal, e no frigir dos ovos, eles ainda são um casal casado. É como se tudo houvesse amainado, enquanto se ajuntam, de cada lado, todos os exércitos para a guerra feroz que, sabe-se, inexoravelmente virá.
            Por isso fuma em demasia o Amorim. As milhares de substâncias do cigarro o acalmam e dão prazer. Leva uma vida miserável tentando proteger o patrimônio que já nasceu condenado a virar pó. Leva uma vida miserável em embate inútil e perigoso. Já dissemos – as fúrias são tempestades químicas cujos resultados são imprevisíveis e, no mais das vezes, funestos. A crônica policial está repleta deles.
            Agora, mais recentemente, até que, ao que parece, fuma menos. O segredo é um novo amor. Está a namorar a ex-sua secretária do lar. (Ou seria melhor escrever “sua ex-secretária do lar”? Tudo estaria a depender do fato de a moça ter abandonado a profissão ou não.) Uma coisa já é certa – de funcionária ela passou a dona de seu coração. Terá encontrado nesse novo amor o prazer que perdera ao início da quizumba. Com efeito, me segredou: -“É um furacão sob os lençóis!” E sai a detalhar suas peripécias sexuais mais acrobáticas e incríveis.
            Qual será o prazer das amebas?, é o que me pergunto. Serão banhadas por dopaminas, serotoninas e endorfinas ao momento da mitose que as reproduz? Ao menos não serão objeto de sofrimentos e frustrações recalcitrantes. Demonstrou elegantemente o Dan Ariely: o homem é um ser de uma irracionalidade cômica e previsível. 

Óbvias tergiversações

Nunca sabemos em que vamos nos tornar. Conheci um sujeito que em criança era o próprio demônio. Quando se fez adulto tornou-se o homem mais doce que se poderia – ou melhor, que não se poderia – imaginar.
            Devem ter assistido ao filme sobre “O estranho caso de Benjamin Button”.  No livro do Fitzgerald, que escreve na 1ª pessoa como se fora o B. Button, ele começa dizendo: “Eu nasci sob circunstâncias pouco usuais.” Não era pra menos. O sujeito nasceu com a idade de 80 anos. Imaginem o que pensariam as pessoas da época sobre o futuro desse indivíduo. É provável que não lhe dessem muito tempo de vida. Seria a progeria. Mas, eis que o “garoto” passa a rejuvenescer e vive a vida ao contrário no que concerne ao tempo.
            Então, é fato inconteste – nunca se pode prever em que uma criança irá se tornar. Dito assim parece que estou a alardear o óbvio.
            Outro dia Paulinho me bate o telefone, num desses raros acontecimentos da vida. Paulinho só me liga quando conta comigo para amputar os membros dos desafortunados de sua enfermaria da Unidade de Queimados do IJF. Anseio, de sua parte, uma ligação para um café, uma cerveja, dois dedos de prosa, mas não. Assim, quando o vejo a me ligar já se me encrespam os pelos como as cerdas bravas do javali, usando uma do Nelson. E o que me disse ele? Disse-me que gostava do que escrevia, mas que, às vezes, eu “viajava na maionese”. Viajar na maionese, fui ver, significa “estar errado sobre algo”.
            Embora não me tenha dito sobre o que especificamente estava errado, pediu-me para ir aos Queimados avaliar um de seus pacientes. Devo ter amputado algum membro em dia subsequente, pois é para isso que me chamam, mas continuo sem saber em que viajo na maionese. Fiquei, desde então, pensando em minhas viagens no branco e delicioso gel e cheguei a mais inaudita das conclusões: ninguém se dispõe a dizer o óbvio.
            Ninguém, vírgula. Disponho-me a dizer o óbvio. Há belas e meigas crianças que se põem, à adultícia, as mais terríveis máscaras. Estou a usar de uma espécie de eufemismo, já que máscaras não se prestam a esconder a virtude ou a beleza. Ainda assim preservemos, aos que as usam, o direito ao remorso. Imaginem, no senhor Benjamin Button, um velho canalha a se transformar na pura e lânguida criança do futuro. Ou esqueçamos o personagem do Fitzgerald e imaginemos o contrário.
            Segundo o Rousseau, em seu estado natural o homem é puro e imaculado como uma fonte d’água límpida e transparente, justamente e condizente aos nossos bíblicos pais. Assim, algo em algum momento corrompe o homem. (Reparem que insisto no óbvio, e que o filósofo não se reportou aos nossos bíblicos pais.) Se algo o corrompe, em cada caso há que se buscar seu agente corruptor se se pretende entendê-lo.
            Tenho um amigo que, diferente do outro que se aperfeiçoou, deteriorou-se com os anos. Ocorreu com ele o seguinte. Era atleta bem sucedido, ganhador de competições, títulos e medalhas, da infância à adolescência. E aconteceu de, em adulto, vir a apreciar o uso de drogas legais e ilegais. Se passar de abstêmio a bebedor foi o assassinato de sua saúde física, passar ao uso de drogas ilícitas representou a degeneração de seu caráter.
            Drogas são drogas, não há o que discutir. Cada um escolhe se as usa ou não, e como as usa. Usar a droga que é pivô e razão de ser do crime organizado é fomentá-lo e financiá-lo. O sujeito que o faz pode bem ser visto como participante de tudo o de ruim que está ligado ao seu consumo, distribuição e produção. Afinal, é para ele que o sistema criminoso trabalha.
            Pergunto-me ainda, do alto de minha completa ignorância e após tantas considerações à periferia do tema, o que teria corrompido meu amigo. Quando me assaltam as idéias nefastas, as tentações diárias e inevitáveis, tento me acautelar em minha consciência. Erra-se ou faz-se o mal de forma consciente. Esconder-se covardemente no coma momentâneo é mau modo de proceder. A certa idade já não é possível esconder-se de si mesmo. Então, se procedo mal não terá sido por desconhecimento. Sabemos o que estamos a fazer.
A tentativa constante de negar a existência do mal vem a serviço da justificativa dos erros. Seria a forma mais moderna, ainda que pouco inteligente, de aplacar a angústia e a culpa. Ver-se envolvido intimamente, por laços de amor fraternal, com pessoas que fazem papel central no teatro de uma das maiores mazelas humanas da atualidade é de deixar qualquer um perplexo. Ninguém é perfeito a ponto de ter a autoridade para atirar a primeira ou a última pedra.
São essas as reflexões que faço diante de tão desconcertante situação da vida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Cláudia Viot

Conheci-a em meados dos anos ’70. Éramos adolescentes. Em sua casa conheci minha primeira mulher. Costumávamos conversar sentados à entrada do portão até tarde da noite. Naquele tempo tínhamos paz, ou os bandidos dormiam cedo, ou eram poucos os assaltantes, ou não havia ódio, como hoje. Muitas vezes juntávamos um monte de gente e ficávamos lá, na soleira do portão, sentados nos degraus, a conversar conversa de gente miúda, de gente desinteressada, de gente sem ambição, de gente sonhadora, de gente repleta de inocência e de ilusões. Éramos assim. Quase quarenta anos nos separam daquele tempo.
            Pensei, durante muitos anos, que a saudade dos tempos de infância e juventude era ubíqua entre todas as pessoas. Foi triste e decepcionante descobrir que estava enganado. Foi dessas ilusões tardias a se desfazer em mim, e já não me restavam muitas. Descobri, tardiamente, que há pessoas que não tiveram na infância a chance de serem crianças, e na adolescência a chance de serem adolescentes. Por conseguinte, não compartilhavam comigo esse sentimento a respeito daqueles longínquos anos. Vi até mesmo esgares de nojo quando mencionava algum encontro de amigos das fraldas. Concluí, então, que não, nem todos haviam sido abençoados com uma excelente juventude e infância.
            Quem há de lidar com o tema – a má infância e a problemática adolescência – são os psicólogos e os psicoterapeutas. Quem há de lidar com a inadaptabilidade do adulto são eles também. Assim, fiquemos nós, os bem-aventurados, longe deles – dos terapeutas – e, se insistem em caretas de asco, também de seus pacientes.
            O problema que nos aflige é outro, de outra natureza, que não chega a nos cobrar com a perda da saúde mental, afetiva e emocional – a morte ou a ameaça da morte do antigo amigo. Desde sempre fomos todos, saudosistas e não saudosistas, impactados pela existência da peremptória. O pouco de tempo que temos gastamos a ludibriar-nos a nós mesmos, como se a tentar ludibriá-la também, até que ela chegue de vez e tolha primeiro a quem amamos, e depois a nós mesmos. Construamos a seguinte e absurda hipótese, a de que sofre menos o que não é apegado ao seu passado.
            Se não tem apego ao passado, e o passado inclui principalmente as pessoas que nele habitaram consigo, não sofrerá ao desaparecimento de alguém que lá com ele conviveu. Seria justa tal assunção? Seria correta a tese aparentemente insana? Não se sabe, eis a resposta. Respondam lá os próprios desinteressados. E seria ótimo que o fizessem trancados em recinto a sete chaves, para que não víssemos novos e mais caricatos esgares.
            Volto aos anos ’70 para lá encontrar minha querida, doce e linda amiga Cláudia Viot. Poderia simplesmente ir ao hospital, onde jaz em leito da unidade de terapia intensiva, mas hesito. Prefiro me embalar na lembrança, nas doces horas e dias em que convivemos; nas noites de céu claro que nos diziam que a vida era para sempre e que ainda muito nos aguardava de bom; nos dias de brincadeiras e risadas a nos cobrir da felicidade dos anos de ouro... Prefiro viajar no tempo, até que me chegue a coragem de ir vê-la ali, sob a tirania e o milagre dos aparelhos que a mantêm viva.
            E confesso: - fui.
Adentrei o hospital e, enquanto entrava por corredores e elevadores, pensava que conseguiria. Mas não pude. Não fui capaz. Não queria contemplá-la naquele estado, em seu leito de morte talvez. Voltei. À porta de entrada de onde ela estava fui fulminado por um desinteresse enorme. Uma sensação de inutilidade se apoderou de mim. Não havia no momento algum familiar com quem eu pudesse falar. Queria ter com eles apenas para lhes dizer da dor que nos lancina, que nos fere como a eles; apenas para que soubessem que estamos com eles nesse momento tão difícil.
Eles devem estar exauridos em suas forças. Devem ter ido repousar. Desci pelas escadas como para prolongar minha saída.   
O Senhor sabe o que faz.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Um não tão bem pago pervertido

Hoje perdi a compostura. Não digo que tenha ferido os brios de alguém, porque não o fiz. Feri, sim, o status quo. Esse precisava de um corretivo. Feri-lo, como o fiz, talvez seja nada, ou menos que isso. Seria como a influência das barbatanas dos peixes nas correntes marinhas. Não importa. Atingi-lo me aliviou a angústia que me corroia, e que ainda me desgasta.
            O momento presente dá-nos uma vantagem, se o compararmos a épocas passadas: – as mudanças estão ocorrendo tão rapidamente que é possível senti-las na pele. Mudanças lentas e graduais são, quase sempre, perceptíveis apenas serodiamente, e tarde demais para permitir adaptações ou rearranjos. Uma adaptação, contudo, nunca é bem-vinda, a julgar pelo que diz a máxima: – adaptar-se é a força dos fracos. 
Fazer frente às mudanças é, portanto, necessidade imperiosa e rearranjar é, provavelmente, a opção única na mente de nossos concidadãos. Melhor seria se se pudessem prever as mudanças. E, de fato, no presente momento já podemos antever o que virá, uma vez que os dados disponíveis estão se alterando em direção conhecida. Tomemos como exemplo o trânsito nesta cidade.
Uma única mudança, rápida e a olhos vistos – o aumento da frota –, permite prever a paralisação completa do tráfego em vários pontos da cidade a ocorrer muito em breve. Adaptações foram feitas, mas de nada serviram. Rearranjos também foram ensaiados, com resultados pífios. Então, o que se impõe?
Impõem-se outras mudanças que corrijam os efeitos da primeira. Tati, uma amiga, adora as frases do Einstein. Diz ela que ele disse – e disse mesmo – que não se podem esperar resultados diferentes agindo, ou pensando, da mesma forma. Pois esta decadente cidade só suportará a frota crescente se ela própria mudar, transformando-se numa outra cidade.
Voltemos ao corretivo no status quo.
Todos fazem parte de um sistema. (Outro dia falei dos sistemas.) Não sei quanto aos outros, mas faço questão de ser parte de um sistema que funcione. Se na vida somos obrigados a fazer parte dos malditos sistemas, que façamos parte de um sistema vencedor. As pessoas pensam que, já que inevitavelmente farão parte de qualquer sistema, podem continuar fazendo parte de um sistema derrotado. E por quê? Porque não conhecem sistemas vencedores.
Eu fazia parte de um sistema perdedor, um sistema que não estava nos meus planos, pela maneira com que se aviltou. Na verdade, a princípio era um sistema vencedor, mas as mudanças sensíveis e rápidas levaram-no ao colapso. Por isso hoje ele é um sistema inteiramente solapado. Rearranjos e adaptações foram feitos, mas, como no caso do trânsito de Fortaleza, os resultados foram ordinários.
Duas alternativas se apresentam quando o sistema do qual se faz parte vai à bancarrota: ou se vai com ele, ou se o abandona. Por que, em sã consciência, alguém optaria por errar e permanecer no erro? Uma única resposta: porque se corrompe junto com o sistema. Os sistemas pagam para que deles façamos parte. Quando ele se corrói, se destroça, ainda segue remunerando as suas partes, que subitamente perdem de vista seus ideais iniciais e aceitam ser destroços desde que ainda recebam a pecúnia viciada.
Sistemas falidos são a causa maior da des-realização de qualquer profissional minimamente comprometido com seu ideal; são a fonte mais conspícua de insatisfação profissional e infelicidade no trabalho; são os geradores mais comuns de litígios entre seus elementos.
Apesar de tudo, há atenuantes para as partes que compõem o sistema vexatório. Não são elas que não prestam: é o sistema. Algo no sistema o paralisa, seja o modo incorreto como suas partes se inter-relacionam, seja o não estabelecimento inicial e precípuo de sua missão, seja a não adesão de suas partes aos princípios e normas que regulam o sistema. Assim, é perfeitamente possível que o sistema tenha excelentes partes e ainda assim soçobre. Da mesma forma há agravantes para as partes de um sistema falido. Cabe a elas lutar para corrigir as causas de sua inoperabilidade. Nada de fora do sistema pode fazê-lo. Por isso a correção requer a cooperação e participação de todos. Sozinha, nenhuma parte lhe será vicariante.
          Um sistema obedece à lei do tudo ou nada. De fato, um sistema em colapso nem mais sistema é. Prefiro ser nada fora dele a ser um não tão bem pago pervertido.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Não sabem o que perderam

Dirão alguns que sou um homem de obsessões momentâneas, e responderei que, sim, é verdade. Pois como não o ser, ainda que momentaneamente, se estão sempre a inflar minhas teimosias? Um homem resiste a muitos e muitos desejos, mas não a todos. Aí reside a sua fraqueza, a sua eterna vulnerabilidade, a sua sina de sofrer em conspurcações contínuas. Os arautos da libertinagem soçobram nesse oceano apenas para se afogar em suas águas negras e eternas. Então, não sejamos libertinos. Deixem-me apenas com minhas compulsões sobre o ideário da vida. Vai-me bem assim.
Eu tanto falei das tais redes sociais que alguém comentou, outro dia, que um evento qualquer de uma rede social reunia – sempre, pelo que entendi – mais comentários que este blog. Emiti um silêncio profundo diante de meu interlocutor. Estamos sempre tentando catapultar nosso self marketing, e nada mais a calhar para tal propósito do que uma rede social. Não é o meu caso. Não sei se lembram do João Batista de Oliveira Figueiredo, último presidente da ditadura militar. Perguntado sobre o que diria aos brasileiros, ao final de seu governo, fuzilou: -“Que me esqueçam!” O homem queria se entocar lá não sei onde com seus cavalos – gostava de cavalos – e ser sumariamente esquecido. De um pecado não podem acusá-lo, a vaidade. Não buscava exaltação pessoal.
Agora, vejam como o dia seguinte é o lapso de tempo muitas vezes necessário a que se provem as teses de ontem. Fomos todos a um sarau em casa particular. De fato não seria um sarau, já que não se abriram livros. Foi, na verdade, uma festa entre poucos amigos. E, entre eles, lá estavam alguns que vivem imersos nas redes sociais, e outros que se relacionam à moda clássica. E por que faço tal distinção? Por uma única razão digna de nota: - os amigos das redes chegaram tarde e saíram cedo.
Uma festa entre poucos amigos possibilita fazer o que de melhor há entre amigos: - jogar conversa fora. E mais: pessoalmente, ao vivo e a cores. Podem se abraçar, trocar ósculos, aparar arestas, matar saudades, debater sobre a novela e, entre as mulheres, fofocar e falar da vida alheia. Podem gastar a noite inteira na festa fazendo tudo isso. Não foi, todavia, o que fizeram os amigos das redes. Por pouco mais de uma hora lá permaneceram.
Anunciei, conclamei, implorei em alto e bom som: -“Mais saraus e menos redes sociais!” A história é ainda pior porque é sabido da dificuldade, hoje em dia, de se promoverem festas como esta última. Nos anos ’70 existiam as tertúlias e os amigos se batiam nas casas alheias quase que diariamente. Surgiu, naquela época, o “penetra”, aquele que entrava na tertúlia de desconhecidos. Legiões de penetras perambulavam pelas ruas à procura da tertúlia da sexta ou do sábado, onde quer que fosse. E os anfitriões não davam a mínima. Acabavam fazendo novos amigos, de modo que ao final da década não mais existiam os penetras, não havia mais desconhecidos para invadir a tertúlia.
Na festa do último sábado sobraram cinco amigos que permaneceram até o raiar do dia e mais um pouco. Vocês das redes sociais não sabem o que perderam.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Uma Índia de antiamigos

Algumas pessoas – os amigos em particular – têm nas palavras,muitas vezes, mensagens involuntárias e preciosas que levam a profundas reflexões. Ontem, conversando com o Rodriguinho, que é uma pérola de ser humano, ouvi-lhe a seguinte frase a propósito de não sei quê: -“Mas, você é amigo de todo mundo!”
            Vocês hão de convir que certas frases, certas idéias, nem sempre são bem entendidas ou compreendidas ao início, tão logo são emitidas ou explicadas, ainda mais para um sujeito de inteligência limitada como eu. Ainda assim, experimenta-se uma espécie de vertigem ao momento. Foi precisamente o que me aconteceu. Quando ele falou as palavras, senti uma leve tontura, como uma suspensão sensorial parcial e suave, uma sensação de onirismo e irrealidade. Vejam que nem me recordo sobre qual assunto falávamos, nem qual o tema de nossa prosa, mas a frase foi pungente. Despertou não sei que pensamentos ou concepções adormecidos.
            Contudo, tudo que dorme eventualmente desperta. Não poderia ser diferente com os monstros que dormiam dentro de mim. Mais tarde, aquieta-se a mente e as vozes falam. No silêncio dos pensamentos, na quietude do único lugar onde se está só, vieram-me eles falar. E o que disseram me preocupou deveras.
            -“Mas, você é amigo de todo mundo!” Ora, sou amigo de todo mundo? Como posso ser amigo de toda essa gente? Como pude passar a idéia de que sou amigo de toda uma China? E não só isso – como pude passar a idéia de ser amigo de todo um planeta?, era o que me indagava. E a frase do Rodriguinho, que, diga-se de passagem, não trazia em si nenhum juízo de valor, me ressoava ao ouvido como um ruído incômodo, como uma dissonância fora do acorde, como o zumbido dos otopatas.
            E por que me perturbava a frase do amigo, se fora proferida na inocência de sua alma? O que ela me fazia pensar é se eu não deveria providenciar, com a máxima urgência, uma meia dúzia de inimigos. Era exatamente isso o que me encafifava. Deveria eu tirar da manga uns poucos inimigos, ainda que fosse? Descobri, assim, a verdade inelutável: não tenho sequer um único, mísero e solitário inimigo. Já me sentia uma mutação ambulante por não os ter. E insistia a me inquirir: deveria tê-los?
            De longo tempo já vinham alguns amigos a me condenar por não ter inimigos. Vejam o Casoba, por exemplo. Alcunhou-me de “pomada”. Quando eu comentava de outros amigos ele, enciumado, fuzilava: -“És um pomada!” E, assim, taxou-me como sendo um sujeito que não se indispunha com ninguém pelo simples e tacanho motivo de não me indispor com ninguém.
            Os monstros que rosnam em mim, do fundo de minha consciência, sempre o fizeram tão logo assim interpretaram a minha suposta falta de inimigos. Ora, o que é um inimigo? Um inimigo pressupõe alguém prejudicial, nocivo, ou hostil. Direi apenas que todo ser humano que me parece nocivo ou prejudicial é premiado com o meu alijamento de seu convívio e, assim, jamais se chegou ao ponto da inevitável hostilidade que se manifesta entre inimigos declarados. Transformam-se, dessa maneira, os potenciais inimigos em antiamigos.
            Angariam-se múltiplos inimigos ao se lançar à competição desenfreada por o que quer que seja, ou quando se permite o inflar de egos viris. Um ego ferido é fonte perene de hostilidades. Assim, por não competir por nada e por domar o ego a ponto da humilhação é que passo a idéia do homem sem inimigos, do homem amigo “de todo mundo”, do “pomada”. Não sabem os amigos como tenho me esforçado por manter à distância pessoas cuja convivência, no dizer de meu querido Casoba, seria para mim diminuidora.
Não tenho inimigos; tenho, sim, uma Índia de antiamigos. É tudo uma questão de jogo de cintura. A paz é um dos ingredientes da felicidade.

Um cruel e mau sistema

Outro dia escrevi sobre uma idéia que cada vez mais se dissemina e – pior! – cada vez mais se torna crível: não há o mal (O pior mal é o que não existe, 14.05.2011). Dia após dia torna-se uma certeza maior: não há o mal. Particularmente entre nós, neste país de desvarios, cresce, imbatível, a certeza: não existe o mal. Todavia, há pior. Como já disse, há pior.  
            Darei exemplo. Na prática médica em certo hospital municipal, pisam-se os fundamentos, as evidências, os tratados e se pratica a pior medicina possível. Por quê? Porque, segundo a torpe idéia da inexistência do mal, não há a boa nem há a má prática. Simplesmente há uma determinada forma de praticar medicina que está acima – ou abaixo – de qualquer julgamento, acima – ou abaixo – de qualquer crítica, acima – ou abaixo – de qualquer juízo. Uma vez que não há o bem nem o mal, está tudo, todo e qualquer descalabro, desprovido de vulnerabilidade.
            Irei além, mas antes direi dos sistemas. O que seria um sistema? Há vários conceitos, e para meus propósitos pouco pacíficos recorrerei ao pai dos burros em dois deles. Um é conceito extremamente amplo: um sistema é um conjunto de elementos (concretos ou abstratos) interligados e que funciona como um todo estruturalmente constituído. O outro me vem a calhar para o que pretendo demonstrar: um sistema é um conjunto de estabelecimentos e instalações de um determinado setor de atividade ou de serviço.
            Admitamos que haja um bom e um mau sistema numa determinada atividade, ainda que queiram me fazer acreditar no contrário. Qual a diferença entre eles? Eu diria que o mau sistema não alcança, ou alcança minimamente, o efeito, ou resultado, ou fim pretendido, razão de ser do sistema. Direi mais: no mau sistema se obtém o oposto do fim desejável e desejado. No mau sistema os elementos funcionam em desarmonia e desconectados uns dos outros. Ainda que seus elementos sejam de excelente qualidade, eles são desarmônicos. Em outras palavras, o mau sistema não diz ao que veio.
            Eis aí o sistema que está a operar no hospital municipal ao qual me refiro. Há, em seu cerne, um mau sistema. E quando está a operar um mau sistema dentro de uma casa de saúde, padecem seus doentes de duas doenças: a sua própria e a do hospital onde estão. Os resultados são opostos aos pretendidos. Deturpam-se os meios, deturpam-se os fins.
            Falando-se assim em sistema, tem-se a impressão de que seus elementos são peças, máquinas, objetos inanimados; que não há nada de humano inerente a ele. Ledo engano. No sistema que opera ao centro do hospital o ser humano é a peça sine qua non. Afinal, o sistema tem a missão maior de aliviar o sofrimento de seres humanos padecentes de males – há males? – que os afligem.
            Admitamos, agora, que se aceite a idéia que se tenta incutir obsessivamente em nossas mentes, a de que não há o mal nem o mau. Se não há o mau sistema, é uma insânia desatada acreditar que ele funcione no âmago de certa casa de saúde. Deve ser maluco ou idiota o sujeito que avente tal possibilidade.
            Mas há algo aqui que não se tem levado na devida conta. Há, no fundo de cada ser humano parte daquele vil sistema, uma autoconsciência. E é ela quem está a sussurrar ao ouvido das razões que os levaram a querer estar ali, labutar ali; e que, sim, existe o bem e o correto; e que, sim, o sistema está podre; e que, sim, o sistema está prejudicando os usuários como jamais lhe deveria ser permitido fazer; e que, sim, o sistema deve ser substituído.
            Levantemos, por fim, a seguinte e negra hipótese, a de que não exista a tal autoconsciência, já que ela parece ser algo relacionado ao bem e ao que é bom, idéia completamente inaceitável no presente. (Se não há o mal, não há também o bem.) Se não existe a autoconsciência, não há nenhuma voz a sussurrar. As pessoas estão ali não sabem por qual razão, e o sofrimento de um semelhante não lhes diz respeito e é apenas uma contingência normal e trivial da vida. A se confirmar tal eventualidade, paira no ar, então, a indagação: para que existir o hospital que não alivia, se não há o mal, nem a dor, nem o sofrimento? Serão apenas sádicos a perpetrar seus experimentos?
            Cresce em mim a esperança de que se privam momentaneamente de sua audição apenas para não sofrer aos gemidos da agonia que se alastra, a torturá-los dia após dia. Não é fácil carregar aos ombros o peso da cumplicidade.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nus

Andamos nus.
            Como índios tecnologizados, andamos nus, portando nossos aparelhos e conexões mil. Homens e mulheres andam nus entre nós. Nossas vestimentas de hoje nem de perto se comparam às que o Senhor fez a Adão e sua mulher. Jamais existiu a folha de parreira bíblica e, ainda que houvesse existido, ela seria maior, bem maior, que nossas atuais vestimentas.
            Ao conhecer o mal, conheceu também o homem o pudor. Ele, o pudor, já ao início era o resquício do constrangimento de nossa nudez, de nosso corpo, talvez. Do próprio Criador escondeu-se o homem por vergonha de sua nudez. E porque não sabia o que dela fazer, de sua nudez, o Senhor lhe preparou vestimentas de peles.
            Hoje andamos nus – é o que dizem – em decorrência da canícula que não nos dá trégua. Por isso não mais nos preocupamos com o que havemos de vestir, mas nos inquietamos em como vamos exibir nossa nudez. Essa nudez de hoje deve ser uma nudez sem culotes, sem defeitos, repleta de músculos e de gorduras bem postas. Ou isso, ou nossa vergonha primeva vem nos assombrar em pesadelos e rejeições contumazes e cômicas.
            Perdemos aquele pudor inicial, que atestava de nossa recém perdida inocência, e restou-nos o pudor da nudez imperfeita, da nudez aestética, da nudez fora das medidas e das proporções corretas. Tal pudor, nosso mais recente pudor, veio a ser a cristalização de nosso conchavo com a concupiscência, com nossa diária luxúria mental, com nossa Sodoma interior.
            E assim nossa nudez tornou-se a nudez de toda uma raça de calomaníacos intratáveis e intragáveis. Que seria, doravante, daqueles cuja nudez se distancia da de Adônis e da de Afrodite? Andarão sob as vestes que tentam lhes esconder os excessos e irregularidades, ou se lançarão aos recursos modernos e artificiais da esculturação do corpo. Por isso às vezes, não raro, tão cedo perecem em suas trombofilias até então ocultas, na inocência dos males que seus genes carregam ou – pior! – nas imperícias que pululam por mãos hábeis que violam as perfeições de seus santuários.
            Andamos nus nós que vivemos sob a tirania da canícula perene que rouba-nos as estações. Outros, os que vivem em temperados climas, vestem-se com roupas e roupas e roupas. Não se torturam, não se angustiam, não se medem por medidas inúteis. Deles, portanto, diferimos.
            Nossa nudez imperfeita acabou por destruir ou mitigar o amor que sentiam por nós, vigoréticos e supérfluos, como se a nudez perfeita que tanto buscamos, em sua brutal e inexplicavelmente imperceptível efemeridade, pudesse servir de lastro ou alicerce para o mais nobre dos sentimentos.
            Seria essa busca interminável da nudez perfeita uma outra marca entre nós e os de clima ameno? Ou seria apenas mais um sinal ou sintoma de nossa herança colonial ancorada em vícios e desvirtudes seculares? Há ainda a possibilidade de que seja um efeito colateral menor de nossa pouca afeição ao que realmente importa? Ou nada se pode ajuntar entre uma e outra?
            O ser humano é igual em todo lugar. Nisso não há a menor dúvida.