terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EU MORO ONDE VOCÊ INEXPLICAVELMENTE TIRA FÉRIAS

          Outro dia vi, na rede social, uma amiga publicar uma fotografia sua, vestida em trajes de banho, na praia, com os seguintes dizeres: – eu moro onde você tira férias. Fiquei cá a imaginar se sua intenção seria fazer inveja às pessoas que aqui não moram, nesta Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, como se aqui, justamente aqui, fosse o paraíso; como se aqui fosse um lugar aprazível, dotado de uma infraestrutura inigualável e invejável; como se aqui o sistema de transporte público atendesse plenamente ao cidadão nativo e ao turista; como se aqui as regras urbanas fossem rigorosamente seguidas pelo fortalezense e, principalmente, pela autoridade municipal; como se aqui tivéssemos um sistema público de saúde amplo e eficaz; como se aqui a segurança pública fosse inerente à nossa educação e ao nosso elevado nível cultural e, em conseqüência, ao nosso elevado respeito pelo patrimônio alheio e pela vida humana; enfim, como se viver aqui fizesse babar de inveja o parisiense, o londrino, o lisboeta, o madrileno, o newyorker, o amsterdamês...
          No momento em que vi aquela publicação, entretanto, percebi tudo. Percebi a estonteante, desconcertante e, diria mesmo, inexplicável verdade: – estamos cegos. Sim, como no romance do Saramago, atingiu-nos a todos, com raras exceções, a cegueira. Nada vemos, nada enxergamos. Se 60 mil cadáveres ao ano como resultado da violência urbana não são vistos, então nada mais o será. Se o assalto às mais importantes instituições dos Estados, dos Municípios e da República não é visto, então nada mais o será. Se a inexistência da eficácia e eficiência das leis não é visível, então nada será possível ver. Se a nova cultura, a nova maneira de fazer as coisas por aqui não está sendo vista, então nossa cegueira é a mais grave de todas. A do romance era uma em que o acometido via algo, via uma espécie de brancura opalescente que o impedia de enxergar a luz ou qualquer outra coisa. Nossa cegueira é, ao que tudo indica, uma em que se vê, mas não se enxerga. Ou, ainda e mais provável, a nossa é uma “cegueira do delírio”, um tipo de daltonismo geral, para toda e qualquer imagem. Vê-se uma imagem oposta à da realidade. Seria justamente essa a que acomete minha amiga. É possível que, para ela, os 60 mil cadáveres sejam carcaças de animais selvagens, ou que o loteamento das instituições seja um delírio persecutório de quem o acusa. E por aí vai.
          Fiz todo esse intróito porque a angústia é tanta que quase não cabe aqui no peito. Sim, o infarto há de ser um tipo de angústia que comprime o precórdio e a garganta como se a morte rápido se achegasse e à vítima não fosse dado tempo de se refazer. Dizem os que enfartaram que a dor é o detalhe físico, enquanto a angústia exprime o afeto e o sopro de vida que nos deu o Senhor a retornar para Ele. E de onde me vem tamanha angústia?, hão de querer saber os açodados leitores. E direi : – foi o filme, sim, uma película de 50 segundos que um amigo me enviou há pouco, gravada pelos assassinos. É mais ou menos assim.
          Chegam três jovens homens ao encontro de dois outros jovens que estão sentados à soleira da porta. Um destes usa muletas, posto que se as vê recostadas à parede. Alguém, a voz de uma jovem, está por detrás dos três a filmar com a câmera do telefone portátil. Inicia-se uma conversa pouco audível entre eles e, súbito, um deles saca de uma arma de fogo e começa a atirar no que está sentado, tórax nu, à soleira da porta. Após deflagrar doze tiros, os outros dois pegam da arma e, em seqüência, completam a fuzilaria, num total de 20 disparos. Enquanto a arma, provavelmente uma pistola, troca de mão a mulher que filma orienta: – Vai! Dá na cara! Descarrega”! Próximo ao final da execução ela pede: – “Ai, eu não vou dar o meu não, é”?! A vítima está caída sobre uma poça de sangue. Foi alvejada inúmeras vezes já morta. Seus algozes, todos jovens, despejam sobre ela não somente a munição, mas também seu desprezo, seu ódio e sua indiferença. A imagem pára. Eles, horas depois, fazem questão de publicar seu feito na rede mundial de computadores.
          Brené Brown em seu “A Coragem de Ser Imperfeito” diz, citando o autor da definição cujo nome agora me escapa, que a melhor definição de cultura que ela já viu é: “cultura é a maneira como fazemos as coisas por aqui”. A professora de sociologia dizia que temos que respeitar a cultura alheia. O muçulmano que migra para o país de primeiro mundo quer continuar realizando a clitorectomia em suas crianças do sexo feminino ao passo que o canibal costuma matar gente para se alimentar de seus cadáveres; na cultura deles isso é absolutamente normal. É a “maneira como eles fazem as coisas por lá”; é a cultura deles. Respeitemos a cultura desse povo. E não só isso. Importemos para a nossa parte da cultura deles.
          Pensando melhor, é possível que o país esteja passando por um processo de “aculturação”, como diriam os inteligentíssimos sociólogos. Não há cegueira nenhuma. É possível que a cegueira à qual me referi ao início seja minha, só minha. A amiga, é possível, está a aceitar com naturalidade o tal processo enquanto eu estou aqui a me angustiar por bobagem. Faz parte da nova cultura, provavelmente, aceitar 60 mil cadáveres anuais com a naturalidade de quem chupa picolé Pardal. Amanhã mesmo vou ao psiquiatra. Ou, melhor, ao oftalmologista.

                    Por decisão pessoal escrevo o texto em desacordo com o acordo ortográfico

sábado, 21 de fevereiro de 2015

PERIGOSAMENTE FELIZ (PARTE III)

          A pior coisa que pode acontecer a um pobre diabo é esquecer-se do mal que fez a outrem. Pode parecer que esteja-se a dizer o óbvio, mas, se verificarmos a crônica de cada um de nós, constatar-se-á que, mais do que o desejável, frequentemente tal acontece. Quantas vezes somos “vítimas” quando, na verdade, somos os algozes. 

                                                                ***
  O casamento estava acabado. Conviver com a mulher seria uma daquelas penitências absolutamente necessárias e, diria até, imperiosas. A empresa, que funcionava num “puxadinho” construído na área da frente da casa onde moravam, era sua criação, a menina de seus olhos. Ele havia ideado o sistema, um programa de computador, cuja utilidade era indiscutível. O número de contratos só crescera até então. O caixa engordava, para a alegria dos sócios. O diabo era que, como o divórcio estava em vias de se concretizar, os sócios estavam à beira de iniciar uma briga feroz pela “menina dos olhos”. 
De fato, e para não faltar com a verdade, Amorim era a alma da empresa, seu coração e seu sangue. Sem ele o negócio não existiria, nem mesmo sobreviveria, e os quase vinte funcionários iriam, assim, para o olho da rua. Ocorre que, perante a lei, a mulher era a única dona do negócio. Sendo ainda mais preciso, a mulher e sua irmã, cunhada de Amorim, eram as donas do negócio. Empresas daquele tipo, segundo as linhas e entrelinhas da lei, eram obrigadas a nascer de uma sociedade e ele, por ser servidor público federal, estava impedido de nelas ter participação. Tivera, então, a brilhante ideia de constituir as irmãs – esposa e cunhada – donas de fachada da empresa. 
Parece óbvio que em projetos dessa natureza escolham-se pessoas de plena confiança sob pena de ser passado para trás. No caso de meu amigo, não seria a hipotética desonestidade da mulher o grande perigo. O mais óbvio a se pensar é que casamentos eventualmente se desfazem e, em consequência, os bens se tornam, no momento da separação, o foco da ganância de cada um dos cônjuges. Ademais, os motivos pelos quais os matrimônios são desfeitos são, muitas e muitas vezes, os mais sórdidos que se possa imaginar, deixando um dos envolvidos tomado pela decepção, pelo ódio, pelo desejo de vingança, enfim, pelo mais profundo ressentimento.  Amorim poderia ter escolhido o irmão, um amigo chegado, um compadre para receber a missão... Preferiu, sabe-se lá porquê, nomear a esposa e a cunhada. 
Nada mais natural, desde que, em contrapartida, não saísse por aí a envergonhar a consorte. Mulher é um bicho que não tolera infidelidade, hoje em dia. Séculos de anulação e açoites construíram, aos dias de hoje, o tipo de mulher que todo homem deve temer, se quiser com elas prosperar. Um coração ferido não é bem algo que se queira ter  no encalço, caso se esteja pensando em ter paz e sucesso nos negócios. Pois foi justamente o que não observou o Amorim. Deu à mulher todos os sórdidos motivos. A decepção e um profundo ressentimento se apoderaram da pobre mulher e veio, então, o inevitável: – ela iniciou, contra ele, uma lenta e cruel vingança.  
   
                                                              ***

Como sempre fazia, Amorim acordou cedo, às 5 da manhã. Tinha o hábito de ir à padaria comprar o leite e o pão dos meninos. De fato, há muito adquirira tal hábito, antes mesmo de os filhos chegarem. Era um homem pontual e sempre levava o trabalho a sério. O que ninguém sabia era de seu vício, de sua tara. Antes da padaria, passava pela dependência de empregada, uma suíte anexa à cozinha, e olhava como estava a porta. Se estivesse entreaberta, era a senha para adentrar o recinto. Muitas vezes a jovem a fechava completamente, mas tomava o cuidado de não passar a chave. Dessa forma ele poderia facilmente entrar apenas girando a maçaneta.  
As conquistas amorosas de meu amigo eram sempre “domiciliares”. Não era homem de sair de casa durante a noite ou no fim de semana à caça de mulheres. Sua esposa tornara-se fria, desinteressada e distante depois do nascimento dos três filhos. A vida sexual quase não existia, e o casal não se deu o trabalho de sentar para debater o problema. Se alguém lhes perguntasse, diriam: –”Que problema”? Como quase sempre ocorre, tudo isso acaba entrando para a ordem dos acontecimentos naturais e inevitáveis da vida. Era o que, parecia, estava ocorrer com o casal. Para ele, entretanto, não havia problema. Problema, em seu entendimento, era qualquer das coisas com as quais era obrigado a lidar por não ter obtido uma saída ou solução vantajosa. Para a falta de sexo a saída era fácil e, portanto, nenhum problema existia neste quesito. Por sua vez, para ela tudo ia às mil maravilhas. Nem  de perto imaginava que sua diminuta libido estaria a pesar nas prementes necessidades do marido. Como se bem vê, todos os conhecidos, amigos e familiares estavam diante de um casal modelo, de um casal bem casado, de um casal que deu certo...
Desde adolescente Amorim era dado à conquistas das moças que sua mãe contratava para fazer o serviço doméstico, as empregadas. Aproveitava-se da vantagem da proximidade e da comodidade, e saía a arrastar a asa para as jovens. O normal era que obtivesse sucesso naquelas aventuras. Fosse por uma presumida superioridade no estrato social ou por uma submissão hierárquica implícita, sua taxa de sucessos era virtualmente de 100%.  Por sua vez, cada um desses sucessos lhe enchia de confiança e segurança, de modo que esse se tornou o modo habitual através do qual arranjava mulheres para lhe satisfazer o apetite sexual. Com o tempo, isso se tornou, em sua consciência, uma verdade absoluta. 
A outra vantagem é que, com elas, nunca se apaixonava, não havia perigo de se apaixonar. Tal vantagem tornou-se ainda mais evidente quando um inusitado acontecimento ao final da adolescência lhe mostrou que a vida não era somente flores –  a primeira namorada lhe pôs chifres. A sensação de rejeição lhe ficou impressa na alma como uma chaga maligna e indelével. Após o ocorrido, só a lembrança do fato lhe doía como uma úlcera profunda. Concluiu, sem dificuldade, que estivera apaixonado. Percebeu, então, os riscos a que se expõe quando há sentimento, quando há paixão e, provavelmente, quando há amor. Em que pese o prazer que se sente em estar enlevado, a dor que resultou ao final era excruciante e sua vontade e intenção era não mais se deixar levar por esse sentimento. Em suma, no que dele dependesse, jamais se apaixonaria novamente. 

***

Aparentemente a porta estava trancada. Girando a maçaneta, entrou. A pequena já o esperava, como fazia todas as manhãs. Ele se enfronhou nos lençóis e agarrou-se a ela com o afã dos necessitados. Despiram-se entre beijos e carícias. Os passarinhos cantavam lá fora enquanto farfalhavam a copa das plantas e dos arbustos. Fora isso, era tudo silêncio.
Lá dentro,  no quarto do casal, a mulher revirava-se na cama. Um incômodo qualquer a perturbava. Notou a ausência do marido, como de praxe, e deduziu que saíra para a padaria. Tentava reconciliar o sono, não conseguia. Ergueu-se e veio à geladeira beber água. De volta ao quarto percebeu algo esquisito quando lançou a vista para a persiana que dava para fora. Se o homem fora comprar leite e pão, por que o carro ainda estava na garagem? 
O sono suspenso por força de uma indisposição parecia lhe afetar a memória, mas apenas por uns poucos segundos. O passado do comportamento do companheiro se refez rapidamente na lembrança. Como poderia esquecer? Jamais esqueceria. Quando achou, durante a faxina, a fita cassete onde estavam gravadas as conversas entre ele e as bruacas, teve um colapso. Chegou ao ponto de beber Baygon. Por uma semana o hálito fedia a Baygon, não sem antes ir parar no hospital. 
Era domingo. A tarde começava preguiçosa e o sol a pino brilhava amarelo como a chama de uma vela. O telefone bateu e atendi. Era o Amorim. Nervoso, começou a me relatar que a mulher descobrira tudo entre ele e certa senhorita. Estava histérica e até a vizinha viera tentar acalmá-la. O pior é que tomara um copo inteirinho de Baygon. Que faria?, quis saber. Disse-lhe que a levasse ao hospital imediatamente.
Felizmente nada de mais grave resultou à sua saúde por ter ingerido veneno para matar pernilongos. Ela voltou para casa sã e salva, depois de ter passado a tarde inteira e o início da noite na Emergência. Os dias que se seguiram fogem do meu conhecimento. Somente o casal e os filhos sabem dos bate-bocas, dos insultos  e provocações mútuas que ambos trocaram entre si. E a vida assim seguiu até que a mulher, sem o menor temor do que poderia presenciar, resolveu ir até os aposentos da empregada munida da certeza absoluta de que seu marido estaria lá.

***

Parecia que o pandemônio se instalara na casa àquele dia. Os pequenos não foram à escola, Amorim não foi trabalhar, e até chamou-se a polícia para acalmar os  ânimos. Na empresa, os funcionários revezavam-se no leva-e-traz das fofocas. Não era pra menos. A mulher do patrão pôs a pobre jovem para fora de casa como se ela fosse uma morfética coberta de úlceras e chagas, não sem antes apoderar-se de todos os seus documentos ameaçando jamais devolvê-los. Escorraçou-a quase a vassouradas e chineladas, não fosse a intervenção  de alguns funcionários que acabaram, inevitavelmente, por assistir a tudo de camarote. 
Depois deste fatídico dia, o casal passou a dormir em quartos separados. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

UM ARTIGO BEM A CALHAR

          Foi com imenso prazer que li, no Diário de Notícias de Lisboa, artigo escrito pelo professor universitário João César das Neves intitulado “O partido que é quinta-feira”. De imediato anexo o link do texto para os leitores que gostam de saborear a leitura (http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4406216&seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-19).
          Sim, porque não sei se sabem, mas há o leitor que não é leitor, o leitor para quem a leitura é uma tortura e um esforço descomunal, tudo porque não aprendeu a degustá-la como se fora uma deliciosa iguaria culinária. Esse tipo é o leitor que não mastiga; é o que engole a comida sem ao menos lhe sentir o sabor e as nuances de seu tempero. Daí porque o que ele lê não é absorvido, já que a “mastigação” é parte importantíssima da digestão do “alimento” que é a leitura. A analogia com a fisiologia digestiva é perfeitamente aplicável.
          A bem da verdade tive mais de um prazer no mencionado artigo. Ao final da matéria, o editor apôs a seguinte observação: “por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo acordo ortográfico”. Ora, que maravilha! O professor português parece se opor ao acordo ortográfico recente. Não conheço suas razões, mas permito-me deleitar com lucubrações pessoais. É bem possível que ele conceba a opinião pessoal de que o acordo tornou a língua portuguesa mais “feia”, ou menos “culta”, ou menos “clássica”. Eu, que deploro e odeio com todas as forças de meu ser o comunismo, penso que tal acordo tem sua costura enviesada na máquina das esquerdas dos países de língua portuguesa. Por aqui fala-se na tal “variação lingüística” – assim mesmo, com trema – e no “preconceito lingüístico” para validar abortos cometidos contra a norma culta. Pois, quero crer, o professor João César das Neves declara, implicitamente, todo o seu repúdio a esse estratagema escrevendo seus textos à parte desse acordo chinfrim.
          Abaixo alguns trechos primorosos do ensaio permeados com alguns comentários meus.
          “O caso Syriza (partido grego de extrema esquerda que recentemente assumiu o poder) é especial porque, devido ao sucesso eleitoral por que tanto lutou, todos os véus caíram. Os ministros, que há meses eram contestatários românticos sem responsabilidade, encontram-se face a face com um dos mais ingovernáveis países da Europa. Durante umas semanas ainda poderão jogar a desculpa da maldade comunitária mas, se não se demitirem para regressar ao conforto da crítica inconsciente, terão mesmo de acabar por enfrentar os problemas nacionais e construir, lenta e cuidadosamente, caminhos de solução. A retórica incendiária, tão eficaz nas eleições, pouco ou nada ajuda a melhorar a Grécia.”
          Veremos se, agora, conquistado o poder a muito custo, os que antes só contestavam serão capazes de governar o país ingovernável. Ou isso ou permanecerão a imputar à comunidade européia a culpa pelos graves problemas nacionais. O discurso que elege pode até eleger, mas não será capaz de melhorar o país. Que semelhança incrível com o que se faz por aqui!...
       Agora, na dura realidade do mundo real, “o Syriza constatará que muitos dos seus eleitores são culpados de defender benesses e privilégios insustentáveis que, afinal, são a verdadeira causa da crise.” (Onde andará o senhor Giorgio Agamben e seu espantoso cérebro?) Esses eleitores e o próprio Syriza acabarão por entender “que o seu verdadeiro inimigo é a simples aritmética.” O delirante comunista cuja cabeça é das mais influentes do mundo, segundo seus atarantados e babantes admiradores, terá que admitir, enfim, que quem pede dinheiro emprestado tem de pagar e que a melhor forma de fazer isso é usar os recursos para crescer e não para sustentar mordomias e privilégios. Culpar o credor tem servido como discurso que desvia a atenção das mentes dementes, mas não de quem está atento à parafernália retórica dessa gente (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2015/02/uma-besta-menos-besta_1.html).
          “Repudiar a dívida, a resposta preferida dos extremistas de todas as nacionalidades,” – será que no Brasil nossos extremistas não tão extremistas assim fazem o mesmo? – “nada contribui para eliminar a máquina que criara anteriormente a carga. Abandonar a redução de despesas e aumentar impostos, que repudiavam tão vigorosamente como austeridade, implica ver a dívida regressar aos níveis de antes do repúdio, com a agravante de que esse repúdio terá fechado as portas de muitos credores respeitáveis e aumentado os juros dos demais.” Observe-se que as crises não são do capitalismo mas ocorrem no capitalismo causadas por governos incompetentes, irresponsáveis e pródigos.
         “O verdadeiro problema da Grécia, como aliás de Portugal, é construir um Estado que se consiga sustentar sem recorrer a estrangeiros.” Há anos o discurso comunista incrimina o capitalismo. Não enxergam que seu sistema é o fracasso desde sua concepção porquanto prega o calote sistemático como parte de suas “negociações”. Para eles o calote é um ato “revolucionário”.
          Os estrangeiros, “que há décadas sucessivamente canalizam milhões para os países, começam finalmente a perder a paciência. Porque a crise de 2015 não é a primeira, nem a décima vez que a Grécia viola os acordos, pedindo nova ajuda para finalmente resolver a situação, sem de fato nunca chegar a fazê-lo.” Como disse o senhor Agamben, as crise nunca acabam. Mas isso não se deve ao capitalismo, senão àqueles mesmos governos perdulários que se utilizam do populismo e da manutenção dos privilégios nas altas cúpulas para se manter no poder.
          Depois deste primoroso texto penso que não há mais nada a ser dito. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A RESENHA ASTROLÓGICA

Recebi uma correspondência muito original e provocativa. Vejam seu conteúdo: o lado negro dos doze signos. Imagine-se imediatamente o que está por vir. Sou taurino e, como tal, fui direto sem escalas a ver o que haveria de tão negro sobre mim. Ainda que não acredite nessas bobagens zodiacais, a curiosidade, que matou o gato, me preencheu todo o ser e não pude resistir. O que me intrigou foi o fato de não se considerar o taurino como um curioso. Vai ver é uma característica inata de todo ser humano. 
Em primeiro lugar, descobri-me um sujeito que cultiva amizades sólidas. De fato, e que confirmem lá meus mais pétreos amigos, se sou amigo, sou amigo até debaixo d’água. Amo meus amigos mais do que aos parentes. Eu os escolhi no meio do mundo, fui o responsável por cativá-los e os levei a aceitar todos os múltiplos e enormes defeitos que tenho. Eles, por sua vez, me amam à sua maneira. Devem às vezes me olhar pelas costas, mas isso não chega a ser uma traição ou uma demonstração de infidelidade. Ao contrário, é próprio do ser humano. Eu, de minha parte, tudo o que deles falei pelas costas, falei antes pela frente. O resto foi o disse-me-disse da canalha.
Depois me descobri egoísta, um sujeito que só pensa em si e que só quer para si. Ora, não é que é verdade?! Na verdura dos anos – e durante vários outros anos - meu coração era uma geléia de tão mole. E cometia os erros mais crassos da paróquia. Pairo, então, nesses longínquos anos, o sujeito de baixa auto-estima, cuja culpa vai-lhe pesar o resto da vida. E por isso dava. Dava tudo. Nada guardava para mim. Nada tinha. Tudo era para os meus. Ora, era uma obrigação! Se fosse egoísta, guardaria um naco para mim, pois não? Que nada. Nada guardava, repito. Entretanto, com o tempo escolhi-me a mim mesmo. Troquei os outros por mim. E então me tornei egoísta. Devo dizer que o termo egoísta é demais para o que sou. De fato, hoje sei que o ator mais importante desse filme que é minha vida sou eu mesmo. Sou o galã dessa fita. Não chego a nada dividir. Divido muito. Mas penso, sim, muito em mim e no meu bem-estar. Se isso é ser egoísta, então sou egoísta. Tornei-me egoísta porque passei a pensar primeiro em mim. Paciência. O zodíaco está certo novamente. E já não me pesa nenhuma culpa.
Sou também pouco dado a abandonar meus pontos de vista. Minha opinião tem mais peso. E não costumo mudar de idéia. Com efeito, sou um quebrador de paradigmas e quando se faz isso, meus amigos, não é mais possível voltar atrás. Não há possibilidade. É uma questão de decisão. Se rompo com o statu quo é porque minha opinião prevaleceu. Não há como fazer essa ruptura sem um forte e poderoso ponto de vista. Não é possível construir um palácio sobre um casebre. Há que, antes de qualquer coisa, remover primeiro a tralhaHá uma tênue porém clara diferença entre teimosia e firmeza, como é fácil perceber. A desconstrução de um modelo é um processo. Poucos nele se aventuram. Por isso a opinião destes – notadamente os astrólogos – sobre inflexibilidade. Sou tão flexível que mudei todos os conceitos sobre a maioria dos temas intrigantes, conflitantes e angustiantes da vida e do viver. E anseio continuar a fazê-lo sempre que julgar imperioso. Não é demais lembrar que tais conceitos me foram impostos desde sempre, desde quando vim ao mundo. Agora, sim: ajo como um bom taurino – não arredo o pé de meu palácio. 
E me imputam a avareza como um prodigioso sinal de meu táureo comportamento. Nada poderia estar mais próximo da verdade. Após passar anos a fio enricando bancos e instituições financeiras, aprendi com louvores a gerenciar meus próprios recursos. Com isso, meu dinheiro - ganho com grande esforço, dedicação e zelo – hoje pode trabalhar para mim, sem que eu precise me matar para ganhá-lo, ainda que isto tenha suscitado em algumas pessoas próximas a vontade de me o tomar à força da chantagem e da manipulação. Fui educado sob o paradigma do endividamento. Meus bancos me adoravam. Hoje me detestam. Por isso sou taurino. 
Consta que odeio perder as coisas e que sou muitíssimo ciumento. Tirando a óbvia constatação de que ninguém gosta de perder, aprendi a lição. Aprendi a perder. Mais ainda: aprendi que perder faz parte do processo de ganhar. Nada se vai ganhar se não se está disposto a perder. A não ser que queira permanecer indefinidamente onde está, se quiser ganhar terá que arriscar perder, e eventualmente perderá de fato. Neste aspecto amanheci taurino, e ao ocaso fui a outro signo que ainda não descobri qual seja. Ver a morte e seu séquito no limiar de cada dia em cada dia de cada ser humano me levou à resignação humilde da fragilidade da vida e da tolice do recalcitrar. Ora, se perco a vida já, já, por que temerei perder coisas? Deixei, assim, de ser taurino neste aspecto. 
O ciúme foi a peça mais tormentosa da lista do paradigma de ser taurino. Seguramente foi a outra das conseqüências de uma baixa auto-estima, ao início. Em seguida, a falta de sabedoria em ver o ser humano como vítima de si mesmo e das provações da vida foi a responsável por tão ominoso sentimento. O tempo e a mente aberta são o antibiótico da ignorância e da cegueira da imaturidade. Eis que chegou o tempo, eis que despontou o viço das brancas têmporas. Não há baixa auto-estima há muito, porquanto ruiu o tugúrio dos maus paradigmas. 
Por fim, diz o lado negro dos signos que os grandes proxenetas são taurinos. Ainda não experimentei, mas já cogitei fazer dinheiro – do qual gosto muito! – fazendo filmes pornôs. Não como ator, que não tenho dotes para tal, mas como dono da empresa. Ora, se a coisa tem mercado, só pode dar um bom dinheiro! Faltou um sócio para dividir comigo o investimento. Não fosse isso... 
Eis aí, queridos amigos, um breve comentário sobre tão intrigante e etéreo “estudo” da personalidade das pessoas nascidas entre 21 de abril e 20 de maio. Espero ter contribuído para confirmar sua validade e rigor científico através de minha própria e incauta exposição. Não se furtem a me criticar e espezinhar. Eu não acredito mesmo nessas coisas: é o que diz na última frase do texto.
Ia esquecendo. Evitei falar que taurinos, segundo esse “tratado”, adoram sexo e prazeres à mesa. Para que não me interpelem em assuntos de foro tão íntimo, não vou comentar esses dois aspectos. Apenas adianto que não somos em nada diferentes, nestes dois temas, dos mais de seis bilhões de habitantes do globo. Seria uma chatice tremenda. E chatos os taurinos não somos.

Fernando Cavalcanti, 30.06.2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

CÉREBRO DE TITICA

Foi somente depois que vi que me esqueci de abordar, na crônica de anteontem, a “crise” financeira a que o senhor Agamben, “uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo”, se referiu em sua entrevista.
            Antes, porém, nos debrucemos sobre o fato de o sujeito ser, dentre quase 7 bilhões de cérebros, um dos dez mais importantes. Comecemos definindo o que seja algo ou alguém importante. Para isso, recorro ao pai-dos-burros, a fim de evitar cair na armadilha de dar uma definição pessoal e tendenciosa. Diz lá o seguinte: “que ou quem tem valor ou mérito; que ou quem tem poder; o que mais interessa”.
            Assim, concluímos sem demora que o que o filósofo pensa tem algum poder ou interessa mais do que o que pensam os outros quase sete bilhões de cérebros que habitam este mundo. Ainda é possível que o que ele pense tenha mais valor e mais mérito do que todos os outros. O diabo é que, pela entrevista que ele deu e pelo que ele disse na entrevista, das duas uma – ou o homem estava de pileque, ou havia cheirado umas “carreirinhas” (http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/deus-nao-morreu-ele-se-tornou-dinheiro.html). Ele acha que a “crise” é só um muxoxo do capitalismo, uma ideia imposta por ele para lograr seus objetivos indizíveis.
Vejamos o caso da Grécia, por exemplo. (Evitemos a “crise” brasileira, por enquanto.) Este país, a Grécia, faz parte do bloco europeu que adotou moeda única, o euro (€). São vários países que resolveram fortalecer suas economias com a criação de um Banco Central único. Sabe-se que a saúde financeira de um sistema ou de bloco econômico pressupõe equilíbrio fiscal, controle da tendência inflacionária e câmbio livre. Os gregos fizeram tudo ao contrário e, em suma, gastaram e gastam mais do que arrecadam. Para cobrir os rombos em suas contas, tomaram dinheiro emprestado e não honraram seus compromissos. O resultado: – os países do bloco que fizeram o dever de casa vieram em socorro dos gregos a fim de evitar o colapso do sistema. 
Mais recentemente, o Banco Central Europeu tem pretendido que o governo grego deposite os bilhões de euros que deve. O diabo é que o partido de extrema esquerda grego, o Syriza, assumiu o poder e suspeita-se que, com isso, o calote está em vias de se concretizar. O calote é justamente o que prega o senhor Agamben e seus simpatizantes. Digno de nota é o fato de não ser o capitalismo o responsável por essa situação. Há aqui uma crise que o capitalismo não criou. Quem a criou foi a gastança desenfreada.
Imagine se em casa gasto tudo o que ganho e ainda uso o cheque especial. Os anticapitalistas dirão que o cheque especial é uma mazela do capitalismo opressor e escravizante. Sairiam às ruas em protesto, levando bandeiras vermelhas e gritando palavras de ordem contra o cheque especial, tudo no intuito de promover o calote aos bancos que lhes emprestaram dinheiro.  
E a crise brasileira? A mesma coisa. Gastança desenfreada, apesar dos trilhões de arrecadação em impostos. Arrecadam-se dois trilhões, gastam-se quatro. Ainda há quem ache que é uma injustiça a conta não fechar. Não bastasse a crise criada por gestores e governos corruptos, populistas e inconseqüentes, vem este senhor cabeça mais importante do mundo anunciar que o capitalismo é o deus que não morreu, é o deus que não dá trégua, é o deus ao qual todos injustamente se submetem, é o deus que oprime e que cria pobreza. Ora, tenha a santa paciência!...  
Querem a verdade? Mais idiota que o senhor Giorgio Agamben é aquele que paga tributo a seu brilhante cérebro de titica...!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

UMA BESTA MENOS BESTA

          Ontem mesmo anunciei que encerrei amizades na rede social porque os “escolhidos” eram muito sabidos. O termo que melhor os qualificaria seria “cúmplices”. Sim, são cúmplices da patifaria política que ora vige. É bem verdade que não escrevi nada disso no texto de ontem, mas escrevo agora para aqueles que não entenderam o que escrevi ou, melhor, o que não escrevi nas entrelinhas.
          Apenas para exemplificar o que quis dizer na crônica de ontem, faço um breve comentário sobre a entrevista, postada na rede social, feita com “um dos maiores filósofos vivos”, o italiano Giorgio Agamben (http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/06/deus-nao-morreu-ele-se-tornou-dinheiro.html). Vejam que o homem não é pouca coisa, até porque, segundo consta, ele foi “definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo”. O sujeito que carrega tais credenciais na algibeira não é lá nenhum besta e, só para ter certeza de que não é besta mesmo, “pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu (grifo meu) um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista”. Eu, se passasse dois anos de férias, das duas uma: – ou estaria gravemente enfermo e aí não seriam férias, mas licença para tratamento de saúde; ou estaria de licença não remunerada para tratar de interesses pessoais e prestes a morrer de fome, já que é provável que estivesse à beira da falência.
          A única outra possiblidade seria uma riqueza acumulada que me abastecesse os bolsos. Em outras palavras, estaria vivendo de renda. Digamos de uma vez: – somente no capitalismo seria possível tal mordomia. O diabo é que o senhor Agamben se mostra, em sua entrevista, um anticapitalista mor. Por isso fiquei aqui, já ao início da entrevista, a matutar o que o entrevistador quis dizer quando diz que “pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de fárias”. Se entendi errado, isso só demonstra minha mais mesquinha ignorância.
          Na entrevista em si, dentre as várias abstrações para mim ininteligíveis feitas pelo entrevistado, um delas me chamou a atenção. Ele diz que “'crise' e 'economia' atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar”. E continua com a seguinte pérola: “Crise hoje em dia significa simplesmente 'você deve obedecer'”! 
          Mas há mais: “Creio que seja evidente para todos que a chamada 'crise' já dura decênios e nada mais é senão o modo normal (grifo meu) como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional”.
          Ora, tomemos, a título de exemplo, a iminente crise hídrico-energética que ameaça o Brasil. (Com efeito, já a crise é fato posto que importantíssimos reservatórios de água já estejam praticamente secos.) Os gestores, após venderem ao povo um quadro de fartura, suficiência e adequação infra-estrutural no país, se veem obrigados, agora, a ceder à dura realidade dos fatos. A infra-estrutura está em frangalhos e os reservatórios estão secando. Se São Pedro não ajudar, ai de nós. (Já, já vão culpar o pobre santo...) Óbvio é que o racionamento será a única solução caso se confirme a insuficiência dos reservatórios para abastecer as cidades e para rodar as turbinas das hidrelétricas. Restam as termelétricas, que geram energia mais cara e mais poluente. Ou seja, se antevê racionamento de água e de energia, e energia mais cara no bolso do pobre brasileiro. Culpa do capitalismo, senhor Agamben?
          Parece óbvio, entretanto, que o senhor pensador pica-grossa não estava a se referir à crise de água e energia no país de quinto mundo chamado Brasil. Ele se referia à crise financeira ou global “que já dura decênios”. Ele diz que ela, essa crise, é o modo normal de funcionamento do capitalismo. A crise, irracional, existe para obrigar as pessoas a fazer o que elas não são obrigadas a fazer, para obrigar as pessoas a acatar medidas e restrições que elas não são obrigadas a aceitar. Pareceu-me, em minha casta ignorância, que o senhor Agamben quis assassinar a própria Economia, a própria ciência econômica. Se não, vejamos.
          A Economia é a ciência que estuda a gestão e a distribuição de escassos e limitados recursos num cenário de demanda continuamente ilimitada. Assim, a Economia é, implicitamente e explicitamente, continuamente e permanentemente, uma ciência a lidar com a crise, donde se conclui que a crise é, sim, permanente! Não há nenhuma novidade no que este pensador de cérebro de três hemisférios diz. No capitalismo ou no comunismo, os recursos disponíveis serão sempre limitados ante a demandas continuamente crescentes. Em suma sumária, a “crise” à qual o senhor Agamben se refere não é recente nem é apanágio do capitalismo – ela é, pode-se dizer, inerente à existência humana e às sociedades. A crise econômica existe desde que existe o homem. 
          Para lidar com a crise é que se aventa, quando não há outra saída, o racionamento, uma medida que restringe o acesso ao bem ou recurso em extrema escassez. Pela cartilha do senhor filósofo, tal medida é inaceitável e não se deve obedecer. Felizmente não é o senhor Agamben o encarregado de abrir e fechar as torneiras dos reservatórios, nem o responsável pela liberação da energia para as cidades. Se o fosse, o caos estaria instalado e o recurso limitado deixaria de ser limitado e passaria a ser inexistente. Ficaríamos todos no escuro e sem água para beber, donde se conclui que ele é pior do que a senhora Dilma Rousseff, embora isso não seja um motivo bastante forte para se ter esperança. 
          O resto da entrevista é um blablablá medonho que somente os “cérebros” serão capazes de compreender. Por ter tanto tempo livre, presumo, é que o senhor Agamben se permite essas lucubrações sem pé nem cabeça, tomando um tinto envelhecido, a garrafa de mil euros, e enriquecendo o paladar com caviar. (É possível que esteja cometendo uma tremenda injustiça com o compenetrado pensador, mas me agrada muitíssimo pensar nele como mais um comunista que adora surfar nos prazeres capitalistas.)
          Eu, buscando me aculturar, li a entrevista na íntegra. O resultado é que perdi meu precioso tempo. É o que acontece quando damos espaço às bestas comunistas. No que me diz respeito, pelo menos, prefiro pensar que sou uma besta menos besta. Afinal, o pensamento é meu e penso o que quiser e bem entender. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

BEM LONGE DE MEUS OLHOS

"Magoa-me, sim, estar privado de um amigo. Segundo penso, jameis haverá outro igual e isso posso testemunhar. Nem por isso careço de remédio. Eu mesmo me consolo com o melhor dos confortos, a saber, fugindo do erro comum que costuma exacerbar a perda dos amigos. Eu penso assim: nada de mal aconteceu a Cipião. Se algo de ruim ocorreu, foi em relação a mim. Ora, angustiar-se, em excesso, com os próprios incômodos não é próprio de amigo e, sim, de egoísta”. (CÍCERO – A Amizade)

          Sem meias palavras e sem rodeios, anuncio: – desfiz uma boa quantidade de “amizades” na rede social. Alguém há de, dedo em riste, acusar-me. Impor-me-á a pecha de intolerante; ou de intransigente; ou, até, de radical. Assim, a fim de não gastar muito de meu tempo, anuncio em alto e bom som: – acusem-me do que quiserem e bem entenderem. Outro dia anunciei, após o recente atentado em Paris: – sim, sou Charlie Hebdo! Olhem que as vítimas eram atéias e comunistas, tudo o que mais detesto. Mas... que se há de fazer se o direito de pensar e de dizer deve ser preservado? Ouço e leio uma penca de idiotices e nem por isso prego o assassinato de seus autores. O máximo que posso realizar, se detesto o que esse povo diz, é evitar ler e ouvir o que ele diz.
          Então, fácil é entender o que fiz na rede social. Com o propósito de não ler e ver as estupidezes que essas pessoas me proporcionam lá, na tal rede social, eliminei-as de meu convívio virtual. Simples assim. Bem se vê que a rede social é como a televisão de casa: – sintonizamos onde bem entendemos. Na rede social há uma armadilha da qual, penso, todos ou quase todos já foram vítimas. Tal armadilha é precisamente inflamar-se com as idiotices que lá vemos e ceder ao impulso de argumentar com seus autores. Tardiamente percebe-se que tal embate é dotado de várias e óbvias características, quais sejam: inutilidade, esterilidade e impotência.
          A inutilidade advém do fato de que na rede social só tem gente inteligentíssima. Dada a minha limitada capacidade intelectual, óbvia é minha desvantagem em qualquer potencial embate. Assim, o sujeito que pretender me convencer de algo precisará de argumentos perfeitamente inteligíveis a fim de vencer minhas sérias limitações. A situação oposta é virtualmente impensável: – como eu, um troglodita de carteirinha e sindicato, pretenderei submeter alguém, qualquer pessoa, ao que penso? Disse o Sêneca que “se quiseres submeter alguém a ti, submete-o primeiro à razão”. Mas, ora!, o que é a razão? Respondo em seguida: – a razão é o conhecimento de tudo, é o domínio de todo conhecimento, de toda matéria, de todos os campos da ciência. Assumindo que nem mesmo ela, a ciência, tudo sabe, imagine-se o ser que pretenda tal façanha. Fica, assim, irreversivelmente provada e comprovada minha completa incapacidade de realizar a hercúlea tarefa. Inútil é, portanto, os acalorados e por vezes agressivos embates na rede social. É gente que tudo sabe acossando gente que nada sabe e – pior! – gente que nada sabe acossando gente que sabe tudo. 
          Se ninguém submete ninguém a ninguém, além da inutilidade fica evidente a esterilidade do debate – ele nada produz de proveitoso. Sim, porque somente o debate lastreado, a princípio, na ignorância mútua pode resultar proveitoso. O diabo é que a assunção da ignorância não é tarefa fácil; requer doses cavalares de humildade e comiseração por si mesmo e pelos outros. Ademais, seu exercício só é possível com o exercício diário da vigilância sobre si mesmo. O ser está, ao dia-a-dia, tão envolvido nos cuidados e mesquinhezes da vida que não percebe a miríade de vezes em que a humildade lhe foge às léguas. 
      Ainda que em tais embates virtuais sobrassem humildade e autohumilhação pela consciência da própria ignorância, restaria a nítida e densa sensação de impotência. Como não é isso o que acontece, nenhuma sensação de incapacidade resulta. Há o sentimento de impotência e a impotência real, a concreta e genuína inaptidão para mudar o que quer que seja. A primeira é sentimento individual, sensação que acomete o ser; a segunda é a da esfera do pragmatismo puro e simples. É a não percepção da impotência pragmática que leva à arrogância e à insolência, características inteiramente opostas à humildade e à sobriedade. Contrariando a oração, rejeita-se a serenidade necessária para aceitar o que se não pode mudar.
          Dirá alguém que estou sendo incoerente. Ora, se rejeito opiniões, ajo como quem tem conhecimento e, portanto, como quem não é tão ignorante quanto diz, como alguém que tem conhecimento. Direi que nada sei, de fato; direi que rejeito opiniões, sim, mas aceito os fatos e princípios básicos e isso, longe de ser ou demonstrar conhecimento, é, em princípio, uma tentativa de exercitar um mínimo de sabedoria. 
          Assim, as “amizades” desfeitas na rede social vêm atender a um apelo de minha alma: – detesto os que rejeitam os fatos em detrimento de suas paixões pessoais e de seus delírios e alucinações; repudio os que rejeitam os princípios e virtudes mais elementares, cheios da empáfia e do deboche para com estes, como se a nova ordem que admiram e suas novas crenças e conceitos representassem a revolução para um mundo e um país mais humano, quando o que se vê, nos fatos mais escabrosos, é o ódio e o apoio a ele. Que odeiem. Bem longe de meus olhos.   

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O VELHO-NOVO FÁBIO MOTTA

          O que faltou dizer, na crônica anterior, sobre o último encontro dos amigos do tempo das fraldas foi que o Fábio Motta, do alto de seus cinqüenta e poucos, voltou a surfar.
          Pensando melhor, acho que lá já foi dito, mas sem a ênfase que o tema merece. Esse foi o ponto alto de nosso encontro. Sim, porque o amigo era outra pessoa, era outro Fábio Motta; era aquele do violão arrastado e das múltiplas e simultâneas namoradas. Antes, porém, façamos uma breve retrospectiva da vida deste meu amado amigo; tão breve que ele nem terá tempo de suspirar e se ressentir.
          O que ocorria era o seguinte. O amigo sumia. E sumia como quem já morreu. Eu, que lia o poeta, li-o quando dizia: - morrer é apenas não ser visto. Pois era exatamente isso o que ocorria com o amigo: - sumia como quem já foi desta para a melhor. Vejam, por exemplo, o que fez ele nos dois últimos anos na data de comemoração de seu aniversário.
          Na data em que se comemora seu natalício, ao ano passado e também no ano anterior, o homem se enclausurou sabe-se lá onde. Tão escondido estava que o carteiro, o ser tecnológico mais démodé do universo, não o encontrou em casa nem em seu local de trabalho. Seus 4 ou 5 telefones portáteis permaneceram desligados durante as 24 horas do dia. (Fábio Motta tem mais aparelhos telefônicos do que o número de operadoras existentes. Suspeito que possua mais de uma linha em mais de uma operadora. Um dia, jurei a mim mesmo, hei de descobrir a razão desta abundância comunicativa.) Corria à boca miúda que o amigo andava sorumbático, macambúzio, triste de fazer dó... O que nos encafifava, seus mais diletos amigos, era a causa de tamanha desventura. Alguém mais pessimista aventou a possibilidade de o amigo estar a tramar contra a própria vida, o que seria um disparate dado o seu passado de alegrias e danações. Assim, era consenso geral de que aquele seria um Fábio Motta inteiramente diferente do que sempre fora, um homem prematuramente envelhecido no espírito, um ex-homem-menino dado a conquistador e uma tênue, opaca e nebulosa sombra do que havia sido um dia... Dir-se-ia que morrera um espírito alvissareiro e nascera um outro, taciturno e ensimesmado, em seu lugar. Uma de suas conquistas confessou-me ao ouvido, confirmando o que diziam os boatos: -”É de fazer dó”...! Eis aí, em sumárias palavras, o estado de meu amigo antes de sua guinada fenomenal.
          Quando, nas raríssimas vezes em que dávamos com ele n´alguma esquina, lhe perguntávamos o que sucedia, ele dizia, cabisbaixo e melancólico:
          -“É o trabalho, é o trabalho”...
          E completava:
          -“Trabalho demais”...
         O Bacana, cabreiro, queria culpar a mulher. (O Bacana sempre culpa a mulher.) Dizia, com o dedo em riste:
          -”É a mulher, é a mulher”!...
          Outros, os menos afoitos, aceitavam sem duvidar as justificativas do amigo e ponderavam:
          -”Precisa trabalhar menos, que diabos”!...
          Quanto a mim, devo confessar, creio piamente no que me dizem. Acredito, a princípio, que todos dizem a verdade, e fazia coro com os que admitiam a hipótese do workaholismo do amigo. E ia além; dizia ao Bacana, às vezes em tom admoestativo, por vezes em tom reprovativo, como se plenamente certo desta hipótese:
          -”A mulher nada tem a ver com isso”!
          Assim, a coisa já era dada como causa perdida quando, certo dia, o Motta surpreende a todos. Como ressurgido das cinzas ou, porque não dizer, como renascido do inferno, fez questão de anunciar seu novo-velho estilo de vida. Declarou em alto e bom som, na rede social, junto com as devidas provas fotográficas, seu retorno irremediável e definitivo à prática do surf, esporte ao qual era adepto nos tempos da adolescência. Se bem me lembro, recebi dele mensagens no telefone portátil dando conta de que readotara o estilo despojado de viver, abandonando, se não por completo ao menos parcialmente, a vida inteiramente voltada e dedicada ao trabalho. Com efeito, o surf parecia mais como a desculpa mais apropriada que o amigo encontrara para anunciar o rejuvenescimento de seu espírito.
          Todo o episódio serve a nos ensinar sobre o que acontece com o sujeito que se distancia de seu “eu”, de sua essência e, vale dizer, de sua alma: - torna-se um zumbi, um morto-vivo sem viço e sem brilho, ainda que chovam reprimendas e críticas a essa essência. Sim, porque a perfeição está a anos-luz de todos nós. Impossível é, a quem quer que seja, calar a boca da súcia boquirrota e maledicente. Provado fica que é melhor estar na boca alheia do que longe da própria alma, excetuando-se desta regra aqueles de maus bofes, cuja essência é malcheirosa e traiçoeira. O nosso Motta é o eterno menino-homem, sempre ladino, sempre dado à boa pilhéria e à conversa solta e desprovida de armadilhas e insinuações interesseiras. Através de sua experiência, pude constatar na vida real o que disse o psicólogo James Hillman na teoria: - se você trair a sua alma, ela estará bem ali, à espreita, esperando a melhor oportunidade para se vingar de você.