terça-feira, 30 de abril de 2013

Desafiando o establishment


          No Brasil não se faz ciência. 
          Calma, calma. No Brasil faz-se alguma ciência, mas o que aqui se faz nem de longe se assemelha ao que se faz de ciência em países com elevados níveis de educação. Assim, repito, no Brasil não se faz ciência. E estamos conversados. 
          Minto. No Brasil se faz ciência às avessas, sem querer, involuntariamente. (Estou aqui a me indagar a mim mesmo como farei para explicar isso.) Dizendo de outra forma, no Brasil a ciência que se faz se faz por conta de nossas mazelas, que são uma infinidade. 
          Por exemplo, no Hospital Geral de Fortaleza há um extenso e inédito material sobre o qual a ciência médica, em se debruçando sobre ele, faria descobertas e constatações surpreendentes. Mais do que isso, esses dados provariam que quase tudo o que está escrito nos espessos Tratados de Cirurgia de Urgência está incorreto. Sabe-se que boa parte desse material é escrito fora do país, e mesmo o que aqui é escrito tem como base quase tudo o que se escreve lá fora. Assim, a conclusão a que se chegaria é a de que eles, os gringos, nada sabem de medicina.
          O excelente pediatra doutor Alberto Lima de Sousa dizia, em meus tempos de internato lá mesmo, no Hospital Geral de Fortaleza, que os médicos brasileiros somos os melhores do mundo. Eu, em minha robusta ignorância, lhe perguntava: -"Por que, doutor Alberto"? E ele me respondia com aquela doçura e aquele sorriso cativante que lhe eram peculiares, hoje tão raros no comportamento e nas faces dos discípulos de Asclepius: -"Porque usamos apenas nossos sentidos para fazer diagnósticos". Ele se referia à pobreza da tecnologia em nosso meio àquela época. De lá para cá alguma coisa mudou, e não é de se impressionar que alguns estranhem o conteúdo dessa antiga prosa.
          Lembra-me o prefácio de um Tratado de Imunologia em que o autor garantia, não ipsis litteris: "É do conhecimento geral que cinqüenta por cento do que se sabe em medicina não é verdade; o problema é saber quais são esses cinqüenta por cento..." Assim, de há muito alguém já admitia nossa profunda ignorância do fenômeno biológico. Não chega a ser, portanto, uma novidade o que estou para demonstrar. 
          O que acontece é o seguinte, por exemplo. Há um velho adágio cirúrgico cuja penetrante e bela poesia contribui para sua memorização e utilidade ao cirurgião que vara horas a fio em plantões desgastantes, e que diz: "Nunca permita que o sol se ponha ou que ele nasça sobre uma obstrução intestinal". A mensagem é clara e, traduzida ao leigo leitor, significa que a obstrução intestinal é uma condição grave e que deve ser resolvida o mais cedo possível sob pena de o paciente pagar com a própria vida a indevida procrastinação do cirurgião. 
          Há alguns anos fiz meus últimos plantões no setor de Emergência daquele belo hospital. Foi quando começou o notável aumento da demanda naquela unidade e o consequente gargalo no fluxo dos pacientes. Eles chegavam aos montes em busca de socorro e a capacidade do serviço era limitada, de modo que muitas vezes alguns doentes permaneciam aguardando por horas e mesmo por dias seguidos por uma operação de emergência ou de urgência. Eram as apendicites, as obstruções intestinais, as hérnias estranguladas, as úlceras perfuradas, em suma, o abdome agudo. (Abdome agudo é uma condição grave, como as referidas, que requer uma intervenção cirúrgica de urgência/emergência sobre o abdome.)
          Eis que coisa interessante e intrigante passou a acontecer. Por falta de vaga na Sala de Recuperação Pós-Anestésica, muitos doentes não eram operados e suas condições evoluíam à custa de sua própria história natural. Eram tomadas as medidas clínicas cabíveis a cada caso na espera e expectativa de, a qualquer momento, se realizar a intervenção cirúrgica necessária. Voltemos ao exemplo da obstrução intestinal para ver o que muitas vezes sucedia. 
          Eram doentes com história clínica e exame físico compatíveis com obstrução intestinal. (Poder-se-ia alegar um erro de diagnóstico para justificar a evolução benigna.) Como já mencionei, o doente permanecia em dieta zero, hidratação venosa, descompressão gástrica e vigilância estreita. Eram realizados todos os exames complementares possíveis e básicos os quais corroboravam a hipótese diagnóstica. Rotina para abdome agudo demonstrava padrão em "pilha de moeda", típico de obstrução intestinal. Passava um dia, passavam dois dias, três dias, quatro dias, cinco, seis... e, num belo e refulgente dia, o débito da sonda nasogástrica caía, a distensão abdominal cedia, o paciente flatulava, chamava o doutor e dizia: -" A sede acabou"! Atente-se que nenhum exame mais complexo era feito por conta de sua indisponibilidade.
          Alguém argumentará que, sim, é possível que uma obstrução intestinal evolua naturalmente para a cura. Uma aderência entre as vísceras abdominais, causa comum da condição, pode se desfazer ou se resolver naturalmente, sem a intermediação do bisturi. Isso é fato conhecido. O que não é conhecido é o fato de vários casos evoluírem desta forma. Não é a regra, segundo a literatura médica. 
          Assim como com a obstrução intestinal, vários casos de apendicite aguda evoluíram para a cura no mesmo contexto e no mesmo cenário. Seguindo-se a vários dias de espera, o doente chamava o doutor e pedia: -"Tô com fome"! (A literatura diz que se o doente tem fome deve-se questionar seriamente a hipótese de apendicite.) Desaparecia a dor na fossa ilíaca direita bem como os sinais de irritação peritoneal que lhe acompanhavam, se estes havia.
          Da mesma forma, vários casos de apendicite aguda seguiram esse roteiro, e não somente um ou outro. Ainda assim, diga-se enfaticamente que, se repentinamente em qualquer serviço de Emergência um ou outro caso de apendicite aguda evolui para a cura com as medidas de suporte somente, há que se eriçarem as orelhas e os cabelos: - algo muito "esquisito" está a ocorrer. 
          Infelizmente a pressão do plantão agitado, outros afazeres mil da equipe cirúrgica e a falta de seguimento desses casos acabaram impedindo sua inclusão numa série estatística, finalmente transformando sua mera "curiosidade" fática em objeto de maiores investigações e atenção. 
          Outros colegas cirurgiões continuam a relatar, até o presente momento e em decorrência do contínuo estreitamento do gargalo no fluxo de atenção a esses pacientes, casos semelhantes. Óbvio é que em hospitais onde o fluxo é desimpedido tais casos não são observados já que os doentes são rapidamente submetidos a uma operação. Isso é digno de nota, e deve ser ressaltado. Afinal, foi no hospital "com gargalo" onde se começou a observar a ocorrência desses interessantes e desconcertantes fatos que desafiam o establishment e o consenso científico.
          É também desconcertante e irônico pensar que nossa pobreza mental e desmazelo pela coisa pública sejam capazes de dar ensejo a que se façam descobertas que de outro modo não faríamos. Afinal, seria aético comparar séries de pacientes escolhidos aleatoriamente para o tratamento cirúrgico ou o tratamento clínico da apendicite aguda e da obstrução intestinal. Somente o nosso descaso pela vida humana poderia expor a natureza em ação. Veja a que ponto chegamos!
          
          

segunda-feira, 29 de abril de 2013

DESNECESSÁRIA E INOPORTUNA GABAÇÃO


          Observem o nível de alguns repórteres de nossos diários, a maioria, diga-se de passagem. Escreveu em sua coluna o jornalista Alan Neto, do jornal O Povo: "....e Cid Gomes, hein? Cinqüentão com cara de 30. Sem nenhum cabelo branco. Sem qualquer ruga". (http://www.opovo.com.br/app/colunas/alanneto/2013/04/27/noticiasalanneto,3046906/tolerancia-zero.shtml)
          Será esse Alan Neto mais um baba-ovo do jornalismo local? Ao que me consta, o homem é jornalista há trocentos anos. Eu era menino – sou contemporâneo do Governador – e esse senhor já escrevia suas besteiras. Ele deve estar beirando os 70 e não se envergonha de puxar o saco dos grandes do poder. Faria maior serviço a seu Estado e ao sério jornalismo se se desse o trabalho de questionar o governo e seu premier sobre os descalabros da segurança pública, ao invés de perder tempo e precioso espaço no jornal com essas frescuras de maricas.
          É bem possível que o senhor Alan Neto não esteja, de fato, paparicando El Cid. Até porque a ninguém gera mérito nenhum ter ou não ter cãs ou rugas. Elogios dessa natureza são freqüentemente reservados e dirigidos a quem é carente de méritos. Quando não se acham predicados com os quais se possa qualificar um ser humano alvo de algum interesse, recorre-se ao panegírico raso e superficial. O encômio dessa natureza é tão bem-vindo quanto mais leviano for seu destinatário. Assim, não somente o autor posa de imbecil ao emitir opiniões desse tipo como também fica completamente exposto o desmerecimento de seu objeto.
          Tudo faz muito sentido, uma vez que o governo do Estado carece de há muito de sinceros elogios e deferências, e a pessoa do Governador, em que pese o merecimento das praxes inerentes ao cargo – que poderíamos taxar de "bônus imanentes" da função –, não pode escapar aos respingos da lambança em que se meteu ao não fazer o que deveria. Não podemos esquecer que o projeto "ronda do quarteirão" foi idealizado e concebido na cabeça de El Cid, baseado em estudos ou dados científicos dos quais ninguém sabe nem ouviu falar. O que se bem conhece é seu resultado: - criminalidade em alta permanente e à custa de incontáveis vidas humanas. É o “achismo” do senhor Governador a prevalecer sobre tudo e sobre todos.
          Continuemos que a "peça" do jornalista não fica por aí. Escreveu ele ainda mais sobre o Governador. Disse: "O poder pra ele tem efeito afrodisíaco e de elixir da eterna juventude" (sic).
          Sempre duvido de meus conhecimentos sobre determinado verbete da língua madre quando o encontro usado em situação esdrúxula, como o "afrodisíaco" que o senhor Alan Neto utilizou no contexto de seu comentário. Por isso fui correndo ao pai dos burros a fim de revisar seus significados. Encontrei o seguinte: "afrodisíaco - que conserva a força ou a aptidão de gerar, ou a excita; substância ou produto que estimula o desejo sexual".
          O senhor comentarista parece ter realizado uma descoberta cientifica das mais fantásticas da atualidade. Imaginem os leitores que o tocoferol acaba de ser desbancado de sua posição de antioxidante mais poderoso até então. E também o licopeno, o resveratrol, a cianocobalamina, o ácido ascórbico, o calciferol e tantas outras substâncias perderam o posto de poderosos antioxidantes para o “poder”. O “poder” entrou na lista dos elementos que mais previnem ou procrastinam o envelhecimento. Sim, porque não sei se sabem, mas o envelhecimento tem tudo a ver com oxidação e dano celular. O “poder” é, ao que ficou evidente, o mais forte antioxidante do momento. Vai ver é por isso que há uma corrida de ratos para alcançá-lo ou obtê-lo, como diria o Robert Kiyosaki. E, de fato, basta que se observem atentamente as fuças dos homens e mulheres mais poderosos do país, e porque não dizer do mundo, e se lhes veja lá estampados seus efeitos milagrosos.
           O diabo é que o articulista mal terminou sua blasonaria. Poderia ter parado por aí, mas resolveu delongar-se. E em se delongando acabou por intrometer-se na vida íntima da autoridade máxima do Estado, pressupondo até seu comportamento sob os lençóis. Tal intromissão e suposição geram, mais uma vez e no mesmo comentário, uma situação vexatória para o Governador. Ao que parece, a fanfarrice do senhor Alan Neto passou do limite. Tentando e tentado a afagar o homem, caiu na armadilha de dar panos pras mangas a gerar pilhérias e folguedos contra a pessoa do Governador. Os “bônus imanentes” de uma autoridade não incluem tais ilações, ainda que a intenção seja agradar. Fosse eu o Chefe do Executivo enviar-lhe-ia emissários com a expressa missão de dar-lhe uns bons e merecidos puxões de orelha. Ou bater-lhe-ia o telefone com a mesma finalidade, para que não saiam a dizer por aí que estou a pregar a violência física contra a imprensa e a liberdade de expressão por parte do poder constituído.
          Enfim, e para não esticar a baladeira sobre o breve comentário desse incauto jornalista – o mesmo não chega a quatro linhas -, encerro dizendo que sua longevidade e experiência na função desautorizam-lhe tamanha bisonharia. Como diria o saudoso Professor Eduardo Régis Monte Jucá, olhando para o chão e visivelmente contrariado: -“Que vergonha!...”   

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sessentão amanhã!


          Desisti de tentar entender de onde vêm algumas mensagens que me chegam por correio eletrônico. Melhor seria dizer que custa-me atinar como essas mensagens me alcançam. Em outras palavras, não sei como essas pessoas ou essas "empresas" fazem para obter o endereço das pessoas nem como se apoderam de informações que seriam, até certo ponto, confidenciais. Veja-se, por exemplo, o que sucedeu-me por conta de minha ignorância sobre tudo isso.
          Recebi, hoje, uma correspondência me informando da proximidade do aniversário de meu querido amigo Padilha, a ser comemorado ao dia 27 do mês corrente. Nela estava estampada sua foto, sorridente que nem um artista de novela, e a data de seu nascimento,  27 de abril de 1953. Estranhei de pronto, já que em minhas contas o Padilha é quase um garoto, um "broto", um galã mal aproveitado. Nunca me havia passado pelas idéias que ele carregasse às costas notáveis e rotundos 60 anos de idade. Ou há erro do informante, ou o Padilha é um mentiroso sessentão como os bonitões da sétima arte.
          Diga-se de passagem, o Padilha está inteiraço. Em que pese sofrer lá de suas pequenas e crônicas mazelas – ele sofre dos intestinos e da coluna –, o Padilha nem de perto aparenta seus incômodos e fermentáceos distúrbios. A coluna o impede de fazer os exercícios aeróbicos tão na moda para manter a forma, mas isso não é um problema pro Padilha. O amigo é magro como uma sílfide, possivelmente com a ajuda da rigorosa dieta à qual se submete por conta de seus desarranjos digestivos. Assim, nem tentarei omitir o que os mais chegados estão carecas de saber: - o Padilha é vaidosíssimo. 
          Sua vaidade está expressa em seu vestuário requintado, perfumes de grife e sapatos caríssimos. Com os cabelos tem um cuidado todo especial. Neles, e todos os dias, após o que o Nelson Rodrigues classificaria como um "banho de Cleópatra", Padilha usa uma mousse capilar fixadora e embelezadora seguida do uso do secador. (Isso mesmo: - ele tem um secador de cabelos!) Necessário é detalhar, para melhor entendimento do cuidado extremo com a aparência, o processo de secagem que o amigo utiliza em seu negro e cheio cabelame. (Do alto de sua sexagenária vida, ele segue guedelhudo como um porco-espinho.)
          Empunhando uma escova de formato cilíndrico e preparada em madeira de lei, dessas que as madames usam em seus salões de beleza quando lá vão se paramentar, Padilha "constrói" um invejável topete aplicando ao instrumento movimentos axiais ascendentes, repetitivos e progressivos. E ai de quem se meter a besta na tentativa de assanhá-lo depois de concluída essa melindrosa e especializada operação! Será alvo certeiro de impropérios verbais e, quiçá, solavancos físicos. (Embora o Padilha seja homem moldado na mais esmerada educação, certas provocações e situações levam-no facilmente ao limite da paciência, despertando seu demônio interior, que há de rosnar como um leão faminto.)
          Eu disse que o Padilha sofre dos intestinos? Disse. Saibam que usei o plural por um detalhe que poderia passar despercebido ao mais incauto: - Padilha sofre tanto do grosso intestino como do intestino delgado. Assim, o homem sofre dos dois intestinos. É sabido que o sujeito que não tem uma boa lida com seu aparelho digestivo alberga em sua psique insondáveis desleixos afetivos e/ou comportamentais bem fáceis de entender. Afinal, eles são fonte assídua de situações embaraçosas e periclitantes. O Padilha, é bem provável, não será exceção a essa observação factual. Confesso, contudo, desconhecer por completo qualquer desses desvios em meu amigo.
          Só agora percebo que desandei a falar no Padilha quando, a princípio, imbuído de propósito inteiramente diferente. Meu intento, já que entramos às vésperas das comemorações do natalício de meu amigo sessentão, era relatar o que sucedeu quando lhe bati o telefone para lhe informar que fora assaltado por grande surpresa ao tomar conhecimento de sua verdadeira idade. 
          Ele, ao ouvir-me ao telefone, foi logo reclamando das vicissitudes das quais tem sido vítima nesses últimos dias: - fora, pela quarta ou quinta vez e mais uma vez no decorrer do último ano, vítima de fraude. Já lhe "clonaram" cartões de crédito por mais de uma vez, já fizeram compras em lojas virtuais usando criminosamente seus dados, também por mais de uma vez e, durante esses dias, ele descobriu que alguém comprou um plano multifuncional em certa operadora de telefonia celular usando fraudulentamente o seu nome. 
          Enquanto eu forçosamente insistia em saber de sua verdadeira data de nascimento, ele esbravejava a me explicar que nos últimos dois dias passara várias horas numa loja da operadora tentando sair do engodo onde involuntariamente se metera. Estava fulo da vida. Eu não arredava o pé: -"Padilha, é verdade que tens 60?" Ele respondia: -"Sessenta uma pinóia!" E emendava: -"Deixa de frescura"!... 
          Acabei por permitir seu desabafo. Falou que o estelionatário comprara em seu nome um plano que contemplava telefonia celular, internet, TV a cabo, e mais um ou outro badulaque qualquer. Repetiu a mesma ladainha umas três vezes, ao final das quais sugeri: -"Devias consultar o teu médium... Há de ser um espírito zombeteiro a fazer caso de ti!" Mais fulo ainda, redargüiu: -"Deixa de frescura, macho!!..." Seguidor do kardecismo e percebendo meu descarado deboche, sentenciou: -"Vou desligar!", e bateu o fone nas minhas fuças.   
          Uma coisa pude concluir como certa: - o Padilha é um homem de muito pouca fé!...

terça-feira, 23 de abril de 2013

Torço por quem ganha!


          Já me conhecem: - não gosto de futebol. 
          Esclareçamos a fim de que não venha de lá alguém mais tosco e queira me julgar a masculinidade por uma simples inclinação. A verdade é que todo e qualquer esporte hoje se tornou algo além de si mesmo. Por exemplo, o futebol não é mais e tão-somente o campo, seus vinte e dois jogadores, o juiz, os bandeirinhas, e a genialidade dos craques ou a ruindade dos pernas-de-pau a emocionar a quem gosta de arte. O futebol hoje é corrupção, objeto de interesses escusos e inconfessáveis, fonte de enriquecimento ilícito e/ou desmerecido, politicalha, e tudo o mais de ruim e torpe que o ser humano carrega em suas entranhas. O futebol se tornou uma ferramenta de controle social das mais perversas.
          O futebol, aquele futebol que jogava o Mané Garrincha, só para citar um exemplo, acabou. Não mais existe o futebol-arte. O que há são jogadores interessados em enriquecer, como todo o resto da sociedade consumista em que vivemos. Dirá alguém que estou a exagerar, e é bem provável que esteja mesmo a exagerar. Fiquemos, então, cada qual com seu cada qual e arremato: - o futebol do qual eu gostava é coisa do passado. Assim, repito: - não gosto de futebol. Ou, melhor: - detesto futebol.
          Já me conhecem: - não vou a estádios de futebol nem a botecos e restaurante cujos telões lá estejam postos para exibir uma partida de futebol. Se resolverem pôr a cantar Ítalo e Reno no telão, vá lá. Futebol nem pensar. 
          Recentemente estamos a trocar figurinhas meu amigo Fernando Antônio Siqueira Pinheiro e eu. Ele, um torcedor apaixonado; eu, essa fina flor de desemoção em se tratando deste assunto. Ocorre que ele, como escritor da mais elevada estirpe que é, me enviou uma belíssima crônica de sua autoria que falava não sobre futebol, mas no bonito cenário familiar que se desenha quando toda a família gosta de futebol, e principalmente se todos torcem pelo mesmo escrete. Os filhos na companhia dos pais, estes na companhia daqueles, o avô, a avó, os irmãos, o cachorro, o papagaio... enfim, todos são bem-vindos a esse momento de união e gozo pelo simples prazer de estar juntos.
          Vamos e venhamos, nada há de mais aprazível do que a família reunida em harmonia. E ainda mais no estádio de futebol, onde o clima já é de festa. Todos são ganhadores. Ainda que a derrota do time querido esteja à espreita, já vale a pena. A crônica de meu amigo diz tudo. Uma pintura de letras é o que ela é. 
          Antes de ontem, se bem me lembro, encontrei o Siqueira no hospital. Ia ele meio açodado, mas ao me ver a lhe acenar de longe deu meia volta e veio ao meu encontro. Ali, pessoalmente, fez ainda mais apologia ao futebol familiar. E insistia: -"Vamos lá, bicho! Hoje o vovô vai dar uma traulitada no Fluminense!" Queria porque queria me levar ao jogo do Ceará contra o Fluminense do Rio de Janeiro. E pus-me a lhe explicar que também meus garotos não gostam de futebol. Preferem namorar ou qualquer outra coisa. Menos futebol.
          Confesso: - em criança ia com meu pai ao PV, e adorava. Tardes ensolaradas de domingo, Fortaleza provinciana de ventos frescos, charanga do Gumercindo, a pequenina torcida do Ferrim, o populacho da do Ceará, tudo isso no Cimento Especial. Quando era clássico eu não gostava: - todos resolviam assistir ao jogo de pé e eu não via bulhufas! Torcia pelo Fortaleza, igualzinho a meu pai. Meu compadre Chico é quem diz: -"Filho que não torce pelo mesmo time do pai é porque tem negão na história..." Quem sou eu pra contestar? 
          Pois, além do Siqueira, me convocavam ontem ao estádio o Casoba, o Almiro, o Beto, todos inveterados torcedores do Ceará; e o Chico só não me convidou porque ele próprio não iria. Aparentemente ia haver uma festa. Meus amigos torcedores do Ceará contavam com a vitória de seu alvinegro sobre o Fluminense. Quem não conseguia um grama de empolgação era eu mesmo. 
          Aconteceu, porém, de o Chico à noite me bater o telefone e me convidar a ir tomar umas e outras. Eu, que penso que depois da família a melhor companhia é a dos amigos, não pude me conter. Fui. E onde fomos havia um telão e nele o jogo do Ceará. E outros tantos agorafóbicos lá se ajuntaram em bandeirolas e camisas preto-e-branco. O que esse povo viu, contudo, não lhe deixou muito feliz. Foi um desastre: - o Fluminense esmagou o Ceará, que jogava pelo empate, ou melhor, por três empates. Assim, após um breve lapso de tempo só havia gente triste no boteco, exceto o Chico, torcedor do Ferrim, e eu, torcedor de ninguém.
          Tudo isso me fez lembrar o dia em que meu pequerrucho se achegou a mim, depois de presenciar alguns amigos a se engalfinharem em discussões futebolísticas, e me inquiriu sério: -"Pai, por qual time tu 'torce'?" E eu: -"Torço por quem ganha, filho." E ele, visivelmente contrariado: -"Ah, pai, mas assim não vale!..." E eu: -"Nenhuma regra diz que não." Ele, já exasperado, retrucou: -"Ah...! assim não pode!" Então, fui lhe explicar que torcer por quem ganha é o melhor negócio, que assim a gente não sofre por besteira. Ele de estorvado que estava acabou por achar muito interessante e vantajosa essa opção. 
          Ontem pude constatar mais uma vez que torcer por quem ganha é realmente o grande negócio. Torço por qualquer time, desde que esteja ganhando. Durante a partida, no caso de não ter outra alternativa que não seja assistir a um jogo de futebol, viro a casaca tantas vezes quantos gols acontecerem e no final comemoro a vitória do time vencedor. Ontem foi a vez de o Fluminense me ter como seu torcedor. 
          Para os inconformados com a minha lida com o esporte anuncio em alto e bom som: a torcida é minha e a dou a quem bem entender, ora bolas!

02.06.2005
          
          

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Eu e meus pés de pavão


          Estava na enfermaria quando ouvi a voz estridente, imperativa e às alturas no "boca de ferro" ordenar a que todos os acompanhantes dos pacientes que estavam na Emergência se retirassem. E insistia: -"Retirem-se! Os senhores estão atrapalhando!" 
          Sou um neófito aqui no Instituto Dr. José Frota (IJF), mas já aqui atuo faz quinze anos. E nunca, jamais, em momento algum durante esse pouco tempo em que sou cirurgião deste hospital escutara tal coisa. Madrugadas e madrugadas, dias e dias a fio em plantões extenuantes e nunca vira nem ouvira a ordem que expulsava as pessoas do setor nevrálgico do hospital, a Emergência. Ainda mais numa terça-feira, como hoje. 
          Convocação maciça de médicos e paramédicos ao local sempre foram relativamente freqüentes, principalmente em casos de acidentes com múltiplas vítimas ou de vítima gravemente traumatizada. Isso sempre foi mais comum nos feriados e fins de semana. Ainda assim nunca se expulsaram os acompanhantes. 
          O que aconteceu foi o seguinte: - um acidente de helicóptero que transportava quatro pessoas, um político de "renome" e seus comparsas, digo, correligionários. Com a divulgação do fato pela imprensa e pelos órgãos de segurança, outros políticos, familiares das vítimas, a imprensa, curiosos, todos acorreram ao IJF e à Emergência. Dir-se-ia que estavam a distribuir dinheiro no setor. 
          Alguém, então, teve a brilhante idéia de tanger o povo para dar espaço àquela massa humana do "poder", ao que parece um policial de alta patente e que nada tinha a ver com o hospital e nenhum cargo lá ocupa. Posando sua farda mais vistosa e imbuído do espírito de "Gandola" dos tempos ditatoriais, o homem chegou impondo toda a sua autoridade. Faltou apenas que ele expulsasse também os outros doentes para deixar a Emergência inteira e plena a serviço dos "picas-grossas". A menina que funcionava de locutora no momento surfou na onda do "coronel" e decretava: -"Retirem-se!"
          Observem que esses senhores – coitados! –, as vítimas do helicóptero, eram todos da mais velha e vermelha "esquerda", homens preocupados com o povo, desses que bradam "o povo unido jamais será vencido!". Expulsavam o povo que estava na Emergência em busca de socorro, o mesmo povo que querem ver unido e invencível.
          Vejam que não estou afirmando que esses senhores não teriam prioridade no atendimento, até porque um acidente com uma aeronave pressupõe lesões de maior gravidade em suas vítimas. Estou apenas dando ênfase à maneira como a coisa foi feita e em quem a fez. O militar atropelou a autoridade médica de plantão e usou de recurso autoritário em sua ação. E é possível, sim, que na Emergência houvesse um ou mais doentes graves sendo atendidos e que a ação deste incauto militar viesse a prejudicar as pessoas que dominavam a atenção da equipe médica, inclusive levando-as a pagar com a própria vida a intervenção inesperada e altamente inoportuna.
          Contudo, tudo se explica. Há tempos, no Brasil, a "esquerda" fornica com o pior da "direita" a bem da governabilidade. Assim, eis aí a "esquerda" agindo segundo o que ela mesma deplorava. Bem se vê que a "direita" está fazendo escola. Trocando-se uma por outra não se quer um Cibazol de troco. 
          Ao fim da truculência do oficial a serviço da "esquerda", e por contra-ordem de alguém da direção com um mínimo de colhões, os apreensivos familiares e afetos dos pacientes do meio do povo  voltaram a seus lugares.
          No meio da inusitada manhã a boa noticia, após o atendimento das vítimas do acidente com o helicóptero, era que ninguém morrera nem corria risco de vida. A má dava conta de que duas ou três delas corria o risco de ficarem paraplégicas, dentre elas o influente político. Emergiu, então, outro problema que incomoda até agora, horas depois do acidente e ao momento em que escrevo essas linhas: o hospital não dispunha da única droga que consensualmente tem uso potencialmente benéfico quando usada precocemente no traumatismo raquimedular não penetrante, a metilprednisolona. O político e as outras vítimas do acidente aéreo que sofreram trauma raquimedular poderiam se beneficiar do uso da metilprednisolona. 
          Constatada a necessidade premente da droga já que a vítima era "importante", iniciou-se uma operação de guerra para a autorização de sua compra. Resultado: - dali a poucos instantes apareceram milagrosamente carradas de metilprednisolona. A ineficiência e inoperância subitamente deram lugar à eficiência com celeridade e eficácia. Tudo na mais perfeita harmonia entre a demanda e a oferta. 
          É possível explicar por que aquele que é considerado o maior hospital a atender vítimas de trauma no Norte e Nordeste do Brasil não dispõe à mão de medicamento impactante, à luz da ciência, no resultado do tratamento do traumatismo raquimedular? É possível explicar por que razão as vítimas deste acidente em particular tiveram sua necessidade atendida tão prontamente e com tal presteza? É provável que o zé-ninguém  não recebesse tanta atenção para o seu risco de paraplegia. Para ele, nada de metilprednisolona! Entraria para as estatísticas das feridas de coluna que resultaram em paraplegia sem a devida responsabilização de nosso podre e desumano serviço público de saúde.
          Os adeptos do "o povo unido jamais será vencido!" estão a dar as costas pro povo. E nem vamos nos dar o trabalho de comentar o tratamento diferenciado que esses senhores tiveram. Esqueçamos também a metilprednisolona. Tudo isso é coisa de país desenvolvido. Não temos vocação para isso. O diabo é que esse mesmo povo não dá a mínima por ser maltratado. Prefere empunhar bandeiras por dez reais ao dia, ou vender o voto por uma dentadura, um saco de cimento ou uma inscrição no bolsa-qualquer coisa. 
          Saí do hospital mais triste do que pavão quando olha pros pés. Não sei se já viram: - pé de pavão é feio de dar dó...!

19.09.2006

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ave, São Ciro!...


​          Não é de hoje que o Brasil é o país do faz-de-conta. A bem da verdade desde sempre o faz-de-conta tem dominado a vida nacional. Vejam como a coisa é mesmo antiga.
          ​Sabe-se que a revolução liberal do Porto de 1821 pretendia, dentre outras coisas, re-“colonizar” o Brasil. A forte pressão exaltava os ânimos por essas paragens, já que ninguém por aqui queria tal retrocesso. Em 1822 a situação era tal que das duas uma: ou voltávamos ao status de colônia, ou nos desligávamos da metrópole.
          ​A elite da época não queria se desligar de Portugal. Seus interesses e privilégios estavam plenamente satisfeitos com essa ligação e ela antevia ainda mais “progresso” nessa relação. O povo que se fodesse! Portugal era, portanto, necessário à nossa classe dominante. Assim, parecia que estavam a aliar-se a fome e a vontade de comer.
​          O diabo eram os tais “radicais”, parte esclarecida da população que não podia nem ouvir falar na possibilidade do que pretendia a revolução do Porto. O Imperador, “defensor perpétuo” do Brasil, estava sendo pressionado a voltar a Lisboa e nele se via a única possibilidade de manutenção da união do vasto território. A pressão a que o homem aqui permanecesse era grande. Tanto que, em 9 de janeiro de 1822, ele disse, num desses discursos bem afeitos aos dos colloridos: -“Para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico”! E ficou. Mais tarde foi embora brigar com seu irmão Dom Miguel pela coroa de Portugal. 
          ​A crescente pressão vinda da Europa e as crescentes e freqüentes revoltas da arraia miúda culminaram com o factóide das margens do Ipiranga, este, em si, um brutal faz-de-conta que foi para os livros de história, como todo o resto.
          ​Depois, quiseram promulgar uma Constituição que tirava os poderes do “defensor perpétuo” que, obviamente, não permitiu a positivação de tal intenção. Só para se ter uma idéia, o projeto de Carta Magna punha o comando das forças armadas longe do Imperador! Assim, ele, com toda razão, dissolveu a assembléia constituinte que tramava contra ele e convocou uma nova ao ano seguinte, mais afeita a seu gosto.
          ​A nova Carta era um primor de liberalismo e democracia, bem ao feitio do cada vez maior movimento europeu de limitação dos poderes dos coroados, ainda que recheada do “velho” absolutismo. Tudo na mais completa reinauguração do crescente faz-de-conta. A lei máxima entronava Sua Majestade na mais inalcançável posição e o punha sobre tudo e todos, bem longe e bem acima da lei. Basta, a quem interessar, consultá-la e constatar. 
          E por aí estamos indo. Para variar, como comumente dizemos quando queremos dizer que, de fato, nada "variou". Por aí estamos indo e vindo até hoje. 
          Para ilustrar a história do faz-de-conta perene e ao longo do tempo dou um salto para demonstrar, num simplório e local exemplo, como ele ainda está entre os convivas, e prometendo ficar ainda conosco por muitos séculos. 
          Na semana passada assisti, em telenoticiário local, a fala do senhor Ciro Gomes, homem imbatível em inteligência e retórica, quando da posse de uma multidão de policiais recém-ingressos na corporação. Disse ele o seguinte: -“Nossa sociedade está doente, grande parte da sociedade mundial está doente...!” Ouvindo isso me empertiguei na poltrona. Sentia algo novo a se aproximar; algo contundente, chocante, extasiante. Dir-se-ia que sentia que estava em vias do infarto.  Vindo do senhor Ciro Gomes sempre há a possibilidade de uma eloqüente bombasticidade.
            Eu me perguntava, nos milionésimos de segundos em que ele suspirou para continuar, que doença pandêmica estava a acometer quase todo um globo, quase 7 bilhões de almas, eu inclusive. Eu pensava: -“Estou doente e não sei...” "De que será que adoeci?", era o que me perguntava. Eis, então, a pérola que ele, como uma humilde e bela ostra, preparou para o ornamento de meus ouvidos: -"Enquanto a sociedade entender que a felicidade está no consumo, ela [a sociedade] estará doente..." Meu refluxo – tenho refluxo gastro-esofágico – subitamente passou a me apoquentar. Para piorar ele continuou. Disse: -"A felicidade está no amor, na fraternidade, na paz social..."
          Não sei se os leitores percebem onde quero chegar. Não sei se me faço entender. Será necessário continuar? Mais digressões são absolutamente inúteis... Desculpem-me os leitores.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lei seca de resultados


Tenho a mais absoluta certeza de que muitos dos que têm perdido seu tempo a me ler doravante desistirão. Certamente dirão: -“Sofre de obsessão”! De uma forma ou de outra estarão certos. Mas, que se há de fazer? Lembrar-se do que dizia o Nelson sobre si mesmo: -“Eu nada seria sem as minhas obsessões”!
            O diabo é a realidade de nosso meio. Certas realidades são como doenças crônicas que todos os dias nos atacam em crises, como incômodas sezões. Pois é assim nossa realidade, a realidade do fortalezense. Sobre a guerra que se trava debaixo de nossos narizes já temos comentado em demasia. Há, além dela, outras mazelas da vida nacional que nos envergonham e nos levam a desânimos incoercíveis; a uma enorme e quase incontrolável vontade de ir pro aeroporto e comprar uma passagem para destino internacional, só de ida; a sensações de desamparo e de crescentes e contínuas vulnerabilidades...
            Tempos atrás me jactava de não ler jornais. Em seguida, descobri que nos jornais pululavam as mais densas imbecilidades e os mais espessos idiotas, a se oferecerem como tema a boas crônicas e comentários jocosos; abundavam os acontecimentos mais absurdos que se possa imaginar e as comicidades mais trágicas da paróquia. Foi quando resolvi que lê-los me era mais interessante. Não tomar conhecimento do que está a ocorrer pode ser cômodo e nada danoso. Afinal, o que idiotas, imbecis, tragédias e comicidades trágicas podem nos acrescentar?
Por outro lado, a ignorância consentida e escolhida também nada nos soma e deve, tanto quanto possível, ser evitada. Assim, chega-se involuntariamente a uma encruzilhada, à imperiosidade de uma escolha, e à necessidade de um posicionamento. Lembro-me, há alguns anos, no cenário de uma das eleições para a diretoria da Unimed Fortaleza, o meu amado e querido amigo Fernando Antonio Siqueira Pinheiro me “intimando” a declarar publicamente o meu voto porquanto supunha que minha discrição estaria a indicar minha própria consciência de um “mau” voto. Bramia ele, à época, quase furioso: -“Posicione-se, meu filho! Posicione-se!...” Pois me posicionei, embora não tenha confessado em quem votara. Deveria meu querido amigo saber que meu voto, salvo raríssimas e honrosas exceções, vai sempre para a oposição.
Voltemos aos jornais.
Em que pesem as idiotias e imbecilidades contidas nos periódicos, há lá preciosidades e restrições àquela lamentável regra. Vejam, por exemplo, o jornalista Fábio Campos, o arquiteto e escritor Romeu Duarte com suas belíssimas crônicas, a altura daquele a quem substitui – o saudoso Airton Monte, e a jornalista Adísia Sá.
Hoje li, do para mim desconhecido engenheiro Assis Miranda, um texto primoroso por sua agudeza e lucidez, e que traduz o que buscam aqueles que têm sede de justiça (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/04/05/noticiasjornalopiniao,3033769/o-que-mudou-na-lei-atual-e-essa-a-lei.shtml). Diz o título de seu artigo: “O que mudou na lei atual? É essa a lei?” Ele se debruça sobre a chamada nova Lei Seca. Compara ele a nova com a antiga no que diz respeito à alcoolemia dos motoristas no trânsito. A nova diz não ser permitido ingerir a quantidade de bebida alcoólica que produza no sangue a concentração de 20 mg% da droga sob pena de elevadas sanções (multa e apreensão da carteira e até prisão do guiador). O articulista quer saber se as autoridades inglesas são irresponsáveis, já que lá eles toleram até 80 mg% de álcool.
Tudo, então, se faz claro, muito claro quando ele faz a seguinte indagação: -“Você acha que um atropelador, embriagado, está solto na Inglaterra?, e aqui algum (dos nossos) está preso?” Aqui, segundo ele, está toda a tramóia: - nossa lei pune quem bebe pouco e não causa acidentes, e não pune exemplarmente os assassinos do volante. Diz ele, indignado: -“Por isso, também a violência só aumenta neste país! Isto é, o problema não é de uma lei específica, mas do somatório de leis ‘frouxas’ e de uma mídia que adora ‘factóides’ e promove a adoção de uma lei dessas como se fosse a solução. Dão ao seu propositor e ministros uma projeção extraordinária, dando ao povo a ilusão de que o problema está solucionado, em vez de analisar a questão a fundo”. Mais uma vez alguém expõe o nosso regime de faz-de-conta. Lá, na Inglaterra, os delinqüentes da direção estão todos presos na forma de sua rígida lei.
O senhor Assis Miranda encerra sua indignada preleção implorando: -“Queremos uma lei que prenda o embriagado, atropelador, causador de acidentes e mortes e que seja inócua para quem bebe apenas uma dose, um copo de vinho, uma cerveja”.
Precisa dizer mais alguma coisa?

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Matando a pau!


            Hoje, como se diz no jargão popular, o jornalista Fábio Campos matou a pau. (Aliás, falar ou escrever "matou" nas atuais circunstâncias é até um imperdoável Freudian slip, uma vez que o que mais se tem feito por essas bandas seja matar ou morrer.) Título de sua coluna: “Sim, estamos com medo” (http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2013/04/04/noticiasfabiocampos,3033133/sim-estamos-com-medo.shtml). Toda a população de homens e mulheres de bem desta pobre cidade deveria engrossar o coro e bradar aos quatro cantos: -“Sim, estamos com medo”! A diferença seria a exclamação a dar a entonação de nossa indignação e terror.
          Sim, deveríamos parar a cidade. A população, o conjunto dos que trabalham, ricos e pobres – estes mais ainda porquanto são as mais potenciais vítimas – deveriam faltar ao trabalho, todos, sem exceção, e se dirigir a um lugar qualquer e gritar bem alto: -“Sim, estamos com medo”! Como isso está longe de ocorrer, nos contentemos com o título que Fábio Campos epigrafou à sua coluna de hoje no jornal O Povo. Eu me senti, ainda que muito incompletamente, de alma lavada.
          Há plágios bem-vindos. A propósito, se alguém plagia alguém, sinal é de que o alguém que se plagia tem algo de bom. Não é o caso porque o que farei a seguir não há de se caracterizar como tal, já que darei os devidos créditos ao autor, o jornalista Fábio Campos. Passemos então a transcrever algumas de suas colocações feitas hoje à sua coluna.
          Diz ele o seguinte ao início. 
          Pensando melhor, iniciemos pelo fim, já que o arremate saiu um primor: "Falta somente um ano e nove meses para o fim da atual gestão. Vem eleição por aí. É de praxe que o governante plantonista queira fazer o sucessor. Portanto, não nos iludamos com medidas espetaculosas de efeito curto e duvidoso."
          Observem que há aqui uma clara referência ao governo do senhor Cid Ferreira Gomes, já que nosso prefeito assumiu há poucos meses. Fábio Campos peremptoriamente declara que a gestão atual não conseguirá resolver o problema da segurança pública, mas que tentará, tendo em vista a praxe de buscar se eleger o sucessor, fazer parecer que o fará através de medidas pouco críveis em real efetividade. Estou com ele e não abro: o Brasil é o país do faz-de-conta.
           "Nos sábados e domingos as ruas estão vazias. Não há transeuntes. Calçadas ociosas. Cidade deserta. As pessoas não mais se dispõem a praticar o mais agradável dos direitos humanos: perambular nos finais de semana. Trancafiadas em suas próprias casas." Outro dia, após duas ou três investidas na noite no fim de semana, perguntei a Bella: -"Onde está todo mundo?" Bares e restaurantes outrora repletos da alegre gente dessa cidade estavam vazios. Poucos carros na rua. Eis a explicação do jornalista. Redundante dizer que ele tem enormes chances de estar certo. É fato. Outras explicações seriam a pindaíba e os preços elevadíssimos em nossas casas noturnas, e a lei seca. Mas que a noite de Fortaleza agoniza a olhos vistos não há a menor sombra de dúvida.
           "E surgem os cavaleiros da calmaria oficial a dizer que estamos a criar um clima falso de insegurança e violência, que é exagero, que é motivação política, que é interesse contrariado, que é conspiração... Enfim, qualquer uma dessas bobagens usualmente proferidas pelos aspones que não têm resposta a nos dar." Discurso mais manjado do que homem com olhar de peixe morto na direção de donzela apetrechada, notadamente nesses tempos aculturados por partido pseudovirtuoso pior do que aqueles aos quais dizia se opor. Essa aculturação foi por demais bem sucedida haja vista o alastramento de discursos similares proferidos por outros de outros partidos "aliados". Vide justamente os dos aliados do governador. Some-se a isso a falta de oposição que seu governo "enfrenta", assunto que o jornalista Fábio Campos abordou e denunciou noutra oportunidade bem recentemente (http://www.opovo.com.br/app/colunas/fabiocampos/2013/03/30/noticiasfabiocampos,3030795/a-falta-de-oposicao-causa-mais-estragos-que-a-seca.shtml). 
          Deixemos o restante do primoroso artigo aos que se interessarem em lê-lo na íntegra.
          Hoje, conversando com meu querido amigo Ciro Ciarlini, cirurgião cardíaco da mais elevada estirpe, ouvi dele a seguinte hipótese para explicar a violência desenfreada que ora grassa: - a causa da cultura da violência entre nós é a "nossa" religião. Segundo ele, a crucifixão do Cristo é a comprovação disso. Para exemplificar citou os budistas, os islamitas, os hinduístas, "religiões" onde o Cristo nada ou quase nada é. Que acham disso? Eu acho o seguinte: - o Ciro pode ser um excelente cirurgião cardiovascular, mas é um péssimo sociólogo. É o que acho. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sobre bósons e distúrbios androgênicos


          Essa história de correio eletrônico, uma engenhoca da pós-modernidade, nos prega surpresas às vezes agradáveis, às vezes nem tanto. As mais desagradáveis recebemos a todo momento: são as infinitas propagandas de empresas, lojas, agências de viagens, hotéis, etc. etc. etc. Eu disse surpresas e corrijo: não há mais nenhuma surpresa. O envio diuturno desse lixo para nossa caixa de correio é tão certo como a morte e os impostos. Oxalá em breve consiga eu encontrar uma maneira de evitá-los.
         Já as agradáveis surpresas sempre serão bem-vindas e desejadas, ainda que sua freqüência seja inferior ao que anelamos. Por exemplo, recebi há dois dias, e confesso só ter visto hoje, uma correspondência de meu amado amigo e irmão Antonio Torres Braga. Longe de trazer qualquer notícia dando conta de algum infortúnio alheio, trazia ele uma bela mensagem de exortação. Queria – e de fato, ainda quer – um encontro urgente com os amigos. Disse ele: “queridos, está na hora de um novo encontro; passamos juntos a infância, a adolescência, a fase adulta e, agora na andropausa, fugir desta familiaridade NÃO é possível”. Observem a letra maiúscula a enfatizar a impossibilidade de um eventual não-encontro. Entendi-lhe o recado: ele não aceita um não como resposta. E querem saber? Nem eu.
          Tempos atrás fiz o mesmo. Admoestei uma amiga por seu descompromisso com o importante, com o vital (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Por-favor-nao-diga-nao-b1-p159.htm). De outra feita revelei o efeito inolvidável do passado naqueles que tiveram a felicidade de viver um bom passado, como eu (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Lembrancas-e-desejo-b1-p168.htm). Assim, por duas vezes bradei aos quatro cantos do mundo e aos amigos que se afastavam, exortando-os a fugir das forças centrífugas da vida.
          Os cientistas da cosmologia buscaram por longo tempo entender como o Universo se formou após o tal do big-bang. O problema para eles era explicar o ajuntamento da matéria em galáxias, estrelas e planetas ante a força tão poderosa e centrífuga daquela explosão monumental. Que fizeram? Todos sabem como são os cientistas: - ante um imbróglio teórico arrumam outra teoria para explicar o que não coube na anterior. Foi assim que o Peter Higgs, lá pelos idos de 1964, aventou a existência de uma partícula que funcionaria como um freio a essa estrondosa expansão. Não fosse ela – o bóson de Higgs – e a matéria do Universo não teria se ajuntado para formar todo esse colosso. 
          Pois assim também nós, os amigos-irmãos foco da exortação de meu Torres, devemos urgentemente criar, inventar, acionar e pôr para funcionar o nosso "bóson de Higgs". Em outras palavras, precisamos acionar a força centrípeta que há de nos trazer de volta uns aos outros, sob pena de sermos lançados a uma distância tão grande uns dos outros que teremos preguiça só de pensar em voltar. 
          O meu Torres só se equivocou numa coisa, devo dizer, e que ele não se amue comigo pela impertinência. Disse ele que estamos na andropausa! Vejam só!: "...agora na andropausa etc. etc. etc." Segundo meu querido amigo Ariel Scafuri, uro-andrologista de primeira linha, nascido argentino, paulistanamente criado e fortalezensemente fixado, não existe a andropausa. Diferentemente das mulheres, estas sim, todas afetadas pela menopausa, os homens não somos unanimemente afetados por quedas críticas em nossas taxas hormonais. Perece que pouco mais de 30% dos machos da espécie humana acima de sessenta anos são afetados por tal distúrbio. 
          Corrigindo o querido amigo, e lembrando que estamos longe da idade de risco do Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino (DAEM), não é porque estamos entrados em anos que devemos promover mais um de nossos encontros. Devemos envidar todos os esforços para mais um clube do bolinha tendo em vista, repito, os sérios riscos que nos impõem as forças centrífugas da vida. Essas, sim, são poderosíssimas, ainda que insidiosas e justamente por isso. Não nos deixemos por elas enganar. Mais: - e não esqueçamos de convocar outras "pratas da casa", como o Ricardo Dodt e o feérico Brasinha, vulgo Paulo Brasil, o homem mais perigoso que conheço. 
           Apoiemos aqueles que prematuramente estão a padecer da humilhação que sentem por seus encanecidos e escassos cabelos, como os amados Fábio de Oliveira Motta e Sérgio Moura. Joelhos podres são uma constante mesmo entre os mais ativos e jovens atletas, de formas que nada disso deve permitir abatimento do espírito e da auto-estima. Queremos o time completo. Nem que seja para um racha com uma bola de meia, na falta da dente-de-leite, já que não mais se fabricam as bolas Pelé. Tenho dito.