quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Nossa desejada guerra

Estão os governadores do nordeste a posicionar-se a favor da cobrança do imposto para a saúde. Se assim se posicionam é porque, nas suas contas, não têm tido, ao longo de seus mandatos, dinheiro em caixa para custear as despesas com saúde.
            Para mim, que sou um só, tal problema é uma barbada, galho fraco, uma bobagem. Que faço? Ora, a vida é minha, a saúde é minha, quero viver mais e melhor, faço o que está ao meu alcance para me manter sadio. Não quero adoecer. Adoecer sai mais caro, muito mais. É óbvio que não depende só de mim não adoecer. Há a genética, os acidentes, os imprevistos.
Mesmo aos acidentes posso minimizar suas probabilidades. Não fumo, faço exercícios, fico longe do estresse, me alimento com frutas, verduras, legumes; como pouca carne, bastante peixe e frango; só ingiro alimentos com pouca gordura; controlo o sal, o sol, rio até de piada sem graça, não me apoquento com os problemas de controle indireto e com os de controle inexistente. Quando sofro, se for dor eu grito; se for tristeza eu choro; se for doença eu gemo. Ora, bolas. Faço o que posso. Até agora tem funcionado.
Pago o plano de saúde, para o caso de precisar. Acaba que sempre se precisa. É questão de tempo. Todos ficarão doentes. Os que não ficam morrem subitamente ou morrem dormindo de tão velhinhos, como a Raquel de Queiroz. Não dão trabalho a ninguém, que bonitinhos e fofinhos! Os outros passam pelo processo de morrer. Começam a morrer anos antes e acabam por morrer como o final, o clímax da degeneração progressiva e inexorável.
Mas, e os governadores do nordeste? Deixemos esses excelsos senhores de lado por enquanto.
Não sei se viram a entrevista que fez o Michael Moore com o senhor Tony Benn, lendária figura da política britânica. Para o caso de não terem visto, estou disponibilizando-a aos leitores. É desconcertante o que se vê e ouve. O senhor Moore também entrevista um médico de família inglês, o equivalente ao médico do nosso Programa de Saúde da Família. Não farei nenhum comentário sobre o que diz o senhor Benn, já que toda a reportagem é um universo de deixas para se comentar e refletir e, no caso dos brasileiros, se envergonhar. Direi, contudo, que a diferença colossal e intransponível e que salta aos olhos entre o político e o povo britânico e o político e o povo brasileiro é a guerra.
O povo britânico participou, todo ele - cada homem, mulher, idoso e criança - da Batalha da Grã-Bretanha durante a Segunda Grande Guerra, por exemplo. Durante cerca de oito meses mais de 42 mil civis perderam a vida, e suas cidades foram impiedosamente bombardeadas pelos alemães. Não se está falando dos soldados britânicos que lutaram mundo afora defendendo a causa da liberdade durante todo o conflito. “O total de mortos e desaparecidos em combate, presumivelmente mortos, nas forças armadas britânicas, correspondeu a 303.240 homens, aos quais é preciso acrescentar mais de 109.000 dos Domínios, da Índia e das Colônias, num total de 412.240. Esse número não inclui 60.500 civis mortos nos bombardeios aéreos no Reino Unido, nem as baixas de nossa Marinha mercante e de nossos pescadores, que corresponderam a cerca de 30.000.” (Memórias da Segunda Guerra Mundial, W. S. Churchill, 1959)
A guerra feroz, mortal, que faz sofrer, que faz gemer, que faz gritar, que faz chorar e faz também se desejar ardentemente não somente a paz entre as nações, mas também a paz social, a paz na nação, entre os concidadãos, que se acham agora firmemente unidos por laços fortes do espírito de corpo que só se criam quando se luta e se morre junto – essa nos falta; a guerra que ameaça a sobrevivência da própria pátria e que leva ao campo de batalha até o filho do rei, o príncipe – essa nos falta. O que parece é que o destino não nos reservou as tão decantadas e inexistentes glórias de nosso hino.
Vamos à entrevista com o médico britânico. Ela revelou o segredo do resultado de estudos recentes que demonstram que os britânicos entre 55 e 65 têm uma saúde muito melhor do que os norte-americanos de mesma faixa etária. Para todas as doenças que foram analisadas os americanos as tinham mais que os ingleses. Mesmo os mais pobres britânicos têm a saúde melhor e vivem mais que os mais ricos estadunidenses. Câncer, diabetes, hipertensão,doenças cardíacas e doenças pulmonares são todas mais comuns entre os americanos comparados aos britânicos.
É o seguinte. Primeiro, todos os britânicos têm acesso ao seu sistema de saúde. Sabem que o sistema é financiado com o dinheiro dos impostos que pagam e que, portanto, não é gratuito. Segundo, o sistema está funcionando desde 1948 e ninguém jamais ousou modificá-lo para pior. Terceiro, os médicos ganham mais quando conseguem influenciar seus pacientes a serem diligentes com o controle de fatores de risco como diabetes, hipertensão e hiperlipidemias. Por exemplo, se o médico consegue que seu paciente abandone o hábito de fumar, ganha mais. É uma espécie de produtividade por resultados obtidos. Faz sentido. Pagar mais e melhor ao médico sai mais barato do que tratar as complicações devastadoras dos fatores de risco.
http://m.youtube.com/watch?v=A-2h0o3uZ-8
Da reportagem fica uma constatação constrangedora e vergonhosa: - nosso sistema de saúde público ou privado é, na verdade, a indústria da doença. E os governadores querem mais dinheiro nosso para mantê-lo funcionando a todo vapor. Como diz o senhor Benn, um povo doente, inculto e sem confiança é fácil de governar. Na outra ponta de nosso podre sistema estão a indústria farmacêutica, as farmácias, a grande indústria de material médico-hospitalar e a indústria dos sofisticados meios de diagnóstico, com seus novos e fantásticos aparelhos que só faltam falar, mas que na verdade desviam para longe um do outro o paciente e seu médico. E não se podem esquecer os empreiteiros, nossos velhos conhecidos empreiteiros, que constroem hospitais públicos caríssimos os quais às vezes nem chegam a concluir. Para isso querem mais dinheiro nossos sérios, compenetrados e comprometidos governadores. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Psicologia do paredão


Estão querendo aprovar a lei do paredão, que pretende impedir que aqueles equipamentos de som feitos para ensurdecer continuem a ensurdecer o cidadão.
            É impressionante que nós brasileiros, e em particular nós cearenses, e em mais particular ainda o fortalezense, ainda discutamos o óbvio. Em países civilizados, que também passaram por sua fase barbárie, a lei sobre assuntos básicos já existe e funciona. Este é um assunto básico. Não se pode andar por aí com um aparelho de som às alturas incomodando as pessoas. É básico.
            Das duas uma: ou ainda estamos à fase da barbárie ou... Pensando melhor não há alternativa: - estamos em pleno atraso, somos ainda o homem das cavernas. Só isso pode explicar que ainda haja pessoas, não poucas, a defender o uso e a fabricação desses monstrengos. Eis a razão por que a defendem: dinheiro. Sim, só pode ser isso. Quanto mais paredões montam e fabricam, mais dinheiro ganham.
            Três coisas causam toda a desgraça do ser humano: dinheiro, sexo e poder. É bem possível que os defensores dos paredões tenham algum distúrbio psicológico que sanam provisoriamente ao pôr para tocar o som às alturas em local público. Talvez se sintam poderosos nesse momento. Há de existir um distúrbio do comportamento sexual em que o indivíduo necessite sentir-se no controle da situação, em que ele é o ativo, em que ele é o centro. Há assim a suspeita de que tenha sido molestado sexualmente na infância. Quer agora ser o ativo.
Há também de existir um outro distúrbio, da mesma esfera, em que o indivíduo precise se auto-afirmar por alguma razão, talvez preocupado e inconformado com as dimensões de seu pênis. Sabe-se que esses pensamentos e traumas causam profundas e extensas feridas na psique da pessoa.
Assim, por dinheiro ou qualquer das outras possíveis razões elencadas, há quem queira, ainda hoje, manter acordado um Meireles inteiro com seu fantástico, poderoso, sexy e enorme equipamento de som. Caso se possa provar e confirmar que o dinheiro não é a alternativa mais provável, então estaremos diante de um case.
Sei que alguns já pensarão que Sobral se tornou para mim uma obsessão, mas não há como não comentar. É o seguinte. Não vi paredões em Sobral, mas o que havia de carros equipados com enormes aparelhos de som no bagageiro aberto e ligados às alturas não está no gibi. Imagine uma avenida inteira, quase toda ela, repleta de veículos assim. Pois a Princesa do Norte tem disso, e muito. Sobral é uma Itapebussu gigante. (Também me chamou muito a atenção o número de ruas e avenidas com dois sobrenomes preponderantes: Sabóia e Ferreira Gomes. Inda agora estou matutando cá com meus botões e fechos o porquê de tal fenômeno. Casoba há de me esclarecer o caso.)
Outra coisa que muito me intrigou em Sobral foi a maneira como os amigos se divertem. Estão ali bebendo e se abraçando e, de repente, estão querendo trucidar um ao outro. Depois, dali a alguns poucos minutos, fazem as pazes e voltam a se abraçar como dois irmãos de sangue, tudo isso ao lado de um carro com bagageiro aberto e a música – um desses forrós que não é forró – a troar nas alturas. Uns há que, subitamente, sem uma aparente causa, tomam a garrafa da mesa, quebram-na segurando-a pelo gargalo para que sirva de arma branca, e partem para cima do amigo com o ódio estampado na cara, as fuças bufando como as de um touro de arena. Numa única e mísera noite, em pouco mais de duas horas, presenciei pessoalmente tais intrigantes eventos.
Ontem já bati o telefone ao meu querido amigo e colega Dr. Assis para que se me examinem os ouvidos. Sinto como se tenha acumulado em seu interior um Himalaia de cera. Será isso ou sofri um trauma acústico de alguma considerável proporção. Esse zunido não pára de me molestar. Oxalá passe na câmara de vereadores de Fortaleza a lei do paredão. A de Sobral ainda nem sonha em tal projeto. Os descendentes dos Sabóia e dos Ferreira Gomes vão se indispor com o povo pra quê? 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Clodoaldo's Inn em Sobral

Há muito não via o querido amigo Olimar, Casoba. Foi ele quem disse, numa dessas constatações irretocáveis, que a diáspora sobralense só é menor do que a dos judeus. Numa dessas coincidências que o destino trama, encontrei-o na manhã da última sexta no hospital poucos instantes antes de eu embarcar para a Princesa do Norte. E – olha bem, Casoba – fazia um monte de tempo que eu não via o Olimar. Como é possível que justamente naquele dia eu o encontrasse? Levei comigo, após um esfuziante cumprimento de parte a parte, um abraço do amigo à sua amada cidade. Prometemos um ao outro trocar, doravante, figurinhas literárias.
Como disse antes em correspondência anterior, fui a Sobral a negócios. Diz um velho ditado que não se deve mostrar o fundo da alma nem o fundo do bolso, ao que acrescentaria que não se deve também detalhar nada dos acordos, sob pena de se ferir de morte ao que reza um outro adágio quando diz que o segredo é a alma do negócio. Posso, entretanto, dissertar sobre outras amenidades e coincidências, umas felizes, como o encontro com meu amigo, outras nem tanto, como verás a seguir.
Para minha sorte chovia em Sobral. Sabias, Casoba, que também chove em Sobral? Não é apenas aquela canícula insuportável a pairar no ar. Vez ou outra vem a chuva e com ela a amenização daquela. Ainda bem, já que o excesso de calor deixa-nos irritadiços e impacientes, o que não vem bem aos negócios, sejam eles quais forem. Pois eu diria que esta foi outra feliz coincidência, se me perdoarem a ignorância dos dados e fenômenos do tempo que predispõem àquelas precipitações. Num lugar em que parece imperar absoluto o disco solar implacável, a chuva vem como uma benção ou uma feliz coincidência.
Os negócios não foram tão bem quanto desejávamos, mas nada que não se resolva com alguns pequenos ajustes e algumas conversas telefônicas ou internéticas. Não foi qualquer outra coincidência a responsável por tal desfecho. A verdade é que faltou profissionalismo de uma das partes. A boa vontade é a mãe da paciência, de modo que com aquela se consegue esta, e com esta o sucesso nas negociações.
Tu, que gostas em demasia do futebol e de suas crônicas, já deves estar a pensar que lá fui parar justamente no fim de semana em que o Ceará foi jogar com o Guarani (ou será Guarany?). Pois é verdade. Eu lá estava. E antes não estivesse, devo confessar. Não invoco aqui o meu desapreço por futebol, que esse é bem conhecido de todos. Há, aliás, os que dizem não acreditar que isso seja verdade, já que falo tanto de e em futebol. Explico: não gosto de futebol, mas adoro suas crônicas. Sou, portanto, cinqüenta por cento semelhante a ti. Não tentarei explicar como seja isso possível, e já antevejo argumentos aparentemente incompreensíveis e irreconciliáveis. Peço apenas àqueles que duvidam que acreditem em mim: detesto futebol.
Tentarei explicar, isso sim, como uma outra coincidência durante esta viagem me foi feliz por um lado e infeliz por outro. Ora, o lado feliz de tal fortuidade é a possibilidade de doravante todos acreditarem em mim quando digo que detesto futebol, ao passo que o viés infeliz foi o acontecimento em si. Devo dizer que preferiria continuar desacreditado a ter passado pelo que passei. Aconteceu precisamente o seguinte, Casoba.
Estava hospedado no hotel do padre. (Presumo que saibas de quem falo. O homem é sobejamente conhecido.) É um imóvel agradável e simpático, com aposentos amplos e confortáveis. Oferece um delicioso e bem servido desjejum. Passamos o dia fora, em atividades de trabalho. Um amigo, que retornou ao hotel mais cedo, bateu o telefone e deu a notícia: o time do Ceará havia chegado e se hospedado no hotel, e seu restaurante, dali em diante e até depois da partida com o time da casa, estava reservado ao almoço e jantar exclusivamente para o escrete e sua comissão técnica.
Incrédulo, voltei à estalagem. Guardava em meu íntimo a esperança de ser uma brincadeira do amigo. Chegamos, pagamos o táxi e adentramos. O que vi, Casoba? Digo o que vi: na recepção, logo à entrada, estava sentado ao sofá, com as pernas esticadas sobre uma mesa de centro, o Clodoaldo. Uma senhora ou senhorita feíssima alisava-lhe os crespos cabelos e uma outra, de cabelos aloirados à moda artificial, observava a ambos como se a boca se lhe enchesse d’água. (O Clodoaldo, tu bem o sabes, é aquele com nariz de pau d'água.) Contive a custo uma gargalhada, e segui adiante. À porta do elevador, na sala contígua à primeira, estava estampado o anúncio da interdição do restaurante.
Vês agora por que detesto futebol? O futebol extravasa do campo, dos estádios, das sedes dos clubes e invade as ruas, as lojas, as casas, os restaurantes e, como pude constatar por experiência própria, os hotéis. Meu medo é chegar à casa e encontrar o maior pagode com o Ronaldinho carioca deitado em minha cama na companhia de algum homem vestido de mulher. O futebol tem essa capacidade de impor o desrespeito, a falta de consideração e - quem sabe? - futuramente a ameaça à propriedade privada. Não vai faltar mais nada em nome do futebol, Casoba.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tertúlia não vinga com chuva

É muito intrigante essa história de o fortalezense não sair em dias ou noites de chuva.
Hoje, por exemplo, desci ao calçadão às cinco da tarde com o tempo fechado e nublado. Choveu a maior parte do dia e, ao final, a chuva deixou as ruas, calçadas e asfalto densamente úmidos. Os ventos se aquietaram e o mar ficou com a superfície lisa e calma. A maré estava baixa e tudo tinha um aspecto bucólico. Quase nenhuma carrocinha de vendedores de água de côco havia. Poucas pessoas se “arriscaram” à corrida ou à caminhada. Mesmo o trânsito de carros à beira-mar diminuiu.
O tempo era fechado, mas as nuvens eram altas, pouco densas, dando ao céu um aspecto rendado em diferentes matizes do branco das nuvens. Nem ao longe, a leste, de onde vem nossa chuva, havia indícios de novas precipitações, uma neblina que fosse.
À medida que caía a noite o céu escurecia sem os pontos luminosos das estrelas e da lua crescente. De fato esta apareceu fosca e com a imagem borrada pelas nuvens que a cobriam. Os termômetros das calçadas marcavam vinte e sete graus. O Boteco Praia, quase sempre bem freqüentado, estava quase vazio. Nas avenidas de cima, onde o rush já devia ter começado, o trânsito também fluía suave, como se muitos motoristas não tivessem ido ao trabalho.
Não é de agora que preferimos o lar a qualquer outra coisa em dias chuvosos. Dizem por aí que o cearense é feito de sal: - se molhar dissolve. Em quatro de maio de 1976 eu fazia quinze anos. Era no tempo das tertúlias. Luz negra alugada e instalada, radiola tocando o Billy Paul, eu esperava meus convidados. Eis que repentinamente fecha o tempo e cai um toró daqueles. Bem comparando, um toró igual sem tirar nem pôr àquele de alguns dias atrás. A festa seria em minha casa, tudo coberto e fechado. Resultado: - ninguém apareceu. Naquele tempo aos quinze ainda éramos crianças, e criança chora. Conclusão: - abri o berro, escondido dos dois ou três gatos pingados que apareceram, é claro.
Pensei em várias explicações para nossa aparente aversão ao divertimento com chuva. Naquele tempo não havia essas catástrofes das enchentes por aqui, nem o trânsito caótico às chuvas, nem os buracos das avenidas e ruas transformadas em verdadeiros e caudalosos rios, de modo que nada disso pode justificar minha festa frustrada. Continuei pensando e me perguntando: que diacho passa na cabeça desse povo que, quando começa a chuva, corre para casa?
Às mulheres podemos até fazer algumas suposições óbvias. Há o cabelo, a maquiagem, o salto alto, o vestido. Uma mulher produzida viraria um amontoado de tintas e fiapos após um banho de chuva por poucos segundos ou minutos que fosse. Compreende-se. Mas, e o homem? Por que também o homem cearense tem pavor a ser pego de surpresa por uma chuva? Poderíamos supor que indo embora a mulher, vai também o homem. Também podemos supor que a “tradição” está tão arraigada que, se a chuva começa e é sexta-feira, ninguém sai de casa supondo que ninguém sai de casa. Se ninguém sai de casa em noite de chuva, que vou fazer sozinho na rua?
Outra possível explicação para tão interessante costume é a nossa relativa escassez de chuva, por paradoxal que possa parecer. Assim, os bares e restaurantes não investem em áreas fechadas que possam oferecer conforto a seus clientes caso chova. Sabe-se por aqui que, se sair na chuva, não terá aonde ir que se ofereça um mínimo de estrutura para receber as pessoas. Sendo assim, fica-se em casa.
Há ainda uma explicação mais provinciana. As chuvas, no momento em que estão caindo, amenizam o calor e muitos cearenses até sentem frio. Tem coisa melhor do que se recolher ao leito e ficar sob as cobertas enquanto o barulho da chuva acalenta nosso descanso? É melhor aproveitar porque não se sabe quando vai chover novamente.

Fernando Cavalcanti, 15.02.2011   

Serão chifres?

            No próximo fim de semana vou a Sobral.
            Todos sabem como adoro Sobral. Tenho muitos bons amigos em Sobral e de Sobral. Os de Sobral são muitíssimo mais numerosos. Há uma explicação: – saíram muito cedo de lá. Migraram. Como diz meu querido amigo Olimar, outro rebento da Princesa do Norte, a diáspora sobralense só perde para a dos judeus. Assim, é mais fácil que se tenham amigos de Sobral do que em Sobral. Não sei se me entendem.
            Não me recorda a última vez que lá estive. Acho que foi de passagem. Nem entrei na cidade. Ao abrir a porta entrou pelo ônibus como que uma baforada quente e seca. Saí a me aliviar da sede e da bexiga cheia. A bodega era grande e a sombra convidativa, embora deva dizer que dentro do coletivo o ar climatizado era o que havia de melhor. Em vez anterior a esta, até comida oriental descobri na cidade. Era em restaurante de um amigo, às margens do Acaraú. À noite descobri que o clima é mais ameno, inda mais à beira do rio.
            Não me perguntem a que vou a Sobral. Digamos, de forma bastante ambígua, que vou a “negócios”. Todos são muito curiosos sobre a vida alheia e devo dizer que muitas vezes alguns sabem mais de nossa vida do que nós mesmos. Assim, convém sempre dificultar aos outros o acesso a informação que é particular. Não se trata de segredo de estado, mas ainda assim o sigilo se impõe.
Outro dia, ontem acho, recebi de uma amiga, no telefone portátil, mensagens intrigantes. Seu conteúdo e teor primam pelo mistério que encerram. Ainda agora estou a tentar falar com outra amiga que mora na América do Norte a fim de que veja o que pode fazer por mim, pôr o FBI ou a CIA no caso, se possível. Esqueci até o nosso órgão correspondente de inteligência, a ABIN, porque seguramente este é um caso que está além de sua capacidade de resolução. Sei que pode parecer que exagero, mas agora mesmo fui reler as missivas e dirimi todas as dúvidas: não entendi bulhufas. Suas afirmações são tão repletas de enigmas que para mim se mostram indecifráveis.
Assim, concluí que há algo que ela sabe sobre mim que nem mesmo eu sei, o que comprova o que disse linhas atrás. Talvez ela esteja tentando me dizer que não vá a Sobral por alguma razão que me escapa. Creio até que ela não sabia que iria viajar. Ou talvez soubesse. Talvez soubesse antes de mim. Repito - algumas pessoas sabem mais sobre você do que você mesmo. O mais engraçado de tudo é que, ainda que saiba o que eu não sei, percebo sua intenção cruel de deixar a coisa assim mesmo, para que eu continue sem saber.
A minha dúvida é se chove em Sobral como chove aqui e, em chovendo, o que as águas de Sobral fazem à cidade. No ano passado o rio encheu e alagou parte dela. Nada mais natural – o rio corta a cidade. Dizendo melhor, a cidade cresceu atrelada ao rio. O rio está lá desde que o mundo é mundo. Assim, a cidade é o intruso.
Se lá chove como chove aqui é o caso de se pensar se a empreitada do fim de semana é segura. Fico a imaginar que minha amiga tem alguma informação secretíssima da Funceme e teme repassá-la a mim, sob pena de ser descoberta e de alguma forma punida. Por isso faz terror. Quer me assustar. Quem sabe um furacão se dirige a Sobral e os sádicos da Funceme estão tratando o caso como segredo de estado?
O que quer que seja, em breve o que se esconde revelar-se-á, e então todos saberão. Isso se ainda também já sabem. Já começo a achar que levei chifres e, como todo traído do mundo, serei o último a saber. Se for esse o caso, estou na fase da vida em que o que mais se deseja é chifres. Eles são a justificativa para outras e novas aventuras.    
Como diria o Amorim, se for o caso, que venham de lá os córneos.

Fernando Cavalcanti, 15.02.2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Aqui não se usam casacos

Aqui não se usam casacos, ou sobrevestes, ou botas. Certa vez presenciei a gozação de alguém por alguém usar essas botas que só se usam em lugares de clima frio. Riam-se da outra, pobre mulher.
            Somos pobres. Mas agora, ou melhor, já há algum tempo, temos como conseguir dinheiro mais facilmente – mas não menos barato - para financiar certos sonhos. Os sonhos são, via de regra, uma demanda por aquisição material, de modo que o dinheiro consegue realizá-los com alguma facilidade. Certas felicidades só se concretizam com esses caprichos evanescentes.
Ainda que se escrevessem bilhões e bilhões de Eclesiastes, ainda assim não seriam lidos. O único que foi escrito até hoje quase ninguém lê. É uma questão muito simples – a verdade é pessimamente recebida. Detesta-se a verdade. Não há um único e mísero ser humano que dela goste. Mesmo que esteja ali, cristalizada, desenhada no espelho, marcada nos lençóis, a verdade é abominável, deplorável, algo parecido a um animal desprezível e peçonhento.
Deixemos o Eclesiastes que há muita gente a jogar suas Bíblias ao lixo. Usemos outra fonte, o A Doutrina de Buda, do Siddharta Gautama. Lá as verdades, digo, os ensinamentos são em tudo semelhantes aos do Eclesiastes, exceto pelo fato de Salomão confessar seus erros e insensatezes ao Deus que abandonara. Talvez devêssemos ir também ao escritos de Aristocles, vulgo Platão, que acreditava na perenidade de uma essência do homem, numa alma sobrevivente, numa vida no além e, sobretudo, nas verdades que ensinam que as virtudes e o desprendimento nesta vida são as verdadeiras fontes da sabedoria e felicidade; ou ainda aos de Sêneca em cartas enviadas ao seu (fictício?) amigo Lucílio, onde pregava o viver uma vida virtuosa e reta como a chave para a paz interior e acesso à admiração e respeito dos homens.  
E o que dizem as verdades, digo, os ensinamentos? Dizem que o estúpido e o insensato buscam os prazeres da carne e as riquezas materiais. Os gregos iam além. Achavam que a atividade política era o meio de que os homens deviam se servir para alcançar a sociedade justa e ideal através do exercício da virtude na função pública e em seu dia a dia.
Voltemos às botas, aos casacos e aos sonhos. A mulher, uma linda e desavisada mulher, usava botas em plenos pouco mais de três graus de latitude sul, aos vinte e oito graus à noite. Que faziam as outras? Mangavam. Debochavam. E – cá entre nós – o conjunto era lindo e faziam a mulher exalar uma sensualidade incomum. Pensei: é seu sonho. Entre comprar uma passagem para a América do Norte ou Europa, preferiu realizar seu sonho aqui mesmo, com as botas até os joelhos, mesmo com o suor a lhe descer por todos os poros.
Uma mulher esperta, sem dúvida. Fosse outra teria feito a viagem que não podia com o dinheiro que não era seu. Os outros pobres não dariam a mínima. Afinal, todos estão fazendo o mesmo. O sucesso é ter, numa flagrante afronta a todas as verdades e ensinamentos dos antigos e sábios. E não é apenas uma afronta; chega a ser um pisoteio e um completo desprezo, denotando a aversão àquelas verdades. De fato, nem se ensinam mais essas coisas ou, se ensinam, parece que se está falando de coisas que aconteceram e foram escritas e ensinadas em outro mundo. Fala-se como que de uma terra do nunca, uma espécie de quimera, de loucura a que não se deve prestar muita atenção. Discuti-las serve ao propósito pouco útil de fazer parte do cabedal de conhecimentos de alguém que se interesse um pouco mais.
Eu não ia escrever nada disso, mas me perdi. Eu ia falar de como nós aqui no Ceará somos pouco criativos e que justamente por causa de nossa pobreza devíamos ser muitíssimo mais inventivos. Se o clima é quente, devíamos usar indumentária própria. Onde estão os estilistas? Criar algo realmente novo para aqui se vestir seria um excelente feito. Ao contrário, vivemos imitando os que moram em regiões mais frias, com seus paletós e roupas pesadas. A linda mulher de botas foi a única vítima da chacota, mas de fato todos nós o somos – queremos ter e usar o que não nos é próprio e apropriado.
Ia falar que não deveríamos ter carros. Somos pobres, carros são caros. Mesmo o dinheiro mais fácil tem um custo elevadíssimo. Comprar carros nos torna mais pobres já que a maioria lança mão do empréstimo, enricando as instituições financeiras e empobrecendo sua família. Devíamos usar motocicletas e bicicletas. Seriamos mais limpos, mais rápidos e menos pobres. Com o tempo teríamos dinheiro sobrando. Até os assaltantes teriam menos o que assaltar e, dentro da pressão por ter o que não podem ter, a possibilidade agora real de também poder ter a motocicleta ou a bicicleta os deixaria menos tentados a recorrer ao crime para consegui-lo. (No fundo a opção pelo crime é uma questão de maus bofes, mas angariemos para nós os arautos dessa – mais uma – insensatez.) Nossas ruas não teriam asfalto; seria um calçamento perfeito e bem nivelado. (A Companhia de Água e Esgotos poderia cavar e tapar seus buracos com mais rapidez, evitando assim deixar os gestores municipais de cabelo em pé por questiúnculas ridículas.) O calor seria menor. Em suma, seriamos mais felizes.
Enquanto não brota a nossa criatividade, penamos. O cearense está absolutamente convicto de que é o povo mais empreendedor do mundo. Setores da imprensa local, refletindo o que propagam nossos políticos medíocres a quem bajulam, vez ou outra escrevem nos jornais locais essa mentira descarada. Mal sabem – na verdade bem sabem – que empreendedor, por definição, é aquele cuja ideia resolve o problema de muita gente de forma barata e factível. Exemplo: Muhammad Yunus, o bengali que bolou uma forma barata de financiar os pobres. Mas essa é uma história à parte.

Fernando Cavalcanti, 14.02.2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Zé - a partida


O médico dissera que Zé viveria seis meses, na melhor das hipóteses.
         Eis como foi: Zé viveu menos de quinze dias após a sentença. Partiu dois dias depois da visita que relatei. Concluí que o pedantismo dos médicos só não é maior do que sua estupidez.
           Tendo partido o meu amigo, irmão do Chico, fomos encher a cara. Muitos foram encher a cara. Nada mais apropriado a se fazer após as exéquias de alguém que se ama – encher a cara, mandar o chefe esperar, riscar compromissos da agenda. Quando parte para o além alguém que se ama, até o brilho do sol chega a parecer estúpido. E de fato era uma tarde ensolarada quando se inumou o Zé. Seria uma linda tarde, não fosse a tristeza descomunal que nos assolava.
         Nesses momentos a vida é um átimo. Nada faz sentido. Tudo é ilusão. A inexorabilidade dos elementos eternos e a inexorabilidade do fim da alma vivente que vive se encontram, e o que se sente é uma colossal humilhação. Encher a cara anestesia. Até o pranto converte-se em gozo inexplicável. Qualquer coisa que se diga é grosseiro, insuportável. Os silêncios falam mais alto; os olhares mais ternos e as lágrimas são o verdadeiro bálsamo. Suspende-se a vida, e já nem se sabe ainda se será possível continuar.
Nos dias que se seguem as lembranças nos distanciam ainda mais do que se foi. A certeza do reencontro impossível frustra a nossa pequenez, e só um pensamento alivia: em breve também já não seremos. Pensar na eternidade pessoal ao mesmo tempo em que se tem a certeza do fim do ser amado provoca a dor excruciante. A proximidade da própria morte tem efeito oposto. Precisamos também ter fim para que o outro, o que partiu, não se torne definitivamente uma dúvida. Tudo o que aconteceu há muito tempo é uma dúvida. O tempo é um fogo que consome sem queimar.
É isso o que nos aumenta a dor da morte do ser amado: a perspectiva da eternidade de sua morte. Não nos importa que não se viva eternamente, mas é lancinante que se morra para sempre. Daí a dor de se perder o jovem que morre. Fica-se na dúvida entre o desejo próprio de vida longa e o anseio ante a dor e a dúvida que virão irremediavelmente se instalar.
Vai, Zé. Adeus, amigo. Nunca se despede de alguém para sempre. Mesmo quando me disseram que irias, não sabia que seria assim, tão súbita e inesperadamente. Nunca se vai ao além quando se quer, e mesmo os que vão não querem que se saiba que vão. Foste sem querer, querendo ficar no seio dos teus. Agora já não é possível. Tantas e tantas palavras não foram ditas e, mesmo que fossem, quem se despede para não mais voltar?

Fernando Cavalcanti, 11.01.2006  

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Proteger e servir - aí mente!

Faz alguns meses, acho que na segunda metade do ano passado, foi noticiado o assalto de que foram vítimas os policiais do ronda do quarteirão em bairro da periferia da Fortaleza “bela porcaria”.
            Ops, desculpem a franqueza, mas não há mais espaço para eufemismos e maquiagens com as palavras. Essa é a grande verdade sobre a Fortaleza Bela, este último termo sendo o usado como mote desta desastrosa administração petista para a capital do estado do Ceará. Ainda agora estou a ver no noticiário televisivo os novos e velhos transtornos causados por uma chuvinha de nada. Continua a chover. Olho lá fora e vejo o banho que está a alagar a cidade. Mas essa é outra história. Voltemos ao assalto aos policiais.
            Para que servem policiais? Ora, para policiar. No pai dos burros está escrito sobre policiar: tomar conta, zelar, vigiar. Em suma, policiar, no sentido da função da polícia, significa proteger o cidadão.
            Façamos um breve relato, a título de comparação. O trecho foi retirado do site http://www.joinlapd.com/motto.html e a tradução livre é minha.
            “Em 1955, um concurso foi anunciado na revista interna do Departamento de Polícia de Los Angeles. O desafio consistia em bolar um lema para a Academia de Polícia. Ele teria de ser algo que expressasse sucintamente os ideais com os quais os policiais da cidade estivessem comprometidos.
            A inscrição ganhadora, ‘Proteger e Servir’, foi a sugerida pelo policial Joseph S. Dorobek, e serviu como o lema da Academia até que, por ato da assembléia legislativa em 1963, ela tornou-s e o lema oficial de todo o Departamento de Polícia de Los Angeles. O lema continua até hoje escrito nas viaturas da polícia como um símbolo de compromisso ao dever.
            ‘Proteger e Servir’ tornou-se uma das mais reconhecíveis frases na força policial. Ao longo de quase 50 anos de uso, ela tem encarnado o espírito, a dedicação, e o profissionalismo dos policiais da polícia de Los Angeles.”
            Os nossos policiais assaltados ou estavam dormindo ou mostraram uma bisonharia abissal. Para proteger algo ou alguém há que se estar alerta e há que se seguirem regras e protocolos que servem à proteção de quem protege e, por conseguinte, de seus protegidos. Os homens da polícia não conseguiram proteger-se a si mesmos. Foram desmoralizados. É fácil concluir a mensagem fragorosa embutida no acontecimento fatídico: estamos completamente desprotegidos e a mercê dos bandidos. Outros pequenos e menos notáveis sintomas já haviam sido emitidos, e ainda continuam a ser, mas o assalto à viatura foi o tiro de misericórdia na confiança na polícia.
            Terminou um governo e começou outro que na verdade era o mesmo. O povo – nós - achou que estava ótimo. A atividade policial é uma responsabilidade do governo estadual. O mote da Fortaleza “Bela” criado pelo governo municipal também é uma propaganda enganosa, visto que a capital está em frangalhos. Pior: não se vislumbra um futuro minimamente mais alentador para ela. É verdade que não foi durante os últimos seis anos que ela ficou assim. Todos os governos anteriores têm sua parcela de culpa e responsabilidade, assim como nós, o povo. Mas nos últimos anos a coisa está pior e a inação do poder municipal ainda mais visível.
            Na esfera estadual poder-se-ia dizer o mesmo? Há quem diga que não, mas eu diria que sim. O problema com o cearense em geral e com o fortalezense em particular é que se têm acostumado e adequado tão piamente ao pouco que é feito que, ainda que se faça o mínimo, quase nada, acaba por pensar que se fez muito. Há ainda a flagrante propaganda enganosa na esfera estadual. Está estampada em nossa cara, debaixo de nossas fuças. É só dar uma olhada na foto em anexo. Uma única imagem vale mais que um milhão de palavras. E ainda plagiaram o lema do sério Departamento de Polícia de Los Angeles.
Os homens do ronda deviam estar dormindo mesmo. Que os Céus nos protejam.

Fernando Cavalcanti, 10.02.2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Torço por quem ganha


            Sou conhecido nas rodas de meus amigos por não gostar de futebol, não ir a estádios e não ir a botecos ver futebol em telões.
            Recentemente estamos a trocar figurinhas meu amigo Siqueira e eu, ele um torcedor apaixonado, eu a fina flor da frieza em se tratando desse assunto. O fato é que ele me enviou uma belíssima crônica onde descreve o bonito cenário quando todos na família gostam de futebol. Os filhos na companhia dos pais, estes na companhia daqueles, o avô, a avó e até a secretária do lar, todo mundo é bem vindo a esse momento de união e gozo pelo simples prazer de estar junto. E, vamos e venhamos, nada há de mais prazeroso do que a família em harmonia e reunida; no estádio de futebol ainda mais, que o clima lá já é de festa. Todos são ganhadores. Nem que a derrota do time querido esteja à espreita, já vale a pena. A crônica do Siqueira tudo revela, tudo diz.
            Antes de ontem, se bem me lembro, eu o encontrei no hospital. Ele ia meio apressado, mas ao me ver a cumprimentá-lo de longe pela crônica, parou e veio ao meu encontro. E aproveitou para tecer ainda mais loas ao futebol familiar. Ato contínuo, queria me convencer a ir ao jogo que ocorreria à noite entre o Ceará e o Fluminense carioca. Melhor dizendo, ele queria mesmo era me convencer de que eu era um tolo por não gostar de futebol, que eu estava perdendo um grande naco da vida em assim agindo. E pus-me a explicar que também meus filhos não gostam de futebol, etc. etc. etc.
            Lembro em criança meu pai me levando ao Presidente Vargas. Eu adorava - tardes ensolaradas de domingo, Fortaleza provinciana de ventos frescos, charanga do Gumercindo, a pequenina torcida do Ferrim, o populacho da do Ceará, tudo isso no cimento especial. Quando era clássico eu não gostava. Todos viam o jogo em pé e eu via bulhufas. Torcia pelo time do meu pai. Ontem mesmo o Chico dizia que o filho tem de torcer pelo mesmo time que torce o pai, senão é caso de desconfiar de negão na história. (Ele diz isso porque torce pelo Ferrim. Torcer pelo Ferrim só mesmo com a influência do pai.)
Passando o tempo, ia cada vez menos ao estádio e a assistir cada vez menos futebol pela televisão.
Pois para o jogo entre a equipe cearense e a carioca me convidavam o Siqueira, o Casoba, e o Chico só não me convidou porque ele próprio não ia. O Siqueira dizia que o Ceará iria passar uma sola no time carioca. Ia ser uma barbada, sem dúvida. Eu me mantinha firme. Nada de estádio, nada de futebol. Ao invés, o Chico me convidou a irmos a uma churrascaria, jogar conversa fora, comer uma picanha. Aceitei o convite. Fomos o Chico, o Mendes e eu.
E conversávamos e ríamos quando percebi o inevitável: ligaram o telão. Deduzi que iria passar o jogo do Ceará. Dentro em pouco a churrascaria estava repleta de torcedores – do Ceará, é óbvio - e gente querendo ver o jogo. O que era para ser um lazer, um momento de paz e silêncio entre amigos, tornou-se de repente uma balbúrdia e um pequeno inferno. Aqui demonstro que meu caso não é ojeriza pura e simples. Tolerei estoicamente o barulho, a falta de educação e incontinência do povo, as demonstrações ridículas da paixão vazia. Escapei ileso, e mais firme ainda em minha decisão sobre o futebol.
Assumo que não abandonei totalmente minha participação em um ou outro jogo. Quando é inevitável, como o foi na churrascaria, acabo assistindo um pouco da partida. O melhor é que não sofro como aqueles apaixonados que lá se esganavam. E por um simples motivo: torço sempre por quem está ganhando. Explicando melhor, é o seguinte. Não tenho um time fixo para torcer. Se tenho a chance de torcer por vários times, torço por todos o que puder, precisamente aquele que está ganhando o jogo que estou sendo impelido a assistir.
No telão da churrascaria, lá pelas tantas, o Fluminense do Rio de Janeiro aplicava a maior coça que o Ceará recebera nos últimos anos. E eu ali no canto me vingava dos incautos torcedores, torcendo pelo time de fora. E foi melhor assim porque, terminada a partida, foram todos para casa dormir para esquecer o infortúnio. Eu continuei na churrascaria comemorando a vitória do meu time do momento.
Admito que certa vez me dei mal. Foi num jogo entre o mesmo Ceará e o São Paulo. Nesse eu fui ao estádio. Ainda não fora vítima da decisão anti-futebol. O jogo me interessava por uma razão inusitada: era o 13º jogo da loteria esportiva. Dois amigos e eu fizéramos um jogo cheio de duplos e triplos. Queríamos acertar os treze pontos. Gastamos uma nota para fazer essa aposta. À medida que o jogo evoluía conferíamos o cartão quanto aos outros resultados no radinho de ouvido. Estávamos acertando tudo. Os treze pontos se erguiam ante nossos olhos como uma possibilidade real e única. Para o jogo do Ceará havíamos marcado coluna 2, São Paulo. O jogo seguia empatado e já estávamos aos 40 minutos do segundo tempo quando ficamos sabendo: fizéramos doze pontos e dependíamos apenas desse jogo para ganhar a bolada.
A casa estava cheia, só torcedores do Ceará aguardando o time desempatar e ganhar a partida. Os amigos e eu torcíamos pelo gol do São Paulo que nos levaria aos treze pontos para ficarmos milionários. Em minha mente já tinha uma lista de coisas que compraria e outras tantas que faria ao deixar de trabalhar.
Falta para o São Paulo bater. Quarenta e três do segundo tempo. Era o Zé Maria, lateral esquerdo da seleção, quem ia bater.
Bateu.
A bola passou pelo goleiro alvinegro e estufou as redes. Levantamo-nos de supetão e gritamos gol com todas as nossas forças, feito loucos varridos. Abraçávamos-nos uns aos outros freneticamente. Quase me acomete uma incontinência fisiológica , mas me contive. Estávamos ricos. Os torcedores do Ceará faziam esgares ameaçadores. “Metam-se a besta e mandamos prendê-los”, pensávamos; “agora somos ricos”. O coração não parava de saltar dentro do peito e eu o sentia na boca, quase me sufocando.
Não demorou mais de cinco minutos. O Oswald de Sousa anunciou no radinho: mais de cento e cinqüenta mil apostadores fizeram os treze pontos. O que ganhamos quase não cobre o que gastáramos na aposta.
Foi um sonho de cinco minutos. Esse foi o meu maior trauma do futebol. Depois vem o Brasil e faz aquele papelão na França em ’98. Foi o tiro de misericórdia.

Fernando Cavalcanti, 09.02.2011    

O sumiço do Padilha

Não é à toa que o Padilha gosta de novelas. Não se trata exatamente da novela, ou de seu tema, ou de seu elenco. Todos sabem que elenco de novela, hoje em dia, é selecionado não pelo talento na arte de representar, mas tem a ver com as bundas e corpos esguios dos figurantes. Sim, hoje novela não tem ator ou atriz, tem figurante.
Imaginem, então, que o Padilha adora as novelas. E adora as personalidades que noutro tempo, aí sim, seriam figurantes nas novelas. Por exemplo, chamam o Roberto Shinyashiki e o põem na novela para ele funcionar como conselheiro empresarial de algum figurante que faça o papel de um grande empresário. O Padilha, então, ovaciona o Shinyashiki e sua atuação na novela. Mais ainda. Anota cada intervenção do homem e passa a adotá-la e propalá-la aos quatro ventos. Se convidam um espírita o Padilha, que é dado aos espíritos, fica louco; vê a novela do primeiro ao último capítulo. E o que disser o espírita nos capítulos da novela, dirá o Padilha nas rodas e festas entre amigos. Eis aí as razões que levam meu amigo a ser um fã de carteirinha das novelas, certo?
Errado. Descobri recentemente que estava redondamente enganado. O Padilha gosta mesmo é da televisão onde assiste à novela. Deixem-me explicar. A televisão de que falo aqui é o aparelho de televisão. Hoje não há mais televisão. Hoje é o LCD e a “televisão” de plasma. A de plasma se chama ainda assim porque não se achou ainda um nome apropriado para se lhe dar. E é exatamente isso que ama o Padilha: o equipamento. Por isso estou há tempos sem vê-lo. Ou melhor, foi por isso e não foi.
O caso é que o Padilha comprou o que há de última geração em equipamento televisivo. Não sei há quanto tempo, mas estou sabendo que o homem comprou um equipamento desses que a gente fica em casa só babando de olhar para ele. Assistir novela é uma coisa; assistir novela no novo equipamento do Padilha é outra.
Liguei outro dia para me aconselhar com o amigo e o que ouvi? Ouvi-o me perguntar de meu LCD que comprei recentemente. Queria saber das especificações, do design, da série, da marca, etc. etc. etc., e comparava cada detalhe com o que ele também comprara e ainda nem recebera. Que fiz? Mandei-o às favas. Justificou-se: – “Sou um apaixonado por tecnologia!” Imaginei: “está com um parafuso a menos.” E desliguei o telefone frustradíssimo por não ter conseguido conversar com o amigo como dois humanos normais. Sei que dizem que de perto ninguém é normal, mas há seguramente um exagero nesta suposta constatação. Há gente normal. Óbvio que há anormais que acham os normais anormais. É precisamente isto o que acontece.
Vejamos a tara de meu amigo por tecnologia. Primeiro, o homem não sai de casa para ficar a se deleitar com seu equipamento século XXII. Todos temos algo de criança a pulsar dentro de si. Normal seria que, acabado o encanto inicial com o “brinquedo”, o homem dele enjoasse e o incluísse e deixasse na lista das coisas comuns de seu dia a dia. Mas não. O que faz ele? Já vos relatei. Segundo, apreciar novelas não vem bem a calhar para um indivíduo do sexo masculino maduro, quase podre. Há algo de errado aí. Terceiro, comparar seus brinquedos com os dos amigos é comportar-se igual aos meninos do jardim de infância.
Fechemos o diagnóstico. O Padilha sofre da síndrome de Peter Pan e é sério candidato ao transtorno da ansiedade social ou fobia social. E nem falemos da possibilidade de que o amigo sofra de algum distúrbio do comportamento sexual. Abandonemos a análise por aqui que não quero perder o amigo, mas que a verdade deve ser dita, isso deve.
            Padilha, larga a maravilha tecnológica que os amigos de carne e osso querem te ver!
   
Fernando Cavalcanti, 09.02.2011