quinta-feira, 21 de julho de 2016

MESQUITA E O RONCO NO CRUZEIRO

Contou-me hoje o amado amigo Gaudêncio o seguinte – na viagem recente que fizeram à Europa, o que o Mesquita mais fez foi dormir. Ora, não sei se contei aqui que foram à Europa recentemente o Gaudêncio, o Mesquita, o Joserme, as esposas e os filhos. Foram à Dinamarca e de lá saíram em cruzeiro pelo Mar Báltico. Foram bater em São Petersburgo.
O detalhe importante e que deve ser realçado é que há uma diferença de horário impactante: lá são 5 ou 6 horas a mais. Assim, à medida que o navio se deslocava para o leste, mais dormia o Mesquita. Dormia tanto que já nem comia, nem bebia, nem ia ao banheiro. Conclui-se que a diferença no fuso horário estragou a viagem do amigo. As poucas vezes em que esteve acordado foi quando estavam em terra firme. Aproveitava e fotografava monumentos históricos e enviava as fotos para nós que aqui ficamos. A viagem terminou em Amsterdam e foi justamente lá que o homem esteve maiores períodos em alerta.
Vejam que, nas fotos, não seria possível dizer que o nosso Mesquita estava a enfrentar esse jet lag incômodo. O sorriso do homem ia de orelha a orelha e até se permitiu filmar andando de bicicleta. É bem verdade que isso foi ao início do périplo, de modo que, ao que parece, a coisa evoluiu à medida que passava a excitação do voo. Após quase 15 dias de viagem, o homem se deixou fotografar numa loja amsterdamesa onde se vendem derivados da Cannabis sativa. E mais – segurava alguns de seus produtos e escrevia para nós, na rede social: “vou levar umas mudinhas para plantar”. Pelo sim, pelo não, alguém mais lúcido lembrou-se de lhe avisar que seria preso no aeroporto se assim o fizesse. Usava então um par de óculos escuros, desses que fazem seu usuário se passar por um gangster crudelíssimo, daqueles que trucidam criancinhas indefesas. Ou isso ou o Mesquita estaria já sob o efeito do tetrahidrocanabinol, que Deus o livre. Enfim, lá, em Amsterdam, última parada antes do retorno, o amigo parecia todo animado. Mas já era tarde demais para tanto ânimo e em seguida se viu novamente no avião de volta para casa.
Fiquei a matutar nas razões pelas quais o jet lag atingiu o Mesquita, e somente o Mesquita, ninguém mais além do Mesquita. Sabem aqueles que o conhecem que o homem dorme antes das galinhas. Sim, o Mesquita, salvo exceções incomuns, chega à casa por volta de seis ou sete da noite, come 2 quilos de janta, deita-se não sem antes desligar o telefone portátil, e dali a um minuto está a dormir mais do que gato de hotel de beira de estrada. Há, nessa queda vertiginosa ao sono dos justos, um outro detalhe digno de nota e bastante oportuno de ser lembrado – o Mesquita ronca o ronco dos asfixiados. Outro dia relatei aqui a frustração de meu amigo Meninotti Motta causada pelo estrondoso ronco de outro amigo, o Madame Serjão. (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2016/07/o-ronco-que-assassinou-libido_13.html) Pois bem. O ronco de Madame Serjão é para mim ainda uma incógnita, ao passo que o do Mesquita já escurei pessoalmente. Dele posso falar.
Disse o Meninotti, em dramático relato, que o ronco de Madame é semelhante ao pródromo de um tsunami. As aves que dormiam às árvores da pousada imediatamente alçaram voo tal como se a onda gigante estivesse próxima, e os ventos balouçaram a copa das plantas do jardim chegando quase a arrancar-lhes do solo pela raiz.
Posso então garantir – o ronco do Mesquita é pior, bem pior. O do Mesquita é o som do tsunami misturado e adicionado ao do terremoto que a gerou a 2 mil quilômetros de distância e a 6 mil metros de profundidade. Por aí se vê quão profundamente dorme o Mesquita – o sujeito que ronca um ronco desses há de dormir nas profundezas da inconsciência, a um passo da inconsciência da morte. Caso contrário, seria despertado pelos próprios ensurdecedores estertores. Suponho, portanto, que era assim que dormia o Mesquita em sua cabine no navio que singrava as águas bálticas do mar gelado.
E, a propósito, o frio havia de ser um detalhe a mais para essa preguiça que desafiava a claridade pálida e fosca da luz dos confins nórdicos do planeta. Se aqui o homem dorme às 8 da noite, é como se lá viesse o sono à uma ou duas da tarde. Dentro de sua espartana disciplina, ele acorda às 5 da manhã para ir surfar, um hábito de décadas, desde a adolescência. Ou seja, lá seriam 11 da manhã quando o sono do homem acabava.
Não se sabe até agora se o Mesquita é de enjoar a bordo de barcos, mas, ao que tudo indica, o enorme transatlântico mais lhe parecia uma rede feita no Ceará, o que só contribuía para lhe aprofundar ainda mais o sono e, consequentemente, lhe levar a produzir os sons mais inimagináveis em seus grunhidos cacofônicos. A conclusão a que cheguei foi a de que o Mesquita não tem mais idade para viagens a lugares muito a leste, sob pena de trocar o dia pela noite. Estou a ponto de conversar com o amigo Gaudêncio, nosso competentíssimo agente de viagens, a fim de tentar convencê-lo a que não permita ao Mesquita viajar para distâncias além do meridiano 20° leste. A fisiologia do sono de nosso amigo anda cada vez mais frágil e mais refratária a adaptar-se ao tempo, ao fuso. Suas viagens nessas circunstâncias estarão fadadas à troca do dia pela noite e, quiçá, à percepção, por parte de seu organismo, de que a vida é uma noite eterna, levando-o a dormir e perder os maiores encantos e atrações.
Ainda aguardo de meu amigo Gaudêncio o relato detalhado da hipersonia do Mesquita. É possível até que o homem tenha ficado famoso entre os passageiros do cruzeiro. Afinal, uma roncaria como a dele é audível num raio de cem metros. Não sei como dona Rejane aguenta!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O RONCO QUE ASSASSINOU A LIBIDO

Os leitores que me acompanham há mais tempo sabem que os Mesquita são dados às festas de arromba. Antes de continuar definamos “festa de arromba” – festa de arromba é aquela em que não falta comida nem bebida; tem hora para começar, mas não tem hora para acabar; e nela tem-se a nítida impressão que a cidade inteira foi convidada. Pois os Mesquita, fiquem sabendo meus mais recentes leitores, fazem festas de arromba com uma frequência acima da média. (Os Mesquita são dados também a viajar em família, de modo que guardam em casa a gaiola para o papagaio, uma casinha para o gato e outra para o cachorro. Nenhum dos bichos fica em casa.)
A última dessas festas foi agora, recentemente, no mês de maio passado: o casamento de arromba – “casamento de arromba” é um tipo específico e mais rebuscado de “festa de arromba” – da filha caçula de meu amado amigo Helber Mendes Mesquita. A cerimônia religiosa aconteceu na igrejinha de São Pedro, localizada na praça São Pedro da pequena e simpática Flecheiras, uma paradisíaca praia a 140 quilômetros de Fortaleza. A igreja pode ser simples, mas os Mesquita, nesse dia, a fizeram nababesca. Não que a tenham enfeitado e decorado com ouro e pedras preciosas, mas porque a encheram da gente distinta que são seus amigos e conhecidos mais chegados.
O baile nupcial foi na Pousada Vila Vagalume, localizada na vizinha e não menos paradisíaca praia do Guajirú. Ora, a pousada à beira-mar, quase onde quebram as ondas, foi fechada inteiramente para o evento. Digamos logo de uma vez – o Mesquita alugou a pousada inteira para o fim de semana e a decorou elegantemente para o rega-bofe. Estimam seus mais afoitos e descarados amigos que o homem tenha gasto uma pequena fortuna para casar a filha.
Falei tudo isso, mas devo dizer que não era nada disso o que eu queria dizer, não era sobre isso que queria falar. Queria dizer que os amigos que foram a mais essa festa de arromba promovida e patrocinada pelo Mesquita tiveram que encontrar hospedaria nas várias propriedades que existem entre as duas lindas praias. Até aí nada de mais, nada digno de nota. E minto. Houve, sim, uma coincidência digna de ressalva a ser comentada.  Vejam os amigos que, por vezes, a vida conspira para nos revelar os segredos mais íntimos e mais recônditos utilizando-se das situações mais inesperadas. Aconteceu o seguinte.
Hospedaram-se, por coincidência, na mesma pousada os queridos Fábio “Meninotti” Motta (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2015/10/os-gatos-de-laurinha.html) e “Madame” Serjão (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2016/04/madame-serjao.html), ambos acompanhados de suas digníssimas. Não bastasse essa única e feliz coincidência, coincidiu também de os amigos terem escolhido, na pousada, quartos sobrepostos. (Parece que “Madame” Serjão e a esposa ficaram no quarto superior.)
O diabo é que o nosso “Meninotti” tem sido muito cobrado, muito – como direi? – requisitado pelos amigos a que engate um namoro sério com alguma beldade que o faça virar gente. (“Virar gente” era expressão usada por minha avó quando reprovava comportamentos erráticos e repreensíveis.) É verdade que ele se fazia acompanhar desta menina, uma jovem, uma recente ex-adolescente com a qual estava hospedado nas Flecheiras, mas os amigos demandavam uma coisa mais séria, um namoro com futuro para o amigo. Entretanto, temos que reconhecer que é possível que o amigo cinquentão tenha lá sua libido ainda exaltada e firme, esperando uma satisfação e uma resolução como aos tempos do colégio marista, e tenha resolvido continuar a viver essa andrarca persistente e interminável. Enfim, o que se pode fazer quando as coisas existem e não deveriam existir? (Dizia o Casoba que as coisas são como são e não como deveriam ser.)
O fato é que lá estava o nosso “Meninotti” Motta à noite, na pousada, ao lado de sua jovem companhia. Namoravam enrolados nos lençóis e estavam para ir às vias de fato quando começa aquele barulho incômodo e exasperante. Seria alguém a roncar, sim, alguém em profundo sono, entoando um desses roncos que estremecem o ar e tudo o mais em volta, deixando nos que estão alerta a impressão de sufocação e morte iminente do que ronca. Havia também, diria depois o Motta, um silvo, sim, um assobio prolongado e agudíssimo. Seria parte daquela sinfonia absurda, desafinada e ensurdecedora.
De um salto Motta levantou-se e saiu até a varanda, tentando descobrir de onde viria o som. Com efeito, ali, na varanda, o barulho aumentara, era bem audível, quase como se viesse de dentro de seu próprio quarto. Não demorou e concluiu – o ronco vinha do apartamento de cima, do quarto de “Madame” Serjão. Concluiu também sem demora que mulheres não roncam o ronco dos tórax robustos e ressonantes. A conclusão parecia óbvia – Serjão seria o autor único daquele atropelamento de sons guturais.
Quem chegar hoje às Flecheiras e perguntar sobre o episódio, saberá que um tal “Madame” Serjão, certa noite, roncou tanto pela madrugada adentro e sem dar sossego aos hóspedes de certa pousada, e que um tal de “Meninotti” Motta, seu dileto amigo, por isso desistiu de perpetrar o ato a que se propunha então devido ao que chamou de “interferência libidinal irreversível”, uma entidade nosológica a ser ainda descrita, mas que ele jura ter experimentado em sua plenitude como vítima.
Diz ele até hoje que prefere morrer a passar por isso outra vez, tendo recebido de imediato a solidariedade de todos os amigos que lhe ouviram o relato da tragédia.                

segunda-feira, 11 de julho de 2016

UM CABRA EXPERIENTE NO ASSUNTO

Há hoje o consenso de que o mundo, ou melhor, a vida não seria possível sem a rapidez com que se alastra a informação. A rede mundial de computadores e as diversas mídias disponíveis para acessá-la seriam, doravante, condição sine qua non para a existência de qualquer ser humano. Sim, pelo menos o ser humano que pretenda ter uma vida normal. A vida fora desse novo ambiente seria uma vida à margem ou, sendo bem direto, uma vida marginal.
Com efeito, hoje em dia a vida de quem quer que seja não pertence a seu dono e o sujeito que ouse ter a sua vida somente para si será, para todos os efeitos, um marginal, um ser execrável, portador de qualquer dessas modernas patologias mentais recentemente descritas em espessos tratados psiquiátricos. O indivíduo, aos dias de hoje, é obrigado a ter um comportamento real condizente e coerente ao seu comportamento virtual, sob pena de a mulher lhe pedir o divórcio, ou os amigos passarem a desconfiar de sua credibilidade, ou o gerente de seu banco lhe taxar com maiores juros que o restante dos clientes. E não somente isso. Também o comportamento virtual há de agradar ou desagradar a todos indistintamente, sob pena de o acusarem de discriminação. O governo, se pudesse, tomar-lhe-ia tudo o que tem e mais um pouco, já que está a criar cada vez mais mecanismos que lhe permitam tomar conhecimento de tudo o que o cidadão faz com seu pobre e suado dinheirinho.
Como efeito colateral “menor” da ampla divulgação ou disponibilidade de acesso às informações sobre todos, empresas e bancos se sentem à vontade para divulgar seus produtos através de mensagens por correio eletrônico ou mesmo por contato telefônico direto. A informação dá dez voltas ao mundo antes que termine um piscar de olhos e, se passar pelo individuo sem que ele a capte, sentir-se-á excluído do mundo, com a nítida sensação de ter perdido algo de importância capital. E assim é, hoje, a vida de um ser humano minimamente normal. A nova ética se impõe; a velha fenece como a flor com que se presenteia alguém que se ama.
O hoje é imperativo em seus novos hábitos, em seus novos compromissos, em suas novas obrigações. Não importa o que se sente, mas é imperioso que se o demonstre publicamente mesmo que não haja sentimento algum... Antigamente, para se dizer vivo bastava ir atrás do trio elétrico. Hoje, para estar vivo é preciso correr atrás da cauda do foguete da informação, seja ela boa ou péssima, construtiva ou inútil, eficaz ou insensata. Tanto que não importa o que esteja fazendo, atenda o telefone imediatamente e responda incontinenti às mensagens que chegam pelo telefone portátil.
Foi assim que, há cerca de uma semana, me bate o telefone à hora em que atendia os doentes no ambulatório. Era um número desconhecido. (Atreva-se a não atender a um conhecido e aguente as consequências.) O sujeito queria me oferecer algo, mas não decifrei exatamente o que seria devido à má qualidade da chamada. Despedi-me explicando que naquele momento não poderia falar, e desliguei.
Hoje estou ali no almoço, pensando na vida, degustando o alimento. O momento do alimento é momento ímpar, como sabem. O sujeito que come há de desejar toda a paz existente no mundo para si e para si somente. Eis que, súbito, me toca o telefone portátil. Venho atender movido por essas prementes forças da modernidade. Olho o display do aparelho e não reconheço o número que me chama. Atendo. Era o sujeito da semana passada. Identificou-se impecavelmente. Mas, o que queria ele?
Ora, queria me participar que havia, reservado para mim em sua factory, cinquenta mil reais de crédito pré-aprovado. Um empréstimo, dinheiro vivo e fácil, tudo porque sou servidor público municipal. Ou seja, a prefeitura municipal de Fortaleza autoriza a que a tal factory me empreste dinheiro e a ela garante o pagamento das parcelas abatendo-as na fonte, a cada mês de vencimento do salário. Ora, o país está a assistir à prisão de políticos de Brasília por causa de negócios escusos dessa natureza. O governo federal roubou ou foi omisso ao permitir o assalto a servidores públicos aposentados aos quais se ofereceram esses tais empréstimos. A prefeitura de Fortaleza está a seguir os passos de Brasília? A mim não importa – fui direto ao negar a oferta. O homem queria deixar-me seu telefone caso eu mudasse de ideia. Neguei-me enfaticamente a anotar seu número. Pensei tê-lo ouvido rir-se baixinho como se espantado estivesse por eu me negar a tomar o dinheiro. Terminei a conversa seco e direto:
–“... e não volte a me ligar.”
Prometi a mim mesmo mais tarde bater o telefone ao meu amigo Pedro Olímpio para saber dele como se faz para viver sem rede social e sem telefone portátil. Eu sei exatamente como é. Preciso apenas da confirmação de um cabra experiente no assunto.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

FUJÃO

Seu Silvestre, de 75 anos, chegou ao ambulatório segurando um guarda-chuva. (Hoje, em pleno mês de julho, choveu por aqui.) Queixava-se de dores nas pernas quando andava. Por ter sido fumante por longo período, até 25 anos atrás, o médico do bairro supôs para ele uma doença arterial obstrutiva. Por isso o encaminhou a mim. (Não conheço o médico do bairro nem ele a mim.)
Palpei-lhe os pulsos. Eram bons pulsos. “Será mesmo que este homem está com obstrução nas artérias das pernas?”, pensei. Para dirimir a dúvida era aconselhável examinar-lhe os pulsos após ele dar uma boa caminhada, de preferência até que viesse a dor.
–“Seu Silvestre, façamos o seguinte. O senhor ponha a sua sombrinha ali no canto da parede, saia ali fora no corredor, por favor, e ande bastante, até começar a sentir dor. Quando ela vier, volte aqui rápido para que eu lhe examine novamente. Pode entrar sem bater, que eu vou continuar atendendo outras pessoas...” Ele saiu e chamei outro paciente.
Depois atendi outro; depois mais outro; e ainda mais outro... e nada do Seu Silvestre. Saí ao corredor a procurá-lo, e nada do Seu Silvestre. Havia muita gente no corredor, mas não seria difícil identificá-lo, ainda que fosse a primeira vez que nos víssemos. Olhei para um lado e para o outro várias vezes e não avistava o homem. Entrei de volta aos consultórios e comentei com as meninas, as atendentes:
–“O homem sumiu... foi-se embora...”
Por um momento supus não ter sido bastante claro em minhas instruções, e que talvez ele houvesse resolvido mesmo ir embora de uma vez. “Esse doutor é doido varrido!”, estaria pensando. “Mandou-me embora assim, sem mais nem menos...”, teria concluído.
Ainda atendi outro paciente antes de voltar outra vez ao corredor à procura de Seu Silvestre. Tornei a entrar, desta vez na sala defronte a minha onde atendia Dr. Ivan, o proctologista. (Os proctologistas até hoje me perseguem, mas tenho por eles um carinho todo especial.) Contei-lhe o ocorrido, já nos divertindo com o mal-entendido. As atendentes gargalhavam, outros pacientes que aguardavam entrar noutras salas se riam. As portas estavam entreabertas e já todos ouviam a história. Quando saí da sala do amigo, lá estava ele, Seu Silvestre, rindo-se porque ouvia tudo da pilhéria, parado defronte à porta de minha sala. Caçoei dele em tom de brincadeira:
–“Onde o senhor se meteu, homem? Estávamos preocupados...”
Foi quando ele saiu a explicar que saíra do hospital e dera não sei quantas voltas no quarteirão, e que só agora começara a sentir uma muito leve dorzinha nas pernas.
Coloquei-o na mesa de exame. Os pulsos estavam lá, amplos e saudáveis como os de um garoto travesso. Concluí, então, que o jovial idoso não tinha doença arterial nenhuma e saímos a investigar uma outra causa. 
Quando saiu, fiquei com a nítida impressão de que ele foi para casa feliz da vida mais por conta do gracejo do que pelo fato de ter artérias ainda saudáveis. O corpo humano é uma fonte inesgotável de sintomas. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

É COMO SE JAMAIS HOUVESSE EXISTIDO

              O meu amigo Pinto escreveu-me para pedir explicações sobre a crônica publicada ontem neste blog. Queria saber, afinal, se eu achava se seria melhor sobreviver ou se o melhor mesmo seria ter razão. Respondi-lhe que o preferível é o sujeito vivo e saudável sem nenhuma razão ao indivíduo mortinho da silva e cheio de razão. Assim, concordamos que esse negócio de se insistir em ter razão é coisa de gente que não tem amor à vida, nem à sua nem à alheia. E assim nos despedimos.
                Após passado um dia inteiro, ocorreu-me que a estória relacionada ao motociclista pode ser extrapolada para qualquer outro aspecto da vida. Por exemplo, o meu amigo Amorim.
                Não sei se sabem, mas Amorim amancebou-se. Sim, após o divórcio da esposa, sem nem deixar o defunto esfriar saiu a enamorar-se desta senhorita de poucas prendas e pouca idade. O resultado, como bem se pode depreender pelas infindáveis crônicas que a vida proveu neste tema, foi a falência completa do amigo. E nem falo somente da falência material, mas aponto também a miséria afetiva, moral, e até espiritual. Dirá alguém inteirado do episódio que o homem fazia lá suas preces e rogava favores divinos, mas mesmo os santos o abandonaram, quero crer. Não sei se por conta de uma súbita fé a denotar o caráter puramente interesseiro do pedinte, ou se por causa de suas ladainhas intermináveis, o fato é que o santo, ao que parece, dormia àquela zangurriana, uma cantilena modorrenta e chorosa... Dormindo o santo, nenhum milagre ocorreu, e o meu amigo vem, de fato, ao longo dos últimos anos, comendo o pão que o demo amassou.
                Os caros e rarefeitos leitores já se exasperam para saber a relação que há entre a escolha referida acima, trazida novamente à baila hoje pelo meu querido Pinto, e o drama do Amorim. Tentarei explicar já adiantando que nada há de complicado, como bem poderão apreciar.
                Ocorre que o amigo e a jovem à qual se associou viviam em querelas e questiúnculas sem fim. Digo questiúnculas e já me corrijo, visto que nada há de mais sério contra uma relação amorosa do que a perda da confiança. A jovem fez lá as suas estripulias bem como o meu amigo, de modo que na história não havia auréola a pairar sobre a cabeça de ninguém – eram os dois uns safardanas de marca maior. Assim, tornou-se comum o bate-boca infindável e improdutivo a cavar ainda mais fundo a cova do relacionamento. Os entreveros serviam a medir forças para ver quem tinha razão. Resultado – o apartamento, a separação, o novo divórcio do amigo, e a conclusão de que ninguém tinha razão.
                Dirá alguém, apelando à mutualidade exclusivista de nossa tese que, se ninguém tinha razão, então alguém sobreviveu o que, com efeito, é verdade. Ambos sobreviveram. Continuassem a disputa e teríamos, quem sabe, um daqueles crimes passionais onde um trucida o outro enquanto dorme. É bem verdade que houve uma morte – a do relacionamento. Diríamos, à essa argumentação, que antes se vá o substantivo abstrato que o substantivo concreto, e que antes se cavem sepulturas na alma que na terra. O que morre dentro de nós é como se jamais houvesse existido.

domingo, 3 de julho de 2016

SOBREVIVER OU TER RAZÃO?

         O que mais importa ao motociclista – sobreviver ileso ou ter razão?
         Vejam meus cada vez mais raros leitores que a resposta a esta intrigante questão é aparentemente fácil. Numa base racional, isto é, sentado tranquilamente no sofá defronte a um hipotético entrevistador, o motociclista responderia, sem titubear:
–Sobreviver ileso, claro!
Poderíamos agora imaginar o mesmo motociclista saindo desta hipotética entrevista após ter-se servido de um copo de café Pilão, e subindo em sua motocicleta de 125 ou 150 cilindradas. Minutos depois, várias esquinas à frente, estará o nosso pobre motociclista deitado no asfalto por conta de uma colisão com um automóvel. Para sua sorte, seus ferimentos são do tipo que minha mãe faria curativos apenas jogando sobre eles Merthiolate e iodo, e cobrindo depois com gaze e esparadrapo. Afora o ardor, nada demais. No hospital, o médico prescreveu-lhe analgésicos e semicúpios. (Não me perguntem o porquê dos semicúpios.)
Feita a investigação, chega-se à conclusão que o acidente resultou do fato de o motociclista ter-se interposto, na pista de rolagem, entre dois automóveis numa ultrapassagem perigosa e não recomendável. Em outras palavras, o motociclista ficou em posição extremamente vulnerável no momento do tráfego. Ainda assim, praguejava:
–O motorista não olhou para o lado antes de desviar do buraco no asfalto! Por causa dele estou aqui “de atestado”!
Ora! Como se bem pode ver, sobreviver ileso ou ter razão não é uma escolha fácil. Como explicar, agora, a notável contradição entre o que o motociclista disse à entrevista e seu comportamento nas ruas? Consultemos o Dan Ariely, que afirma que o ser humano é um animal irracional, ao contrário do que diz o senso comum. A propósito, Ariely diz que somos não somente irracionais, mas “previsivelmente irracionais”. É possível que no calor do trânsito o sujeito se torne ainda mais humano e esqueça todas as suas eternas boas intenções. A epinefrina e os corticosteróides são hormônios que nada têm a ver com o racional.
Não vou tentar explicar nada disso porque não sou estudioso do comportamento humano e muito menos do comportamento de motociclistas imprudentes. Nem vou entrar no mérito do porquê dizemos uma coisa e fazemos outra na prática. Se o Ariely disse que somos previsivelmente irracionais após vários anos estudando nosso comportamento em várias experiências de campo, quem sou eu para dizer o contrário. Assumamos estar certo o psicólogo, e estamos conversados.
O motociclista, após o acidente, queria ter razão. Vê-se que, no caso, razão significa ser inculpável, ou não ter culpa pelo acidente, ou ainda ser inocente como causador do acidente. No pai dos burros consta que razão é “aquilo que explica alguma coisa ou que faz com que algo exista ou aconteça”. O motociclista queria dizer, então, que não foi ele o causador do acidente.
É claro aqui que o motociclista desprezou o primitivo medo da morte, algo tão irracional quanto seu desejo de ter razão à força. De fato, o medo da morte não é, a princípio, um sentimento racional. Entretanto, é possível ao ser humano inteligente escolher racionalmente como se comportar em situações de perigo ou esquivar-se dela tão logo ela se apresente.
É fato que o sujeito que anda sobre duas rodas tem, desde o início, a perfeita noção de sua maior vulnerabilidade em caso de acidente. Por isso mesmo, presume-se, racionalmente deveria se comportar imbuído de um sentimento irracional, o medo. Concluímos, de forma bem racional, que ao invés de querer ter razão, o motociclista deveria anelar sair ileso após todo e qualquer trajeto que fizer na via pública. Para isso deveria automatizar para si um comportamento frio, calculista e defensivo ao extremo durante a pilotagem. No mais é não esquecer a velha e boa máxima que diz que “o que você faz fala tão alto que o que você diz ninguém escuta”!   

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O MEU JARDIM (para Bella)

Plantei um jardim
De flores multicoloridas era o meu jardim.
Como globo de concreto era meu mundo antes dele
Onde o sol me queimava, onde a lua me entristecia
Sem em nada crer via o mundo girar
Incolor
Inodoro
Insosso
Silente
Mas eis que a terra, num cantinho assim perto de mim
Pulsava como se viva fosse
E havia as sementinhas que caíam como gotas de chuva
Do céu
E juntei-as na terra que com o ritmo do meu coração pulsava.
Com minhas lágrimas as nutri com água
E cresceram as flores por toda a terra naquele cantinho
Bem pertinho de mim.
Eram tão lindas e frágeis as flores
Que delas cuidei com todo o meu amor
Como se sem elas não mais vivesse
E a todas amei, como o meu jardim.
Eis que algumas morriam, não pude impedir
E à medida que morriam umas
Outras eu plantava
Para que não morresse o jardim.
Ainda que continuassem a morrer
Eu plantava, e regava, e acariciava
O jardim.
De modo que ele crescia, e crescia, e crescia...
E nasciam mais flores...
Jurei que mesmo que morressem algumas
Não morreria o jardim
Porque a morte é o inexorável de quem vive.
Ainda que não pudesse evitar as lágrimas pelas que feneciam,
Usei-as para nutrir as mudinhas que brotavam
Querendo nascer
Querendo viver.
E nasciam flores ainda mais lindas, e maiores, e mais perfumadas
E aprendi que um jardim vive das flores que nascem para substituir as que morrem
De modo que não morra o jardim...
Eis que um dia sonhei.
E no sonho eu subia nas asas de um anjo do Senhor
Que pairava sobre o meu jardim.
E só então pude ver de cima
Que o meu jardim tinha o teu rosto
E que meu lindo jardim era você.
E que, para viver,
Preciso cuidar de VOCÊ...