terça-feira, 30 de outubro de 2012

De poste em poste


Nelson Rodrigues, pela boca de uma de suas personagens, presumidamente conhecedora de suas colossais galhas, dizia : -"Meu marido não respeita nem poste!" Assim, para os leitores mais vorazes do jornalista, escritor e dramaturgo se apresentava pela primeira vez a figura do poste vítima de maridos safados e infiéis.
           Hoje mesmo compartilhei à rede social um vídeo em que aparecem o Chico Buarque e o Tom Jobim tocando, de autoria do Tom e Vinicius de Moraes, a música "Sem Você": "...você é o que resiste/ao desespero e à solidão/nada existe/o tempo é triste/sem você".  De fato, o lamento é de um romantismo refinado e belo, próprio dos que estão a nutrir por alguém uma dessas paixões que dilaceram as fibras da alma. Por isso, não foi de surpreender que um querido amigo fizesse, ainda lá mesmo na rede social, o comentário sobre o que lhe pareceria o óbvio; disse ele: -"Estás apaixonado?"  Eu, sem usar de qualquer referência disponível à mão, respondi-lhe: -"Com essa música dá pra se apaixonar até por um poste". 
          Que fique claro: quis fazer, de certa forma, uma analogia entre o poste apaixonável e o poste amante. É fácil perceber que ambos são seres/objetos desprezíveis, ainda que o apaixonável apenas se o torne por conta da belíssima música da dupla genial. Assim, continua sendo desprezível o poste apaixonável. Poste é poste e o máximo de virtude que há de possuir seja talvez seu desenho a instigar pensamentos freudianos. Fora isso só se presta mesmo a segurar fios de alta tensão e luzes de rua, e servir de latrina a cachorros vira-latas. 
          Muito tempo se passou até que o pobre poste fosse novamente denunciado pejorativamente. Foi ao começo do ano corrente, quero crer. A prefeita desta decadente cidade, a senhora Luizianne Lins, declarou, não sei se a jornalistas, não sei se na inauguração de uma de suas escolas, que seria capaz de eleger até um poste sem luz para prefeito da cidade. Do alto de sua arrogância, de sua empáfia, de seu pedantismo, a ilustre alcaide, acreditando gozar de elevada popularidade, tinha absoluta certeza de sua competência para lograr tal êxito. Observe-se que seu poste era ainda mais inútil porquanto a luz que de si pendia simplesmente não pendia, não existia, e seria este mesmo que pretendia eleger.
          Eis então que, passados alguns meses da promessa aterradora, a nobre gestora dos negócios municipais se mostrou incapaz de lhe levar a cabo. Bem, é verdade que não era bem um poste o cidadão que pretendia eleger, mas muito se assemelhava a um, posto que fosse alto e houvesse passado despercebido no jogo político de nossa cidade por um lapso de tempo maior que o ideal. Era, até poucos meses atrás, uma dessas personalidades que se assemelham a figurante de filme pornô – ninguém lhe dava a mínima atenção. Ninguém o via. 
           Assim, chega-se ao final da história da utilização de postes para propósitos diferentes daqueles a que são destinados. A verdade é que ninguém come poste, nem por ele se apaixona, mesmo quando se põe a tocar melodia enternecedora, como a do Vinicius e do Tom. Por extensão, deve-se presumir e deduzir que postes também não servem para prefeito, como ficou muito claro à contagem dos votos da eleição em Fortaleza. 
          E mais. Se a senhora prefeita ainda quiser inaugurar algo durante os dois meses que lhe faltam à frente do executivo municipal, um alerta seria conveniente: corra a toque de caixa, dona prefeita! Como ela mesma disse, "a gente inaugura não é pra conseguir voto, mas pra mostrar o que estamos fazendo, senão ninguém vai saber". Se não há mais votos pelos quais brigar e se inaugurações de obras públicas não se prestam a isso, é chegada uma excelente oportunidade para pôr em prática esse propósito puro e destituído de qualquer interesse. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pintinho e Leonelzão


SERÁ que alguém lembrará de meu amigo Pinto, o homem mais liso à face da Terra ao final de cada mês? Aos que não lembram, passo a recordá-los.
            Outro dia, já há algum tempo, o encontrei no hospital. Vinha ele sorumbático, macambúzio, pra baixo mesmo e, vocês sabem, um Pinto pra baixo é das piores visões que se tem na vida. Corriam os últimos dias de um mês qualquer, não me lembra agorinha qual. Pouco importa esse detalhe, uma vez que o que lhe ocorre a um mês ocorre também ao outro: a pindaíba recalcitrante e recidivante. Se o virássemos de ponta-cabeça à essa época, nenhuma pataca lhe cairia dos bolsos. Eis o Pinto que alguns de meus leitores não conhecem.
            Pois a lembrança do Pinto me espicaçava o juízo enquanto escarafunchava a lista dos vereadores eleitos para compor a Câmara Municipal de Fortaleza na próxima legislatura. O que lá vi não me chegou a estarrecer, embora os motivos fossem mais que visíveis, o principal deles a reeleição do senhor Leonelzinho Alencar. Este senhor, todo fortalezense sabe, protagonizou recentemente o episódio mais hilário de que se tem notícia na crônica política desta decadente cidade. Diga-se de passagem, dizemos hilário para não dizermos trágico, que hoje não estou para depressões inúteis nem tristezas capitais.
            Que fez este senhor?, já e ainda edil desta mesma câmara para a qual foi reeleito? Conseguiu para sua mulher uma inscrição no Bolsa Família, programa de distribuição de renda do governo federal, tido por muitos como o mais vultoso e engenhoso plano de compra de votos jamais concebido. (Não sou quem diz; dizem-no os outros.) A denúncia contra o insigne vereador foi feita por um de seus pares, a senhora Toinha Rocha, “adversária” política do senhor Leonelzinho Alencar no amplo curral eleitoral do bairro de Messejana.
            O episódio extravasou os muros da casa legislativa municipal, que aliás nem deveriam se erguer, e chegou ao curral de ambos na forma de uma enxurrada de balas disparadas contra certa propriedade da vereadora, localizada lá, na zona comum de influência de ambos. Assim, a coisa toda se assemelhava à mais abjeta politicalha. As suspeitas do atentado tupiniquim recaíram, evidentemente, sobre o senhor Alencar, que desde então jura de pés juntos que nada teve com o fato nem com a inscrição do nome de sua jovem senhora no programa Bolsa Família.
            O fato é que a senhora Alencar sacou dos cofres públicos a irrisória quantia de duzentos e poucos reais, ainda que sua renda familiar beirasse os dez mil.
            Nada disso, como se já sabe, impediu o ilustre edil de receber uma outra enxurrada, diferente daquela recebida pela vereadora: uma enxurrada de votos – quantos foram mesmo? –, tendo sido, se não me engano, o quarto candidato mais votado para a câmara da municipalidade. (Lembrei! Foram exatos 14.486 votos.)
            O que pensava eu enquanto debulhava a sadia lista? Pensava justamente no Pinto, meu amigo de muitos carnavais. Nutro por ele um carinho tão intenso e tão especial que houve tempo em que era para mim uma necessidade acrescentar-lhe ao nome um diminutivo qualquer que denotasse e denunciasse todo esse meu bem-querer.
Cogitava chamá-lo de “Pintinho”, mas logo me pareceu uma afetação tão esdrúxula que desisti incontinenti. Também aventei uma abreviação de seu nome, tão comum aos dias de hoje, algo como “Pin”, mas novamente declinei da idéia por pior ainda. Seu primeiro nome tornava impraticável qualquer tentativa de acarinhá-lo, de modo que mais uma vez declinei. Assim, cheguei à conclusão fatal e irremediável: Pinto não admitia diminutivos nem abreviativos. Se quisesse lhe tratar com carinho, teria que buscar uma outra hipótese.
Vendo aquela lista e os mais de catorze mil votos de Leonel Alencar, pensava que o rapaz devia lá ter suas qualidades e um certo carisma. Essas pessoas não davam a mínima para o comportamento nada correto do vereador. Poder-se-ia até concluir que, de fato, aprovavam sua conduta. Daí alguém, um amigo talvez, saído dessa turma enorme ou não, ter querido como eu demonstrar apreço por sua pessoa e tê-lo mimado com o “Leonelzinho” tal como é conhecido.
O diabo é que, para mim, o Pinto merecia muito mais, sem dúvida. Sobre o senhor Alencar, em que pese sua cara de menino travesso e puro, pesam acusações que, em minha humílima opinião, inviabilizariam qualquer tentativa neste sentido. Ele mereceria mais e talvez um aumentativo: Leonelzão. Ou Alencarzão. Ou ainda Leonelzão Alencarzão. Uma referência a seu curral eleitoral aposta a seu nome também seria uma possibilidade plausível: Leonelzão da Messejana.
Dirá alguém que tais apostos não fariam jus ao aparentemente doce homem. Nada há em sua superfície que justifique o “zão” sufixalmente colocado, e não deixará de ter razão quem assim argumentar, como já dissemos poucas linhas atrás. É sabido que muitas vezes os apelidos nos servem à ânsia de denegrir ou burlar a imagem de sua vítima. Outras vezes, como no caso de meu amigo Pinto, eles nos vêm saciar o desejo constante do carinho a quem estimamos, a traduzir nosso apreço a um caráter que nos pareça irretocável.
Pensava: quem teria aposto o diminutivo ao nome do edil cuja face parecia cobrir-se com a máscara do fora da lei? Há de ter sido alguém que o ama, com certeza. Sendo um familiar até se explica; sendo um amigo algo estará errado.
Diz Cícero falando da amizade que esta só seria possível entre os virtuosos de caráter, entre os bons, entre os honestos. Eu bem poderia alcunhar meu amigo de “Pintinho”. Já o vereador... 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Esperança, minha única certeza


            Duvidar dá trabalho. E tudo que dá trabalho tendemos, a priori, a rejeitar. Como estamos demasiado ocupados em nossos ordinários afazeres, levando nossas vidas tediosas em busca de não se sabe bem o quê, largamos todas as dúvidas que diariamente nos assaltam ao longo da estrada da vida.
Disse o saudoso Airton Monte outro dia, numa de suas crônicas intitulada Hoje e amanhã: “Minha consentida solidão, hoje, é o melhor de mim. Será? Nada tenho a dar ou receber. Hoje, porque as releguei ao olvido, não me acorram dúvidas nem dívidas. Tudo em mim infantilmente, talvez, virou certeza de esperança. O dia de sonhar acordado é hoje. Unicamente hoje. Hoje. Amanhã, não sei.” Se pudesse diria ao Airton que amanhã seguramente lhe recidivarão as dúvidas, e também as dívidas.
            Assim, que fazer ante a dúvida que se não vai? Resposta: fazer como o insigne cronista, que desligou os telefones, a TV e seu radinho de pilha, e jogou ao lixo jornais e revistas do dia; ou arregaçar as mangas e se pôr ao trabalho da busca do esclarecimento. Eis aí o trabalho inevitável. Ou ele ou a dúvida. Como tudo na vida, mais uma escolha a escolher.
            Atente-se que não estamos a falar da tola e abjeta dúvida, aquela que assalta somente o pobre espírito. Esta é a birrenta, levantada apenas a serviço da troça, da pilhéria e do deboche. Falta-lhe na essência a questão vital; falta-lhe no âmago a pureza da outra, a legítima, a autêntica.
            Mas o que queria o Airton àquele dia? Queria sonhar acordado; e punha ênfase em seu desejo: Hoje. Unicamente hoje. Do amanhã não seria capaz de dar notícia. Sua certeza de esperança preenchia sua solidão unicamente hoje. Para tanto, desconectou-se, abstraiu-se, subtraiu-se da vida e do meio. E rejeitava as dúvidas hoje, unicamente hoje.
            Ah...! o poeta da prosa havia de ser apanhado e capturado em dúvidas atrozes!... Dir-se-ia ser ele, todo ele, um oceano de questionamentos e incertezas cotidianas aliviadas hoje, somente hoje, como que a dar-lhe um sossego do balouçar das enormes vagas daquele infindável mar...
            Com efeito, percebe-se que duvidar dá trabalho; tanto trabalho que o poeta saiu a confessar sua premente necessidade de sonhar acordado; talvez sonhar com um mundo onde somente habitassem as certezas. Sabia que não é bem assim. Por isso impunha, ao mesmo tempo em que prometia – unicamente hoje.
            Não aventou a possibilidade de interromper o viver, de se deixar paralisar, por quaisquer dúvidas. É possível que, em querendo tão-somente um descanso, uma pausa, o fizesse a fim de seguir vivendo ao tom das incertezas diárias. Sim, há de ter concluído o poeta – é imperioso seguir. É vital expor-se aos riscos, sob pena de se deixar imobilizar por medos e pavores adquiridos alhures e há tempos.
            Talvez dissesse o poeta dos conflitos travados entre o coração e a justa e implacável razão, embate voraz e perene enquanto dura nossa exígua perenidade, esta própria tão duvidosa quanto o resto.
            Eu, improbo que sou aos olhos de muitos quando a deslindar meus sentimentos, fiz-me cúmplice do poeta maior; pretendi dizer com as suas as minhas palavras; anelei, desejei ardentemente ser poeta e expressar em semelhante lirismo quão cansado também estou das incertezas, causa de todos os males entendidos de meu discurso.
            E, contudo, descanso. Por uma hora que seja ao dia-a-dia, recomponho em mim mesmo as certezas de minhas intermináveis esperanças... 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Não queremos nem um nem outro


          Meus mais antigos leitores, se os tiver, sabem que sou um homem que adora frases. Uma frase nem sempre é uma frase, e é notório que há frases e frases. Pois gosto daquelas, das frases que são verdadeiras frases. É bem possível que alguém salte de lá e me indague como sei quando uma frase é aquela frase, e direi que nada mais simples. Uma frase é uma frase, para mim e em minha humílima opinião, quando fica a ressoar em minha mente, como se emitisse eco infinito e constante; durmo e acordo com ela, como se fora uma obsessão musical. 
          É fácil aos queridos leitores perceber que não estou a emitir juízo de valor àquelas frases e que, portanto, elas podem transmitir boas ou más idéias, positivas ou negativas emanações, estimulantes ou desanimadores prognósticos. Diria até que por isso mesmo elas me obcecam; elas constatam e denunciam os limites extremos de qualquer coisa – pode ser que delatem um coração altruísta ao limite ou que exponham uma cretinice sem tamanho, para ficar apenas em dois exemplos.
          Outro dia um amigo, para minha mais completa e recente decepção, disse a seguinte frase: -"Não existe a verdade; o que existe é a interpretação".  E seguiu explicando que vários filósofos já cantaram e decantaram tal idéia, esquecendo-se de citar pelo menos um destes. Direi mais. Direi em que contexto a disse: - a propósito do julgamento dos mensaleiros do PT.
          O Procurador da República, Doutor Manoel Pastana, tem publicado em seu site, cujo endereço é www.manoelpastana.com.br, vários artigos em que aborda os fatos jurídicos do referido julgamento. Cita leis que foram infringidas, denuncia as provas materiais contra quais e tais réus, explica como os procuradores que fizeram a denúncia construíram uma peça frágil em conteúdo probatório para livrar a cara do ex-presidente Lula, denuncia a existência de um grupo de procuradores que age dentro do Ministério Público Federal como criminosos de colarinho branco a defender os interesses petistas, e por aí vai. Doutor Pastana dá nome a todos os bois, sem uma mísera exceção. 
          O caso é que meu amigo, apaixonado pelo lulo-petismo e inconformado com as evidências,  não tendo mais argumentos para debater sobre inocência e culpa no julgamento, fez o que faz todo petista quando flagrado em penosa situação: - jogou a culpa na inexistência do fato. Como todo fato é uma verdade incontestável e absoluta, esticou a baladeira e decretou a morte desta. As assinaturas do ex-presidente da República editando Medidas Provisórias e decretando leis para fornir o caixa do esquema, por exemplo, são simples e inocentes atos de um grande líder em prol de seu povo e de seu país, mesmo que tais medidas provocassem o faturamento recorde (3 bilhões de reais) de um obscuro banco privado que emprestava dinheiro "sem garantias" ao PT, o BMG, possuidor de apenas 10 agências, maior do que o faturamento da Caixa Econômica Federal com suas 2000 agências no ano em questão. Como não existe a verdade, fica tudo aí a mercê da interpretação de cada cidadão. 
          Disse ainda mais o meu amigo. Taxou o Procurador que revela todo o esquema lesa-pátria de "caluniador". De fato, concluí, no ribombar das frases de meu amigo, que o Doutor Pastana é um caluniador de marca maior e de primeira grandeza. É um caluniador de que o Brasil está muitíssimo necessitado: – é um caluniador de bandidos. E assim, ficamos meu amigo e eu em paz, já que em pelo menos alguma coisa acordamos. 
          As frases de meu diletíssimo amigo só não me atormentaram mais porque outras frases me interromperam o processo de tortura. Tudo porque fui cair na besteira de abrir o jornal O Povo, cada vez mais suspeito de relação incestuosa com os poderes constituídos, e ler a reportagem da bela jornalista Kamila Fernandes. Diz a manchete o seguinte: "Eleitor (em Fortaleza) decide manter grupo hegemônico". Conta o pai dos burros – e aí me incluo, nos burros, porque sou um deles – que hegemônico é o que tem a supremacia, que por sua vez significa ou o que tem a superioridade, ou o que tem o poder e a autoridade. Evidentemente a jornalista se referiu ao grupo que detém o poder. Se dissermos de outra forma a manchete ficaria "Eleitor decide manter no poder grupo que já detém o poder". (Sei que não soam bem as repetições, mas aqui ela serve a enfatizar o óbvio.)
          Entretanto, o que a manchete não diz dizem os números, ou por outra, os números insinuam que a manchete mente. Mente porque o eleitor, e entenda-se por eleitor a superioridade, a supremacia e a hegemonia numérica, não decidiu manter no poder o grupo que está no poder. Ao contrário, a maioria (quase 55%) ou 743951 eleitores escolheram outro candidato que não o do grupo que ora ocupa o poder, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Estes últimos totalizaram 103009 votos. Se para o grupo do poder foram 610002 votos, temos que estes senhores receberam menos da metade dos votos ( pouco mais de 46%). Então, se alguém "decidiu" manter no poder os que já nele estão, não terá sido o pobre e desprotegido eleitor.
          Assim, se a Kamila Fernandes novamente afirma, no desenvolver a matéria, que "o fortalezense resolveu levar para o segundo turno das eleições os dois grupos que já detêm a hegemonia política da capital e do governo do estado", o meu amigo que assassinou a verdade diria que há aqui uma oportunidade a várias interpretações, e eu mais uma vez com ele concordaria em gênero, número e grau. A leitura que se pode fazer, com legitimidade e pertinência, e que teima em expor as podres entranhas de nosso modo de eleger, é a de que o sistema eleitoral vigente não traduz os anseios do eleitor, não contempla sua vontade. Vê-se que ele não capta o que os eleitores não querem. Ora, se a maioria dos eleitores não quer o grupo hegemônico, como justamente ele vai exercer o poder? Há aí algo de muito errado ou equivocado, para ser mais brando. 
          Seria possível introduzir nesse sistema eleitoral que vige um dispositivo tão significativo como este, o de evitar levar ao segundo turno duas forças cuja soma de votos é menor que a metade dos votos válidos? Ou isso ou a criação de um novo sistema, sendo este mais representativo da vontade popular. 
         Fico me perguntando se ao invés de dez tivéssemos doze candidatos; e se ao invés de doze tivéssemos vinte; e se ao invés de vinte tivéssemos trinta... A eleição para prefeito assemelhar-se-ia à eleição para vereador. É provável que a soma de votos dos dois candidatos mais votados fosse progressivamente menor e ainda assim, nesse sistema, seriam esses a disputar no segundo turno. Tudo isso demonstra uma combinação aterradoramente pouco representativa de nosso sistema político ainda mais exacerbada por nosso sistema eleitoral. O resultado é que "elegemos" governantes que nenhum compromisso têm com a sociedade. Isso tem-se tornado cada vez mais evidente.
          Voltando à reportagem de Kamila Fernandes, diz ela lá na frente o seguinte, após ter dito o que teria resolvido o eleitor quando acabamos de demonstrar que o coitado nada resolveu: "Juntos, os candidatos que não conseguiram ir para o segundo turno tiveram 51,22% dos votos, o que demonstra que uma grande parte do eleitorado não gostaria de ver nem a continuidade da atual administração, nem a entrada do grupo do governador no poder do município". Aqui ela comete um equívoco: a soma dos votos dos outros candidatos totaliza 47,34% dos votos válidos; esse percentual sobe para 54,95% quando aí incluímos os votos em branco e nulos. Em suma, contradiz o que afirmara ao início da matéria.
          Há mais. Não é apenas uma grande parte do eleitorado que não quer para prefeito nem o candidato da atual prefeita nem o candidato do senhor governador: - é a maioria absoluta dele. Pelo atual sistema um desses senhores vai administrar a cidade. Mais de um entre dois eleitores não os quer como prefeito. Vejam que nossos buracos são fichinha diante do buraco que vem por aí. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Personae non gratae


          Vejam os queridos leitores, seguramente entediados de minha interminável lengalenga, como na vida tudo depende do tempo e do lugar. Absoluto mesmo só a velocidade da luz, segundo o senhor Albert. O que é aqui, é possível que não o seja mais ali; o que está perto, é possível que numa fração de segundo esteja numa lonjura inimaginável; e assim descobrimos que nossos sentidos são incapazes de detectar uma realidade cada vez mais presumidamente evidente.
          O caso é que ontem fui ali, à Casa do Frango, degustar uma comida japonesa. Não sei o que diriam os entendidos nas misturas de sabores, mas aprecio uma cerveja Heineken durante a refeição da comida oriental. A mim ela me parece uma combinação perfeita. 
          Todos sabem, hoje é dia de eleições, e vigora a lei seca. Por isso resolvi adquirir por antecipação algumas Heineken para o caso de desejá-las ao dia de hoje. Desço ao mercadinho da própria Casa do Frango e descubro o inusitado: a cerveja no mercadinho cá embaixo é quase 50% mais barata que a mesma cerveja lá em cima no Sushibar. 
          Concluí que, à próxima vez, pedirei ao garçon que me sirva das cervejas cá debaixo. Ele certamente engendrará mil e uma justificativas para uma diferença tão significativa e eu acabarei por ceder. Há querelas onde não se deve querelar. Nada há que me obrigue a pagar mais caro quando posso pagar mais em conta. Se pago, pago porque quero, porque escolhi pagar. E estamos conversados. 
           Pior é quando se é obrigado, como hoje. Sou obrigado a votar. Se não o fosse, ainda assim votaria. Há, dentre os dez, apenas um ou dois candidatos que seriam bons prefeitos para essa decadente cidade, se eleitos fossem. Mas a injustiça do pleito favorece os candidatos das hostes do poder político e financeiro, numa clara inclinação da eleição desde quando se inicia a campanha. 
          Assim, tudo o que é desigual em se tratando de regras só pode produzir um resultado que traduz tudo, menos quem é o melhor. A consequência é que, no caso de Fortaleza, ao final da campanha a eleição demonstrou uma polarização. Os candidatos "oficiais" irão, ao que tudo indica, ao segundo turno, e seria nesse momento que o eleitor consciente teria o direito de não ir à urna e abster-se.
          (Eu disse "polarização" mas ela não há, de fato. Os candidatos oficiais são farinha do mesmo saco; estão brigando pelo poder municipal apenas para demonstrar sua força e, claro!, usufruir das benesses que a alta corte proporciona. Não dão a mínima para o povo.) E como mentem! Como prometem o que não podem cumprir! Dizem pura e simplesmente o que o eleitor quer ouvir, exceção feita ao eleitor consciente. 
          E só agora percebo que usei por duas vezes a expressão "eleitor consciente", ficando a me perguntar o que seria essa espécie de gente, se é que os há. Eleitor consciente é o que conhece a verdade; seria uma boa definição. Eleitor consciente é o que não se vende ou não vende o seu voto; idem. Com a lei da ficha limpa poder-se-ia também defini-lo como aquele que não vota em candidato ficha suja; vem bem a calhar.
          Mas a definição que me parece a mais visceral seria: eleitor consciente é o que não é apaixonado. Todos sabem, e os que não sabem fiquem sabendo: - apaixonado é aquele fulminado por uma paixão. (Dirão os mais afoitos que estou a tergiversar, mas invoco-lhes a calma e a paciência.) 
          Ah, a paixão... Diz o pai dos burros sobre a paixão: perturbação do ânimo; grande inclinação ou predileção; amor ardente; e a que me parece a grande definição de  paixão quando aplicada ao eleitor - parcialidade. (http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=Paixão)
          A fim de fisgar alguns apaixonados fiz ontem na rede social uma mini-experiência. Postei lá a mentira que corre solta Brasil afora dando conta de que a respeitada revista Forbes teria divulgado num de seus volumes a informação de que o senhor Luís Inácio Lula da Silva teria entrado na lista das pessoas mais ricas do mundo. Rapidamente vieram pessoas contradizer a facilmente demonstrável mentira. Basta ir à pagina virtual da revista para confirmar a falsidade da informação. A falsa verdade fora postada na rede social por pessoas que notoriamente nutrem uma aversão por este senhor, uma forma de paixão às avessas. 
          Ao mesmo tempo corre solto na rede social um texto do senhor Doutor Manoel Pastana, Procurador da República, onde explica com detalhes a farsa que os procuradores tuiuiús, alinhados com as esquerdas, montaram para o julgamento do mensalão (http://www.manoelpastana.com.br/index.php/noticias/694-lula-dirceu-e-os-tuiuius-a-realidade-oculta-do-mensalao-titulo-1.html). O texto, necessariamente longo pela riqueza de detalhes e de citações de leis e trechos de depoimentos de testemunhas e réus no processo, é claro feito água pura e cristalina e só revela uma paixão do autor, já que estamos a falar em paixão: - a que se cumpram as leis e os ritos legais do país. 
          Pois qual foi minha surpresa quando um amigo, comentando a mentira da lista atribuída  à Forbes, diz: "Fernando Cavalcanti, essa lista tem tanta credibilidade quanto os artigos do Manuel Pestana." O amigo ainda escreveu incorretamente o nome do corajoso Procurador, que anda por aí escoltado por policiais federais por ser ameaçado e jurado de morte. 
         Mas há pior. O amigo é ilustrado e sensível médico, apreciador das artes e homem de bem; é homem sério, compenetrado com seu mister de aliviar a dor do ser humano que sofre; é homem honesto; é homem de alma branca, enfim. 
          Não conheço pessoalmente o Doutor Pastana, mas seus artigos transbordam a alma do homem de bem, combatente, zeloso, corajoso e amante das leis, das boas leis; seus artigos transpiram contundência, lucidez e visceralidade, não poupando poderosos que tentam infringir a lei; põe à pena seus nomes e afirma categórico que não calará pois que não teme a morte. Como duvidar de um homem que põe sua vida em jogo para defender a justiça e as leis de sua pátria? Como menosprezar as valiosas informações do Doutor Pastana, contidas em seu artigo?, informações  que até mesmo nossa imprensa marrom nos nega em sua eterna pusilanimidade e conluio com os homens de poder do momento? Por que razões o meu querido amigo e homem de bem se contrapõe a outro homem de bem?
          Só há uma explicação: - a paixão. O amado amigo age como os apaixonados que publicaram a mentira que usei para demostrar o que me propunha. Ele e aqueles não são movidos pela imparcialidade da verdade; estão a movê-los suas predileções e inclinações identitárias. Foram fisgados pela tendência que temos a cultuar personalidades per si, não importa o que elas façam, o que elas digam. Cultuam o personagem, a persona, o homem. Calcaram a pés as idéias, os ideais, a moral, a verdade, mesmo sendo boas pessoas como meu amigo.
          Os que plantaram a mentira na intenção de denegrir a imagem do criminoso Lula – há provas disso – estão a agir como os policiais norte-americanos que plantaram provas contra o senhor O. J. Simpson no caso do assassinato da ex-sua então mulher Nicole Brown e seu amigo Ronald Goldman ocorrido, me parece, em 1994. Não havia necessidade. O criminoso seria condenado sem a mentira, tanto que mais tarde ele cometeu vários outros delitos graves e está a cumprir 33 anos de cadeia. 
          Eis, portanto, o que ocorre mesmo ao homem de bem quando imerso no banho dos mediadores químicos da paixão. Nada quer ver, nada quer ouvir, nada quer sentir. Seu prazer é amar a persona, ainda que lhe seja non grata. 

O Procurador Doutor Manoel Pastana é contactável no endereço contato@manoelpastana.com.br