terça-feira, 31 de julho de 2012

Choperia


Outro dia, já faz tempo, escrevi que não seria possível existir uma alegre e linda música(http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/A-inexistente-alegre-e-linda-musica-b1-p191.htm). E devo dizer, jurando por tudo o que seja mais sagrado, que não quis plagiar ao que já diziam os grandes Vinícius de Moraes e Baden Powell em seu Samba da Bênção: - “pra se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”, etc. etc. Eles foram específicos; referiram-se ao samba. Eu generalizei ainda mais a coisa; decretei: - música alegre não é arte.
            Ontem, digo, sexta-feira voltei à carga. Queria desesperadamente um sofrimento a fim de que me viesse inspiração para escrever um texto poético, repleto de lirismo e romantismo. Uma tristeza me era necessária naquele momento. E eis que, aí sim, ontem a tarde quase chorava sobre mim. Seus raios de luz eram como um olhar perdido de desespero e dor, a derramar-se em espessas e molhadas lágrimas a contaminar o mundo com o mesmo sofrimento do fim do dia. (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/07/agonia-da-tarde.html).
            E não gostei. O que poderia ter feito? Poderia ter montado à motocicleta e saído para um passeio; poderia ter descido ao calçadão no mesmo intento; poderia ter ido à caixa-prego. (Alguém sabe onde fica esse tão famoso cafundó?) Mas não. Escolhi o impacto daquela emoção para escrever.
Enganam-se os que pensam que o romantismo se refere unicamente e exclusivamente a um sentimento entre duas pessoas. Num sentido mais amplo e artístico, romantismo se refere um movimento da arte em direção à imaginação e às emoções. Deduz-se, portanto, que nem todo movimento artístico reflete emoção. Vide o classicismo, o realismo, o concretismo e os devaneios como que lisérgicos do surrealismo.
Dirão alguns que estou redondamente enganado, que a música alegre é também arte, e provavelmente estarão cobertos de razão. Confesso que ao fazer tal afirmação, aproximando-me dos dois grandes compositores, fui tendencioso. Expressei minha predileção por uma vertente da arte.
Há uma razão para isso. Vejam novamente o que diz a letra do Samba da Bênção: - “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Assim, na música alegre não há beleza e, por extensão, um texto sem lirismo é um texto sem beleza. Eis aí tudo bem explicado. Gosto do que é belo, mas nem sempre – com uma freqüência até maior do que desejaria – escrevo o que é belo.
Por uma dedução lógica, a amiga que gosta quando escrevo, digamos, liricamente, gosta quando escrevo liricamente, e ponto final. Ora, bolas! Cada um gosta do que gosta. E até fui rude com a amada amiga, quando a ela sugeri que somente lesse os românticos. A ela devo um pedido de desculpas por essa insolência.  
Mas, olhem como são as coisas. Outro dia, por coincidência também na última sexta, encontro à choperia, a ex-melhor choperia de Fortaleza, um amigo que concorda comigo – a choperia já não é mais a mesma. E por que concordamos que a choperia é a ex-melhor? Há sintomas, o principal deles a queda em sua freqüência. Outrora bem freqüentada, bem disputada por muita gente que queria desfrutar de sua boa música, de sua boa culinária e drinques diversos e de seu agradável jardim e instalações, hoje se observa uma sensível alteração nesse cenário. Não é coisa de um ou outro dia. Já há vários e vários dias, meses talvez, observa-se a debandada. O amigo e eu acordamos em tudo.
Ele dizia, consternado: -“Sou um homem de balcões! O balcão aqui perdeu o charme!”, referindo-se ao balcão do bar central onde os barmen servem o cliente diretamente. Para ele o balcão desestigmatiza o freguês. Mesmo uma mulher sozinha, sem companhia, adquire uma aura de princesa ao sentar-se ao balcão, diferente do que ocorre quando sozinha à mesa. E lamentava: -“Ontem me sentei ao balcão sozinho... por quase três horas éramos o balcão e eu. Uma coisa de fazer dó, meu chapa...” Quem já viu o balcão da choparia entenderá a angústia do amigo, um fã de carteirinha e, diria até, seu sócio fundador.
Outro sintoma ominoso é a crescente falta de garçons em algumas áreas do bar, denotando talvez uma preocupação dos proprietários com os custos, querendo talvez equilibrá-los a uma decrescente receita. Seja como for, se estivermos completamente errados em nossas lucubrações, o que poderia explicar a situação?
Outro amigo, chegado de carona em final de conversa alheia, arriscou: -“Estamos no Estado do salário mínimo, amigos! Estamos no fim do mês e o fortalezense está de bolsos vazios! Eis aí a explicação”.
Se vier a ocorrer o desfecho (in)esperado, terei motivos de sobra a me entristecer e escrever liricamente sobre a morte de mais um delicioso point desta decadente cidade. O tempo dirá.      

domingo, 29 de julho de 2012

Agonia da tarde

          Estou preso num hiato do tempo ou, melhor, estou preso no próprio tempo, um tempo que não se esvai de mim, que de mim não passa. Ele persiste, teima em permanecer, em ficar. Como uma obsessão ele fica, vai ficando. 
           Ligo a música. Ela me transporta, me leva... E vou... Aqui, onde me trouxe a música, me deleito; vejo, ouço, encontro a quem já há tempos não encontrava, a quem já partiu já nem sei há quanto tempo. Amigos, familiares, mendigos do portão da escola, eles revivem, estão aqui comigo agora, embalados e trazidos pela música que ouço agora...
           Mas a música eu conheço. Eu a quero aqui comigo, eu a escolho, porque é ela minha máquina do tempo, a que me transporta a lugares onde com prazer, alegria e felicidade já estive. Se pudesse o teria parado, o tempo, para que jamais passasse e os levasse de mim... 
            Insisto na música, a toco novamente, a escolho repetidas vezes... É ela que fende os portais que apenas a aceleração da luz, teoricamente, poderia romper. 
           Olho lá fora e vejo o dia que vai se esvaindo; uma tarde melancólica cuja luz fere o céu azul turquesa, triste e cálida, mais ainda ao som daquela música a tocar na mente, na memória, quase no ouvido, quase no mundo real. Uma sonolência me acode e quero desfalecer como um desejo de morte sufocado, suscitado por essa nostalgia profunda, por essa certeza inconsolável e impotente...
            Nem a noite que chega, completamente estabelecida e negra, é tão cruel e dolorosa como a tarde chorosa e inexorável; a tarde, a agonia; a noite, o sono permanente e sereno, como a eternidade da saudade e da inexistência, bálsamo da dor do amor que ficou...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Preciso sofrer!


            Ando na busca de um sofrimento. Sim, preciso urgentemente sofrer. Tenho escrito numa rarefação de atmosfera lunar. A razão é óbvia – não tenho sofrido o bastante.
Uma amiga que me lê já não me lê. Ou, melhor, quase não me lê. E, se me lê, nada diz, nada comenta. Sendo franco, ela me lia. Sei que me lia porque dizia que me lia. E dizia porque eu escrevia o que a enlevava.
Uma outra foi mais específica e mais direta. Disse-me de supetão: -“Não gosto quando escreves sobre a Unimed!” E tudo porque houve um tempo em que a Unimed Fortaleza me era uma obsessão. O tempo passou, fechei o consultório, a Unimed deixou de me fazer sofrer. Ontem mesmo encontrei no hospital o meu amigo Sales, que se queixou da Unimed. Fez um rosário de reclamações, e por fim concluiu: -“Tá difícil! Tá difícil!” Eis aqui a mais soberba prova de que o escritor precisa sofrer para bem escrever, ainda que certos temas só interessem a um número de pessoas equivalente à torcida do Ferroviário. (Estima-se que o Ferrim, carinhoso diminutivo do Ferroviário e tradicional escrete do futebol cearense, tenha hoje algumas poucas centenas de torcedores.)
Minha amiga que me lia, minha ex-leitora, gosta dos temas intimistas, da prosa poética, da leitura que fala ao coração. Conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que meu coração vai muito bem, obrigado. Se dele viesse um sofrimento que fosse, uma leve angina pectoris que fosse, eu havia de me derreter nas letras e em textos espectrais e maviosos.
Dirão alguns que transpiro certo apelo masoquista ao invocar um sentimento tão abominado. Nada é mais doloroso do que a dor não-física, a dor do espírito, a dor que transcende a matéria. Todavia, há que se lembrar que, aparentemente, tudo é química. As prostaglandinas provocam a dor física ao passo que a supressão das endorfinas e dopaminas suscita o que chamamos “dor da alma”. Aquela age aqui na periferia; estas, lá no encéfalo; aquela é produzida, num teleológico devaneio meu, para provocar a dor; estas, por sua vez, têm sua produção suprimida para alcançar o mesmo efeito. Assim, detenham-me as endorfinas e dopaminas!
Não se deve brincar com certas coisas, e de fato não anelo sofrimento algum. Minha amiga da poesia que leia os que sofrem, que leia os angustiados. Há uma enormidade de escritores sofredores. Conheci um que de tanto sofrer, mas de tanto sofrer, escrevia sempre o mesmo. Suas frases e períodos eram tão profundos que para alcançá-los eu precisava pular do quinto andar ou, se não isso, era assaltado por vontade incoercível de praticar tal ato. Como não tenho inclinações suicidas, parei de lê-lo. Ademais não se deve esquecer que há o sofrimento fabricado, igual a choro de atriz de novela. O sujeito imagina uma enorme dor e põe-se a escrever carpindo mais que profissional de velório.
Vejam o que escrevi ontem, por exemplo. Nada havia no texto que minha ex-leitora saia a ler e, se o fizesse, seria com esgares enojados e contrações labiais. Falei dos idiotas de nossas barbas, nos quais se tropeça tão logo se abra a porta da rua. (Sou do tempo em que a porta da rua era mais conhecida como a porta “da feira”.) Falei também de como escolher tomates quando se vai ao mercantil. E brá! Que fez ela até agora, passadas várias e várias horas da divulgação do texto? Resposta: nada. Não deu um pio.
O diabo é que no artigo de ontem avisei que relera dois textos do Nelson dos quais muito gosto, e mencionei apenas um deles. Esqueci-me de falar do outro, que tem muito a ver com o primeiro, cujo título é “Os idiotas da objetividade”, de 22.02.1968. Basicamente é o seguinte. Antes, lá pelos idos de 1920, os jornais estampavam emoção na manchete e na notícia. Se alguém matava alguém, a manchete vinha tinta de sangue. E de lágrimas. E de indignação. E repleta de todas as possíveis emoções suscitadas por um assassinato bárbaro e cruel. Abusava-se dos pontos de exclamação nas manchetes.Tempos depois surgiu o revisor, que reescreve a notícia de forma puramente informativa, tipo “MULHER MATA O MARIDO E VAI AO CABELEIREIRO”; e dentro da matéria diz o que ocorreu, quando e onde – e estamos conversados. Diz lá o Nelson, em suma: “Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor”.  
Eis porque me causam repúdio as manchetes da imprensa local com sua idiota objetividade quando a indignação anda tão necessitada por mais e mais gente. Se os jornais não porejam a indignação do corpo social em tantas e tantas questões que ora nos afligem, quem o fará? Estamos precisados de ver a indignação em vivos pinotes nas manchetes de nossos jornais. Sua exposição ao alto delas seria aliciadora e arrebatadora de mais gente que está entorpecida no mar escaldante de tantas indignidades que pululam sem resistência.
Volto à amiga ex-leitora. Será que para ela me tornei um idiota da objetividade? 

A pujança do caos


            Não sei quem disse aquela que considero a frase mais atual e que melhor define o que hoje acomete as grandes cidades brasileiras, particularmente a nossa. Refiro-me ao trânsito. Melhor dizendo, refiro-me ao que se resolveu chamar de “mobilidade urbana”. O que acomete atualmente nossas cidades é uma enorme e abissal dificuldade em se locomover através delas. Eis aí tudo.
            A frase, dita por não sei quem, diz, não textualmente, que não é melhor para a mobilidade urbana quando o pobre pode comprar carro, mas quando o rico usa seu transporte público. O que acontece presentemente é justamente isso: - todos puderam e ainda podem comprar seu carro. Crédito abundante a juros mais baixos do que até então havíamos visto fez a festa do consumo. Nossos comunistas, digo, nossos socialistas crêem piamente que ter é o grande lance, o grande negócio. O sujeito precisa ter para ser feliz. Assim, todos puderam ter carro, um item considerado como sinal de pujança financeira pessoal. Segundo nossos socialistas, todos estão muito felizes. Sempre surpreendo vários deles felizes nos engarrafamentos. Quando se despedem dizem: -“Bom engarrafamento pra você!”
            Após mais de 13 anos – sim, 13 anos! – tornou-se parcialmente utilizável o metropolitano de Fortaleza, com seus 15 km. (Os chineses fizeram uma ponte de 42 km em cerca de 4 ou 5 anos, se bem me lembro.) É linha única. Programam-se mais quatro linhas, num total de cinco. Usando um silogismo suspeito, digamos que em 52 anos veremos o metropolitano de Fortaleza funcionando plenamente.
            As linhas de ônibus cobrem quase toda a cidade, mas sofrem de deficiências crônicas aparentemente insolúveis porquanto já são conhecidas há anos e ninguém foi capaz de encaminhar  uma solução.
            Assim, carros e mais carros todos os dias entrando na malha, com sua aparente incapacidade de expansão, já que essas obras provavelmente levariam a cidade à paralisação completa; calçadas e espaços públicos invadidos diariamente por feiras livres; permanente falta de planejamento sobre o que fazer agora e no futuro – eis aí o cenário atual. Onde estaremos em cinco anos? Não é difícil estimar. Há quem considere que chegou o caos; há quem diga que ele ainda está por vir. Particularmente penso que já se instalou – o que está a caminho é algo que não se faz idéia. Como diria a Suplicy, penso seriamente em relaxar e gozar, como no estupro. Nossos socialistas já estão gozando até com a brisa de fumaça dos caminhões.
            Eu comecei falando do trânsito mas não era dele que eu queria falar. Queria falar do que o gestor faz no hospital público. Devo dizer que o gestor público é uma figura das mais descartáveis da atualidade neste vasto país. A razão é simples – qualquer um está apto a ser gestor. Somos quase 200 milhões de gestores. No Instituto Doutor José Frota, por exemplo, o diretor clínico é trocado a cada 15 minutos e assim os chefes que lhe são subordinados. O que eles não conseguem lá mudar nem resolver são os reais problemas da instituição, aqueles que lhes gritam diuturnamente às portas, como as incômodas verdades de cada um de nós que teimam em permanecer e nos incomodar.
            De fato, e sem muita firula, digamos que o Instituto Doutor José Frota, como um hospital que atende as vítimas de todos os tipos de violência – acidentais ou provocadas –, reina absoluto como um termômetro social em qualquer critério. Vejam que me refiro à população que ele atende. Todos sabemos que estamos a superar as zonas de guerras em número de homicídios. Os homicídios de vítima “imediata” não vêm ao Instituto Doutor José Frota – vão ao necrotério; os de vítima mediata eventualmente se tornam pacientes do hospital. E há as vítimas que sobrevivem às suas agressões ou acidentes, mutiladas ou totalmente recuperadas; entre esses dois extremos vítimas com um amplo espectro de incapacidades e seqüelas temporárias ou permanentes.
            Vejam que o acidente é um evento inesperado, quase uma exceção. Ora, se nos referirmos ao acidente de motocicleta, veremos que muitos não podem nem devem ser considerados “acidentes”. As condições criadas pelos pilotos são tão perigosas que o risco a que se expõem seria considerado “proibitivo”. Em outras palavras, esses pilotos são suicidas enrustidos e – pior! – assassinos assumidos. Assim, seria mais honesto dizer que os acidentes são raros no hospital – o que se recebe mesmo por lá são os efeitos de um banditismo generalizado.
            Cresci ouvindo dizer-se que o povo era inculto e, portanto, manipulável. O povo, pobrezinho!, não sabia escolher seus representantes porque não reunia o cabedal de conhecimento suficiente para fazer uma “boa” escolha.
Eis, então, para provar que o povo é santo de vitral com halo luminoso e tudo, que a assistente social adentra uma enfermaria do setor de Pediatria do Instituto Doutor José Frota onde estavam crianças vítimas de acidente automobilístico. Eram seis leitos e, deles, cinco eram crianças envolvidas em acidente de carro. Apenas um leito era ocupado por uma criança do sexo feminino de cinco anos de idade que caíra de uma árvore. A assistente social chamava as mães para lhes explicar o que era o DPVAT, quem teria direito e como proceder para recebê-lo. Terminada a exposição, a mãe da criança que caíra da árvore se aproxima da assistente social e pergunta se ela não teria direito ao seguro. A profissional explica que não, que aquele seguro era específico para vítimas de acidente automobilístico. A mãe, braços cruzados, cabelos desgrenhados e esturricados, num vestido de chita comprado no Beco da Poeira, vira-se para a criança, que jazia ao leito com a perninha imobilizada em aparelho gessado, e grita: -“Mulher!” – vejam bem: mulher! – “tu devia era ter sido atropelada!”          

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Como escolher tomates e reconhecer idiotas

          Uma das [de(z)s]vantagens da solteirice é que se é obrigado a fazer mercantil. (Para os que são estranhos aos dizeres desta terra alencarina explico – "fazer mercantil" significa ir ao supermercado comprar os chamados gêneros de primeira necessidade.) Na solteirice não é possível transferir essa tediosa atividade a quem quer que seja. O(a) solteiro(a) é uma entidade única, intransferível, indelegável, inalienável. O(a) solteiro(a) paga suas contas, compra suas roupas, faz seu mercantil, e assim por diante.
          Pois hoje fui ao supermercado. E precisava de tomates; queria tomates. (A ciência atribui ao licopeno do tomate potentes propriedades antioxidantes e antineoplásicas.) Na seção de frutas e verduras estavam os tomates, e lá fui eu escolher tomates. Não sei se já se deram o trabalho de escolher tomates. Não direi que é algo fascinante, pois estaria mentindo. A bem da verdade, além dos tomates escolhi cebolas, batatas, goiabas, maçãs... (Paro por aqui senão o povo vai dar conta de minha lista de compras e presumo que ela deponha em demasia sobre a minha personalidade e o meu caráter. Dirão, por exemplo, que devo ter um péssimo hálito por comer cebolas, ou que me vazem os intestinos por gostar de ameixas.)
          Mas fiquemos com a escolha dos tomates. Uso de uma técnica para os escolher – só escolho os perfeitos, os que não têm nenhum defeito na casca. Podem ser vermelhos, ou amarelos, ou verdes, não importa – quero somente os de casca perfeita e de consistência dura. Os que apresentam defeitos na casca ou áreas de amolecimento podem já estar a caminho do apodrecimento. Por isso os rejeito. E como é difícil nesta terra encontrar tomates perfeitos!... Mas eles estão lá; basta ter um pouco de paciência. É procurar, garimpar, não há outro meio.
          Enquanto escolhia os tomates, pensava em pessoas. Pensava em mim mesmo. Vejam que não me referi ao tamanho dos tomates ou ao matiz de suas cores. Não os quero perfeitos senso latu; me importa a consistência do fruto e a integridade de seu revestimento. No mais, estarão ótimos para mim. O que para alguém será um defeito, para mim há de ser nada. Haverá quem não se importe que eles sejam moles, ou que um ou outro tenha falhas ou rupturas na casca.
          Confesso: – não tenho a menor idéia do porquê estou a falar de tomates e de meus critérios na sua escolha. Lembrei. Enquanto os escolhia, com a atenção redobrada de quem está focado em manobra de altíssima periculosidade, pensava: -"Escreverei sobre como escolher tomates..." Sim, na aridez de quem há muito nada sente nem nada tem a dizer, eu pensava que já era hora de escrever sobre algo que não fizesse o menor sentido; nem para mim nem para quem quer que fosse. Eis, então, a razão de eu falar em tomates. Outra coisa de que me lembro: – imaginava se alguém escolhe os tomates que rejeito. Concluí que, sim, há de haver quem leve para comer os tomates moles e os com defeitos na casca. Paciência. Cada um escolhe o que bem entender, sejam tomates ou qualquer outra coisa.
           Chego em casa. Sobre a mesa, de Nelson Rodrigues, "A cabra vadia - novas confissões", presente de uma amiga também apreciadora do autor. Perguntou-me: -"Já tens?" Respondi que não, mas que já o lera. Quis saber por que não o tinha. Os aficionados geralmente não se desfazem dos objetos de seu fanatismo. Expliquei que a ex-minha mulher ficara com toda a minha discoteca e com toda a minha biblioteca  como punição a mim imposta. (Ex-cônjuges feridos na auto-estima são capazes das mais desnecessárias atitudes.) E assim minha amiga se encheu de alegria por saber que estava me presenteando com algo de que muito gosto e que me foi tolamente subtraído um dia.
          Fui ver, ou melhor, fui rever no livro do Nelson crônicas que muito me marcaram. Enquanto aguardava o mensageiro com o mercantil – no Ceará "aguardar o mercantil" significa "aguardar as compras" – li duas que imputo de uma atualidade cada vez maior como se, à medida que passasse o tempo, mais atual elas se tornassem. O tempo lhes empresta mais verdade, mais lucidez, o que me leva a pensar que o cronista foi um grande visionário de seu tempo e do porvir próximo. Vejam, por exemplo, o que ele diz em "Festa de cabeças cortadas", publicada no jornal O Globo em 24.05.1968:
          "No passado, eram os 'melhores' que faziam os usos, os costumes, os valores, as idéias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém: -'E que fazia o idiota?' Resposta: - fazia filhos". Continua o Nelson: "Mas vejam: - o idiota como tal se comportava. Na rua, passava rente às paredes, gaguejante de humildade. Sabia-se idiota e estava ciente da própria inépcia." E arremata: "E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os 'melhores' se juntavam em pequenas minorias acuadas, abatidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é Prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina."
          Constata, por fim, o inevitável e o inegável dos tempos atuais: "No presente mundo ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino."
          Outro dia, acho que foi ontem, abro um dos jornais locais aqui no computador. Hoje tudo se faz e se resolve no computador. Há hoje dois mundos e, por que não dizer?, duas existências para cada ser humano – a real e a virtual. E ambas se tocam às vezes muito intimamente, de tal forma que se pode ter duas vidas, ambas a se encontrar no mesmo tempo e espaço a intervalos irregulares e, às vezes, indesejados e inesperados. Encontrava-me recentemente em França e, vejam vocês, estava para vencer a conta de luz. Simplesmente fui à companhia de energia elétrica e obtive o boleto para pagar a conta no meu banco – tudo no mundo virtual.
          Como ia dizendo, fui ver o jornal virtual. E o que vi? Vi certo jornalista local, homem supostamente culto, escritor de livros, cantado e decantado na imprensa da terra, colunista lido e relido, um ás, enfim. Escreveu ele o seguinte.
          Antes, contudo, abro um parêntese para um breve comentário do senhor Winston S. Churchill no capítulo 4 de seu compêndio "Memórias da Segunda Guerra Mundial" intitulado "Adolf Hitler". Diz ele sobre Hitler: "Filho de um obscuro funcionário aduaneiro austríaco, ele havia alimentado sonhos juvenis de se tornar um grande artista plástico. Não tendo conseguido ingressar na Academia de Arte em Viena, vivera na pobreza nessa capital e, posteriormente, em Munique. Pintor de paredes ocasional e trabalhando muitas vezes como biscateiro, sofrera privações físicas e desenvolvera um ressentimento sombrio, embora disfarçado, pelo fato de o mundo haver-lhe negado o sucesso." Tempos depois vimos o senhor Hitler encher estádios, e praças, e boulevares, e ruas, e avenidas, sacudir uma nação inteira contra o mundo. Seus discursos inflamados e respondidos com palmas e ovações ainda podem ser vistos e ouvidos em documentários de televisão.
          Voltemos ao aclamado colunista do Diário do Nordeste. Disse ele o seguinte em sua coluna de ontem: "Que Lula é grande político ninguém pode negar. Um modesto operário nordestino chegar à Presidência da República e de lá sair como um dos maiores presidentes do mundo já diz alguma coisa. Fazer de uma mulher que nunca fora, sequer, vereadora sua sucessora é outro feito que não aconteceu a nenhum outro." E torce para a eleição de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, apoiado por Lula e Paulo Maluf, de quem expõe uma fotografia na coluna com a seguinte legenda: "Filho de Maluf tem contas no exterior, segundo jornal. Foi a luta de Maluf, com dinheirão da prefeitura, para deixar fortuna para os filhos."
          Lula não é nem de perto parecido com Hitler, muito mais astuto, mais popular, mais unanimidade e melhor político do que ele. Mas o que não me sai da cabeça é a história do Nelson sobre a ascensão do idiota e de seus asseclas, admiradores e simpatizantes. Bem se vê o que o "grande político" está a significar aos dias de hoje. Nem me darei o trabalho de considerar as castas definições de Política e Políticos dos filósofos antigos. Elas têm migrado na linha de conceitos e a ética da personalidade suplantado por completo a do caráter.
          Quanto aos tomates, sigo escolhendo-os cuidadosamente.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Provável unanimidade, provável burrice

          Um corajoso amigo convidou-me na rede social ao grupo "aposto que consigo encontrar 20 mil pessoas que odeiam o Ceará", referindo-se ao time de futebol, muito bem entendido (https://www.facebook.com/pages/Aposto-que-consigo-encontrar-20-mil-pessoas-que-odeiam-o-Cear%C3%A1-/171898536274881). 
            De relance, sem deitar muita atenção a princípio, imaginei-o odiando o estado da federação. Num desses pensamentos em que se concebe na mente, numa bilionésima fração de segundo, quatro ou cinco deduções fatais e irremediáveis – num desses silogismos múltiplos e feéricos – conjeturei o amigo aliciando uma revolução anunciada e vitoriosa tamanha a audácia da pregação. O amigo, que mora há muito no exterior, estaria empenhado em destruir o Ceará à distância. Contudo, como já disse, o ódio se referia ao time de futebol. Quer ele  angariar ódios ao time, não ao estado, portanto.
          Celeumas e desamor à parte, fiquemos com outra coisa qualquer. E o que seria? Nem imagino. Talvez devêssemos ficar com o suposto ódio ao Ceará estado da federação a fim de ver no que vai dar. Fiquemos com a celeuma e o desamor geográfico. Imaginemos que meu amigo odeie o estado do Ceará e, por tabela, o Brasil. Ora, é seu direito. Nem críticas merece. De modo oposto, seu ódio há de merecer uma apreciação detalhada e circunstanciada. Nem se obriga a que todos tenham a mesma opinião. Dizia o Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.
          Veja-se, por exemplo, o meu querido amigo Mauro Oliveira, o homem do "Kamarada". Estudante em Paris, lá ia – e ainda vai! – muitíssimo. Antes ia estudar, hoje vai palestrar. Eis que um dia, numa de suas idas e vindas à Cidade-Luz, estava, à noite de uma sexta, na Avenue du Champs Élysée. Conhecida por seu mítico charme, Champs Élysée atrai a todos segundo a unânime idéia de que suas noites seriam incomparáveis e inigualáveis às de qualquer outro boulevard.
         Ora, o meu Mauro Oliveira sentara-se a uma daquelas mesinhas redondas que os bares e restaurantes parisienses dispõem ao lado de fora, na via de pedestres, com as cadeiras voltadas para a calçada, e punha-se a degustar um delicioso Bordeaux de 50 euros. Descia-lhe o vinho pela goela enquanto petiscava uma baguette tradition molhada em molho picante, o pensamento a voar para longe, para a terra natal. Pensava: -"Ai! que vontade de estar na Zug agora...!" Note-se que nem o fuso foi levado em consideração; o homem queria a Zug já! naquele instante! naquele momento! como as improrrogáveis  necessidades e urgências fisiológicas de que por vezes somos acometidos. Bem se vê que nem a Champs Élysée é lá essa unanimidade toda. 
          Pois aí está demonstrado que meu amigo bem poderia odiar o estado do Ceará e é provável que seu ódio nos livrasse da estupidez de nossa unanimidade. Então, vejamos: por que haveria o meu amigo Valdísio – o nome dele é Valdísio – de odiar o Ceará? Que odeie o time até se entende – o homem é Fortaleza doente; mas odiar o Estado? Não é o caso; nem é possível persistir em tal suposição. Ela não se fundamenta. Ele nasceu e se criou aqui; teve uma infância sadia e feliz aqui; sua família lhe ensinou aqui as virtudes essenciais necessárias a que se forje um ser humano de bem. Não lhe seria possível olvidar tudo isso, por mais longe que fosse. Conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que ama deveras seu berço natal. 
         Confesso: a culpa de tal mal-entendido foi toda minha, supor um ódio tão impossível. Alguém dirá que ódio é ódio, um sentimento que se deve banir de si, fosse qual fosse o objeto, e provavelmente estará correto tal pensamento sobre sentimento tão ruim. Dos males o menor – meu amigo mora tão longe que mal nenhum fará que odeie o Ceará, o time de futebol. Não estará sujeito às represálias de seus torcedores nem a qualquer outra vicissitude semelhante. Oxalá não encontre por lá, onde mora, um torcedor de seu arqui-rival. Aí, em breve teríamos a má notícia de dois torcedores cearenses a se esganar além-mar por causa de times de futebol. O Lima Barreto estrebucharia na campa. Uma vergonha!....


"...mas o tal de futebol pôs tanta grosseria no ambiente, tanto desdém pelas coisas de gosto, e reveladoras de cultura, tanta brutalidade de maneiras, de frases e de gestos, que é bem possível não ser ele isento de culpa no recrudescimento geral, no Rio de Janeiro, dessas danças luxuriosas que os hipócritas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches."

(Lima Barreto em "Marginália")

domingo, 15 de julho de 2012

Cura te ipsum!

          A dor dói no doente; a dor não dói no sadio. Portanto, onde dói a dor? A dor dói naquele que está enfermo. 
          Se te machuca algo, então estás enfermo, padeces de um mal qualquer. Se alguém te causa dor, será esse alguém tua doença? ou será tu mesmo o que padece? Se julgares o outro o teu mal, o que te impedirá de o remover, de o destruir, de o eliminar? Com que ímpeto e com que força destruidora o consumirás! Serás mais um assassino passional a perambular pelas varas e headlines.
          Mas, se o mal reside em ti – teus ciúmes, teus acalentados projetos e sonhos frustrados, teus quereres de criança mimada, enfim! – que direito tens de dar- te o remédio errado? que direito tens de suprimir de outrem a paz que lhe é devida, quando somente a ti mesmo o mal que acarinhas te diz respeito e somente a ti? 
          Fiel inimigo é o espelho!... Denunciador de imperfeições plásticas e reflexo do ser!... Se todos os espelhos do mundo fossem como a pintura de Basil Hallward, havíamos de contratar um curador para um Louvre de obras cujos temas seriam sempre uma figura humana em decomposição, uma vida em decomposição, um caráter em decomposição... 
          Mas não. Como Dorian, escondes no teu sótão ou no mais recôndito salão da tua alma tua mais hedionda caricatura, alimentando a ilusão de que és, ao invés de carrasco, a vítima. A dor que te consome é tua, somente tua, mas queres doá-la a outro que te sirva de salvador de teus males, dos quais por si mesmo não és capaz de te livrar nem expiar a tua culpa. Necessitas deste outro para que seja teu mal, a razão de tuas desventuras e de tuas falências, aquele a quem n'outra vida foste a moléstia e que agora de ti ajusta contas, como a equilibrar suposto desequilíbrio na ordem de um universo impossível de permanecer sem tal medida. 
          Tolo! Se permaneceres dando abrigo e guarida a teus desvios e à moléstia que jaz em ti mesmo enquanto a atribui a outro, jamais te curarás. Mergulha em ti mesmo, olha o quadro que Hallward fez de ti, e grita ao teu espelho: "Cura te ipsum!"

Paris, 15 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Um defunto de Rodin

        Hôtel Paris Parc Monceau à Rue Cardinet, 38, pertinho do parque. O Arco ali próximo o alcanço descendo de Prony e virando à esquerda em Wagram. Daqui lá não completa 1,5 km.
          Champs Elysées estava fervilhando na última sexta, uma chuva fina que depois se adensou nos obrigando a descer à estação do metropolitano para nos proteger do vento forte que empurrava as pessoas às lojas a se abrigar.
          Em Montmartre, procurando Degas, Cézanne, Monet, Van Gogh perdido por essas bandas, e Toulouse-Lautrec, encontrei o cemitério sob o elevado e fui dar na Sacré-Coeur, empilhada de gente e línguas e povos; Paris lá ao longe se estendia, uma faixada encanecida e extensa a se perder no horizonte.
          No cemitério imperava o silêncio, o canto dos pássaros e as árvores. As tumbas se amontoavam dali a alhures, a perder de vista, em avenidas de mausoléus ora simples ora nababescos, estes, verdadeiros lares vazios de vida, repletos da ausência eterna do que partiu e de objetos em seca decomposição e orações latinas... Por vezes esculturas expressivas sombreavam lápides marmóreas e brilhantes, estátuas de nuas figuras humanas em poses intrigantes, sentadas sobre bancos toscos, as pernas entreabertas por onde se via o sexo detalhadamente desenhado, o cotovelo esquerdo apoiado sobre o joelho ipsilateral, a mão aberta em concha a servir de suporte à cabeça que repousava – está lá inda agora, inda repousa – sobre ela; a face voltada para a direita, os olhos perdidos n'algum ponto além, a pensar... em quê pensaria? 
           No Hôtel des Invalides, onde está o Musée d'Armée, a história dos sofrimentos e das glórias desta terra, e o túmulo do último legislador-conquistador que foi Imperador, morador do palácio em Versailles, morada de Luís, o XVI, derribado dali e morto. Os excessos já iam há muito e a fome, a miséria, os elevados impostos e a pouca vergonha encheram a taça da turba enfurecida. No museu se respira respeito, vergonha e – ainda – dor. Os sons dos aviões, do canhoneiro, dos fuzis, emolduram as imagens inconfundíveis. Da derrota de 1870-71, quando Bismarck tomou a Alsácia e o norte da Lorena, eterna zona de disputa entre franceses e alemães, deixando neste povo o orgulho ferido e a estima pelas armas, até 1945, quando Fat Boy, bem longe daqui, em  agosto sepultou mulheres, idosos e crianças, tudo por aqui respira um respeitoso constrangimento por tantas e tantas disputas e mortes que, se bem vistas, estão a cumprir a profecia do Cristo, e outras, e outras, e outras. 
          O morto de Montmartre, pensativo sobre sua própria tumba, próximo à Sacré-Coeur, anela, talvez, a verdade que não parece estar ali pouco acima, na superficialidade de tanta liturgia engessada, de tanta suntuosidade indevida. Outro, mais cético, encomendou a escultura, feita às pressas, de seu corpo sem vida envolto em sua mortalha redundante e espessa, a barba por fazer, os cabelos desalinhados, o queixo proeminente e as faces côncavas a lhe denunciar a consumpção que anunciava desde antes o fim próximo e inexorável. 
          No palácio de Luís XIII, cujo edifício se ampliaria em séculos seguintes, aditado ainda de jardins teatrais e lagos navegáveis por pequenos e românticos barcos de nobres insensatos, a prataria e a sala de quase 400 espelhos denuncia ainda hoje a hipocrisia secular do reino que se dizia cristão que dali a pouco, na fúria revolucionária, pisotearia as Duas Testemunhas do Criador e bradaria "Liberté, égalité, fraternité!", não sem antes decapitar até mesmo aqueles que a inspiraram.
           Concluí: o defunto que imitava um Rodin ainda na morte não descansava. Atormentava-se sobre e sob a pesada lápide, como se uma vida não lhe tivesse sido o bastante para entender tantas incoerências e estupidezes. Nós que nos trópicos ainda cassamos senadores e morremos banalmente bem podíamos todos nos tornar, cada um, um defunto de Rodin.

Paris, 13 de julho de 2012