sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Uma mentira no futuro


            A mentira quando não indigna, nos faz rir.
            Foi o que me ocorreu ao ler a seguinte nota no jornal Diário do Nordeste, em que certo vereador petista afirma: “Nunca houve governo em Fortaleza em que as categorias de servidores conseguiram tantos avanços como o de Luizianne Lins.”
            Para a minha felicidade, o autor da coluna escreveu abaixo, após o nome do mentiroso, o seguinte: “Pouco antes de a prefeita determinar a demissão de 10 agentes da AMC que, apesar de estarem em estágio probatório, participaram da greve na autarquia; e esquecendo que nas gestões de Maria Luiza, Ciro Gomes, Juraci Magalhães e Antonio Cambraia servidor nenhum pegou fila no Sine por fazer greve. A decisão de Luizianne foi sustada pela Justiça.”
            Observem que não há lei humana que, violada, leve à punição do mentiroso; não há lei contra a mentira. Assim, mente-se impunemente, a torto e a direito, à luz do dia, do púlpito das câmaras e assembléias. E nos jornais.
            Outro dia, se não me engano na quarta de cinzas, certa articulista da coluna Opinião do jornal O Povo, após afirmar como verdade absoluta que os fins justificam os meios, escreveu que indiscutivelmente o governo Lula e o governo Dilma reposicionaram o ideal, por longo tempo julgado impossível de se lograr, de erradicar a fome e a miséria no país. Apesar do mensalão, do presidente que nada sabia, dos inúmeros escândalos e da corrupção grassante, que a articulista julga justificáveis em função dos fins, os referidos governos reposicionaram o ideal de justiça.
Que será que ela quis dizer com reposicionar? Entendo que seja colocar algo em nova posição, recolocar. No contexto seria priorizar a erradicação da fome e da miséria no país. O governo distribui renda e moradia, é certo. Diz que constrói escolas e que conseguiu ampliar o número de crianças matriculadas. Em seguidas avaliações ficou clara a péssima qualidade da educação ensinada nessas escolas. Paga-se mal ao professor, e a qualidade do profissional da educação é a pior possível. Conclusão: o investimento em educação é um “faz de conta”, um embuste. Mais um.  
As perguntas inevitáveis são: a médio e longo prazo, em que resultará distribuir renda e moradia a um povo que segue na ignorância? A equação se sustenta? O nível de renda dessas pessoas irá subir? Serão elas capazes de caminhar sozinhas, de obter um emprego bem remunerado, de montar negócios e empreender? Parece-me que não é a resposta a todas elas.
Se for assim, volto com outra pergunta: os governos Lula e Dilma reposicionaram, de fato, o ideal de erradicar a fome e a miséria do país? ou seu plano seria uma ardilosa trama, a maior de todas já engendradas contra o povo, para se manter no poder tanto tempo quanto seja possível?
Há a mentira cujo desmentir está ali no passado, à vista de todos, nas memórias da história e dos fatos facilmente comprováveis. E há aquela cuja verdade está apenas no futuro, ainda que todos os exercícios preditivos baseados em contundentes e atuais evidências lhe apontem o caráter. Quero viver para ver.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um homem descarrado


Tive hoje, ao ler a coluna do Airton Monte, a grata surpresa de descobri-lo um antiapologético das corridas de carros e dos próprios carros. Admito: estou com o Airton e não abro. Mesmo nos gloriosos tempos do Airton Sena era um pé no saco ver toda uma nação ao pé da televisão babando e ensurdecendo ao rugido daqueles motores estrepitosos. E como havia os aficionados!... Parecia que entendiam de motores, regras, estratégias, o diabo. De minha parte, detestava tudo aquilo.
            Direi apenas que difiro do Airton Monte por um simples detalhe – não detesto tanto assim os carros. Eles ainda me fascinam, ainda me dão vontade de amarrar-lhes um barbante à dianteira e sair a puxá-los como quando em criança. Entretanto, veio habitar em mim aos poucos, com o passar dos anos, a nítida certeza da não necessidade desses brinquedos na vida de alguém. Essa verdade é relativa, concordo, antes que me queiram servir o fígado à moda acebolada. É só contabilizar o tangível no que diz respeito ao carro em nosso meio para elucidar se ele é uma necessidade em cada caso.
            O carro é caríssimo! Tome-se um carro dito popular. Cerca de quarenta por cento de seu valor corresponde a impostos e taxas. Na Índia e na China esse valor é vinte por cento; na Argentina e Estados Unidos, vinte e quatro por cento; na Europa trinta por cento. Some-se a manutenção, seguro, consertos que a manutenção não preveniu, multas, depreciação, etc., eis aí quanto custa ter o carro. Se comprá-lo financiado, computem-se os juros do banco. Ia esquecendo as taxas de licenciamento anuais, dentre os quais os impostos para ter o carro – lembrem-se do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores.
            Aos comunistas – podem acreditar, ainda existem tais seres! – somemos mais valor, ou melhor, mais custo ao carro. Bem se vê que um carro pode ganhar uma nova e exuberante dimensão.
Existem carros e carros. O carro dá status, aí está o que queria dizer. Não falo de um Uno Mille, que esse é sinal de tudo menos de status. Falo dos carrões, dos que tudo têm em acessórios, cheiros, conforto, potência, design, e, como não poderia deixar de ser, preço. Carrões têm acima de tudo preço. Têm mais custo, são mais caros ainda. São verdadeiras residências móveis. Alguns, de fato, custam mais que um apartamento. Esses não servem apenas de meio de transporte – são verdadeiros símbolos de sucesso, virilidade, poder, abastança, opulência. Preenchem o vazio da vida. E, se a vida anda vazia, por que não preenchê-la com um desses lindíssimos modelos do mercado? Tudo isso é o que há de intangível acerca desse tão apreciado objeto de nosso dia-a-dia. Não há dinheiro que pague. Valem, portanto, todos aqueles custos elencados a princípio.
Ao Airton Monte aviso que radicalizei. Há quase seis anos vivo sem carro. Descompensei, como se diz no jargão médico. O que supostamente perdi em conforto ganhei em liberdade, ao contrário do que muitos pensam. E tenho contribuído com a natureza, devo lembrar. Devo assentir que caiu deveras o meu status, até que chegue o dia em que andar de táxi volte a ter o seu it, como noutros tempos. Por outro lado, passei a parecer o que não sou, quando outrora também parecia o que não era, resguardadas as abissais diferenças de uma e outra época. Afinal, posso alugar vez ou outra um carrão, caso me acuda um dia a necessidade imperiosa de uma máscara.   
O diabo é ter de aceitar as caronas inevitáveis que me dão os amigos quando saímos às farras. Suponho que não seja por dó de mim, mas porque adoram a minha humilde e resignada companhia.

Fernando Cavalcanti, 11.06.2010 

Traduzindo um Brasileiro

          Raramente intitulo um texto antes de seu arremate. Este, não. Este é diferente. Já lhe sabia a epígrafe antes mesmo de lhe deitar a primeira letra. Mais uma vez deram o mote os jornais ou, melhor, uma coluna de jornal e seu autor. A razão é simples – seu estilo é muito peculiar e, dentro da característica da hilaridade de nossas publicações, engraçado. O homem é o jurássico dono de uma coluna social, onde publica da vida da high society. É autor de livros dos quais, confesso, nunca nada li. Outro dia o vi à televisão afirmar que não liga a mínima para o que dele possam dizer ou criticar. 
          O colunista escreveu, a título de exemplo de sua singular maneira de escrever, o seguinte sobre certa senhora: "sacerdotisa da Benquerença, Machado de Crateús, que todavia não ganhou com algodão, nos quarenta". Se alguém acha que a construção do nobre articulista é indecifrável, tentemos ajudar esse alguém. Eu disse "tentemos", porque não me parece tarefa fácil. 
          O que ele disse foi o seguinte, trocando em miúdos. Se o querer bem ao ser humano fosse uma religião, essa senhora seria uma sacerdotisa dessa religião por tanto amor que nutre pelos seres humanos. Além disso, ascende pela família Machado da cidade de Crateús, onde, nos anos quarenta, se enriquecia fácil com o cultivo do algodão. Os Machado, contudo, continuaram lisos, e a santa senhora também. Se for possível outra interpretação, aceito sugestões. 
          E o que dizer da seguinte?, falando de uma misteriosa senhora: "elegante talhomônima, Phebo de outros tempos". Como ele havia se referido a uma outra senhora antes desta, concluí que esta deve ser tal qual e homônima daquela. Difícil é relacionar uma fêmea ao deus mitológico grego Apolo, a quem Phebo, que significa "brilhante", serve de epíteto. Outra possibilidade é a de que ele esteja dizendo que esta senhora já muito brilhou em outros tempos e que hoje mais se assemelha a uma anã branca, estrela fria e opaca. A palavra talhomônima  não está dicionarizada. Eu não me surpreenderia que a mesma fosse um neologismo criado pelo cultíssimo e criativo colunista. 
          De certo senhor diz o jornalista o seguinte: "busto do Pai Conde dá boas-vindas a quem vem pela carretera, demandando Icaraí e praias subseqüentes". (Essa tá de lascar!) Quis ele dizer que o pai do senhor a quem se referia, já falecido e que se chamaria Conde, foi homenageado com uma estátua que está localizada à pista que dá acesso à praia do Icaraí e outras depois dela, como a dar boas-vindas aos viajantes. Observem que o escritor usou um termo da língua espanhola, carretera (=auto-estrada, rodovia), sem o grifar ou pô-lo entre aspas. 
          Que terá ele querido dizer quando disse de uma outra fulana:"participante da sessão de escovas, uma das Vandinhas dos sábados."? Estou de queixo caído tentando atinar. Entendo que, talvez, a referida fulana costume, aos sábados, fazer escovas nos cabelos, sendo apreciadora do tipo que usa longas trancinhas laterais, com ou sem franjas frontais, como a sádica e sombria Vandinha Addams. Ou que ela seja dada a peregrinações aos sábados, já que "Vandinha" significa "peregrina". 
          Sobre outro senhor disse: "seu pai Moacir atingiu 100 sendo Matusalém da Barão de Studart". Quis ele dizer que o pai do referido chegou aos 100 anos, e o comparou ao longevo avô de Noé. Como morava à avenida Barão de Studart... (Essa foi moleza!)
          Há ainda uma penca de construções interessantíssimas vindas da pena do antigo colunista. Além disso, há mérito – em poucas palavras diz tudo. No exíguo espaço que lhe dão no noticioso diz muito mais do que seria possível dizer um simples mortal. Pena que, por vezes, para nós que não orbitamos sua plêiade fique difícil entender o que ele quer dizer. Ele, com efeito, não deve ser culpado de nossa ignorância.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ô estrupício 'fêi'!

          Meu amigo doutor Costa, para os mais íntimos Costinha, tem o salutar hábito de freqüentar os municípios próximos à nossa capital. Na semana, durante o dia, lá vai como médico atender o povo. Nos fins de semana costuma ir aos rega-bofes que se promovem amiúde nessas localidades. 
          Outro dia, um fim de semana desses, foi à praia do Batoque que fica não sei se no Aquiraz ou na Pindoretama. Ora, por ser de temperamento alegre e simples e exercer a nobre profissão de Esculápio é que meu Costinha angariou o bem-querer e o respeito de todo aquele povo. Após o arrasta-pé em clube próximo à praia, foi ao Bar do Keké onde se serve um churrasquinho de gato tão gostoso que nem presta.
           Como de praxe, o proprietário o recebeu com deferência e entusiasmo, ainda mais porque tinha o hábito de tomar uns tragos  da boa cachaça branca enquanto servia a clientela. Costinha, que também já vinha "calibrado" do clube, sentou-se à  mesa de sempre, onde Keké já veio ter e com ele sentar-se para os costumeiros dedos de prosa.
          Ali pelas tantas, Keké ergueu o copo acima das cabeças e, olhando para ele como para anunciar o comentário que faria a seguir, disse: -"Ô 'negoço' pra  fazer mal pro 'figo', hein doutor Costa?"
          Costinha, sabedor da mania de Keké de querer ser sabido, entendido e culto, provocou: -"O pior é o pâncreas!" O dono do bar, fazendo uma careta de surpresa ante o que lhe pareceu uma nova, respondeu: -"Ai, vai!... e inda tem disso, é?"
          -"É que o álcool estimula a secreção gástrica, que por sua vez estimula a secreção pancreática e provoca um espasmo do esfíncter de Oddi. Isso aumenta a pressão no canal de Wirsung e gera um refluxo do suco pancreático dando uma pancreatite gravíssima!", detalhou Costinha pra terminar de massacrar seu inquiridor.
          Keké, desenhando na face um esgar ainda mais nojento que o primeiro, fuzilou:-"Vixe, doutor Costa!... ô estrupício 'fêi'!"

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sem lucubrações

          Foi com uma enorme satisfação que assisti ao professor Pasquale Cipro Neto dizer que o acordo ortográfico da língua portuguesa é, na verdade, um desacordo. Disse também, para meu deleite, que a retirada de alguns acentos, como o agudo de "pára", é um verdadeiro absurdo; que somente o Brasil, dentre os oito países da comunidade de língua portuguesa, iniciou a obedecer as novas regras já ao início; que Portugal estendeu seu período de adaptação a elas até 31 de dezembro de 2016, enquanto no Brasil esse período vai até o final  do corrente; que elas vieram para satisfazer a interesses econômicos de grupos menores; que o acordo seria absolutamente desnecessário; e que por tudo isso o acordo acabou por se mostrar um desacordo. Exemplificando, o professor afirmou que a língua inglesa não tem uma grafia unificada entre os países que a utilizam e nem por isso se deixa de a entender entre eles. E asseverou  que o texto que cria e estabelece as normas de nosso (des)acordo é por demais ruim e confuso.
          Perguntado sobre se ele próprio já estaria escrevendo sob as novas regras declarou que em suas colunas de jornais sim, mas que na vida pessoal não. Ainda escreve pela antiga regra para amigos em cartas e e-mails e vai continuar a utilizá-la até quando lhe for permitido, ou seja, até 31 de dezembro de 2012, quando acaba no Brasil o período de adaptação. E fuzilou, sem medo de demonstrar sua repulsa às regras do (des)acordo: -"Sou bígrafo! E o serei até ondei me for possível!"
          Disse mais. Sobre o papel da subversão da escrita como forma de a modificar, declarou que a subversão só deve ser utilizada por quem possui profundo conhecimento da língua, como o fez o grande João Guimarães Rosa. Ele a subverteu na arte, enquanto no prefácio de seus livros e fora de seus romances demonstrava ser um exímio conhecedor da língua e da norma culta. 
          Bom mesmo era que o professor Pasquale se tornasse um cacógrafo definitivo e irremediável. Teríamos, assim, a primeira revolta ou revolução em prol da lucidez, do bom senso e da bela escrita posto que, é bastante provável, muitos desenrolassem suas bandeiras a segui-lo. Eu seria um deles. De reforma em reforma – quem sabe não virão outras? – em breve teremos vários dialetos. 
                                                             ***
          Devem ter visto nos cômicos jornais que, ao que tudo indica, o mentiroso é o senador José Pimentel. É de morrer de rir!
          A Petrobras emitiu uma nota afirmando que os recursos da refinaria virão dela própria. Portanto, o estado do Ceará não pode devolver o que não recebeu. A empresa declarou ainda: o governo do estado está em dia com a regularização do projeto da refinaria e tem feito tudo o necessário para viabilizá-la. 
          Já a Caixa Econômica Federal emitiu uma nota onde afirma, em relação aos recursos do programa "Minha Casa, Minha Vida", que o estado cumpriu todas as exigências para sua liberação e que nenhum dinheiro foi devolvido.
          Parece que o senador falou do que não sabia, ou estava a falar de outra coisa que ao momento nos parece obscura, ou estava querendo mesmo apagar o brilho de nossa Antares, ou pretendia implodir a aliança entre o seu partido e o do governador com vistas a ter seu nome como candidato do PT às eleições para a prefeitura de Fortaleza. Como disse um articulista de um jornal, logo o Pimentel, conhecido por seu temperamento apaziguador e aglutinador. 
          Já sabíamos que havia um mentiroso entre um senador e um governador. Isso já era engraçado em si. Agora temos a certeza (?) de que o mentiroso é o senador. É menos engraçado. Seria mais se o mentiroso fosse o governador, que seria obrigado a descer de sua constelação e vir a público dar explicações.            
          A mentira vinda de um petista não mais está nos levando ao riso nem às lágrimas, posto que se tenha banalizado em sua alta freqüência. Além do mais, a mentira, esta mentira, seria verossímil uma vez que há dados que poderiam confirmar o que ela afirmava, se fosse verdade. É diferente de o sujeito ser pego no aeroporto com a cueca cheia de dólares e dizer que não sabia que eles ali estavam. Onde estaria a prova da veracidade do que ele dizia? Seria necessário aparecer alguém para assumir ter-lhe enchido a cueca com uma pequena montanha de dinheiro e um médico a lhe atestar a morféia. 
                                                                  ***
          O que eu disse sobre a hilaridade dos jornais é um equívoco de minha parte. Não são eles os que promovem o humor – são os políticos e, por extensão, o bicho homem. Vejam, por exemplo, a história dessa senhora que teria desaparecido no Parque Ecológico do rio Cocó, aonde fora para uma caminhada matinal. Especulava-se sobre tudo de mal que pudesse lhe ter acontecido. Já se via a manchete a dar conta do encontro de seu corpo em cova rasa, inumada após sevícias e tortura, ou a chegada de um pedido de resgate por parte de seus seqüestradores, ou qualquer outra desgraça. Pudera. A polícia já a procurava utilizando-se de cães farejadores, e nossa capital não inspira confiança em matéria de segurança. A se confirmar tudo isso, não teríamos do quer rir. Seria mais uma de nossas tragédias a se reeditar. 
          Mas eis que apareceu a moça. Saiu de casa por "motivos pessoais". (É casada e tem duas filhas.) Nem chegou a estar no Parque na manhã em que supostamente para lá se dirigiu. Foi direto para a casa de amigos. Estaria, como ela mesma confessou após seu aliviante retorno à vida, tendo "problemas em casa". Ora, a jovem senhora transformou seu drama pessoal e privado em uma pública, refinada e moderníssima comédia. Ela permanece sendo vítima, mas não da violência urbana. Não parece também ser vítima de violência doméstica física. Entretanto, ficamos a pensar se não é vítima das dificuldades da vida matrimonial. Seria essa outra forma de violência? Se for, toda a família há de ser vítima, e não somente ela. 
          Não lucubremos. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Show de humor cearense com artistas de peso

          Se alguém tiver a intenção de desdizer o que tenho dito sobre a comicidade que trazem diariamente os jornais, vai encontrar uma dificuldade enorme. Basta apenas que continue a seguir de perto, nas páginas de nossos diários, o desenrolar da "crise" entre nosso governador e o senador José Pimentel. Melhor dizendo, está aí o primeiro motivo para uma sonora e sacolejante gargalhada – a crise é, de fato, entre seus partidos; eles são apenas os atuais protagonistas. Um insulta daqui, outro insulta dali, e assim, de insulto em insulto, a coisa vai aonde uns querem e outros não querem.
          Se é ou não verdade que o governo estadual tem sido incompetente para tocar os projetos para os quais recursos do governo federal já estão disponíveis ninguém jamais saberá. Por quê? Ora, o senador, chamado de mentiroso pelo governador, reiterou, em nota à impressa, tudo o que disse. Quem fala assim não é gago. Já a defesa do governo tem vindo até da oposição. Deputados oposicionistas têm afirmado que o governador é trabalhador e que não acreditam que tenha cometido bizonhoces dessa natureza. Um outro quer convocar o senador à Assembléia para prestar esclarecimentos sobre sua declaração. Será que o ilustríssimo senador da república vai se retratar aos deputados? Seria muito engraçado, e a imprensa, através dos jornais e outros noticiosos, estamparia o feito em suas manchetes. 
          O que é também engraçado, e que nenhum político faz questão de esconder, é que tudo tem a ver com as eleições de outubro próximo e principalmente para a prefeitura de Fortaleza. O José Pimentel foi catapultado a candidato à sucessão da prefeita Luizianne Lins por ela própria e, se eleito, ainda deixará, de quebra, a vaga no Senado para seu suplente Sérgio Novais, inimigo figadal dos Ferreira Gomes. O PT daria, assim, duas cacetadas no PSB do governador e nele próprio. 
          Assim, parece rumar para o fim a aliança entre os partidos PT e PSB no Ceará. Um político até chegou a dizer que nessa relação nunca houve "amor", mas apenas interesses. Ora, não me faça me urinar de tanto rir! E por acaso no Brasil algum político tem amor por suas alianças ou por algo diferente de seus interesses? Parece-me óbvio que não. Querem me matar de rir.
          Pior ainda foi a deputada Patrícia Gomes, ex-cunhada do governador (o cunhadio é indissolúvel?) que me saiu com a seguinte pérola: o político deve ter como principal e norteador interesse o bem estar e os interesses do povo. (Alguém aí está querendo rir?) Assim fica difícil... não consigo escrever uma linha a mais...Estou quase sem fôlego de tanto rir!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pantomimas

          Há anos venho afirmando: -"Não leio jornais!" 
          Contudo, estou a descobrir aos poucos o que a mim me parecia inusitado – os jornais locais são uma fonte perene de piadas e bom humor. Humor negro, é verdade, mas ainda humor, daqueles que nos levam a rolar ao chão de tanto rir. Vejam que outro dia comentei sobre matéria do jornal Diário do Nordeste que "denunciava" a penosa situação dos jovens diabéticos que dependem do governo para se tratar. As justificativas dadas pelo secretário de estado para a falta de tudo a que os doentes têm direito são de uma hilaridade medonha. 
          Ontem e hoje fomos agraciados com mais uma pantomima de nossos homens públicos, exposta naquele mesmo Diário. Perceber o poder cômico de nossos matutinos tem sido, para mim, uma alegria e surpresa sem tamanho. Evito-lhes, confesso, a seção policial, que lá o humor não poderia ser mais negro. A seção de política, acreditem, é imbatível em comicidade; e não me queiram provocar com as colunas sociais. Essas são de matar de rir. 
          Ontem o senador petista José Pimentel anunciou em alto e bom som, em reportagem do referido periódico, que "recursos do governo federal destinados ao Ceará para a realização de obras importantes estão sendo devolvidos à União porque as prefeituras cearenses e o governo estadual não estão regularizando e viabilizando os projetos". E saiu o senador a dar vários exemplos de projetos que estão parados em sua concretização porque "não estamos fazendo nosso dever de casa".  (Diário do Nordeste, pág. 13, 15/02/2012)
          Hoje, como seria de se esperar em se tratando de um Ferreira Gomes, o governador Cid, que é do PSB, veio à boca de cena rebater o que disse ontem o senador. Disse que ele "no afã de defender o governo federal, como eu defendo, extrapolou, exagerou e mentiu". Disse o governador à reportagem que teria dito ao senador – numa conversa pessoal ou por telefone de ontem para hoje, não ficou o claro – o escrito que lera em para-choque de caminhão: "Para tua estrela brilhar não precisa apagar a minha". 
          Percebam que o chefe do executivo ressaltou que ambos, o senador e ele próprio, defendem o governo federal. Afinal, seus partidos são aliados no Ceará e na esfera federal. Em outras palavras, o governador deve ter ficado indignado com o fato de um senador da república, que seria supostamente seu aliado, estar "denegrindo o governo e as prefeituras do Ceará". E tudo, segundo o governador, para brilhar mais. Seria o senador um meninão que quer se sobressair, perante Brasília,  batendo em quem supostamente não está fazendo o que deveria fazer. Seria o chamado "fogo amigo". 
           O governador, então, tentou demonstrar que o senador está mentindo usando os mesmos exemplos que ele usou, projetos que estão, sim, regularizados e viabilizados na parte que toca seu governo. Assim, confirmou: José Pimentel estaria mentindo. Disse mais: que a fala do senador soava como uma declaração de guerra ao palácio da Abolição, sede do governo, e que  ele, governador Cid Gomes, seria o derradeiro sustentáculo da aliança entre seus partidos. Vejam que há aí um discurso implícito, recado subentendido. Que será dessa aliança daqui pra frente?
          Que políticos mentem, todos sabemos. Devem se lembrar do galã Bill Clinton, quando afirmou categoricamente sobre Monica Lewinski: -"Não conheço esta senhora!"  E o que dizer do senhor George W. Bush? que invadiu o Iraque nas "melhores" das intenções em busca de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas? E aqui mesmo, entre nossos políticos, que nunca sabem de nada do que fazem seus asseclas e cupinchas. São completamente alienados do que ocorre à sua volta. São mesmo? ou são uns mentirosos de carteirinha?
          Pergunto, sobre a questiúncula envolvendo o governador e o senador: quem desses senhores está mentindo, afinal? O governador não quer ver minimizado o brilho de sua estrela, que a ele lhe parece de primeira grandeza, uma Antares fantástica. Julga-se, como se diz por aí, a bala que matou o Kennedy. Bem conhecida é a arrogância desses senhores da mesma família.
          O senador, que hoje veio a público via outros noticiosos, afirma que tentava apenas ajudar e chamar a atenção para os deslizes do executivo. Falando assim deixa claro nas entrelinhas que não retira o que afirmou na reportagem inicial que deu ensejo a esse bate-boca de comadres. 
          Na Assembléia Legislativa do estado oposição e situação discursavam sobre o solo pétreo da "verdade" de cada um dos contendores. Cada lado partia do princípio da verdade absoluta do que dizia seu líder. Ninguém queria saber da verdade verdadeira, pelo visto. 
          Dentro de todo o cenário – governador vaidoso, senador "aliado" língua frouxa, deputados estaduais oportunistas, para-choque de caminhão de referência e estrelas que pretendem se ofuscar mutuamente – admitamos: é tudo muitíssimo engraçado. Pena que também seja trágico. 
          Enquanto não aparece a verdade, aguardamos cenas do próximo episódio. O lamentável é que estejamos às portas do carnaval e as bocas próximas a se deixar calar para o período momino. Ou entrarão a guerrear mesmo assim?
                                                               ***
          José Martins entrou no consultório para uma revisão comigo. Não lhe queiram saber da doença, que este é assunto de foro íntimo do paciente. Estou sendo fiel ao Juramento. Ele me impele à discrição. Nós cearenses somos muito curiosos nesses assuntos, assuntos da vida alheia. Paremos com isso.
          Ele é de Pacajus, isso posso contar. Ao final do ato médico lhe perguntei:   -"E por lá? como vai a política?" Respondeu, debaixo de seu largo chapéu de palha de vaqueiro: -"A política tá boa!..." E emendou numa naturalidade atroz: -"O prefeito tá preso, o senhor sabe." 
          Foi assim. O prefeito começou com uma fazendinha que abrigava apenas 14 reses. Pouco antes de ser engaiolado seu rebanho já contava 10 mil cabeças de gado bovino – 6 mil vacas e 4 mil touros. Devia ter lá uns cavalos, carneiros, ovelhas... A fazenda já não era a mesma. Era outra, bem maior, sei lá quantos hectares. 
         Como pecuarista, vendia seu leite a um comerciante "aliado" a quem ele comprava o mesmo leite de volta, para as escolas e creche do município, desta feita como prefeito. Em outras palavras: o fazendeiro que por acaso era prefeito vendia seu leite ao prefeito que por acaso era fazendeiro – era a mesma pessoa vendendo e comprando o mesmo leite. E o preço? Oito reais por litro de leite. (Assim até eu fico rico.)
          Ele diz até hoje em sua defesa que não sabia que estava comprando dele mesmo, e inventou uma novidade para tentar ser solto – se faz de doido. Os munícipes propagam aos quatro cantos que ele, coitado!, teve um derrame. Ele não mais fala e só se comunica por gestos e movimentos. Essa, sim, é a verdadeira pantomima!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O idiota sou eu

                 Formado 1 ano após o previsto, por razões que agora têm menos importância, fiz recentemente 25 anos. Durante esse tempo de tudo vi. Até aí nada de novo. Com essa quantidade de tempo vendo doentes e doenças, se vê de tudo mesmo. Vi, e ainda vejo, tudo o de ruim na saúde do país. Nada mudou nesse tempo todo ou, melhor, mudou – mudou para pior. Era ainda a ditadura quando ao início da faculdade. Abundavam os professores e estudantes de "esquerda". Lia-se Trotsky, Marx, venerava-se Stalin. Supostas mentes brilhantes apregoavam a ubiqüidade próxima do comunismo. Caiu a ditadura, entraram governos, saíram governos; elaborou-se e promulgou-se uma nova e liberal constituição. Persistiu a frustração comunista, dada a permanência da pobreza extrema lado a lado a nichos de riqueza e prosperidade. A herança dos tempos difíceis ainda não se manifestara. Afinal, a ditadura de "direita" passara o bastão para a direita liberal. Assumia o poder representante maior do alinhamento da "direita" com os ex-ditadores. A economia pareceu equilibrar, mas o monstro inflacionário rosnava à medida que crescia. Não se passou um lapso maior de tempo e já se manifestava no cerne do poder central a sarna da corrupção e do pouco caso com a coisa pública. Um presidente foi afastado e seu "tesoureiro" assassinado. A economia ainda vacilava. A inflação corroía o dinheiro do pobre, que não possuía conta bancária remunerada. Os ditadores haviam sonhado, em continuidade com o sonho de outro presidente, um Brasil de avenidas largas, viadutos gigantescos, pontes quilométricas, monumentos nababescos, movido a energia nuclear. Nascera, assim, o "milagre" brasileiro. Os empréstimos que contraíram levaram o país a endividamento impagável, dizia-se. Esqueceram-se que o endividamento é positivo quando os créditos são utilizados para gerar e fomentar a riqueza através de investimento em educação da melhor qualidade. Educação gera empregos, desenvolvimento tecnológico, pesquisa de ponta, pujança econômica sustentável e duradoura. Pontes e viadutos somente não geram os mesmos efeitos, a não ser em discursos de campanha eleitoral para um povo crédulo e desconhecedor histórico da história de outros povos. Veio, então, o plano econômico que, pareceu, ia dar certo. Sumiu a inflação e iniciaram-se programas de ajuda social. Contudo, persistia o ranço de todo um povo contra a herança dos tempos difíceis. Não parecia a esse povo que as melhorias advindas do controle inflacionário fossem o bastante para manter a velha "direita" no poder, e alçaram a "esquerda" a ele. Com ela, pensava o povo, muito mais havia de melhorar, principalmente a maneira de se fazer política. A corrupção e a roubalheira teriam, por certo, um fim. Não demorou muito e se percebeu que não era bem assim. A "esquerda" não tinha um projeto de país, mas um projeto de poder. Em função dele tudo o de pior foi, e vem sendo, levado a cabo. O futuro é incerto. Ou seria o contrário? O futuro é bem certo, dentro do que pior se possa ter em perspectiva do futuro. 
                                                                                 ***
                Muito se tem comemorado sobre a proeza que alcançou o estado do Ceará. É, ao que consta em inúmeras manchetes de jornal, o estado da federação campeão em realização de transplantes de órgãos. Uma fortuna é gasta no programa dos transplantes. Se há muitos transplantes, há muitos doadores e há muita gente necessitando de transplante. A coordenação das equipes que fazem transplantes assegura: ainda são necessários muitos doadores para atender a demanda. Ao que tudo indica a demanda é altíssima. Muita gente precisa de rim, córneas, coração, fígado, pulmão, pâncreas. É uma história engraçada, não fosse antes trágica e denunciadora de nossa incompetência e desumanidade. É também o exemplo atual mais gritante de como o brasileiro tem uma visão míope de suas tragédias cotidianas. Muitas mentes brilhantes e geniais se enfileiram às massas cegas e entorpecidas. A imprensa, que de santa nada tem, é quem todo dia nos dá as dicas de nossas maiores crueldades e de nossa insânia coletiva. Ela felizmente parece ainda não ter percebido que está a divulgar a história mais absurda e torpe de um povo, ainda que verídica.
           Em momento de ócio extremo abro o jornal de hoje. Diz a manchete: "Diabéticos sofrem sem políticas públicas" (Diário do Nordeste, primeiro caderno, pág.4, 14.02.2012). A matéria relata o padecimento de crianças e adolescentes diabéticos com a falta de medicamentos e outros insumos necessários ao controle da doença com vistas à prevenção de suas complicações. O diabetes descontrolado é causa de inúmeras complicações, mormente as devidas à aceleração do processo de aterosclerose. Doentes diabéticos mal controlados evoluem para nefropatia diabética e perda renal; têm infartos "silenciosos" e evoluem para cardiopatia isquêmica e insuficiência cardíaca grave e terminal. Perdem seus rins e seu coração por falta de controle. Quando se diz falta de controle entenda-se falta de medicamentos, falta de uma política preventiva de saúde séria e eficaz.
           A reportagem fala do drama de crianças e adolescentes, mas seguramente o mesmo ocorre com os diabéticos de outras faixas etárias que dependem do governo para se tratar. O mesmo se pode dizer dos hipertensos. Diabetes e hipertensão são fatores de risco que merecem controle constante e ininterrupto. Também faltam medicamentos para controle da pressão arterial nos hipertensos, que acabam por serem vítimas das complicações da hipertensão não controlada. Perdem seus corações, seus rins, sofrem ataques isquêmicos e derrames, ficam inválidos sobre um leito de hospital ou na miséria de seus lares, necessitando de alguém que lhes troque as fraldas e que lhes dêem de comer. Morrem repletos de escaras e feridas podres, reflexo dos cuidados insuficientes e inadequados que seus ignorantes e mal educados familiares lhes prestam.
          Nas televisões estão sempre a nos lembrar que devemos ser doadores de órgãos para que um dia possamos salvar uma vida.
          Nas ruas centenas e, talvez, milhares de jovens são assassinados na violência urbana de nossas cidades inseguras onde o tráfico e uso de drogas ilícitas grassa impunemente. Eles compõem, segundo dados da própria coordenação das equipes de transplantes, a maioria absoluta dos doadores de órgãos aos doentes que são fabricados no nosso podre e assassino sistema de saúde. O álcool, uma droga lícita, contribui em grande parte com a violência, notadamente a de nosso trânsito caótico, homicida e gerador de inválidos. Nem nossa mais refinada "elite" se digna a deixar o carro em casa ao sair para uns drinques. Matam e se livram das penas de um sistema legal conivente e hipócrita. Eis onde estão e são gerados nossos doadores.
          Ao fim de toda essa lembrança e certamente  insuficiente análise, o patético é ler o que um secretário de estado vem a público dizer na reportagem: o atraso é sempre na licitação ou no "repasse" de recursos. As licitações no Brasil... Bem, elas nunca impediram a malversação, ou o superfaturamento, ou o favorecimento  ilícito, tudo aquilo que justamente vem justificar sua existência. Licitação no Brasil é outra de nossas grandes e institucionalizadas hipocrisias. Mas elas com freqüência são a causa da descontinuidade do controle das doenças crônicas de nosso sofrido e miserável povo. Rouba-se e os doentes ainda pagam por isso.
          O repasse dos recursos vem demonstrar nossa Brasília central, nossa grande rainha, nossa "viúva", a quem todos estendem a mão como pedintes esfomeados, a se deixar cooptar por seus quereres e caprichos ardilosos e delinqüentes. Uma montanha de dinheiro em seus cofres disputada diuturnamente por políticos e empresas inescrupulosos que demonstram o furor de nossa republiqueta em sobreviver a todas as tentativas de a engrandecer.
         Para pôr fim a esse tão prolongado discurso, que já entedia a mim mesmo e ao pobre açodado leitor, as outras palavras do secretário que só serviram a dizer o óbvio quanto à perene falta de tudo em nosso falido sistema de saúde: "o problema é rever as pactuações entre as instâncias". Governo federal, estados e municípios devem se entender. Mas como? se nossa "viúva" teima em não abrir mão da montanha de recursos que arrecada e guarda em suas pútridas entranhas? Disse mais o óbvio secretário em relação ao problema dos jovens diabéticos, e confessando a dificuldade em gerir o sistema: a demanda é elevada. Em outras palavras, vai ter diabético pobre assim no raio que os parta! Ser diabético não se resolve com política ou com eleições. É uma questão genética e/ou epidemiológica. Talvez ser pobre, sim, tenha raízes em nossa politicalha imutável. Talvez modernizando o país com idéias novas, não inéditas, fosse já um começo. 
          Viver uma vida inteira e ver tudo andar pra trás não é algo que se deseje. O pior é se saber parte desse jurássico sistema e ver nele continuar a vicejar os idiotas. Ou, melhor –onde vicejam os espertos. O idiota sou eu.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Tudo entre aspas

          Quem escreve, dependendo do que escreve, expõe as vísceras e a alma na praça. E ainda que escreva um conto relatando fato real, estará sujeito a interpretação equivocada de algumas mentes impertinentes. Se o conto, nos acasos dos fatos corriqueiros, der o "azar" de relatar caso em que certo espécime do gênero feminino não se vai bem, as toscas mentes estarão à espreita para clamar por "justiça". Reclamarão uma retratação imediata do autor que, em sua míope opinião, demonstrou um indisfarçado chauvinismo.
           O conto é uma historieta, uma curta novela de pouquíssimos personagens. A menos que gerada inteiramente na mente do autor, são fatos da escala verídica. Direi até que nada há na mente humana que não se baseie em fatos. Mesmo o Júlio Verne, o precursor da ficção, descreveu fatos inverossímeis à sua época e que depois se mostraram possíveis. Fiquemos, não obstante, com o contista que relata fatos do passado, recente ou  remoto. Os fatos são fatos; ocorreram no teatro da realidade. Além do autor do conto, outras pessoas hão de tê-lo presenciado. 
           Paremos um minuto para dizer que, de fato, o autor do conto não é o escritor que o deita à pena – o autor do conto é a vida. Ainda que o literato ornamente a história, ainda que a ela empreste o folclore que julgue necessário a fim de torná-la cômica ou pitoresca, ela aconteceu sem sombra de dúvidas. 
          Ora, se o ocorrido ocorreu, é o desfecho desfavorável a este ou aquele personagem obra do autor? Óbvio que não. Somente os apaixonados seriam capazes de o atribuir. Os apaixonados pensam que tudo podem, que tudo vêem. Imputam-se a si mesmos qualidades fantásticas e excepcionais. Vêem-se como detentores de poderes sobrenaturais e – o que é pior – tomam por inferiores a si todos os outros. A lente através da qual vêem o mundo é o que os torna assim.
           O apaixonado tem sua própria química. Seu sangue está abarrotado de substâncias obnubilantes e, portanto, cegantes. Entrar a com ele arrazoar não vinga. Posto que a razão lhe esteja embotada, acredita apenas no objeto de sua paixão. Deplora e amaldiçoa tudo o mais e principalmente aquilo que lhe pareça ameaçar esse objeto.  Dou exemplo.
          Outro dia enviei a uma "amiga" análise abalizada feita por experiente economista sobre o embuste que é a história de o Brasil ter se tornado a sexta maior economia do mundo, tendo passado a Inglaterra. Abster-me-ei de entrar nos meandros daquela análise, mas a conclusão a que se chega ao encerrar sua leitura é a que já mencionei – o Brasil sexta maior economia do mundo é um embuste. 
          O resultado foi o seguinte. Como a jovem, pelo pouco que conheço, engrossa a fileira dos apaixonados pelo governo de "esquerda" que ora (des)governa o país, respondeu-me numa descortesia imensa. Apelou para argumentos que, de fato, nada tinham a ver com o assunto do artigo enviado. E queixou-se de eu lhe "encher" a paciência com o envio de artigos de meu blog. Bem explicado está.
          Ao final de tudo concluí o que a simplicidade dos acontecimentos aponta: nem a amiga é amiga, nem de esquerda é o governo. Em que pese fatos recentes já por mim relatados evidenciarem claramente que é normal e por vezes amiúde que nos desentendamos com quem amamos, a "amiga" em questão não é, na verdade, amiga. Seria uma "conhecida virtual" a quem a modernidade das redes sociais nos leva a classificar como "amiga". Um amigo de fato e de direito teria, no máximo, feito um comentário qualquer sobre o artigo do imparcial economista ou, de outra forma, nada teria a comentar. Ainda que apaixonado pelo vermelho enodoado que ora tinge as cores da bandeira brasileira, teria, por amor ao amigo, sido polido ou sagaz em sua resposta. A jovem senhora, que nem conheço pessoalmente e que iniciou sua resposta dizendo-se fleumática mas já perdendo as estribeiras, demonstrou sem culpa a verdade – não somos amigos. E não somos mesmo.
          Mas há pior nessa história. Essa jovem senhora escreve para jornal local e, ao que me consta, é dada ao estudo e ensino, em universidade, da filosofia e da ética. Ora, bem se vê que ela carrega em suas palavras sua feroz e desmedida ética. Por que digo isso? Tive, noutra ocasião, a oportunidade de "ver" os modos dessa jovem senhora em argumentação com uma pobre mulher que se meteu a escrever na rede social o que ela detestou. Então, fácil é demonstrar sua reincidente ferocidade que a mim só evidencia ranço contra algo ou alguém, uma mágoa ainda sangrante e, talvez, frustrações mil. 
          Nada disso surpreende. O país está imerso em paixões. Os apaixonados governam, os apaixonados são governados; os apaixonados escrevem em jornais, os apaixonados lêem; os apaixonados ensinam, os apaixonados aprendem... Aonde estamos indo com tanta paixão?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ilusão de amor

Nada é mais doce e santo 
do que uma ilusão de amor... 
Enleia-nos em seus sedosos braços,
nos inebria com seu suave perfume.
Embala-nos em devaneios, em sonhos,
embota-nos à esquerda.
Perfura-nos como espada 
Três gumes a nos penetrar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A fracassada missão de Amorim


           Passados vários dias após nosso último encontro, volto a encontrar o Amorim ao calçadão. Ao ver-me de longe, sorriu um sorriso entre o pálido e o amarelo. Sabia que eu lhe perguntaria sobre o desfecho de seu caso com a noiva indignada. Aos que não se recordam faço um resumo.
          A noiva de nosso homem pilhou-o numa conversa com um amigo onde lhe relatava o que a ela pareceu somente uma de uma série de infidelidades contumazes. Eis aí tudo. Mais resumido do que isso, impossível. 
          Fui direto ao assunto. Disse-lhe: -"Conseguiste reverter a situação?" (Ele viajara para encontrar a noiva e tentar se explicar.) Fez um segundo de suspense e respondeu sem responder. Explico. A resposta que deu não se enquadra em nada classificável entre "sim"  e/ou "não". Eu a classificaria como uma deslavada tergiversação. Fez um desses rodeios intermináveis para nada dizer. Ao fim do périplo, fuzilou: -"Sou galinha, ora bolas!" 
         Ora, o meu amigo me saiu com uma obviedade tão perversa que uma leve tontura pareceu se apoderar de mim. Entrou, após a desnecessária confissão, a falar sobre sua intenção de permanecer solteiro ad eternum, de seus temores sobre novo enlace matrimonial adquiridos ao êxito desastrado de seu primeiro e único casamento, da divergência com a noiva sobre a questão de ter filhos, e assim por diante. Percebendo tudo, tornei óbvio meu açodamento. E assim nos despedimos.
          Ficou, porém, em mim a nítida impressão de que ele saiu da noiva escorraçado como um bicho peçonhento e contagioso. Daí a sua aparente inexplicável tergiversação. Sabe-se da dificuldade do homem em admitir que perdeu ou que foi mal sucedido em missão de reconciliação com uma pequena. Lembremos que meu amigo mais temia perder sua (falsa) ilibada reputação do que propriamente o amor e o respeito da jovem. Preocupavam-no as conclusões de seus familiares, pessoas de mérito e influência em sua localidade. De resto, queria que fosse tudo às favas. Não dava a mínima para aquela história de casamento. Sua garrulice voltara-se sobre o que queria e pensava. Era tudo uma tentativa  de se justificar. Eu funcionara como o espelho a quem ele gostaria de falar, esperando a absolvição sobre seu bisonho erro. 
          Saí dali suspirando e meneando a cabeça. Será que ele percebeu? 

Implosão

           Vejam vocês que por vezes se nos apodera uma onda de indignação e ira. Invade-nos como suspiro profundo, e se dissipa, e se propaga, e se irradia para todo o corpo como uma substância em nós injetada. Enrigece-se-nos o espírito e o coração, e é como se todos os sentidos ganhassem uma dimensão e sensibilidade nunca antes percebidas. O linguajar coloquial traduziu esse avivamento através de uma expressão peculiar – "caiu a ficha". 
          Um fato isolado pode ser o responsável por essa reação em cadeia. É a gota d'água que faltava no pote abarrotado prestes a transbordar. Fatos isolados são como gatilhos ou faíscas num barril repleto de inflamáveis. Não se pode deter o processo quando iniciada a queima. O resultado é a ruptura de um estado de coisas, a quebra de um andaime sobre o qual se sustentava algo por demais pesado para suportar. Eis aí o tudo de muito pouco.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre pocilgas e aviltamento pessoal

          Todos sabem que sou um homem de frases. Adoro a frase lapidar, a frase que ouço ao vivo, a frase candidata ao epitáfio. Não me confundam com o sujeito que anda à cata delas para impressionar os outros. As frases ditas por antepassados famosos de várias estirpes já se conhecem, e ainda impressionam por sua força e conteúdo, mas foram ditas quando eu lá não estava. Estar presente ao momento da emissão da frase escultural é, para mim, desses orgasmos indizíveis e torporosos. 
          Pois ontem ouvi de meu amigo Péricles Campelo a seguinte frase: "Felicidade pra mim é você acordar todo dia e pensar 'Pôxa, hoje eu vou fazer o que eu gosto!'" (Silêncio respeitoso) 
              (Segue-se  novo silêncio repleto de reflexão)
              (Segue-se o barulhar dos argumentativos no intuito de calar suas consciências)
          A mim me feriu no coração. Ao contrário dos diletantes contumazes, que usam da vazia dialética apenas para discordar, assumo: fugiu-me a felicidade, segundo a definição de meu Péricles. 
          O irônico é que estou para, mais uma vez, me expor as entranhas. Tanto critico as pessoas que na rede social se expõem em demasia, e tanto me exponho em minhas impudicas confissões. Mas há diferenças gritantes entre as minhas e as suas razões. Elas se expõem movidas pela vaidade; eu me exponho movido pelo angústia. 
          Diz o meu querido Glauco Kleming que o homem não deve viver angustiado. Segundo ele, o sujeito deve tudo assumir. Se gosta de comer rabada, deve comer rabada; se aprecia ir à praia às segundas quando todos trabalham, deve ir à praia às segundas quando todos estão a trabalhar; e assim por diante o homem, para não se tornar um angustiado ambulante, deve assumir suas idiossincrasias e seus quereres, respeitados os limites impostos pela existência dos outros seres humanos. Atentem bem que esta é a opinião de meu amigo. Em suma, ele verbalizou a seguinte idéia: deve-se exercitar o livre arbítrio. Presume ela que o sujeito que não escolhe nem leva a cabo o que escolheu, angustia-se. 
          Assim, para que se me interrompa a angústia que já me quer invadir, exponho o que me  leva a ela. Segundo o conceito de meu Péricles, acordo quase todo dia e penso: "Pôxa, hoje, mais uma vez, vou fazer o que não gosto." Imaginem o sujeito acordar já sabedor de sua angústia. Não sei se perceberam, mas sou vítima de duas angústias – tenho angústia de minha angústia. Em outras palavras, tenho ansiedade por sofrer. Cessado meu sofrimento, cessaria minha ansiedade. 
          O leitor a essas alturas anseia saber por que sofro, e lhe direi sem demoras. Sofro por trabalhar, em certo decadente hospital desta decadente cidade, como um médico à época do paleolítico inferior. Àquela época nem a medicina existia, Esculápio não era adorado, e Hipócrates não viera à luz. Dirão que exagero, que estou a endoidecer dada a angústia e o sofrer. Direi, entretanto, que estou em perfeito uso de minhas faculdades mentais. Direi mais – antes não estivesse, antes estivesse lunático. E ratifico: a comparação é verossímil. 
          A pior das angústias – trabalhar sozinho e sem recursos, humanos e tecnológicos, eis aí tudo. Em área da medicina em que se requer ambos para o bom resultado, não os ter gera no seio daquele que sonhou o melhor fazer por seus pacientes as maiores tristezas, frustrações e angústias que se possa imaginar. Fazer o menos é fazer o pior. 
          O sistema – "sistema" é o nome que se dá ao conjunto de todas as insuficiências e incompetências disponíveis – o sistema é podre. Eu ia dizendo que o sistema está podre, mas "estar" é um verbo que passa a idéia de transitoriedade. Como o sistema sempre esteve podre desde que me entendo por médico, diria que ele, de fato, "é" podre. Um sistema podre é como a pocilga do Feitosinha, em chácara próxima ao Iguape. 
          Outro dia fui à chácara de meu Feitosinha e levei comigo um passeio completo. Não seria um Armani, mas o corte era perfeito. Os sapatos eram os Scatamacchia mais belos que pude comprar. Ele estranhou quando lhe disse: -"Onde me troco?" Respondeu com outra pergunta: -"Vais pôr a sunga para a piscina?" Fui enfático: -"Quero entrar à pocilga de passeio completo!" A expressão de meu amigo mostrava toda a sua surpresa e paralisia mental, causadas pelo choque e incredulidade. Seguramente imaginou para mim um distúrbio mental gravíssimo em fase avançada. Quis tranquilizá-lo. Disse: -"Quero te mostrar uma coisa; uma imagem fala mais que um milhão de palavras." 
          Assim, 10 minutos depois saía eu do curral dos porcos com os sapatos e o terno típicos de quem saiu de um curral de porcos. Feitosinha me olhava ainda com aquela expressão de lamento e preocupação com minha saúde mental. Disse-lhe, puxando-o pela camisa: -"Não dá pra entrar na pocilga e não se sujar, meu chapa!" E saí a lhe relatar meus dissabores quanto às outras pocilgas, o sistema e o decadente hospital. 
          Tanto sofrimento ao acordar e saber que se vai fazer o que se não gosta levou-me a reavaliar. Ouvir a frase de meu Péricles foi ao mesmo tempo um choque e uma injeção de ânimo. Sempre é possível se limpar uma sujeira; se não a da pocilga, visto que os porcos serão sempre porcos, ao menos nossa própria. E, em limpando a própria e anelando alimentar o primevo idealismo, comprometer-se a jamais adentrar novamente qualquer pocilga. 
           Na estrada da vida é comum a tendência a se perder o rumo. Necessário é vigiar, para que se não surpreenda estar em outro caminho. A descoberta ou percepção de se encontrar em caminho diverso daquele inicialmente traçado só permite uma atitude – voltar ao caminho original ou seguir um terceiro rumo. O medo da morte e da fome são os instintos básicos de sobrevivência que nos impulsionam a aceitar tudo e tudo fazer que nos avilte. O aviltar-se não pode jamais vingar em definitivo – seria o animal vencendo o homem. Schopenhauer esqueceu esse detalhe.