quinta-feira, 31 de março de 2011

Uma dor que se achega

Deu-me a impressão de ter avistado o Casoba na arquibancada do Castelão. O gol da vitória do Ceará veio ao meu conhecimento justamente quando fui ao toillete verter água. Ouvi um barulho surdo, oprimido, mas que denunciava a multidão gritando engasgada. Voltei ao telão de casa e vi – seria o Casoba? Ora, era uma multidão, um mar de gente a pular e a agitar flâmulas, e bandeiras, e camisas. Estaria o Casoba ali, agitando e enfunando um daqueles panos preto e branco?
            Jurei que – sim! – era o Casoba. Afinal, o homem é Ceará doente. Restou-lhe na vida, talvez, uma única paixão extra-familiar – pelo time alvinegro do estado, onde se ajunta a maioria das gentes. As outras ele esqueceu, subtraiu-as, sufocou-as, abstraiu-as. Lançou-as sabe-se lá onde, ao fundo da memória talvez, ou ao além do esquecimento, quem sabe? Outra seria a literatura intimista, que o arrebata ao zênite de seu espírito superior e sensível. No mais, nada... a nós que o amamos, nada...
            Casoba, me viste chorar, não sei se lembras. Um choro à toa, paixão à toa, que a vida me enviou para um teste, uma prova. Chorei, e daí? Eras o meu mais íntimo amigo, como um irmão que nunca tive. E agora estás aí, na arquibancada do Castelão se esgoelando pelo Ceará.
            Não digais que me enciúmo.
           Espero que estejas feliz com o Ceará, o time de futebol vitorioso. Apenas lembro ao amigo que não o esqueci, e que jamais o esquecerei.
            Mudando de assunto, vês o que causou a morte do Alencar? Uma onda de admiração e sisudez social. Levaram o homem à posição de mártir. Tudo porque se permitiu se submeter a tudo, a todos os recursos que outros não dispõem para lutar pela vida. Procrastinou a própria morte para gerar essa comoção inusitada. Diria até que espetacularizou o próprio destino, a própria sina. Para quê? Por quê? (Vê que converso contigo como se morto fosse, já que não haverá resposta, como não há de fato quando se conversa com gente morta. Hás de lembrar a do Pessoa: “morrer é apenas não ser visto.”)
            A morte do Alencar está – o homem ainda nem esfriou o corpo – a excitar crenças, e credos, e partidos, e ambições. Mesmo uma morte pode resultar em dividendos de toda sorte, particularmente nesta terra afeita aos credos mais rudimentares e primitivos. Ainda que em vida – mas já ferido de morte pela doença que o ceifou – tenha aviltado uma filha e a mãe que a gerou, Alencar é agora, neste momento e até a cremação de seu despojo, uma figura de importância capital. Afinal, qual defunto não é canalha? Qual defunto não é candidato a santo?
            Troquemos novamente o rumo da prosa, e o faço somente para voltar ao Ceará, teu time de coração. Estás de parabéns, com certeza. De virada o Ceará mandou de volta o Brasiliense, um feito digno de nota e elogio. Paro por aqui para que os que crêem que detesto futebol não me interpretem mal. Minha paixão por futebol é coisa de cinco minutos, não mais, de modo que minha intolerância com o esporte é o tom do tema. Não há que se admirar um esporte que permite o empate. De todos os esportes, somente o futebol permite o empate. Por isso o futebol vem bem ao brasileiro: empatemos a safadeza com a competência e – zás! – eis aí o brasileiro.
            Ora, que diabos! Estou aqui a devanear sem rumo, uma prosa futebolística, outra do defunto famoso... Que procuro? Que quero? Confesso: uma esterilidade de inspiração me abateu. Temo por deixar escapar uma pieguice, uma tolice qualquer. Policio-me há dias, durante os quais quis dizer tanto e tão pouco consegui reunir. Mesmo aos que me provocam me faço de arredio, numa aridez de três desertos, como diria o Nelson. Ponho à pena essas breves reflexões apenas para tentar me redimir das faltas que porventura cometi contigo, meu caro amigo. Que faço?
            Espero. 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Avó

http://www.youtube.com/watch?v=GaM8kQnJjY4

Pode haver um idoso imbecil aos 70, mas não haverá aos 90. Não é todo dia que se conhece alguém de 90 ou mais. Conheci alguns pessoalmente e garanto – são todos, sem exceção, pessoas notáveis. Sua característica mais marcante é a tranqüilidade e a paz que exalam. Nada temem. O tempo não mais lhes assusta, nem mais lhes apavora. São senhores do tempo. Sabem que o enganaram por toda a vida e estão calmos pela inexorabilidade do destino.
Deliciam-se ao encontrar um tolo como eu, que tudo pergunta e tudo quer saber. Mostram fotos, comendas, títulos, diplomas, reconhecimentos... Falam do Liceu, do francês, do latim, dos interventores, das quedas dos presidentes, da morte dos amigos e dos parentes... Tudo parece uma aventura que viveram, a aventura de suas vidas.  
A primeira pessoa assim que conheci foi minha bisavó, avó de minha mãe. Eu tinha uns 24 e já era pai de duas lindas crianças, seus tataranetos. Minha mãe perdera cedo seu pai e sua família dela se distanciou. Eis que um belo dia ela me liga e me convida a ir à casa de minha bisavó, que sequer eu supunha ainda viver, para seu aniversário. Foi o único contato que tivemos. Eram seus 99 anos. Corria o ano de 1985.
Enterrara 15 filhos e dois maridos. O primeiro marido, pai de minha mãe, morrera cedo, aos 39, de tuberculose. Era nas primeiras décadas do século XX e ela trabalhava num cartório que lhe pertencia. Tinha um único funcionário. Morto o marido chegou ao seu funcionário e lhe disse que, se quisesse continuar trabalhando ali, tinha de casar com ela porque senão ficaria “falada”. O homem não queria perder o emprego, nem ela queria ficar “falada”. Assim, casaram.
Conversei com ela alguns minutos. Era uma mulher firme e lúcida. Disse-me assim, quando lhe perguntei sobre a vida: -“Estou cansada de viver, meu filho. Todos os dias vejo o sol nascer e me pergunto quando partirei, se será naquele dia, ou quando será.” Quis saber por que e ela me explicou: -“Não conheço mais ninguém. Todos que conhecia morreram. Ninguém quer conhecer ou conversar com uma velha como eu. Além disso, que assunto poderia ter com alguém tão novo? Estou muito cansada.” Dali a poucos meses ela caiu, quebrou um osso da perna e morreu de pneumonia.
Sobre outras coisas falamos. Ela me causou uma impressão indelével e até hoje me pergunto por que não me levaram antes a conhecê-la. Ela era uma fonte inesgotável de sabedoria e pragmatismo pelo que pude avaliar, e eu me sentia um tolo ali, perto dela. Contudo, sentia uma vontade insaciável de lhe perguntar, de lhe ouvir fatos da vida, saber de seus momentos distantes no passado... O pouco que me relatou só foi possível por breve período. Afinal, era seu aniversário e outras pessoas iam e vinham.
Fui eu o culpado. Aos 24 o que somos? Idiotas, eis a verdade. Estamos interessados em enaltecer nossa vaidade e exercitar nosso impulso sexual. Pensamos em coisa menores e estamos empenhados em construir uma “carreira”. Eu não teria achado um dia sequer na semana para ir vê-la, como de fato não achei. Tive alguns meses de prazo e ponto final – ela encontrou o seu tão desejado repouso. Direi sem meias verdades: eu não tinha tempo para ela.
Poderia escrever muitas e muitas histórias sobre ela e sua rica vida. Em vez disso, eu estava ocupado com a minha própria vida. Poderia ter-lhe dado a mão numa viagem com ela a seu passado e com isso lhe proporcionar emoções revisitadas e revividas. Mas não. Não é isso que nos ensinam? Não é isso que querem que façamos? Por alguns dias estaríamos juntos numa experiência inigualável e inesquecível, para ela e para mim. Através dela teria conhecido meu avô paterno, seu filho, fatos de sua vida, quem era ele, o que fizera... Mas não. Estava envolvido demais com as tolices da faculdade, pensando no futuro, pensando em mim.
Eu poderia ter amado minha bisavó com todas as minhas forças, com todo o meu afeto, com todo o meu ser, a beber dela o néctar que acalma os bebês de leite. É o que eu era diante dela – um bebê de leite. Não o fiz. Deixei passar. Mas não esqueci. Nunca esqueço minhas insensatezes e falhas imperdoáveis, embora me as perdoe para seguir vivendo. Como poderia seguir se não o fizesse?
O que me esmaga é o arrependimento. Todas as vezes que me arrependo sofro. E sofrer não é definitivamente a minha sina. Mas continuo sendo o imbecil que erra como qualquer ser humano.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Uma angústia que envergonha

Meu amigo Frederico Arnaud é homem sério. Sem a sisudez dos inacessíveis, é homem sério.
Há uma marca em Frederico Arnaud – não busca exaltação pessoal. O que há mais e demais no mundo – a busca incessante da exaltação pessoal. É raro entre os humanos encontrar quem lute por uma causa sem buscar, no fundo do coração, onde somente o Senhor pode ver, a exaltação de si mesmo.
Diz o Senhor a Lúcifer e a respeito de Lúcifer, o querubim perfeito, ungido e de elevado posto – abaixo apenas de Cristo nas hostes Celestiais – após sua rebelião: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor...” Quem, dentre nós, não se pega vez ou outra buscando exaltação pessoal?
Queremos aparecer, estar nas bocas, ser notados. Falem mal de mim, mas falem, diz o chavão. E fazemos pactos e acordos e conchavos com quem quer que seja para estarmos por cima e exaltar a si próprios. Estar no círculo dos importantes, ser importante, eis o que queremos.
Escrevi há dias sobre a entrevista que fez o Michael Moore com o senhor Tony Benn, ex-membro do Parlamento Britânico (Nossa desejada guerra, 24.02.2011). O experiente político diz que para subjugar um povo usam-se dois estratagemas: assustam-no e o humilham. Assustar e humilhar um povo o mantém cativo.
Há dois dias Fred escreveu um artigo para o jornal Diário do Nordeste onde expõe toda a sua angústia sobre o estado em que se encontram as emergências dos hospitais terciários de nossa capital. Mais – demonstra claramente sua angústia ante o estado de miséria em que se encontram os doentes que para lá se dirigem e que lá estão. E denuncia: visitas aos hospitais e reuniões com o Ministério Público, Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, Câmara dos Vereadores do Município de Fortaleza, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Sindicatos e Conselhos de classe nada resolveram, nada solucionaram. O caos e a miséria persistem.
Ora, todos esses importantes e imponentes senhores têm poder. Ou não? A causa é justa e meritória. As soluções foram apontadas. Sabe-se o que tem de ser feito. Por que não fazem o que tem de ser feito? Por que não aplicam a lei? Se não há ainda a lei, por que não a criam?
Há pelo menos quatro deputados desse Estado e pelo menos um vereador dessa cidade que são âncoras de programas televisivos de larga audiência. Aparecem diariamente para o povo e se escandalizam diariamente com a violência, com o espetáculo das emergências dos hospitais que visitaram e sobre os quais debateram enquanto políticos e legisladores, e mostram-se embasbacados com tudo isso. Aparecem. São notados. Fazem discursos lindos. Na televisão mostram-se pletóricos e iracundos quanto a esse estado de coisas. Nada solucionaram, porém, em que pese todo o poder que têm.
O Ministério Público fez o quê? Deve ter feito algo, mas na prática o que fez não redundou em nada, não garantiu a dignidade de ninguém, não fez cumprir as leis e as normas. A OAB, os Sindicatos e os Conselhos de classe, notadamente o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (CREMEC), nada fizeram. O CREMEC fiscaliza o exercício da profissão médica? Não tem fiscalizado. Se fiscalizasse tomaria uma atitude radical, que é o que o problema exige.
A sensação que nos dá é que a coisa toda é feita para parecer que se faz algo, mas sem haver mudanças de impacto. Tudo na base do faz-de-conta. Mostra-se – é preciso mostrar, senão não se exaltam os egos – que se está “trabalhando” no problema, mas ninguém faz nada que resolva o problema. Aproveita-se para vender a idéia – uma idéia bem vendida pode ser a pior desgraça de um povo – de que o problema não é simples e que por isso não tem solução imediata. A sensação que nos dá é que os conchavos – entre eles – estão a vigorar e a mostrar a que vieram.
Frederico Arnaud deixa claro: o povo das emergências está assustado, humilhado e abatido de morte em sua auto-estima e amor próprio: “... idosos, crianças, homens e mulheres em corredores mal cheirosos, deitados em macas duras e frias, sem privacidade, sem direitos, sem carinho e sem amor. Sobrevivem entre os excrementos dos seus vizinhos. Muitos se consideram felizes por estarem ali.”   
Conclui o senhor Benn na entrevista, dizendo em verdade a antítese do que direi: um povo assustado, ignorante e humilhado é bem fácil governar.
A única coisa que discordo do que disse o Fred é: “a culpa é minha”. Aqui incluiu toda a classe médica envolvida com o atendimento desses pacientes. A culpa é de todos. Nossa também, mas principalmente dos que têm à mão o poder e, ao invés, desses pobres coitados debocham. Esses, sim, são os grandes culpados. Foram eleitos e são pagos para resolver problemas dessa natureza. São, acima de tudo, incompetentes.   

terça-feira, 22 de março de 2011

De quem é a culpa

Há bastante tempo se denuncia a situação caótica das emergências através da mídia. Visitas e reuniões foram realizadas por entidades como Ministério Público, Assembleia Legislativa, Câmara dos Vereadores, OAB, Sindicatos e Conselhos de classe. Na prática, porém, nada se alterou. Os hospitais terciários continuam levando nas costas a saúde de um Estado. Eles se mantém superlotados com idosos, crianças, homens e mulheres em corredores mal cheirosos, deitados em macas duras e frias, sem privacidade, sem direitos, sem carinho e sem amor. Sobrevivem entre os excrementos dos seus vizinhos. Muitos se consideram felizes por estarem ali. Pior para quem não conseguiu entrar, dizem alguns, pois morreram na porta ou no transporte. Viajaram 300, 400 km para morrer ou sofrer na Capital. 

Onde estão os direitos humanos desses cidadãos? A equipe de saúde composta por médicos, enfermeiras, auxiliares e outros também se sente exausta, maltratada, cruelmente massacrada, sem dignidade, sem segurança, sem nada. São ofendidos, fisicamente agredidos e psicologicamente torturados. A quem mais devemos solicitar ajuda? Dá-nos a impressão que os órgãos são lentos ou talvez insensíveis com tal estado de coisa. E no fim de tudo, ninguém é culpado, ninguém se sente culpado. Dizem que tudo está bem, vivem de um futuro que nunca chega. Fazem isso, aquilo, mas na emergência dos hospitais tudo permanece inalterado. Sabe de quem é a culpa? É minha. É minha, pois como cidadão, aceito calado, não grito, não explodo, apenas choro, sou conivente. É minha, pois como médico aceito e permaneço trabalhando nesse inferno, pensando poder modificá-lo. 

Talvez consiga apenas perpetuar o horror. É minha, pois como cristão, sou frágil e falho, não tenho coragem de seguir realmente a Cristo, pegar aquele chicote e dizer: "Meu Deus, gente não é para ser tratado como bicho! Gente é outra coisa, precisa de leito e remédio, precisa de atenção, carinho, precisa de um médico que lhe dê atenção". Estou cansado de ver tanta maldade e insensibilidade para com os nossos irmãos. Lutei e continuo a lutar em várias frentes e pouco consigo fazer. Até quando?

FREDERICO ARNAUD - presidente da Abramede

segunda-feira, 21 de março de 2011

Nossa Gloria Kalil

Uma amiga fez uma confissão: a certeza que tinha na vida – a vocação para o Direito – está abalada. É assunto dela, não convém entrar no mérito. Cada um sabe onde aperta o sapato. Seu sapato está a lhe incomodar.
E já vislumbra outra possibilidade – o ramo da moda. Alguém há de perguntar – ô povo curioso! – por que o ramo da moda. É ela mesma quem responde: “os olhos brilham, o coração aquece, o assunto é tão apaixonante, tão instigante, tão tudo, que poderia ficar horas a fio falando ou lendo sobre ele!” Até onde sei isso é amor. Ela ama tudo o que diz respeito a moda.
É fantástico que haja pessoas dispostas a pensar em mudar o rumo de suas vidas. A grande maioria nem sequer se permite tal elucubração. É, portanto, um ato de coragem e, como diz o Convey, uma casa existe primeiramente na imaginação. (Foi o Convey ou o Kiyosaki? Digamos que tenha sido o Convey.) Tudo o que o ser humano faz desenha-se, em princípio, em sua imaginação.
O problema foi a opinião de uma amiga de minha amiga. Para ela a amiga não tem talento para vender. Será?
Acabo de receber e ler o texto do senhor Richard J. Ablin publicado na seção Opinion do The New York Times de 10 de março de 2010, há pouco mais de 1 ano. Lá ele diz o seguinte sobre o PSA, o antígeno prostático específico, descoberto por ele próprio em 1970: “o exame é tão eficaz [para detectar o câncer da próstata] quanto jogar uma moeda para sorteio. Por muitos anos tenho procurado deixar claro que o PSA não pode detectar o câncer de próstata e, mais importante, não pode distinguir entre dois tipos de câncer de próstata - aquele que vai matar e aquele que não vai.” Mais à frente ele pergunta e ele mesmo responde: “Então, por que ainda é usado? Porque as empresas farmacêuticas continuam vendendo os exames e os grupos de pressão que promovem a ‘conscientização sobre o câncer de próstata’ incentivam os homens a fazer os exames. Vergonhosamente, a Associação Americana de Urologia ainda recomenda a triagem, enquanto o Instituto Nacional do Câncer é ambíguo sobre o assunto, afirmando que a evidência não é clara.” (http://www.nytimes.com/2010/03/10/opinion/10Ablin.html)
            Bem se vê que até mentiras científicas são bem vendidas, se o marketing for poderoso, apelativo e a informação for restrita a uma comunidade médica silente.
            Longe de mim fazer tal analogia com os dotes comerciais de minha querida amiga. O que quero dizer é que todos vendem, todos nós vendemos. Ficou claro acima que ainda se vende às pessoas a idéia de que determinado exame é o que há para detectar determinada doença, apesar de vasta evidência científica indicar o contrário. O pior ou melhor produto que se pode vender é uma idéia. Se for boa, ótimo; se for má, ai de nós.
            De fato vendemos tudo, todos nós. Uns vendem produtos, outros vendem serviços, e ainda outros vendem idéias. A amiga de minha amiga tenta, não por mal, mas por um ímpeto, lhe vender a idéia de que ela não conseguirá vender por não ter os dotes necessários. Infelizmente ela se esqueceu de enumerar quais são esses dotes. Com efeito, todos nós temos os dotes necessários. O problema é o que se ensina e o que se aprende. A amiga de minha amiga estava tentando dizer que ela não saberia vender produtos de moda, que ela só sabe vender um único produto: seus conhecimentos jurídicos. Ela foi treinada para tal. Não foi treinada para vender blusas, saias, camisas, echarpes, anáguas, coletes, vestidos, etc. etc. etc.
            Pois tudo se aprende. Não aprendeu a advogar? Aprende a vender e, melhor, aprende a criar. Aí estará seu talento: criar. Se criar algo que encante, criará algo que se vende por si mesmo. Vender será o detalhe menor. Ademais, minha amiga começou bem – reconhece a necessidade de estudar para o novo ofício, que seguirá em paralelo com sua carreira de advogada. Amor pela atividade, curiosidade e vontade de aprender. Alguma dúvida de que ela chegará lá? Eu não tenho nenhuma.

Crack e álcool

Descobria-lhe o curativo com o auxílio de uma das meninas da enfermagem e lhe fazia várias  perguntas. Quando lhe perguntei se bebia, disse firme e convicto: -“Bebo não, doutor! Nem uma gota!” Então perguntei se fumava. Ele fuzilou, sem pudor: -“Cigarro não, doutor! Só crack! Só fumo crack! Pra quê mentir? Eu disse foi na frente do policial quando cheguei! Pra quê mentir? Num é verdade?” Levara um tiro no joelho. De fato, fora baleado nos dois joelhos, mas a ferida arterial fora no direito.
            Sábado fui ao Tocantins. Ainda que feliz e descarrado, limito um pilequinho ou outro quando à companhia de amigos. Não é seguro dividir mesa de bar com desconhecidos. Essa é uma regra de ouro cuja validade pude ver testada quando estava em Sobral. Dois “amigos”, bêbados a não mais valer, só não se pegaram no tapa porque outros “amigos” os impediram a muito custo. Dali a cinco minutos estavam aos beijos e abraços a se desculpar e se reconciliar. Não sei qual o desfecho final ao longo da noite, mas seguramente não há de ter sido dos melhores. Se até “amigos” se pegam sob efeito do álcool, imaginem-se desconhecidos!
            Há sujeitos que não sabem fazer uso recreativo do álcool, e os jovens estão mais propensos à utilização mais que além da conta da substância. Dirão aí que álcool é droga, e de fato é. Álcool causa uma lista incontável de doenças além da dependência química cujos resultados são devastadores. Tudo isso é amplamente conhecido e divulgado. Não façamos, portanto, apologia ao seu uso. Direi apenas – aprendi à beira dos 50 – que até para beber há que se ter maturidade. (Antes tarde do que nunca.) Minhas libações à verdura foram, senão catastróficas, repletas e rodeadas do ridículo e da vergonha ou falta dela, e seguidas devidamente do mal-estar que para sempre limitou seu uso. Feliz o homem que passa mal ao uso de uma droga. Jamais se aprofundará no labirinto descendente do vício.
            Outras regras de ouro aprendi para a ingestão eventual do álcool. Somente se deve usá-lo quando se está feliz, porque tristeza não combina com absolutamente nada, nem com aspirina. O álcool acentua o estado de espírito do indivíduo e, portanto, vai muitíssimo mal à pessoa triste, ou deprimida, ou em angústia. Em pessoas agressivas nem pensar, ainda que se conheçam aqueles que se transmutam de doces indivíduos em verdadeiros monstros quando sob efeito da libação alcoólica. Se assim são, deve-se informá-los para que se abstenham completamente. São aqueles que apresentam a síndrome descrita no romance de Robert Louis Stevenson – sóbrios, um poço de languidez; ébrios, assassinos ferozes.
            Abster-se de pilotar ou dirigir qualquer veículo que trafegue por terra, mar ou ar é a regra mais importante a ser obedecida por quem faz uso de álcool. No Tocantins, sentado a uma mesa cuja posição me oferecia uma visão panorâmica de todo o restaurante, vi-a ser quebrada por todos, exceto eu e uma senhora que de lá saiu com duas ou três tulipas de cerveja à cabeça conduzida por um táxi chamado por ela mesma. Os demais, enquanto lá permaneci, chegaram e partiram conduzindo seus carros.
Outra exceção notável foi um sujeito de barbas e bigodes que estava à mesa com outro sujeito e três outras distintas damas. Após partir o segundo com as mulheres, ele ainda tomou uma ou outra cerveja e saiu visivelmente embriagado. Desceu as escadas defronte ao bar sabe-se lá como e – pasmem! – subiu na motocicleta após pôr o capacete à cabeça. Alguém o ajudou a dar a ré no veículo para que pudesse passar entre os carros parados ao meio-fio e tomar o rumo da pista, já que a motocicleta estava sobre a calçada de pedestres. Saiu a toda velocidade e por uma fração de segundos pensei que fosse se estatelar nas árvores do passeio central. Não sei qual o desfecho final de sua noite – de fato já era quase dia – mas não há de ter sido muito bom. Se bom, pior ainda – haverá uma noite no futuro em que o mau desfecho o apanhará.
O crack é ilegal, o álcool é legal. O sujeito do crack é pobre e viciado. É o elo final de uma organização criminosa poderosa que não se combate com morros desocupados somente. O sujeito da moto e todos os bêbados condutores do Tocantins não são criminosos por ingerir álcool. São criminosos por conduzir embriagados seus veículos. Uma blitz do poder público em ambos os lados da pista defronte faria uma festa de multas e prisões. Por que não fez? Por que não faz? Os taxistas agradeceriam. As potenciais vítimas também. Economizar-se-iam milhões de reais em tratamento de traumatizados, seus dias de ausência no trabalho e em pensões de inválidos.
A alguém interessa “limpar” os morros sem agir em outros fronts. A alguém interessa suprimir as blitz. Ou será burrice e incompetência mesmo?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Dá logo esse bicho, menina!

             Uma das definições do Aurélio para a palavra algoritmo é “série fixa de tarefas, ações, raciocínios etc., que, realizados passo a passo, levam a determinado resultado”. A palavra redunda do antropônimo árabe Al Khuwarizmi (Abū ‘Abd Allāh Muhammad ibn Mūsā al-Khuwārizmī), matemático, astrônomo, astrólogo e geógrafo persa considerado um dos fundadores da Álgebra. Ele viveu entre os anos 780 e 850 da era cristã. O homem apresentou a primeira solução sistemática das equações lineares e quadráticas, e foi o primeiro a escrever sobre a álgebra. Devem-se também a Al Khuwarizmi um tratado de geometria, tábuas astronômicas e outros trabalhos em geografia. Al Khuwarizmi foi um dos astrônomos que participaram da operação geodésica mais delicada de sua época, a medição do comprimento de um grau terrestre, isso já no século IX. O objetivo era determinar, na suposição de que a terra era redonda, o tamanho desta e sua circunferência. A operação, realizada na planície ao norte do Eufrates e também perto de Palmira, indicou 91176 metros como comprimento de um grau do meridiano, um resultado extremamente acurado, pois excede o comprimento real do grau nesse lugar de apenas 877 metros (o valor correto é 90299 metros), uma precisão de 99,03%. Ele é considerado até hoje uma das maiores capacidades científicas do islã. (Dados da Wikipédia) Vê-se, então, que o homem não foi pouca coisa. Pois bem.
            Vejam como são as coisas. Alguém – ainda não se sabe quem, mas suspeita-se de um espécime feminino – elaborou um belíssimo e bem pertinente algoritmo cuja “série fixa de tarefas, ações,...” pretende levar uma mulher a “pegar” um homem. “Pegar”, entenda-se, é o mesmo que “conquistar”. Bem claro fica que a matemática é uma ciência fantástica, para a qual muitos não reservam simpatia. Uma grande perda de tempo e oportunidade, como bem se pode concluir do valoroso e útil algoritmo. O que é incrível é a simplicidade do negócio. De fato, o algoritmo serve a exatamente isso – simplificar. Vejamos, a título de exemplo, algumas de suas seqüências. O algoritmo é sintético; seremos agora analíticos.
Digamos que uma mulher quer “pegar” um homem. Tudo o que ela tem a fazer primeiramente é escolher “o” homem.
Nem comecei e já vou parando. Encontro de cara a dificuldade inicial da pobre donzela, que, infelizmente, o algoritmo não resolve. Não conheci – ainda – nenhum outro algoritmo que ensine a mulher a escolher qual homem ela deva “pegar”. A linda e estonteante donzela terá que ter algum critério, qualquer um que seja, que a indique qual homem quer. Não entrarei nas reentrâncias que possam dizer respeito a tal questão. Sabemos que a donzela quer um homem lindo, rico, inteligente e que lhe rasteje aos pés. Como o preenchimento simultâneo de todas essas exigências é mais difícil do que encontrar a solução de uma equação do nono grau no conjunto dos reais – e aqui nem o Al Khuwarizmi pode ajudar –, ela há de escolher qual mais importante característica a vítima, digo, o homem terá de carregar a fim de ser objeto de escolha da princesa desgarrada.
Escolhido o homem – e aqui já estamos nos passos iniciais do algoritmo – ela precisa, em primeiríssimo lugar, responder a si mesma a uma incômoda pergunta: “eu quero ‘dar’?” (Nem preciso esclarecer o que esse “dar” significa. Mantenhamos a compostura.) Se a resposta for sim, atinge-se de imediato o resultado pretendido. Se a resposta for “não sei”, a donzela estará prestes a entrar pelo labirinto que representa o algoritmo.
Percebe-se logo uma pouco justa intenção do algoritmo. Ele não dá chances nem ajuda à dondoca que não quer “dar”. Ele não contempla essa possibilidade. Daí porque já me ocorre a seguinte indagação: há mulher que não queira “dar” e que queira “pegar” homem? Se há, eis aí o algoritmo que não lhe serve. Se não há, por que existe a dúvida de algumas delas? Diremos de outra forma. Se há dúvida, tal dúvida não se refere a “dar” ou não – se refere a se escolheu o homem certo. Se tem certeza que escolheu o homem certo, há de querer “dar”! Se não “der”, é só de birra, receio que a presa lhe escape tão logo se de(le)ite com a dondoca. Sugiro, então, que se elabore outro algoritmo que a ajude a decidir quando, em que momento, em que lua irá “dar”.
Vejam que se a resposta for “não sei” parece que o próximo passo depende somente e tão somente da sobriedade do escolhido. Se estiver bêbado, ela “pega” sem “dar”, mas “pega”, e isso demonstra que há, sim, quem queira “pegar” sem “dar”, certo? Errado. Se o cara está bêbedo e ela “pega” é porque quer “dar” mesmo – nunca conheci uma mulher que gostasse de bêbado.
Assim, a que não sabe se quer “dar” acaba se decidindo a “dar” ao longo das “tarefas, ações e raciocínios” dentro do algoritmo.
A lição que se tira do safadíssimo processo? A que já estamos carecas de saber – como é complicada a dondoca! Dá logo esse bicho, menina! 

terça-feira, 15 de março de 2011

Terremoto, tsunami e doido varrido

Outro dia fui apresentado a um amigo de um amigo. Era um Cavalcante. O amigo nos apresentou e o sujeito foi logo me perguntando: -“Teu sobrenome é com ‘i’ ou com ‘e’?” Respondi: -“Com ‘i’.” Ele brincou: -“Então és dos pobres!” Rimos.
            Existem os Cavalcanti e os Cavalcante. Os com “i” se dizem os autênticos, os com “e” os ricos; os com “i” os descendentes de um italiano, um tal Felipe Cavalcanti, os com “e” alegam ser vítimas de erro do tabelião.
            Para complicar, há aqui no Ceará um Fernando Cavalcanti, que sou eu, e um Fernando Cavalcante, que não sou eu. Eu sou médico e ganho o suficiente, o outro é construtor e ganha muito; é o que acho, posso estar equivocado. Às vezes fazemos idéia errada a respeito dos outros e, quando se vai ver, nada do que se pensou é a verdade dos fatos. Conheci pessoas que ganhavam fortunas, mas que deviam fortunas ainda maiores. O dinheiro é um troço que testa a maneira como vemos e vivemos a vida.
            É comum que em famílias abastadas exista o ramo dos pobres. Não digamos que seja este o meu caso, que não sou pobre. Pobre é o assalariado do salário mínimo. Digamos que também é pobre quem gasta mais do que ganha. O assalariado do mínimo não tem como fazer o milagre de gastar menos do que ganha; por isso é pobre.  
            Conclui-se facilmente, desta minha profunda análise contabilista, que há os ricos e os que parecem ricos, e há os pobres e os que parecem pobres. Percebem? Acautele-se. Veja você, por exemplo. Você é realmente pobre ou só parece? Você é rico ou só arremeda uma suposta riqueza? Há os intermediários, que não são pobres nem ricos. É entre estes que estão os que parecem uma coisa ou outra.
            Diz o Kiyosaki que riqueza não se mede por quantidade de dinheiro, mas por quantidade de tempo. Ele diz o seguinte - que a quantidade de tempo em que você se mantém no mesmo padrão de vida sem trabalhar é a sua quantidade de riqueza. Por exemplo, se paro de trabalhar hoje e me mantenho no  mesmo padrão de vida por um ano, então sou “um ano” rico.
            Um padrão de vida elevado requer mais recursos e pode, eventualmente, tornar o sujeito pobre, de acordo com a definição do Kiyosaki, em apenas poucos meses ou poucos anos. Parece também claro que, se o indivíduo puser o dinheiro para “trabalhar”, o dinheiro vai crescer em quantidade em decorrência de seus investimentos. Assim, se o fluxo de caixa a partir de investimentos for contínuo, o sujeito pode passar a vida sem trabalhar, somente administrando-os. Vai empobrecer aquele que tem fortuna e compra todos os tipos de passivos, ou distribui o dinheiro entre os amigos do bar, ou torra tudo em outros desaforos ao vil metal. (Não é o metal que é vil. Esse é adjetivo para o bicho homem, que o metal não tem caráter.) É sobejamente conhecida a história do sujeito que ganhou colossal fortuna na loteria e em pouco tempo estava mais pobre do que antes.  
            O problema com os investimentos é a incerteza, principalmente no mercado acionário. (Desde o começo eu queria falar dos investimentos e das incertezas que os cercam, mas me perdi com a léria dos Cavalcante.) Algumas manchetes de hoje demonstram o que digo. Vejamos.
            Os principais contratos futuros de petróleo encerraram esta terça-feira (15) em forte queda no mercado internacional, após um novo incidente na planta nuclear de Fukushima. O temor do mercado é que haja um forte impacto por conta da demanda japonesa pela commodity, o terceiro maior consumidor mundial. (Infomoney)   
             Mais: Os principais índices acionários europeus registraram forte queda nesta terça-feira (15), em meio ao clima de aversão ao risco por conta do acidente nuclear em Fukushima. (Infomoney)
            Bem se vê que o indivíduo que compra e vende ações tem, antes de tudo, um distúrbio mental de extensão desconhecida. Converteu-se em senhor de seu dinheiro, desprezando-o tanto e de tal maneira que o expõe aos tsunamis e terremotos, eventos da natureza que ocorrem em todo o mundo e capazes de afetar o preço do pão ou das bananas, que por sinal seguem podres como carcaça de gato morto à beira da estrada. Com as notícias do reator o preço do petróleo despencou e quem tem ações de empresas que negociam ou exploram a commodity viram seus valores despencarem. O mais doido dos investidores não as venderá. Acredita nas ondas de Elliot e as venderá somente na alta de preços, seja em que tempo for.  
            Vejamos mais um pouco, um viés positivo da tragédia sobre o mercado: Segundo a Ágora, notícias dão conta de que as empresas siderúrgicas japonesas teriam sido afetadas na recente catástrofe. “A informação é de que algumas plantas das cinco maiores siderúrgicas japonesas teriam sido afetadas”. Os analistas lembram também que o Japão é o segundo maior produtor mundial de aço, tendo sido responsável por 8% da produção global no ano passado. O impacto positivo da tragédia para as empresas do setor de siderurgia derivaria exatamente desse peso que a indústria japonesa tem na produção da commodity. Na avaliação dos analistas, uma possível queda na produção de aço “pode resultar no desequilíbrio do mercado global, resultando em maior pressão altista do preço desta commodity no curto prazo”. O desempenho positivo das siderúrgicas brasileiras no pregão da véspera é atribuído exatamente a essas notícias. (Infomoney)
            O investidor do mercado de ações pode também ser um sádico, ou um oportunista, ou ainda o mesmo doido varrido que, desta feita, espera lucrar em menor prazo com o sacudir das placas e a destruição das siderúrgicas japonesas. Ela, a destruição, acabará por jogar para cima o preço do minério de ferro catapultando o preço das ações das empresas siderúrgicas.
            A conclusão a que se chega é uma só. Ninguém deseja terremotos nem tsunamis, mas com eles há quem enriqueça. Como no Brasil – ah! o Brasil! – se tem uma verdadeira aversão à riqueza e a quem enriquece, ainda que de forma lícita, os ricos eventuais das tragédias entrarão para o rol dos nossos “podres” de ricos. Como as bananas que tenho comprado. Paciência.
É possível também que tudo dê errado e o doido de pedra acabe sem um tostão. Ele não dará a mínima. É mesmo um doido varrido. 

sexta-feira, 11 de março de 2011

Bananas

               O que está havendo com as bananas, alguém pode me dizer?
            Estou seriamente comprometido em descobrir o mistério. Estou pensando em consultar o Bacana, profundo conhecedor da fruta e propagador de seus benefícios, ainda que não seja biólogo ou engenheiro agrônomo. Não importa. Quem conhece a fruta é quem a aprecia, como o Bacana.
            Devo lançar mão da opinião de outros. Por exemplo, tenho uma amiga que pediu uma graça e fez promessa ao santo – se a recebesse, passaria um ano sem comer... bananas! Isso bem demonstra como bananas são frutas desejadíssimas. Ela nada tem reclamado. Vai completar um ano sem comer uma mísera e única banana – o santo providenciou-lhe a graça.
Devo, antes de continuar, e para que não pensem que estou de chacotas e folguedos, explicar a razão de minha angústia sobre as bananas. O caso é que já vão aí umas três ou quatro semanas que só compro bananas de má qualidade. Mudei de supermercado e – crau! – bananas de má qualidade novamente. Conclusão: os supermercados não têm culpa no cartório dessa vez. Só por ser um chato resolvi visitar três ou quatro supermercados diferentes. Querem adivinhar o resultado? Nem precisa.
Então, a única coisa que se pode deduzir de toda essa história das bananas é que alguma praga atacou todas as plantações da fruta no país. Somos um país sem bananas. Já estou me programando para maio, quando irei à Europa – lá matarei meu desejo de comer bananas. Sei de um lugar nos Países Baixos, um supermercado, onde comprei, na última vez em que lá estive, suculentas e roliças bananas-prata. Sobre elas, amarelíssimas na casca e com aquele talo esverdeado, a etiqueta “Brazilian Bananas”. O sabor não era esses balaios todos, mas há de ser melhor do que comer banana estragada.
Vamos começar pelo começo. Comprei bananas estragadas e pensei: o Alzheimer me pegou. Tão novo e abatido na flor dos quase cinqüenta por distúrbio tão degradante. Sim, porque quem escolhe não há de escolher o estragado. Escolhe o estragado quem perde a capacidade de escolher. Até então só escolhia bananas perfeitas, de vez, para não estragar logo. Elas amadureciam ali, na fruteira, bem amarelas, até ficarem prontas ao abate. De repente, as cascas amarelas, se observadas melhor, apresentavam pontos escurecidos, e a consistência já não era tão firme. Ao descascar, a surpresa: banana estragada. Não toda ela, mas parte. Tinha de dissecar a fruta, extirpar áreas feias e amolecidas, como se fora um tumor maligno.
A repetição do fato em vários supermercados me livrou do diagnóstico funesto. Doente mesmo só as bananas. Do país inteiro, do Oiapoque ao Chuí, do Xapuri a Cabedelo, um país inteiro de bananas doentes e podres. Outro dia – terei sonhado? – li que a safra havia sido perdida. Se foi perdida a safra, de onde vieram as bananas podres? A safra está sendo vendida assim mesmo?
Alguém pode me dizer o que acontece com as bananas?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Abandonados

Há um ano Marcela Montenegro, uma belíssima jovem empresária desta cidade, levou um tiro na cabeça e faleceu três dias depois. Foi num assalto. Os assaltantes eram, e presumo que ainda sejam, pobres. Em meio ao grupo uma criança de onze anos, usada para se jogar diante do carro e provocar sua parada a fim de que o crime fosse perpetrado. Como Marcela reagiu à abordagem não parando o veículo e imprimindo-lhe maior velocidade para evadir-se, um dos homens detonou sua arma de fogo e a bala atingiu-lhe o crânio, ceifando-lhe a vida.
            Uma onda de perplexidade varreu a cidade, como um terremoto de magnitude 3,0. É sabido da sismologia que um tremor de tal intensidade é sentido, mas raramente causa danos. Nenhum dano foi registrado na sociedade causado pela forma brutal, covarde e inconseqüente com que Marcela Montenegro foi morta. Perplexidade é como uma intenção – em nada contribui. O único verdadeiro distúrbio se deu no seio da família da moça. Um ano depois ninguém sabe como estão se sentindo seus familiares, mas presume-se que ainda estejam zonzos com o excepcional evento.
            Noticiou-se hoje em jornal de grande circulação no estado que o garoto que estava com o grupo que assaltou e matou Marcela foi “apreendido” por assalto no mesmo local em que a jovem foi executada. Ao que parece ele estava na companhia de um jovem de 25 anos, e ambos estavam armados de faca.
            Não acusemos precipitadamente o garoto. A única coisa que podemos dizer sobre ele é que não costuma andar em boa companhia. O problema é o que o Johann Goethe disse: “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és; saiba eu com que te ocupas e saberei também no que te poderás tornar.” Segundo ele, nosso “menino”, hoje lá com seus 12 anos de idade, é um facínora semelhante aos que acompanha e está em vias de se tornar um exímio profissional do crime. Quem diz é o Goethe, não sou eu.
            Não sejamos tão duros. É perfeitamente possível que o garoto só tenha estado em atividades ilícitas justamente essas duas vezes no último ano – na noite em que Marcela foi baleada, em 09.03.2010, e no último domingo em que foi “apreendido”, 07.03.2011. Nesse intervalo de tempo ele devia estar envolvido com a escola onde estuda, ou com a família ajudando sua mãe, pai e irmãos.
            Estou indo longe demais. O “menino” é pobre e deve ter sido gerado no seio de uma família desestruturada. Não vai à escola há anos e por tudo isso entrou bem cedo para o mundo do crime. Não se explica como, num país cujo governo de “esquerda” que já dura mais de oito anos – o garoto devia ter três a quatro quando ascendeu ao poder –, esse garoto permanece nessa vida devassa, sem esperança, sem futuro, sem ninguém que lhe socorra. Não é mesmo possível explicar. Os correligionários estão todos os dias mostrando e explicando como os pobres estão menos pobres, como sua educação melhorou e como, por se ter alcançado esses índices, a criminalidade decaiu vertiginosamente.
            Fui ver o que ocorre na Grã-Bretanha. Além de Sobral, sou um obcecado pela Grã- Bretanha. Por ter 23 crianças presas por 100.000 habitantes (cerca de 200 mil crianças atrás das grades), a maior taxa da Europa, os ingleses estão buscando alternativas. Entretanto, “os políticos parecem relutantes em adotar qualquer medida que dê a impressão de que eles estão sendo pouco severos com o crime. Eles estão presos ao ‘complexo do pânico’, à politização do crime e à preocupação de que podem perder votos por não parecerem rígidos o suficiente.” Os políticos ingleses parecem estar ressabiados com os grandes criminosos da história. Têm pavor ao crime. Compreende-se.
            Por outro lado, é provável que aqui fosse como lá, ou seja, “as crianças detidas vêm, com freqüência, das classes sociais mais baixas, que em 1980 representavam 10% da população da Inglaterra e subiu para 34% em 2002. Um estudo conduzido em 2001 pelo órgão que coordena as prisões britânicas descobriu que 84% das crianças encarceradas foram excluídas da escola, 25% tinham conhecimentos de matemática e capacidade de leitura equivalentes aos de uma criança de sete anos, e 37% descreviam seu nível educacional como nulo.” Parece que lá eles não falseiam as estatísticas. São sérios demais para isso.
Contudo, há casos que ficaram famosos e cuja decisão judicial pareceu justa ao país e ao resto do mundo, como o dos “dois irmãos de 10 e 12 anos que torturaram e espancaram brutalmente dois garotos da mesma idade. Foram condenados pela Justiça inglesa a permanecer na prisão por tempo indeterminado”. Na sentença o juiz escreveu: “Foi uma violência sádica e prolongada apenas para que vocês se divertissem machucando e humilhando eles. Estou certo de que os dois representam um alto risco de causar sérios danos a outros”. O mais velho deles justificou sua violência por “estar entediado por não ter nada para fazer”. Um relatório do Conselho de Segurança das Crianças do país mostrou que os irmãos apresentavam um histórico de agressões. Os ingleses adoram os históricos. Tudo indica que, para eles, têm uma importância tremenda.
            Parece que, sem levar em conta o problema social de que o nosso “menino” é vítima, e não querendo minimizar tal dado, parece que ele tem um mesmo e semelhante histórico de agressões. Os dois meninos ingleses foram condenados a ficar no mínimo 5 anos atrás das grades.
            A pergunta que fica no ar é: por que esse “menino” está solto entre nós? E outra: se o Estado entende, através de seus doutos legisladores, que não se o deve prender, por que ele não indeniza as vítimas desses reincidentes criminosos que não são criminosos sendo criminosos? Parece ser uma prática regulamentar soltar facínoras e monstros, como, por exemplo, o que estuprou e matou a linda menina Alanis. O monstro era condenado e estava solto por um indulto estatal.
            Continua nos faltando a guerra que nos transformaria dos medíocres que somos no país glorioso que ansiamos ser. Na guerra em andamento em solo pátrio estão vencendo os criminosos. É uma guerra suja e covarde em que até as armas nos confiscaram. Ela gera em nós esse sentimento de frustração e abandono que sinto agora. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma saudade sem fim - a rua de minha infância

(No tempo daquela rua a vida era pura magia, em tudo, por tudo, por todos.)
Tenho uma enorme dificuldade em entender os motivos que levam tantas pessoas ao divã. O que me está claro é a razão dessa dificuldade. Dela eu bem sei.
A razão de minha dificuldade em entender o desperdício na vida das pessoas deitadas ao divã é justamente a magia do tempo da rua de minha infância e tudo o que a ela se refere. Ainda agora, nessa madrugada serena, quente e pouco iluminada, a visão desse conjunto move em mim algo sagrado, indescritível, imponderável. Uma única palavra pode traduzir esse encanto: saúde. Afetiva e psíquica. Aquele tempo me herdou saúde afetiva e saúde psíquica.
Devo ser um sujeito muito pretensioso por julgar que somente naquele tempo se pôde herdar saúde afetiva e psíquica. É óbvio que estou errado. Digo então, após reconhecer meu erro crasso, que, talvez por sorte ou qualquer outro motivo que não atino no momento, por obra e arte do acaso, aconteceu de, depois daquele tempo, ganharmos saúde afetiva e psíquica.
(Ah, eu bem sei que aqui não há acaso!... aqui há família, princípios, moral.)
Saúde afetiva é a consciência da importância maior do amor próprio e o exercício do amor que faz crescer para com outras pessoas. O amor que faz crescer não é, ao contrário do que possa parecer, um amor passivo, estático, permissivo; ele é, acima de tudo, o amor que ao outro questiona, que ao outro expõe. Por isso é possível que gere conflitos e iras. Ele pode representar o divã onde se deitam os pacientes da psicoterapia, hoje tão procurada. Quem tem pelo outro o amor que gera crescimento diz a verdade e está sujeito a também ouvi-la. Pena é que muitas vezes, ao ouvir a verdade que ninguém diz, quem diz se vê na iminência de ser alvo de verdades que são inverdades, revides do que julgam agressões aqueles que imputam infâmia naquilo que sabem ser de fato a verdade. Portanto, maturidade é necessária ao exercício do amor que faz crescer.
O amor que faz crescer não é tolerante com a fraqueza, com a indulgência, com a pusilanimidade nem, e principalmente, com a falta de amor próprio. Não vêem com bons olhos aqueles cujo amor próprio é elevado aos que não o têm ou o têm ao mínimo. Daí se pensar, como conseqüência, que não seja possível a amizade e a convivência destes com aqueles. A recíproca é absolutamente verdadeira. Os que não têm amor próprio detestam os que o têm e neles vêem um quê de petulância e pedantismo. Bem se vê como tende a ser conflituoso o relacionamento de uns com os outros.
Um exemplo de saúde afetiva debilitada é o do adulto que se origina da criança que tudo tem, tudo recebe e a quem tudo é permitido. Cresce cada vez mais nessa criança a sensação de que não é amada, de que é, na verdade, temida. Sem o amor que cuida e que limita, não tem amor por si mesma, não desenvolve amor próprio. Sem ele não tem por outros o amor das relações, o amor que contribui para o engrandecimento do outro.
    Saúde psíquica é – não pretendo escrever um tratado discordando ou apoiando os estudiosos da mente e do comportamento humano – ter intactos e bem desenvolvidos os mecanismos mentais que protegem o ser dos ataques que visam diminuir-lhe o amor próprio. Em outras palavras, é saber minuto a minuto dos ataques que lhe são desferidos ao amor próprio e repeli-los incontinênti. Os seres humanos estão sempre empenhados em humilhar, diminuir e assustar o outro porque assim julgam conseguir “cooperação” ou subserviência; não se importam que tal  manobra seja, no outro, causa de tristeza, frustração, culpa, dependência e medo. De fato, é precisamente o que querem que aconteça, pois somente assim conseguirão tê-lo como refém. Tais estratagemas, quando usados na infância, criam na adultícia verdadeiros ratos de consultórios de psicoterapia. O resultado é amplamente conhecido: são doentes crônicos cuja cura está sempre além dos conhecimentos do pobre e empenhado terapeuta. E nem digamos que esses senhores não exercem para com seu paciente o amor que faz crescer, única chance real de eles se curarem definitivamente.
Aquele adulto que brota da criança que não desenvolveu seu amor próprio é facilmente manipulado e dependente, e carrega no fundo de seu ser a culpa que lhe corrói a alma, a de ter nascido. Não desenvolve a saúde psíquica que lhe preserva o amor próprio pois não o tem para ser preservado.
Aquela foi minha rua por quase onze anos. Dali saí para a vida de adulto repleto das ilusões e certezas que habitam a alma dos jovens. A vida comigo fez o que sempre faz a todos: esmagou-me as ilusões e as certezas com sua natural frieza e passividade. A mim restou o início da compreensão de tudo o que me impelia ao desequilíbrio, à insanidade, à ansiedade, à angústia e ao menosprezo pela vida. Mais; anos depois tive que aprender a me perguntar com freqüência o que a vida estava querendo me ensinar com as peças que me pregava e com as sucessivas perdas que me abatiam. As respostas eram fáceis de descobrir, e sempre me impeliram a polir ainda mais minha saúde afetiva e psíquica. O mais eram considerações filosóficas e religiosas que a ninguém há de interessar. As ruas ensinam coisas em cada casa e em cada esquina.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Paz e liberdade – ingredientes da felicidade

Perguntou-me hoje o meu amigo Ciro Ciarlini, no hospital, se eu achava que o dinheiro é fundamental para se ter felicidade.
            Nesses tempos de gurus e livros de auto-ajuda, do coaching e dos pastores digitais, das palestras budistas e espíritas para casas lotadas e em grandes auditórios, o que mais se tenta ensinar é como obter felicidade. Falam, falam, falam, e ninguém ouve; ou, se ouve, não aplica o que é ensinado. Ensinam, por exemplo, que o apego ao material só traz dissabores e sofrimento; que o ciúme é fonte de angústia e dor; que o ter não importa, o que importa é o ser; e por aí muitos vão enchendo os bolsos do dinheiro que dizem não ser importante.
Impossível é ensinar uma lição que não se aprendeu na prática. O que se faz fala tão alto que o que se diz ninguém escuta, diz o adágio. O inverso é mais verdadeiro ainda: o que se não faz fala tão alto que o que se diz para fazer ninguém escuta. Vejam a mordacidade do Falcão na letra de uma de suas músicas: dinheiro não é tudo, mas é cem por cento. Traduz bem na medida a hipocrisia desses que estão aí a tentar ensinar o povo.
O Ciro me perguntava se é possível ao pobre ser feliz. E lhe respondi: e ao rico também. É possível a um e a outro. Por que não seria? O dinheiro nada tem a ver com felicidade. Comumente se pensa que o dinheiro é necessário à alegria e à felicidade. Tal concepção é uma tolice sem tamanho. Outro dia, viajando por uma dessas estradas federais esburacadas, vi o que todos vêem. À beira da estrada mora gente pobre. Suas casinhas são feitas por Deus sabe quem. Ao lado há uma árvore frondosa cuja sombra provocante é um convite ao ócio e lazer. Pois bem. É isso mesmo o que faz o pobre que tem essa frondosa árvore como vizinho – põe sob a copa da árvore uma mesinha, umas cadeiras, uma fogueira; sobre a mesa distribui meia dúzia de copos de geléia de mocotó vazios. A garrafa de aguardente sai barato, e o frango assado sai de graça, escolhido do meio de sua criação pessoal. Chama os vizinhos pobretões e a farra vai até sabe-se lá quando. São felizes? Não tenho a mínima idéia, mas têm tudo para ser.   
Diz o Kiyosaki que o dinheiro gera problema quando em falta e quando em excesso. Na verdade o dinheiro causa problema como tudo aquilo que muito se deseja ter e não se consegue. Há coisa que faça sofrer mais do que o desejo incontrolável de ter uma montanha de dinheiro? O pobre da beira da estrada tem a mais absoluta certeza de que jamais terá algum dinheiro, mas é feliz com o que tem. Portanto, não sofre por querer o que julga impossível obter. Porque não quer, não sofre. Se quisesse sofreria. Simples assim.
Vê-se que dentre o pobre da cidade ou o pobre que se contamina com as idéias que vicejam nas cidades existem os que querem ter. Há os que são como o da beirada da estrada, mas cresce nas cidades aqueles que cobiçam, que sonham, que imaginam, e com isso cresce-lhes o sofrimento e a vontade de ter. Uma vontade não satisfeita é sempre uma fonte de infelicidade e tristeza. A historieta que conto abaixo é bem ilustrativa.
Certa vez um rico empresário viajando a beira-mar parou seu carro com tração nas quatro rodas à porta da casa de um humilde pescador. O pescador, deitado fora da casa na rede presa a duas árvores (esse pescador tinha duas e não uma árvore fora de casa), balançava-se e fumava um cigarro desses que se fazem comprando o papel e o fumo. Mais distante, à frente da casinha, a jangada do pescador secava ao sol. O empresário veio puxar conversa: - Aquela é vossa jangada? O pescador respondeu que sim. “O senhor pesca para si e para a família?”, continuou perguntando o empresário. “Sim, é o suficiente pra gente viver.”, respondeu o humilde homem. O empresário começou então a ensinar ao pescador como ele poderia fazer fortuna rapidamente: - Se o senhor sair a pegar bastante peixe para vender poderá comprar outras jangadas e colocar outros pescadores a pescar para o senhor. Em breve terá barcos e barcos que pescarão mais peixe ainda e o senhor ficará bem rico. O homem olhou para o empresário e perguntou: - E pra que tudo isso? Ele respondeu: - Ora, para o senhor ficar deitado aí em vossa rede despreocupadamente! O pescador então respondeu: - Mas eu já não estou aqui deitado despreocupadamente?!
Se o humilde pescador “comprasse” a idéia do rico empresário, iniciaria ali sua desgraça e seu sofrimento. Iria querer mais e mais dinheiro e nunca saberia quando parar de querer.
Ter qualquer coisa em excesso, ou nutrir demasiado amor pelo que se tem, é ainda um mais sério problema. Para ser feliz com o excesso é necessária certa dose de desprezo pelo objeto da posse. É preciso enganar a mente dizendo-lhe todos os dias: -“Esse objeto não me serve de nada. É só um meio e uma ferramenta para atingir meus objetivos” É como se não quisesse ter o que tem, ou que o que tem nada representasse. É como se lhe fosse fácil mudar as metas caso o meio de alcançá-las fosse perdido. O mesmo se faz com o excesso de dinheiro. Não se deve, contudo, no que tange ao dinheiro, fazer com ele peripécias e estripulias, posto que não aceitasse desaforos. Ainda assim é preciso a ele dizer todo dia: - Quem manda aqui sou eu!, a fim de estabelecer quem é o senhor e quem é o escravo. Faz-se, então, necessário, para quem tem excesso de dinheiro, um aprendizado contínuo sobre formas de pôr o dinheiro para trabalhar para seu dono. Quem trabalha? O escravo ou o senhor? Então, que o escravo trabalhe. Não se conseguirá que o escravo trabalhe enquanto o senhor não for senhor. O medo de perder é outro problema dos donos do excesso. Há que aprender a perder o medo de perder se quiser ser feliz com o excesso. Diz o Kiyosaki: você recebe o que você teme. Portanto, se tiver medo de perder, perderá, certo como dois e dois são quatro.   
A conclusão de tudo isso é que falta de dinheiro não traz infelicidade simplesmente porque não existe a falta de dinheiro; o que existe é o desejo insaciável de tê-lo mais, sempre mais. Acabando-se o desejo, acaba-se também o que faz sofrer. O que traz infelicidade é a falta de paz e liberdade. A paz é fruto das boas relações com os outros; a liberdade cresce na árvore que está no jardim da alma: dentro do próprio ser, com saúde afetiva, emocional e psíquica.
Respondi, então, ao meu amigo Ciro Ciarlini: é possível ser feliz sem o dinheiro, assim como é possível ser feliz sozinho. (O amigo está doido que eu case!)      

quinta-feira, 3 de março de 2011

Nem Freud

Vocês não sabem da maior: Amorim reapareceu. Preciso confessar – perdera todas as esperanças de revê-lo um dia. O motivo é simples. O homem some quando está amando. É tudo muito fácil de entender. Deixem-me explicar.
            Amorim ama tanto e tão diversamente que a nova amada precisa ser mantida a uma distância segura de tudo e de todos. Entende-se. Amorim teme que a mais recente amada tome conhecimento de quem ele é de fato. Por isso some. Diria que o homem se traveste. Seria uma nova personagem, com novo temperamento, novo modo de falar, novo figurino, e até novas idéias. Não sei se me faço entender. E, assim, nesse palco particular onde se inicia seu novo relacionamento, Amorim é um novo homem. A amada estará prestes a conhecer a fundo o homem que ele quer de fato ser.
            O problema é que ele ainda não adquiriu, do alto de seus mais de cinqüenta, a maturidade suficiente para entender o que até minha sobrinha de sete já percebeu: por detrás da personagem há, imutável, a essência do verdadeiro homem, assim como por detrás do fantoche há o homem de carne e osso.
             O querido amigo é um tipo tão singular que merece análise mais acurada. Se ele quer ser alguém que não é, significa que o amigo não gosta de quem é; em outras palavras, não gosta de si mesmo. Tal possibilidade é indício ominoso – falta-lhe amor próprio, tem baixa auto-estima.
            Há ainda a possibilidade de ele preferir o relacionamento fechado com a amada por desejar dela toda a atenção e zelo que ela puder lhe dar. É tão carente de afetividade que dela demanda todo o seu tempo, toda a sua vida, todo o seu ser. A amada precisa nutrir por ele adoração e dependência afetiva completa, tal como ele nutre por ela. A vida a dois passa a ser um círculo muito fechado, estreito, quase um ponto, quase uma singularidade cósmica. Disso resulta o efeito colateral mais aberrante e danoso – o ciúme. Nem me perderei nos meandros, sótãos e porões do ciúme que é assunto a exigir tratados e mais tratados.
            Alguém certamente perguntará por que some tanto tempo o Amorim, já que relacionamentos firmados sobre tais alicerces ruem tão rápido quanto indubitavelmente. Simples – o homem os coleciona há anos. São tantos e tantos os casos e amores do Amorim que não lhe resta tempo para outra coisa. O homem está sempre às voltas com um rabo de saia e nós, seus amigos, até dele esquecemos tamanho o chá de sumiço que o homem toma. Pior do que ele só o Padilha, agarrado aos equipamentos de última geração que adquire. O que sei é que entre os dois, Amorim e Padilha, a parada é dura, cada um mais doido que o outro.

Torcedor sem vergonha

Eu até que tentei. Nem que fosse para ter depois sobre o que falar, tentei ver o jogo. Só consegui por quinze minutos, interrompidos constantemente por outros afazeres que julgava importantes. No frigir dos ovos, se se somassem os verdadeiros minutos que me prendi à tela não dariam nem cinco. Então, fui ler minhas correspondências.
Sou do tempo das cartas, que chegavam em envelopes brancos de beirada verde-amarela trazidas pelo carteiro. Hoje as cartas que se escrevem e se enviam desta maneira entraram para o rol das coisas que não mais existem, como os sapatos Conga, ou o Ford Galaxie. Não se vê mais nada disso. As correspondências chegam hoje via computador pessoal, através de um endereço eletrônico. Nosso endereço residencial, hoje em dia, serve apenas à entrega das contas a pagar e das cobranças do imposto de renda. Serve também para que se comprove onde se mora na hora de abrir um crediário. Fora isso, desconheço qualquer outra utilidade de se ter um endereço residencial.
Antigamente sabia-se se o sujeito era importante pelo volume de cartas que lhe enviavam. Nas festas de fim de ano media-se a importância de alguém pelo número de cartões de boas festas que recebia. E eram todos, os cartões, colocados sob a copa da árvore de Natal, junto dos presentes. Hoje qualquer borra-botas recebe uma enxurrada de correspondência em seu endereço eletrônico, a maioria, quase todas, de utilidade nula ou superficial. E – o pior! – sabe-se de antemão que aquela correspondência não é pessoal, que é coletiva.
Vejam vocês. Eu aqui sentando a pua na correspondência eletrônica e é justamente ela que me permite enviar o que escrevo para uma penca de amigos e leitores. Pois era aí onde queria chegar: o que faz rir faz também chorar. Tudo tem seus prós e seus contras. E é bem provável que haja alguém que ache o que escrevo justamente de utilidade zero e tão profundo que, usando uma do Nelson, uma formiguinha atravessaria andando com água pelas canelas. Ainda que escreva essas coisas que me servem de catarse e onde demonstre quão infeliz estou quanto a meu país, há sempre alguém, uma multidão, que não se importa com nada disso, que não dá a mínima. Talvez essa multidão esteja justamente no estádio de futebol vendo o jogo e torcendo por seu time.
Ora, é precisamente isso o que não entendo. O sujeito não torce por si mesmo, mas torce por um time de futebol. Aqui devo fazer uma ressalva a evitar ser mal interpretado. O sujeito, qualquer sujeito, pode torcer por um time de futebol, mas não sem antes torcer por si mesmo. Eu diria que o torcedor inglês, por exemplo, pode se esgoelar, pular, apupar o juiz e o adversário. O torcedor inglês adquiriu esse direito posto que já construiu o seu país. Torceu primeiro por si mesmo ao erguer suas fortes e robustas instituições. Já o brasileiro...
Vamos lembrar o que houve comigo em Sobral, quando me hospedei no hotel do padre. Simplesmente fecharam o restaurante do hotel a todos os hóspedes para dá-lo em exclusividade a um time de futebol. Eis aqui o brasileiro a torcer pelo seu time e a apupar-se a si mesmo. (Devo ser um sujeito corajoso por me aventurar a falar contra o futebol justamente no país dito do futebol.)
Para minha felicidade de Robson Crusoé, recebi de meu amigo Lineu Jucá a prova que me faltava para demonstrar quão pouco torce o brasileiro por si mesmo e pelos seus. Enviou-me o Lineu a tabela do Sistema Único de Saúde do Brasil (SUS). (Devo ser também um sujeito importante para ser contemplado com o envio de documento tão esclarecedor e prova documental da total e completa idiotice e estultice do brasileiro.) O documento mostra os valores que o Sistema (entenda-se o governo) paga ao médico cirurgião, seu auxiliar, anestesiologista e hospital conveniado em alguns – apenas alguns – procedimentos cirúrgicos comumente realizados em pacientes que não têm plano de saúde. Ela também mostra os valores que os planos de saúde pagam aos médicos credenciados nos mesmos procedimentos, discriminando se o paciente paga um plano mais barato ou mais caro (enfermaria ou apartamento), segundo a tabela da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM).
Tomemos a operação para a correção de uma hérnia inguinal. Na tabela do SUS o cirurgião ganha R$ 74,00 (setenta e quatro reais), o anestesiologista R$ 44,00 (quarenta a quatro reais), o auxiliar R$ 30,00 (trinta reais) e o hospital particular conveniado ao SUS ganha R$ 298,00 (duzentos e noventa e oito reais) para cobrir despesas diárias, alimentação, medicação, drogas anestésicas, etc., ou sejam elas quais forem (é um valor fixo). Um plano de saúde privado paga os seguintes valores à equipe cirúrgica, para o caso de um paciente portador de hérnia inguinal com plano de enfermaria: R$ 308,00 (trezentos e oito reais) para o cirurgião, R$ 100,00 (cem reais) para o anestesiologista, R$ 277,00 (duzentos e setenta e sete reais) para o auxiliar, e os custos hospitalares serão pagos segundo a conta apresentada pelo hospital.
Não há necessidade de comentário.
É uma vergonha. Ambas as tabelas. Só está verdadeiramente livre para cobrar o que quiser o hospital particular não credenciado ao SUS.

terça-feira, 1 de março de 2011

Tempo, música, suor e salada

O sistema nos empurra como manada a paradigmas seculares. Pensando melhor, não tão seculares assim; apareceram em seguida à revolução industrial e tecnológica. Com o capitalismo vieram eles. E, com a “vitória” daquele, mais paradigmas surgiram.
            Longe de mim combater o sistema, posto que ele encerra oportunidades e idéias bem interessantes. Nem me aponham o epíteto de comunista, que não é o caso. E, a propósito, basta se ler o Manifesto para perceber que nunca, em tempo algum após Marx e Engels, puseram-se em prática as idéias ali pregadas. Os anarquistas queriam a abolição de toda forma de governo sem passar pela ditadura do proletariado, ao passo que os social-democratas queriam a manutenção do estado e das classes pela remediação do que chamavam males sociais. Marx e Engels pregavam a conquista do poder por parte do proletariado, numa revolução sangrenta, como uma forma de transição a uma sociedade sem classes.
O que eu acho? Quem sou eu para achar alguma coisa? O que sei é que nos estados comunistas implantaram a pobreza. A China é caso à parte, capitalista nas relações comerciais com outros países, comunista na supressão das liberdades e exploração de sua mão de obra. Ao que consta, há uma casta, uma viçosa e pujante burguesia chinesa bem ao centro do estado “comunista”.
Bem se vê que o que parecia ter dois extremos tem na verdade uma gama de formas, vários matizes combinados em feitios convenientes aos seus idealizadores e donos. Paremos de pensar que existam comunistas. É provável que somente os autores do Manifesto o tenham sido de fato. Os demais se aproveitam até hoje do que ele tem de belo e utópico para destilar suas más intenções no exercício do poder.
Voltemos aos paradigmas não tão seculares do capitalismo. Que fizeram eles conosco? Vejam, por exemplo, o Padilha. Não tem tempo para nada que não seja o trabalho. Minto. Tem tempo para ver as novelas televisivas. Devo dizer que, não fossem as novelas, a vida do Padilha seria somente o trabalho. Por causa do trabalho não faz ginástica, e é bem provável que se alimente mal. Talvez – e isso é uma suposição de minha inteira responsabilidade – coma dos produtos fast food, um subproduto da pressa capitalista. É digno de nota que quem não se exercita e não se alimenta para se nutrir está a viver mal, não resta dúvida. É irônico pensar que nos porões do mesmo capitalismo funcionam os laboratórios de pesquisa que descobrem que quem mal se alimenta e quem não se exercita vive mal. Ao Padilha faltam, além do tempo, o suor e a salada para ser feliz.
É exagero, é exagero, não é? Não, não é. Falta-lhe também o lazer, para dizer a verdade. Dirão que as novelas são sua catarse. Não digo que não. É verdade. Novelas são um excelente passatempo, inda mais quando seu enredo encerra alguma lição importante. Não sei se é o caso com as de hoje, mas o comentário que li outro dia sobre elas não foi muito animador quanto a este aspecto. Presumi que as novelas ensinam muita coisa... de ruim. Se for esse o caso, que tem aprendido o Padilha? Que catarse é essa que ensina o que não se aproveita?
Falta ao meu amigo, com efeito, aprender a tocar um instrumento. Essa, sim, é a catarse das catarses; faz desenvolver novas e indeléveis conexões neuronais que colocam o cérebro dois níveis acima; alivia o stress e as tensões; libera serotonina pelo prazer que causa ao corpo e à alma; eleva o espírito a mais perto do Criador, em cuja Casa nasceu a música. E, para falar nas saladas, estão cheias de varredores de oxigênio reativo, lesivo às células do corpo e altamente suspeito na fisiopatologia do câncer e da aterosclerose, as doenças que mais matam no mundo ocidental.
O suor é o da ginástica. Padilha só tem suado em função da canícula que precede a chuva. A ginástica, todos sabem, contribui para controlar e/ou prevenir a hipertensão, o diabetes, a osteoporose, além de melhor condicionar as funções respiratória e cardiovascular e liberar serotonina, o hormônio do prazer e do bem estar. A ginástica queima calorias e é fundamental em programas de controle de peso, além de resultar num aspecto saudável e belo do corpo.
Então, ao Padilha aconselho tempo, música, suor e saladas. A vida é mais feliz com eles. O dinheiro é só o tempero.

Uma saudade sem fim

Estive na rua, a rua de minha infância. Há muito lá não ia.
         Foi tudo obra das coincidências da vida. Um convite para uma festa e ali estava ela, a rua de minha infância, onde cheguei numa data redonda – o dia primeiro de janeiro de 1970.
          Naqueles instantes – foram dois: a chegada e a saída – tudo parou.
          É uma rua de um só quarteirão, poucas casas, pouca gente. Eu seria capaz de falar de todos. Preferiria não guardar comigo essa saudade, essa nostalgia, essa dor pelo passar do tempo, que tudo leva, tudo suprime, tudo tira, tudo apaga; só não apaga da memória dos que ainda vivem e têm algum laço com essa bendita rua. Eu sou esse; sou o que estava ali, naqueles instantes.
         Era tarde, alta madrugada. Fazia um silêncio sepulcral. Nenhum barulho das pessoas entrando e saindo, as crianças brincando na rua, uma vitrola tocando mais alto uma música, as mães conversando com as vizinhas... Não se viam aqueles meninos, adolescentes, que ficavam até tarde na calçada defronte de casa, conversando sobre seus planos, seus namoricos despretensiosos, seus méritos na escola, seus pequenos problemas com os pais... Não se viam, ainda mais cedo, naqueles terrenos baldios que logo mais seriam transformados em novas casas, os arbustos farfalharem as suas folhas e galhos, enquanto um vento frio e macio lhes acariciava a face jovem e feliz... Não se viam os meninos e meninas brincando juntos, irmãos e irmãs, de esconde-esconde, corrida maluca, carimba, jogo da velha, circo, soltando arraia depois de fabricar o “encerol” para passar na linha na intenção de cortar outra linha de outra arraia na briga do “corte”. Diziam assim: -“Vamos brincar o “corte”?
          Ah, quem me dera poder escrever um romance...! mas não posso, não conseguiria.
      Mais tarde os namoricos, que de tão sadios e puros embeberam nossas vidas dessa saudade excruciante, como uma dor que dói e dá prazer, como uma dor que dói e faz gemer.
       E entre tudo e todos, os que viviam e já não vivem, e que amávamos com todas as nossas forças porquanto por eles nossa admiração era tamanha e nossa ânsia de aprender tinha um sabor especial, uma saudade especial. Ali, naquela rua, naquela casa diante da qual parei, conheci, há mais de quarenta anos, a primeira morte, a de um amigo, um adolescente, uma criança que tudo tinha à frente e que, subitamente, deixou de existir. Seu desaparecimento me causou tão grave e negra impressão que pulava à rede de minha tia-avó e com ela dormia. Ela, sábia e amorosa, me acolhia em seu seio como a minha última salvaguarda, a minha última esperança diante do terror da morte de meu pequeno e jovem amigo. Enquanto seu pequeno corpo jazia sem vida na casa defronte a minha, velado por seus desesperados e consternados familiares, eu lutava contra aquele terror que me sufocava no seio de minha tia, e me apertava a seu corpo robusto como a uma tábua de náufrago perdido em meio a oceano revolto.
            Foram dias difíceis pelos quais, hoje eu sei, meus pais me permitiram que passasse sem leviandades ou mentiras tolas. Observavam-me, como o pastor cuidadoso, e se furtavam em me acolher ou poupar, permitindo que as verdades cruéis da vida se me apresentassem. Eu não podia compreender. Eram todos – mesmo os velhos como minha idosa e carinhosa tia-avó – imortais, imutáveis, infinitos. Para mim a vida nos congelava como éramos, como estávamos, para sempre, como em paraíso eterno. Eu não sabia que cresceria, que perderia todos eles, os que amava, como acabei por perder.
            Súbito fui interrompido desses devaneios por alguém a me chamar.
            Ainda bem e ainda mal. Há algo de masoquista em reviver um passado tão gostoso, tão perfeito, mesmo à lembrança da primeira morte de alguém que se ama. Mesmo essa morte encerra um quê de pureza e inocência que nos faz desejar o tempo de volta. Em meio ao que a adultícia nos traz isso pode ser considerado um prêmio, um presente de Deus.
            Ainda não acabei. Hei de permitir que essas lágrimas rebeldes busquem seu caminho nesta face marcada por essa rua...