segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Fazendo amor sem os números

Parece-me que não conhecem o Saldanha. Pois lhes apresento o Saldanha. E por que lhes apresento o Saldanha? Simples – o homem é digno de elogios por, a meu ver, ter derribado um Nobel da matemática.
            Vejam o que é dito, em resumo, sobre o objeto de estudo da teoria dos jogos, desenvolvida pelo matemático norte-americano John Forbes Nash Jr.: “ela estuda decisões que são tomadas em um ambiente onde vários jogadores interagem.” Em outras palavras, “a teoria dos jogos estuda as escolhas de comportamentos ótimos quando o custo e benefício de cada opção não são fixos, mas dependem, sobretudo, das escolhas dos outros indivíduos.” Digamos ainda que “os resultados da teoria dos jogos podem ser aplicados a aspectos significativos da vida em sociedade como também a simples jogos de entretenimento”.
É justamente em simples jogo da vida social que o Saldanha põe em xeque a teoria dos jogos de John Nash. A teoria afirma que um dado jogador nada ganha em vantagem sobre os outros mudando sua estratégia se aqueles também não mudarem as suas. É o chamado Equilíbrio de Nash.  Não entremos nos meandros do assunto que ele envolve cálculos por demais complicados para minha ignorância matemática. A nós basta nos debruçarmos sobre esta fatal conclusão da teoria.
            Todos sabemos que, entre um homem e uma mulher, é comum que se jogue o jogo do amor, da conquista, do caçador – o homem – em busca de sua presa, a mulher. É uma peleja deveras conhecida desde que o mundo é mundo. Alguns dirão – os praticantes contumazes da chatice pela chatice – que nem tanto, nem tanto, e direi que, sim, devagar e sempre estarão o homem e a mulher envoltos no tabuleiro da vida a se pegar em vetores cada vez mais e mais intensos, multidirecionais e em infinitos sentidos. É um jogo de forças a princípio antagônicas, cujo propósito é valorizar o próprio jogo e valor da presa. Em seguida as forças se somam ou se multiplicam, a depender da interação inicial, para depois, muitas vezes, aniquilarem-se ou anularem-se num epílogo triste e melancólico, quando não se catalisa o excesso de energia dos múltiplos embates entre elas.
            Assim, todos, algum dia, já se viram envolvidos e envoltos no jogo do amor. Ele existe para atender a Força Natural maior que ordena “crescei e multiplicai-vos!”, ou, para os que não crêem, atender ao que Schopenhauer chamou de “vontade de vida” da espécie, onde se aniquilam um a um os indivíduos mas não ela.
            E o que faz o Saldanha, o amigo que acabaram de conhecer? Em absoluto direi que pretende revogar os ditames divinos e/ou os do filósofo. Ao contrário, o homem é dos maiores e mais competentes elementos a obedecer aos tais ditames. Joga o jogo do amor como jamais vira alguém jogar. A bem da verdade verdadeira, para que não saiam a dizer que estou a propagar lorotas e simulações, o Saldanha não dá a menor chance às suas presas, e é exatamente aqui onde o homem desequilibra o que a matemática pretendeu julgar equilibrado. Se não me entendem, explico, até porque, se não o fizer bem rápido, perco o fio da meada e também o leitor.
            Estávamos em sarau em casa de amigos e eis que aparecem novas pessoas, mulheres desconhecidas a despertar o interesse de meu dileto e novo comparsa. Era de se esperar um mínimo de comedimento, no meu entender, justamente para fazer da caça um jogo mais prazeroso e sensual. Há um aforismo que reza que se deve ter prazer na viagem e não ao destino. Seria uma analogia que viria bem a calhar à caçada. Mas, não, não foi o que fez o amigo. O relógio do Saldanha só lhe serve de adereço e nada mais. Ou ainda, lhe serve a tocar a coisa a toda velocidade para que não se vá o tempo e ele saia de mãos abanando.
            Resumamos. Dali a pouco vou ao toalete. Não foi coisa de cinco minutos. Quando volto, o que vejo? O Saldanha, que estava a dançar com a pequena por alguns minutos antes de minha urgência miccional, estava agora a beijá-la um desses beijos em que a língua de um desce ao esôfago do outro. E pareciam, ambos abraçados, a um polvo gigante repleto de tentáculos e ventosas. Esse foi o primeiro fato.
            Passaram-se uns dias e saímos novamente a outra dessas tertúlias entre amigos. Devo tergiversar? Não o farei. Direi apenas que, tão rápido como o raio, Saldanha em pouco tempo sentou-se ao lado da anfitriã e já lhe tinha entre as mãos as dela, num descarado flerte sem estratégias prévias. Desta feita o homem não teve a petulância de beijar a presa, mas a coisa já ia encaminhada. A frustração aconteceu quando a mãe da jovem mandou comunicar que iria se recolher e que esperava que todos fizessem o mesmo.
            Vejam que em ambos os casos o Saldanha não traçou estratégia alguma. As presas, surpreendidas pela celeridade da ação desse macho implacável, certamente não as traçaram também para si. O resultado foi uma teoria dos jogos elaborada em Princeton lançada ao lixo nas madrugadas fortalezenses por duas vezes em bem pouco espaço de tempo. Não dá mais pra confiar nem mesmo na ciência...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Em coma para a mulher

O homem estava no CTI há quase um mês. Fora vítima de uma obstrução intestinal com perfuração e septicemia. A insuficiência respiratória persistia, embora os parâmetros começassem a melhorar. Até os sedativos estavam sendo removidos gradativamente, e ele de fato acordara.
            Mesmo com o tubo na goela fazia gestos, piscava os olhos, movia as mãos, respondendo ao que os médicos e enfermeiras perguntavam. A família foi comunicada de sua progressiva melhora. Assim, queriam vê-lo, acariciá-lo, dizer-lhe algumas palavras. Contemplar-lhe os olhos abertos e expressivos era sinal de indubitável melhora e retorno da consciência.
            Um dia vieram dois irmãos. Falaram com ele e, ainda que não pudesse verbalizar por estar com o tubo na traquéia, saíram satisfeitos por terem conseguido se comunicar. Ao dia seguinte vieram a filha e o genro. Os olhos vivos e abertos a lhes encarar os deixou muito tranqüilos quanto à sua recuperação quase completa. Dias depois vieram seus dois filhos e alguns sobrinhos. Todos estavam maravilhados. Os médicos, do alto de sua pompa deífica e em seu jargão de altar inatingível, só confirmavam, para aqueles da família que ainda tinham alguma dúvida – “seu” Costa iria se recuperar completamente em breve.
            Dali a poucos dias veio-lhe visitar a mulher. As boas novas levaram-na animada ao CTI. Esperava ver o marido lúcido, como todos diziam. Nos últimos dias a apreensão e o medo de perdê-lo desanuviaram seu coração. Anelava vê-lo restabelecido e de volta ao lar. Alguém da enfermagem avisou ao homem: -“Sua senhora veio visitá-lo!”
            Adentrou o CTI e pôs-se à beira do leito. O marido jazia de olhos fechados e ainda inerte. A ela não parecia ter havido melhora alguma. Aproximou-se mais. Passou-lhe a mão no rosto, na fronte, nos poucos cabelos. Massageava-lhe o braço e lhe chamava pelo nome: -“Costa, Costa, sou eu, meu filho!” Ele aparentemente seguia em seu coma. Devia ter piorado, pensou. Insistia em chamá-lo, mas ele não esboçava nenhum sinal de que acordaria.
            Ela foi até o médico, que estava a olhar alguns prontuários no posto de enfermagem do CTI. Disse-lhe: -“Doutor, todos me disseram que meu marido teria acordado, que abria os olhos e até sorria, mas falo, falo com ele e ele não responde, continua em coma.”
O médico olhou para ela meio incrédulo; afinal tinha examinado o homem poucos minutos antes de ela chegar. Ergueu-se e veio examiná-lo novamente. Chamava-lhe pelo nome, beliscava-lhe de leve o mamilo, apertava-lhe a pele pré-esternal e nada. O homem permanecia imóvel e não acordava. Dir-se-ia ter entrado novamente em estado de coma. Toda a medicação sedativa fora suspensa. Só havia uma explicação: uma piora significativa em questão de minutos. Ele pediu à esposa que se retirasse para que pudesse avaliar melhor a situação. Ela saiu em completo estado de desânimo e pessimismo.
O profissional veio consultar as enfermeiras, avisar-lhes que “seu” Costa entrara novamente em coma. Uma delas protestou: o homem estava de olhos abertos agorinha mesmo. Correram todos ao leito de “seu” Costa. Ele estava lá, de olhos bem abertos, encarando-os com vivacidade. Bel, a enfermeira que mais conversava com ele, repreendeu-o: -“Mas, ‘seu’ Costa, faça isso com sua mulher, não! A pobrezinha saiu triste da vida pensando que o senhor não tem jeito!” E o homem sorria o sorriso dos entubados, silencioso aos ouvidos e retumbante em gestos, cheio de vida e bom prognóstico.
Essas coisas também pertencem ao casamento.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O lugar mais seguro do mundo


Esse assunto das redes sociais já está a me tirar do sério. Vejam o que escrevi outro dia – quando foi mesmo? – a propósito das indevidas exposições nas redes sociais: Quem quiser postar sua senha bancária nas redes sociais que o faça, sem esquecer de enviar também o número da conta e código da agência. Muitos ficarão gratos. Há um monte de gente precisando de dinheiro. Deixem-me relatar o que estava a ocorrer ao mesmo tempo em que escrevia estas despretensiosas notas.
            Fui ao caixa eletrônico para fazer pagamentos. Desisti, há algum tempo, de usar  a rede mundial para fazer operações bancárias por receio dos assaltos virtuais, tão alardeados e comuns. Com tantas dessas máquinas por aí, nada custa, quando se está na rua, passar numa delas e pôr em dia os débitos inevitáveis. Julgava mais seguro utilizá-las, principalmente as que estão dentro das próprias agências dos bancos.
Estou diante da máquina. Puxo o saldo. Resultado: saldo negativo. Não direi quanto esperava ver de saldo, mas digamos que eu teria de gastar muito para o saldo ficar negativo. Puxo o extrato impresso e, num relance, destrincho o cenário: todo o dinheiro havia sido sacado de minha conta através de algum ilícito. Vejam vocês. Eu trabalhando para que se fizesse novo depósito em minha conta e o sujeito, um bandido, talvez com um esforço até menor, gastando o meu dinheiro por aí, de flozô, certamente pensando: -“Peguei um otário!”
Olha, senhor bandido, deixe-me lhe dizer uma coisa. Devo ser mesmo um otário. Nem mesmo foi preciso quebrar o sigilo de minha senha, confessando-a nas redes sociais. O senhor, com essa competência digna de elogio – estou a enaltecer a habilidade, não a moral do ato –, me passou a perna bem direitinho. Com efeito, não foi a mim que o senhor enganou – o senhor ludibriou todo um sistema. Eu fui a vítima da vez, mas todo o aparato ficou de quatro por sua ação bem sucedida.
Onde ficam, agora, meus argumentos sobre o perigo das redes? Eu assumo: - caíram por terra. Se não se consegue encobrir um troço que só existe na memória de alguém – a senha bancária –, para que se poupar aos exibicionismos das redes sociais? Além de ter sido surrupiado, tive todas as minhas afirmações estrondosamente refutadas. 
Dirá algum engraçadinho que o que escrevi ao início serviu de estímulo e desafio a algum praticante contumaz do artigo 171. Posso garantir: - o texto era inédito, ninguém o havia lido. É mais um reforço à hipótese da discrição inútil. Devo voltar atrás e desdizer tudo o de antes? Quantos textos terei de rever, reescrever, lançar ao lixo? Deixo essa conta para depois, daqui a pouco. Importa-me agora ruminar minha cretinice.
Os amigos que vivem em seus domicílios virtuais das redes sociais irão, tão logo tomem conhecimento deste fato lamentável, rir-se de mim a não mais poder. Não o farão por mal. Para eles será uma pilhéria, mais uma, pela minha insistência em argumentos contra o que não é bom nas redes. A conclusão a que chegarão não poderia ser mais óbvia: não há perigo nenhum em se escancarar a vida pessoal. E vivas à nudez coletiva!
É bem verdade que fui alvo de um crime e – pior! – tornei-me dele o suspeito número 1. Disse-me um dos funcionários do banco, quando lá fui formalizar os procedimentos de praxe, que a instituição parte do princípio de que todas aquelas “compras” foram realizadas... por mim! Por isso sobrava para mim o ônus de provar que não fora eu o autor do assalto. Em outras palavras, eu estaria simulando um roubo a mim mesmo para que o banco me repusesse o dinheiro “roubado”, e assim acabaria eu por roubar o banco. Notem que eu estou no centro de tudo. O ladravaz desse caso é um ser virtual; até que se o prove, nem sequer respira. Não sei se me entendem.
Assim, eu, que não me exponho nas redes e guardo senhas somente em meu córtex, tive meu dinheiro subtraído de minha conta, enquanto as mansões virtuais de meus amigos estão de portas escancaradas para o universo e nada de ruim lhes sucede. Já começo a suspeitar que as redes sejam o lugar mais seguro do mundo.

Um indefensável mau caráter

Eu bem sei que já falei demais das redes sociais. E todos sabem também que, aparentemente, delas não falei bem. Todavia, muitos sabem de minha afeição a obsessões, digamos, benignas. Definam “obsessão benigna” como quiserem, mas tudo o que é benigno é supostamente bom. Sei, sei, toda obsessão tem, a princípio, uma conotação pejorativa. É o que se deduz, de fato, ao ler-lhe o significado no pai dos burros. Uma obsessão benigna seria uma dessas exceções que tendem a zero, quase uma singularidade da semântica, onde as regras e as leis deixariam de existir.
            Pois por tudo isso é que minha obsessão nas redes sociais tem levado muitos amigos a me julgar mal, ou a mal interpretar minhas justificativas e alegações. A título de revigoramento da memória, repito - imputo às redes sociais um excelente campo para a divulgação do que é bom e daquilo que qualquer um julgue necessário e pertinente; e critico acidamente a exposição individual deslavada que se pratica nas redes sociais. Eis aí uma síntese do que penso.
            O problema de se decidir o que é bom a ser divulgado nas redes sociais é digno de nota. Quem decide? Cada um decide o que divulga nas redes. Cada um é cada um. Aquilo que para alguém é importante para outro não passará de abobrinha. Aí está um dilema sem expectativa de solução. Contudo, isso não tem a menor importância. Toda pessoa tem o direito de manifestar e divulgar o que quiser. O que me parece deselegante é a autopromoção, seja nas redes sociais, seja no restaurante, seja onde for. No dizer do Casoba, quem elogia a noiva é o noivo. Assim, tanto a auto-exposição desmesurada quanto o auto-elogio nas redes sociais são execráveis.
            Ainda assim há quem pense diferente, e nada mais natural. Quem quiser postar sua senha bancária nas redes sociais que o faça, sem esquecer de enviar também o número da conta e o código da agência. Muitos ficarão gratos. Há um monte de gente precisando de dinheiro. Uma amiga que há muito não vejo viajou à América com a filha pequena. Como descobri? Ela escreveu na rede social que suas malas já estavam prontas, ao que uma conhecida respondeu: -“Faça boa viagem, e traga uma réplica da Estátua da Liberdade!” De lá postará as fotos dos passeios, do hotel, do avião... Saberemos tudo.  
            Outro dia, semana passada, um amigo comemorou seu aniversário em conhecido point da cidade. Foi uma dessas festas a ficar nos anais. Como homem da noite que é, fez tudo no requinte, do bom e do melhor. Por dias seguidos falava-se da festa, e criou-se uma expectativa deveras positiva sobre o evento. Para resumir, não deu outra: - a festa de aniversário de meu amigo foi um desbunde.
            Hoje em dia há a possibilidade de se fotografar tudo, em qualquer lugar, a qualquer hora, sob quaisquer circunstâncias. Os telefones celulares, engenhocas ubíquas, têm, muitos deles, sua própria câmera fotográfica. Além dos telefones portáteis, estava na festa uma bela fotógrafa, encarregada pelo anfitrião de retratar todos, sem exceção. Fosse em poses ou inadvertidamente, todos os que lá estavam acabaram por ser fotografados. Ao dia seguinte o rega-bofe estava por inteiro nas redes sociais.
Outro amigo, que brigara com a namorada justo ao dia da patuscada, pensava de si para si: -“Vou ou não vou?” E a dúvida cruel o assediava até ao momento final quando, por não se sabe quais razões, resolveu se abster da farra e ir dormir mais cedo. Sua pequena, conhecedora por prévia experiência das artimanhas do amado, e não tendo conseguido fazer com ele as pazes antes do final da noite, executou o que já se torna hábito comum aos dias de hoje: - foi às redes sociais em busca da exposição das fotos da comezaina. E não é que ela batia pé afirmando que lá ele estava, numa fotografia, de costas, vestido em camisa que ela muito conhecia? De nada adiantou o homem jurar por todos os santos que já àquela hora dormia o sono dos justos.
Aí está o exemplo de tragédia patrocinada à sombra das redes sociais. Hoje não mais se pode pensar em sair por aí, como no caso de meu amigo em entrevero com sua pequena, para dar um passeio, espairecer a cabeça, tomar uns tragos inocentes. Sem que queira, sem que saiba, possa ser que o incauto indivíduo se veja subitamente envolto em suspeitas de proporções desconhecidas apenas por se fazer presente a uma pândega entre amigos. Ainda que lá permaneça por poucos minutos, ainda que vá somente felicitar o aniversariante, o sujeito exposto nas redes sociais torna-se, sob a óptica implacável da consorte, um mau caráter indefensável. E os que tiverem sósias estão sujeitos até ao assassínio!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A desgraça que é um Pinto mole


Estou com amigos em animado sarau e eis que me toca o telefone portátil. Era o Padilha. Queria me encomendar uma crônica. Uma não: duas. De fato, o homem me bateu o telefone por duas vezes. Na primeira queria uma crônica; na segunda, duas.
            Aconteceu o seguinte. Está a se divorciar o Pinto. Não sei se se recordam do Pinto. Há tempos escrevi sobre dois encontros que com ele tive, por coincidência, ao fim do mês. Ressaltei, então, o lastimável estado de meu amigo porquanto ao fim do mês o homem está tão duro que, se lhe revirarmos de ponta cabeça, não lhe cairá um mísero tostão dos bolsos. Ao fim do mês o Pinto está duro e numa penúria de dar dó. Mês a mês é a mesma coisa. Não bastasse isso, agora o divórcio.
            O Padilha falava, falava, e eu nada entendia. O barulho era ensurdecedor, de modo que me afastei um pouco a fim de ouvi-lo. Com algum custo passei a entendê-lo. O caso é que, passou a relatar o Padilha, o Pinto ainda não saiu de casa. Ainda coabita com a mulher. Motivo: a pindaíba. Se todo mês ao fim do mês estava duro o Pinto, calculem como seria divorciado – um Pinto indefinidamente duro, o mês inteiro.
            Ocorreu, então, de saírem juntos com os filhos a um desses shoppings o Padilha e o Pinto. Enquanto as crianças brincavam no parque, confabulavam os amigos sobre as vicissitudes da vida, o futuro, as intempéries do matrimônio, enfim, se acumpliciavam e se consolavam mutuamente. Estavam ali numa mesa próxima ao parque quando se aproxima uma gostosa a segurar pela mão a filhinha pequena, amiga da filha do Pinto.
            Ontem falei da gostosa da Beira-Mar, a gostosa de vinte e poucos anos que não se permite flertar pelo cinqüentão. (Segundo uma amiga, ela flerta ou não, a depender da conta bancária do cinqüentão.) Ali no shopping, a se aproximar do Padilha e do Pinto, a essas alturas mais duro do que ferro frio, a gostosa era mais entrada em anos. Sim, a gostosa do shopping era a coroa gostosa, nas palavras do próprio Padilha. Vinha de lá requebrante e sensual, exalando um desses perfumes que atiçam o apetite, e no rosto um sorriso franco e cativante. Em tudo que tange ao comportamento diferia a coroa gostosa da gostosa de vinte e poucos. O Pinto, em sua melancolia de meio divorciado, via aquela mulher rechonchuda e insinuante e sonhava acordado. Por uns poucos segundos mergulhou o Pinto em estado de suspensão dos outros sentidos e sonhou todos os sonhos de abstêmio sexual.
            Em poucas palavras os três se conheceram, tudo em função da amizade das crianças. Em algum momento da conversa, Padilha denunciou à bela coroa o deplorável estado civil do amigo. Pinto, é bom que se diga, experimentou um certo gozo na anunciação de sua solteirice àquele belo espécime de mulher. Era como se já vislumbrasse uma outra vida além dos portais do casamento desfeito. O Padilha, casado até a alma e safado até os dentes, empenhava-se em trabalhar para que o amigo e a coroa já se vissem com outros olhos, já que ela era divorciada de há muito.
            Dali a pouco se despediram.
            Estava em casa poucos instantes depois o Padilha, quando buzinam lá fora. Vai ver quem é. O carro era o do Pinto. Vinham a mulher, o Pinto e os dois filhos. Pinto permaneceu sentado à direção, enquanto a mulher abre a porta do carona e desce. Vem ao encontro do Padilha. De dedo em riste na cara do outro, deblatera: -“Não quero que ninguém saiba que estamos nos separando! Você me faça o favor de segurar essa língua frouxa!” Vira-se, entra no carro, Pinto dá a partida e acelera. Padilha ficou na calçada parado, meio zonzo.
            No telefone comigo grita: -“Esse Pinto é um borra-botas! Um molóide! A mulher faz e acontece e ele nada! Seu casamento é uma mentira! Seu divórcio é uma mentira! Eu, hein?!” E desligou esquecendo-se de me dizer sobre o que queria que eu escrevesse.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma vez gostosa, nem sempre gostosa

Suponhamos uma gostosa. Sim, uma mulher bem gostosa. Ela está ali no calçadão, na Beira-Mar, desfilando em seu traje esportivo mais sensual e revelador que se possa imaginar. Exibe seus seios fartos e rijos num deboche humilhante; quase não balouçam às suas largas passadas. A barriga é durinha. As coxas grossas se prolongam em pernas roliças, numa proporcionalidade fibonáccica. Terá o quê?, vinte e poucos anos, se tanto. Talvez tenha mais, não importa. Importa que aparente vinte e poucos.
            Eis, então, que lhe aparece o Amorim, o cinqüentão. Estupefato e babando a baba elástica e bovina rodriguiana, aproxima-se. Quer abordá-la. Falta-lhe a derradeira vergonha que já deveria ser própria de um cinqüentão. Mas, não; não ao Amorim. Aproxima-se quando ela pára um pouco para ajeitar o cabelo, resfolegar. Diz-lhe qualquer coisa pouco original. Ela percebe a cantada e fuzila: -“Sai pra lá, tio!”
            Perceberam? “Tio”! Talvez também tenha dito algo como: -“ Não se enxerga, não?!” Não se ouviu esta última frase dado o impacto da primeira. “Tio”!
            Passados alguns dias o encontro lá, no mesmo calçadão. Sentamos a conversar e limpar a vista. Cinqüentões podem limpar a vista, pois não? Ninguém é de ferro. A bem da verdade, cinqüentões saudáveis pensam e desejam como garotos de vinte. Estaria aí a defesa do Amorim. E o que acontece?
Eis que aparece a gostosa, a mesma que o Amorim flertara. Ele me puxa; me encosta a boca ao ouvido e se queixa, indignado: -“Essa aí fez assim, assim, assim...comigo.” Olho a moça da cabeça aos sapatos. Já descrevi a gostosa. Voltem ao início e releiam. Eu mesmo já a tinha visto outras vezes. Qualquer um que a visse dela se lembraria. Olho cada detalhe. Penso: -“Vai ser gostosa assim lá em casa!”
Viro-me pro Amorim. Desabafo: -“Meu chapa, uma mulher como essa um homem como você não deve abordar jamais!” Continuei: -“Não tens o direito!” Ele queixava-se de sua grosseria do outro dia. Tentei fazê-lo ver que as novas, as de vinte e poucos, abordam os cinqüentões somente quando querem. Não é sua primeira preferência, via de regra. Em outras palavras, um cinqüentão não flerta uma de vinte e poucos, a não ser que dela parta a iniciativa.
Hoje encontro o... Ocorreu-me agorinha que não lhe sei o nome. Ele tem sessenta e sete anos e é assíduo freqüentador do calçadão. Corre quase que diariamente. Não o conhecia até outro dia, quando ele chegou ao final do percurso, olhando para o relógio a conferir o tempo que gastara na corrida. Ele ia passando por mim e lhe perguntei: -“Quanto?” Ele respondeu, cheio de si: -“Seis quilômetros em trinta e três minutos!” E ficamos a conversar. Desde então somos amigos. Hoje convalescia de um leve resfriado adquirido no fim de semana. Relatava-me uma peripécia sexual com certa donzela, razão da indisposição temporária. Dizia: -“Dormi nu com o condicionador de ar em cima de mim!”
Vejam quanta diferença. Podemos abordar as pessoas despretensiosamente ou com segundas intenções. O diabo é que a gostosa sempre terá a certeza de que está sendo alvo de cobiçosos marmanjos à caça. Amorim tem razão numa coisa: ela bem poderia ter feito um amigo. Afinal, Amorim é um adorável e amorável cinqüentão. Se não sabe ser gostosa, esquece que dias mais negros lhe virão a propósito de sua gostosura...  
E consolei o amigo: -“O tempo será a tua vingança!” Uma vez gostosa, nem sempre gostosa...

sábado, 20 de agosto de 2011

"Posconceito" sobre um certo preconceito

Aquele que escreve não tem mais com o que se preocupar. Como parte da crescente idéia de que não há o mal, não há também o erro. Sim, não há mais distinção entre certo e errado. Como não mais existe o erro, não mais faz sentido falar que algo seja ou esteja “errado”. Portanto, falemos como quisermos, escrevamos como quisermos. Se disser ou escrever “havia menas gente no restaurante”, não se constatará aqui um erro – será uma “variação” lingüística.
            Há certo professor na Universidade de Brasília, “intelectual” dado ao estudo da língua, autor de livros, trabalhos e teses, tradutor, e tantas outras qualificações acadêmicas, e que se chama Marcos Bagno, que é um dos propagadores e criadores do conceito de “variação” lingüística.
Dentre os livros que escreveu está um intitulado “Preconceito Lingüístico”. Certamente não o li e seguramente jamais o farei. Seu conteúdo foi resumido numa reportagem na revista Carta Capital, sendo o bastante para denunciar sua natureza... – (procuro um adjetivo que melhor o qualifique, mas suspeito que um só não fosse o bastante).
Vil. Sim, o adjetivo vil vem bem a contemplar o que representa esse disparate literário. Porque o ex-presidente apedeuta assassinava a norma culta diariamente, o senhor Bagno sai de lá com a “estória” de que as elites, a classe dominante, os reacionários, os capitalistas, em suma, todos os exploradores do homem usam a língua – entenda-se a norma culta – para oprimir, para excluir, para segregar. E conclui: o que se diz “errado” no que tange a escrita e a língua falada não é errado; é uma “variação” lingüística. “Havia menas gente no restaurante” não é um estupro da norma culta; é apenas uma “variação”, e tentar corrigir seria evidência de “preconceito lingüístico”. Não se surpreendam se em breve alguém sugerir a criminalização de tal “preconceito” e propor uma pena de, digamos, 5 anos de reclusão ao professor de português que, na prova, considerar errada tal construção. Para cada imputação de erro, 5 anos no xadrez.    
            Outro dia o meu amigo Ciro Ciarlini me repreendeu. Disse: -“Tens de ler outros semanários!” E tudo isso porque eu era, àquele tempo, assinante da revista Veja. Não sabia ele que eu era assinante de outras. Ora, todas essas publicações, ou qualquer outra fonte, devem ser lidas com senso crítico. Já pude surpreender os repórteres de Veja escreverem asneiras monstruosas.
            Depois da reportagem de Carta Capital com o senhor Bagno, veio Veja com uma entrevista com o senhor Evanildo Bechara. E o que disse o senhor Bechara a Veja sobre as tais “variações” lingüísticas poderia muito bem ter dito a Carta Capital. E disse o sensato, o óbvio, o que qualquer mente desgarrada de amarras ideológicas diria: a norma culta não está sujeita a arroubos de esquerda ou de direita. Que existem as variações lingüísticas – vejam os romances do grande Guimarães Rosa – não se discute. O que se discute e se teme é a tentativa de ideologizar o tema.
            Seria engraçado se esse tipo de gente resolvesse fazer o mesmo com a matemática. Imaginem – criar-se-iam a “variação matemática” e o “preconceito matemático”. E talvez quisessem ir mais longe e ideologizar a física, a química, a biologia...
            Agora, me perco a pensar o que têm de diferente Veja e Carta Capital. Não muito, é provável. Talvez a diferença esteja na evidente tentativa de uma de participar da aspersão do conceito de que não há o mal nem o erro, enquanto a outra ainda se preserva o direito de denunciá-la.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A tormenta e o poema

“...eis o dilema:
            (com)parar,
            ou (con)seguir.”

            (Chico Passeata)

Tudo o que julgamos ter valor guardamos. E, quando supomos ter o que queremos guardar valor inestimável, o guardamos ainda mais secretamente.
            Com a morte do querido Chico Passeata, queria sair à cata da tirinha de papel que, tenho certeza, guardei n’algum lugar de minha estante. Bem sei que o poema de única estrofe me ficou guardado também na memória desde o primeiro instante em que lhe deitei os olhos. Ainda assim queria o papel, manuscrito à letra do Chico, letra bonita, cuidada, quase desenhada. Queria achá-lo por alguma razão que, embora me escape justo agora, era premente para mim.
            Queria achá-lo, mas não o procurei de fato. Era uma intenção sem ação. Lembrava-me do papel, do azul da tinta da caneta utilizada, das três pautas nele impressas sobre as quais estavam as letras do Chico; quase podia vê-lo se materializar em minhas mãos. As horas passavam e eu apenas nele pensava.
            Sabia que estava muito bem guardado, protegido de não sei quê. O segredo era tão desconhecido que por um instante acreditei em alguma armadilha de minha memória que abrisse um alçapão para meu subconsciente. A verdade é que esquecera por completo onde o pusera. Agora, neste exato momento, ele está ali, na estante, no outro aposento, escondido como relíquia rara. Algum dia, qualquer dia, numa dessas faxinas que se faz a intervalos, hei de encontrá-lo.
            E por que o queria? Agora me lembro. Queria a prova da existência do lampejo genial do poeta. A poesia do Chico, como uma supernova que não se apaga, está imortalizada na tirinha de papel que guardo em lugar por enquanto desconhecido. A tirinha é para mim como um Hubble particular apontado para a essência do poeta a atestar da autenticidade de sua explosão bela e maravilhosa.
            O que eu não disse até agora é que aquela foi a última vez que vi o Chico. Hão de perceber, então, o significado para mim desse objeto tão minúsculo, depositário de tão carinhosa dádiva.
            Refugio-me da tormenta... no poema.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Menos um poeta

“...eis o dilema:
(com)parar,
ou (con)seguir.”

(Chico Passeata)

            Dias há em que não se espera muito da vida. Há algum tempo um amigo me escreveu. Dizia: -“Quero te contar da avalanche que sobreveio à minha vida...” E queria marcar um almoço ou jantar onde pudesse expor a sua nudez de desvalido ao amigo que dizia tanto amar.
            Apesar de me colocar à disposição para ouvi-lo à hora que quisesse e bem entendesse, seu convite nunca veio. Concluí que há ímpetos dos quais o ser humano se arrepende.
            Outro dia estava a almoçar com uma amiga e, na mesa ao lado, alguém me chama. Era o meu querido amigo e poeta Chico Passeata. Cumprimentou-me com uma efusão que, até hoje, julgo não merecer. Então, passou-me um pequeno pedaço de papel onde rabiscara, naquele exato momento, as palavras colocadas em epígrafe neste texto.
            Observem vocês a sensibilidade do homem expressa da forma mais lírica possível, e escrita à fuga das regras da métrica e da sintaxe; toda uma carga de sentimentos preenchendo todas as possibilidades sinonímicas de cada palavra e até de toda e cada sílaba; toda uma canção embutida numa única e mínima estrofe; toda a beleza sonora que emite significados mil. Chico era um grande poeta.
            Digo “era” porque hoje pela manhã recebi mensagem dando conta de sua prematura morte. Eu desconhecia a doença que lhe ceifou a vida. Foi, então, um choque para mim.
            Dias há em que não se espera muito da vida.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dois apartamentos (e uma sepultura)

- “E aí? Como vai?”
            Ia responder quando alguém interrompeu para falar qualquer coisa.
            Voltou: - “Tô mal, bicho. Tô fodido.”
            Quis saber: -“Como assim? Me parece ótimo!”  
            - “Pois é. Fiz uma viagem, quando voltei fui ao médico. Diabetes, hipertensão, colesterol nas alturas.”
            Quis demonstrar uma cumplicidade na desgraça: - “Bobagem. Eu mesmo estou com hipertensão leve, intolerância à glicose e triglicérides acima do normal.”
            - “É o meu caso, mas a doutora não quis saber: passou remédio pra tudo.”
            Sugeri mudanças no estilo de vida e na alimentação: - “Começa uma atividade física regular e muda a alimentação que tudo melhora.” Completei: -“E vê se diminui o trabalho, né?”
            Respondeu: -“Tirei férias e vou substituir a mim mesmo nas férias.” E concluiu resignado: -“Não tenho tempo pra nada."
            - “Estás maluco! Vai descansar, rapaz!”
            - “Tô pagando dois apartamentos.”
            Meneava a cabeça enquanto se sentava numa cadeira próxima. Ia se derreando e dizendo, numa dessas constatações irremediáveis e fatais: -“Tô mesmo fodido!”
            Saí fulminado por sua certeza: o homem está mesmo fodido. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Eu, um charuto freudiano

Devo ser um sujeito cheio de sorte. No espaço de bem pouco tempo duas amigas me escreveram para confessar o seguinte: - haviam sonhado comigo. E, se bem me lembro, uma delas pela segunda vez. Então, foram três sonhos. Coloquemos de forma bem completa: duas mulheres, três sonhos e eu de pivô.
            Vocês bem sabem o que pode dar ao se pôr frente a frente um homem e uma mulher. Põe-se um e outro e abre-se uma janela a um infinito conhecido. Assim, vale a seguinte questão: e quando não se os põem juntos? Poder-se-ia responder, despretensiosamente: quando não se os põem juntos restam os sonhos.
            Freud imputava aos sonhos a realização de desejos reprimidos, “os desejos que não somos capazes de expressar em um ambiente social”. Seu discípulo Carl Jung discordou. Freud estaria influenciado pela época da repressão sexual vitoriana e só pensava “naquilo”. Depois vieram Hobson e McCarley e disseram que os sonhos eram apenas estímulos fisiológicos aleatórios que “puxam imagens dos traços de experiências armazenadas na memória”, ao que parece a teoria que resiste à prova do tempo.
            Freud ficou a mercê dos pesadelos, que queriam ameaçar-lhe a teoria, mas saiu-se engenhosamente alegando que eles seriam desejos sádicos e masoquistas reprimidos. Ainda assim não conseguiu livrar-se da acusação de Erich Fromm de que seria “um nacionalista carente de inclinações artísticas ou poéticas e, por conseguinte, não tinha quase sensibilidade alguma”. Para ele, embora Freud certa vez tivesse dito que “às vezes um charuto é só um charuto”, sua interpretação estritamente sexual dos símbolos era a prova de sua insensibilidade “para a linguagem poética”. Em suma, o homem só pensava mesmo “naquilo”; não era capaz de associar o simbolismo dos sonhos a outra coisa que não fosse pirocas e xoxotas. Não haveria conflitos interiores outros que não os de natureza sexual.
Ainda que o pensamento do Mestre seja hoje tratado apenas como parte da história da psicanálise, é tentador relembrá-lo ao relato de sonhos de amigas de teor inteiramente impróprio para menores. É ou não é? Devo enfatizar: - uma delas sonhou por duas vezes comigo, uma delas repleta de teor sexual. O sonho da outra foi, pelo que pude entender, do começo ao fim, uma fudelança só.
Eu disse ao início que devo ser um sujeito sortudo. É, sem dúvida, uma grande pretensão de minha parte. Afinal, e ainda me reportando às fracassadas teorias do Freud para explicar a natureza dos sonhos, os pesadelos também são sonhos. Minhas queridas amigas talvez tenham se privado de me confessar a suadeira e o terror que se lhes abateu ao despertarem. Seriam sádicas por nutrirem por mim um desejo sexual recheado de práticas e objetos torturantes? Ou seriam masoquistas a pensarem em mim como o carrasco de sua dor ao leito do amor?  Só de pensar já me assaltam o terror e a vergonha.
Em todo caso, fica a minha confissão de me saber no limbo e no limite, talvez nas profundezas de algumas inconsciências, objeto de prazer idílico ou fonte de penúria e aflição. Estarei por isso necessitado de um discípulo do Mestre? Oh, destino cruel!...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Dia do Solteiro e o Dia da Tia Solteirona

Viram que no último domingo se comemorou o dia do orgasmo. Em que pese o inconformismo de uma parcela de nós sobre a existência da “comemoração” de tão inusitado dia, não houve jeito – no 31 de julho próximo passado soltaram-se fogos pelo dia do orgasmo. A propósito, fogos e orgasmos têm muito a ver. Possivelmente mais do que isso. Há quem tenha orgasmos de forma semelhante ao ribombar de fogos de artifício.
            É sabido que o neurótico é aquele, ou aquela, que sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Se admitisse e desse por encerrado que dois mais dois são quatro, deixaria de ser neurótico no segundo seguinte. Bem se vê que a neurose seria curada sem médico, psicólogo ou qualquer tipo dedicado ao tratamento dos transtornos mentais. Em alto e bom som afirmo: - a cura da neurose é uma questão de decisão pessoal, desculpem-me lá o doutor William Cullen e os diversos correntistas da psicologia.
            Relacionemos os dois parágrafos precedentes através de um exemplo. Seja um indivíduo inconformado com a criação e a existência do dia do orgasmo. Ainda que o considere uma aberração, e é bem possível que esteja certo, o melhor que tem a fazer é aceitar o fato. Estará irremediavelmente sadio. Eis aí tudo.
            O que muitos ainda não sabem é que no próximo dia 15 de agosto se comemora o dia do solteiro. O solteiro é um indivíduo em plena gestação, em plena ascensão, em plena fase de “criação”. Falo do solteiro convicto, não do solteiro eventual ou de outro tipo.
            Há, para os que ainda não se aperceberam, dois tipos de solteiro convicto: o convicto essencial e o convicto “secundário”. O essencial é o que jamais contraiu matrimônio, ao passo que o secundário é o que já foi casado não importa quantas vezes. Os solteiros eventuais incluem aqueles com o “cérebro de casado”. O solteiro “cérebro de casado” é um tipo bem específico. Inclui aqueles, ou aquelas, que pensam sempre em termos fechados em relação a tudo que se refira a uma relação amorosa. Eles estão, peremptoriamente, excluídos da classe dos solteiros convictos.
            Digo que o solteiro é um espécime em plena criação porque, em que pese o fato de em nosso país ter vigorado desde sempre a idéia da instituição do casamento como um fim, eles se multiplicam a olhos vistos, e agora sem as repreensões e repressões do passado. A idéia de casar parece ainda ser a preponderante, mas é sensível o aumento no número de solteiros convictos, de um tipo ou de outro. Talvez por isso tenha vindo de lá alguém e criado o dia para comemorar o fenômeno.
            Boa idéia foi a criação da ASA, aqui em Fortaleza.
            Para os que não conhecem, a ASA (Associação dos Solteiros Assumidos) – entidade criada há sabe-se lá quanto tempo e com que finalidade – foi fundada por um grupo de amigas decididas a permanecer livres das opressões, caprichos e tiranias do gênero masculino sem, contudo, divergir de suas preferências sexuais iniciais. Permanecem hétero até debaixo d’água. Quase todas, senão todas, já haviam sido vítimas do conto de fadas pelo menos uma vez. Depois, a associação passou a receber o ingresso de homens também interessados na solteirice assumida, e hoje permanece aberta à adesão de novos membros.
            Alguém teria comentado que a razão do desprestígio do dia do solteiro teria como razão principal sua falta de apelo comercial, mas tal conclusão se mostra destituída de embasamento quando se constata a existência de agências de turismo voltadas a este público específico (http://www.terrazul.tur.br/).
Lamentável constatação foi a descoberta da existência do Dia da Tia Solteirona, 25 de setembro. A julgar que os dias comemorativos servem a nos levar a festejar o objeto de devoção daquele dia, custa-me acreditar que se queira comemorar tal dia. Vejam o dia do médico (18 de outubro), o dia do músico (22 de novembro), o dia do garçom (11 de agosto). Todos são datas em que se homenageiam esses profissionais. E o que dizer do dia do palhaço (10 de dezembro) e do dia do vizinho (23 de dezembro)? Algo de bom se faz aos lembrados em seu dia.
E o Dia da Tia Solteirona? O que se pretende ao se “comemorar” esse dia? A pobre mulher já não foi vítima do dia do solteiro? Para que torturá-la com mais essa constatação de sua rejeição? E aqui percebemos a existência de mais um tipo de solteiro: - o compulsório, por contingências da vida. Ela é um tipo de solteiro convicto cuja convicção não é necessariamente a sua, mas a dos outros. A esse tipo lhe ficou reservado um dia especial.
            Encerro lembrando aos amigos membros da ASA que há ainda bastante tempo para que se organize um evento de modo a não deixar passar em branco o próximo 15 de agosto, dia do solteiro. E que tal criar um grupo facebookiano para lembrar o dia?