quarta-feira, 31 de julho de 2013

O homem só descansa quando morre


                Eis que ao último dia de férias me toca o telefone portátil. Era o meu amigo Guimarães. Saudei-o com legítima e genuína efusividade e contentamento.
               Quis saber o que andava fazendo ultimamente. Contei-lhe das férias em Paris. Ele muito se alegrou e me parabenizou pela escolha. 
               Lá pelas tantas disse-lhe: - "A que devo a honra"?
               Respondeu: -"Tenho uma boa pra te contar".
               Há tempos não falávamos. 
               Surpreso, redargui: -"Que bom! Estão rareando as boas notícias, meu velho"...
               E passou a relatar a história do ponto eletrônico do hospital. Concluímos que os burocratas do governo são todos, sem exceção, uns trogloditas sem tirar nem pôr. Onde já se viu? Na incapacidade de resolver os reais problemas que nos assolam, o que fazem? Oprimem o servidor público. Resultado: incompetência para resolver os problemas e competência para mexer no bolso do servidor. Na prática, o povo, que em última e primeira análise é quem deveria usufruir dos serviços, segue sem nada usufruir. 
               Súbito, elogiou-me rasgadamente, e até fazendo uso de um hipocorístico: 
               -"És um sábio, Fernandinho"... E continuou sem dar tempo a meu pedido de explicações: "Fizeste muito bem em fechar o consultório". 
                Permaneci calado enquanto ele destilava sua decepção e exaspero. 
               -"Pago, por mês, dois mil e quatrocentos reais de INSS de minhas duas funcionárias. Só de INSS! Percebes"? Fez uma pausa para suspirar e retornou: -"Nem falo das outras despesas, que essas é que me matam mesmo. Um absurdo! Um absurdo"! 
               Fui solidário, mas julguei apropriado injetar- lhe um mínimo de estímulo:
               -"Meu chapa, você precisa continuar. Imagina se todo mundo resolve parar e fechar o consultório"? Esperei para lhe dar tempo a pensar. Continuei:
               -"Já viste os garis recolhendo o lixo na madrugada? com aquelas roupas imundas? naquele caminhão podre com aquela máquina remoendo e triturando aquela fedentina? E se não houvesse quem estivesse disposto a fazer aquilo? o que seria de nós, das ruas, da cidade"?... Completei: -"Por uma mixaria"!
               A mim me pareceu que ele nada escutara do que eu acabara de falar. Emendava o discurso com mais queixas: 
               -"A cidade 'tá cheia de especialistas; o povo não enriquece e continua sem plano de saúde; a concorrência aumenta; os valores pagos perdem força por conta da inflação, e por aí vai... A coisa 'tá preta, meu filho"... 
               Seu desânimo era indubitável. Concordava comigo mesmo sem nada lhe ter dito à guisa de lição de vida. (Quem sou eu para dar lição de vida a quem quer que seja?)
               -"Estás certíssimo... É preciso viver... Não vale a pena esse corre-corre sem fim... E a saúde? Só se dá conta quando se tem um piripaque..."
               Seu desabafo chegava ao fim. Disse: -"Vou indo, meu querido amigo. Tenho aqui uns doentes para atender". E assim nos despedimos, ele para seguir fazendo o que não mais quer, eu para gozar o improdutivo ócio de meu último dia. (Ainda bem que ele foi atender os doentes!)
               Amanhã tudo será como antes. O homem só descansa quando morre. (Quem foi mesmo que disse isso? Acho que foi o Nelson...)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Caldeirão


               Foi uma descida para ir aqui pertinho, numa agência bancária. Ainda de dentro do condomínio avistei, através do portão, um dos taxistas que fazem ponto aqui defronte se aproximar. Pensei: - "Vem falar comigo..." E, de fato, tão logo fechei o portão por fora, Caçarola – só lhe conheço o apelido – me abordou. Queria relatar um problema de saúde da mulher, saber s'eu podia ajudar.
               (A consulta na "porta da feira" – "porta da feira" é expressão do tempo da vovó que significa "casa", "residência", "lar" – não é muito comum. Ela é mais usual na fila, na esquina, na festa de quinze anos, no buffet após a cerimônia religiosa, e por aí vai... Na "porta da feira" foi a primeira vez. E pior. Não era a doente que me consultava: - era o marido!)
               Disse-me: -"O doutor lá nem olhou pra cara dela..." Havia sido "consultada" por um médico da Santa Casa. Os exames que pediu demonstraram que ela tinha pedra na vesícula. Vai voltar lá semana que vem, mas queria saber por que diabos a patroa vivia cheia de dores no corpo. "Um doutor não devia fazer assim, não olhar pra cara do paciente...", dizia ele resignadamente e com uma certa doçura e pureza na fala. 
               Ainda conversava com ele quando percebi que alguém se aproximava. Era o João Mesquita, outro dos taxistas. Torce pelo Fortaleza. Queria me relatar o resultado de uma ajuda que lhe dei antes de sair de férias. A cunhada também tinha pedra na vesícula e eu havia "intermediado" um amigo para vê-la e operá-la. Resolveu bater o telefone ali mesmo, do meio da rua, para a mulher. Ela tinha mais informações para me passar. Enquanto ele discava e reclamava da operadora, um carro parou rente ao meio fio, defronte a nós. 
               -"Doutor, como vai?", gritou o taxista de lá. A princípio não o reconheci, mas logo em seguida me dei conta. Era o Carlão. Aproximei-me e acocorei-me à janela para lhe falar. Contou-me que a mulher não estava bem. Após a colocação de uma prótese de coronária, dera pra acordar à madrugada, sobressaltada, dando chiliques. Disse que não tinha sossego. Muitas vezes ela lhe pedia a que voltasse cedo pra casa. Sugeri: -"Não seria medo de morrer?" Despedimos-nos com a sugestão de, caso necessário, ele levá-la ao meu ambulatório. Agradeceu e deu a partida. Voltei-me para falar com o outro, o João Mesquita, o que tentava ligar para a mulher. 
               Eu já demonstrava pressa. "Aonde vai o senhor"?, perguntou. Disse-lhe que ia ao banco, ali pertinho. Sugeriu: -"Levo o senhor"!
               Retruquei: -"Precisa não, rapaz". 
               Insistiu: -"A gente vai conversando". 
               No caminho, enquanto dirigia, passou-me o telefone. A mulher pedia para que eu, se possível, desse um jeito de "agilizar" a operação da irmã. Prometi empenho no assunto, e assim nos despedimos. Tão logo saltei, próximo à agência bancária, um sujeito que vinha por trás resmungou algo sobre um furto a uma loja na Monsenhor Tabosa, perto do banco. E arrematou, desolado: -"Estamos num mato sem cachorro"...! 
               Entrei na agência mais desolado ainda. Haverá esperança para nós?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Uma breve reflexão sobre Gênesis


               É no mínimo intrigante como as "brechas" de Gênesis nos permitem lucubrações fascinantes e verossímeis, ao contrário do que pensam os que têm dificuldade ou preguiça de pensar. Foi o senhor Albert Einstein quem disse que "a imaginação é mais importante que o conhecimento". Assim, imaginemos o genoma perfeito. Pergunto: - há o genoma perfeito? O que ocorreria à vida biológica do ser cujas células abrigassem em seu núcleo o genoma perfeito? 
               Há, aqui, em minhas lucubrações, um equívoco contornável e necessitado de correção. O equívoco é a pergunta. Não que a que acabei de formular não seja pertinente ou vital. Ela o é. Mas há outra que lhe antecede, de importância maior, posto que sirva para a definição inicial sobre a qual imaginaremos as possibilidades dela decorrentes. O que seria um "genoma perfeito"?, seria a questão principal. Se não fosse possível respondê-la, estaríamos num mato sem cachorro.
               Um genoma perfeito seria aquele em que os alelos de seus genes portassem informações de variações normais apenas, como cor da pele, dos cabelos, dos olhos, estatura, etc. Não haveria seqüências de nucleotídeos a comandar desequilíbrios no crescimento celular, por exemplo; nem haveria tríades de bases a comandar a síntese de proteínas que implicassem em danos para o organismo. Eis aí uma definição nada complicada de "genoma perfeito". 
               Para não incorrermos no erro crasso dos uniformitaristas, que julgam que as condições permanecem imutáveis e invariáveis ao longo do tempo – sabe-se que não é isso o que ocorre –, presume-se que esse genoma tenda a sofrer alterações à medida em que passa o tempo. Isso o levaria de um estado de perfeição inicial a um estado subseqüente de degeneração. Para manter indefinidamente imutável o estado inicial de perfeição seria necessário um mecanismo reparador em contínua ação, a fim de preservar intactos os genes primevos. Substâncias "reparadoras" funcionariam como um sistema de manutenção daquela engenhoca perfeitamente ideada e trazida à existência. 
               Seres portadores desse aparato infalível poderiam se reproduzir entre si ainda que tivessem laços consangüíneos. Genes perfeitos pareados a genes perfeitos só produzirão as variações normais das características individuais, sem nunca gerar seres portadores de genes "defeituosos". Um estado de saúde eterno seria, assim, possível. A "ciência" atual, é provável, diria que sim, que a saúde eterna seria perfeitamente possível. 
               É plausível imaginar que esses seres fossem perfeitos nas formas e no caráter? Seu ambiente também assim seria? perfeito e harmonioso? Se o genoma perfeito foi uma possibilidade inicial, então é possível que estejamos imaginando um mundo em condições iniciais diferentes, mas possíveis de ter existido em algum momento do passado. 
               O mecanismo reparador ou protetor é hoje cada vez mais conhecido da "ciência", os anti-oxidantes. Eles estão presentes em grande quantidade no reino vegetal, em algum tipo de planta, em algum tipo de árvore e, todos sabem, as árvores dão frutos. Quem quer que tenha escrito o Gênesis, lá escreveu que as árvores dão frutos cuja substância protege as células de danos e doenças; escreveu que, em algum tempo no passado, houve uma árvore que dava um fruto riquíssimo dessas substâncias e que o homem primevo dele fez uso. Não importa que não tenha revelado por quanto tempo esse homem usufruiu desse alimento, mas presume-se que seus efeitos fossem extraordinários, já que seus descendentes ainda viviam por quase mil anos após a interrupção de seu consumo e, ainda que cruzassem entre si, não geravam seres anômalos ou portadores de deformidades ou doenças decorrentes de consangüinidade. 
                 Pois vejam os leitores que tudo isso é o que está exposto no livro de Gênesis. Seres criados perfeitos, que mantinham sua perfeição através de sua alimentação. Depois, com os cruzamentos consangüíneos, ficou ainda mais clara a pureza do genoma inicial, já que a longevidade permanecia apesar da falta de suprimento do mecanismo reparador, o fruto da árvore da vida. 
               Observem que todas essas hipóteses estão perfeitamente inseridas no modelo positivista, uma vez que tudo nelas é compatível com o cientificismo naturalista. Nada há aqui de "sobrenatural". O momento da criação do primeiro ser, segundo Gênesis, se equipara ao modelo de criação positivista, a singularidade conhecida como big bang. A diferença entre ambos está na causalidade do evento. No primeiro "modelo", um Ser de Inteligência e poder infinitos é a causa de todos esses efeitos ao passo que, no segundo modelo, a causa de tudo é o acaso. 
          Para mais: http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/04/levantai-os-olhos-e-vede.html
              
               

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ou a comanda ou a conta!


               Eu estava para começar a escrever sobre minha viagem à França, mas lembrei-me que seria prudente adiar os comentários por mais alguns dias. Nunca se sabe até onde a ira de alguém pode ir. Assim, melhor é o silêncio sobre o tema, por enquanto.
               A minha sorte é que veio cair-me ao colo um tema que estará pra lá de batido, mas nunca é demais contribuir para as ebulições que ele provoca. Procurarei dar-lhe uma moldura menos talhada, a fim de lhe conferir toda a seriedade da qual é merecedor.
               Não sei se sabem que, após chegados de Paris, fomos, Bella e eu, gastar uns dias à praia do Mundaú, numa deliciosa e proveitosa pousada à beira-mar. Alguns dirão que nada mais apropriado, nada mais natural. O Brasil é um país lindíssimo, tem praias lindíssimas, nosso turismo está de vento em popa, e essas bobagens todas que nosso tolo bairrismo já se acostumou a decantar tão logo lhe dêem a chance. Cotejamentos à parte, o Brasil tem lugares lindíssimos, não resta dúvida; mas há no mundo bilhões de lugares tão ou mais lindos que o lugar mais lindo de nosso país. Portanto, paremos de ufanismos paisagísticos inúteis e pueris. 
               Havia dito ao início que não falaria da viagem ao Velho Mundo e, de fato, não o farei. Abro um parêntese apenas para dizer que, a propósito de lugares lindos, há lugares de belezas naturais, e há aqueles cuja beleza é inteiramente atribuível ao gênio e à sensibilidade do coração humano. Diria até que há belezas atribuíveis ao pior sentimento que o homem eventualmente nutre por seu semelhante: - o ódio e, em consequência, a vontade de e o planejamento para o destruir. No final, a guerra e, depois – seguindo-se a matança e a dor –, a contrição e o lamento. 
               Paris ostenta este último tipo de beleza, posto que seja deslumbrante inteiramente pela ação do homem, eis o que eu queria dizer. E diria mais. De fato, nada mais diria. Indagaria. E perguntaria: - que mérito há, para o homem, na beleza natural? Nenhum, eis a resposta. As belezas  da natureza são obra d'Aquele que a idealizou e a trouxe à existência, em que pese a empáfia do pó (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/A-empafia-do-po-b1-p201.htm), que insiste em o negar. 
               A pousada à beira-mar era um desses refúgios paradisíacos, onde o céu e o mar se encontram aonde quer que se deitem os olhos. O som das ondas é suprimido na baixa-mar, quando se formam aquelas mansas e límpidas piscinas naturais e o oceano recua bem longe. O vento corre incansável levando fumaças de areias daqui para ali, encrespando a rala mata que ainda beira aquela faixa de praia. Nas piscinas formadas, cardumes de minúsculos peixes vêm brincar, como a querer ostentar sua instintiva felicidade. Os pássaros cortam o céu entoando seu canto e, vez ou outra, vêm mergulhar nas águas daquelas lagoas para um banho refrescante ou para a refeição que ali se oferece. Este o cenário no qual o homem apenas se deleita e que, não fosse sua hedionda estupidez, diante dele ajoelhar-se-ia incansavelmente, diariamente e humildemente em adoração.
               Mal acordáramos de um sono reparador, fomos ao desjejum, que era servido no restaurante do lugar, com vistas para aquela "pintura" perfeita. Ao lá adentrarmos, nossa surpresa. Três policiais do Ronda do Quarteirão, que ali recebia o sugestivo epíteto de "polícia turística", se empanturravam das delícias preparadas para os hóspedes. Compunham a "tropa" um oficial graduado – era um major, se bem me recordo – e dois cabos. O oficial exibia uma silhueta mais ou menos atlética, ao contrário dos outros dois, que eram donos da comum obesidade entre nossos policiais. Vendo-lhes comer não é difícil descobrir a razão de tamanho desleixo. São uns glutões de primeira grandeza. Comem como se fossem morrer em seguida, ou como se há três dias não o fizessem. Um deles deu cabo da salada de frutas numa única "colherada". Não me assustei: - seu ventre comportaria uma tonelada de salada. 
               Dali a pouco o major deixou a mesa onde os três se refaziam e se dirigiu a três senhores que lá fora estavam, cumprimentando-os, a cada um pessoalmente, com sóbrios mas demorados apertos de mãos. Eram os proprietários do estabelecimento, dois jovens e um simpático senhor mais entrado em anos. Sentaram-se a uma mesa e demoraram-se a confabular. Os dois outros polícias ainda permaneceram bom tempo a se refestelar, após o que saíram e desceram em direção à parte do hotel que dava para o mar. Bella e eu saímos do restaurante nesse momento. 
               Eis aí o cenário da tragédia. Enquanto comíamos – com uma certa ânsia, já que temíamos não ser possível devido à gula daqueles funcionários públicos –, lucubrávamos. 
               Também somos funcionários públicos. Mas a nós não se permitem esses privilégios de comer gratuitamente em restaurantes particulares sem a devida contrapartida do pagamento da conta. É possível e bem provável que esses senhores recebam, juntamente com seus salários, um auxilio alimentação. Afinal, trabalham nas ruas e, no caso deles, em zona praiana, e precisam ter para as refeições. Mas, se assim recebem, por que não pagam pelo que comem nos estabelecimentos aonde vão? Se nada recebem para pagar por sua alimentação no horário de trabalho, aí sim. O patrão está obrigando o funcionário, cuja função é especial e ainda mais no cenário de violência desenfreada em que vivemos, a esses escandalosos incestos. É bem conhecida, mesmo na capital, a prática desses policiais no que tange a essa relação bastante promíscua com os estabelecimentos que oferecem alimentação, bares e restaurantes. 
               E só agora me dou conta de que posso aqui estar cometendo uma enorme injustiça. Não ter presenciado pessoalmente o momento em que os policiais meteram a mão no bolso para pagar a conta não significa que eles não o fizeram. E assim também todos os outros policiais do Ronda cujas viaturas vemos com freqüência paradas à porta de restaurantes da capital, e sentados à mesa fazendo suas refeições. Presumo que assinem a comanda que será depois, ao fim do mês, enviada ao governo do estado para a devida cobrança.
               Alguém aí já presenciou um policial do Ronda pagando a conta do que comeram nos restaurantes que freqüentam durante o serviço? Eu nunca. Tenho mais o que fazer. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Sobre cães e mendigos parisienses


              "É melhor ser cachorro aqui ou em Fortaleza"?, era o que eu pensava enquanto observava o cãozinho brincando nos jardins da Marechal Juin, em Paris. (Acho que não disse que estou em Paris, mas já, já vou dizer.) 
               Pois bem: - estou em Paris. Tudo o que se diz, no Ceará, sobre uma viagem que se faz ganha uma dimensão prosaica e causa uma tremenda impressão de petulância. Por isso, vou logo avisando aos navegantes: falarei às pampas, a partir de hoje, sobre essa viagem. Agüentem os que puderem. Os que não puderem suportar que não me leiam, ora bolas!
               A bem da verdade, não falarei da viagem. Falarei do que vi na viagem, e também do que nela não vi. (O que tenho visto em meu rincão é tão pavoroso e vergonhoso que chega-se a um ponto em que é urgente que se pare de ver.) Assim, repito, não falarei da viagem. Caso contrário, demonstraria a tão comum empáfia de nossos viajantes.
               O cachorro brincava com seu dono, como eu ia dizendo. E a ambos eu invejava. Com efeito, já fazia a seguinte reflexão: - há de ser melhor ser cachorro em Paris do que ser gente em Fortaleza. Vejam que desisti de comparar cachorros parisienses e cachorros fortalezenses. E por uma razão inusitada: - cachorros parisienses vivem bem melhor que nós, pobres e sofridos fortalezenses. Mesmo o cachorro de nossa mais refinada madame (?) vive pior que o mais miserável mendigo de La Defénse. (Uma amiga me sugeriu ir a La Defénse, mas por lá só passo ao vir do Charles de Gaulle. Nada há lá para se ver, posso garantir.) Sim, porque não sei se sabem, mas Paris está repleta de mendigos. Essa quantidade absurda somente é absurda para padrões parisienses, de modo que, para padrões brasileiros e, em particular, para padrões fortalezenses, a taxa de mendigos por aqui tende a zero. 
               Vejo mendigos jovens, vejo mendigos idosos, assim como vejo mendigos sóbrios e mendigos bêbedos, homens e mulheres. (Falando assim dou a impressão de ter, a princípio, mentido quanto a seu número.) Todos têm bons agasalhos e o que comer, ainda que seu alimento fosse obtido pela atividade de esmolar. 
               Todos os dias à esquina de de Villiers com de Chatelier, à saída da boulangerie onde compro a tradicional baguete, está um jovem bem apessoado, recostado ao poste, acocorado e encolhido sobre si mesmo, mais agasalhado que um esquimó, mantendo à frente de si a cestinha. Meu olhar furtivo sobre ela escrutina a féria até o momento. E me saúda, comedido: -"Bon jour, monsieur..." Seria seu estado constrangedor a causa dessa delicadeza? A cestinha está ainda quase vazia, embora vá adiantado o dia. São, de fato, poucos os mendigos por aqui. É a presença constante desse jovem à porta da padaria que me causa essa alucinação numérica, talvez.
               O mendigo de minha terra é um miserável da cabeça à sola dos pés. Cultiva suas úlceras e seu crânio afundado como meio de vida, e luta com todas as suas forças a que lhe tenham dó. Se lhe quiserem levar ao médico, não quererá ir. Preferirá manter seu deplorável estado, uma vez que nossa religiosidade abjeta lhe permita obter o que quer. Mendigo lá não é um estado: - é uma profissão. O cãozinho daqui, de Paris, tem melhor caráter, para nossa bendita tristeza... O mendigo, aqui, ainda é gente e sente-se digno. O cãozinho jamais o suplantará em merecimento de cuidados, ao passo que o mendigo fortalezense faz questão de ser o que é porque seu cérebro apodreceu faz tempo.
               Vejam vocês como é contagiante o que ocorre por aqui, assim como o é o que por aí vai. Aí o sujeito está como que morto, como um zumbi. Somos todos, aí, uma população de zumbis, mesmo os que não esmolam. Até nosso hedonismo nos é mortal, posto que nos iluda quanto à nossa ínfima vitalidade. Somos, aí, cada um de nós, muito pouco, muito menos, do que poderíamos ser. Assim, está perfeitamente explicado por que é melhor ser cachorro aqui do que ser gente aí. Os cães daqui são felizes. À gente daí – sou o primeiro a admitir! – só resta o hedonismo. 
               Aí está o que eu queria dizer, para começar, e enquanto cá ainda estou.

Paris, 13.07.2013