sábado, 31 de outubro de 2015

OS GATOS DE LAURINHA

          Os leitores hão de convir – um apelido pode ser aperfeiçoado e até ganhar derivadas impensáveis. Tudo vai depender do objeto do apelido e da imaginação de quem o criou. Façamos, assim, uma breve recapitulação.
          Quando notou-se a semelhança entre o nosso Fábio Motta e o ex-técnico argentino Cesar Luis Menotti, cuidou-se de, daquele momento em diante, chamá-lo de Fábio "Menotti" Motta. E, querem saber?: – ele adorou. O amado Fábio Motta, digo, Fábio "Menotti" Motta, adora que se o compare a pessoas bem sucedidas, ou bonitas, ou famosas. 
          Com o passar do tempo, pouco tempo diga-se, "Menotti" Motta demonstrava cada vez mais um comportamento regressivo, em que o indivíduo parece querer voltar no tempo e ser novamente a criança levada e incansável de outrora. A bem da verdade tal comportamento já era de antes, bem antes. O amigo, que vestia-se impecavelmente como um executivo de firma de primeiro mundo, passou a usar roupas de estilo casual, calças jeans, camisas pólo e sapatos esportivos. Os cabelos, antes bem aparados e cuidados – usava, inclusive, um xampu Yamasterol para clareá-los –, agora usava-os desleixadamente, sem cortá-los. Cresciam na parte de trás da cabeça e rareavam no topo. "Teu 'telhado' está desaparecendo", diziam seus mais mordazes amigos. Adquiriu até, digamos logo àqueles que ainda não sabem, sestros e ademanes duvidosos, como o de enrolar os cabelos entre os dedos à moda de quem faz cachos. Comenta-se até que seu fígaro havia rompido com ele, uma amizade e uma prestação de serviço de quase 30 anos. Comprou, dizem, quase 10 diferentes tipos de pranchas para praticar o surf; entrou para uma escola de natação e para um curso de apneia. Tanto que esperava-se, a qualquer momento, a notícia do "Menotti" no Havaí, surfando as maiores ondas do planeta. No cômputo geral, parecia que ele desejava tornar-se uma espécie de Benjamin Button brasileiro ou um Peter Pan de sungas. 
          Pois foi justamente esse comportamento regressivo que inspirou alguns de seus amigos ao "aperfeiçoamento" do apelido. Como o amado amigo regredisse aos tempos de menino, passou-se a chamá-lo de Fábio "Meninotti" Motta. 
          (Não sei se diga... Não vou dizer. Pensando bem, por que não haveria de dizer? Pois direi: – o grande responsável por esse aperfeiçoamento na alcunha do Motta foi o Sérgio Moura, o Serjão. Em nossas confabulações durante um de nossos encontros às quintas, num desses lampejos que só o álcool inspira, Serjão me sai com essa pérola. Não havia como negar – era perfeita a adequação do termo a tudo o que o nosso Motta tem sido nos últimos tempos.)
          Na quinta passada os amigos-irmãos entraram a pensar um encontro semelhante aos nossos da quinta, mas com a participação de nossas mulheres. Iniciou-se o debate na tentativa de escolher o dia e o local . O Mesquita sugeriu uma boate no sábado, enquanto o " Meninotti" Motta preferia um barzinho. A boate é local onde o movimento começa, todos sabem, bem mais tarde. "Meninotti", ao contrário, propunha nos encontrarmos no barzinho às 19:30. "Mas... sete e meia"??, todos queriam saber. "Por que tão cedo"?, insistimos. Então o nosso "Meninotti" foi explicar a história dos gatos de Laurinha. É o seguinte.
          Laurinha cria gatos. Não podia voltar para casa muito tarde por causa dos gatos. Quem haveria de alimentá-los? Se não tomassem o leitinho da noite, antes de dormir, quem sabe o que poderia lhes acontecer?... Alguém saltou de lá – acho que o Gaudêncio ou o Mesquita – e sugeriu: —"Diga-lhe que deixe o gato na vizinha". "Meninotti" foi explicar, então, que não era somente um, mas três ou quatro bichanos. A namorada cria três ou quatro bichanos. Não é preciso dizer que não se chegou a acordo quanto a este encontro, tudo por conta dos gatos de Laurinha e do cuidado de nosso "Meninotti" Motta para com eles e, por consequência, para com a namorada. Demonstrado fica que o amor é um pacote completo. Quando se ama alguém, ama-se-lhe também as idiossincrasias, os cães e os gatos. Por isso o apelido de nosso Motta recebeu outra variante. Doravante ele também pode ser chamado de Fábio "Miaunotti" Motta. E não omitirei: – mais uma vez foi o Serjão o autor da pérola. Ele está-se mostrando um grande "joalheiro" de alcunhas.
          

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

UMA ESMOLA PARA UM PÉ

         O semáforo fechou e, após a inconfundível luz vermelha, exceto, digamos logo, os nossos aparentemente inúmeros color blind, ainda passaram dois ou três carros.... Avançaram o sinal vermelho dois ou três carros, repito, para que dirimamos a possível dúvida. (Será assim tão endêmico o daltonismo entre nós?...)
          Em Fortaleza é assim. "Furar" o semáforo quando a luz está vermelha, seja ao meio-dia ou à meia-noite, deixou há muito de ser a exceção e passou a ser a regra. À meia-noite é permitido. A autoridade do trânsito reconhece que permanecer parado à luz vermelha a essa hora pode significar a vida do motorista e a de quem com ele estiver. É como se a autoridade do trânsito reconhecesse a completa falência da autoridade da segurança pública. 
          Paremos um pouco.
       Quem é a autoridade da segurança pública? A resposta não é fácil. Lembro-me da professora falando de Hobbes e de Rosseau. O Estado hobbesiano existia porque o homem seria mau desde as fraldas. Cresce mau e anela liquidar o outro tão logo possa. Por isso, o Estado. Ele, o Estado, é o acordo lavrado entre os homens maus a fim de evitar que se destruam mutuamente antes que se ponha o sol. O acordo inclui punir quem o descumprir.
          O Estado rousseauniano, por sua vez, emergiu da concepção de que o homem é naturalmente puro, mas se corrompe quando se junta a outros. Como o ajuntamento dos homens é a regra após o seu nascimento, todos os homens tornavam-se corrompidos. Daí porque o Estado. Ele, o Estado, é o contrato que celebra as regras da paz entre os homens bons que se corromperam. Ao fim de tudo, Hobbes e Rousseau falavam da mesma coisa, ainda que digam o contrário. Quem se importa com essas firulas filosóficas? 
          Voltemos às ruas de Fortaleza ao meio-dia. Aqui a autoridade do trânsito não reconhece a insegurança do cidadão. Para avanços à luz vermelha a essa hora aplica-se a multa. Antes da multa, contudo, há a regra, o contrato, o acordo. Eles existem para evitar que os veículos motorizados não colidam entre si gerando prejuízos a seus proprietários. Ainda mais importante, eles existem para evitar que as pessoas que viajam nesses veículos não tenham sua integridade física abalada, e que suas vidas não corram riscos desnecessários. A multa é apenas a punição.
          Mas, ora!... Depois de Hobbes e depois de Rousseau os homens se envolveram em duas guerras ferozes. Quase se dizimam. Algumas das sociedades envolvidas nos conflitos cansaram-se de matar e de morrer; cansaram-se de chorar seus mortos; cansaram-se de contendas e de litígios assassinos... Saíram a aperfeiçoar seu contrato social e seu pacto de não-agressão. Na rua, se inadvertidamente tocam-se levemente, quase ajoelham-se em zilhões de pedidos de desculpas, em sorrisos contritos que lhes denunciam o embaraço e desgosto por possivelmente terem machucado alguém. E em suas salas de aula ensinam sobre as tabulae rasae das crianças, dando mais crédito a Locke. Outras sociedades nem tanto. Seguem tendo sede de sangue e de dor. 
          Ainda não consegui descobrir, após e apesar dessas reflexões inúteis, quem é a autoridade da segurança pública. Mas voltemos ao cruzamento onde estávamos quando dois ou três carros avançaram o sinal vermelho. Fui obrigado a parar. Afinal, a dupla luz encarnada estava lá, fixa e bem acesa. Foi quando vi o sujeito.
          Era jovem, alto e bem magro. Suas roupas não tinham cor, ou por outra, não era possível distinguir-lhes a cor dada a sujeira que o cobria, a ele e suas roupas. Claro era que aquela sujeira já durava dias, talvez semanas. Era uma como que oleosidade negra, espessa e gosmenta. Os cabelos lembravam a juba de um leão negro e não usava nenhum tipo de calçado. Um dos pés, o esquerdo acho, estava envolto num molambo rasgado e encardido.
          Foi quando percebi tudo. Ele erguia o pé esquerdo envolto no molambo para mostrar aos motoristas dos carros que tivera parte do pé amputada, enquanto estendia a mão à supinare. Estava esmolando.... Jovem, maltrapilho, imundo, desnutrido... esmolando. Várias vezes ergueu o pé semi-amputado tentando sensibilizar os motoristas. Seguiu entre os carros sob o sol escaldante dessa desgraçada Fortaleza, os pés descalços pisando no asfalto quente e a mão estendida a pedir a esmola para a próxima refeição ou a próxima pedra, erguendo aqui e ali o coto do pé à vista dos passageiros dos veículos... 
          Ninguém deu a mínima. O farol mudou para verde e a dupla fila de veículos se moveu como uma grande sucuri de ferro e borracha desengonçada e neurastênica... Ninguém sabe quem será o próximo.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

SENHOR DE ENGENHO

          Na fila do supermercado, no mesmo onde outro dia a alvíssima senhora idosa me pedira para lhe comprar um pote de requeijão, o sujeito grisalho e alto passava seus produtos. Falava com o caixa e, quando falava, ouvia-se-lhe a  voz altiva, firme, postada e imperativa. Dir-se-ia um rei, ou um príncipe. 
          Circulara entre as prateleiras, minutos antes, quase sem nada dizer. Ouvi-lhe aquela voz, antes do momento em que se postara no caixa, apenas uma vez, bem ali defronte às verduras e frutas. Sussurrou baixinho, de si para si, olhando os preços: –“Nossa... Não se pode mais comer”... 
          O funcionário, empacotador de profissão, labutava sozinho naquela tarde ensolarada de um recente domingo primaveril. Era surdo-mudo. Naquele exato instante ajudava outro cliente que se utilizava de outro caixa. Usava a farda do estabelecimento. Como ele, outros deficientes lá têm o emprego. Ganham, talvez, o salário e algumas patacas que lhes dão os fregueses mais atenciosos. Entretanto, naquele domingo só ele trabalhava.
      Estava distraído do movimento em torno de mim quando ouvi a voz principesca. Dizia, dessa vez ainda mais penetrante e reverberante, indignada, quase arrogante: –“Onde estão os empacotadores? Não querem mais trabalhar? Hoje o negócio aqui não está bom”...
          Após guardar as compras no carro, dei a partida e saí. Por coincidência, dei de cara com o tal sujeito, acompanhado de um outro funcionário do supermercado, guardando as compras em seu vistosíssimo veículo fabricado além-mar. 
          Vindo de Siena, na Toscana, entrávamos em Florença para devolver o carro à locadora. Estacionei defronte à bomba para abastecer. Nenhum funcionário. Só as máquinas para receber o pagamento. O frentista era eu mesmo. O brasileiro não se desfaz de seu complexo de senhor de engenho.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O IMPLACÁVEL CREDOR DO MESQUITA

         Já havia percebido. Mesquita andava meio cabisbaixo, sorumbático, macambúzio... Desde julho último o homem não conseguia dissimular seu estado. Mas, coisa esquisita, o homem voltara de uma viagem de férias com a família.
          (Mesquita só viaja com a família. E não falo do núcleo familiar apenas. Quando digo família inclua-se aí uma penca de gente, um cachorro, um gato e até um papagaio. Vai o pai, a mãe, filhos com cônjuges, primos...Com tanta gente assim, a presunção automática é a de que a viagem é uma animação só!)
         Porém, ali estava o homem absorto naquele olhar perdido sabe-se lá onde e mudo como um coelho. Óbvio era que algo o preocupava, que algo o abatia. Foram três as  vezes em que nos encontramos e assim ele se apresentava. Quando saía ficávamos a lucubrar. Dizíamos: —“Serão chifres”?, e saíamos imediatamente a nos penitenciar. Dona Rejane é mulher seríssima como já quase não mais existe. Seguramente não era o que afligia o amigo, e já entrávamos a alentar outra possibilidade.
         “Será liseira”?, supúnhamos. Afinal, é vastamente conhecido o amor que o Mesquita tem pelo vil metal. Outro dia o comparei ao Tio Patinhas. Seu esporte favorito é gastar seu tempo a apreciar o monte de cifrões que amealhou em anos de trabalho árduo, como também gostava de fazer o personagem dos quadrinhos. Assim, a hipótese pareceu vir bem a calhar. Na última vez que o encontramos, ele, por fim, desabafou.
         Compraram, ele e a mulher, um novo apartamento para morar. Com efeito, o velho não era velho, mas há de ter havido uma razão para quererem mudar. O ser humano é frequentemente vítima de entojos inexplicáveis. Vai ver o casal quisesse novos vizinhos; ou um apartamento em andar mais elevado, ventilado com brisas mais amenas, espaços mais amplos, mobília mais moderna, sei lá... O fato é que compraram outro apartamento e já estão para mudar. Seja por tédio ou por qualquer outra razão.
         Outro dia o corretor bateu-lhes o telefone e disse: —“O bicho lá tá prontinho”! Antes de contratar a mudança, Dona Rejane quis inspecionar tudo. Foram, então, ver o imóvel. Queria saber se as coisas estavam realmente na mais perfeita ordem.
         Todos sabem que a mulher é um ser especial. Não tente o homem jamais entender seus processos mentais. Consta que o último a tentar está internado até hoje, tomando elevadas doses de ácido. Por isso o Mesquita tinha espasmos e contraturas ao nos comunicar que a mulher simplesmente detestou a cozinha e outros itens do apartamento. Dizia, quase gritando de indignação: —“Tudo do bom e do melhor! Material de primeira! Com’é que pode”?!?..., e meneava a cabeça inconformado.
         Assim, ficou mais do que esclarecido que ele estava gastando além do que inicialmente havia previsto. A cozinha estava sendo refeita ao gosto da mulher, com o material que ela pessoalmente escolheu. “As torneiras, as pias, a bancada da cozinha, tudo do material mais luxuoso e caro pra essa mulher mandar quebrar tudinho”!..., berrava ele numa excitação de frustrado. E engrossava a voz: —“Com'é que pode”?!?...
         Ora, não sejamos assim tão duros com Dona Rejane. Dizia um velho professor dos tempos da faculdade: —“Tudo se explica, tudo se explica”... E, de fato, há, na razão de tudo, muito mais do que os complicados processos mentais da mulher e o que supõe a tal da vã filosofia shakespeariana.
         O caso é que Dona Rejane já me confessara há muito um detalhe pitoresco da vida do casal que, agora, parecia ter tudo a ver com seu desejo de fazer o quebra-quebra no apartamento novinho em folha: – quem paga todas as despesas do dia-a-dia do lar é justamente ela. A fim de se medir o tamanho desse minúsculo detalhe, sejamos mais específicos. Ela paga, mês a mês, há anos, desde que são casados, a conta de luz, o condomínio, o salário da secretária do lar, a mensalidade escolar do filho do casal, as compras do supermercado, e qualquer outra despesa extra que porventura surja inadvertidamente. Enquanto isso, durante todos esses longos e macios anos o Mesquita vem guardando tudo o que ganhou e que, se não é uma fortuna, também não se diga que é pouco. Eis aí tudo. ( Vejam a semelhança de meu amigo com o Tio Patinhas, embora o simpático patinho nunca tenha casado. A noção de economia e a avareza de meu amigo separam-se por uma muito tênue e quase invisível linha demarcatória.)
         Assim e sem dificuldade chegou-se à mais óbvia das conclusões: – Dona Rejane resolveu cobrar a sua parte nas despesas de casa com juros de mora e multa por longa que era a dívida. É nisso que dá o sujeito querer passar a mulher pra trás. Seus processos mentais incluem uma tal de memória que jamais esquece além do velho e bem conhecido sexto sentido. Aventa-se mais recentemente que haja até um sétimo e, quiçá, um oitavo sentido.
         Antes de sair, em nosso mais recente encontro, ele tomou duas ou três cervejas. Só não bebeu mais uma porque podia ter um piripaque por estar entupido do antidepressivo que lhe prescreveu o médico. Daqui pra frente ou ele dobra a dose da pílula ou toma mais cerveja. Aguentar a sangria na conta bancária sem um atenuante da tragédia está fora de cogitação e o remédio não parece estar adiantando coisa nenhuma. Espera-se que em nossos próximos encontros o número de cervejas bebidas por ele aumentem como semanalmente aumentam as expectativas da inflação brasileira...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O RUBOR DO REQUEIJÃO

          Na fila do caixa, no supermercado, aguardo pacientemente a minha vez. Não pusera muita coisa no carrinho. Ela — essa senhora usando um chapéu de palha, óculos escuros e roupas esportivas coloridas, a alvíssima e delicada tez a permitir ver-lhe a delicada e verde-azulada trama vascular em seus bem torneados braços — aproximou-se impetuosamente e, mostrando-me um pote de requeijão lacrado seguro pela mão esquerda, pediu: —"Compra pra mim"?...
          Hesitei poucos segundos e, sem saber bem o que lhe responder, sorri meneando a cabeça e tomei-lhe da mão o frasco. Olhando para ele enquanto girava-o entre os dedos, disse-lhe: —"Tá bem"... 
          Percebendo meu constrangimento, achegou-se mais a mim e confessou: —"É que tenho câncer... Quer ver a minha cicatriz no peito"?, e já ia baixando a blusa. Segurei-lhe suavemente a mão para impedir o que ela estava para fazer, assegurando-lhe que acreditava nela. Condoído de seu drama — não dispor de uma pequena quantia para fazer aquela minúscula compra —, esfreguei o dorso de minha mão esquerda em seu rosto idoso num gesto de carinho e pus o frasco dentro do carrinho.
          Ela saiu da loja num misto de felicidade e acanhamento levando o pote de requeijão que havia de barrar-lhe o pão dali a pouco.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CRIANÇAS

Muros são estruturas que limitam. Nasci já à época dos muros.
Mesmo nos idos ’60, lá estavam eles a separar. Ainda que os homens desta cidade não se matassem como hoje, nem os abismos entre eles fossem tão profundos e largos como hoje, existiam os muros para nos repelir. Com o tempo eles se multiplicaram, ganharam altura. Ficamos ainda mais desconhecidos, mais temerosos. É o progresso, diziam.
Nós, as crianças, nos divertíamos neles subindo e pulando para a zona proibida. Era um desafio de crianças. Escalar e pular o muro que nos impedia de ser crianças nos excitava ao extremo. Não nos conformávamos com os muros, com os portões, com as grades. Queríamos, em calções e pés descalços, ganhar o mundo, as casas, os terrenos baldios, as piscinas dos vizinhos, a goiabeira do quintal alheio. (Era no tempo dos quintais). Não havia limites para nós, crianças imortais e destemidas.
Correr com todas as forças, a plenos e limpos pulmões, por quanto tempo fosse necessário, nos impelia com coragem às mais perigosas e palpitantes missões. Caso empreender fuga sob a mais nítida ameaça fosse uma necessidade imperiosa, o fazíamos com um sorriso aberto e uma força imensa e não extenuante. Não tínhamos limites. Éramos deuses, cheios de vontade de vida.
Crescemos.
Os muros também cresceram. Cresceu nosso medo. Nossa vontade de vida arrefeceu. Com efeito, não decresceu a vontade de vida; arrefeceu, sim, nossa coragem, nossa energia. A vida, a mesma que nos excitara a vontade de si, passou a nos golpear incessantemente. À medida que crescíamos perdíamos as formas de criança e nosso aspecto se tornou ameaçador para alguém. Descobrimos, então, que o que fazíamos impunemente, porquanto nossa pureza nos fazia inimputáveis, não nos era mais possível fazer. Ainda que guardássemos bem à vista na alma, não se conseguia vislumbrar em nós nossa ludicidade, a criança que ainda existia em nós.  
Então, morremos. Tornamo-nos outro alguém. Nem vale a pena enveredar por constatações tão chocantes e tristes. Voltemos às crianças que éramos.
Não; façamos melhor – descrevamos o processo de descrescimento. O descrescimento é um conjunto de decisões que dão o revertério. Não é um fenômeno biológico. É uma trama urdida nas ferventes confusões da alma, após um cansaço enorme, alguma sabedoria e doses cavalares de resignação. Descrescer não é parar de crescer; é uma espécie de purgação, de limpeza. É olhar os muros e não se intimidar com sua altura, com os limites impostos. É voltar a ser uma criança por decisão própria, com as enormes vantagens da inexorável sabedoria. É ser uma criança grande, um crianção.
Se o homem nasce, cresce, se reproduz e morre, só me restava morrer. Sim, é a única coisa que me restava. Não conformado, resolvi descrescer. De quebra havia ainda a possibilidade de meu renascimento. Como não há no Aurélio o verbo descrescer, talvez fosse mais certo usar o verbo recrescer, este, sim, existente.
O que quero dizer é que resolvi recrescer, e para tanto, renasci. Comecei a renascer quando resolvi me desmontar. O desmonte foi uma morte, sem dúvida. Reparem, então, que estão diante de alguém que já morreu.
Foi simples. Certo dia, uma linda manhã de sol, acordei triste, pesado, a cabeça doendo, sem tesão. Olhei pela janela e vi o vai-e-vem da cidade, as pessoas correndo, o trânsito movimentado – ainda não era como hoje – o céu tão azul que parecia um jardim de uma cor só. Pensei: -“Morri.” E ali mesmo, com a janela aberta para o mundo, deixei de existir. O diabo é que, se se morre em vida, não há outra saída que não o renascimento. Só morre em vida quem quer ainda muito viver. E, no mesmo instante, ali mesmo, com a janela escancarada para o jardim de uma cor só, renasci. Foi mesmo muito simples.
Desde então voltei a pular muros. Hoje é bem mais difícil; pode-se ser alvejado com uma bala certeira. Ainda assim pulo uma enormidade deles. Entro e saio do vizinho num piscar de olhos. As casas são poucas aos dias de hoje, de modo que os quintais com goiabeiras, sirigüelas e limoeiros são uma coisa rara; mas ainda os encontro vez ou outra. Outro dia quase me morde um enorme pastor alemão sentinela.
O que muito me faz falta é a companhia de outras crianças renascidas como eu. Brinco sozinho o tempo inteiro porque não há amiguinhos com quem brincar. Sinto-me, de fato, muito só neste mundo. Ainda me resta a esperança de que encontrarei alguém morto, renascido, em recrescimento. Anelo encontrá-lo em breve.


Fernando Cavalcanti, 01.07.2010  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

FOME MAIOR QUE A VONTADE DE COMER

EIS que no último sábado o nosso Fábio “Menotti” Motta nos enviou, na rede social, uma fotografia de Laurinha, em sua companhia, num jantar quase à luz de velas. (Já, já explico o “quase”.) Até agora ela se configurava para nós, os mais diletos amigos de Fememê, como um delírio de um solitário cinquentão em seus devaneios eróticos. Subitamente, entretanto, eis que surge a imagem da pequena.
Em nossa cruel e indiscreta incredulidade, nos assaltou a ideia de que – obrigo-me a assumir que, desautorizadamente, falo por todos – aquela pintura seria uma grosseira falsificação perpetrada por nosso amigo no intuito de nos ludibriar. Em resumo – aquela não seria, em hipótese alguma, a Laurinha de quem tanto falava o Fememê.
Porém, lá estava ela, esboçando um lindo sorriso de menina-moça. Sentada de frente para o amigo, Laurinha parecia estar à vontade na presença daquele cinquentão desconjuntado. Diria até que ele também não demonstrava nenhum constrangimento. Alguém poderia indagar: –“E por que deveria ele se intimidar”? Eu responderia que, naquele cristalizado instante, o cinismo o salvava de qualquer vergonha ou acabrunhamento. Fememê nunca foi homem de meias palavras. Nem de meias mulheres. Sempre as assumiu, sem largar mão veladamente de um ou outro de seus cachos. Dizendo de outra forma, Fememê sempre as teve em múltiplos de dois. Fração de mulher não o agradava. O mesmo não se pode dizer das pequenas quando se viam fazendo parte do harém de meu amigo. Alguém, ele mesmo talvez, dirá que estou a exagerar, e direi que a sonsice do sonso por vezes se confunde com sua mais ausente virtude. 
O envio da fotografia à apreciação dos amigos representava uma guinada digna de nota no comportamento do homem. Se antes não dava o menor indício de que pretendia introduzir a pequena ao convívio dos amigos – ou porque estaria a idealizar a mulher ou porque ela nem sequer existia –, agora fazia questão de expô-la descaradamente. Prova disso foi o convite que fazia aos amigos, juntamente com a fotografia, a comparecerem com suas respectivas consortes ao restaurante onde ele se encontrava com a jovem. A coincidência maior foi que o Sérgio Moura andava, justamente naquele momento, à cata de um casal amigo para estar com ele e sua mulher numa rodada de drinques em local a ser acordado. Fememê aproveitou-se da sobreposição dos fatos e convocou Serjão e sua mulher a comparecerem onde ele estava. E não somente o Serjão, mas todos os outros foram intimados. Resultado – ninguém foi. Ficaram todos os cinquentões no aconchego de seus lares, longe dos perigos mortais desta Fortaleza desgraçada e amaldiçoada. Fememê se viu, assim, livre para namoriscar a linda jovem, embora fosse evidente que estava a fazer uma força danada a que todos comparecêssemos ao lugar onde a jovem e ele estavam. A mim me parecia que não era sua intenção gozar da companhia da moça longe dos olhares inquisidores de quem lá chegasse. Nada disso seria propriamente uma novidade já que o Motta gosta de exibir suas conquistas como troféus em sua estante de atleta sexual. (Corre à boca miúda que o nosso Motta ultimamente só tem deitado em pranchas de surf e em sua cama de solteiro...)
Imperioso é acrescentar a essas notas um detalhe curioso, e que vem reforçar a última suspeita. Uma vez que ninguém se habilitou à companhia do mais novo casal, imaginei que o Motta repensasse o local aonde levaria a pequena. Sim, porque um jantar a dois é diametralmente diferente de um jantar em que mais pessoas se apresentam. O local onde janta um casal há de ser romântico e, diria até, afrodisíaco. A noite enseja sonhos e devaneios diferentes à mente do homem e da mulher, de modo que todo cuidado é pouco na escolha do lugar. 
Ao que parecia, Fememê estava com Laurinha numa pizzaria provida de forno a lenha. (Mais do que um bom conquistador, ele é um excelente garfo, o que pressupõe que dê ao estômago mais importância do que o que vai ao coração ou à área do córtex onde se processam as intrincadas conexões que geram a vontade de amar... ou de se abster de amar.) Repetidas vezes o homem deixou transparecer o estado deplorável de seu aparelho digestório, quase afogado nos sucos e secreções repletos de enzimas e ácidos diversos à espera da primeira garfada. Hormônios pancreáticos e mucosos fervilhavam, ao que se via, no sangue de nosso Motta, enquanto a beldade sorria para a câmera. Sobre a mesa apenas garfos, facas e temperos para acirrar o sabor e o paladar. Não se via a chama bruxuleante de uma única vela a dar contornos poéticos àquele inusitado encontro. Reinava, ao que parecia, a fome... Por tudo isso é que os amigos lançaram-se a uma guerra de sugestões de restaurantes românticos.
Tudo em vão. Nada disso funcionou. Motta queria a platéia de amigos, que não compareceu, e na falta desta serviria mesmo a de desconhecidos. Nem a ideia de jantar junto ao mar, nem a de jantar ao som do piano ao vivo em ambiente aconchegante, pouco iluminado e realçador da intimidade entre o homem e a mulher, uma vela acesa sobre a mesa apenas a mergulhar as faces de ambos na atmosfera de mistério que encanta os futuros amantes, por exemplo, foram capazes de demover o nosso Fememê Motta a sair daquela pizzaria na busca da aura fantasiosa de uma noite de lua minguante e melancólica como enleio de um jantar a dois... Venceram os hormônios e secreções entéricos enquanto as gônadas se encolhiam no ar quente-frio da perigosa noite fortalezense... 
Como findou a noite do casal não sabemos, e é até bom que não saibamos mesmo. Pensando bem, que tínhamos nós de nos infiltrar em assuntos dos outros? Fememê é homem maduro, quase podre. Não carece de amigos que o aconselhem sobre aquilo em que é mestre. Perdi meu tempo com conselhos inúteis e escrevendo estas notas que nada acrescentam ao résumé de meu amigo.