domingo, 29 de setembro de 2013

O VOO DE ÍCARO DE PAULA LIMA

          A jornalista Paula Lima, do jornal O Povo, devia estar bêbada ou sob efeito de algum tipo de droga. Ela é a autora de uma matéria publicada no portal do periódico intitulada "Dez motivos para se orgulhar de Fortaleza" (http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2013/09/26/noticiafortaleza,3136598/dez-motivos-para-se-orgulhar-de-fortaleza.shtml). 
          Digamos de outra forma. Paula Lima devia estar sob efeito de alguma droga quando escreveu a matéria. Todos somos vulneráveis a uma farra, a um encontro entre amigos regado a um bom vinho ou coisa que o valha. Não estamos aqui afirmando que a jovem é usuária de drogas, no pior sentido. Sabe-se lá. Outro dia ingeri dez miligramas de um benzodiazepínico por conta de um pico hipertensivo e confesso: - permaneci meio grogue por um bom tempo. É possível que a jornalista tenha tido a necessidade do uso de um medicamento semelhante e, durante sua libação, tenha tido alucinações, visões, escotomas e delírios. Desejo imensamente estar inteiramente errado quanto às minhas lucubrações, mas a matéria da senhora Paula Lima não pode ficar sem um comentário indignado. A propósito, quem se der o trabalho de a ler verá também que todos os leitores que a comentaram registraram sua completa discordância com sua opinião
          Disse ela o seguinte, no caput de sua matéria: "Apesar dos problemas, Fortaleza ainda é uma cidade boa de viver, sim. Não vamos virar as costas para a terra que nos acolhe, dá sol, boas histórias, cultura!" Santo Deus, essa mulher deve estar louca, foi o que pensei ao ler esse período. Problemas? Fortaleza acumulou problemas, mas isso já faz tempo. Hoje não temos problemas em Fortaleza: - ela é o problema. Sim, cara Paula Lima. A cidade tornou-se, ela própria, um problema descomunal a todos os seus habitantes. Ela é um problema desde o momento em que se põe a cabeça para fora de casa até o momento em que se volta para casa. Com uma ressalva: - se o cidadão conseguir voltar ileso para casa. Tudo em Fortaleza nos agride. As ruas, as calçadas, os carros, as motocicletas, as fachadas dos prédios, os estacionamentos e a falta deles, os hospitais e a rede hospitalar, as delegacias de polícia, as cadeias, os fóruns, os preços, os serviços, a educação, as escolas, o transporte público, as obras intermináveis, a falta de memória, o descaso com a memória, o policiamento ostensivo, os postos de saúde, os sem-teto, os drogados do crack, os assaltantes, os assassinos, os menores intocáveis, os hedonistas, a segurança, a malha viária, tudo, repito, tudo em Fortaleza é ruim. 
          A jornalista exorta a todos a "não virar as costas para a terra que nos acolhe". Ora, senhora jornalista, não estamos a virar as costas para ela. Na verdade, foi ela, a cidade, quem virou as costas para nós, seu pobres habitantes. É ela, em seu despreparo, em sua pífia infra-estrutura em todas as áreas, em suas diárias agressões a nós, seus habitantes, quem nos dá na cara, quem nos vira as costas, quem nos expulsa, quem não nos quer. Diariamente. E não seja bisonha, cara senhora. A energia que a senhora sugere usarmos para propagar a paz e o amor na cidade, na esperança que "a violência e a carência de tudo o mais que há por aí" se vá assim, sem mais nem menos, não existe. Força do pensamento é coisa do tempo do Uri Gueller. Não queremos entortar garfos e facas. Estamos querendo mesmo é entortar os revólveres e as escopetas que nossos bandidos têm usado contra nós. Estamos, em nossos momentos de angústia, trancados em nossos lares, maquinando uma maneira de remover do poder essa tralha incompetente que ora o exerce em nossa cidade, estado e país, lamentando igualmente o poder que também conferimos à súcia passada à qual um dia demos crédito e que é co-responsável por seu estado lamentável.  Mas analisemos os motivos que, segundo a jornalista, são motivo de orgulho para nós, diariamente assaltados fortalezenses. 
          Temos o sol. Diz ela que o nosso sol é motivo de orgulho. Sou do tempo do "Honra ao Mérito", que orgulhava ao homenageado, seus familiares, seus amigos e admiradores. Por acaso fizemos o sol? Privatizamos o sol? O sol é obra do Criador, minha senhora. Nenhum mérito há em nós por ele fulgurar sobre esta cidade. Esqueça o sol, por conseguinte, de vosso rol de orgulhos. Da mesma forma nossa paisagem não é motivo de orgulho para nós.O mundo tem uma infinidade de lugares belíssimos, e até mais belos que o nosso. Ademais, vale aqui a mesma ausência de mérito.
          Nossa culinária nos deixa saudade quando ganhamos o mundo a viajar, e isso nos é motivo de orgulho, segundo a jornalista Paula Lima. De fato, adoro nossa culinária. Conta o Nelson Rodrigues que o Miguel Lins, seu amigo, dizia: - "o homem gosta do que comeu em criança". E pedia ao garçom, sem o menor pudor, que lhe trouxesse um ensopadinho de carne com abobrinha. Assim, os alemães quando se ausentam de seu país têm saudades de seu joelho de porco, os portugueses de seu bacalhau no azeite, os franceses de seu baguette tradition e os baianos de seu acarajé no azeite de dendê. Os franceses não chegam a se orgulhar de seu fabuloso pão. Ele simplesmente é parte de sua cultura alimentar. Eles se orgulham de 1789, do Louvre, da Torre, do metrô de Paris, etc. etc. etc. Nosso baião de dois não seria, por assim dizer, um motivo de orgulho para nós. Ele é, certamente, um motivo de saudade e de prazer.
          Fiquei sabendo, pela matéria, que o cinema cearense seria um motivo bastante próprio de orgulho para nós fortalezenses, e citaram-se três películas que vêm fazendo sucesso nas bilheterias. Delas vi somente "Cine Holiúde" e afirmo: - nada a declarar. E digo mais. Nem o Policarpo Quaresma, em todo o seu desmedido ufanismo, computaria alguma qualidade a tal obra. Prefiro mil vezes "Os Trapalhões". Nem todos eram cearenses, mas o humor é de muito melhor caráter, ainda que pastelão. Registre-se que uma obra como esta está fadada a ter sucesso em limitadíssimo espaço geográfico, tamanho seu regionalismo e ausência imanente de universalismo. Às outras duas deixo o benefício da dúvida e o malefício da suspeita.
          Ter músicos e escritores de renome não é apanágio do cearense nem do fortalezense. Novamente esse rebuliço se deve mais a nosso medíocre bairrismo do que propriamente a qualquer mérito. Em todos os lugares vicejam músicos e escritores de qualidade. O orgulho deve nascer da unicidade, da singularidade e do mérito. Nossos tarcísios e cainans; nossos alencares e montenegros têm méritos pessoais que não transformaram substancialmente, até agora, a nossa arte. Vejam, por exemplo, a preocupação do virtuosíssimo Nonato Luís em criar uma obra própria, pessoal e inovadora. Já o ouvi afirmar mais de uma vez: - o virtuosismo em si nenhum mérito tem; a obra que se cria, sua originalidade e autenticidade são os requisitos que lhe conferem o traço único, esse, sim, motivo de merecimento de honra e, por conseguinte, reconhecimento e orgulho por parte dos conterrâneos do artista e do resto do mundo.
          Segundo Paula Lima, somos um povo "bom de mesa", onde se travam amizades duradouras e regadas à boa boêmia. Isso seria um motivo de enorme orgulho para nós. Imagina se a França se orgulhasse dos boêmios de Montmartre sem que eles nada houvessem produzido em seus respectivos misteres. As mesas fortalezenses dão conta de nosso mais evidente caráter hedonista, isso sim. Faltam-nos os Cézanne, os Toulouse-Lautrec e os Renoir às mesas antes que tenhamos orgulho.
          O nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) saltou, entre 1991 e 2010, de "muito baixo" para "médio". O índice, que leva em conta longevidade, educação e renda, saltou, em Fortaleza, de 0,546 para 0,754 nesses 19 anos, um aumento de 38%. O que esperavam? Que ainda estivéssemos à idade média? Somos, afinal, uma África? cujos países vivem em perenes guerras civis? Detalhe: - a continuar como estamos – mortalidade pela violência em crescendo e educação de péssima qualidade – quanto de renda será necessário para um IDH no mínimo estável? Além disso, a jornalista cita uma pesquisa, mas dela não dá detalhes nem em que fonte bebeu para chegar a esse dado, que aponta Fortaleza como a cidade com a segunda melhor média salarial do Brasil, perdendo apenas para Brasília: - R$ 2.473,00!! Até o momento discordei, por pura opinião, da senhora jovem jornalista, mas esse dado me obriga a dizer, numa expressão muito utilizada por aqui e que não seria também motivo nenhum de orgulho: - aí mente! E, continuando a usar expressões bem nossas, afirmo, sem medo de errar: - o salário médio por aqui não é esse! Nem a pau! Ele não chega a mil reais. Dessa forma, nada há para se orgulhar de nossa renda. Há, sim, que se envergonhar. O dinheiro não rola por aqui. Simplesmente não rola. Somos, na verdade, a terra do salário mínimo.
          O último dos nossos dez motivos de orgulho é o fato de sermos a capital do Nordeste onde o consumo abusivo de álcool é menor. Estou pensando em ir morar na linda Natal, onde, pelo visto, menos pessoas bebem muito. Que importância tem isso? Mais importante do que a comparação entre as capitais do Nordeste é se o percentual absoluto de bebedores fortalezenses é alta ou baixa. Além disso, será mesmo verdade? Se somos um povo dado a boêmia, como a própria jornalista afirmou, que boêmia é essa em que se não bebe? O fortalezense não vai ao bar beber chá e cafezinho, ao que me conste. O que parece é que por aqui se bebe tanto quanto se bebe no resto do Nordeste, um pouco mais, um pouco menos. 
          Dito tudo isso, resta torcer a que a jovem Paula Lima saia de seu estado de suspensão dos sentidos e ponha os pés ao chão. A Fortaleza com a qual ela sonha está cada vez mais para a quimera do que para a realidade. Infelizmente. E aproveito para alertar aos caros e poucos leitores: - não sou um pessimista. Sou um realista de carteirinha. A verdade é quase sempre muito dolorosa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A perigosa vida do perigoso Brasinha

          Eram duas avenidas movimentadas. No cruzamento o semáforo estava para virar ao vermelho, e reduzi a velocidade para parar rente à faixa de pedestres. O motoqueiro que vinha a meu lado, ao contrário, imprimira mais velocidade a seu pequeno veículo, na clara intenção de tentar passar ainda no amarelo. O diabo é que o amarelo ia virar a qualquer momento. 
          Daria tempo a que o motoqueiro passasse? E, em passando, não correria ele um risco enorme de ser atropelado por outro veículo que trafegasse na transversal? Pela velocidade que imprimira à motocicleta, uma colisão naquele cenário lhe seria, muito provavelmente, fatal. Mas, qual? 
          O farol mudou para o vermelho segundos antes de ele passar pelo cruzamento em alta velocidade. Por pura sorte nenhum outro veículo veio-lhe ao encontro pela perpendicular. Ele passou ileso. Fiquei ali parado, olhando-o afastar-se rapidamente em direção ao próximo cruzamento. Perguntava-me se no seguinte faria o mesmo, caso as circunstâncias fossem semelhantes. Condescender com o risco é um hábito comum e tão mais repetido quão mais vezes se o repete impunemente. Por isso o dever-se cultuar os bons hábitos ou, pelo menos, não se habituar à exposição a riscos. A estatística diz: - quanto mais freqüentemente se repete uma ação, mais provável que cada um de seus resultados possíveis ocorra, mais cedo ou mais tarde. O que me encafifava era o seguinte pensamento: - por que algumas pessoas gostam de viver tão perigosamente? 
          Por exemplo, o Brasinha. Não sei se dele se lembram, e por isso refrescar-lhes-ei a memória. O Brasinha é o homem dos fetiches. O que ficou mais conhecido foi aquele em que queria fazer sexo com a namorada fantasiado de diabinho, com chifres, rabo e tudo. Daí o apelido: - Brasinha. Suas pretensões se viram frustradas quando a jovem passou mal ao ver-se diante daquele homem de barriga enorme, branco como um círio funéreo e travestido de capeta. Para resumir a ópera, a menina foi parar no hospital. Até esse ponto, tudo bem. O homem gozava de uma solteirice que já durava meio século, ou quase isso. A conseqüência maior foi perder a namorada.
            Em casado andou aprontando também, a mulher já pejada, o menino de cabeça pra baixo e encaixada à bacia. Até a sogra foi testemunha ocular, auditiva e presencial da marmota. Ainda assim, a mulher não hesitou em dar-lhe uns bons sopapos quando o surpreendeu dentro do carro fazendo-se acompanhar de uma muruxaba, tudo ocorrido ali, no estacionamento de um conhecido shopping da cidade. A sogra do safado fazia companhia à filha na missão. Não ia permitir que ela saísse de casa sozinha a flagrar o marido às voltas com um de seus casos. E, inclusive, participou da cena dando-lhe, ela própria, umas boas bordoadas. Cabra sem-vergonha! Dê-se ao respeito, seu cachorro!
            Eis aí, pois, dois dos mais recentes episódios em que se enfronhou o Brasinha. Dois, pausa. Pensava eu serem os últimos, até o domingo passado. Bateram-me o telefone, um amigo, para me pôr a par de mais uma presepada do homem. Como não poderia deixar de ser, um rabo de saia foi, mais uma vez, o pivô do fato. Bem se explica a quase eterna solteirice de nosso querido Brasinha. Vejam que um homem, qualquer homem, está sempre sob a ameaça de uma tentação. Se não há ninguém a quem dar satisfação, menos mal. Brasinha gastou cinqüenta anos numa valsa solitária e bem a seu gosto. Queria tudo, podia tudo, a ninguém precisava se explicar. Entretanto, casou. E, em casando, já não podia, ainda que quisesse. Vejam o hábito a fazer o monge. De tanto poder e tanto fazer, já não sabia mais como “não fazer”, nem queria aceitar o “não poder” nem o “não dever”. E, como não sabia nem aceitava, fazia, continuava a fazer. Não sei se me faço entender. O que aconteceu foi o seguinte.
             Brasinha arranjou, sabe-se lá onde, uma pequena. Ele não é o que se poderia chamar de "homem ocupado". Seu tempo é bastante livre, de modo que pode ir à caça desses espécimes sem prejuízo nenhum de seus vencimentos e receitas. Convidou-a, antes de ir às vias de fato, a um almoço numa churrascaria de que gostava muito. Só havia um pequeno problema. A tal churrascaria localiza-se nas vizinhanças de onde mora sua sogra, a mesma que participou de seu "resgate" numa de suas peraltices. Era dia útil, a velha senhora não costumava sair. Por isso achou por bem parar o carro defronte o edifício onde ela mora. Seu apartamento fica no décimo andar e ela não enxerga muito bem, coitada!... Passa a maior parte de seu tempo a construir caminhos de mesa do mais belo crochê. Brasinha imaginou que ela jamais daria conta de seu carro parado defronte o prédio. Estava tranquilo, portanto, para almoçar em paz com sua nova conquista. 
             Percebam os queridos leitores a semelhança de meu querido amigo com o motoqueiro do sinal vermelho. Ambos se arriscam à toa, por nada, pelo simples prazer de dar a cara a tapa. Como diria o meu amigo Iran Rocha, pelo simples prazer de "dar carne a gato". Brasinha e o motoqueiro adoram "furar" o sinal vermelho, pôr a vida em risco, fazer roleta russa. Não dão a mínima a seu péssimo hábito. Pelo contrário, sentem nele um prazer indescritível, orgástico. O risco seria um elemento a mais de excitação, digamos assim.
              Pois justo nesse dia e àquela hora, a sogra do homem resolveu apreciar, da varanda, a paisagem do horizonte e, ainda não se sabe como com toda aquela miopia, astigmatismo e cataratas, avistou, sem a menor sombra de dúvida, como diria à filha dali a alguns minutos ao telefone, o carro de seu imprudente genro. A mulher, em casa a cuidar do pequerrucho e do lar e conhecedora dos maus hábitos do marido, não perdeu um segundo. Bateu-lhe incontinenti o telefone portátil. Numa melíflua voz a fim de não lhe levantar a mínima suspeita, indagou: 
              -"Meu filho, onde você está"? 
             Ele, sentindo-se o homem mais esperto do mundo, o mais inteligente e safado do planeta, respondeu cheio de si e pondo à voz a tonalidade firme do homem incapaz de uma lorota:
             -"Estou no supermercado fazendo compras, meu amor"...
             -"Pois você tem cinco minutos pra tirar o carro da frente do prédio de mamãe, seu mentiroso sem-vergonha! Senão, quando você chegar lá os pneus estarão tão cortadinhos que não servirão nem pra sola de sapato"!
              Não deu tempo terminar o almoço. Aliás, não deu nem para começar. Brasinha e a "presa" já haviam feito o pedido e o garçon já dera ordens expressas ao churrasqueiro. Tudo em vão. Saíram de lá às pressas e a mulher ainda teve de esperar que ele buscasse o carro e a pegasse numa esquina a uma certa distância. Afinal, se a velha vira o carro, nada a impediria de também ver a pequena. Era certeza ela estar à espreita lá de cima, do décimo andar, assistindo ao genro correr para sair dali o mais rápido possível. 
             Meia hora depois ele chegava em casa carregando uns poucos pacotes de compras feitas no supermercado. Ia tentar convencer a mulher que lá estivera de fato. O diabo seria explicar o que fazia seu carro parado defronte ao prédio da sogra. É como já dissemos. Quem se arrisca deve ir se acostumando com a idéia da morte. Ainda bem que não é o caso de meu amigo Brasinha. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Quem nunca come mel, quando come se lambuza...

    Diz o adágio que quem nunca come mel, quando come se lambuza. Pois foi justamente o que ocorreu ao meu querido amigo Edson Lopes Júnior, eminente Neurocirurgião desta terra causticada pelo sol. Por falar em sol, outro dia testemunhamos, Bella e eu, a um lindo nascer do sol. Foi ontem, admito. O disco solar, visto a quase cento e oitenta graus de onde estávamos, no horizonte máximo, era enorme e amarelo. Quase podíamos ver-lhe as manchas, as explosões, o halo... Pensei: - "Eis o milagre"! E lá estava o milagre. É muito engraçado, para não dizer trágico, que o Homo sapiens exclua o que entende como normal do que é, de fato, sobrenatural. Ora, é tão óbvio que o sobrenatural seja diário! Senão, vejamos.
      Como podemos explicar esse disco tão perfeito e tão adequado a nós? Como podemos olhar para ele sem pensar que dele nos vem toda a energia de que necessitamos para viver? E, se vem dele a energia, quem o pôs lá, assim tão adequadamente a nós? Por que ele está lá? Teleologicamente, há um fim nas coisas, ainda que digam o oposto. Se algo serve a algo, ainda que por acaso, em si não é isto uma pista, uma deixa, uma instigação à nossa mais remota burrice? Desejei imensamente estar, nem  que fosse por uma fração de minuto, em qualquer astro outro de nosso sistema, a fim de saber, de presenciar, um nascer desse sol comum a nós. Imune aos raios que nos afetam e nos são letais, imune às temperaturas extremas que nos são nocivas, anelei estar lá, algures, alhures, ali, ora bem perto, como em Mercúrio, ora bem longe, como em Plutão. 
      Conclui-se, sem mais delongas, que o natural é a insensatez, a burrice, a estupidez, a empáfia, o mal. O sobrenatural, sobre o qual nem de perto conseguimos atinar, o sobrenatural é o bem, é o que aparentemente não se explica numa base de fins, teleológica demais para a estultícia do Homo sapiens. 
     Mas, o que era mesmo que eu ia falar? Ah! Lembrei. Do Edson Lopes. Se não sabem, lhes conto. O Edson é o chefe da Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza(HGF). O diabo é que o hospital tem menos vagas do que o número de doentes que precisam de internamento. Em consequência deste fato, as áreas próximas e contíguas ao setor de Emergência foram enchendo-se de macas, de colchões, de cadeiras de rodas, todos ocupados por pacientes necessitando de algum tipo de tratamento hospitalar especializado. Essa área tornou-se, assim, uma enorme enfermaria e, de fato, poderíamos dizer que ali seria um outro hospital. Então, teríamos um hospital dentro de outro hospital. No Brasil tudo é piada, tudo é anedota, e por isso vamos tolerando os absurdos e os assassinatos como se nada disso nos dissesse respeito. Apelidou-se o hospital dentro do hospital de "piscinão". E o que o nosso querido Edson Lopes tem a ver com tudo isso? Vou explicar.
     Todos já sabem que o senhor Ciro Ferreira Gomes assumiu o posto de secretário de Saúde do governo de seu irmão Cid Gomes. -"Tenho as costas largas"!, foi logo dizendo o homem. E disse mais: -"No máximo em noventa dias vou acabar com o piscinão do HGF"! Diz outro adágio que quem fala assim não é gago. Ficou-se de orelha em pé e de olhos esbugalhados. Perguntava-se pela cidade: -"Que será que esse homem vai fazer pra resolver esse 'abacaxi'"?. Ninguém sabia. E repetia: -"Tenho as costas largas"! O diabo é que o governo de El Cid já vai ao ocaso e o piscinão o acompanha desde seu início, ou quase isso. Todos queríamos saber por que somente agora seria dada ao problema a atenção que ele sempre mereceu. O senhor Ciro Gomes acompanha, como o piscinão, o irmão desde a alvorada de sua administração, com direito a lances cinamatográficos e novelescos, incluindo bate-bocas mais efervescentes do que aqueles entre marido e mulher entre ele e deputados, entre ele e ex-prefeitos, entre ele e aliados, enfim, sempre entre ele e alguém que ousou lhe peitar. Bem poderia ter sugerido a solução para o piscinão há mais tempo. Será que o homem estava enlarguecendo as costas para essa entrada triunfal e digna de clímax hollywoodiano? Até agora o mistério segue insolúvel. Mas, continuemos.
        Semana passada foi o senhor novo secretário de Saúde visitar pessoalmente o piscinão. Abraçou doentes e acompanhantes, fez piadas com eles, piscou olhos para as donzelas e, como não poderia deixar de ser, bateu boca com uma senhora que fazia companhia a um parente lá "internado" e que não se deixou seduzir por sua voz melíflua e aflautada. A mulher caiu na besteira de dizer que eles, os políticos e, dentre eles, o secretário ali presente, estavam roubando o dinheiro do povo e que, por isso, a situação precária em que ele, o povo, ali se encontrava, naquele espaço. Em seguida à visita, ele seguiu para o gabinete do senhor diretor do hospital para uma reunião com as chefias e direções no intuito de planejar a compra de leitos hospitalares na rede de apoio, solução encontrada para acabar com aquele "aborto" do atendimento médico que é o piscinão. 
        Eram umas doze pessoas no gabinete da direção. Não estava presente apenas o doutor Edson Lopes, chefe da Neurocirurgia, preso noutro hospital devido a uma intercorrência. Eis, então, que chegou o momento, na reunião, de se estabelecer como seria feita a compra dos leitos hospitalares para os pacientes da Neurocirurgia. Doutor Rommel Araújo, chefe da Emergência do HGF, resolveu ligar para o telefone portátil do doutor Edson Lopes, a fim de pô-lo em contato direto com o secretário de Saúde ali presente. 
        Disse-lhe: -"Edson, bom dia! Estamos aqui no HGF em reunião com o secretário, doutor Ciro Gomes. Ele quer dar uma palavrinha com você", e passou o telefone para as mãos do secretário. Ele disse:
        -"Doutor Edson, bom dia! Aqui quem fala é Ciro Gomes. Como vai"? 
        -"Rommel, deixa de putaria, rapaz. Liga depois que agora eu tô ocupado"...
        Ciro deu um sorriso sutil e continuou: "-Mas, doutor Edson, sou eu, Ciro Gomes, o secretário de Saúde... Estamos aqui reunidos no gabinete do Zózimo [diretor geral do HGF] para dar um encaminhamento para a solução definitiva  ao problema do piscinão". 
        Edson recalcitrava: -"Rommel, eu sei que é você... Faça o seguinte. Me ligue depois que agora eu não tô pra brincadeira, não"!
        Ciro afastou o fone do ouvido e, dirigindo-se a todos os presentes no gabinete, disse, tendo na face o sorrisinho sutil que todos bem conhecem: -"Pessoal, ele não está acreditando que sou eu"..., e passou o telefone para Rommel. A essas alturas todos já estavam a ponto de gargalhar com a inusitada situação que se apresentava. Doutor Rommel, calmo como um monge budista, interveio dizendo: 
       -"Edson, sou eu, Rommel. Rapaz, acho que você ainda não entendeu. Estamos aqui no gabinete do Zózimo com todos os chefes de clínica e o doutor Ciro Gomes, o secretário de Saúde, em reunião. Ele quer falar contigo para saber sobre os leitos da Neurocirurgia"... 
        -"Rommel, você está com a voz diferente, mas eu sei que é você com aquelas tuas brincadeiras, né"?
        Apenas cinco minutos depois, quando o diretor do hospital falou com ele e explicou o que estava se passando, Edson finalmente acreditou que o secretário de Saúde do Estado do Ceará estava precisando lhe falar para resolver assunto de interesse da população. 
        Foi por isso que eu disse ao início: quem nunca come mel, quando come se lambuza.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pobres brasileiros!


      Deveria ser do conhecimento de todo bom brasileiro vivo que o Brasil entrou, virtualmente, em uma ditadura branca de esquerda. Em minha humílima opinião, o marco no tempo foi a decisão do Supremo Tribunal Federal em 18 de setembro de 2013 próximo passado. Com seu voto pelos embargos infringentes a favor dos réus do mensalão – já condenados! –, Sua Excelência, o ministro Celso de Mello, decretou a fundação da referida ditadura. Consta da biografia do ministro sua amizade pretérita, e talvez não tão pretérita assim, com um dos condenados, o senhor José Dirceu, com quem dividiu um quarto ao tempo em que eram estudantes universitários (http://www.leiaja.com/coluna/2013/celso-e-dirceu-ja-dividiram-pensao). Assim, decretou-se, tão “nasurdinamente” quanto possível, um verdadeiro estado de anomia travestido de um falso ordenamento jurídico que funciona apenas a “legitimar” sua respectiva falsa democracia.   
        Vejam como a criatividade do brasileiro chega às raias do improvável e, por que não dizer, do falsamente impossível. Nesses últimos onze fatídicos anos, a infiltração da mais danosa esquerda nas instituições ditas democráticas engendrou aquilo que nem mesmo ela seria capaz de supor. Como que por acaso, seus seguidores perceberam aos poucos que não seria necessário recorrer às armas para impor sua ideologia e sua lógica. A lenta infiltração, como a umidade que pouco a pouco avança entre os tijolos e através deles na parede que representaria a sustentação da sociedade, corroeu a estrutura e a cor do tecido social. Sem derramar uma gota de sangue – pelo menos à maneira tradicional de se tomar à força o poder –, a ideologia petista pouco a pouco corrompeu a moral, o ordenamento jurídico, a empresa, a instituição pública e a máquina estatal. O sangue que se derramou e ainda escorre em abundância ficou por conta da falência do código penal, da falência do código de processo penal, da falência do sistema policial, prisional e penitenciário, e da permissividade e envolvimento do poder público com os elementos do tráfico internacional de entorpecentes. Falei em anomia e já corrijo. 
       O Direito, como fato social durkheimiano, está aí, presente em nossos dias e em nosso dia-a-dia e, forçoso dizê-lo, cada vez mais necessário, nunca até então tão lépido e fagueiro. O que mudou foi o legislador. Sim, o legislador, lato sensu, tornou-se, ao longo desses anos, o grande pilar e o esteio dessa silenciosa revolução. A pedra-de-toque o demonstra claramente. Segundo uma das teorias do crime, é crime tudo aquilo que o legislador assim o classificar. Simples assim. Não será crime, portanto, o que este nobre senhor, em assembléia com outros de seus semelhantes, decidir. A conduta excluída deste rol tão ao seu gosto está eivada daquilo que sua vontade o quiser. Para que não pareça que estejam a se distanciar tão descaradamente da recente Moral que se tenciona subverter, e a fim de que se domine o poder ainda e sempre pela infiltração e não pela força, permitem que ainda constem nos códigos certas condutas que lhes são bem do feitio. Devem vencer as resistências sem solavancos, ou com o mínimo deles. Incluem nos códigos abrandamentos e leniências que vêm a impedir que sejam eles próprios, dados àquelas ações ainda típicas, delas vítimas. Nada mais fácil do que suscitar jurisprudências favoráveis a seus propósitos. Afinal, elas, as jurisprudências, se constroem e se impõem ao longo do tempo. Afinal, onze anos não são onze dias. Ademais, o tempo serve às compulsoriedades das sumidades jurídicas. Uns vêm e outros vão, os que não lhes lêem na cartilha. O Direito brasileiro, então, tornou-se justamente a malha sobre a qual a infiltração se processa. Então, estava eu errado quando declarei a anomia. Estamos diante das novas regras, do novo ordenamento que aos poucos se instala. Não é um evento findo porquanto está em pleno curso. O pontapé inicial de maior peso foi dado. 
         Eu ia falar sobre os transplantes de órgãos, mas trazia ao coração esse sentimento de indignação. Dito (quase) tudo sobre ele, passemos aos transplantes. Outro dia falei que eles são o atestado da falência de nossa medicina preventiva, de nossa “medicina social”, de nosso “médico de família”, de nosso “Programa de Saúde da Família” (PSF). 
         Pois hoje calhou de eu encontrar o meu amigo Marco Aurélio Costa, nefrologista de primeira estirpe. Perguntei-lhe qual é, aos dias de hoje, a principal causa de doença renal terminal. (Aos leigos leitores explico que “doença renal terminal” é qualquer doença dos rins que leva à sua “destruição”, de modo que eles param de funcionar. Vários tipos de doença levam a este êxito.) Respondeu-me na bucha: -“Diabetes”! E completou: -“Trinta a 40% dos doentes dialíticos são doentes de nefropatia diabética terminal”.  Vejam os senhores leitores o que não dá para esconder. Não é possível conceber que uma doença controlável chegue a causar uma complicação tão devastadora senão com a explicação mais óbvia e perfeitamente comprovável: - muitos diabéticos estão fora de controle. E, se estão fora de controle, a única explicação possível é a seguinte: - ou falta médico para acompanhar o doente, ou falta o medicamento de que o doente necessita, ou faltam ambos. Tal preocupação diz respeito a toda sociedade na pessoa de seus representantes, ou seja, o governo. Conclusão: o governo não faz a parte que lhe compete. 
        Estamos assistindo da poltrona a história do programa “Mais Médicos”.  Eis que hoje uma amiga me veio perguntar o que acho e o que penso do tal "programa" do governo federal. Disse-lhe o óbvio e que salta aos olhos até mesmo do mais insensato dos brasileiros. O "Mais Médicos " é lindo, é uma maravilha. O que o enlameia é o modo como o fizeram. Primeiro, pisotearam os princípios da Carta Maior e em seguida rasgaram os direitos que o trabalhador conquistou em solo pátrio bem como os direitos humanos, ao se permitir a exploração do trabalho escravo em pleno século XXI. No mais o "Mais Médicos" é de uma beleza ímpar. Segundo, em breve veremos os resultados do programa na saúde primária, a mesma que provê os receptores dos transplantes renais que tão indevidamente comemoramos. Assim, estamos a assitir a mais um faz-de-conta  do governo . Somente mais médicos nas áreas onde são insuficientes não resolverá o problema da falta de controle das doenças controláveis. Se o provimento dos demais recursos – humanos, tecnológicos mínimos e medicamentos – não acompanhar essa medida, nada mudará. Entretanto, deixemos para o tempo, o senhor da verdade, a demonstração dessa cruel e desumana realidade. 
        Em outras palavras, o governo, na verdade, não está ainda fazendo a sua parte nem tem a intenção de fazê-lo. Toda essa história do "Mais Médicos" tem, por trás, a hediondez da esquerda assassina e oportunista. Não basta para ela rasgar as leis. O inconfessável apenas teve início. A partir de agora a infiltração seguirá um ritmo mais acintoso, mais impetuoso em outras áreas, aquelas em que não seja de risco para seu projeto a exposição de seu caráter. Apenas no que diz respeito às leis, seguirá ela ainda resguardada e camuflada. No futuro próximo, quando já não houver possibilidade de volta, mesmo as leis revelarão seus maus bofes. E aí o mundo exclamará estupefato: -"Pobres brasileiros"!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Choremos com o Romeu...


               Tocou-me deveras a prosa de hoje do Romeu Duarte (http://www.opovo.com.br/app/colunas/romeuduarte/2013/09/16/noticiasromeuduarte,3129853/no-centro-do-coracao.shtml). Tão prosa quanto poética, como o passeio que o menino Romeu, entre o Cearense e a parada do Quitandinha, chupando um rolete de cana ou uma lasca de doce americano, bem entendido deixou nas entrelinhas. Vez ou outra, presumo, esticava-se até a Praça onde tudo começou há, sei lá, quase trezentos anos, na intenção do caldo com pastel ali na Leão do Sul, vizinho a ela. É quase um choro, um pranto resignado e contido, um lamento doído e quase mudo do homem que ainda carrega dentro de si o marista menino, como a um sapo de macumba, no dizer do Nelson.
               Chora o Romeu sobre o estado deplorável do Centro dessa Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Diz mesmo assim: "a culpa é tua, por continuares sendo a referência de salvação das periferias miseráveis". Não sei como ainda não se ergueram contra o Romeu nossos simulados comunistas após a expulsão, dos nababescos shopping centers da cidade, dos miseráveis da periferia miserável. O Centro, esse recalcitrante econômico e geográfico, segue firme na função de bem recebê-los e, assim, torna-se obrigatoriamente uma espécie de repositório discriminado por seu "conteúdo". Não é essa a opinião do poeta, deixe-se claro. É um fato facilmente demonstrável.
               Vejam que na mesma edição do jornal as sumidades sugerem medidas que, se tomadas, viriam melhorar o desempenho e o serviço prestado pelo transporte público desta decadente cidade. Depois de mais de mil e quinhentos assaltos a ônibus de janeiro para cá no ano corrente, sugerem, por exemplo, que a passagem não seja vendida dentro do veículo, como se os bandidos não gostassem de telefones portáteis e do mais que os indefesos passageiros trazem aos bolsos e bolsas; que, com a progressiva e crescente lentidão das viagens em nosso caótico trânsito, se coloquem mais veículos nas ruas já congestionadas e abarrotadas quase a transgredir o princípio da impenetrabilidade da matéria; que, na mesma previsível inocuidade da medida, se recriem as faixas próprias para os ônibus, como se isso não servisse a piorar o já referido caos. Enfim, a reportagem, que pretende sugerir medidas ainda cabíveis e factíveis para melhorar nosso trânsito insano e brutal, propostas por entendidos que de nada parecem entender, sugerem o impraticável e o inútil porquanto incapaz de solucionar ou mesmo mitigar o problema. Não é preciso ser douto no assunto para isso afirmar. A cidade mais do que esgotou-se em si mesma: - esgotaram-se por completo as medidas paliativas, demostrando o exaurimento de nossos espaços de manobras.
               Não bastasse isso, no dia 6 deste mês deu no jornal o seguinte. Que em apenas uma semana os alunos do Centro Educacional Dom Bosco fizeram dois motins. (Um motim é das duas uma: - um grande tumulto, ou um movimento de revolta contra a autoridade.) Segundo a reportagem, os jovens, durante o segundo motim, acabaram por queimar cadeiras de plástico, roupas e colchões e também quebraram bebedouros. A reportagem não esclarece quem discutiu com quem, nem em quais circunstâncias tudo ocorreu. 
               O Centro Educacional Dom Bosco é um... lugar, ou escola, ou internato, ou reformatório, onde internam-se jovens "infratores" que cometem "atos infracionais de natureza grave". Esclareçamos a fim de que não se perca o fio da meada. "Ato infracional de natureza grave" é um crime praticado por um jovem que, justamente por ser jovem, não recebe o epíteto de criminoso mas de "infrator". Observem que todas as aspas se destinam a pôr em evidência os múltiplos eufemismos criados por uma penca de legisladores incompetentes ou mal informados. 
              Na primeira revolta eles haviam incendiado móveis, colchões e quebrado o teto. (Estou absolutamente impressionado com a quantidade de colchões que o Centro Educacional tem. A outra possibilidade é a de que, tão logo viram-se sem colchões após o primeiro ato de vandalismo, os administradores do Centro celeremente providenciaram a compra de novos colchões os quais, infelizmente e também, foram incinerados na segunda revolta. A se permitir novos e incontroláveis   motins, é o caso de se pensar na criação ou aumento de algum imposto estadual ou municipal a fim de cobrir essas contingentes despesas.) 
               Novamente a matéria do jornal é omissa quanto ao contexto do episódio. Fiquei a me perguntar, com cara de tacho: -"Por quê"? Digo, por que a reportagem não informa o que deve informar? Uma matéria tão pertinente havia de, por dever de ofício, esclarecer tudo, explicar tudo direitinho. Mas não. No momento em que a sociedade discute a história da maioridade penal, eventos como esse deveriam ser esmiuçados, escrutinados, esclarecidos. O jornal, um bom e marrom jornal, nega-se a fazê-lo. Que os jornais locais para nada prestam já sabíamos. Informar que é bom, nem pensar.
               Enquanto isso o senhor Ciro Gomes, que assumiu a pasta da saúde do governo de seu irmão, anunciou que o estado vai, finalmente, acabar com o chamado "piscinão" do HGF bem como desafogar os demais hospitais terciários repletos de pacientes que neles vêm se acumulando desde o início do referido governo. Contratarão leitos em hospitais particulares, ampliarão e reformarão alas já existentes nos próprios hospitais públicos e, enfim, resolverão o problema da desumanidade institucionalizada na saúde desta Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. O que não se entende é a razão de só agora cair do céu a solução de problema tão crônico e aparentemente insolúvel, e por quanto tempo essas providências surtirão o efeito esperado. Tudo cheira mal, essa é que é a impressão que se tem. O tempo, senhor da verdade, nos proverá em breve de tudo o que o manto do presente encobre.
               Ah, Romeu!... A tua prosa poética estava tão querida, tão por nós necessitada!... Choramos contigo e não somente pelo Centro do qual dizes: "tu, que eras de uma beleza singela e asseada, agora exibes necroses por abandono em teu tecido urbano". Cansado, pergunta Romeu em sua aguçada visão de artista das edificações, mas não menos sensível aos horrores da putrefação de nosso organismo social: "ex-cidade, que é da tua vocação, qual é a tua"? 
               Sim, todos queremos saber: Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, qual é a tua? És, assim como parece, uma cidade imobilizada, repleta de doentes desumanamente largados e de criminosos sádicos e inimputáveis? És mesmo tudo isso? Teu Centro é apenas a amostra menor de todos os teus piores males? És mesmo uma ex-cidade? um amontoado argamassificado de gente cega ferindo dia-a-dia as teorias que tentam explicar os ajuntamentos humanos? Tornaste-te a prova viva do estado natural hobbesiano? a necessitar urgentemente de um Leviatã opressor? Qual o teu destino, Fortaleza? O que te aguarda em teu futuro?
               Choremos com o Romeu...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Perita, negligente e entojada


               -“Ei, mulher!... Com’é teu nome, hein”?
               Foi como a servidora pública que funcionava de recepcionista na junta médica municipal se referiu a uma senhora que aguardava sentada a fim de ser periciada. Ela própria, a servidora, era uma senhora de certa idade e, de fato, parecia ainda mais velha, tamanho seu desleixo estético e tamanha sua rasteira educação. Teria o quê? Talvez seus sessenta anos. A mim me pareceu ter oitenta. Quiçá noventa. Quanto mais me lembro da cena, mais a mulher envelhece. Seus desgrenhados cabelos diziam tudo.
               Esperei exatos cento e trinta minutos para ser periciado, uma laringo-faringite que se me abateu desde a sexta passada. Com a nova determinação, a partir de agora mesmo o atestado médico de um dia necessita de “homologação pericial”. Era precisamente o meu caso. A burocracia weberiana é a demonstração mais cristalina do que se chama “o exercício do poder”. 
               (O burocrata não sabe que, mesmo doente, fui trabalhar ao dia do atestado. Apenas não cumpri a carga horária exigida por ele. Dei uma passada na enfermaria para ver como estavam os doentes, mediquei-os embora não me sentisse bem e, após a consulta que confirmou minha condição, vim para casa. Bem se vê que o burocrata é desses idiotas espessos e essenciais.)
               Chamaram-me a entrar. A perita era uma senhora de tez muito clara e cabelos encanecidos. Semblante sério, inexpressivo, quase não ergueu a vista para me olhar nos olhos e, quando o fez, queria apenas saber o nome do médico que me fornecera o atestado. Tive de repetir-lhe por duas vezes o nome. Nem minha rouquidão remanescente lhe provocou a curiosidade. Não quis saber se eu estava bem, nem se estava pronto a voltar ao trabalho. Foi a funcionária que a assistia quem quis saber: -“O senhor já voltou a trabalhar”?
               A outra, a médica perita, apenas operava o teclado. Olhava para ela e pensava na lá de fora, na recepcionista. A médica me lembrava uma parenta antiga, a tia Zélia. Era uma mulher gorda, cabelos igualmente brancos e bem sedosos; sua pele era pálida e delicada como a de um bebê. A diferença entre elas me parecia enorme, embora da falecida parenta só me restassem as reminiscências infantis. Viúva, recolhera-se, em seus últimos dias, em sua casa com sua inseparável companheira e funcionária do lar, a Severina. Era tia-avó de minha mãe. Tia Zélia exalava amor, bondade e doçura. A perita não. Era o que se poderia chamar de “mal amada”. Ou má amante. Talvez fosse uma “nunca amada”. Sabe-se lá.
               Ainda com os olhos vidrados no monitor, me fez a segunda pergunta, que também em nada se referia à minha condição: -“Qual a sua função”? Após a minha resposta, completou: -“Tudo certo. Pode ir”. –“Posso ir, então”?, quis confirmar dando um tapinha na mesa ao me levantar. Quis saber se não seria necessário levar comigo um papel, um documento comprobatório da “perícia”. (A burocracia não existe sem o papel. No dia em que se abolir o papel, estará igualmente morta a burocracia.) Respondeu secamente: -“Não, não precisa”. E emendou: -“E também não precisa bater na mesa”. Dando outro tapinha na mesa, sorri ironicamente e respondi: -“Desculpe e bom dia”! A única a me retribuir o cumprimento foi a funcionária, que disse: -“Bom dia, doutor”!
               O meu querido amigo Ivan Machado explicou-me, outro dia, referindo-se a essas agora obrigatórias homologações de atestados médicos: -“Fernandin, o bom paga pelo pecador”... Ele falava e eu me lembrava da passagem bíblica em que Abraão pergunta ao Senhor: -“Destruirás também o justo com o ímpio”? Respondeu o Senhor que, “por amor dos dez”, não destruiria Sodoma se nela encontrasse dez justos. O final da história todos sabem. Sodoma foi destruída somente após a partida de Ló, que levou consigo a mulher e três filhas.
               (Severina ainda mora na mesma casa onde por muitos anos cuidou fiel e zelosamente da patroa-irmã. Ela herdou todo o patrimônio de tia Zélia.)  

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Os falsos petistas


               Vejam que vivemos à época da mentira. Nunca se mentiu tanto. E falo da mentira coletiva, da mentira que alucina, que coopta, que seduz. 
               Antes de continuar falemos um pouco da espionagem. Os espiões norte-americanos, descobriu-se pela boca de um alcagüete, estavam espionando o governo brasileiro. Dilma despachou seu ministro da justiça para a América a fim de tomar satisfações com os ianques. Eles praticamente o enxotaram de lá. O governo brasileiro queria "explicações" e "entrar em acordo" com o governo estadunidense. Ora, o governo brasileiro é pano de chão até dos bolivianos, do tal do Evo Morales! O Evo Morales fez e desfez, faz e desfaz, e o governo brasileiro, para a mais completa vergonha dos brasileiros de bem, se dobra de joelhos a esse picareta boliviano. Imaginem o que a nação mais poderosa do planeta iria fazer com o Cardozo, o ministro da justiça brasileiro. Não poderia fazer outra coisa. O Obama nem deu as caras. Agora, depois do muxoxo brasileiro, Dilma "ameaça" cancelar a viagem que faria aos Estados Unidos. Obama está há uma semana sem dormir.
               Mas o que eu queria dizer é que deu-me uma vontade incoercível de bater o telefone pro Obama. Quero até crer que o homem me atendesse. Afinal, diferente desses canalhas que governam o Brasil, sou um cidadão honesto, pagador recalcitrante, mas fiel, dos impostos que me são cobrados, das multas de trânsito que me chegam, e cumpridor das leis de meu país. Não vivo de regalias nem faço uso de benesses ou do tráfico de influência que ainda muito está em uso por aqueles que querem posicionar os que não têm mérito n'algum posto de seu interesse. Tudo o que consegui na vida foi através de esforço e méritos pessoais, como milhões de outros brasileiros de valor. Assim, Obama bem seria capaz de me dar uns minutinhos de seu precioso tempo. Ao representante do governo brasileiro, nada. Por tudo o que Obama sabe hoje. 
               (Não sei se se lembram quando Obama encontrou o Lula num evento onde se reuniram vários Chefes de Estado. Obama ficava apontando pro Lula e dizendo: -"Esse é 'o cara'"! Lembram? Os apaixonados pelo pau d'água tinham orgasmos ideológicos e políticos com a brincadeira do Obama. São todos antiamericanos, mas a brincadeira do Obama era como um aval de peso ao nosso Chefe. Eu, de minha parte, dizia: -"O Obama está é debochando do pinguço, seus idiotas"! E ninguém me dava ouvidos.) 
               E o que eu diria pro Obama ao telefone?, é o que muitos de meus parcos e escassos leitores estão a se perguntar. Bem, em primeiro lugar lhe faria um pedido. Pediria, encarecidamemte, que ele autorizasse a um de seus espiões a passar ao povo brasileiro todas as informações que eles obtiveram com sua espionagem. Deve haver uma penca de informações bem cabeludas nas conversas entre nossos políticos da alta cúpula. É bem provável que a república viesse abaixo. E, se não viesse, faria o segundo pedido. Que os gringos, eles, nos invadissem. 
               (O meu amado amigo Raimundo Araújo, um mineirinho das bandas dos Montes Claros e simpatizante voraz do petismo, e que conheci ao tempo em que morava no Rio de Janeiro, vivia a implorar pela invasão norte-americana, que ele chamava de "centuriões". Dizia, berrando aos quatro cantos: -"Venham os centuriões"! Achava que, com eles a nos ocupar, estaríamos salvos de nós mesmos.)
               O intróito que fiz se destina a relatar recente episódio do qual fui vítima. O meu amigo Paulo Prado lamentou minha assunção de ser de "direita". Melhor dizendo, ele pensa que sou de "direita". E por que pensa ele isso? Porque manifestei meu horror pelo governo petista e por tudo que se diz "de esquerda" no Brasil. Disse que eu era um reacionário. Que fiz eu após essa tão deliciosa acusação? Assumi. Sou um reacionário, como o Nelson Rodrigues, de quem sou fã incondicional. Sabem o que fez o Paulinho Prado quando me assumi reacionário? Ofereceu-me a ler o "Mein Kampf" do Hitler, já sugerindo que eu deleitar-me-ia com a "obra" de um dos maiores assassinos que a humanidade já produziu. (Adolf Hitler perde, em assassinatos, apenas para Josef Stalin, este, provavelmente, muito ao gosto de meu amigo "de esquerda".) Em suma, o meu amigo me taxou de simpatizante do genocídio, do anti-semitismo e do racismo. Vai ver ele até tem certeza de que eu, como médico, injeto fezes nas veias dos doentes que julgo merecedores de um fim cruel por se enquadrarem em meus critérios fóbicos. Eu seria um Mengele cabeça-chata, um "anjo da morte" do sertão. 
               Mas vejam que o pior não está aí. O pior é o que os fatos demonstram no dia-a-dia. O Paulinho Prado, por exemplo, um exemplo dentre tantos outros que vivem e pensam como ele. Pensam como a "esquerda" e agem e vivem como a "direita". Deleitam-se nos prazeres proporcionados pelo que o modo de vida da "direita" permite e proporciona, mas discursam o falso-belo discurso da "esquerda". Inúmeras vezes sugeri aos amigos que simpatizam com essa corja: -"Vão viver em Cuba"! Nenhum desses ilustres senhores se dignou. Preferem ganhar dinheiro e surfar nas benesses capitalistas. Preferem explorar seus empregados ou não lhes pagar a diferença da mais-valia. Agem "capitalistamente" em seu dia-a-dia. (Não sei se o Paulo Prado paga a diferença da mais-valia a seus funcionários, mas ficaria sinceramente feliz em saber que o faz.)
               O que eu queria dizer é que a grande mentira brasileira, a grande lorota de nosso momento, não é o petismo. Não existe o petismo, eis a grande verdade. O que existe é uma horda de falsos petistas, de falsos "esquerdistas"; de falsos cidadãos preocupados com a pobreza, com a miséria, com as crueldades que se praticam contra o povo humilde deste vasto rincão. Essa súcia está aí há onze anos a maquiar resultados financeiros, a maquiar índices, a maquiar projetos que não se erguem um micra acima do papel e a vender a idéia do petismo salvador. A mentira grassa solta e o que se vê, na dura realidade da vida brasileira, é a baixa intelectualidade e educação de péssima qualidade, a saúde agonizando, a infra-estrutura de país africano, a dívida pública na estratosfera, e a segurança pública e a impunidade em insuportável alta. E – pior! – a sensação de insegurança na vida civil. Os falsos petistas estão para mostrar já, já a que vieram. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma digressão inoportuna


               Vi no jornal: - oito decisões judiciais e ninguém sabe onde está a lei sobre a história da construção dos viadutos. Será uma questão de interpretação? Vai ver é exatamente isso. A pergunta que cabe em relação a esta novela é: - onde estão os princípios? Se é que em Direito Ambiental eles também existem, é legítima a pergunta. 
               Quando criança os adultos se referiam a histórias que se prolongavam em demasia como uma "novela". Pois a história dos viadutos nada mais é do que uma novela. Vide a novela das oito. (Se alguém quiser saber detalhes diários de seus capítulos, um conselho: - que ligue para o Padilha. É a maior cultura novelesca que conheço.) O roteiro da peça é esticado a não mais poder. Assim como está sendo a história dos viadutos. 
                Ontem, para afugentar o tédio dessa história e da história dos médicos cubanos, recebi a notícia sobre o Mesquita. O homem perdeu dinheiro. E muito. Essa história de perder dinheiro sempre dá o que falar, inda mais sendo do Mesquita os bolsos de onde fogem as verdinhas. Todos sabem: - um dos centros da vida do Mesquita é o dinheiro. Perdê-lo é, para ele, das piores tragédias da paróquia. E engraçado como se confirma o que disse o Robert Kiyosaki: - "você recebe o que você teme". O Mesquita tanto teme perder dinheiro que o perdeu como reza o adágio do Kiyosaki.
              Outra novela que não tem fim é a da insegurança grassante em Fortaleza. Não sabemos se  o que ocorre aqui ocorre também noutras capitais do país e na mesma proporção. A situação está assim há, sei lá, três ou quatro anos. E só piora. Os índices estão aí a comprovar o que se vê na vida real. É difícil encontrar na cidade quem não já tenha sido vítima. Os detalhes dos assaltos assustam por vários aspectos.
               Há relatos de assaltos em que os bandidos portam armas de grosso calibre e utilizam carros importados em suas operações criminosas. Muitas vezes não se sabe se o carro é fruto de outro crime ou se pertence aos bandidos. Por outro lado, há relatos de assaltos praticados por motociclistas que pilotam as próprias motos e fazem uso de armas que mais se assemelham a armas de brinquedo, mas que ninguém quer pagar pra ver. Há relatos de bandidos bem parecidos e há relatos de bandidos mal encarados. Há assaltos a todo tipo de gente, do idoso ao adolescente, e há assaltos a instituições financeiras que gastam os tubos em seguros e segurança. Assalta-se o rico, o de classe média e o pobre. Assalta-se no Centro e na periferia, passando por bairros chiques e bairros pobres. Desse ponto de vista, a classe dominante está sendo tão vítima quanto os "explorados". 
               Em que pese o relato de policiais mortos por bandidos, em ações coordenadas pela força policial ou por ação individual do policial, há muitos relatos, por parte da população, de descaso das autoridades policiais para com o cidadão tanto no momento da agressão quanto quando este procura a autoridade investigadora. Como é amplamente conhecida a querela e a insatisfação dos policiais com o governo do Estado, difícil não se levantar a hipótese de uma greve branca daqueles. A greve branca, portanto, seria uma forma de pressão da força policial sobre o governo estadual já que aos policiais não se concede legalmente o direito de greve. Nenhum policial quer pôr a vida em risco para defender ou proteger uma sociedade que lhe paga uma mixaria. 
               Aliado a esse sentimento de desvalor, cresceu no seio da tropa a sensação de insegurança própria. Policiais que feriram ou mataram facínoras em ação passaram a ser alvo de investigação interna e corregedores. Ações truculentas da polícia, ainda que pontuais, passaram a dominar as discussões acerca do modo de agir da polícia, o que contribuiu ainda mais para uma sensação de abandono do policial. A ação policial era, agora, alvo e objeto de contradição. Como combater bandidos bem armados e dispostos a matar pressionado por uma nova ética de conduta? Como não ser violento com a violência? Como não se defender à altura contra aquele que quer tirar-lhe a vida? O policial no ambiente de violentas ações criminosas devia comportar-se como um policial inglês.
               Todos os habitantes desta cidade hão de lembrar-se do "dia do ladrão", 03 de janeiro de 2012, quando a cidade parou por conta de boatos e relatos de arrastões disseminados em vários pontos por causa da paralisação dos policiais. Depois disso o governo retaliou contra o movimento paredista através de transferências indesejadas e exoneração dos líderes grevistas. Então, repito, é impossível não se pensar na greve branca quando, aliada à incompetência do governo em inovar na segurança pública, vê-se claramente a morosidade e o descaso com que os homens da polícia agem nas ruas e nas delegacias, tudo explicado pela falta de reconhecimento, da baixa autoestima e dos baixos salários pagos a quem exerce uma atividade de risco permanente para a vida.
               O governo, por sua vez, acredita estar fazendo o melhor que pode fazer na área da segurança. Para ele, nada mais pode ser feito que ele já não tenha feito. Em sua avaliação, fez tudo e mais alguma coisa. A prova? Segundo ele, o que gastou e vem gastando na pasta é uma montanha de dinheiro jamais concebida para tal propósito. O senhor secretário de segurança foi recentemente à Assembléia Legislativa para uma sabatina com os senhores deputados. A dita acabou se transformando numa exposição nua, crua e fria, sem aceitação de contraditórios e de interpelações. Ao que conste, nem o senhor governador teria sido tão rude e tão ácido quanto foi ele. O resultado foi a frustração geral, não tão geral assim, tendo em vista o controle quase que total do executivo sobre o legislativo estadual.
               As explicações sociológicas para tamanha violência parecem não explicar nada. Se assaltam a todos, se todo tipo de assaltante está a agir, se todos são potenciais e reais vítimas, como explicar esse estado de coisas? Como explicar o fenômeno com vistas à busca para a solução? Seria a explicação a falência e inoperância do ordenamento jurídico, uma ineficácia jurídica maciça cujos efeitos estão a vicejar? Aliada a essa falência outras falências, como à do sistema penitenciário e prisional? Ou estará em ação uma urdidura a nós inimaginável, a serviço de algo pior? 
               Enquanto não vem o tempo, vejamos a novela das oito, esta sim, quanto mais demorada, melhor. Nela o final feliz está à espreita com o fim de satisfazer nossa ânsia de felicidade, tamanho o nosso infortúnio. A verdade de nossa época? Essa só o tempo dirá.