segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CRENTES NUM dEUS NATIMORTO

          Outro dia escrevi que a verdade anda nua. Um amigo quis saber, dada a ambigüidade da frase, se a nudez da verdade seria uma característica temporária, sazonal, ou se, ao contrário, ela lhe é inata e inerente. Ao amigo devo dizer, sem medo de errar: – a verdade é permanentemente nua e sempre nua; nasceu nua e há de morrer nua. 
          Ora, os vestidos mudaram-nos a estética. De nus passamos a cobertos. Nossa nudez terá sido nossa última felicidade. A cobertura nos tirou a felicidade. E nos removeu também a inocência. Vejam os bebês. Em sua nudez são felizes e castos. Não sabem que estão nus. Na verdade, nada sabem. São puros como os pássaros que cantam à aurora. 
          Não vou escrever sobre a verdade e a mentira posto que choverão protestos a imputar-lhes uma eterna relatividade, e não me sinto capaz de tantas e tão complicadas incursões em tema tão espinhoso. O que eu queria contar aos leitores é que também uma amiga me escreveu para dizer que nosso complexo de vira-latas, descrito por Nelson Rodrigues em sua crônica intitulada “Complexo de Vira-Latas”, é-nos atávico. Ora, há uns caras aí da “esquerda” que estão a se utilizar politicamente do tal complexo para, talvez, imputar à “direita” certas falas e discursos e, tomando para si a posse da verdade, dão a entender que o Brasil e o brasileiro são capazes e grandiosos. (Escrevo direita e esquerda entre aspas porque no Brasil não há, de fato, direita e esquerda. Mas isso é outra história.) 
          O diabo é que, ao se utilizar do que escreveu o Nelson, esquecem de levar em conta o contexto de seu texto. Pois bem. Contextualizemos.
          “Complexo de Vira-Latas” foi publicada na revista Manchete Esportiva ao dia 31 de maio de 1958, às vésperas do início da Copa do Mundo na Suécia. De fato, foi a última crônica escrita por Nelson  antes da estréia do escrete naquela competição. A Seleção Brasileira de futebol já havia deixado o solo pátrio e reinava uma descrença e um negativismo geral na nação quanto às nossas possibilidades de sucesso naquele certame. Diz lá o Nelson, duvidando que pudéssemos ser tão pessimistas: -“Não será essa atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e desavergonhado”? 
          Tamanho pessimismo teria sido cria da derrota para os uruguaios em 1950, em pleno Maracanã lotado, na final. Diz lá ele: –“Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2X1... O tempo passou em vão sobre a derrota”. E conclui claramente: –“E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: – é ainda a frustração de 50 que funciona”.
          Então, estavam os 60 milhões de brasileiros da época descrentes de que pudéssemos trazer a taça. Por sua vez, o Nelson concluía e, por que não dizer, demonstrava que tínhamos todas as condições de sermos campeões. Descrevia o que acontece com o jogador brasileiro em estado de graça: criativo, habilidoso, genial, superior a todo e qualquer outro craque de qualquer outra seleção. O que atrapalharia o jogador brasileiro seria justamente o que chamou de complexo de vira-latas, “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. E ressalta: –“Isto em todos os setores e, particularmente, no futebol... É um problema de fé em si mesmo”. O conselho do cronista vem ao final: –“O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia”.  
          "Complexo de Vira-Latas" compõe uma coletânea de crônicas de futebol organizada por Ruy Castro e publicada em livro, "À Sombra das Chuteiras Imortais", em 1993 (http://www.faroldoconhecimento.com.br/livros/Educação%20f%C3%ADsica/Metodologia%20do%20futebol%20e%20do%20futsal/À_Sombra_das_Chuteiras_Imortais_-_Crônicas_de_Futebol_-_Nelson_Rodrigues.pdf). Tempos depois Nelson admitiu: -"O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade". Vejam que após a visão de que o brasileiro se coloca inferior aos outros povos por falta de fé em si mesmo foi, depois, substituída por uma outra visão, a de que não estamos preparados para as graves e pesadas responsabilidades que outros povos assumiram e que, por isso mesmo, os tornaram grandes.
          Quem sabe o que diria Nelson Rodrigues ao ver o futebol praticado por nossa Seleção na última Copa do Mundo em terras tupiniquins... O que diria ele sobre a qualidade de nossos jogadores... De "algo único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção", nos tornamos engessados e medíocres, nada criativos, nada patriotas... O que diria ele, enfim, de nossa humilhante derrota para a Alemanha por 7x1? A verdade é que ela não nos causou tanta humilhação assim. (Em 1950 éramos os franco favoritos e jogávamos pelo empate contra o Uruguay. Perdemos de virada, o Maracanã lotado: – 199.854 pessoas estavam lá àquele dia, o maior público que o Estádio Mário Filho viu até hoje.) 
          E que será que diria o Nelson?, um descarado anticomunista, um deslavado reacionário, um ferrenho defensor da liberdade de expressão, um homem de imprensa livre, patriota convicto e atento em suas crônicas à constante ameaça comunista que nos ronda desde que a revolução bolchevique eclodiu e saiu vitoriosa na Rússia e depois na China? ao ver o estado lamentável em que nos encontramos? Um país sem justiça, sem segurança, sem saúde, sem educação, sem livre concorrência, sem meritocracia, onde a corrupção nas altas esferas atingiu patamares intoleráveis e repugnantes... 
          Ah, minha cara amiga simpatizante!, o atavismo que nos prende ao atraso vem da colônia, vem da Matriz, de fato, como todo bom atavismo. Há quase um século nos persegue o comunismo, tentando nos incrustar de vez as suas garras mortais, dadas as nossas tendências primevas, herdadas de nossas proibições primevas, de nossas explorações primevas, de nossa improdutividade primeva, de nossos primevos assistencialismo e paternalismo... Tornamos-nos perfeitos, um primor de nação, um primor de consciência social da necessidade do falido comunismo. Ele está morto, mas nós ainda estamos aqui. Sabe-se lá por quanto tempo. Hoje nossas tragédias demonstram que, de fato, não temos vocação para sermos sérios. Seria até legítimo dizer que, de fato, voluntariamente nos posicionamos inferiormente face o resto do mundo. Não por falta de fé em nós mesmos, mas por adorarmos um deus natimorto. Mais de 54 milhões de adoradores.   

domingo, 21 de dezembro de 2014

A VERDADE ANDA NUA

          Veio à mesa onde eu estava com amigos. Disse: 
          –"Quero falar contigo... Vem aqui um bocadinho"?...
          Assenti num gesto com a cabeça e o acompanhei. 
          Sentamos-nos um defronte o outro. A mim era uma situação no mínimo engraçada, eu ali com aquele deplorável e petulante sujeito. Metido a besta, seguramente tinha de si a mais elevada expectativa, os mais elevados conceitos. Tudo muito diferente do que eu pensava. Digamos que não seja correto julgar-se alguém, mas esse sujeito tornava isso bem difícil, posso garantir.
          Foi direto ao ponto: 
          –"Ouvi dizer que escreveste um texto falando mal de mim"... 
          Fez uma breve pausa e completou: 
          –"É verdade"?
          Devo fazer uma confissão. Com efeito, devo fazer mais de uma confissão. A primeira é a de que não sou indivíduo dado a conflitos corporais, mas reconheço que o chavão que diz que quando um não quer dois não brigam é a mais cristalina mentira. Se um quiser meter a mão nas fuças do outro, nada impedirá. Assim, é preciso se utilizar de alguma paciência e sobretudo inteligência se quiser evitar ser esbofeteado, inda mais quando se está diante de um sujeito que mede o dobro do seu tamanho. 
          A segunda é que não, não escrevi nenhum texto falando mal do referido elemento. A verdade é que havia escrito, algum tempo antes, um texto onde assumo ter para com ele todas as reservas do mundo. Nada mais, nada menos. Não o taxei de idiota, ou desonesto, ou qualquer coisa semelhante. Disse apenas que não gostava dele, e ponto final. 
          Por isso respondi-lhe na bucha, e muito tranquilo: 
          –"De forma alguma". 
          Ele insistiu. Alegou que alguém havia lhe informado que, de fato, o texto não mencionava o nome de ninguém mas que, assegurou-lhe esse alguém, todos sabiam que o sujeito em questão, a quem eu me referia e de quem não gostava, era ele mesmo. 
          Numa fração de segundo ponderei que não havia porque eu lhe confessar meu desgosto por ele, e por uma simples e óbvia razão: – ele seguramente sabia o que eu sentia,   ou melhor, o que eu não sentia por ele. Alguém quererá saber como ele poderia saber, e direi que qualquer pessoa sabe, e sente, quando alguém não gosta dela. 
          Não satisfeito, retornou:
          –"E sobre quem escreveste? quem é essa pessoa sobre quem escreveste"?
          Respondi-lhe olhando-o firme nos olhos:
          –"Rapaz, essa é uma questão extremamente pessoal e me resguardo o direito de não revelar o que não foi revelado no texto". 
          Bebi um gole da cerveja que trazia à mão e finalizei:
          –"Era só isso"?
          O homem, então, passou a "encher linguiça". ("Encher linguiça", cá no Ceará, significa conversar assunto sem importância, conversar conversa tola ou absolutamente desinteressante.) Uma sensação de infinito tédio passou a se apoderar de mim, de modo que já nem prestava atenção ao que dizia. Dali a pouco nos despedimos.
          Relatei o episódio acima apenas para me referir à rede social. A rede social, ao menos avisado, é uma armadilha tentadora. Enquanto na vida real somos, vez ou outra, impelidos ou obrigados a situações adversas como a que acabo de me referir, na rede social a armadilha é a exposição desmesurada e – pior! – a exposição necessária ou, dito de melhor forma, a incontida necessidade da exposição. 
          Há de existir pelo menos um psicólogo a estudar as razões que nos causam essa necessidade e aguardamos ansiosamente a conclusão de tão esclarecedor estudo. Por hora, apenas a constatação há, a menos que esteja desinformado, o que não seria uma surpresa visto que, hoje, sou um sujeito que foge da  informação como o demo foge da cruz. Alguém dirá que vivemos à era da informação e que informação é tudo, e direi que sim, é verdade. Vivemos, com efeito, à época em que informação representa a diferença entre o bem e o mal, entre a abundância e a escassez e até entre a vida e a morte. O problema é que, justamente por ser de importância capital, a informação virou produto semelhante a qualquer outro produto na vitrine ou na banca do supermercado. Há a informação classe A, que traduz a verdade e, por isso mesmo, útil, e há a informação classe Z, que nos conduz ao equívoco e ao erro. 
          Os amigos a essas alturas hão de estar de cabelo em pé, temendo por mim. Por isso, em alto e bom som declaro: – não é para tanto e, garanto, não é para tanto. Rejeito a informação sim, mas a informação que me trazem sem pedir, que me oferecem gratuitamente ou que me trazem por uma pechincha. Essa informação, grosso modo, é como o produto exposto à vitrine. A informação útil, para mim, no meu melhor entendimento, é a que busco, a que pago caro por ela, a que não está tão na vista assim. A informação "consensual", a informação "popular" está, toda ela, contaminada e mais que contaminada, está infectada com o cancro do ideologismo e da ignorância. 
          Pode parecer incoerente que uma informação traga ignorância, mas é exatamente isto que está a ocorrer. Não há de ser a primeira vez que isto acontece na história do mundo. Basta lembrar do Goebbels e sua máquina de propaganda. De fato, o Goebbels montou um rolo compressor destruidor de úteis e boas informações e construtor de um castelo de mentiras e equívocos cujo caráter se expôs ao final. É justamente algo semelhante o que estamos assistindo no momento. 
          Sim, sim, a rede social propaga a informação-exposição absolutamente inútil, mas também propaga a informação ideológico-ignorante. Sejamos justos: – eventualmente, não raramente, nos deparamos, na rede social, com a informação boa e útil, mas essa lá é rara. O que abunda na rede social é a informação-exposição e a informação ideológico-ignorante e, diria até mais; diria que a rede social está, cada vez mais, produzindo informação semelhante àquela fornecida por nossos jornais. Como sabemos, a informação de nossos jornais é podre e superficial, ideológico-alinhada e absolutamente incrível. Eis aí, verdadeiramente, o que nos proporciona a rede social em matéria de informação. 
          Alguém dirá que muito estranho é que justo eu esteja a fazer tais considerações; justo eu que me exponho as entranhas em textos que mais se assemelham a um corpo submetido a vivisseção ou a um cadáver semidecomposto à margem da estrada... Direi que minha exposição é a da catarse, necessária à minha saúde mental e física, um processo fisiológico inerente à mente e ao coração... Diria que, ademais, os textos não são informativos, não pretendem informar. (Há em mim a arraigada consciência sobre o quão grave e sério é informar. Por isso e por necessitar submeter toda informação ao crivo dos fatos e das provas, não me permito informar. Os jornais, órgãos cuja missão principal é informar, o fazem sob fortíssimas suspeitas de subserviência, favorecimentos e, o mais grave, omissões.)
           Imaginem se eu, inutilmente e levianamente, revelasse meu desgosto e reservas pelo fulano de tal do qual falei ao início? Seria, talvez, alvo de um processo ou de uns bons sopapos e solavancos. É preciso manter-se à parte de litígios inúteis assim como das informações de semelhante caráter. Ambos nada acrescentam e em nada ajudam. Sua existência deve ser admitida, mas a compulsão para declará-los deve ser controlada. Não devemos tentar convencer ninguém de que estão no mau caminho. Eles, por sua vez, pensam o mesmo dos que estão ao lado da informação correta. 
          Quem quiser saber se está baseando suas decisões e sua vida em informações corretas que espere. O futuro dirá. A mentira tem pernas curtas, muitas facetas e vestidos, ao passo que a verdade anda nua. Por isso mesmo ela escandaliza.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MENTES HERMÉTICAS

Quando muito se pensa, muito se pensa. E pensar não é lá uma tarefa fácil. Pensa muito quem muito está consigo mesmo, em silêncio, sem as intromissões frequentes ou ocasionais d’algum intruso. Por isso não é fácil pensar – há sempre intrusos a nos desviar a atenção. Cuidem lá não se pensar que me refiro a alguém. Muitas e muitas vezes o intruso é um objeto ou um aparelho – um telefone, um rádio, uma televisão. Conheço uma penca de gente admiradora e espectadora da novela; exemplifica da vida o que ocorre na novela; marca o compromisso para depois da novela; chega à casa a tempo de e correndo para ver a novela. Eis, então, a novela a servir de intruso.
            Eu queria escrever e não conseguia. Não tinha sobre o que escrever ou, melhor, tinha tanto para dizer que já nem sabia por onde começar. Tantas coisas estão a acontecer, e tantos estarrecimentos a me impactar que não sabia por onde começar. Nem sabia se devia começar. Os sinais que capto me dizem que seria um bom momento a ficar calado. Só pensar. Não tenho intrusos a me distrair. Não os permito. Os dois monitores de televisão que tenho ficam calados quase todo o tempo. Escolho não ouvi-los. Nem permito que a novela exista para mim. Alguns amigos e amigas se referem, quando saio a encontrá-los, a algum personagem da novela e minha ignorância fica patente em minha cara de imbecil.
            Já bati em tantas e tantas teclas que, mesmo assumindo minha obsessão para justificar-me, desisti momentaneamente de voltar a trazê-las à baila. Muitos desses temas requerem o tempo a lhes emprestar a força do argumento com o qual argumentei. Ainda assim, temo que este mesmo tempo de nada sirva. Ora, percebi inúmeras vezes que muita gente não entendeu bulhufas do que escrevi; ou entendeu o sentido oposto. Ou – pior! – entendeu o que nitidamente seu pré-conhecimento lhes ordenava entender. Percebi, então, a verdade contundente: não se lê com a mente aberta. Não generalizemos: muitos não leem com a mente aberta. Dizendo de outra forma: muitos leem com a mente da pré-conceituação e do dogmatismo. Por isso, o que quer que esteja escrito, será lido sob a lente de tais amarras.
Ainda hoje, no hospital, me dizia o meu querido Ciro Ciarlini: -“Nenhum de nós presta!” Queria ele informar da constatação antiga: todos os seres humanos estão em falta. Todos nós erramos. Dito assim, parece que o amigo estava a ventilar o óbvio. Falávamos dos que vivem a pelejar no mesmo erro. Ora, há os que erraram e mudaram. Há os que cometeram injustiças e cujo sono lhes fugiu ao peso do remorso e da ânsia do perdão. Há estes que experimentaram o fel de praticar o mal. Meu amigo falava daqueles cujo mau ato causa-lhes gozo e deleite. Há também daqueles. E há também a imensa maioria dos que se amoldaram desde o princípio. Nada questionaram. Não se refizeram. Não se reconstruíram. Encontraram nos dogmas seculares seu regozijo e felicidade. Aceitaram-lhes sem um rabisco de correção ou dúvida. São destituídos da prazerosa curiosidade, mesmo com as evidências a lhes esmagar as ideias; mesmo com os gritantes e eloquentes sinais dos malefícios de seus acalentados dogmas.
São tempos difíceis. Ou talvez nem o sejam tanto assim, não diferente de algo que tenha ocorrido tantas vezes no passado. O que se pode aprender em setenta ou oitenta anos? Quem, em sã consciência, se habilitaria a remover de cima de si mesmo um entulho de toneladas de dias e anos? É preciso ter coragem ou não dar tanto valor assim à vida. É preciso ter coragem.
Eu não sabia sobre o que escrever. E escrevi sobre nada. Quem puder entender talvez diga que escrevi sobre tudo.

Fernando Cavalcanti, 23.09.2010          

BANANAS

     O que está havendo com as bananas, alguém pode me dizer? 
Estou seriamente comprometido em descobrir o mistério. Estou pensando em consultar o Bacana, profundo conhecedor da fruta e propagador de seus benefícios, ainda que não seja biólogo ou engenheiro agrônomo. Não importa. Quem conhece a fruta é quem a aprecia, como o Bacana. 
Devo lançar mão da opinião de outros. Por exemplo, tenho uma amiga que pediu uma graça e fez promessa ao santo – se a recebesse, passaria um ano sem comer... bananas! Isso bem demonstra como bananas são frutas desejadíssimas. Ela nada tem reclamado. Vai completar um ano sem comer uma mísera e única banana – o santo providenciou-lhe a graça.
Devo, antes de continuar, e para que não pensem que estou de chacotas e folguedos, explicar a razão de minha angústia sobre as bananas. O caso é que já vão aí umas três ou quatro semanas que só compro bananas de má qualidade. Mudei de supermercado e – crau! – bananas de má qualidade novamente. Conclusão: os supermercados não têm culpa no cartório dessa vez. Só por ser um chato resolvi visitar três ou quatro supermercados diferentes. Querem adivinhar o resultado? Nem precisa.
Então, a única coisa que se pode deduzir de toda essa história das bananas é que alguma praga atacou todas as plantações da fruta no país. Somos um país sem bananas. Já estou me programando para maio, quando irei à Europa – lá matarei meu desejo de comer bananas. Sei de um lugar nos Países Baixos, um supermercado, onde comprei, na última vez em que lá estive, suculentas e roliças bananas-prata. Sobre elas, amarelíssimas na casca e com aquele talo esverdeado, a etiqueta “Brazilian Bananas”. O sabor não era esses balaios todos, mas há de ser melhor do que comer banana estragada.
Vamos começar pelo começo. Comprei bananas estragadas e pensei: o Alzheimer me pegou. Tão novo e abatido na flor dos quase cinqüenta por distúrbio tão degradante. Sim, porque quem escolhe não há de escolher o estragado. Escolhe o estragado quem perde a capacidade de escolher. Até então só escolhia bananas perfeitas, de vez, para não estragar logo. Elas amadureciam ali, na fruteira, bem amarelas, até ficarem prontas ao abate. De repente, as cascas amarelas, se observadas melhor, apresentavam pontos escurecidos, e a consistência já não era tão firme. Ao descascar, a surpresa: banana estragada. Não toda ela, mas parte. Tinha de dissecar a fruta, extirpar áreas feias e amolecidas, como se fora um tumor maligno.
A repetição do fato em vários supermercados me livrou do diagnóstico funesto. Doente mesmo só as bananas. Do país inteiro, do Oiapoque ao Chuí, do Xapuri a Cabedelo, um país inteiro de bananas doentes e podres. Outro dia – terei sonhado? – li que a safra havia sido perdida. Se foi perdida a safra, de onde vieram as bananas podres? A safra está sendo vendida assim mesmo?
Alguém pode me dizer o que acontece com as bananas?

Fernando Cavalcanti, 11.03.2011

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A IGNORÂNCIA INERCIAL

          Hesito justamente porque não sei bem por onde começar. Todo começo é difícil e este não poderia ser diferente. Vejam que poderia começar definindo o que chamo de ignorância inercial. 
          Ora, ignorância inercial remonta-nos aos bancos do ginasial, onde aprendíamos os conceitos da física newtoniana. Os que não gostavam do tema que me perdoem, mas a compreensão da expressão requer um mínimo de entendimento da matéria da qual não gostavam. E para que se não diga que sou um sujeito petulante e metido a besta, dou uma ajudinha. É o seguinte.
          Inércia, no contexto da física, é a tendência de todo corpo a permanecer como está, na ausência de uma influência externa. Assim, inercial é aquilo que se refere a essa inércia. Ignorância inercial seria, então, uma tendência a permanecer ignorante, uma vez que já se o foi um dia.
          Com efeito, todos já fomos ignorantes um dia, no sentido mais puro e nada pejorativo do termo. Também já fomos imbecis, idiotas, estúpidos, trogloditas e o que quer que se queira mais dizer do ser humano quando na verdura dos anos e, insisto, ainda muito longe do sentido pejorativo. À medida que passa o tempo, entretanto, o pejorativo passa a fazer parte de nossas possibilidades e probabilidades porquanto se nos achegam os vícios e os maus pensamentos. Tornamos-nos, de puros e inocentes imbecis, nos mais hediondos idiotas.  A pureza e a castidade nos abandonam em algum momento, o mais provável paulatinamente, e passamos, qual o híbrido da égua com o jumento, a azurrar e relinchar. A partir de então saímos a ornejar nos púlpitos, nas páginas dos jornais, nos palácios governamentais e nas câmaras legislativas, e até em livros considerados, depois, obras de arte de cunho elevadíssimo que se tornam best-sellers mundo afora. Mas a coisa não para por aí. 
          Os ignorantes inerciais mais legítimos, aqueles que padecem da ignorância inercial que acabamos de definir e descrever, não se encontram na categoria dos que escrevem livros ou dos que compõem músicas que ganham festivais, mas entre os que se perdem nas plagas comuns da vida, entre aqueles que estão correndo a toda velocidade no match que Robert Kiyosaki chamou de "a corrida dos ratos". Estes aí são também os mais vulneráveis a sofrer sob a influência angustiante e enervante do "efeito manada". São médicos, professores – esses principalmente! –, advogados, enfermeiros, dentistas, engenheiros e, os campeões da ignorância inercial e do corporativismo, os funcionários públicos. Para bem caracterizar a liderança incontestável do funcionário público no quesito ignorância inercial, lembro aos poucos e minguados leitores o que me cobrou certo dia o meu amigo Ciro Cialini. Aos que não se lembram, faço um sumário do episódio.
          Outro dia, estávamos ali no hospital meu amigo Ciro e eu a prosear durante uma  pausa para um café, quando ele me interpela e afirma categórico:
          –"Mas, olha, és funcionário público e funcionário público tem que ser 'de esquerda'"!
          Eis aí, numa única reprimenda, toda uma concepção, toda uma idéia e, mais que uma idéia, toda uma lição sobre ignorância inercial. O Ciro, expoente da Cirurgia Cardíaca deste glorioso Ceará, alimenta com lagosta e camarão a noção de que todo funcionário público tem que, obrigatoriamente, ser "de esquerda". O diabo é que há uma claríssima explicação para o modo de pensar de meu amigo, ele próprio funcionário público ao mesmo tempo que é dono de seu próprio negócio.
          É do conhecimento geral que o Brasil é o país do funcionário público. Verdade seja dita. Em que pese o discurso muitas vezes propalado em nossa marrom e bairrista imprensa de que somos um país de empreendedores, sabe-se que o país tem um dos piores ambientes de negócios do mundo. O sujeito que se aventura a montar o negócio próprio por aqui é, antes de mais nada, um sonhador inveterado e renitente para depois se tornar, dentre os poucos vencedores, um teimoso e, quando perdedor, um nostálgico arrependido, esses a esmagadora maioria. Por isso ensinamos nossos filhos a estudar, tirar boas notas, ir para a faculdade e fazer um concurso público. 
          Como um salutar, competitivo e pujante ambiente de negócios representa a alma do capitalismo, e como não estamos dispostos a competir perenemente, preferimos concorrer apenas uma vez na hora da prova para a repartição pública onde pretendemos trabalhar. Competir a vida inteira, renovar idéias, criar e recriar novos sistemas é coisa que não faz parte de nossa "tradição" e cultura laborativa. Assim, fica bem explicadinho o porquê de não sermos, nem por decreto nem por vontade de qualquer ditadura, um país capitalista. Por isso somos uma massa de funcionários públicos que vive a reivindicar melhorias salariais em greves intermináveis e entediantes onde discursam aqueles que um dia pretendem se candidatar a alguma função política. Eis aí porque funcionário público e esquerdista se tornaram, no Brasil, sinônimos. Ao Ciro, sendo empresário e funcionário público, pesa bem mais ser o último, posto que aí reivindique vantagens perenes ao seu contra-cheque enquanto dia após dia, todos os dias, vai ao caixa do banco pagar as intermináveis e cumulativas obrigações tributárias que o governo lhe exige. Conclui, sem dificuldade, que o bom mesmo é ser o assalariado, posição que dói apenas pelo diminuto e injusto provento ao fim do mês, enquanto como empresário as dores são diárias e nada compensadoras.
          Dito isso, fácil fica demonstrar que somos um país de ignorantes inerciais. Dizem lá os estudiosos que "cultura é o modo como fazemos as coisas por aqui". Pois bem. O modo como fazemos as coisas por aqui traduz a nossa maneira de pensar, resultado de nossa ignorância primeva. Pensamos o país como um grande feudo onde o poder central toma conta de todos. Qualquer coisa diferente disso é taxada de "capitalismo" e deve ser repudiada. 
          Há mais. Por conta do pensamento inerente ao funcionalismo público, só pensamos em nossos direitos. Ato contínuo, pensamos o país como o provedor de todos os direitos a que nos convencemos serem nossos. Como ganhamos uma miséria, vingamos-nos do governo e de nossos concidadãos decretando, irrevogavelmente, o fim de todos os nossos deveres. Somos direitos e mais direitos, e somente direitos. Não falamos em deveres. Chegamos ao cúmulo de subverter e inverter o que disse John Kennedy. "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país", eis o que ele disse. 
          Vivemos a indagar e a cobrar por nossos direitos, precisamente por o que o país pode fazer por nós. Em contrapartida, nada queremos fazer pelo país. Às favas o país. Que o digam os cerca de 30 milhões de brasileiros aptos a votar no último pleito e que se abstiveram, ou anularam seu voto, ou votaram em branco. Com o país soçobrando na mediocridade educacional, no caos econômico e social, na barbárie da ausência de leis, esse mar de gente deu-se ao luxo de ignorar a importância de seu voto diante de um momento divisor de águas. Nem falemos naqueles mais de 52 milhões que disseram "sim" a toda essa desordem, a toda essa parafernália "cultural". Sim, porque o partido do governo não é um partido; ele representa uma cultura, tal qual a definição acima. Ele representa "um modo de fazer as coisas" absolutamente subversivo para a ordem, como bem demonstram todos os números e índices e, mais que os números e índices, como bem demonstram as mudanças para pior na vida das pessoas.
          Somos um país sem deveres. Em nome de uma "dívida histórica", herdamos um país de direitos, e de direitos somente. Podemos matar, roubar, prevaricar, corromper porque é nosso direito fazê-lo. Não temos nenhum dever. Nossa ignorância inercial exige, manda, determina que somos um povo condenado a suprimir nossos deveres e exaltar nossos direitos. Por isso nosso contrato social promove o caos e a desordem. Rousseau diria que o brasileiro foi o único povo que renegou suas idéias por pensar e levar a cabo o primeiro e único "distrato social" de que se tem notícia. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

DESPEDAÇAR-SE SEMPRE...

          Vejam os amigos o que acontece ou, melhor, o que não acontece quando o indivíduo se recolhe em si mesmo. De fato, o que acontece, nessas circunstâncias, só acontece no universo interior do indivíduo. Esse universo único é povoado de pensamentos, sentimentos, impressões, anseios, dúvidas... O universo interior de cada um é o palco das idiossincrasias e incoerências, das especulações, das certezas e incertezas... Tudo o que lá acontece afeta nossa vida interior e o modo como sentimos, pensamos e vemos o mundo. Nenhum fato lá ocorre. Assim, fácil é perceber que, se se pretende escrever sobre fatos do mundo real, não se o conseguirá vivendo uma vida inteiramente interior. 
         Por exemplo, comigo. Pouco antes do segundo turno das eleições presidenciais deste lamentável país, tomei a firme decisão de não acessar informações veiculadas pela mídia. Ora, façamos a pergunta inevitável e cuja resposta tem a aparência do óbvio: – o que é a mídia? Resposta: – tudo hoje é mídia. Até um amigo que traz uma informação pode ser considerado uma "mídia". 
          Estava eu a conversar com amigos ali no hospital e um deles disse: –"O Pelé melhorou"? Longe de toda e qualquer "nuvem" de informação, perguntei: –"Pelé está doente"? E foi assim que soube que o rei do futebol estava internado no CTI. Imagino que toda a imprensa escrita, falada e televisada esteja dando conta da doença que acometeu o Pelé. Ontem Bella me contou, tristinha: –"Morreu o Chaves"... Disse-me que o assunto está estampado na rede social e é uma choradeira só. Assim, a rede social é também uma "mídia". 
          Agora, vejam a impressão que causaram em mim a doença do Pelé e a morte do Chaves. Ademais, a informação dando conta de determinado fato ou evento nunca preenche todo o nosso continente de conhecimento. Não satisfeito, perguntei: -"Quantos anos tem o Pelé"? Disseram: -"Setenta e cinco". Dei-me conta, então, de como está velho o rei do futebol. A Bella perguntei: -"Mas... já não havia morrido o Chaves"? Ela respondeu: -"Essa é a primeira e única vez que ele morre"... Assim, a conclusão a que cheguei, para minha tristeza e alerta, é que o Pelé é hoje um idoso e que o Chaves é hoje um cadáver. Triste e humilhante sina é a do ser humano, mesmo o mais famoso, mesmo o mais endinheirado... Não pude deixar de pensar em como estaria melhor se houvesse permanecido em minha cava e profunda ignorância. Poupar-me-ia a ciência de verdades tão contundentes e irremediáveis.
          Bem se vê que os fatos estão fora do indivíduo, ao passo que, no mundo insondável de cada um, não há fatos, nada "acontece". Assim, um sujeito como eu, que escreve sobre fatos e comenta sobre eles, fica num mato sem cachorro quando resolve se enclausurar em si mesmo. A única alternativa que resta é escrever sobre seu mundo interior que, a partir de então, de insondável nada tem. Há que tomar uns comprimidos com doses cavalares de coragem e de destemor. 
          Entretanto, após uma breve reflexão chega-se a uma conclusão inexorável, qual seja, a de que não há como separar os fatos exteriores de nosso universo interior. A não ser que gastasse o tempo inteiro a dormir, o ser humano está permanentemente a cotejar uma vida e outra, um universo e outro; está continuamente a comparar o que sente e o que pensa com os acontecimentos da vida, como se se medisse em tempo integral, como a comparar o que crê com os fatos do mundo "real". Assim, dessa forma, o máximo que se pode conseguir ao bloquear as informações provenientes das mídias é, na verdade, bloquear uma pequena parte dela. Nunca, enquanto vivo for e se não estiver em coma, o ser conseguirá fugir à esmagadora presença dos fatos, à inexorável realidade que nos rodeia e que não arreda pé. 
          Mas... Por que incorri nessa divagação aparentemente destituída de nexo? Garanto: – foi absolutamente involuntário. Ou, talvez, não tão involuntário assim, posto que aí estão descritos os freudian slips, os atos falhos, definidos como verdadeiras "traições" que o indivíduo perpetra contra si mesmo, permitindo que venha ao conhecimento de outros aquilo que quer, de fato, manter em sigilo, como a avalanche que desce a montanha arrastando o que encontra pela frente. Talvez quisesse autoexplicar a mim mesmo o porquê de tão pouca inspiração para escrever quando, no mundo real e, principalmente, no universo interior permanece tanto a ser dito. Ora, há escritores que não se intimidam frente às próprias repetições. A elas retornam sem medo e sem dissimulações apenas para revisitar aquilo que para eles é, digamos, cláusula pétrea e, como tal, devem ser sempre expostas a fim de que não esqueçam a sua razão de escrever. Devo confessar que a mim me escapou, a princípio, essa clara e cristalina verdade. 
          Entretanto, assumo que possa ter-me confundido, levado justamente pela mesmice dos fatos do mundo real. Sim, o mundo real – fácil é perceber que mesmo o mundo real de alguns é inteiramente diverso do de outros – é de uma mesmice entediante. Da mesma forma, o mundo real ou os mesmos fatos impactam de forma diferente diferentes pessoas. O que a mim parece ser uma repetição torturante do mesmo, a outro parecerá uma melodia de variações diversas tocada em tonalidades diferentes. 
          Em todo caso, digamos a verdade: – não me importa o que o outro vê ou sente quando estou para deitar ao papel o que eu vejo e sinto. O que escrevo é como um pedaço de mim que se desprende de meu "eu"; é como um fragmento do meu ser que deixo para trás imorredouramente. Assim, importa o que eu vejo e sinto, e só. Cada um que dê vazão ou guarida ao que é seu. De mim sei eu, e ainda que dissesse que de mim não sei, ainda seria eu quem deveria buscar-me e achar-me ou, ainda, deixar-me ir de vez. Certa dia disse-me o amigo Glauco Kleming: –"Só a arte transcende a vida". Num contexto de vida humana condenada a se perder para a morte caso não haja ressurreição, de fato só a arte transcende a vida. De algum modo será verdade a afirmação do amigo. O tempo dirá. Enquanto não chega o tempo, "só a arte transcende a vida", e vou me despedaçando de mim mesmo nessa estrada, como os restos de minhas células mortas que abundam sobre meu leito e sobre o chão onde habito. 
          Se não escrevo, me empanturro de meu mundo insondável e não me "despedaço" como devo, correndo o risco de carregar às costas e – pior! – na alma a tralha que o mundo defeca, incorrendo-me no perigo de me contaminar e me putrefazer como a maioria dos homens. As repetições que porventura repita são inexoráveis porquanto as fezes do mundo hão de ser sempre as mesmas dia após dia, todos os anos de uma vida, e mesmo que diferentes seres sintam de diferentes modos o mau cheiro que daí exala. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

SÓ OS QUEIXOS!

          Seu Honorato foi logo dizendo:
          –“Doutor, tô só os queixos"...
          Aqui no Ceará, “estar só os queixos” tem um sem número de significados, a maioria deles relacionada ao estado físico da pessoa. Por exemplo, ela pode estar muito cansada; ou muito doente; ou muito abatida. Às vezes a pessoa diz “estar só os queixos” numa forma de brincadeira, como um chiste, ou para quebrar o gelo. Seu Honorato, apesar da idade e de estar de volta para uma consulta médica, queria fazer pilhéria.
          Emendei:
          –"O cabra que tem 90 anos tem mesmo que estar só os queixos”...
          Ele riu-se e concordou. Examinei-lhe e perguntei, como sempre faço quando ele vem:
          –“E como vão as menininhas do bairro? Ainda dando mole”?
          Ele riu-se a valer. Quando veio a primeira vez, perguntei-lhe se ainda namorava. Para minha surpresa, admitiu convicto:
          –"Quase toda semana, doutor!" A filha, que sempre o acompanha, diverte-se um bocado com nossa facécia. Presumo que veja no pai, nesses momentos, uma vitalidade insuspeita. O amor que dura uma vida há de durar para além da morte.
          Dali a pouco ele retruca:
          –“Isso aí num pode parar nunca; a gente só para quando morre”...
          Quando concluí a prescrição, ele disse, assumindo suas inexoráveis alterações fisiológicas:
          –"Doutor, o homem só é gente até os 50”...
          Mesmo assim, voltei a perguntar:
          –“E as menininhas”?...
          Rindo novamente, passou de um lado ao outro nos lábios as pontas dos dedos unidos no conhecido gesto que significa “estou com todo mundo no papo”. E saiu pela porta andando lentamente, o corpo recurvado, combalido mas não entregue à desistência.
          Agendei-lhe o retorno para daqui a um ano. Voltará?, pensei. E concluí: – sem dúvida aqui estará em um ano. Não é à toa que se chega aos 90.

domingo, 16 de novembro de 2014

UM BRINDE DE MENTIRINHA

          Entra ano e sai ano, e é sempre a mesma coisa. Amanhã, por exemplo, faz mais um ano o meu amigo Sérgio Moura. Se me perguntarem quantos anos faz o homem, nada direi. E não direi por uma simples razão: – não saberia a resposta. E direi mais ao incauto questionador: – não tenho como saber. 
          Os amigos quererão ver uma má vontade em minha atitude. Afinal, o que custaria para mim bater o telefone ao amigo e lhe fazer a  pergunta? Diria primeiramente ao amigo, para não espantá-lo: –"Como estás, ó Sérgio"? Ele, que muito gosta de falar de política e de seus tempos baianos, entabularia uma conversa qualquer ao final da qual eu, pegando-o de surpresa, diria: –"Ó, Sérgio, quantos anos completas amanhã"? (O confabulatório havia de ser hoje, impreterivelmente.) E havia de ser justamente neste ponto da conversa onde os problemas começariam.
          Uma parte dos leitores há de se lembrar que o Sérgio detesta fazer aniversário. E não falo somente do aniversário-festa, mas também do aniversário-envelhecer. Sim, acreditem os que ainda não haviam tomado conhecimento desta singularidade do amigo, mas é verdade. O Sérgio não conta o aniversário como um ano a mais, mas como um anos a menos. Ao se comportar dessa maneira, o amigo deixa de invocar a vida e passa a invocar a morte. É uma consequência inevitável. 
           Fácil perceber, após o esclareciemento do assunto, a razão da impossibilidade de se conseguir a informação pretendida, qual seja, a nova idade do amigo: – ele não a revelará nem a tiro. Para ele, o simples ato de dizer, por exemplo, "56" – não saiam por aí a ventilar que estou afirmando ser esta a nova idade do amigo –, já levaria o homem a ter cólicas desidratantes e dispnéias cianosantes. 
          Sei que haverá alguém mais esperto que se apressará a sugerir que, ao invés de tentar obter a informação diretamente do aniversariante, corramos a obtê-la de sua mulher. É possível, é possível. Contudo, há, desde já, a forte suspeita de que nem ela o saiba. Sim, porque o homem atormentado por esse tipo de fantasma torna-se, com o tempo, cada vez mais lacônico sobre o tema. Como o Moura casou-se já maduro, quase podre, supõe-se que nem mesmo a mulher tenha conhecimento da idade do homem. Por outro lado, e como fosse bastante discreta, sua mulher seria a cúmplice perfeita para guardar o segredo, e mais que segredo, o assunto mais indesejado de sua vida. 
           Há ainda outra questão, digamos, de etiqueta social. Não se deve, mesmo aos mais íntimos, estar a fazer perguntas consideradas de foro estritamente pessoal. É rude, é inconveniente, é deplorável. E, na verdade, não tenho o menor interesse na idade do amigo. Quero mesmo é beber de seu uísque! Até o ano passado eu costumava ligar para o amigo na véspera para cobrar-lhe o regabofe, mesmo sabendo de suas idiossincrasias e temores. O resultado invariável de minha intervenção era a promessa que jamais seria cumprida.(A festa pelo aniversário do ano passado ainda não aconteceu. Por aí se vê...) Tanto fez o homem que aprendi. Este ano nada cobrarei, nada direi, nenhum suspiro darei. 
          Confesso: – escrevi todo o trecho acima à véspera do dia do natalício do Sérgio. Subitamente fui, ao momento em que escrevia, acometido de um sono incontrolável e renitente, de modo que o deixei de lado e fui aos braços de Morfeu. Tencionava concluí-lo ainda ao mesmo dia, de modo que houvesse uma coerência temporal entre ele e a vida. Mas, não me perguntem por quê, o fato é que deixei o texto para lá, talvez influenciado pela certeza da indiferença com a qual meu amigo trata o passar de seu tempo. Pensava cá com meus botões que um dia haveria de concluí-lo. Ou não. Não seria a primeira vez que começaria a desenvolver idéias que poucos dias depois ganhariam um sabor amargo ou insosso, sendo por mim abandonadas sem a menor cerimônia.
         Contudo, vejam como a vida é cheia de surpresas e repleta de alternâncias. Hoje, ou melhor, ontem abro a rede social e me deparo com o que para mim foi um susto. O meu amigo Sérgio Moura estava se expondo àquela rede! Sim, o homem estava sendo parabenizado por uma China de amigos! Ao que me conste, ele lá não divulgara a data de seu nascimento de modo que, presumo, os que o parabenizaram já deviam ser conhecedores da mesma. Como na rede tudo se espalha como o caminho de pólvora progressivamente carcomido pela chama que avança, outros, e outros, e outros, e mais outros passaram a tomar conhecimento da festividade da data e vinham, também, felicitá-lo. Seria para mim a prova de uma mudança radical e definitiva se o meu amigo houvesse resolvido publicar a data de seu aniversário. Ainda assim, concluí que, sim, houve uma mudança digna de nota na maneira como ele está a encarar a data. Vejam o que ele diz lá: "Parabéns pelo tempo dos meus 55 anos". Ou seja, o homem confessou a idade com todos os efes e erres! Ora, vivas! 
          A coisa não parou por aí. Para meu espanto e respiração suspirosa, o Sérgio escreveu, bem ali na rede social, um texto onde se declara passado na casca do alho e – já o assumi – um homem maduro mas ainda não apodrecido, talvez apenas em vias daquilo que a inexorabilidade do tempo não perdoe. Fala de suas cãs e de suas linhas, de seu ventre um pouco abaulado, e de seu descaso para com a opinião alheia sobre si mesmo. Foi, com efeito, um texto típico de gente entrada em anos, estafada da lengalenga alheia, de saco entupido da conversa pra boi dormir. Conclusão: – foi um bom e oportuno desabafo. Nada mau para quem trancafiava-se a sete chaves por anos a fio ao dia de seu natalício.
          Entretanto, faltou o lado prático do manifesto. O amigo em nenhum momento de seu texto convocou os comparsas a juntarem-se a ele para o velho, desejável e desejado regabofe. Donos de um solar provido de deque e piscina, o amigo e a mulher bem poderiam ter dividido com os mais chegados os momentos de descontração tão agradáveis nesses momentos da vida. Até porque o dia foi um sábado, excelente para tais regalórios. Em vez disso, que fez o Sérgio quando lhe bati o telefone, tão logo lhe li a lauda? Resposta: – fez o que sempre faz, ou seja, não me atendeu a ligação. 
          E então percebi a verdade contundente e cruel: – Sérgio mudou um mísero e pseudoperceptível angstrom. Escondeu-se, como todos, na rede social, na nuvem da virtualidade onde o abstrato mais habita do que existe. Na concretude da realidade preferiu virar fumaça e, mais uma vez, sumir. Desconfio que o fez com receio de que eu, também mais uma vez, cobrasse o regabofe como faço todos os anos. Enganou-se o amigo. Liguei apenas para informar-lhe que estava a preparar mais um texto por ocasião de seu aniversário. Um texto resignado sobre o regabofe que, tenho certeza, jamais realizar-se-á. E aí ficaria a pergunta? Cadê o brinde que o Sérgio propôs em seu texto? Só agora me ocorre: – o brinde foi tão virtual quanto a mudança do Sérgio...

sábado, 8 de novembro de 2014

AQUI NÃO SE USAM CASACOS

          Aqui não se usam casacos, ou sobrevestes, ou botas. Certa vez presenciei a gozação de alguém por alguém usar essas botas que só se usam em lugares de clima frio. Riam-se da outra, pobre mulher.
Somos pobres. Mas agora, ou melhor, já há algum tempo, temos como conseguir dinheiro mais facilmente – mas não menos barato - para financiar certos sonhos. Os sonhos são, via de regra, uma demanda por aquisição material, de modo que o dinheiro consegue realizá-los com alguma facilidade. Certas felicidades só se concretizam com esses caprichos evanescentes.
        Ainda que se escrevessem bilhões e bilhões de Eclesiastes, ainda assim não seriam lidos. O único que foi escrito até hoje quase ninguém lê. É uma questão muito simples – a verdade é pessimamente recebida. Detesta-se a verdade. Não há um único e mísero ser humano que dela goste. Mesmo que esteja ali, cristalizada, desenhada no espelho, marcada nos lençóis, a verdade é abominável, deplorável, algo parecido a um animal desprezível e peçonhento.
          Deixemos o Eclesiastes que há muita gente a jogar suas Bíblias ao lixo. Usemos outra fonte, o A Doutrina de Buda, do Siddharta Gautama. Lá as verdades, digo, os ensinamentos são em tudo semelhantes aos do Eclesiastes, exceto pelo fato de Salomão confessar seus erros e insensatezes ao Deus que abandonara. Talvez devêssemos ir também ao escritos de Aristocles, vulgo Platão, que acreditava na perenidade de uma essência do homem, numa alma sobrevivente, numa vida no além e, sobretudo, nas verdades que ensinam que as virtudes e o desprendimento nesta vida são as verdadeiras fontes da sabedoria e felicidade; ou ainda aos de Sêneca em cartas enviadas ao seu (fictício?) amigo Lucílio, onde pregava o viver uma vida virtuosa e reta como a chave para a paz interior e acesso à admiração e respeito dos homens.
          E o que dizem as verdades, digo, os ensinamentos? Dizem que o estúpido e o insensato buscam os prazeres da carne e as riquezas materiais. Os gregos iam além. Achavam que a atividade política era o meio de que os homens deviam se servir para alcançar a sociedade justa e ideal através do exercício da virtude na função pública e em seu dia a dia.
          Voltemos às botas, aos casacos e aos sonhos. A mulher, uma linda e desavisada mulher, usava botas em plenos pouco mais de três graus de latitude sul, aos vinte e oito graus à noite. Que faziam as outras? Mangavam. Debochavam. E – cá entre nós – o conjunto era lindo e faziam a mulher exalar uma sensualidade incomum. Pensei: é seu sonho. Entre comprar uma passagem para a América do Norte ou Europa, preferiu realizar seu sonho aqui mesmo, com as botas até os joelhos, mesmo com o suor a lhe descer por todos os poros.
          Uma mulher esperta, sem dúvida. Fosse outra teria feito a viagem que não podia com o dinheiro que não era seu. Os outros pobres não dariam a mínima. Afinal, todos estão fazendo o mesmo. O sucesso é ter, numa flagrante afronta a todas as verdades e ensinamentos dos antigos e sábios. E não é apenas uma afronta; chega a ser um pisoteio e um completo desprezo, denotando a aversão àquelas verdades. De fato, nem se ensinam mais essas coisas ou, se ensinam, parece que se está falando de coisas que aconteceram e foram escritas e ensinadas em outro mundo. Fala-se como que de uma terra do nunca, uma espécie de quimera, de loucura a que não se deve prestar muita atenção. Discuti-las serve ao propósito pouco útil de fazer parte do cabedal de conhecimentos de alguém que se interesse um pouco mais.
          Eu não ia escrever nada disso, mas me perdi. Eu ia falar de como nós aqui no Ceará somos pouco criativos e que justamente por causa de nossa pobreza devíamos ser muitíssimo mais inventivos. Se o clima é quente, devíamos usar indumentária própria. Onde estão os estilistas? Criar algo realmente novo para aqui se vestir seria um excelente feito. Ao contrário, vivemos imitando os que moram em regiões mais frias, com seus paletós e roupas pesadas. A linda mulher de botas foi a única vítima da chacota, mas, de fato, todos nós o somos – queremos ter e usar o que não nos é próprio e apropriado.
          Ia falar que não deveríamos ter carros. Somos pobres, carros são caros. Mesmo o dinheiro mais fácil tem um custo elevadíssimo. Comprar carros nos torna mais pobres já que a maioria lança mão do empréstimo, enricando as instituições financeiras e empobrecendo sua família. Devíamos usar motocicletas e bicicletas. Seriamos mais limpos, mais rápidos e menos pobres. Com o tempo teríamos dinheiro sobrando. Até os assaltantes teriam menos o que assaltar e, dentro da pressão por ter o que não podem ter, a possibilidade agora real de também poder ter a motocicleta ou a bicicleta os deixaria menos tentados a recorrer ao crime para consegui-lo. (No fundo a opção pelo crime é uma questão de maus bofes, mas angariemos para nós os arautos dessa – mais uma – insensatez.) Nossas ruas não teriam asfalto; seriaum calçamento perfeito e bem nivelado. (A Companhia de Água e Esgotos poderia cavar e tapar seus buracos com mais rapidez, evitando, assim, deixar os gestores municipais de cabelo em pé por questiúnculas ridículas.) O calor seria menor. Em suma, seríamos mais felizes.
          Enquanto não brota a nossa criatividade, penamos. O cearense está absolutamente convicto de que é o povo mais empreendedor do mundo. Setores da imprensa local, refletindo o que propagam nossos políticos medíocres a quem bajulam, vez ou outra escrevem nos jornais locais essa mentira descarada. Mal sabem – na verdade bem sabem – que empreendedor, por definição, é aquele cuja ideia resolve o problema de muita gente de forma barata e factível. Exemplo: Muhammad Yunus, o bengali que bolou uma forma barata de financiar os pobres. Mas essa é uma história à parte.

A POBREZA DE QUEM TEM

Outro dia falei dos dias modorrentos que se seguem a noites insossas e repletas de tudo o que não se aproveita. Ouve-se de tudo às noites vazias, e a única excelente exceção é a música. De fato, muita vez é a música que nos impele a esses arroubos solitários noite adentro. Não fosse por ela, que razão nos levaria aos riscos dessas noites inseguras? Ainda que às vezes se busque a emoção de encontrar um amigo distante, descobre-se, com imenso pesar, que o amigo está, de fato, mais distante do que se supunha. É cada vez mais reconhecido o distanciamento inexorável daqueles que se dizem amigos. Criam-se primeiramente as necessidades para só depois buscarem-se os meios. Daí estarem todos a correr para longe de si mesmos. Em breve estarão tão distantes que não mais encontrarão o caminho de volta.
Resta a música.
Nesta terra temos grandes e virtuosos músicos, para a sorte dos aventureiros da noite.Chego a pensar que faz parte de nossa pobreza a maneira como encaramos e vemos a arte em geral, e a música em particular. Somos pobres de espírito, acima de tudo; somos pobres de ambição, a boa ambição, motor que impulsiona aqueles que querem uma vida de liberdade; somos pobres por desamor àquilo que o dinheiro não compra. A pergunta que faço é: por quanto tempo perdurará nossa abjeta pobreza? Nossa pobreza não é a mera secura de recursos. Ela é, sobretudo, nossa aridez sentimental, nossa esterilidade de sensibilidade.
          Não se cura pobreza com esmola. Só a abundância de bons sentimentos há de afastar essa chaga que carregamos incrustada na genética de nossa alma. O anjo não disse “paz na Terra aos homens de boa vontade”; mas, sim, “paz na Terra e boa vontade para com os homens”.
Os excelentes músicos desta terra haviam de ser agraciados com um mínimo da terrena boa vontade. Não é o que se vê. O que se vê, e se ouve, é a mais torpe pobreza de desamor à arte. E não falo da tentativa de fazer arte; falo da boa arte, da qualidade superior de arte. Não vai aqui uma defesa vazia e bairrista. Estendamos a crítica à pobreza e o elogio à boa arte também às terras vizinhas, ao país, que seja. Há que pressupor tudo isso porquanto há, com efeito, uma quantidade infindável de boas e belas porcarias em todos os lugares.
O que acontece? Ouvi outro dia, tendo uma boa música ao fundo, o seguinte: –“Não pago couvert artístico!” Eu, que ainda sou dado a indignações tolas e démodé, perguntei: –“Mas...” – fugiam-me as palavras, tamanha a minha perplexidade – “por quê não paga?” Meu interlocutor – na verdade uma interlocutora – explicou que havia uma lei que desobrigava quem quer que não quisesse pagar. “Mas os músicos estão ali, trabalhando, tocando pra você!” Ela tentou me explicar que sempre pagava a conta, onde se cobra também o couvert, com o cartão; e que tinha absoluta certeza de que essa quantia não seria repassada aos músicos.
Eis aí em minúcias a explicação que não explica. Eis aí o primor de idéia que viceja na mente de um raro espécime brasileiro com curso superior, que ganha o suficiente e muito mais, e que se nega a pagar seis ou sete reais para os músicos. Tudo porque tem absoluta certeza de que o empresário da noite não repassa a eles o que recebe. Eis a pobreza de idéia que faz músicos valorosos vítimas do descaso e desprezo de quem deles recebe o melhor. Imagina se todos os que estão ouvindo sua música resolvem fazer o mesmo.
Fernando Cavalcanti, 17.05.2010   

A FORÇA DE UMA VONTADE

        Hoje, relendo alguns textos, descobri como é tênue a linha que separa o que se quer dizer do que não se quer dizer. Aconteceu comigo. Quis dizer branco e disse preto. Ao precipitado fica parecendo que seria um sintoma, um sinal de debilidade mental, de uma fraqueza ou distúrbio na concatenação das idéias. Digamos que essa possibilidade exista. Assumamos, por que não? Existe. Ocorreu comigo, devo repetir.
Eu dizia que os deprimidos são, antes de tudo, oprimidos pelo inconformismo. Não era o que queria dizer. Queria dizer justamente o contrário! De fato, os deprimidos rendem-se ao conformismo, derrotam-se de véspera. Era precisamente isso o que eu tencionava dizer. Essa era minha vontade. No entanto, pus à pena o oposto.
Que lição se pode tirar dessa exuberante traição da vontade do ser pelo próprio ser? A princípio pensei em culpar a vontade em si. Ora, a vontade tem sentidos e querer que se põem em conflito já no pai dos burros. Eis o Aulete sobre a vontade: capacidade de querer e de escolher, de se impelir para a ação, afirmação ou recusa, subjetiva ou objetiva; propensão, tendência. Por outro lado, no mesmo Aulete sobre a vontade: capricho, impulso. Vejam que o exercer de uma escolha presume ação pensada e refletida à luz das razões que movem o indivíduo, ao passo que o impulso e o capricho são escravos do temperamento, da índole e do gênio do ser. Uma é a vontade proativa, aquela que pondera, analisa e só então decide; a outra, a vontade reativa, é automática e, por isso, leviana. São noções opostas sobre a mesma entidade. Conclui-se, então, que a vontade pode, às vezes, guiar o ser aonde não quer ir. Teria sido o caso comigo. O impulso, tamanha a ânsia de dizer, me fez falar o contrário.
         Que outro responsável seria senão a intensidade do sentimento de vontade? Que outro culpado? Digamos que o ser dono da vontade, eu, no caso. Mas, o que sou senão a soma de todas as minhas vontades? Também está no Aulete a vontade arbítrio, que seria aquela que faz uso da capacidade de escolher, “sentimento que leva as pessoas a se comportarem conforme essa capacidade”. Tudo em mim é vontade. Toda minha vida, meus atos e desatinos são produto da vontade. Enquanto respiro, escolho e decido. Se não decido já decidi, se não escolho já escolhi.
Ou, ainda o objeto da vontade, o dizer a ideia e a própria ideia seriam os culpados de meu engodo semântico? É possível que, sim, também o objeto é culpado. Não é ele, afinal, o que queria que vissem, que soubessem, que apreciassem? Queria que soubessem que os deprimidos são oprimidos pelo conformismo. Talvez; e aí surge a avalanche da vontade de também dizer de meu inconformismo com o aparente determinismo da vida. Sai tudo junto numa mesma frase, parecendo a mesma ideia sem o ser de fato.
Então, agora, venho em alto e bom som explicar porque às vezes se escreve o inexplicável. Às vezes dizemos coisas que não queremos dizer e acabamos por dizer o que queremos de forma velada e incompreensível. E tudo por obra de uma enorme vontade que nos aperta o peito. É preciso tê-la subjugada se quiser ser compreendido. Caso contrário, dirão que escrevemos o que não escrevemos, tendo de fato escrito.

Fernando Cavalcanti, 16.11.2010  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

OS "SÓCIOS"

          Amorim tem um sócio. Não pensem que falo de seu comércio, aquele em que labuta com sua mulher, que ele queria demitir por conta de certa futura e frustrada aventura extraconjugal. Aliás, neste seu comércio não há sociedade: – é autônomo. A mulher é como a mulher do general: – manda mais que o próprio dono, embora não traga seu nome à razão social. A frustração que abateu o meu amigo acabou por abrir-lhe na alma uma espécie de lacuna, de vazio a ser preenchido. Tanto que, mais tarde, depois do episódio que resultou na castração de seu plano, tal vazio foi ocupado da forma mais inesperada e mais inusitada possível.
          Afinal, que raios de sociedade é esta outra onde meu amigo se meteu? Devo ir aos poucos de forma a não chocar meus queridos leitores, sobretudo porque o conservadorismo é ainda prevalente em nosso meio. Tem-se muita dificuldade com o despudor. Dizia o Nelson Rodrigues que o mais forte afrodisíaco é o pudor. Nem a nudez ou a quase nudez, nem a vestimenta sensual, nem uma ou outra droga ou alimento pode ser mais estimulante ao apetite do amor do que o pudor. Daí a nossa dificuldade com o despudor. É compreensível. Mesmo ao Amorim, que esteve solteiro por uns breves e fugazes dias, e que se empanturrou com uma pornografia importada em certa noite de primavera tropical, as cobertas de todas as partes sensuais do corpo são o maior estímulo à caça do sexo oposto. Acredite quem quiser. 
          Deixemos de léria e voltemos ao sócio. Devo acrescentar que o objeto de sociedade que os une deixou de existir há anos. É que este tipo de sociedade não se dissolve jamais, nunca, em tempo algum. Ainda que se evapore a razão de ser da sociedade, os sócios hão de ser eternamente sócios. Quando mortos, serão sócios póstumos. Tal sociedade transcende a vida. O casamento, por exemplo, se desfaz automaticamente com a morte de um dos sócios. Não é assim com a sociedade da qual falo. Não se a lavra em cartório, nem se requerem testemunhas para seu estabelecimento. Sendo o mais franco possível, devo dizer que nesta sociedade não são bem-vindas as testemunhas, como logo se verá. Percebe-se, então, que em tal sociedade não importam os sócios, mas os termos e elos de ligação entre eles.
          Amorim e seu sócio são amicíssimos. E, para acalmar os afoitos e esbaforidos que já antevejo a me olhar de olhos atravessados a querer que eu revele o nome do santo, afirmo peremptoriamente: – não o farei. Sua identidade deve seguir em segredo de Estado, dadas as implicações que podem advir. Afinal, suas mulheres são amigas e labutam no mesmo ramo de seus maridos. A mínima suspeita da existência, ainda que no passado, de tal sociedade, seria motivo suficiente para divórcios conturbados e desgastantes. Por outro lado, é bem verdade que, já tendo deixado de existir o objeto da sociedade, como já afirmei, e dado que os episódios que ora descrevo tenham ocorrido há muitos anos, é também possível que tal revelação tivesse pouco ou nenhum impacto no transcurso da vida de alguém. Em todo caso, e pelo sim e pelo não, a prudência e o sigilo nunca fizeram mal a ninguém, razão pela qual insisto na justa discrição. 
          A prova cabal e gritante da indissolubilidade desse tipo de sociedade é a notória maior aproximação e bem querer mútuo de seus envolvidos. Sim, sabendo-se sócios passam a nutrir um pelo outro uma espécie de respeito maior, que beira a veneração; andam a cochichar pelos cantos, a trocar segredinhos ao pé do ouvido, a fazerem-se confidências indizíveis... Os de fora custam a entender o motivo que os une e se escandalizam ao constatar que, mesmo passados anos a fio, ainda seguem a falar baixinho entre si e com tal e qual languidez que afronta e causa inveja. Olham-se tão ternamente que os mais maldosos se erguem em suspeitas infundadas. Com efeito, estão absortos em sua cumplicidade indissolúvel. Quando se põem a conversar, dir-se-ia que se esquecem do mundo em volta, e se alguém lhes aborda é notória a pressa em se desfazer do incauto e intruso. 
          Ora, tudo começou há anos quando ambos eram plantonistas da mesma equipe, um cirurgião, o outro mais ainda. Os tempos eram românticos e, embora usassem alianças, não se sentiam ligados por laços tão fortes quanto pretendessem os outros. Até que travaram conhecimento com aquela que seria o verdadeiro elo entre ambos: – Amanda, uma linda e estonteante acadêmica do último ano de medicina. Serei o mais sucinto possível. Ambos se viram enamorados da pequena. E passaram, cada um sem se dar conta do outro, a flertar-lhe o quanto lhes era possível em meio aos plantões turbulentos e estafantes. Devo dizer que ela era a catarse de ambos em meio àquele cenário de sangue, urina, fezes e outros odores degradantes. A gente feia do entorno exacerbava-a como a uma Vênus fora de seu altar. E sonhavam, cada um na intimidade, com o dia em que a teriam nos braços. Cada um percebia o galanteio do outro, mas não se consideravam rivais nem concorrentes. Antes desprezavam um ao outro por duvidarem que ela cedesse às investidas, e ao mesmo tempo crescia em cada um a admiração e respeito mútuos, por serem cúmplices declarados naquela paixão espontânea por espécime tão raro do gênero feminino. Esse aparente paradoxo não lhes passava despercebido, e vieram a prevalecer os sentimentos mais nobres. Com o tempo, cada um percebia a crescente intimidade do outro com a beldade, mas a atribuíam à sua refinada e austera educação. Era filha de um militar de altíssima patente que, sabia-se, primava pelo rigor na educação das filhas. Por isso ela se mostrava tão expansiva e segura de si à frente daqueles dois gigantes filhos de Esculápio. 
          A cada turno de plantão nenhuma novidade surgia, de modo que a ideia reinante era a de que ninguém lograra êxito em seu intento principal. A verdade, porém, é que ambos estavam saindo com a Vênus sem o conhecimento do outro. Assumamos sem rodeios: – ela de tola e austera nada tinha. Estava mais para Sylvia Saint do que para Letícia Sabatella. Em suma: – estava a enamorar-se de ambos, que se sentiam tão envaidecidos por serem objetos “únicos” da escolha daquela beldade raríssima. Quando tomaram conhecimento do fato, não se pense que houve alvoroço ou constrangimentos. Firmaram, com efeito e em silêncio, uma espécie de pacto. Diferentemente dos clássicos triângulos amorosos cujo destino está fadado à tragédia, fechou-se o cerco do triunvirato e ambos, Amorim e o outro, se queriam ainda mais entre si numa amizade sincera: – eram sócios usando chapéu de touro e nariz de palhaço. Sócios dos e nos prazeres de uma beldade ímpar. Como não se puderam excluir mutuamente, ganharam forças em sua sociedade enamorada. E ficaram ainda mais amigos no correr dos anos, mesmo e até depois da partida de seu objeto de desejo.
          Faltou-lhes descobrir, entretanto, se houve mais alguém, dentro ou fora do hospital, que também tenha se servido, sincronicamente, das carnes da pequena. Se houve, pedem-me os sócios, que avise-me com discrição. Eles me cederam procuração a fim de formar um ou dois times de futebol society a se enfrentarem numa confraternização de Natal nos campos da Rogaciano Leite. Tudo muito sigiloso e com direito a duas cervejas ao final do embate. E sem nenhum ressentimento por parte de ninguém.   

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DEMISSÕES

          O sujeito que sofre uma frustração pode, finalmente, ir dormir sem medo. Ainda mais quando é a mulher a causa e, por que não dizer, o efeito do episódio. Sim, porque não sei se sabem, mas a causa e o efeito podem residir num ente único, num fator solitário e singular. Prova disso nos deu a mulher do Amorim. Que fez ela? Simples: – previu a tragédia e a evitou. Ainda que o efeito desejado por meu amigo tivesse tudo para ocorrer, e daí a sua frustração, o efeito oposto resultou, na verdade, em sua redenção e sua paz. Se suas artimanhas viessem ao êxito, talvez eu estivesse aqui fazendo um discurso de velório, finalizado com o epitáfio a ser escrito mais tardiamente na laje. Sim, porque o crime passional existe desde que o mundo é mundo, embora fosse, até há pouco, uma atitude tipicamente masculina. Aos dias de hoje, entretanto, também a mulher mata, também a mulher trucida. E como mata bem a mulher! Mata tão bem que o sujeito fica mortinho da silva, sem possibilidade de reanimação. Com efeito, a mulher, aos dias de hoje, não somente mata mas também mutila. Os amigos hão de se lembrar do caso ocorrido em 1994, com o norte-americano John W. Bobbit, que teve suas partes íntimas decepadas por sua mulher Lorena. O fato rodou o mundo sabe-se lá quantas vezes antes que o homem se submetesse a um procedimento cirúrgico para a reimplantação do membro. Sem rodeios, no final a senhor Bobbit teve alguma sorte. A mulher, após lhe cortar fora o pênis, lançou-o a um gramado em local ermo. Para sua felicidade, não apareceu, até o término das buscas, um animal faminto que transformasse o órgão do rapaz em refeição. Bastava-lhe isso para a amputação inexorável e definitiva. Em todo caso, faltam informações abalizadas que confirmem o sucesso funcional da delicada operação.
          ​O que ocorreu foi o seguinte. Amorim, que é homem conhecido por sua irremediável fidelidade – seu apelido é “ferrolho” -, foi convidado a participar, com outros profissionais de seu ramo de negócios, de um ciclo de palestras no Sul do país. O evento seria promovido por empresa que fornece produtos ao seu comércio. O diabo é que o convite partiu da linda e estonteante representante comercial da empresa, que o visitava com regularidade no escritório. Verdade seja dita: – as visitas são de praxe, dentro dos conformes, fazem parte da rotina. Até aí nada digno de nota. O entrevero começou quando a beldade, segundo o próprio Amorim, passou a ser nitidamente enfática da necessidade imperiosa de seu comparecimento ao evento. Tão insistente foi a moça que a secretária do amigo não pôde deixar de estranhar e, todos sabem, uma mulher vê a intenção da outra a quilômetros de distância. A jovem não poupava indiscrição e dava a entender, sem a menor sombra de dúvida, que lá, durante o conclave, ela estaria sempre a seu lado e que ele nada teria com que se preocupar. E, até onde entendi, os olhares da pequena deviam ser brilhantes e lascivos. Ele precisava ir! Percebem?
​          Tomou conhecimento do fato dona Fulana, mulher de meu amigo, acho que por intermédio da referida secretária. Digamos que a funcionária fosse dessas senhoras conservadoras e zelosas, que não permite que uma pouca vergonha ocorra diante de seus olhos sem que se tome uma atitude condizente. Dona Fulana trabalhava com o marido na empresa, mas se ausentava com frequência para ir a bancos ou resolver outras pendengas. A secretária se perguntava por que a jovem sirigaita não estendia o convite à sócia de meu amigo, justamente a esposa. E concluía de si para si que naquele mato estava para sair coelho. Por outro lado, dona Fulana sabia muitíssimo bem que Amorim é ferrolho, mas não um ferrolho legítimo, feito de ferro fundido moldado e preso na porta a fim de correr pelo mesmo trilho e a entrar e sair da mesma fechadura. O "ferrolho" Amorim é de carne e osso, de modo que "o espírito está pronto, mas a carne é fraca" e o ferrolho de carne perde, assim, toda confiabilidade de um ferrolho propriamente dito. O apelido, se descobre, é só uma aproximação da similaridade, nunca uma medida exata daquela. Por tudo isso, dona Fulana pouco ponderou antes de agir. Nem era preciso.
          Amorim, após consumada a frustração, relatou-ma em evidente pesar. Tal reação nos permite concluir, sem muita dificuldade, que o homem estaria ansiosíssimo para subir no avião com a beldade e que, por conta desse desejo insaciável, revelou-se um safado e enrustido ferrolho. Assim que soube, pela secretária do marido, do que estava a ocorrer bem debaixo de seu nariz, dona Fulana chamou-o a um canto e disse-lhe: 
          –“Não vai viajar coisa nenhuma"!... Foi sumária assim, sem meias palavras. Ele ainda quis redargüir, argumentar, negociar, que o evento era importante, que não podia faltar, que perderia uma grande oportunidade... mas não teve jeito. E em mais uma única frase a mulher expediu o decreto-lei: 
          –“Não vai, e estamos conversados!” Ele, que além de ferrolho é um barriga-branca de carteira e sindicato, baixou a cabeça e assentiu. Se fez beicinho e esgar de choro não se sabe, mas a ordem da mulher caiu-lhe como balde d'água gelada. 
          Porém, a mente humana não descansa, não sossega... Desde o passa-fora da mulher, o homem entrou a imaginar e a lucubrar sobre fatos que ocorreriam no futuro do pretérito e em todos e noutros tempos verbais. E perguntava de si para si: –"E se minha mulher não trabalhasse comigo"? "E se não tivesse tomado conhecimento da viagem"? E se perguntava, numa obstinação doentia, o que teria acontecido se houvesse viajado de fato... E, perdido em si mesmo e absorto no desejo e na magia perpetrada por uma jovem e bela mulher, deixava-se ficar, o olhar perdido no horizonte escuro e ilimitado... O sonho e a tentação quase se faziam matéria real, objeto palpável e concreto, como qualquer sensação tátil que se percebe ao usar as mãos e a pele... A sensação de frustração era a única em toda sua vida. Pelo menos que se lembrasse.
          No dia e na hora marcada para o embarque, ainda envolto nas fantasias de sua mente sonhadora, pensava: –"Deve estar embarcando nesse minuto"... e o olhar se perdia na etérea imagem só vista por sua imaginação. 
          Ao encerrar o relato do drama, regado a choros e protestos por tamanha fofoca disseminada pela incauta funcionária, chamei-o à responsabilidade. Disse-lhe que parasse de se torturar imediatamente, já que a falta do ato não o eximia da culpa. A traição estava na intenção, ficasse bem claro. Tinha era muita sorte, já que a mulher não mais quis remexer no assunto, contentando-se apenas em lhe abortar as maliciosas ações que estava para praticar. Fosse mulher de outro tipo, ia fazer e acontecer até ele contar-lhe em detalhes o que sua cabeça maldosa estava tramando. Imagine ele sendo obrigado a admitir que estava de olho na pequena e que lá longe, onde a vista da mulher não alcançasse, iria traí-la como nunca fizera até então!... E se tivesse por fim realizado seus sonhos e saciado seus desejos, quem poderia imaginar onde isso iria parar? Ao final, provavelmente levaria um pé na bunda da mulher e da amante. Ajudei o amigo a concluir que a secretária fizera-lhe, na verdade, um grande e inestimável favor. 
          Ao ouvir-me citar a secretária, o amigo encheu-se de furor, levantou-se colérico e, dando um murro na mesa, fuzilou: –"Pois agora mesmo vou demitir essa bruaca"! 
          De lá saí com a nítida impressão de que ele cogitava demitir também a mulher. Não sei é se vai ter coragem...