quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O remodelador de certezas

Eu dizia de minha afeição às frases, desde que marcantes, significativas, essenciais. Pois vejam que me saiu minha amada amiga Joana, a louca, com a seguinte: “me encanto com o tempo e o seu poder de remodelar nossas certezas”. Vamos e venhamos, nem o Bandeira, nem o Quintana, nem o Pessoa, nem o Quental, nem o Drummond, e nem ninguém... Uma frase lapidar, dessas que se demora a remoer e a esquecer, sem dela se desfazer. Serviria de epitáfio, de epigrama, de arremate, de frase de fim de romance como aquele curto poema de Florbela que diz:
                        “Por aquela tão doce
                        E tão breve ilusão,
                        Embora nunca mais
                        Depois que a vi desfeita
                        Eu volte a ser quem fui,
                        Sem ironia aceita
                        A minha gratidão”
            Talvez até se inserisse no poema lusitano a frase de minha amiga, uma vez que as ilusões e as certezas são idéias antônimas, e a poetisa expõe corajosamente a perda ou o “remodelar de sua certeza” de amor – sua ilusão – em seu belo poema.
            Não nos apressemos a esmiuçar a frase. Tal tentativa só serviria a lhe destruir a beleza, como quando se abre o corpo do vivente após a morte numa violação horrenda. Ademais, para quê? Se ele muito diz, não há razão para explorá-lo. Ainda assim falemos das certezas, as que guardamos ou as que escolhemos ter, não importa.
            Há alguns meses gastei um texto inteiro falando das incertezas para, ao final, falar uma titica de nada das certezas (http://umhomemdescarrado.blogspot.com/2011/06/resiliencia-e-incertezas.html). E agora vem Joana, a louca, decretar que o tempo remodela nossas certezas.
                  Ora, é precisamente isso o que acontece entre os de mens sana. Esses não tão raros espécimes aprendem que suas “certezas”, ainda que necessárias, devem ser mutáveis, ou flexíveis, ou maleáveis, sob pena de se ver crescer uma tralha de frustrações e mágoas.
                  Dizia o Casoba que, depois dos 40, qualquer ¼ de hora faz falta. Ele queria dizer que não há tempo a perder depois da idade divisora de águas. Por que aos 40 e não aos 30, ou aos 50, não se sabe. A vida humana nem de perto se assemelha à das estrelas, que sempre morrem de velhice. A vida humana acaba a qualquer hora e em qualquer lugar. Nenhum de nós vai virar anã branca ou supernova.
Se queria o Casoba tirar maior proveito do tempo que se esvai, pergunto: temos tempo a que o tempo renove nossas certezas? Resposta: depois dos 30, dos 40, dos 50 ou de que idade for, é imperativo fazer também bom uso do tempo – que inexoravelmente passa – sem movermos um único pedregulho que seja. Dito de outra maneira, segue-se a viver enquanto o tempo se encarrega de mostrar a melhor solução para um ou outro dilema; e ainda de outra forma, não temos sempre as respostas no momento exato em que são feitas as perguntas, ou no instante em que se apresentam as dúvidas quanto ao melhor encaminhamento para determinada situação.
Assim, a frase de minha amiga aponta o tempo, esse inimigo mortal – literalmente, ressalte-se – como um poderoso aliado. Com ele se aprende. Com ele crescemos. Com ele amadurecemos. Com ele temos a chance de exorcizar a cegueira que nos fere desde o primeiro dia de nossas vidas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os "mala"

A mais completa definição de idiota diz o seguinte: idiota é aquela pessoa que concorda com tudo ou discorda de tudo que digo. Pois vejam vocês que, de uns tempos pra cá, apareceram um ou dois leitores(as) que classificam como “RUIM” todos os textos que escrevo no “Um homem descarrado”. Não sei se essas duas pessoas consideram ruim o estilo, o vocabulário, o tema, ou se querem berrar aos quatro ventos quão ruim sou como escritor, tamanha a obsessão de ambos.
            Devo admitir que seja uma presunção de minha parte imaginar que esses dois leitores são sempre os mesmos. É possível que, nos diferentes textos, leitores diferentes os classifiquem como “RUIM”. Entretanto, e não me perguntem por que, tenho um pressentimento de que sejam sempre os mesmos – dois indivíduos que discordam de tudo o que escrevo. Se for o caso, estará aí o exemplo mais límpido, visível e atualíssimo do que seja um idiota. No caso, dois.
            Notem que não me importa que de mim discordem, que tenham opinião diversa da minha sobre qualquer coisa. É salubérrimo que as pessoas pensem diferente. Quem deu o maior exemplo de tolerância para com os discordantes foi o Criador. Quem sou eu para me melindrar com pessoas cujos pensamentos diferem dos meus? Nada sou. Assim, afirmo que meu comentário vem apenas divulgar o que ninguém, além de mim e meus dois ferrenhos críticos, sabe. É minha obrigação.
            Vejam que não os taxo como idiotas – é a definição quem o faz. É possível que nem o sejam. É possível que sejam apenas pessoas um pouco voluntariosas e nada mais. Há dias, para algumas pessoas, em que não se quer ver a luz do sol. O que me intriga nessa dupla fantástica é precisamente o seguinte: se já sabem que o que escrevo não presta, por que razão ainda se dão o trabalho de ler? Sei que aqui vai uma outra pretensão de minha parte – é possível que essas pessoas nem leiam os textos que classificam como ruins. Há a possibilidade de que elas venham mostrar a cara apenas para dizer: -“Teu texto não vale uma Cibazol!” Dirão mais: -“E nem vou perder meu tempo em lê-lo!”
            Caso a última possibilidade fosse aceitável, por que perderiam seu tempo com algo que para elas nada vale? Assim, sou tentado a acreditar noutra possibilidade – a de que me amem doentiamente. Cada um como um Mark David Chapman, nutrem por mim uma obsessão, uma tara, uma atração psicopática. Sou para eles, de repente, um fetiche, um ícone, um foco doentio, um símbolo fálico desmedido e descomunal. Quem dá trela e cabimento àquilo que diz desprezar está incorrendo em evidente incoerência, e provavelmente está prestes a deixar cair a máscara da mentira. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Frases

Sou um homem de frases.
Nada me impressiona mais do que uma boa frase. A frase inicia e termina, constrói e destrói, aproxima e afasta – a frase tudo faz, tudo realiza, tudo transmite. A frase comunica.  
Há frases e frases, diga-se. Quem não há de gostar de um fraseado melódico, tirado de um instrumento que sofre? que devaneia? que paira? A frase musical tudo diz sem dizer uma mísera palavra. A palavra solta, isolada, nada é, exceção feita à palavra-frase, ela própria a frase a tudo dizer. Assim, anelo a frase vital, essencial, pedra-de-toque do que vai na alma, quer seja bom, quer seja mau. E, vejam, não há frase mais pungente do que a sem palavras – o silêncio. O silêncio responde a altura as mais rasteiras palavras, as mais estapafúrdias idéias, os mais grotescos assaltos à nobreza de sentimentos vários.
A frase imprime na alma do ouvinte ou leitor, como marcador de gado, idéias indeléveis, sentimentos inextinguíveis e perenes. Após ela saímos doridos e mudos como as vacas de pasto, a ruminar a frase tão estupenda, tão lancinante, tão... A frase que nos tatua a alma é uma nódoa, indestrutível como uma lembrança marcante.
Outro dia – não faz tempo – ouvi uma, dirigida a mim. Era assim, imperativa e seca: -“Joga limpo!” Eu não estava a jogar jogo algum.
Deixemos de lado o contexto. As frases não requerem o contexto ou, melhor, nelas ele já vem embrulhado, como um pacote completo. As doces frases são doces desde a origem, e emanam mel dos lábios que as pronunciam. E, vamos e venhamos, há lábios de mel e lábios de fel; e há também lábios aquosos, cujo neutro sabor não fecha portas nem corações, diferentemente da frase de fel sabor.
A frase que ouvi beira o imperativo categórico exemplificado na ordem do Deus Único, -“Não matarás!”. Há nela uma nota por demais repleta de arrogância ou de incredulidade, se se levar em conta o que ela diz. “Joga limpo!” é o que se diz a quem presumidamente está a jogar sujo, ou, dito de outro modo, a quem está usando de subterfúgios e estratagemas. Mais ainda. “Joga limpo!” se diz, quando não há ludismo evidente, a quem está jogando com a vida, ela como uma partida em que se vêem as pessoas como adversários a serem vencidos ou derrotados.
Em suma: “Joga limpo!” é uma acusação, quase uma condenação.
Não me lembra que tenha dito algo. Se falei, errei. A muda frase teria sido a melhor resposta, tamanha minha indignação.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Psicoterapeutas com a palavra

     Já se vão meses que Claudinha Viot vive sem viver. Está numa espécie de coma vigil. Sua vida, de fato, e é muito duro dizer, acabou. Restou a nós que a amamos, e a seus mais íntimos e chegados que a amam mais ainda, o vazio de sua doce e densa presença. Seu corpinho frágil jaz sobre leito frio e requer cuidados de terceiros todo o dia, todos os dias. Hoje uma imensa melancolia se me achegou, e não pude deixar de dela me lembrar.
     Vive-se a vida e nunca são lembrados os ensinamentos e alertas de Salomão. Um deles diz da alegria da morte, ou de ser melhor o dia da morte do que o do nascimento, porquanto é na vida onde se sofre.  Não há dor na morte. Nós, os que vivos permanecem, somos os que sofrem, ao passo que os que dormem no sono da morte já de nada lembram, já nada realizam, já nenhuma ambição lhes acossa a vontade, já nenhuma dor experimentam. Diz ainda o rei que de nada lhe serviram as riquezas e o poder que acumulou na vida e que o levaram a esquecer Aquele a Quem tudo devia. A confissão de sua apostasia é das mais belas orações que já se ouviram, sua humilhação perante o Altíssimo das mais angustiosas de que se tem notícia. Eis o que me espicaçava  o espírito — a lembrança do estado de Claudia Viot.
     Depois, e a propósito, a lembrança de uma vida de "sucesso". Chega-se onde se pretende apenas para se descobrir que o vaso ainda não foi preenchido. E, pior! — ainda que se ponham mais e mais desafios, ainda assim se estará longe da repleção de tão valioso, insaciável  e inextinguível vaso.  O sucesso, esse "bem" tão atual e desejado, o maior sonho de consumo do momento cujo significado, mesmo material, hesita aos ventos que lhe sacodem as entranhas, está nu. Assim como o rei. O sucesso — tiremos-lhe as aspas a fim de que se entenda seu real significado — está sob suspeita. Ao que parece sua face é outra, e outro o seu caráter. Numa única palavra: o sucesso é uma ilusão, a maior de nossos tempos.  
     Mas, segundo Nelson Rodrigues, há pior e, repito, há pior — seguimos ensinando o sucesso- ilusão. Por tudo, para todos. Parece que nada está a acontecer. Nossos filhos são poliglotas que não entendem a língua pela qual a realidade lhes fala nem compreendem a linguagem e os hieróglifos por onde fala a verdadeira ciência. Antes, e não somente eles mas todos nós, perdem-se nas cachaças das idéias nefastas e vazias, destituídas do conteúdo da verdade e repletas da malícia de uma outra inteligência. Estamos demais preocupados em que aprendam o tecnicismo que embasa a ilusão, antes de nos apercebermos que estão sendo tragados por tão sedutora mentira. Os meninos vêem em cada um de nós ou uma coisa ou outra; em cada um há a marca do homem de sucesso ou não. Somos ou não somos. Criamos ou compramos a fantasia que lhes embala os sonhos sem lhes esclarecer que o principal não são eles  mas a realidade, e que aqueles somente nos servem a amenizar minimamente as dores desta.
     E ainda se gradua a tão deslavada mentira. Há o "maior" e o "menor" sucesso, tudo a depender da quantidade da pecúnia ou bens acumulados. E dizemos que fulano está bem, ou muito bem, ou ainda ótimo na proporção de seu acúmulo. Estar bem não se refere, a princípio, ao estado de saúde do sujeito a quem se está a reportar.  O modelo está em xeque, mas ninguém parece perceber, mergulhados que estamos nessa química vigorosa e poderosa.
     Se é assim tão inebriante a lorota, não suscitará ela uma ressaca? Não será ela em breve seguida das rebordosas tão comuns às drogas de efeito central? Quanto tempo há de se esperar até que a vergonha nos abata e desejemos jamais experimentar nova libação? Ninguém há de saber. É até possível que nunca nos  desintoxiquemos de seus efeitos duradouros, delirantes, regozijantes. Ainda não se descobriu o tratamento para esse "sucessismo" vigente, uma pandemia incontrolável; mas já se conhecem suas principais seqüelas: trogloditismo emocional, insegurança, solidão, isolamento e frágeis laços afetivos. Com a palavra os digníssimos psicoterapeutas.

sábado, 8 de outubro de 2011

A guerra contra o Piauí


            Hoje abro o jornal e o que vejo? O Piauí quer tomar terras do Ceará. Outro dia escrevi aqui mesmo – ou terá sido noutra parte? – que o magnífico vizinho estaria a invadir o Ceará dada a quantidade de imigrantes, temporários ou definitivos, aqui vivendo. Pois hoje, em matéria estampada à primeira página, a certeza.
            O Piauí entrou na justiça contra nós querendo reaver sabe-se lá quantos milhares de quilômetros quadrados que reclama serem seus. Acusa-nos de tê-los tomado ou deles nos apropriado indevidamente.
            Já me decidi: segunda-feira próxima, ao encontrar amigos e conhecidos piauienses por aí, onde quer que seja, lhes avisarei que estamos em guerra e que, doravante, qualquer ato suspeito da parte deles será considerado hostil. Como bom soldado que sou, não posso permitir ao inimigo vantagens indevidas. Minhas suspeitas prévias se confirmaram sem a menor sombra de dúvida. Se meu blog fosse mais lido, ou lido por maior número de pessoas, teriam me dado ouvidos e não estaríamos passando tamanho vexame. Eis aí tudo. Paciência. Creio ser ainda possível uma eficaz defesa.
            Também, no mesmo periódico, outras notícias de interesse supremo, mas que minha memória teima em não lembrar. O interesse não é meu, é óbvio; se fosse, lembraria. A propósito, havia um bom tempo que os jornais não despertavam meu interesse. Com efeito, hoje o fez de forma puramente casual, quando passei defronte a uma banca de revistas. Não fosse isso e a importante nova sobre a guerra que se avizinha seria por mim ignorada. Estou, desde então, tão logo fiquei ciente, a limpar meus fuzis, metralhadoras, pistolas e bazucas. Guardo comigo verdadeiro arsenal desde os tempos da caserna. Os piauienses não perdem por esperar...
            Sei, sei, dirão que ainda não existe uma declaração de guerra, e é verdade. Porém, todos sabem o que acontece quando um estado é assaltado por ímpetos imperialistas e desejos expansionistas. Assim bem ensina Churchill nos primeiros capítulos de seu “Memórias da segunda guerra mundial”. E não só ele, mas qualquer autor de capítulo que trate da história das guerras. Assim, urge o armamento geral e irrestrito.
            Serão também necessários os espiões, milhares deles. Há piauienses insuspeitos entre nós e é preciso desmascará-los. Se deixados livres a agir podem representar nossa derrota. Tenho cá comigo alguma idéia de quem seriam esses infiltrados, e já a estratégia para capturá-los. E devo alertar aos cearenses que hoje habitam território inimigo que se acautelem – devem estar sendo, da mesma forma, considerados olheiros indesejáveis e alvo fácil do serviço de contra-espionagem piauiense. Devem retornar, numa retirada heróica, o mais rápido possível!
        (Lendo a matéria vem-nos a enorme, quase incontrolável, vontade de rir.)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O filho e a arte


A esterilidade de temas foi o estopim para preocupações comigo por parte de amigos. Vejam vocês.
            Eu estava a passear à Beira-Mar e me toca o telefone portátil. Era o Chico. Foi direto ao ponto. Contou-me que acabara de receber telefonema de sua filha, minha leitora, alarmada com o texto que eu escrevera. Queria saber se eu estava bem. Segundo ela, o texto estaria repleto de notas tristes e, talvez, de choroso lamento pré-suicida. Ele, por sua vez, e já contaminado pelas preocupações da jovem, também se mostrava hesitante ainda que profundo sabedor de minha alegria e afeição à vida.
            Sexta, ao chegar a certo boteco para tomar uns drinques, fui abordado por um grupo de amigos que se sentavam a uma mesa. De onde estavam me chamavam, acenando freneticamente e aos gritos. E indagavam se eu estava bem. E mais: sofri repreensões qual um menino levado após sua estripulia. Horas depois, sob efeito de leve libação alcoólica, me ardia a orelha. Passava-lhe suavemente os dedos a examinar se o puxão teria sido forte o bastante para causar tal sensação. Não conseguia me lembrar de ter sido vítima dessa antiga forma de punir garotos travessos. Eis o que se pode causar ao se escrever texto mais intimista.
A essência do homem é rica em tristeza e é precisamente ela o que nos torna homens. Não há homem sem essência nem há homem sem tristeza. Dir-se-ia ser essa a sua maior penalidade por se ter afastado do Criador. Não fosse isso, o que seria? Não me parece haver outra explicação para essa ubíqua melancolia. Faltou aos queridos amigos o conhecimento da possibilidade menos aventada, porém mais provável.
E o que escrevi, afinal? Nada demais. Como diz o título – “A espera” – falo de uma espera. Ou melhor, não falo de uma espera, mas em que pensava durante ela. E o que durante ela pensei foi devaneio incompreensível e enigmático para muitos ou pura prosa poética para outros. Que importa? Justamente o tema principal no qual pensava durante tão interminável espera era a falta de temas sobre os quais escrever. Das profundezas da ausência de temas surgiu o devaneio que a muitos pareceu um chororô pré-fatal, uma conclusão sem pé nem cabeça com nítidos sinais da leitura feita ao açodamento da vida.
Sobre o que mais falo? Faço uma confissão que, presumo, não foi percebida – tinha um assunto a discorrer, mas o considerei impróprio em demasia, e me saí com o ditado das três coisas que não voltam mais. Há que se considerar a palavra escrita ainda mais irrecuperável que a pronunciada, e isso deixei bem claro. Escrever já é uma exposição severa e inolvidável de si mesmo. Melhor refletir com esmero se se deve ir ao mais íntimo da essência do ser antes de lhe dissecar as entranhas aos lobos. Ademais há a questão da idade. Certos assuntos não caem bem a certa altura da vida, se expostos fragorosamente. Então, o devaneio era sobre assunto da intimidade mais íntima do autor.
Os amigos perceberam a tentativa, mas julgaram errado o assunto, pressupondo uma tragédia shakespeareiana ao desfecho. Ora, havia angústia, é verdade, mas a angústia da obrigação de permanecer quieto. A quem escreve não interessa a quietude do silêncio nem o sufocar os sentimentos. Essa é a dor maior de quem faz arte. O artista é um masoquista incorrigível, posto que somente a dor lhe possa inspirar os mais idílicos temas; adora o momento em que aquela o abate porquanto sabe que dela colherá a matéria prima de seu poema, de seu quadro, de sua música, de seu texto; que, por sua vez, lhe alivia aquela que o faz sofrer.
Não é o masoquismo diminuidor aquele que solapa quem cria arte – ele é conseqüência do processo sofrer-criar. Depois, o descanso e o alívio qual o da prenha que dá à luz. A dor do parto em muito se assemelha à do artista ao criar e, quiçá, este em muito se assemelhe à pejada que se regozija em seu sofrimento de trazer à vida o seu amor mais profundo e mais sagrado. De onde viriam tais sublimes obras, o filho e a arte, se não do Senhor?