sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Crimes terráqueos


               Veio bem a calhar a matéria do jornal O Povo de hoje que dá conta da rejeição, por parte dos deputados estaduais, dos três requerimentos do deputado Heitor Férrer cobrando esclarecimentos ao Governo e aos demais órgãos envolvidos na compra dos helicópteros (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/08/30/noticiasjornalpolitica,3120237/assembleia-nega-pedido-de-heitor-e-cid-minimiza-caso-de-helicopteros.shtml). Com a decisão da Casa, o senhor governador do Ceará não será importunado. Veio a calhar porque o episódio se alinha com dois outros bem recentes.
               Ontem o mesmo periódico anunciou a rejeição, por parte do plenário da Câmara dos Deputados, do pedido de cassação do mandato do deputado federal criminoso e já presidiário, Natan Donadon. Temos um representante do povo condenado e já em pleno cumprimento da pena. Podemos supor que o povo é bandido? Ou são também bandidos aqueles que lhe negaram a cassação? Sim, porque quem trata dos interesses de um bandido é também bandido. Ou não? Se assim não for, necessário é admitir: - de nada mais sei.  (http://www.opovo.com.br/app/opovo/radar/2013/08/29/noticiasjornalradar,3119455/condenado-e-preso-donadon-tem-cassacao-rejeitada-pela-camara.shtml)
               Há dois dias o Diário do Nordeste anunciou a rejeição, por parte dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, do pedido de cassação do vereador Leonelzinho Alencar, aquele cuja mulher estava inscrita e chegou a receber recursos do Bolsa Família, se não me engano, a venerável quantia de duzentos e trinta e seis reais, no total. O homem foi acusado de corrupção, improbidade administrativa e quebra do decoro parlamentar por outras de suas peraltices. Será que esses caras sabem o que é "decoro"?(http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=365402). 
               Nada disso surpreende, mas os fatos ocorridos e anunciados em curto espaço de tempo permitem-nos vislumbrar um cenário atemorizante: - nossas casas legislativas estão podres. Em primeiro lugar, oposição nelas não se faz, como bem se vê na persistente anuência dos senhores deputados estaduais do Ceará ao que faz e ao que diz El Cid. “Amém” é a palavra que mais se pronuncia na Assembléia Legislativa do Estado. O nobilíssimo deputado Tin Gomes chegou a dizer que “os governistas precisavam isolar completamente Heitor”. Na frase proferida pelo cupincha do senhor governador está dito tudo, como numa confissão indevida e vergonhosa. A sugestão, vinda de um deputado governista, para isolar completamente o mais aguerrido e talvez único deputado que faz oposição corajosa à ditadura branca de El Cid dá-nos bem uma noção do nível a que chegamos. Não há problema nenhum na governabilidade do Estado do Ceará. El Cid governa livre, leve e solto; lépido e fagueiro. Só agora se chega a entender a preocupação de nossos governos com a tal da “governabilidade”. (Como seria se esses senhores governassem sem a tal da “governabilidade”? Sou tentado a um palpite: não governariam. Não da maneira que nossos governantes sabem governar, e eles só conhecem uma.)
               Na Câmara Municipal de Fortaleza e na Câmara dos Deputados os bandidos estão deitando e rolando, como se bem vê. Esse vereadorzinho – se o tratam por um hipocorístico no nome pode-se bem tratá-lo assim na função sem o risco de se levar a coisa para o lado pejorativo –, esse vereadorzinho, também já condenado anteriormente pela Justiça, livrou-se da cassação sob os auspícios de seus pares-comparsas. Seguramente agiram segundo a ética do velho corporativismo da política brasileira. Lendo-se a lista dos trinta elementos que votaram contra a sua cassação, encontra-se um tal de “A onde é”. A princípio julguei estar diante de um erro de digitação do revisor. Esse “A onde é” chama-se Antonio Farias de Sousa e foi eleito vereador com pouco mais de seis mil votos. Tudo se explica, como se bem vê mais uma vez.
               Na Câmara Federal, ao bandido condenado na mais elevada instância jurídica do país por lesar os cofres públicos deu-se-lhe a anuência de permanecer deputado. E estamos conversados. Obviamente não poderá comparecer às sessões por estar no xilindró, mas, se acharem um badulaque jurídico que o tire detrás das grades, quem garante que o homem não estará já, já fazendo leis e salvando outros comparsas? Os criminosos estão na gerência, eis a verdade. Por isso nunca se viu tanta impunidade e violência. Não dá pra pensar de outra forma. Quem sabe eles não enviam à Comissão de Constituição e Justiça um projeto de lei que permita a deputados federais presidiários sair da cadeia para comparecer às sessões? Justificariam o projeto alegando que sairia mais barato aos cofres públicos. Pagar o salário de deputado federal a um suplente sai, de fato, mais dispendioso ao contribuinte. Seria um "regime ultraespecial" no maior interesse do país, zelador da atividade parlamentar.
               Contudo, há ainda esperança. Em meio a essa torrente de demonstrações do exercício do poder criminoso, o Supremo Tribunal Federal contrabalançou o jogo. Os patifes do mensalão, que estavam a estrebuchar tentando escapar da sentença condenatória, estão a cada dia confirmando sua presença no próximo jogo entre os times da penitenciária. O Genoíno e o Dirceu, por exemplo, já estão garantidos. Espera-se que à semana que vem outros se tornem disponíveis para jogar. Isso faria nossa esperança tornar-se mais vigorosa e feliz.
                                                                    ***
               -"Pois o tribunal da justiça cometeu um engano. Não somos culpados de nenhum crime no espaço", disse Maureen Robinson.
               -"Não estou tão certo disso, madame. Quem sabe que incríveis leis alienígenas teremos infringido"?, retrucou o doutor Smith.
               -"Mas, por certo, mesmo no espaço a justiça protege os inocentes e pune os culpados", argumentou a senhora Robinson.
               Doutor Smith foi taxativo: -"Um conceito bastante ingênuo, cara senhora".

Do seriado "Perdidos no Espaço", episódio "Tribunal das Galáxias", escrito por Barney Slater e dirigido por Jerry Juran.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Costinha e seu amigo da "alta"


            Costinha orientava o tratamento da infecção do João Batista, paciente do IJF e conhecido presidiário. De tanto conversar, diante do doente, com os residentes e outros componentes da comissão de infecção, João já ia aprendendo o palavreado dos doutores médicos. (Há doutores que não são médicos, até motivo da vontade de alguns de parar de chamar o doutor de doutor.) João já absorvia o jargão por osmose. Mas ficava quieto, ali no cantinho dele, deitado em seu leito hospitalar, submisso ao que lhe era prescrito. Era presidiário, ‘tá certo, por coisas que havia feito no passado não muito distante. Nem por isso era mau. Sabia lidar com gente, no bom sentido. Nem sei se o que fizera havia sido mau, se havia ferido alguém, se havia surrupiado o patrimônio alheio, se havia se envolvido com a gente do tráfico. Sei lá. Se sabia lidar com gente é porque sabia argumentar. E quem sabe argumentar, sabe convencer, ou se deixar convencer.
              Assim, certo dia, lá vinha o Costinha para mais uma visita ao João. Mal chegou e o João já foi dizendo: -“Doutor Costa, vamos discutir o uso desse Cipro! Eu acho que o caso é de cirurgia...!” Doutor Costa respondeu na bucha: -“Também acho, João!”
              (Agora lembrei. João havia trocado uns tiros com os policiais federais. A bala havia lhe estraçalhado o fêmur. Estava internado há quase quatro meses. Parece que João era mesmo bisca.)
              O diabo foi na hora da alta. Costinha vinha chegando e foi logo vendo aquele monte de gente, policiais que iriam escoltar o João ao presídio. Quando viu Costinha chegando, João esbravejou: -“Agora eu vou! Num podia ir-me embora sem falar com ele". E, virando-se p'r'os homens cobertos de coletes e cintos entupidos de balas, avisou: -"Doutor Costa é meu amigo, pessoal!”, ao que Costinha se apressou em temperar: -“Menos, João... Assim os meninos vão querer me levar também!” E assim levaram o pobre e preso João Batista.
              Contei esta pequena história apenas para que se torne do conhecimento de todos o lado mais romântico de se trabalhar em hospital que atende vítimas da violência. Em Fortaleza, onde a violência grassa solta devido à greve branca dos policiais militares e à incompetência do governo, esse papel compete, principalmente mas não somente, ao Instituto Doutor José Frota (IJF). Ao início dos anos ’80, quando comecei a frequentá-lo como acadêmico de medicina, havia bem menos violência na cidade. De lá para cá o IJF também cresceu, mas em proporção infinitamente menor que ela. Pior. O crescimento da violência é contínuo e diário. Diria, usando uma do Nelson, que a cada quinze minutos a violência aumenta em Fortaleza. O IJF não. O IJF não dá crias nem cresce da noite para o dia. Se as autoridades resolvessem construir mais três IJF, ao final da obra precisaríamos de mais seis.
               Se fôssemos um povo sério e sábio, geraríamos políticos à altura. E nossa sabedoria dir-nos-ia: - combatam a violência ao invés de construir mais hospitais. É mais barato.        
               Enquanto tudo isso ocorre, o que fazemos? Que fazem nossos “grandes” homens? Resposta: - discutem e debatem o óbvio. (Debater o óbvio é um deslavado sinal de atraso.) E pior. Quando falam nossos “grandes” homens, nossa imprensa faz um profundo e solene silêncio para ouvi-los e, em seguida, deitam suas palavras a suas manchetes sem nada lhes questionar. Não dão um pio. Melhor dizendo, dão, sim. Implicitamente, e muitas vezes explicitamente, dizem: -“Amém! Amém!” Há ainda o pior de tudo. Os ouvidos do povo recebem de bom grado a essa enxurrada de cretinice.           
               Por exemplo, a lei. A que nos tem servido a lei? Tomemos um exemplo de como vê a lei o cidadão de bem e o bandido. Para isso lancemos mão de fato corriqueiro às dependências do IJF. Nas enfermarias estão os bandidos, e ressalvo: - não há somente bandidos nas enfermarias do hospital. Há pessoas vítimas de acidentes e de contingências da vida, as doenças. (Dirá alguém que doenças não serão contingências: - são certezas, mais cedo ou mais tarde.) Há também as vítimas dos bandidos. E que fazem os bandidos e seus acompanhantes? Agridem o pessoal da enfermagem. Pode ser que alguém indague "como assim? agridem..."? Muito simples: - ameaçam, xingam, tratam com rudeza e desacato, e por aí vai. 
               O pessoal da enfermagem está trabalhando. Varam horas de plantão cuidando, dando assistência, prestando atendimento e aliviando o sofrimento de todos os pacientes internados. Em suma, esses senhores, esses bandidos, violentam diuturnamente os dedicados funcionários do hospital, o mais das vezes mulheres, embora os homens não estejam livres deles.
               Há uma lei no Código Penal (artigo 331) cujo preceito primário diz "desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela" e estabelece a sanção (detenção, de seis meses a dois anos, ou multa). Várias e repetidas vezes esses funcionários relataram esses fatos em seus relatórios de trabalho e os comunicaram a seus superiores hierárquicos. O que se fez? Resposta, vergonhosa resposta: - absolutamente nada. Os vários diretores clínicos e os vários superintendentes que se permutaram em seus cargos nada fizeram. Fazem de conta que o fato é uma alucinação coletiva desse povo da enfermagem.
               Perguntados pela razão de não prestaram queixa na delegacia, os funcionários responderam que temem por sua segurança quando da alta hospitalar desses facínoras. O temor dessas pessoas é mais do que legítimo. Há cerca de um mês (31.07.2013) um bandido invadiu as dependências do hospital e matou a tiros, na cara dos policiais que fazem a segurança (?) do hospital, um paciente que saía de alta para casa. Mesmo permanecendo eles internados, os acompanhantes desses elementos, que também costumam ameaçar e intimidar os funcionários, podem muito bem "arranjar" para que algum deles sofra as "sanções" que a ética dos criminosos impõe.
              Esses fatos são, ao contrário do cômico episódio entre doutor Costa e o presidiário, a face mais hedionda e vergonhosa da rotina daquele hospital: - o cidadão de bem, servidor público mais vulnerável à violência pela própria natureza de seu trabalho e do público com o qual lida, não vê na lei um refúgio, uma proteção. A lei, branda com os criminosos, não é crível; é motivo de pilhéria e chiste entre os marginais, bons conhecedores que são de sua ineficácia. Estes, por sua vez, sabem bem pôr seu "código" para funcionar. Ai daqueles que lhes ameaçam com queixas-crime. Daí o silêncio dos servidores em relação à autoridade policial. Ela não tem competência para proteger o cidadão comum; apenas as pessoas do governador, do prefeito e seus familiares.
               Há mais. Há a intenção dos senhores legisladores de mudar a lei, segundo a reportagem que se encontra em http://www.jornalnanet.com.br/noticias/4862/desacato-a-funcionario-publico-deixa-de-ser-crime . Observe-se que pelo menos um mérito há na mudança que se trama: - a inócua lei deixará de existir ou existirá com outro texto e será uma nova lei, já que a que existe não funciona mesmo. Será aparentemente, e apenas aparentemente, mais dura, mas permitirá ao bandido reverter e inverter a acusação quando acusado pelo servidor público. Como estamos a viver sob a égide dos criminosos, quem os senhores acham que levará a melhor? 
               Pensam que não, mas há mais. Os senhores gestores na pessoa da senhora secretária de saúde do município de Fortaleza e do senhor superintendente do IJF resolveram, em reunião recente com os servidores do hospital, anunciar as mais recentes medidas opressoras contra eles. As novas regras? Nem vale a pena comentar. Ou comentarei noutro texto. Por hora vale chamar a atenção para o grau de inversão de valores a que estamos chegando neste vasto rincão. 
              (Outro dia o Costinha recebeu em sua sala uma ligação de figura ilustre. Era o João Batista direto da penitenciária, ávido para lhe dar boas novas sobre si mesmo. Dizia: -"Doutor Costa, quando falei aqui em minha pseudoartrose a 'negada' ficou tudo doida... Nunca tinham ouvido falar nisso! Tô tão entendido nas 'coisa' que a enfermeira que cuida de mim disse qu'eu devia era estudar medicina! Qu'é qu'o senhor acha?)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Meninos-chefes jamais serão chefes


               NÃO sei que forças me impelem a certos sentimentos que carrego comigo desde que usava cueiros. Por exemplo, as reuniões. Não me lembra a primeira reunião a que fui chamado a comparecer, mas sei que, ao seu final, tive a mais pétrea certeza: - reuniões para nada servem. O que senti ao final da reunião, e que o tempo se encarregou de sedimentar a cada uma que me vi obrigado a comparecer, foi o tédio próprio de quem sai de uma reunião. Seguindo-se ao tédio, o desprezo.
               Sim, toda reunião merece um colossal desprezo, principalmente se ela se realizar no âmbito do serviço público brasileiro. A principal razão de meu desprezo a esses encontros é a sua incapacidade e incompetência para resolver o problema a que se propõe solucionar. Além disso, a reunião é, freqüentemente, o palco da apresentação do idiota. É na reunião que o idiota faz o que mais gosta: exercer o seu direito de ser cretino. Justamente por isso toda reunião merece nosso mais enfático desprezo. 
              Resolvi, por tanto interesse que tenho na extinção das reuniões, estudá-las com mais afinco. Para isso participei de uma boa quantidade delas, notadamente as do serviço público. Hoje em dia, com a presença de câmeras em ambientes onde se reúnem os mais renomados trogloditas desta república, fácil é chegar às conclusões que passo a apresentar.
               Há, basicamente, dois tipos de reunião: a reunião dos escalões superiores e a reunião dos "paus mandados". A reunião dos escalões superiores, por sua vez, se divide em vários tipos, mas dois deles se destacam quanto ao seu potencial de resolutividade: a de elevado poder resolutivo e a de baixo ou nenhum poder de resolutividade. É digno de nota que não haja uma reunião de capacidade intermediária de resolução. Reuniões que resolvem "mais ou menos" nada resolvem, eis a verdade. 
               As reuniões de alta competência resolutiva são aquelas que não existem no Brasil ou, melhor, existem sim, mas o que elas resolvem quase nunca é de ou no interesse do povo. (Estamos fazendo uma análise das reuniões no âmbito do serviço público, é bom lembrar.) As reuniões dos altos escalões, que dominam nossos gabinetes e auditórios, são aquelas que nada resolvem. As mais comuns delas podem ser assistidas na TV Senado e na TV Câmara, respectivamente, as sessões do Senado da República e as da Câmara dos Deputados. Podemos incluir nesse rol as reuniões das Assembléias Legislativas estaduais e das Câmaras de Vereadores dos municípios. Esse tipo serve ao "faz-de-conta" de nosso dia-a-dia. Nessas casas também ocorrem as reuniões de alta resolutividade que atendem aos interesse de nossos políticos, mas essas são bem mais comuns em seus gabinetes, trancados eles a sete chaves. Nelas eles tramam as emendas e costuram as negociatas que os fazem mais ricos e mantêm o país no mais solene e sonífero atraso, fazendo parecer que estamos a um passo do desenvolvimento de que tanto se fala.
              As reuniões dos "paus mandados" são aquelas em que um ou mais "paus mandados" de alta patente convocam os funcionários para lhes comunicar as resoluções esdrúxulas e/ou descabidas e/ou incoerentes que as reuniões dos escalões superiores decidiram e que, quase sempre, não mudam em nada o que já está ruim, contribuindo, de fato, para o piorar ainda mais. Com efeito, essas reuniões são típicas formas do exercício do poder opressor embasado numa legalidade cruel, posto que capaz de alcançar o justo, mas inócua para com o injusto, freqüentemente o próprio Estado. Ele a usa quando lhe favorece ou quando de seu interesse, mas a "esquece" quando lhe é conveniente. Eis aí em poucas linhas a aparência de nossas reuniões e de nossas assembléias. 
              Outro dia eu falava do chefe. (Reunião pressupõe o chefe, notadamente naquelas envolvendo os já referidos "paus mandados".) E de tanto falar em chefe acabei magoando dois queridos amigos. Disseram-me: -"Foste injusto..." O que talvez não tenham entendido é que já sou um bicho velho e ressabiado, passado na casca do alho. Pois digo aos amigos: - já vi tanto chefe que reconheço um a quilômetros de distância. E neles não vejo "o chefe".  Neles vejo os meninos que são, cheios de idéias e ideais, prestes a serem esmagados pela torrente da decepção. Explico.
               O chefe, como disse ontem ou anteontem, deve(ria) conduzir em seu currículo dois itens fundamentais: a aprovação em concurso público e a destruição de sua certidão de nascimento. Lancemos o olhar ao horizonte e façamos uma rápida avaliação de todos os chefes que a vista alcançar. Nenhum deles, repito, nenhum deles estará credenciado a ser chefe. (Só agora percebo que estou sendo demasiadamente duro com os chefes, o que, seguramente, levantará a suspeita de que sou um funcionário público relapso e dado à anarquia. Direi apenas que não é esse o caso.)
               Observe-se que, das duas credenciais necessárias ao legítimo chefe, uma delas depende do candidato a chefe e a outra depende do sistema. Outro dia falei dos sistemas (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/07/um-cruel-e-mau-sistema.html) e da tão desejada inexistência do mal e do mau (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2011/05/o-pior-mal-e-o-que-nao-existe.html). Para que se dissipe de imediato a idéia de que sou anarquista e contrário à instituição do chefe, declaro em alto e bom som: - ninguém está credenciado a ser chefe porque o sistema é ruim. O sistema é ruim para os que nele operam e para os que dele dependem. Se o sistema é ruim para suas próprias "engrenagens", como se pode achar um chefe apto a operá-lo? Nesse sistema das duas uma: - ou o chefe por ele será absorvido e tornar-se-á parte dele, ou o chefe dele será "cuspido". 
               Assim, fácil é concluir que aqueles que são bons serão, mais cedo ou mais tarde, os resignados do sistema. Ser "cuspido" do sistema? Só saindo do país.

sábado, 24 de agosto de 2013

Uma faxina para ser feliz


               Tive hoje, há pouco, a certeza: - o amigo Padilha é um homem felicíssimo. E, sendo ele feliz, também o sou. Afinal, os amigos servem-nos à cumplicidade, dentre outras finalidades.  Notem que a felicidade é, aos dias de hoje, algo palpável, tangível, exigível e exibível. Até a ciência do Direito lhe dá importância porquanto aprecia e leva em conta um novo e recente princípio, o princípio da felicidade. Se o sujeito quiser furar todo o corpo com pregos e parafusos a fim de satisfazer um ardente desejo de se encher de penduricalhos e enfeites, por exemplo, o Direito há de apoiá-lo lançando mão do referido princípio. Que o sujeito seja feliz com seus pregos e parafusos. Ninguém tem nada a ver com isso.
               Pois o Padilha, agora percebo, é, talvez, dos homens mais felizes do mundo. Quem diz é o estudo sueco que concluiu que "os homens que limpam a casa são mais felizes" (http://www.ccreativeimage.com/estudo-revela-que-os-homens-que-limpam-a-casa-sao-mais-felizes/). Os que não dividem os afazeres domésticos com a mulher são mais propensos a distúrbios psicológicos e palpitações, diz lá o estudo. Como o Padilha faz todo o serviço de casa – lava a louça, passa, varre, faz faxina, espana, etc. –, sua felicidade deve estar beirando o zênite. Para nós que apenas pomos o lixo lá fora para a coleta, a felicidade do Padilha se apresenta como uma marca desmoralizadora e humilhante.
               Mais intrigante ainda foi a correspondência eletrônica que me enviou o amado amigo Fábio de Oliveira Motta. O homem começou dizendo o seguinte: -"Todos sabem que meu trabalho é trabalhoso" etc. etc. etc. Nada seria capaz de descrever a surpresa que tive ao ler essa fabulosa e incomum declaração. Um trabalho trabalhoso há de ser deveras trabalhoso, de fato. Dei-lhe o desconto. Ele certamente quis dizer que seu trabalho é extenuante e cansativo. 
               Disse mais. Disse que sua labuta é "interminável, quase incessante". Terminava de ler o primeiro parágrafo e me lembrava do Saldanha, o homem obcecado por seu trabalho (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2012/03/obstinada-obsessao.html). Toda a conversa do homem, do Saldanha, é temperada pela constatação inolvidável: -"Trabalho muito". Diz isso sem nenhum entonação na voz, como se estivesse falando de si para si. Após essa lembrança fui assaltado por uma piedade dolorosa. O sujeito que trabalha incessantemente há de ser, de fato, um pobre diabo. 
                Foi a partir daí que o meu querido Motta passou a se embolorar. Queixou-se de mim, afirmando que eu sumira, desaparecera, estava sempre indisponível. Ora, a contradição é tão evidente que dispensaria qualquer comentário. Se o homem acaba de dizer que seu trabalhoso trabalho é interminável e incessante, estará também dizendo, de outra forma, que para mais nada tem tempo! E se para mais nada tem tempo, como posso ser o sumido? O desaparecido é ele mesmo, ora bolas! Assim, o caro Fábio de Oliveira Motta deixou seu próprio discurso cair no vazio dos que se queixam sem razão, ou com a razão de serem eles mesmos a causa de suas próprias desgraças e desventuras. É bom lembrar que o amado Fábio de Oliveira Motta foi vítima de um sumiço autoimposto ao dia 23 de março próximo passado, dia de comemoração de seus 52 anos. Sim, o homem simplesmente sumiu do mapa. E não somente do mapa. Sumiu do mapa, da rede telefônica e da rede mundial de computadores. Não houve quem o encontrasse. Nesta esquálida Fortaleza onde vivem mais de dois milhões e meio de resignados, eu aí incluído, qualquer sumiço de um ser humano pode significar a tragédia mais possível de cada um de nós. Onde esteve o Motta? Até hoje ninguém sabe, mas, com a graça de todos os santos, a hecatombe não recaiu sobre o amigo. Está vivinho da silva (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/03/maduros-quase-podres.html). 
               Pois há pouco resolvi bater o telefone para o Mesquita. Ele me garantiu: - os cinqüentões somos todos vítimas da "depressão". (Acho que ele se referia a uma tal de "crise da meia-idade". Pergunto: - existe isso?) O Fábio Motta estaria a ser vítima da "depressão" e teria sido a "depressão" a responsável e a causa do sumiço do amigo ao dia de comemoração de seu natalício. Disse o Mesquita que eu, por exemplo, sou um dos poucos que não foram vitimados por essa mazela, o que seria uma coisa assaz incomum. E puxou a sardinha pro seu lado. Ele e outros tantos estarão, neste exato momento e em seus lares, saboreando e lambendo sua cava depressão de cinqüentões. 
               Dito tudo isso, a conclusão mais contundente é a seguinte. O Padilha, que nunca sofreu de depressões aos cinqüenta e muito menos agora às portas dos sessenta, é que é feliz. Varre a casa, lava os pratos, espana as janelas e as paredes e faz todo o serviço de casa com um zelo terno e contagiante. Nunca usou nem suco de maracujá como ansiolítico, quanto mais qualquer comprimido para dormir. Está livre dessas contingências da idade. Relatei-lhe o episódio do Motta e sabem o que ele disse? Mandou-lhe um recadinho. Disse: -"Faz uma faxina em casa, Fábio Motta! Percebes? Vais ser feliz hoje e sempre"! 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Quero ser chefe

Todo chefe deveria se comportar como um bom juiz de futebol. Como se comporta o bom juiz?, há de indagar o que não entende de futebol. Todos sabem. O bom juiz não aparece. Sim, ninguém lhe nota a presença. No dizer de Nelson Rodrigues, o bom juiz seria um desconhecido vocacional.
            O diabo é o ego. O ego é aquele troço que impele o sujeito à autopromoção, à exaltação pessoal. Imaginem, então, o juiz de futebol que, durante a partida, fosse assaltado por uma incoercível vontade de ser o ator principal, o galã do jogo por assim dizer. Nem os eventuais gols seriam notados pela torcida. Os aplausos seriam todos endereçados ao senhor juiz, e a partida seria um mero detalhe, inclusive o gol.
            Dirá alguém que vivemos uma época em que a autoridade está em crise. Vivemos uma crise de autoridade e na autoridade. Nenhuma autoridade tem autoridade aos dias de hoje. Nem o juiz de futebol, nem o chefe de seção, nem o chefe da repartição tem autoridade. Antigamente a autoridade máxima era o bispo. O sujeito vinha se queixar e ouvia o impropério: -“Vá reclamar com o bispo”! Hoje nem isso. Mesmo o bispo tornou-se uma mera figura decorativa, como um enfeite de bolo.
            Outro dia eu dizia que o sujeito tem que ter maturidade para chefiar e para se deixar chefiar. O chefe não é uma pessoa, não é um ser. O chefe é uma entidade, ao passo que os chefiados são, todos eles, reles e ínfimos mortais. O chefe deveria ir ao cartório e rasgar a certidão de nascimento, eis a verdade. Que faz o mortal? O mortal reza, e estamos conversados.
            Entretanto, quando o chefe traveste-se de si mesmo, quando carrega a si mesmo sob a pele, vislumbra-se o caos. O chefe, portanto, e por não ser um ser vivente, deve, única e exclusivamente, se utilizar de todas as liturgias, honrarias e ônus do cargo. Bem se vê que o grau de maturidade associado à atividade de chefiar deve ser elevadíssimo. Chefe que insiste em ser ele próprio não presta. Daí a explicação para a crise de autoridade que ora grassa por este rincão sem dono.
            E mais: - chefe não deve ter regalias. A regalia do chefe lhe enfraquece a moral e a credibilidade. Chefe que não dá exemplo jamais será ouvido e semeará em seus chefiados o deboche por sua figura. A regalia, qualquer que seja ela, mesmo a vaga reservada no estacionamento, pressupõe a existência de um ser vivente no ser que, já dissemos, não é vivente. O chefe que insiste em ser o titular de seu CPF estará sempre a mercê de suas paixões e vícios.
            Vejam, então, a escandalosa relação existente entre maturidade e aptidão para chefiar. Hoje qualquer um é chefe. Trocam-se os chefes como se trocam as fraldas do bebê. (Eu ia dizer as roupas, mas, como temos um lindo bebê na família, me ocorreu que se lhe trocam as fraldas com mais frequência do que as ceroulas dos adultos.) A verdade á a seguinte: - o chefe deveria ser chefe por concurso. E um concurso de porta bem estreitinha, com avaliação psicológica e tudo.
            Por exemplo, o hospital público. Diretor de hospital público devia ser selecionado por concurso, assim como os demais funcionários. Se os demais funcionários são selecionados por concurso, por que seus diretores não o são também? O que se faz é o seguinte. Os diretores desses hospitais são escolhidos pela “panelinha” que está no poder. Assim, entra panela e sai panela e, na mesma medida, entra diretor e sai diretor. O resultado não poderia ser outro senão o que está aí.
            O que diremos dos chefiados? a arraia miúda? o povo que reza? Também esses devem ter lá a sua maturidade. Se o chefe tomar uma medida que o cargo lhe impõe, o chefiado não deve nunca, jamais, tomá-la para o lado pessoal. Quem está agindo é o chefe, e não o fulano de tal que, a propósito, não existe. O diabo é quando o chefe age fora do âmbito de suas obrigações ou, mesmo que aja segundo elas, o faça usando dois pesos e duas medidas. Todos sabem: - a liturgia do cargo é uma só, de modo que medidas divergentes levantam a suspeita de tirania e de o chefe estar agindo na defesa de interesses escusos. Outras vezes o chefe age segundo sua obrigação em determinado contexto e deixa de fazê-lo noutro. A coerência e a obediência estrita ao que exige o cargo são o caminho que leva à justiça e aos bons resultados na atividade de chefiar.
            O que se tem visto? Nada disso temos visto. Ou, melhor: - tudo isso. O chefe é um ego e, pior, um ego inflado e inflamado. Do Oiapoque ao Chuí, do Cabedelo ao Xapuri, o Brasil é um antro de egos a lhe chefiar desde os cargos mais elevados aos mais humildes chefes de portaria. Consequentemente, a já citada crise na autoridade é uma evidência que nos assola e humilha.

            Eu nem sei por que razão fiz todo esse devaneio. Diz o meu amigo Vevê que sempre se quer ser o touro, e nunca se quer ser a vaca. Acho qu’eu estou querendo é ser chefe. O diabo é que não tem concurso...!   

domingo, 11 de agosto de 2013

O país sem carnaval


               Ah, a índole!... Diz lá o pai dos burros sobre ela: propensão natural; caráter; tendência. 
               Ensinam os sociólogos que não há a índole; o que há é o aprendizado, a cultura, a ética – uma ética, e outra ética, e quantas éticas se queira –, tudo isso a moldar o modo de pensar de cada novo ser humano que vem à existência.
               A primeira evidência da índole está no Gênesis em seu capítulo 4, Caim enciumado. O caráter do primogênito do casal primevo era duvidoso. Tanto que mais tarde matou seu irmão, Abel.  É possível – e fascinante! – deslindar, usando o próprio texto de Gênesis, as circunstâncias do ciúme de Caim e do assassinato de seu irmão. Mas não o façamos. Vivemos tempos difíceis. O óbvio está morto, como bem sabem. E, com sua morte, toda crença é possível, toda interpretação é possível, tudo, enfim, é possível. 
               Por exemplo, digamos que Deus é o óbvio, nada mais óbvio, nada tão óbvio. E, se o óbvio está morto, também Deus está morto. Será que percebem? Se Deus está morto, restam, como já disse, as interpretações, as opiniões, as convicções pessoais, o uso dos despojos de Deus como meio de dominação, como causador de sofrimento, como prova da morte de Deus, o ex-tirano. São, de fato, tempos muitíssimo difíceis esses em que vivemos. (Nem sei por que estou aqui a arriscar minha cabeça fazendo alusão a essas coisas. São coisas indizíveis.) 
               Dizem os sociólogos que a crença na existência de uma índole é a grande responsável por essas aberrações inimagináveis. Por exemplo, os homens são afeitos à guerra, ao passo que as mulheres o seriam ao cuidado do lar. Pois isso também se aprende, isso é cultural, segundo os sociólogos. Se aniquilarmos a sociedade cuja cultura ensine tais disparates, em breve havíamos de testemunhar a eclosão de uma sociedade de homens parindo e lavando a louça, enquanto as mulheres se digladiariam nas assembléias, falando grosso e empunhando pistolas. Conclusão: até os índios teriam as mulheres mais valentes e sanguinárias do planeta. O diabo é que não é isso o que vemos. E se existir algum povo cuja organização social se assemelhe a isso, cabe a pergunta: mas só um povo? Por que não dois? Ou três? Ou quatro povos? 
               Tenho um amigo, o Padilha, que, indignado com minha aversão a suas crenças pouco científicas, fuzilou: -"Vá estudar"! Senti-me como um lépton. (O quark pelo menos interage.) Minha sensação de minimidade existencial foi esmagadora. Fosse eu um suicida em potencial e me jogaria à frente do primeiro ônibus lotado que passasse. (Observem que "suicida em potencial" resgata a idéia de "índole" e, como já vimos, não existe a índole. Todos os suicidas são seres absolutamente isentos dessa suposta inclinação, até o dia em que resolvem dar cabo de si mesmos.) 
               De tanto procurar estudar, dei de cara com artigo da revista Exame que dá conta de que o governo está estudando a possibilidade de "importar" engenheiros para o país (http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/por-prefeitos-dilma-estuda-importar?fb). Depois da importação de médicos, vamos importar engenheiros, e é provável que mais adiante importemos também garis, físicos, eletricistas, etc. etc. Uma pesquisa mostrou que em países altamente desenvolvidos, como Suíça, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, 20% da população é formada por imigrantes, enquanto no Brasil eles representam apenas 0,3%. A média mundial é de 3%. 
               Voltando à índole, diria que toda índole tem sua contrapartida cultural. Se não há a índole, há a cultura e a ética a explicar comportamentos, atitudes, idéias, pensamentos, modo de ver e encarar a vida e a morte, etc. etc. Pois vejam que é da índole desse governo, digo, é da ética desse governo explicar suas idéias com as explicações mais estapafúrdias que se possa imaginar. Não  passa pela cabeça desse pessoal o óbvio. (Estou me encrencando cada vez mais: digo a mim mesmo que o óbvio morreu.) Os países mais desenvolvidos têm uma maior população de imigrantes porque esses imigrantes para lá vão em busca de reais oportunidades de obter sucesso e felicidade num país onde tudo funciona, do carrinho de mão ao foguete espacial. Não me surpreende que nossa população de imigrantes seja tão pífia. Em busca de que eles viriam? De oportunidades? Não as damos nem aos nativos. De segurança? De um bom sistema de saúde pública? De cidades boas de se viver e criar os filhos? 
               Pensando bem e melhor, me parece que de importação em importação o governo cogita em repovoar o país. (Lembra-me o meu amigo Raimundo Araújo a exortar a que os americanos do norte nos invadissem. Para ele, essa seria a nossa solução.) Sou tentado a pensar que o governo quer-nos mudar a cultura, as idéias, as crenças, os costumes, o jeitinho brasileiro, enfim. Não seríamos mais o Brasil. Seríamos o "New Brazil", uma potência tecnológica e econômica jamais vista. Trocar-nos-iam desde a índole até o carnaval.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

"Não tem remédio, doutor"!...

               "Quando o pau troar, conte comigo, tô do seu lado ! Abraço!" Essa foi a resposta de um amigo ao meu último texto. Nada é mais estimulante e mais viçoso do que a amizade. Dizia o Nelson o seguinte: -"A amizade é o grande acontecimento". E é este o exemplo mais singelo de verdade absoluta. A amizade é o grande acontecimento. Meu amigo Zorrinho, o que me enviou a mensagem contendo sua irrestrita solidariedade e cumplicidade, foi, hoje e para sempre, o grande acontecimento. 
               O que não ficou claro no texto, vi depois, foi se Amorim é ou não meu amigo. Direi com a mais profunda certeza: - Amorim é meu amigo de infância, do tempo em que usávamos fraldas. E nossa amizade tem varado o tempo tão sólida como sempre foi. De fato, é justamente por isso que lhe permito os desvarios de seus pileques. E é provável que seja justamente por isso que também ele aceita sem rancor o telefone na cara. Os verdadeiros amigos não se melindram por pouca coisa. 
               Vejam que é sempre pouca coisa. Por exemplo, o próprio Amorim. Contei tempos atrás aos amigos leitores – só os amigos me lêem – o telefonema que recebi do mesmo Amorim. Foi assim. Era uma sexta-feira, já por volta da meia-noite, quando me toca o telefone. (Para não cansar os pouquíssimos leitores, resumirei.) O homem estava com uma "profissional" e não conseguia, por mais que pelejasse, perpetrar o ato. Resolveu me ligar a fim de que eu o ajudasse. E, para variar, estava mais melado do que espinhaço de pão doce. Ao final da ligação me vi confabulando com a moça. Passei-lhe um pito, mas ela, percebi, estava achando tudo aquilo surreal e cômico e, de fato, era. Mais uma vez bati-lhe o telefone nas fuças. 
               Hoje, por uma infeliz coincidência, o deputado Heitor Férrer, uma das pouquíssimas resistências à ditadura branca que ora vige no Estado, anunciou em sua página da rede social o seguinte: - foi frustrante a fala do Secretário de Segurança Pública do Estado na Assembléia Legislativa. O homem seguiu a velha praxe à risca. Demonstrou os números do que vem sendo e já foi investido na pasta. Não resta dúvida. Uma fortuna. O governo tem investido uma dinheirama sem precedentes na área de Segurança Pública. Palmas para o governo. Mas, das duas uma: - ou o senhor secretário pensa que somos todos cretinos, ou ele próprio é que é um. Ele parece não ver que os valores com os quais o governo inundou a área de segurança não surtiu nenhum efeito, nenhum mesmo. Somente ele, e por extensão o governo, não vê o verdadeiro estado de anomia a que chegamos. A criminalidade está solta. A cidade de Fortaleza é uma praça de guerra. Os agentes de segurança do Estado estão inoperantes; a Justiça, munida de seu código penal e código de processo penal caducos e favoráveis aos criminosos, não pune; e o governo estadual a anunciar que nosso suado dinheirinho está sendo rasgado a olhos vistos. Em última análise foi isso o que ficou claro.
               (Ia esquecendo de dizer que o Zorrinho é, também, amigo desde as fraldas e dos cueiros. A diferença é que o Amorim é amigo do bairro, ao passo que o Zorrinho é discípulo marista, como eu.) 
               No ambulatório, hoje de manhã, lembrei-me do amigo e compadre Chico Heli. Atendia os doentes e ouvia a voz do Chico. Ouvia-o dizer: -"Tem remédio, sim! Tem remédio, sim!" Eu perguntava à paciente se em sua cidade, em Morada Nova se não me engano, havia medicamento para sua pressão e para seu diabetes; se os postos de saúde de lá estavam sempre abastecidos com os medicamentos básicos utilizados no tratamento dessas doenças; se o médico do posto estava empenhado em controlar seu diabetes e sua pressão alta. A voz do Chico insistia no pé do meu ouvido: -"Tem remédio, sim! Tem remédio, sim!" A paciente dizia: -"Tem remédio, não, doutor!... Tem remédio, não!..." O diabo é que o Chico, em que pese seu CRM e que isso o credencie a conhecer profundamente nosso sistema de saúde (?), não mora em Morada Nova, nem é hipertenso, nem diabético, nem faz uso, até onde sei, de qualquer medicamento de uso contínuo. 
               (Se o Chico lá estivesse, no ambulatório, ter-lhe-ia dito: -"Chico, tu és o grande acontecimento, mas a pacientezinha – coitada! – sabe mais desse assunto do que tu..." E sentar-me-ia ao chão chorando como uma criança indefesa.)
               Não sei se sabem os amigos e, se não sabem, saberão agora: - sou hipertenso. Ocorre que, para as esquerdas, sou "a elite". De fato, e assumo, sou "a elite". Custou-me muito estudo e muito trabalho, mas sou "a elite". Como elite que sou, minha hipertensão arterial é especial. Trato-a, com a ajuda da querida Márcia Holanda, com o maior carinho. Sim, porque se não o faço, ela me morde. (Não a Márcia, mas a hipertensão.) Hoje quase todo medicamento tem lá o seu "genérico", o seu "similar". Assim, neste vasto rincão, todo medicamento tem duas versões: a original e as outras. O meu é da estirpe original. A prova? A hipertensão tornou-se apenas uma ameaça. Está controlada.
               Mas, vejam como todo bom brasileiro está a um passo de sua própria desgraça. Vou ali à farmácia comprar o original e o balconista me traz o genérico. Diz: -"Está pela metade". Digo: -"Traga-me o que pedi, sim"? Insiste: -"É a mesma coisa". Sou categórico e paciente: -"O que pedi, por favor". Ele não ia desistir: -"Os estudos mostraram etc. etc. etc." Perdi a paciência: -"Quando for a pressão da senhora sua mãe, use o que quiser; para mim traga-me o que te pedi". 
               Contei esse lamentável episódio apenas para dizer o seguinte. Por exemplo, o meu compadre Chico acredita que o anti-hipertensivo de dois ou três reais que se vendem nas chamadas farmácias populares controlam com eficácia a pressão arterial de seu usuário. Ele, como excelente Infectologista que é, deve bem ter visto vários e vários casos de infecções refratárias ao tratamento com genéricos e/ou similares e que posteriormente responderam ao medicamento "original". O mesmo se vê no uso de medicamentos para outras doenças e condições clínicas. Essa é uma constatação irrefutável e do conhecimento de todo médico brasileiro. 
               Bem se vê que somos uma sopa de caos. Para onde se olhe, lá estará ele, o caos. O caos na segurança, o caos na saúde, o caos na educação, o caos no trânsito... É o caso de se sugerir, a qualquer secretário de governo que vá à casa legislativa expor os desvarios de sua pasta, que não mostre os gastos como sinônimo de boa gestão; que mostrem, doravante, a "entropia" dos sistemas que gerenciam. A irreversibilidade desse estado de coisas, se assumida, nos traria a coragem necessária para fazer o que deve ser feito. Inclusive, e principalmente, mudar as leis ou fazer cumprir as boas que já existem. 

A solidão à vista


               Dizem por aqui, no Ceará, que se o sujeito anda tendo azar é porque andou pisando em rastro de corno. (Nunca entendi o porquê dessa aversão ou temor de o sujeito vir a ser corno, mas o mito do "nordestino cabra macho" pode explicar essa atrofia mental.) Pois o meu azar foi receber, justo à noite de sábado, a ligação do Amorim. Pelo que ouvi, deduzi: - tomara todas e mais algumas. Não é a primeira vez que o homem me bate o telefone justo na hora mais imprópria e àquele estado lamentável. (É um pau d'água incorrigível.)
              Que queria ele?, perguntar-me-ão os mais afoitos e curiosos. Queria que eu parasse de "bater" no governo. Imputei ao amigo uma ignorância sem tamanho. Acha ele, em sã consciência, que o que escrevo é lido por alguém? É ingênuo o meu amigo. A verdade é a seguinte: meu blog, o lugar onde escrevo minhas inquietações e onde exponho minhas idiossincrasias, é humilde, não tem pretensões maiores, nenhuma pretensão. E pedia: -"Dá um crédito pros caras, bicho!..." A explicação era a mais cristalina possível: - ele, bêbedo, pensava estar dialogando com o Fábio Campos, do jornal O Povo. O Campos, esse sim, repercute. Um dos jornalistas mais corajosos do estado. 
               Confesso: - eu estava tomando uma cerveja à hora da ligação. A conversa, a princípio, me pareceu ter alguma lógica, mas depois se tornou maçante. Que fiz? Desliguei-lhe na cara. E ele ficou a me ligar outras trinta vezes. Não atendi a nenhuma. Por esse ridículo episódio os amigos podem ver o que sucede ao pobre indivíduo que quer somente e unicamente o sossego. E o que sucede ao que quer somente e unicamente o emprego.
                O amigo não se conformava com o que eu escrevi sobre o assassinato dentro do hospital. Vejam os pouquíssimos leitores em que nos tornamos. O paciente que recebe alta ser morto à saída do hospital ou ao meio fio é de uma diferença que transcende qualquer coisa que não consigo atinar. (Eu ia dizer indiferença, mas dá no mesmo.) Talvez eu seja um imbecil nato, irremediável, incurável, admito. Amorim insistia: - o homem fora morto a tiros fora das dependências do IJF. (O IJF é um inferno frio, um inferno a zero grau, se é que me entendem.) Eu negava, dizia que não, e o homem insistia: - o assassinato aconteceu no meio da rua! Assassinato no meio da rua pode, no hospital ainda não. (É uma questão de tempo.)
               Paciência. Por aí se vê como agem os governos quando envoltos em maus lençóis. E, fazendo um cruel trocadilho, quando o governo está em maus lençóis, qual o tipo de pano que cobre o reles mortal? O fato incontestável é que nem mais ligamos que se mate. Queremos livrar a nossa cara, ou a de quem servimos. E ponto final. Tornamos-nos uns canalhas. Somos seres torpes e vis. Ainda agora não me arrependo de ter-lhe batido o telefone às fuças. 
               Esqueci de contar que, no mesmo sábado, mais cedo, bate outro telefone. Era o Guimarães. Estava possesso. Tem umas terras de herança no Maranhão. (É afilhado do Sarney.) Descobriram gás natural em seu subsolo. As terras que valiam cinco milhões passaram, segundo ele, a valer milhão e meio, porque essas riquezas são da União. Botou uma tropa de advogados e o padrinho pra encampar a batalha. Não houve jeito. O governo não arreda pé. Para isso construiu uma legislação imbatível e indubitável. É uma questão julgada antes de transitar. Das duas uma: - ou o Guimarães está tramando uma ou é um tolo. Depois dele veio de lá o Amorim e sua conversa de bebo. 
                Contei, tempos atrás, sobre o amigo que me "acusou" de não ter sido "testado". A quem não se lembra ou não leu o que escrevi, resumirei rapidamente. À época, eu "batia" nos canalhas que de tudo faziam para permanecer à frente da administração da Unimed Fortaleza. Ele, o amigo, era um deles. Pois os acusei, sem aspas, de usarem de canalhices para se manter onde estavam. O amigo então disse: -"Você fala tudo isso porque ainda não foi testado..." Ora, o amigo estava sendo claríssimo! Ninguém, até então, tentara me corromper. 
               O que ele não sabia é que haviam tentado, sim, me corromper. Não sabia que eu dissera "Não!" a meu corruptor. E disse-lhe mais. Disse-lhe: -"Meu caro, não posso ter o rabo preso. Se o tiver, com que autoridade vou denunciar canalhas como vocês?" 
               Assim, aviso ao meu querido Amorim: - minha riqueza é minha pobreza. Corrijo, porque não sou pobre. Minha riqueza é minha justeza. Sem perfeição, procuro ser justo, ou melhor, procuro estar dentro do justo. 
               Posso bater. E continuarei batendo.  

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Uma cadela amestrada


            Vejam que a ciência, ao contrário do que imagina boa parte de nós, deve sempre ser olhada com desconfiança.
            Não costumamos ler prefácios de livros – de fato, é bem possível que a maioria de nós não leia os próprios livros – mas, e o confesso sem a menor empáfia, certa vez li o de um. Era um livro de Imunologia, e que remonto ao início de meu curso de medicina. Li, ali naquele prefácio, o que cada vez mais julgo ser a verdade inapelável e irremediável. Não lembro as exatas palavras do texto, mas era mais ou menos assim:
            “Sabemos que a metade do que ensina a ciência não é verdade; o problema é saber qual é essa metade”.
            Perceberam? Eis o barco em que navegam os céticos, os positivistas, os naturalistas e os ateus, que tudo põem na conta desta grande mentirosa que é a ciência. E observem como é relativamente fácil provar que os dados dos quais os cientistas lançam mão são frequentemente equivocados.
            Em 30.10.2007 escrevi um texto, que está publicado em meu blog, intitulado “Apocalipse now: um devaneio” (http://fecavalcanti.facilblog.com/Primeiro-blog-b1/Apocalipse-now-um-devaneio-b1-p16.htm). Nele exponho meu terror diante de uma reportagem que acabara de ver na imprensa televisiva. Escrevi lá o seguinte: “Estarrecido, vi hoje pela manhã bem cedo o telejornal anunciar que cientistas americanos da NASA preveem que em cinco anos, – vejam bem, cinco anos! – no verão, toda a calota de gelo ártico derreterá caso o efeito estufa e o buraco na camada de ozônio persistam nos níveis atuais.  Cinco anos! E subirá o nível das águas oceânicas. E cidades litorâneas poderão ter sérios problemas. Enfim, o apocalipse foi antecipado.”
            Segundo os respeitados cientistas da NASA, estamos já ao período da catástrofe anunciada. Com efeito, o tempo chegou e, de fato, já vai quase um ano após ele. Sim, porque, ao que conste, os humanos não pararam de emitir gases à atmosfera nem houve diminuição do buraco. Apesar da grave crise econômica, não houve redução significativa da produção industrial e da utilização de energia poluente, nem houve mudança da matriz energética que viesse a mitigar os inúmeros problemas causados pelo óleo. A ratificação do Protocolo de Kyoto pela maioria dos países não parece ter atingido os objetivos focados. É de se esperar, portanto, que tudo esteja exatamente como há cinco anos. Ou pior. É possível que esteja pior.
            O que vemos, ou  melhor, o que não vemos, como previsto, é o derretimento da calota polar e a consequente subida no nível das águas oceânicas e todas as tragédias que isso venha causar. Alguém dirá que estou sendo demasiadamente inflexível; que a ciência é assim mesmo, há sempre uma margem de erro em suas “previsões”; que assim exigindo mostro-me um jurássico troglodita, desses que arrastam a mulher pelos cabelos após lhe açoitar com um porrete, e por aí vai. Direi em minha defesa que, de fato, sou um troglodita incorrigível quando se trata de atacar essa ciência. O motivo? Ora, sou um apaixonado pela Ciência! Aquela não chega a lhe lamber os pés. Ou, melhor, se puséssemos uma diante da outra, a ciência viria lamber os pés da Ciência como uma cadelinha amestrada, usando uma de Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Saudades da paz


                Somente o Diário do Nordeste dedicou a manchete de capa ao estarrecedor acontecimento de ontem nas dependências do Instituto Dr. José Frota. Os demais periódicos publicaram o assunto, mas de forma fria e desinteressada. A matéria do Diário, em que pese tecer mais detalhes, também não demonstra nenhuma perplexidade. Pergunto-me se as garrafais letras da manchete traduziriam algum agastamento dos autores da matéria. (Os jornais demonstram algum sentimento apenas quando se trata de bajular os canalhas do poder.) Foi o seguinte.           
            Um jovem planejou e executou o assassinato de seu desafeto, que estava internado no hospital (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1298765). Testemunhas foram categóricas: após alvejar sua vítima a queima-roupa, o homem calmamente pôs a arma ao chão, um revólver calibre 38, e levou as mãos ao alto. Havia policiais militares no local. Nada foi feito para impedir a ação criminosa. Tudo foi muito rápido e eficaz. Até a rendição do criminoso. Ciente de sua menoridade – divulgou-se que ele teria 16 anos – e dos direitos que lhe confere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), usou de toda a sua inteligência e conhecimento para lograr seu intento. (A reportagem, se não me engano, afirma que ele teria tentado correr, mas as testemunhas são unânimes: o homem agiu com calma e rendeu-se pacificamente.) Ele justificou a investida: vingava-se da vítima. Ela teria matado parentes e amigos seus. Eis aí tudo.
            Minto. Há mais. Ele tranquilamente esperava, de dentro do hospital, por sua vítima. Sabia por onde ela sairia e a hora em que isso ocorreria. Estava, obviamente, bem informado. Usou de astúcia e frieza. Seu gélido ato só se equipara à reportagem que sem nenhuma indignação ou emoção o noticia. [Quero crer que o jornal bem traduz o sentimento dos que nos (des)governam. A sociedade já não aguenta mais tanta incompetência e descaso.]
            Estará mesmo tudo aí tal qual relatei? É provável que não. Após o relato, espicaça-me a pergunta óbvia (já ontem anunciei a morte do óbvio): o jovem sabia da ilegalidade de sua ação? Se sabia, fará isso alguma diferença?
           Quem tiver a mínima paciência para ler o referido Estatuto, chegará a uma estarrecedora conclusão: - ao menor, criança ou adolescente, não se exige nem se impõe nenhum dever, nenhuma obrigação, nenhuma contrapartida. O diploma lhe confere todos os direitos, todas as prerrogativas, todas as vantagens. Tudo parte de um intrigante pressuposto:
               Art. 104. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às medidas previstas nesta Lei. Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, deve ser considerada a idade do adolescente à data do fato.
               Para o legislador, todas as crianças e adolescentes são idênticos e que, antes da idade de 18 anos, não há a menor possibilidade de que aprendam o que é certo e o que é errado, e de que saibam e aprendam o que é lícito e o que é ilícito. Por isso, crianças e adolescentes nunca,jamais cometem crimes (Art. 103: Considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal.). A idade lhes salva. Para o legislador, a idade lhes confere um salvo-conduto. (Nelson Rodrigues dizia que o jovem tem todos os defeitos de um adulto e mais um: o da inexperiência.)
               Concluímos, então, e respondendo à pergunta que fiz acima, que não, não fará nenhuma diferença que ele estivesse ciente do grave ilícito que estava para perpetrar. Sabia também, como já disse, de seus ilimitados direitos. Tudo pesado na balança, seguiu seu projeto com conforto e sem oposição ou obstáculos. Já não seria tão inexperiente quanto o jovem do Nelson.
               Bem se vê que há jovens e jovens, contrariando o que pensa o legislador. Para ele a idade é critério pétreo, indiscutível e inegociável. Ainda que a arrogância e a petulância da ação denunciem que se está diante de um criminoso frio, calculista e determinado – qualidades inexistentes nos verdadeiros inocentes – o legislador brasileiro, com a inercial permissividade daqueles que deveriam zelar para o contínuo aperfeiçoamento da norma jurídica, criminosamente silencia. A vítima, ainda que nesse caso fosse outro facínora, é assassinada duas vezes; e abrem-se precedentes e mais precedentes. A norma pétrea que em nada traduz os mais elevados interesses da sociedade segue imutável e lépida. Os "entendidos" juristas teimam em pretender justificar um erro através de outro. À criança e ao adolescente que o Estado negou aquilo que ele mesmo deveria prover, esse mesmo Estado dá carta branca para que cometa crimes bárbaros como este e saia impune, completamente impune. Nem o nome do assassino posso deitar a este texto porque ele está "protegido" por lei. Não se sabe quem protegerá a sociedade das ações futuras e previsíveis desse elemento periculoso. Como, segundo o ECA, não houve crime mas um ato "infracional", também não há um cadáver, não há um defunto a ser velado. O corpo sem vida torna-se uma alucinação coletiva e torporosa, embora a vontade do autor dos disparos seja a causa do efeito observado.
               E nem falemos da incompetência e ineficiência do serviço de segurança de um hospital que atende vítimas de violência de todos os tipos. O sujeito carregando um trambolho cheio de balas andou e desandou nas dependências do nosocômio sem que ninguém o incomodasse. E pior. Ainda há quem venha a público dar explicações que não explicam, simplesmente não explicam.
               Hoje, voltando ao trabalho após trinta dias de férias, e entrando pelo mesmo acesso onde tudo aconteceu, imaginei uma cruz de madeira fincada numa capelinha de cimento construída à entrada do hospital, semelhante àquelas que se constroem à beira das estradas nos locais em que pessoas morreram atropeladas. Seria um monumento completamente deslocado, absolutamente esdrúxulo, inteiramente estapafúrdio, mas perfeitamente desejável e coerente com o que estamos a viver. Em vez disso, nada lá havia. Somente as pessoas que continuavam a entrar e sair para a escandalosa rotina daquele hediondo palco em que se tornou o Instituto Dr. José Frota, como se nada houvesse acontecido. 
               Talvez nada tenha ocorrido mesmo. Apenas um ato "infracional" sem importância  alguma. A execução sumária de um ser humano dentro de uma casa de saúde parece nada significar para nós. Como diria Nelson Rodrigues, o que nos salva é o nosso sentimento de culpa. Se já não o temos mais, deveríamos estar a andar de quatro urrando no terreno baldio.
               Haverá esperança para nós? Saudades de Paris...  

A morte definitiva do óbvio


               Quantos anos tem a Austrália independente? Liberada de sua ligação com o Reino Unido em 1931, podemos dizer que este país tem apenas 81 anos. 
               Digamos com todas as letras a fim de que não haja dúvidas: - a Austrália livre tem 81 anos. Através do Estatuto de Westminster de 11 de dezembro de 1931 o país terminou formalmente com a maioria das ligações constitucionais com o Reino Unido. Há mais: 
               "A Austrália adotou o estatuto em 1942, mas com efeitos retroativos a 1939 para confirmar a validade da legislação aprovada pelo Parlamento australiano durante a Segunda Guerra Mundial. O choque da derrota da Inglaterra na Ásia em 1942 e a ameaça da invasão japonesa fez com que a Austrália olhasse para os Estados Unidos como um novo aliado e protetor. Desde 1951, a Austrália tem sido um aliado militar formal dos Estados Unidos, nos termos do tratado ANZUS. Após a Segunda Guerra Mundial, a Austrália encorajou a imigração da Europa. Desde os anos 1970 e após a abolição da política Austrália Branca, a imigração da Ásia e de outros lugares também foi promovida. Como resultado, a demografia, cultura e auto-imagem da Austrália foram transformadas. Os laços constitucionais finais entre a Austrália e o Reino Unido foram cortados com a aprovação do Australia Act 1986, acabando com qualquer papel britânico no governo dos estados australianos e, fechando a possibilidade de recurso judicial para o Privy Council, em Londres. Em um referendo de 1999, 55% dos eleitores australianos e uma maioria em cada estado australiano rejeitou a proposta do país se tornar uma república com um presidente nomeado pelo voto de dois terços de ambas as Casas do Parlamento Australiano. Desde a eleição do Governo Whitlam em 1972, tem existido um foco crescente na política externa dos laços com outras nações do Pacífico, mantendo laços estreitos com os aliados tradicionais da Austrália e com parceiros comerciais".
               E há mais ainda: "Tecnologicamente avançada e industrializada, a Austrália é um próspero país multicultural e tem excelentes resultados em muitas comparações internacionais de desempenhos nacionais, tais como saúde, esperança de vida, qualidade de vida, desenvolvimento humano, educação pública, liberdade econômica, bem como a proteção de liberdades civis e direitos políticos. As cidades australianas também rotineiramente situam-se entre as mais altas do mundo em termos de habitabilidade, oferta cultural e qualidade de vida. A Austrália é o país com o segundo maior índice de desenvolvimento humano do mundo (IDH). É membro da Organização das Nações Unidas (ONU), G20, Comunidade das Nações, ANZUS, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), bem como a Organização Mundial do Comércio (OMC)".
               Eis que hoje, durante a aula de Sociologia Jurídica e Judiciária, a ilustre professora desculpava a miséria e as mazelas brasileiras utilizando-se do argumento do tempo. Afinal, temos "apenas" 191 anos de independência. Fomos "descobertos" há somente 512 anos. (A colonização australiana começou no final do século XVIII.) Segundo ela, em nossos quase duzentos anos não nos foi possível fazer muita coisa. 
               Imaginem vocês que em quase duzentos anos não tomamos vergonha na cara. Pois está aí a Austrália para desmentir esse ufanismo oco e absurdo que culpa o tempo. (Vai ver é por isso que o criminoso menor de idade tem todas as proteções e regalias por aqui: - ele tem ciência do bem e do mal proceder, mas o tempo o redime de suas hediondas canalhices.)
               Hoje, ao meio dia, soube que um assassinato acabara de ocorrer nas dependências do Instituto Dr. José Frota. Um menor, portando uma arma calibre .38, atirou contra um desafeto que, segundo ele próprio, matara seu irmão e um primo. A vingança o moveu. Pergunto, do alto de minha soberba ignorância: crianças inocentes se vingam? 
               Hoje fui visitar meu neto. É um lindo bebê de pouco mais de dois meses de idade. Olhava para ele e me fascinava com sua pureza. É uma pureza física, mental e espiritual; uma pureza em toda completude, em toda inteireza. Em pouco tempo crescerá e ainda terá muito dessa pureza de hoje. É uma criança, aos olhos dos homens, livre de qualquer culpa. É verdadeiramente inimputável.
               O canalha que assassinou o paciente dentro do hospital – os gestores lutam freneticamente, ou nem tanto, para garantir que o crime ocorreu na área externa do edifício principal, mas... e daí? – premeditou minuciosamente o ato. Esperou o momento certo, as condições mais propícias, para lograr seu intento. Diria até que tenha um ou mais cúmplices, os quais lhe forneceram as informações sobre o dia e a hora em que sua vítima sairia do nosocômio. Ele, por sua vez, fez questão do assassinato público, teatral, televisivo. Queria platéia e TV. Não temeu a prisão. Sabe que estará livre em dois tempos. 
               E a sociedade? E nós? 
               Nós somos um arremedo de povo, de organização social, de pobres pretendentes a um bem comum inatingível. Somos quase um nada. Assassinou-se não somente a vítima, provavelmente outro canalha produzido pelo sistema, mas também o óbvio. 
               Anuncio com pesar: morreu definitivamente o óbvio.