sexta-feira, 27 de novembro de 2015

LIBERDADE OU SEGURANÇA?

          Diz o Robert Kiyosaki que liberdade e segurança são mutuamente exclusivas. Sim, uma exclui a outra. Não é possível gozar de ambas ao mesmo tempo. Ou se tem liberdade, ou se tem segurança. Quanto maior a liberdade, menor a segurança; quanto menos liberdade, mais segurança. Exemplificou a questão utilizando-se dos detentos em cadeias. Encarcerados, gozam de toda segurança do mundo. Têm toda segurança, mas perderam toda liberdade. (Óbvio é que o exemplo do Kiyosaki só se aplica a detentos de cadeias de primeiro mundo.) 
          A incompatibilidade entre liberdade e segurança foi descrita por Kiyosaki no contexto das finanças pessoais. As pessoas que querem segurança arrumam um emprego seguro com o salário certo no fim do mês. Obtêm segurança, mas sua liberdade está restrita àquilo que seu salário pode prover. Já aquelas que querem uma renda maior e liberdade financeira arriscam-se a montar negócios próprios – abdicam da segurança – a fim de obter fluxos de caixa ilimitados.
          Lembrei do Kiyosaki hoje, ao ler dois textos. Um me chegou por correio eletrônico. Dei de cara com o outro quando fui, sei lá por que cargas d'água, bisbilhotar o portal do péssimo jornal O Povo. (Mais abaixo verão que foi um pouquinho diferente.) Um dos textos disserta sobre a necessidade de aumentar a segurança, sob pena de haver mais derramamento de sangue em ataques terroristas, ao passo que o outro demonstra o temor de seu autor de que se percam as "liberdades democráticas" justamente pela criação de leis mais rígidas na intenção de manter a segurança. 
          O autor do primeiro texto é o delegado da Polícia Federal, Marcelo Itagiba. Ele conclama a urgente criação de uma lei capaz de prevenir ataques terroristas em solo brasileiro nas Olimpíadas de 2016 através da captura antecipada de pessoas que sejam flagradas planejando tais crimes (http://oglobo.globo.com/opiniao/lei-contra-terrorismo-18106967). Itagiba encerra dizendo: "É melhor prevenir do que chorar". O autor do outro ensaio é o jornalista local Plínio Bortolotti, que teme danos à democracia no enfrentamento do extremismo (http://www.opovo.com.br/app/colunas/menupolitico/2015/11/21/noticiasmenupolitico,3536302/como-enfrentar-o-extremismo-sem-ofender-a-democracia.shtml). Para tal, nada sugere. Limita-se a concluir que a solução para a questão não é fácil e alerta a que se rejeitem as soluções "simplórias".
          Enquanto o senhor Itagiba, que por sinal é judeu, sugere solução prática, o outro nada sugere; perde-se num blá-blá-blá medonho sem dizer ao que veio. Minto. Ele tem um propósito, sim. Diz ele: "Portanto, o desafio para os países democráticos é combater o terrorismo ao mesmo tempo em que preservam a liberdade e os fundamentos da democracia, pois a extrema-direita vai reivindicar medidas que porão em risco esses princípios." Vê-se que, para o senhor Bortolotti, já temos um culpado para alguma coisa que ainda não aconteceu: – a extrema-direita. (Coitada da extrema-direita... já é apontada como responsável pelas soluções que propor-se-ão.) O propósito deste senhor é culpar o capitalismo. 
          O senhor Itagiba diz o seguinte: "Um projeto de lei aprovado recentemente no Senado e enviado à Câmara Federal não criminaliza os chamados atos preparatórios de terrorismo, como entende necessário a Policia Federal e autoriza o Código Penal, desde que expresso em lei e em caso excepcional. A ação antecipada contra a articulação criminosa que resultará em ato terrorista, assim como a previsão de punição para os seus articuladores, é indispensável à contenção dos atentados contra a humanidade."
          Vejam os leitores que meu encontro com os tais ensaios foi absolutamente fortuito. (Na verdade não foi tão fortuito assim. O encontro do artigo do senhor Bortolotti foi um "acaso proposital", por assim dizer. Procuro ler-lhe os descalabros sempre que posso, e ainda bem que esse sempre é quase nunca. Ele é um comunistinha de meia tigela, de modo que me deleito em ler as cretinices que escreve. Seu enrustimento em relação à festiva não resiste a uma busca nos sites de busca. Publica textos em portais comunistas que ainda vociferam contra o imperialismo ianque e oferecem para download as obras completas de Karl Marx, Engels e Lênin. É preciso cada vez mais conhecer o que passa pela cabeça dessa gente. São aparentemente muito inteligentes, mas só aparentemente. É necessário ter atenção a seus argumentos e colocações. Utilizam-se amiúde de evidências anedotais contundentes que podem nocautear o mais desavisado.)
          Assim, a dupla de textos, escrita quase que no mesmo dia, vem bem a calhar numa análise superficial e despretensiosa ante a "teoria" do Robert Kiyosaki. Marcelo Itagiba quer mais segurança, enquanto Plínio Bortolotti quer mais liberdade. 
          Segundo o pai-dos-burros, segurança é o conjunto dos recursos para proteger algo ou alguém, enquanto liberdade é o conjunto dos direitos garantidos ao cidadão, desde que esses direitos não firam os direitos de outrem. De acordo com Itagiba, não há no Brasil uma lei que diga que é crime a preparação de um ato terrorista. Tal lei, uma vez no Código Penal, permitiria ao Estado abortar, ou evitar, ou prevenir a consecução de assassinatos resultantes de atos terroristas. (Atos terroristas não visam a destruição de patrimônio público ou privado. A pluralidade de vítimas fatais é seu principal objetivo.) 
          Óbvio é – não parece tão óbvio assim ao senhor Plínio Bortolotti – que a existência de tal lei permitiria aos agentes do Estado investigar e apurar suspeitos de envolvimento em atividades criminosas. Óbvio é, também – o óbvio para o senhor Plínio Bortolotti é uma nuvem densa, negra é impenetrável – que o trabalho de investigação de suspeitos requeira, por parte dos agentes do Estado, a solicitação de autorização ao Poder Judiciário para bisbilhotar a vida desses indivíduos. Os agentes apresentam ao Juiz indícios que tornam tais elementos suspeitos e este autoriza a que se façam todos os levantamentos e avaliações com o objetivo de provar a sua culpa. Esses procedimentos são levamos a cabo porque fazem parte do "conjunto de recursos para proteger alguém" uma vez que há indivíduos cuja liberdade está a tramar na intenção de ferir o direito de outro alguém. No momento em que se detecta que a liberdade de uns trama contra o direito ou a segurança de outros, essa liberdade deve ser vigiada ou reduzida.
          A preocupação do senhor Bortolotti se explica facilmente. As esquerdas não são simpáticas às leis. Sabe-se que a lei existe para proteger um bem jurídico e que o bem jurídico é, geralmente, um direito ou um dever. Não faz parte de seu conjunto de bens o direito à vida, por exemplo. Assim, as leis produzidas em regimes de esquerda não são eficazes na proteção do direito à vida. Para as esquerdas, os fins justificam os meios. A matança é, para elas, algo corriqueiro e que faz parte de seus processos. Por isso elas querem ampla e ilimitada liberdade para agir. A elas interessa a insegurança e o caos. Essa é a cartilha que produziram. Eis aí a Venezuela, eis aqui o Brasil, apenas para ficarmos nos exemplos geograficamente mais próximos. O lindo discurso do senhor Plínio Bortolotti não esconde o que sua antipatia à segurança revela: – o ódio ao ser humano, princípio básico da ideologia comunista. Quem não quer a lei que proteja a vida humana, há de odiá-la com todas as forças.

sábado, 14 de novembro de 2015

VIL VIDA VIRTUAL

          Estou ali no hospital e toca o apito no telefone portátil. Era o Zé me “inscrevendo” pela enésima vez em grupo de amigos da rede social mais recente, o whatsapp. Era de tarde, como dizemos por aqui. Deixei-me ficar. Como frisei, já me empurraram goela abaixo o referido grupo pelo menos meia dúzia de vezes e pelo menos meia dúzia de vezes expulsei-me a mim mesmo dele.
          Parece que são mais de setenta pessoas no tal grupo. Dali a pouco começa, como uma chuva de meteoros (jamais vi ou estive em meio a uma chuva de meteoros), um troca-troca de mensagens sobre vários temas, vários “assuntos”. Iam e vinham fotografias, charges, desenhos, anedotas, dizeres, frases famosas de famosos autores ou personalidades; orações, convocações, pessoas agendando entre si encontros de negócios, gente agradecendo favores, fotografias do Papa, desejos de boa semana, de boa tarde, de boa noite...
          O diabo é que foi-se há muito o tempo em que eu queria aparecer. Falando a verdade e sendo bem honesto, não me lembra o tal tempo e concluo sem demora que para mim jamais houve tal tempo. Dirão que não sou tímido, que nunca o fui, e será verdade. Mas não ser tímido não significa ser enxerido, ou exibido. Ora, se em mais jovem não sentia a necessidade, não seria agora. Todos sabem, a juventude é viçosa, as carnes são rijas, a pele é lisa exceto pelos comedões, as acnes, sem esquecer os furúnculos das estafilococcias; os cabelos são fartos e, mesmo que sejam “ruins”, a acomia e a calvície estão longe de preocupar o mancebo cuja testosterona poreja no suor durante as peladas em terrenos baldios (Hoje não há mais o terreno baldio e, se houver algum como remanescente, prudente é evitá-lo – os amores-de-burro deram lugar ao criminoso sem idade.) O desejo de aparecer, de ser visto e notado é, então, a grande tentação do jovem.
          Hoje, com o advento da rede social, aparecer não é uma opção – é a regra. E não somente o jovem; mesmo o homem e a mulher de meia idade querem, precisam, anelam aparecer. Para ser franco, mesmo as pessoas de idade mais avançada já se permitem incursões frequentes nas redes sociais. Assim, nas redes sociais há que se aparecer, sob pena do esquecimento e da morte em vida.
          Estava a falar de mim e volto a falar de mim. É quase um mea culpa. Dito assim, parece que se tem culpa de estar na rede social, contribuindo com sua liquidez de temas. Mas explico. Há, de fato, culpa por se estar na rede social. Vejam o meu caso. Logo que comecei a participar dessas salas virtuais – diz o meu amigo Siqueira que a rede social é a calçada de antigamente –, imaginei para mim uma China inteira de amigos e de leitores. Esses amigos leriam meus textos e me aplaudiriam de pé; os elogios a meus escritos viriam de todos os lados e até de outros países distantes; teria entre meus amigos pessoas que não conhecia pessoalmente, mas que em pouco tempo dividiriam comigo concordâncias e discordâncias pacíficas; enfim, abria-se para todos um leque de possibilidades inimagináveis até então.
          Nada é mais pedagógico do que a experiência. Não demorou e descobri que havia, nessas salas virtuais, um ódio contido somente pelo silêncio de uns poucos sábios. Na maioria das vezes estava lá a querela, o insulto, o rude diálogo entre desconhecidos que já se manifestavam abertamente ao ataque. Com mais um pouco percebi que aquela China de “amigos” era consequência não de um amor fraternal, mas da coletiva necessidade de uma associação doentia, uma espécie de efeito manada onde o não participante era levado a se sentir excluído de algo que seria, a princípio, importante. Foi quando comecei a perceber a grande tristeza do homem ativo na rede social, do homem “tecnológico”, do homem “antenado”, do homem “popular” – a perda da intimidade de seus pensamentos, de suas ideias e de si mesmo. Nem falo da intimidade familiar e da vida social – sim!, mesmo na vida social há que se ter a privacidade preservada e salvaguardada dos olhares sequiosos da malta desconhecida. A intimidade, aquele tranquilo e aconchegante lugar onde se está consigo mesmo, na paz das diárias, palpitantes e invioláveis reflexões pessoais que se dividem somente com as mais cúmplices pessoas de nossa fugaz e exígua existência, deixou de ser visitada, deixou de existir; dela esqueceram-se, senão todos, a maioria de nós.
          Não se agastem comigo os amados amigos da virtualidade atual, os mesmos amigos de uma realidade passada, um tempo de fantasias e sonhos onde a vida transpirava uma eternidade bem possível e singela, em que a crueldade do mundo já sutilmente se apresenta em pequenos futuros maus caracteres e nas tragédias diuturnas da vida humana. Peço que entendam a minha necessidade de meu silêncio interior, lugar onde escuto o sussurrar de minha essência e, talvez, a voz de Deus. Mesmo um silencioso whatsapp grita em demasia quanto mais tenha dizeres, fotografias, desenhos, quotes, curtas-metragens, opiniões, filminhos eróticos, saudações sinceras, desejos de boas festas ou de feliz aniversário, links, novas da crise e das negociatas brasilienses, orações fervorosas, anedotas espirituosas e o que quer objetive nos aproximar. Tudo é muito bom, dizem. Pois lhes digo que nem tanto, nem tanto... 
          A ideia de que o ser humano precisa de mais e mais informações é nefasta. Elas me agridem, me afastam de mim mesmo e de quem amo. Não preciso de mais informações – preciso, sim, viver. Estamos melhor na memória dos fraternos amigos do passado do que em sua virtualidade atual. O desejo de aparecer tornou-se a necessidade imperiosa da reserva e do comedimento. O gozo da intimidade é sublime, ao passo que a autoexposição só causa remorso e arrependimento por nos conduzir pelo caminho da intemperança e da verborreia inconsequente.         

sábado, 7 de novembro de 2015

ZÉ - A VISITA

Hoje fui ver o Zé. Não tens ideia de quão mais moribundo está. As enfermeiras lhe tinham uma deferência especial, pude perceber. Elas o tratam e à pobre mulher como deuses em pousada. Sua piedade e calor humano fazem bem. Alguém dirá que nem tudo está perdido, mas o Zé está quase irreconhecível. O emagrecimento, os edemas, os líquidos que lhe saem, a respiração dificultosa e o coração forte a lhe balançar o corpo são sinais nítidos da deterioração da morte. Já nem digo da vida, que aquilo não é vida. Perguntei à mulher por que ele não lia um pouco. Ela respondeu que ele não tinha interesse, e pôs a culpa nos óculos. Ele não conseguia pôr os óculos. Precisava deles para ler.
Óbvio é que não é nada disso. Seu resquício de vida só lhe permite vegetar. Fomos ensinados a pensar que só vegetam aqueles vítimas de dano ao cérebro, mas isso não é verdade. Também vegetam os moribundos “lúcidos” do câncer. Pouco falam, pouco pensam, talvez nem de nada se lembrem. Não choram. Sabem que estão às portas da morte, mas não choram. Chico o pusera a par da gravidade de seu caso. Não falou em “morte”, mas ele seguramente entendera. Ao contrário dos familiares, que entram e saem com fungados e rezas como se o moribundo já fosse defunto, não chora nem dá a mínima.
Em todo caso, hoje me pareceu melhor que em dia anterior. Ao chegar ele estava sentado à beira do leito após o banho. Cumprimentou-me com sua voz gutural e pouco compreensível, para em seguida deitar-se com acessos de tosse. As enfermeiras procuravam uma veia. Seus braços infiltrados não ofereciam veias fáceis. Ofereci-me a dissecar uma, mas ele não quis. Estava com um cateter no pescoço que o anestesista pusera. Quis que o ajudasse a subir mais à cabeceira e o puxei pelas axilas por detrás do leito. Ele agradeceu. Saí um pouco a atender ao telefone. Ao retornar as luzes estavam apagadas e ele dormia tranquilamente. Despedi-me da mulher e parti.
Lá fora, na rua, os bandidos haviam me arrombado o carro e levado coisas de mais ou menos valor. Esse seria mais um furto de que fora vítima. Iniciava-se em mim um processo de ira, quando me lembrei do Zé. Eu não tenho problema algum. Ele tem um muito sério: está para perder a vida. Um enorme vazio tomou conta de mim.

Fernando Cavalcanti, 03.01.2006

ZÉ - O DIAGNÓSTICO

Conheces o Chico, meu compadre e amigo. É como um irmão, desses que a gente escolhe do meio do mundo, do meio da vida. Sua família é grande, muitos irmãos, e sobrinhos, e primos, e é tanta gente que nem dá pra contar. Desses, o Zé é o irmão que lhe é mais chegado. E através e por causa do Chico ficamos amigos. Transfere-se a amizade quando as almas são irmãs.
Não fosse um torcer pelo Flamengo e o outro pelo Vasco seriam em tudo parecidos e unidos como unha e carne. São, antes de tudo, amigos figadais. Zé, um guerreiro incansável, estava, nesse momento, reiniciando projetos há tempos abandonados e agora retomados; era como se nova vida recomeçasse para ele. De seus parcos quarenta e poucos anos ainda tinha os ímpetos próprios dos adolescentes e sonhadores. Era um obstinado, eis a verdade sobre o Zé. Era um obstinado por viver, pela vida.
Ah, uma nova vida!... A vida nos assalta, nos emociona, nos engravida de esperanças e expectativas a todo instante. E nós, grávidos, pesados, cheios das varizes e estrias das grávidas, aguardamos o descanso, o parto, o clímax. A gravidez das esperanças da vida é interminável, e o parto não raro resulta em feto morto. E vivemos nosso dia a dia como eternos grávidos das expectativas e esperanças, de sonhos pelos quais não trabalhamos, de uma eternidade que teimamos em acreditar. Esquecemos da morte, da escuridão, do fim da vida.
Eis que saio certo dia a tomar umas cervejas com o Chico, e ele me diz: -“Zé tem um derrame pleural hemorrágico.” Foi há menos de um mês, quero crer. Acordamos: -“É tuberculose.” Médicos se tornam leigos tão logo um prognóstico ou possibilidade sombria ronde um de seus amados. Sim, porque médicos têm também os seus amados, que deixam a dormir enquanto atendem friamente os amados de outrem.
Por isso bebemos, para que durante as libações nossos acordos tenham uma real probabilidade de se concretizar quando na sobriedade da vida sabemos serem impossíveis tais desfechos. A bebida nos analgesia das dores dessa gravidez que não tem fim. E acertamos que a doença não lera os livros, os tratados. Os bebês do Zé não seriam natimortos.
Cada um com sua desgraça, com sua dor. É um carcinoma, um câncer; metastático, disseminado. Os médicos Chico e eu são uns tolos; ele mergulhado na centelha de vida que ainda resta do irmão, eu coçando o queixo tentando abortar o feto, meu feto, todos os fetos, na verdade, que cresciam dentro de mim.
Fui, então, ao hospital visitar o Zé, repleto de minha pusilanimidade sadia, tentando parecer que sou algo mais, ou algo menos. Tentando... sei lá! Ele até me pareceu bem, devo confessar. Custava-me acreditar que em seu organismo crescia uma doença mortal, uma sentença, uma desesperança, uma semente da morte plantada por não sei quem ou o quê. Suas lindas filhas, em flor da idade, cobriam-lhe de afeto e amor, talvez sem saber da catástrofe a se aproximar. E eu as atraía a conversar sobre o lugar-comum do dia a dia, da faculdade, dos namorados, das greves. Ah! como somos inábeis diante da morte!
Coincidiu, outro dia, de eu encontrar o cirurgião que lhe fizera as biopses antes de adentrar o quarto do amigo: -“Tem seis meses de vida, no máximo.” Eu me despi ali mesmo do estúpido médico que sou, dentro de mim. Dizem que médico e padre são ofícios de vinte e quatro horas. Parei de ser médico ali, no prognóstico, na sentença, na condenação de meu amigo. Calei. Resignei-me. Acovardei-me. Restava-me ir ao Zé.
Desta vez estava péssimo. A palidez severa e a facies hipocrática denunciavam a gravidade da situação. Caiu de vez a ficha: o Zé podia mesmo morrer. Sou um sujeito de mente alvissareira, mas confesso: tem sido difícil. De um lado a malta unimediana, do outro o amigo moribundo.          

Fernando Cavalcanti, 21.12.2005