quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Tão-somente um meio


         Nada quero de quem quer que seja. De ninguém nada quero. Mesmo de meu mais próximo consangüíneo nada quero. Nada peço que se faça por mim. Tivesse irmão gêmeo, um univitelino, dele nada esperaria, nada quereria. E por que não quero? Porque quero que nada queiram também de mim.
         Mas qual! Seguem querendo, tudo querendo; sirvo-lhes a vários interesses. E em assim querendo, manipulam-me; mesclam sua cobiça ao eventual sentimento que por mim nutram a fim de me amolecer o coração, como se meu coração não  soubesse toda essa artimanha, toda essa astúcia. Atender ao interesses, eis o que conta, eis o que vale.
         Um me quer a pensão perpétua, mesmo  conhecendo onde e como comer, que ameaças evitar, tendo já obtido a força do animal adulto para sobreviverAtrasa-me o cuidado de minha velhice numa demonstração descarada de ganância e falta de zelo. Sem necessidade. Justifica-se em palavras vãs que minha bagagem bem conhece.
         Um outro me quer o amor e o que se resolveconceber no conceito de "fidelidade". Também esse não me quer saber se estou bem, se estou feliz, se me aflijo ou não e, ainda que me afligisse, não pretende me afrouxar as rédeas até que se lhe garanta seu quinhão. Mesmo que para isso me imolasse, e sofresse, e pranteasse, ainda assim não arredaria o pé. E se lhe confessassenum concílio franco, abrindo-lhe minha mais pura e essencial verdade, ainda assim me tentaria manipular, sugerindo-me uma culpa que não tenho, ou em demonstrações perfeitas de sua dor e a mim lha atribuindo.
         Um terceiro cobra mais caro – quer-me o amor que lhe não dei, tendo eu dado. Porquanto só entenda e conceba seu próprio conceito de "amor", nega-me que o que sinto seja amor. Seu conhecimento fragmentado e também inclemente à satisfação de seus desejos e interesses acaba por excluir a mim mesmo desse amor que a mim pretende dar, enquanto julga-me os sentimentos segundo seu próprio entendimento.
         Por que, entãoapós tanta exclusão de mim mesmo daquilo em que se pretendia ser eu prioridadedeveria eu seguir mansamente? o que me impede a revolta em mim mesmo? Devo consentir em que me julguem segundo seus medíocres tribunais? Fartei-me de minha passividade e de minha permissividade. Minha indolência, justificada a princípio no intuito de me não indispor com quem verdadeiramente amo, chegou ao fim; nem diria ao limite, posto que no limite ainda se consinta algo.
         Chegada ao fim minha indolência, exijo a paz, a minha paz; exijo que me deixem, que me abandonem, que não mais me amem e que renunciem à minha companhia em suas medíocres existências. Que pensem em mim doravante como alguém que  desceu à campa, e que jamais verão  novamente. Não permitirei que se obstinem como os filhos que mantêm artificialmente um pai apenas para que através daquele moribundo se lhes chegue o objeto de seu interesse. Morra eu antes, metaforicamente ou de fato. Serei doravante o anacoluto nas frases e fases de suas vidas. Que me esqueçam, que me inumem. E anelo a que também desapareçam de diante de mim!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A vencedora fissura do Mesquita



 
         Ontem fui com o Mesquita ao jogo de futebol. Fui até sua casa pilotando minha motocicleta e de lá zarpamos para a casa de sua sogra. Era o seu aniversário. Depois, pelas 7 e meia da noite, seguimos para o campo.
         Dirá alguém que fica difícil entender como posso jogar futebol se digo detestar futebol. Verdade – detesto futebol.
         Mas, como é do conhecimento geral de meus amigos, detesto o futebol "oficial", esse que ocorre nos estádios mundo afora; esse com equipes vestidas em camisetas coloridas ou não, levando impressas nas mesmas logomarcas de bilionárias empresas; esse que provoca as paixões mais incompreensíveis, desenfreadas e delirantes em mentes brilhantes noutros momentos, como se fosse uma poderosa droga a obnubilar os sentidos e a razão mais primária; esse que toma as televisões  em noites de semanas, nas tardes de sábados e domingos e, às vezes, nas madrugadas frias em qualquer dia; esse em que as negociatas vez ou outra, não raro, movimentam bilhões de dólares e interesses escusos às custas daquela mesma paixão doentia; esse que decide nações e catapulta políticos, e que provoca atos de vandalismos e até agressões e mortes.
         O futebol em si, o jogo, a partida, esse não posso detestar. Outro dia o sujeito, repórter não sei de qual rede, foi entrevistar o Djalma Santos, ex-jogador e craque da seleção brasileira, por duas vezes campeão do mundo. Assisti, emocionado, o falar do Djalma Santos. Velho e humilde em caráter e bens, vendo-o não se advinharia quem é, quem foi. E foi um gigante do futebol, considerado o maior lateral direito de todos os tempos. Desde pequeno bronquítico, nunca lhe pediram enquanto atleta que tivesse um surto de tosse ou dispnéia durante uma partida ou antes dela. Sua bronquite durante o jogo era esquecida, não existia, simplesmente não existia; nunca dela se serviram a algum indecente estratagema.
         E o que dizer de Garrincha, o Mané? Jogava por prazer, por brincadeira, por diversão. Para ele toda partida de futebol, mesmo as "oficiais", era uma pelada, um racha. E, nos fins de semana, voltava à sua terra natal para jogar nos terrenos baldios e campos de várzea que "empestavam" o lugar ao lado dos humildes conterrâneos que nele viam apenas e tão-somente o Mané das pernas tortas e craque de bola. Quando foi embora achou-se, anos depois, debaixo do colchão da cama onde dormia com sua primeira mulher, Nair, uma dinheirama que nada mais valia, "bicho" ganho como atleta "profissional". O diabo foi a cachacinha que conheceu cedo e dela nunca mais largou. Morreu jovem, pobre e esquecido.
         E assim como esses dois monstros sagrados, o antigo futebol está repleto de craques que eram apenas isso: – craques. Eles jogavam o futebol do qual gosto, o futebol que encantou e ainda encanta, o futebol enxuto e destituído das sordidezes que contaminam o atual.
         Outro dia desses, acho que ontem ou antes de ontem, o jornal mostrou: – o sujeito vinha em seu carro e, de repente, abre-se-lhe o chão, o asfalto, e cai ele com o carro no enorme e súbito buraco. A fotografia da cena mostrava o pneu dianteiro esquerdo do veículo dentro da fresquíssima cova. O proprietário há de ter tido lá um prejuízo com a quebra de uma ou outra peça, mas se presume que seja também possível que algum ocupante do automóvel tenha sofrido algum ferimento. Afinal, uma desaceleração súbita, diz-nos a primeira lei de Sir Issac Newton, pode ocasionar sérios ferimentos em tecidos vivos. Agora, imaginem os queridos leitores o que poderia ocorrer caso o veículo fosse uma motocicleta ou mesmo uma bicicleta. A depender da velocidade, um sério acidente seria bem provável. Pelo sim, pelo não, resolvi deixar a motocicleta na garagem do Mesquita. Se em pleno centro da cidade – o acidente foi no centro – abre-se um buraco, o que poderia abrir-se em regiões mais periféricas, onde se localiza o campo de futebol? Lá me aventuro muitíssimo raramente, quase nunca, em meu veículo de duas rodas.
          Mais ainda que os buracos da cidade, antigos ou recentes, há também em quantidade as irregularidades dos campos de futebol onde jogamos nossas inocentes peladas. O campo de ontem era, neste quesito, praticamente perfeito. Era uma planície só, onde a bola tinha tudo pra rolar sem saltos ou topadas. Pudera. Era o gramado sintético, estendido sobre um chão cuidadosamente aplainado, sem desculpas para os mais incautos jogadores. E devo confessar: – quase todos eram uns garotos de máximo 30 anos. Os mais velhos eram o Mesquita, o Arlan, o Bacana e eu, todos na faixa dos 50. E o que se viu foi um passeio de culotes e barrigas frouxas... dos jovens. Mais: se não todos, quase todos usavam uma gravata vermelha que, logo percebi, não se tratava de gravata nenhuma– era a língua deles pendendo de suas bocas.
         O detalhe cômico foi o seguinte. Mesquita ainda estava combalido da endoscopia a que se submetera três ou quatro dias antes. Para limpar-lhe o intestino prescreveram-lhe laxantes e desidratantes dos mais fortes que se possa imaginar. Nem isso o fez render menos diante daqueles jovens, cujos abaulados ventres cheios de gordura e gases odoríferos os tornavam os verdadeiros idosos da pelada. Mesquita correu mais que todos eles juntos. Sem falar na fissura que lhe diagnosticaram à borda do orifício, coisa de gente tensa e por demais preocupada com questiúnculas. Fissura orificial é coisa assaz dolorosa, mas o Mesquita estoicamente dela esqueceu-se e até marcou um gol, que ofereceu, pasmem!, como homenagem à maldita fissura. Prometeu dela dar cabo em poucos dias.
        Assim, os cinqüentões demos um baile nos garotos barrigudos e engravatados. Nosso único ponto fraco era a fissura do Mesquita, para a qual já lhe prescrevemos semicúpios e laxantes mais suaves. Sua desidratação parecia resolvida e não se mostrou um problema. A conclusão a que se chega é que campo esburacado pode até se tornar boa desculpa para o mau jogador, mas o campo perfeito é o que mais expõe a juventude despreparada e precocemente "embarrigada".
         Devia ter aceito a saladinha que me ofereceram no aniversário da sogra do Mesquita. Com ela na barriga ainda daria uns quebras na negrada.

sábado, 22 de setembro de 2012

Um a menos a se queixar

         Eis que estou em pleno horário do ócio e me bate o telefone. Era o meu querido Bacana.
          Não sei se o conhecem. Se não, vos apresento o Bacana. Ele nasceu nove dias depois de mim, quando corria o ano de 1961. Encontramo-nos na vida, pouco depois, no colégio marista. Era o "primário", primeiro ou segundo ano. Somos amigos há mais de 40 anos, portanto. 
          Houve o seguinte: suas irmãs foram assaltadas defronte a própria casa, e lhes levaram o carro. Desde o momento do infortúnio, que resultou apenas em prejuízo material, ele corre atrás de autoridades e instituições a fim de buscar seus direitos de cidadão que o Estado diz garantir.
          Disse-me ele, quase aos berros: -"Estamos perdidos! Estamos perdidos!" Provou-me por A+B que os tais direitos são uma farsa, um faz-de-conta. Lembrei-lhe o que vivo a dizer e escrever: este é o país do faz-de-conta. Não funcionam as instituições nem têm autoridade as autoridades. Tão incompetentes são uns e outros que punem e dificultam com facilidade a vida do cidadão honesto, trabalhador e pagador de impostos, mas não punem nem dificultam a vida dos bandidos, corruptos e marginais. Seu aparelhamento só os permite alcançar aqueles posto que facilmente localizáveis; estes se beneficiam e deitam e rolam às barbas de todos.
          Contou-me ele que acionaram, logo após a ação dos bandidos, o policiamento dos bairros que, no Ceará, chama-se "ronda do quarteirão". Todos no estado o conhecem, e conhecem também as viaturas caríssimas que o governo adquiriu à polícia para servir à atividade de fazer a "ronda do quarteirão". O "ronda" – abreviemos que o entendimento já se fez – tem a missão de promover o policiamento preventivo e ostensivo nos bairros. É o que parece. Segundo consta, seus policiais são orientados a não sair à cata dos bandidos. 
          Disse-me o Bacana que os homens do "ronda" chegaram quase meia hora depois do chamado. Os facínoras já iam bem à frente. Nem valia a pena sair-lhes no encalço. As chances de achá-los e pegá-los já minguava. 
          Fiquemos aqui para tranqüilizar as pessoas, as vítimas. Tem um cafezinho aí? Com um pãozinho amanteigado ia bem. Se não, um suco, um chá, qualquer coisa para molhar a goela e a língua que a canícula está de rachar a cachimônia. Os policiais do ronda apreciam os agrados culinários. Sem eles... sei, não!
          Mas as viaturas não têm condicionador de ar? Ah, têm, sim!... Mas é que a gente passa muito tempo na rua e a sede é uma constante apesar dele. 
          Gostamos também de namorar. Sabe-se que algumas mocinhas adoram fardas, e encantam- se facilmente à visão de um latagão vestido em trajes de guerreiro. A patente aos ombros pouco importa. Mesmo um soldado raso tem o seu it. "Rondar" próximo a estabelecimentos comerciais é ainda melhor, em que pese o maior risco de ações violentas como assaltos e outros bichos semelhantes, mas é dos tais comércios que nos saem mais freqüentemente os lanchinhos que tanto apreciamos. Isso sem falar nas vendedoras de lojas e farmácias. Vez ou outra uma olhadela, um piscar de olho, uma insinuação num leve movimento de um músculo ao canto da boca já é o suficiente a que entendamos que mais tarde haverá o encontro. 
          E não gostamos de ronda próxima a bancos. Nada têm eles que nos agrade. De fato, têm tudo o que nos desagrada, a começar pela ameaça que representam à nossa tranqüilidade. Preferimos ficar longe deles. Quando muito, uma passadinha à frente deles apenas para "enganar a torcida", e damos o fora o mais rápido possível. Não queremos ser alvos de atiradores. Hoje a coisa está pela hora da morte – os bandidos não respeitam nem policial! Um absurdo! Quando se vai dar um jeito nisso? 
          Quando da próxima greve, em janeiro próximo, acho que ao dia 3, exigiremos um serviço mais leve, mais proteção para o pobre e desguarnecido policial, que as autoridades e as instituições nos apóiem e nos mostrem apreço e consideração. Onde já se viu? Exigir que o sujeito arrisque a vida por uma titica de nada...! 
          E tem mais. Nem sei por que cargas d'água nos dão essas armas ao coldre, se não podemos usá-las. Sim, porque, não sei se sabem, mas se atiramos n'algum bandido estaremos sujeitos a todo o tipo de inquérito e corregedoria. É bem verdade que às vezes matamos gente inocente, mas isso será o ônus que a sociedade paga para ter segurança. Nossas vítimas inocentes podem até ser inocentes, mas a princípio pareciam ser facínoras bem treinados. Lembram o garoto de catorze anos, o Bruce Cristian, morto por nosso glorioso companheiro, o policial Yuri Silveira, quando trafegava sentado à garupa da motocicleta de seu pai? Era, de fato, uma criança, mas não sei onde vão parar esses meninos de hoje – aos catorze já tomam corpo de adultos. Aos catorze já aparentam ser bandidos. E se forem pobres mais ainda. 
          A vida de policial, como bem se vê, não está fácil. Se bem que o governo deu uma colher de chá para nós, com essas Hylux que custam igual a um apartamento. Nosso conforto aumentou um pouco, não mais que o conforto dos proprietários das empresas que venderam essa ruma de carros. Devem ter ganho uma nota preta com esse negócio. Mas o que se há de fazer? Ficou todo mundo satisfeito com o novo visual da polícia, e isso é o que importa. 
          Nós do ronda somos diferentes; não gostamos de truculência. Somos a elite da força. Nossos companheiros do batalhão de choque e o pessoal do "Raio" são os especialistas da pancadaria e da artilharia. Esses bandidos aí que roubaram o carro da senhora sua mãe, "seu" Bacana, deveriam ser perseguidos por esse pessoal. Nós somos o pessoal da conversa, da conciliação, da fachada. Não nos sujamos fácil, só quando não houver outro jeito. Enfim, o senhor vai ter de ir no distrito falar com o delegado que ele manda o escrivão lavrar o seu Boletim de Ocorrência, o BO, já ouviu falar? De posse dele o senhor aciona o seguro, prova que foi roubado e um monte de coisas mais, mas só isso. 
          O senhor já sabe, né? No Brasil a gente não abre inquérito para esse tipo de crime, não. Às vezes, nem de homicídio é possível abrir. Sabe como é, não temos pessoal para isso. Com o BO o senhor faz tudo, menos prender os larápios. Quem sabe um dia eles pisam na bola e a gente os pega noutro crime?... Com um pouco de sorte tudo se resolve, mais cedo ou mais tarde. É rezar para a coisa ser no flagra.
          Bacana já entrava a falar da dificuldade em abrir uma conta no banco. Empresário registrado no conselho da categoria, o funcionário da banco oficial não aceitou como comprovante de seu endereço o documento do conselho. Tinha de voltar outro dia com uma conta de água ou energia elétrica. 
          Interrompi a conversa abruptamente. Receava que o amigo sofresse um colapso ou uma apoplexia. Os leitos de UTI dos hospitais da rede privada e pública da cidade estão lotados. Ele morreria à mingua. Não queria perder o amigo. Quem gostaria que morresse era o governo – um a menos a se queixar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

"É mais contundente"

          Precisava desesperadamente de um cúmplice, de um companheiro de indignação em minha solitária dedignação. Olhava em volta e nada. Aqueles que se haviam mostrado, até então, sempre "aguerridos" ou se omitiam ou aparentemente se contentavam com o encaminhamento que o Superior Tribunal Federal tem dado ao julgamento dos réus do mensalão. Um deles escreveu na rede social: "Graças ao trabalho corajoso do procurador Roberto Gurgel, etc. etc. etc." E isso tendo eu postado em sua página o esclarecedor artigo do senhor Manoel Pastana, Procurador da República (http://www.manoelpastana.com.br/index.php/noticias/511-mensalao-o-que-poucos-sabem-e-o-brasil-deveria-saber.html).
          Embora tenha explicitado sua crença e anelo pela prisão do criminoso-mor, o encômio ao procurador Roberto Gurgel sugere que o amigo da rede social ainda ignora o texto do senhor Pastana; ou está apenas investindo em autopromoção e desprezando a suprema verdade. Seria um simulado agastamento, por assim dizer. 

          Prosseguia eu em minha solitária revolta quando resolvi enviar, eu mesmo, uma mensagem pessoal ao respeitável Procurador, o senhor Manoel Pastana. Queria dizer-lhe de minha admiração, de meu sentimento de humílimo respeito e reconhecimento por sua exuberante coragem. Sem muita vênia escrevi-lhe: "Parabenizo-o pela coragem, contundência e lucidez do artigo. Tornei-me fã. Tomei a liberdade de espalhá-lo na rede social. Forte abraço." E subscrevi-me. Imaginava se alguém mais teria tido a cachimônia da mesma atitude, e temia que houvesse uma massa crítica oculta de tácitos indignados. Massas críticas nem chegam a ser críticas se não se aglomeram em torno de si. Essa é uma dúvida que ainda persiste em mim.

          Não tardou mais de 24 horas e recebo a resposta do ilustre zeloso das leis de seu país. Disse-me em correspondência pessoal: "Prezado Fernando, obrigado pela mensagem. Grande abraço,

Manoel Pastana. (PS estou escrevendo outro artigo que deve ser publicado na semana que vem. É mais contundente.)" Concluí, então, e sem a menor sombra de dúvida, que estava diante do homem mais corajoso a respirar dentro deste vasto território de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. A pergunta que me fazia era precisamente a seguinte: pode haver algo ainda mais contundente e estarrecedor a ser revelado por este nobilíssimo e raro brasileiro, conhecedor das chagas e tumores da república? Se há, o que há de ser? 
          Em minha espessa ignorância supunha a ignorância alheia, a de tantos e tantos e tantos concidadãos perdidos em meio à avalanche de informações de origem as mais diversas, ansiosos e angustiados por não saber onde, afinal, estaria a verdade. Supunha também, e inevitavelmente, que um homem que luta a face exposta e olho no olho de seus poderosos e inescrupulosos adversários não deve estar a anunciar lorotas, inda mais tendo dito, no que me pareceu sua mais sublime manifestação de consciência da necessidade de cumprir uma missão perigosa e imperiosa, e, em que pese tal responsabilidade, de tranqüilidade em seu coração: "Nada inventei; tenho prova de tudo que afirmo."  
           Não sei se me regozijo ou se me entristeço com o que está por vir da pena do senhor Procurador. Penso que devo me regozijar e me entristecer ao mesmo tempo, como me sucedeu à leitura de seu primeiro artigo. Afinal, a verdade verdadeira está a brilhar, iluminando tantas consciências dela sedentas. Quem sabe daí nasça aquele gigantesco corpo de indignação que cresça Brasil afora e adentro, "contaminando" o bom brasileiro e promovendo a revolução de nossa consciência e de nossa moral? ultrajando nossa civilidade e nos revoltando a não mais se poder conter? Oxalá! 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A morte do Brasil

          Estamos mortos. 
          Lembro, na faculdade de medicina, um de meus mestres a dizer, mais ou menos textualmente, como é difícil o diagnóstico da morte. Em  hipotérmicos mais ainda. Para esses há o sugestivo anexim: você não está morto até que esteja quente e morto.
          Será que tanta frialdade nos congelou os corações e mentes? Se assim sucedeu, há, segundo o rifão acima, esperança para nós. Com efeito, se não for a frieza, estaremos mesmo mortos.
          Li, reli, re-reli, tresli. Foi o texto do Procurador Geral da República Manoel Pastana. Diz ele ao fim de tudo o que afirma: "Concluo este artigo dizendo que não inventei nada; tenho prova de tudo que afirmo". E o que afirma este senhor em seu sítio virtual na rede mundial de computadores, para quem o quiser ler (http://www.manoelpastana.com.br/), e no artigo "Mensalão: o que poucos sabem, e o Brasil deveria saber" (http://www.manoelpastana.com.br/index.php/noticias/511-mensalao-o-que-poucos-sabem-e-o-brasil-deveria-saber.html)? Diz que o Ministério Público Federal está corroído por uma súcia de procuradores, os tuiuiús. Esses tuiuiús são um grupo de procuradores "afinados" com o PT (partido dos trabalhadores), sendo dois deles os senhores Antônio Fernando e Roberto Gurgel, autores da denúncia do mensalão.  
          Que fizeram eles, os tuiuiús? Nas palavras de Manoel Pastana, "transformaram a cúpula do MPF (ministério público federal) em propriedade particular". E mais: "Comportam-se como se fossem serenos, equilibrados, justos. Na verdade, praticam verdadeiras atrocidades, seja perseguindo, seja favorecendo". Especificamente, os procuradores citados transformaram o processo do mensalão numa peça jurídica bufa com o objetivo de livrar a cara do ex-presidente Lula, dentre outras, como diz o próprio procurador, "atrocidades". 
          O senhor Manoel Pastana dá nome a todos os bois e expõe de forma clara e inconfundível os fatos e seus protagonistas. Não há meias palavras, insinuações ou tergiversações. Aqueles procuradores conseguiram evitar que as provas contundentes e cabais que condenariam Lula viessem à luz do processo e lançaram as acusações contra o senhor José Dirceu, contra quem não existe nenhuma prova. Uma trama inteligente e engenhosa, só possível de ser urdida em mentes afinadas com o maligno, com o crime e o criminoso. 
          Ora, a pergunta que me fazia era a seguinte: que diabos é esse ministério público federal e pra que ele serve mesmo? Encontrei o seguinte na Wikipédia: "O Ministério Público (MP) é uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (art.127, CF/88)". Quem se der o trabalho de ler o excelente, contundente e corajoso artigo do senhor Manoel Pastana verá que ele afirma várias vezes que os procuradores "tuiuiús" agiram em desacordo com a ordem jurídica. Se os procuradores são os magistrados do MP e este tem como função fundamental defender a ordem jurídica, como e onde pensamos estar ao vislumbrar este desolador cenário? 
          Mas não seria por esta razão que estaríamos mortos, como afirmei ao início. O sintoma de ausência de vida em nossa sociedade e em nossa nação (?) é a ausência de um gigantesco corpo de indignação. Não me refiro a indignações isoladas, espasmódicas, de um ou outro indivíduo. Se li, reli, tresli e re-reli o artigo do senhor Procurador da República é porque não acreditava no que lia. Simplesmente não acreditava. E não acreditava na enorme coragem deste senhor ao expor com tanto esmero e zelo os escabrosos fatos que estão a ocorrer há anos nas entranhas do poder, antes apenas suspeitados, apenas aventados no rol das coisas malcheirosas e fumacentas, que adquirem defensores loquazes e inteligentes a tentar nos fazer duvidar de que pode haver fumaça sem fogo ou haver mau cheiro sem putrefação. 
          Fui à imprensa. Nenhuma palavra. Nada. 
          Fui à rede social. Somente as contumazes sordidezes e superficialidades bestificantes. Nada havia. Nenhum pio. De ninguém. 
          Voltei ao texto, que já me começava a parecer uma peça alucinatória como uma dessas drogas que nos afetam a memória ao dia seguinte. Não havia jeito, era aquilo mesmo; e foi só então que percebi tudo. A nação está morta, estamos mortos enquanto nação; enquanto corpo e espírito únicos, enquanto partes independentes e coesas cujo coração bate n'algum lugar indefinido mas real, não existimos. Estamos apenas geograficamente próximos, nada além disso. O que me parecia uma bomba que arrasaria e humilharia nossa moral e auto-estima levando-nos a urros e caras-pintadas nas ruas gritando palavras de ordem, parecia agora uma que explodira há muito aniquilando nossa vida cívica. 
          Mas há pior. Postado o artigo à rede social, um ou outro arroubo, um ou outro queixo caído, uma ou outra fasciculação; outras poucas pretensas indignações provisórias e inconseqüentes. Eis aí tudo. Que será de nós, pobres de nós e de nossos pobres?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Arcaísmo incoercível

          Duas manchetes do jornal Diário do Nordeste de hoje, "Estradas Abandonadas" e "Defasagem do Imposto de Renda é Ruim à Classe Média", e uma outra manchete do mesmo jornal do dia 02.09.2012, "Fortaleza Cresce Mais Que a Arrecadação das Receitas Públicas", nos dão, por assim dizer, uma visão perspectiva do cenário infra-estrutural brasileiro e do quanto se está a discutir miolo de pote. O vil metal, quer nos agrade ou não, está na raiz de todos os nossos problemas estruturais. Nossas esquerdas, cujo maior feito é a auto-promoção, pioraram o quadro imposto pelos gananciosos da direita ao facilitar ainda mais, em escala nacional e local onde quer que teime em governar, por se mostrarem ainda mais gananciosas e adoradoras do poder e do vil metal, e mais relapsas com a infra-estrutura do país. 

          A primeira manchete de hoje dá conta do já tão conhecido abandono e descaso com que o governo federal administra a malha rodoviária nacional sob sua responsabilidade. As estradas federais estão em petição de miséria e em alguns trechos nem há mais estrada – a piçarra e o barro substituíram o asfalto lá antes posto por governos anteriores, acho que, quer se goste ou não, pelos governos militares. É sabido que tal desprezo vem desde o final dos anos '80 e ficou já evidente no primeiro governo do senhor Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, o problema é apenas a fase final e indissimulável do que vem ocorrendo há mais de duas décadas. 
          A segunda manchete vem nos informar que principalmente a classe média está pagando 44% a mais de imposto de renda comparando-se o período que vai de 1998 a 2012. O caso é que houve correção da tabela do imposto nesse período, mas essa não foi de acordo com a inflação. Assim, o governo vem arrecadando cada vez mais, o que também não chega a ser nenhuma novidade, já que a imprensa vem anunciando crescentes superávites no caixa do governo. Sabe-se também que Brasília retém 60% de tudo o que se arrecada no país, ficando o restante para estados e municípios.  Ora, se o governo central fica com a maior parte, conclui-se, dentre outras coisas, que o governo é mesmo central e centralizador. Isso sem falar que não conserta as estradas sob sua responsabilidade ou porque não quer ou porque o dinheiro não dá. A essas alturas do campeonato dizer que o governo não tem dinheiro seria até um insulto aos três meses que o brasileiro trabalha só para lhe fornir o caixa. Então, há de ser mesmo por falta de vontade ou outra razão que no momento não atino.
          E é justamente aí que entra a nossa Fortaleza da manchete de dois dias atrás, que cresce mais do que seu orçamento é capaz de "manter". Em oncologia, o ramo da medicina que estuda os cânceres, sabe-se que há tumores malignos que crescem tão rapidamente que seu suprimento sangüíneo se torna insuficiente; ele, ou parte dele, sofre então uma necrose, uma gangrena. Seria uma espécie de "colapso" do tumor por falta de oxigênio e nutrientes para suas células. A analogia é bem apropriada a propósito do que estamos a reservar para nossos filhos e netos numa janela de tempo não muito distante, nesta decadente cidade.
          Agora arrematemos a paródia que o pobre e açodado leitor já cansa de impaciência. 
          Os municípios arrecadam diretamente parte do bolo dos impostos, mas é sempre pouco, muito  pouco. Brasília e os estados os têm na mão. São eternos pedintes daqueles. E não somente isso. Além da eterna dependência de recursos, os municípios são "amarrados" em todos os aspectos aos governadores e a Brasília. Isso, obviamente, os torna vulneráveis às barganhas políticas, às negociatas do poder e ao tráfico de pressões e influências de toda sorte. Os dinheiros de Brasília só chegam após um congresso de pedidos e de cessões políticas. As leis dos municípios, a chamada Lei Orgânica, estão sujeitas à promulgação prévia da constituição estadual que, por sua vez, está sujeita à promulgação prévia da constituição federal.  Elas, essas "constituições", existem a encher papel e lingüiça, já que de autonomia nada têm e nada os municípios podem fazer sem Brasília e sem os governadores dos estados a que pertencem. Há quem ainda pense que somos uma federação, quando, de fato, somos um grande feudo onde tudo e todos respondem e se submetem ao governo central, com raríssimas e honrosas exceções. Não admira que a esmagadora maioria dos municípios não tenha dinheiro. Não têm arrecadação própria. Dependem dos outros.