terça-feira, 28 de outubro de 2014

OS APAIXONADOS DE OUTUBRO

         Deixemos para o tempo a demonstração daquilo que o presente insiste em esconder. Óbvio é que, muita vez, mesmo o tempo não ensina nem expõe, não por ser ele incapaz, mas por fato de algumas cegueiras serem persistentes e obstinadas.
         Se o tempo tem lá suas deficiências, há que se imputar também aos apaixonados muito de sua insensibilidade e indolência. Quem já esteve apaixonado e um dia se livrou da química de uma paixão feroz, sabe muito bem sob tais e quais efeitos sofreu. De fato, o que quase sempre se lhe segue é a vergonha, quando, e somente quando, abrem-se os olhos de sua vítima.
         É fácil constatar que existem muitos cujo veneno da paixão é inacabável. Nem para todos se esvai o estado de libação, de modo que jamais experimentarão o embaraço de se perceber um tolo. Como numa ressaca do ex-alcoolizado, cujo comportamento inadequado lhe custa muita reprovação, o que acorda dos efeitos da paixão comumente esconde a face daqueles a quem se expôs.
         Somente os corajosos assumem publicamente seu engano, depois de passado o lapso que lhe serve de evidência, quando os acontecimentos rumam para a demonstração do que é fato e do que é opinião. Há aquele conhecido adágio sobre serem os vencedores aqueles a escrever a história. Será ainda assim em nossos dias? E, mesmo no passado, foi assim? Se o foi, de onde vêm tanto conhecimento e provas que atestam a versão dos perdedores?
         Como exemplo, ainda agora alguns propagam e escrevem sobre a inexistência do holocausto judeu. Seria o caso se perguntar: - de quem serão as ossadas daqueles milhares, talvez milhões, de pessoas sepultas em covas enormes e reveladoras? O que serão aquelas construções cujas tubulações de gás denunciavam a intenção de seus engenheiros junto a alojamentos humanos? E que dizer das fornalhas ardentes próximas às grandes valas a servir de sepulturas indignas? Se não houve o holocausto hebreu, que outro holocausto toda essa evidência evidencia? A versão dos vencidos brada que o holocausto judeu é uma invenção da cabeça dos vencedores. O que, em nome de tudo o que é sagrado, pode a mente humana ainda tramar?
         Voltemos aos apaixonados. Digamos que são uns tolos. São tolos em seu estado de libação, como o bêbado e o drogado o são. E, como eles, os que se enovelam em paixões perigosas estão a um angstrom da violência que caracteriza seu estado; basta que lhes queiram frustrar os anseios ou que, em seu íntimo, estejam a revolta e o rancor pelo impedimento, no passado, de suas fantasias hediondas.
         Não há apaixonado ignorante. Todo apaixonado é inteligente em sua cegueira, um dos efeitos do banho de seu cérebro em mediadores químicos que mais se assemelham a drogas indutoras. Daí o acharmos entre os conceituados, os estudiosos, os religiosos, os magistrados, os docentes, os intelectuais. Por isso parecem - e o são de fato – mais tolos ainda. Não se esperaria tamanha bisonharia de uma plêiade de notáveis e respeitáveis senhores e senhoras.
         Voltemos aos que querem julgar a versão dos vencedores. Presume-se que queiram estar entre os vencidos, ou deles se julguem defensores e guardiães. Daqueles vencidos noutras eras querem o resgate de uma dignidade duvidosa. Por que assim agem e pensam? Têm em seus corações e almas a pureza demonstrada, ou são seus propósitos tão indizíveis que se escandalizam falsamente ante a sua revelação inesperada? Ou será que seu discurso indignado por tamanhas injustiças venha a bem da manipulação das gentes que se enganam e que por eles se apaixonam? As massas humanas tão impessoais e tão injustiçadas, vítimas eternas de seus manipuladores inveterados e recalcitrantes, necessitam, precisam, anseiam seus benfeitores e protetores, a lhes sempre guardar os interesses. 
         E tanto anseiam e tanto esperam. Apaixonados seguem, de modo que sua paixão lhes dá a paciência necessária a mais e mais espera. E aos guardiões dos menos favorecidos, cuja consciência está mais leve, parece ter havido uma enorme mudança na vida de seus protegidos. É preciso apenas um pouco mais de tempo, até que tudo mude verdadeiramente, radicalmente, visceralmente, permanentemente. Esperemos mais um pouco, doze, dezesseis, vinte ou trinta anos. Vejamos, ao cabo, quem contará a história desse tempo – os apaixonados curados ou os então permanentemente apaixonados, a insistir que não houve jamais o holocausto.
         Há ainda um outro tipo – o rebelde. Aos vencedores deram-se todas as chances e oportunidades, e as desperdiçaram obstinadamente. Julgavam-se eternos em sua vitória secular. Venceram ininterruptamente, apenas para abusar de seu talento para explorar. Merecem agora uma derrota, a fim de que os vencidos possam contar um dia a versão que diz de sua incompetência para lutar e, agora sim, contem do holocausto que nunca existiu, que nunca sofreram. Por tudo isso os rebeldes vêm se juntar aos apaixonados e aos guardiões nessa vitória final e esplendorosa da massa de falidos, vítimas de tantos e tantos assassínios. E é assim, famintos de vingança, falidos e doentes, que vencerão essa batalha.  
         Enquanto isso, se esvai a vida.


 Fernando Cavalcanti, 02.09.2010

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

PERIGOSAMENTE FELIZ (Parte II)

          Tendo partido a mulher de volta à sua cidade no interior, nos cafundós do Judas como ele mesmo a ela se referiu, viu-se Amorim mais solitário que a tênia intestinal. Sozinho no cafofo onde morava, uma espécie de loft de décima categoria fincado em bairro periférico e em cujas paredes a mulher escrevera seu nome, não poupando nem mesmo o reservatório de água do vaso sanitário, o amigo sentiu o peso de sua rejeição. Nunca fora um sujeito de autoestima normal. Sendo mais afeito a pensar de si mesmo os piores pensamentos possíveis e a ver a si mesmo no espelho como um indivíduo feio e nada atraente ao sexo oposto, quis morrer. Não que já lhe passasse pela cabeça naquele momento qualquer pensamento sobre se matar, mas a sensação de fracasso somada à de rejeição lhe faziam sentir à boca um gosto ácido e nauseante, como se aquilo fosse o gosto de sua própria vida. Se sua vida pudesse ser pensada como uma iguaria culinária, teria aquele sabor nauseabundo e repugnante. Frustração, derrota, rejeição, dor, tudo se somava para lhe deprimir ao extremo. Não bastasse tudo isso, também não tinha um tostão no bolso. 
          Com a separação da primeira mulher, mãe de seus três filhos, perdera o controle da pequena empresa que fundara. Por ser funcionário público, a lei o impedia de montar negócios e de ser proprietário de empresas. Por isso a empresa fora registrada em nome da mulher. Como ele tivesse sido um canalha abjeto – a esposa o flagrara na cama da secretária do lar, sua atual mulher, de manhã cedinho –, a dona da empresa lhe cortou o acesso aos cartões de crédito corporativos e aos lucros do negócio. Restara-lhe apenas e tão-somente o minguado salário de funcionário público, já tolhido na fonte pela ordem judicial que ordenava o pagamento da pensão dos meninos. O dinheiro que ganhava só dava para pagar aluguel naquele padrão de imóvel e em bairros considerados pouco nobres. A casa onde morara com a ex-mulher e os filhos, que pertencia ao espólio de seu pai, morto há mais de dez anos, e na qual fizera melhorias para maior conforto da família – mais um quarto, uma piscina e um deque onde recebia amigos para churrascos e festas –, ficara com eles. Até que a justiça a liberasse para venda ou qualquer outra transação, sabe-se lá quanto tempo ia. Saíra de casa com o carro e as roupas. Para trás ficaram a empresa, a casa, os filhos... A sensação de derrota era a mais completa possível. Impossível traduzir em palavras a avalanche de sentimentos que turbilhonavam no homem. Houve um momento em que estivera a conversar, a ser acudido por uma antiga amante que, após uma noite em sua companhia, escreveu-me uma mensagem onde não havia dúvidas: – ele seria, sim, capaz de fazer uma "besteira", tão baixa era sua expectativa sobre sua própria vida. Eu jamais a conheci pessoalmente, mas, ao que parecia, ele falara de mim para ela, relatando-lhe que eu estivera sempre presente durante todo o tempo de seu calvário. Eu seria um irmão para ele. Depois disso, o tempo foi-se encarregando de acomodar toda aquela tralha em algum compartimento de sua alma.
          Um mês se passara desde que a mulher o largara. Ela avisara cedo, com uma semana de antecedência e tão logo retornou de viagem em visita aos pais no interior: -"Na próxima sexta vou-me embora"! Parecia conversa de gente desequilibrada. Dissera várias vezes: –"Não 'güento mais essa vidinha"...! Ele julgara que o cansaço a abatia e não deu importância. Seria apenas uma indisposição passageira, um muxoxo, coisa de mulher ranzinza; conversa pra boi dormir, como ele me relatou depois. Porém, findo o prazo estipulado e chegado o dia, a mulher partiu. Ele nada fez para impedir. E fez ainda mais: – foi levá-la à estação, demostrando um certo descaso com aquela partida até há uma semana inesperada. Vai ver não seria tão inesperada assim...
          Durante um mês inteiro estiveram a trocar acusações e a fazerem-se promessas mútuas, ela no interior e ele na capital dilacerado pela dor, pela liseira e, agora, pelo ciúme. Sim, havia agora esse novíssimo ingrediente a apimentar aquele relacionamento para lá de conturbado. Nas conversas ao telefone e através de mensagens, ele implorava seu retorno, enquanto ela o acusava de ser um frouxo, um "veste calças", um homem sem atitude. Por que permitira que partisse? Por que não tentara impedir? E que negócio foi aquele de levá-la à estação? Tudo levava a crer que ele queria, sim, que ela fosse embora. Um homem que ama não permite que a mulher se vá assim, tão facilmente, tão sem resistência e tão sem luta. O que ela não sabia era do ciúme. Ele, certa vez, durante os quatro anos em que viveram juntos, descobriu que um certo varão de sua cidade com ela mantinha contato através do telefone portátil. Ela negou que o estivesse enganando. Seriam apenas amigos. Amorim não engoliu a explicação tanto que, estava eu em meu leito de repouso – seriam 2 ou 3 da madrugada –, quando me bate o telefone. Era ele. Chorava como uma criança açoitada. Diante dela, ligara para mim para relatar o que acabara de descobrir; que sua mulher o traía depois de tudo que fizera por ela; depois de tudo que perdera por ela... Conversamos até que ele se acalmasse, e fomos dormir. Depois desta fatídica noite e passado algum tempo, o assunto caiu no esquecimento. Mas agora tudo indicava que algo diferente estava para acontecer.
          Tão logo ela partiu, meu amigo passou a comer o pão que o diabo amassou. Assistindo ao dia-a-dia de Amorim, os vizinhos se condoeram de seu sofrimento. O homem mais parecia um pano de chão, um trapo, um molambo desgarrado e desgraçado. Há quatro anos vivendo em bairro mais humilde, escapou-lhe a percepção de que, ali, as pessoas se notavam mais, se observavam mais umas às outras, se envolviam mais. Fosse por isso ou pelo fato de que o comportamento de sua atual companheira era natural e condizente com sua idade – era 32 anos mais jovem que ele –, todos sabiam o que acontecia quando ele não estava por perto. O dono da churrascaria que funcionava a poucos metros de seu cafofo, sua mulher, sua filha, o garçom, o funcionário do mercadinho defronte e quiçá outra penca de gente sabiam de tudo, mas nada diziam, nada comentavam, pelo menos em sua presença. Agora, vendo o homem em desgraça e em intenso sofrimento pela rapariga que se evadiu, alguém resolveu que isso não estava certo, que assim não podia ser. Ainda assim, esse alguém hesitou, não falou, não quis se envolver. Permaneceu quieto atendendo ao que diz o chavão: – em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. O diabo é que meu amigo é desses sujeitos que não têm vergonha na cara. Com o firme propósito de obter uma explicação para a partida da mulher, como se não se lembrasse das desfeitas que lhe proporcionara, as quais ainda não relatei porque uma história como esta não é nada fácil de contar dadas suas inúmeras reviravoltas, foi à casa do vizinho mais próximo, o que parecia ter tido maior contato com a mulher, o que era revestido de maior grau de confiabilidade e o que não teria porque inventar estórias sobre a pequena. De fato, queria mesmo era ter com a vizinha, mãe zelosa de uma mocinha de seus 15 aninhos, na certeza ferrenha de que mulheres conhecem melhor mulheres por entenderem seus processos mentais e do coração e, assim, finalmente explicar o que se passava na cabeça da outra. 
          Antes não tivesse ido, concluiu tão logo de lá saiu. A vizinha relatara-lhe coisas assombrosas e vergonhosas, e para não encompridar muito a prosa que o leitor já se exaspera, digamos logo o conteúdo: – Amorim descobriu que nunca fora tão corno como agora. Se antes armara uma arapuca contratando um detetive particular para investigar a mãe de seus filhos sem nada encontrar, agora não precisou gastar um tostão para saber das inúmeras peraltices sexuais e amorosas de sua mulher com uma infinidade de varões das redondezas e até de bairros mais afastados. Bem próximo dali, na vizinhança, erguia-se imponente uma unidade militar do exército cujos conscritos costumavam vir bebericar, ao sair do serviço, justamente na churrascaria de seu marido, contou a vizinha que, à chegada de meu amigo, aludindo de imediato às razões que o levavam a procurá-la, foi logo dizendo que de nada sabia, que não queria se intrometer, que nada lhe indagasse porque de sua boca nada sairia. Tanto fez meu amigo, tanto implorou o infeliz, tendo chegado até às lágrimas mais legítimas de um homem abandonado pela mulher amada, que a pobre senhora não teve como não lhe relatar o que sabia. E o que sabia não era nada bom para ele que, no seu entender, era um cego de bengala e guia, desses que pedem esmola nos cruzamentos ao acender a luz vermelha do farol. De discreta a princípio, a mulher passou a contar tudo o que vira e ouvira, tudo aquilo que não se pode negar porque contra fatos não há argumentos, inclusive fazendo julgamentos sumários e, sem o menor pudor, condenando peremptoriamente o comportamento devasso da mulher de meu amigo. Ao final, antes que saísse em estado ainda mais deplorável, ouviu da vizinha conselhos maternais em tom professoral. Disse ela, com a voz aveludada e usando de seu leve porém nítido sotaque paulista: 
          –"Doutor, o senhor é homem de bem, logo se vê. Quando o senhor veio morar aí com essa cabrocha, vimos, de cara, que o senhor estava fazendo um mau negócio. Como se explica que um homem tão distinto e educado como o senhor vá se meter com uma dona dessa laia? Ninguém aqui entendia. Ficávamos eu e meu marido, aqui, a matutar e pensar em como o senhor agüentava tudo isso. E agora o senhor vem me dizer que de nada sabia"...
          Fez uma pausa para beber um gole d'água, que a canícula estava de matar, e continuou:
          -"Deixe tudo isso pra lá; não vá mais se incomodar com isso, não... O que tá feito, tá feito, ninguém pode mudar. Mas o senhor agora sabe de tudo, não deve mais ficar por aí remoendo dor e chorando feito um menino amarelo. Vá cuidar da sua vida, do seu trabalho... Logo, logo o senhor arruma uma mulher do seu nível. Vá por mim qu'eu sou mulher criada na casca do alho"... 
          Enquanto a mulher falava, Amorim pensava em como era interessante que um sotaque paulista se misturasse a um modo de falar tão nordestino. Ela e o marido haviam vivido quase vinte anos na capital paulista, fazendo das tripas coração para sobreviver, mas, finalmente, lograram voltar vitoriosos, com um dinheirinho no bolso para montar um pequeno negócio do qual pudessem tirar um sustento digno. Foi assim que ergueram sua humilde churrascaria em espaço anexo à casa onde moravam. Amorim não pôde deixar de imaginar que essa família – a mulher, o marido e a filha – via e ouvia, dos frequentadores do lugar e das redondezas, fofocas as mais diversas, que não poupariam nem mesmo as mais virtuosas senhoras, e nem mesmo os mais honestos cidadãos. Um restaurante simples para atender gente simples encravado em bairro residencial igualmente humilde é como salão de beleza. Tudo se sabe e sobre tudo se conversa, visto que muitos clientes são seus frequentadores habituais e sempre que lá vão deixam sua contribuição à crônica do bairro e engrossam o caldo onde se remói o veneno das línguas.
          "Ah, dona fulana, daria tudo para a senhora não ter visto nem ouvido nada disso", pensava o pobre diabo inconsolável. "Antes não tivesse vindo... Pior. Antes a senhora houvesse se mantido firme em seu propósito de não abrir sua maldita boca! Agora que farei? Ah, isso não fica assim, não! Vou já confirmar essa história direitinho. Não acredito numa vírgula do que essa dona fulana me disse. Ela deve ter alguma razão para inventar essa estória tão cabeluda sobre minha 'bichinha'. Onde já se viu?" E correu ao cafofo a buscar o telefone.
          Foi precisamente neste instante que começaram a se falar com maior freqüência, fosse por mensagens, fosse através de ligações. Não se pode dizer que ele usasse de inteligência na condução do caso. Antes lhe procurava e pedia, implorava, chorava ao telefone insistindo a que ela voltasse. A partir de agora, também o ciúme corroía suas entranhas sentimentais. Não perdeu tempo. Subiu e fez a ligação. Ela atendeu sem demora. 
          –"Soube agora, neste exato momento, que me traíste com um quartel inteirinho, sua vadia! Como pôde fazer isso comigo? Depois de tudo que fiz por você, depois de todas as coisas que lhe dei...! Você não presta mesmo, eu já devia saber"... O discurso agressivo sempre durava muito pouco. À medida que a moça se explicava nada explicando, ele se tornava mais melífluo e adotava uma fala mansa e conciliadora. Seu comportamento era invariavelmente esse durante as cobranças por explicações. Isso, obviamente, fazia a cabrocha inverter as posições e, sempre, de acusada ao início passava a acusadora ao final o que, por sua vez, levava-o a arrastar-se implorando por seu perdão por qualquer mal que lhe houvesse feito.
          Ela negou veementemente. A cada acusação, jurava por todos os santos que tudo o que haviam lhe dito era uma grande e monstruosa mentira. Ele insistia em que ela falasse. Em seu íntimo, sabia que era tudo verdade. Lembrava-se do dia em que vira as mensagens em seu telefone portátil. Um varão das bandas de sua cidade natal a estava cortejando. Naquele tempo ele consentia que ela fosse assiduamente visitar os pais no interior. Ela vivia a reclamar da vida monótona que levavam. Não saiam a se divertir porque o dinheiro era curto. Trabalhavam e vinham para casa. Nos fins de semana, ficavam em casa vendo televisão e se amando como os animais do Alceu. Mesmo isso já estava virando um tédio enorme. De tanto ir, presumiu ele, arranjou por lá um admirador. Sabe-se lá até onde teria ido o galanteador... No interior, a vida no fim de semana é arrastando pé nos forrós. O pretendente seguramente teria tido alguma liberdade de avançar. Caso contrário, não saberia o número de seu telefone.
          Mesmo com as alegações a favor das evidências que supostamente se acumulavam, a cabrocha não admitia. Ele começava a pensar que ela se utilizava de um princípio masculino que reza que nunca se deve confessar o crime; antes, deve-se negar até a morte. Era o que ela fazia. Gastavam três, quatro horas a discutir ao telefone. Fosse pela exaustão, fosse pela vontade imensurável de querer acreditar que ela dizia a verdade, terminavam com ele implorando a sua volta e fazendo milhões de promessas de mudanças caso ela retornasse ao seu "ninho de amor", como ele dizia. Como da primeira vez, negou até a "morte". E mais. Numa manobra inteligente, e como conhecesse profundamente sua pusilanimidade, alimentava-lhe as esperanças e aproveitava para inverter a situação. De acusada passava a acusadora, como já dito. E tinha mais! Queria saber quem era a pessoa que estava a construir aquelas estórias a seu respeito. Seria capaz de voltar apenas para lhe tomar satisfações. Queria ver se essa pessoa seria capaz de lhe dizer tudo aquilo às fuças! Duvidava! Em sua completa covardia, Amorim via naquele discurso a prova incontestável da inocência da cabrocha. 
          O problema era o dia-a-dia. Como fosse acometido de depressões abissais que quase o levavam ao desespero, procurava-me para conversar, para desabafar, para chorar convulsivamente. Em minha presença repassava todas as conversas que tivera com ela e acabou por me revelar as acusações que a vizinha fizera. Era nítida sua propensão a não levar em conta nada daquilo, caso ela resolvesse voltar. Estava disposto a aceitar todas as galhas, se ela voltasse. Sofria pela decepção crescente, mas seu coração se derretia e a razão era relegada a um plano inoperante. A inteligência e a razão só lhe mostravam o que ela fizera; mas nada disso importava diante do que sentia.
          Não satisfeito com o que lhe contara a vizinha, resolveu que queria ouvir de seu marido uma opinião sobre o caso. Certa noite, após um dia em que suas forças afetivas se exauriam na dúvida, no abandono, na rejeição e na dor, foi à pequena churrascaria. Zé, o proprietário, marido da vizinha que tentara abrir-lhe os olhos, foi incisivo. Disse-lhe, com todos os efes e erres, que ele era o corno mais manso que conhecera em toda sua vida. De fato, como já havia lhe dito a esposa, a cabrocha era um furacão, uma mulher insaciável, um rolo compressor. Sabia de vários de seus casos com soldados do quartel ali perto é de outros clientes que já haviam saído com ela. 
          Voltou ao cafofo em pior estado. Nem é preciso dizer que, lá chegando, bateu o telefone para a pequena e voltou a repetir que mais coisas soubera dela, que tudo se confirmara; que mais de uma pessoa sabia de suas estripulias, não adiantava mentir. Por que não confessava tudo de uma vez? Por que se comprazia em maltratar quem por ela tudo fizera? Ela, empedernida, negava. Não havia o que admitir, dizia. Preferia acreditar nela ou no povo que fazia fofoca? E completava: – "Você não vale a pena... Viu? Diz que me ama mas não acredita numa palavra do que digo... A coisa mais certa que fiz foi cair fora". Longe de alcançar a tranqüilidade que buscava, um turbilhão de dúvidas o atormentava cada vez mais. Queria acreditar que tudo não passava de um grande complô contra a garota, mas a realidade teimava em impedir. 
          Havia, além da realidade propriamente dita, a realidade virtual, a realidade da rede social. A rede social, como diria um amigo, é a calçada de antigamente. O sujeito, na rede social, está como antigamente ficavam as pessoas sentadas à porta de suas casas, em cadeiras de balanço a jogar conversa fora e a falar da vida alheia. A diferença é que, lá na rede social, o melhor esporte é a exposição de si mesmo, numa espécie de egolatria e autopromoção livres de qualquer avaliação confiável e repletas de elevadas e pertinentes suspeitas. Lá o sujeito pode ser o mais perfeito e o mais feliz dos seres e, não raro, se expõe mais do que o aconselhável. Confiando em tudo isso é que Amorim passou a escarafunchar a rede social da pequena. 
          Reza o ditado que quem procura, acha. E o amigo achou. Viu fotos e recadinhos, amizades com varões impensáveis e inimagináveis... O ciúme, que crescia a cada dia desde a conversa com a vizinha boquirrota, tomava proporções intoleráveis para ele e, consequentemente, para ela. Tanto lhe perturbou após ver-lhe a rede social que ela bloqueou seu acesso a essa "realidade" moderna. Ele, além de transtornado, acabou irado consigo mesmo por perceber que, se houvesse permanecido quieto e atento, poderia ter obtido muito mais informações sobre o que ocorria com ela e, assim, chegar às provas que tanto queria sobre seu comportamento leviano e um tanto quanto "desapegado". Mas o que viu parecia o bastante. Correu a lhe telefonar, desta vez querendo saber quem seriam todos aqueles homens de sua rede social. Seria, além de chifrudo real, um chifrudo virtual. Hoje, se sabe, a traição pode ser volátil e etérea, mas não menos traição. Deu no que deu: – uma fonte a menos a explorar em sua sanha para provar que ela era, de fato e sem dúvida, uma vagabunda. 
          A verdade é uma, e apenas uma: – o amigo apresentava um comportamento doentio diante de um problema que, a meu ver, podia ser considerado de fácil solução. A mim, que estava a seguir seu drama diário há quase seis meses, me parecia bem clara a necessidade da ajuda de um profissional. Nada do que eu lhe dizia parecia surtir algum efeito. Eu não estava apenas lidando com um amigo com problemas: – estava diante de um indivíduo com uma série de dificuldades na vida real com as quais não conseguia lidar por sérias rachaduras em sua personalidade e, talvez, em seu caráter. Era óbvio que seu estado depressivo ia além do considerado normal, sua autoestima era a pior possível, seu poder de recuperação era virtualmente inexistente. Porém, relutava em me ouvir quanto a isso. Considerava estar em perfeito estado. Não precisava de nenhuma outra ajuda, a não ser a minha.
         Todo o cenário permaneceu inalterado por um mês ou pouco mais, ao fim do qual fui surpreendido por uma novidade no caso. Amorim ligou-me e, num misto de aparente tranqüilidade e exultação contida, confessou-me: –"Ela está voltando"...! Em que pese a consciência de que nada o demoveria da ideia de recebê-la de volta, fui enfático. Disse-lhe, grave: –"Teu pai, se vivo fosse, havia de dar-te umas boas bordoadas, meu chapa"... Chamei-lhe à consciência de que estava para fazer uma grande bobagem, que estava para cometer outro grande erro... Tudo em vão. Dali a poucos dias, ele a recebia em casa feliz da vida e como se nada houvesse acontecido. Durante dias fizeram o que faziam melhor: – amaram-se como os dois animais do Alceu. No que concerne a mim, tudo mudou. O amigo que para mim ligava diariamente sumiu; sua depressão evaporou; sua tristeza esmaeceu; dir-se-ia que passara a viver noutro mundo. Passada uma semana do vergonhoso sumiço, considerei a necessidade de saber o que se passava com o homem. Pensei todas as desgraças mais hediondas, desde o suicídio induzido ao assassinato seguido do suicídio. Por isso bati-lhe o telefone. Foi quando respondeu, quando lhe perguntei como estava: 
          -"Perigosamente feliz"...
          E completou sem o menor pudor: 
          –"...estou apaixonado"...
          Dez dias depois a amigo me relatava o resultado de uma escuta que pusera no cafofo. Não reunia condições financeiras para contratar um detetive, como fizera antes. Por isso se via obrigado a usar de um estratagema menos requintado, qual seja, a escuta do que a pequena dizia aos interlocutores ao telefone em sua ausência. Ela passava o dia em casa sozinha e não arranjara emprego – não mais queria trabalhar –, de modo que ele acertou em cheio ao instalar a tal escuta. Disse-me, sem conseguir esconder sua enorme tristeza por estar revivendo o inferno:
          –"Fala com vários homens e ri-se da minha cara ao telefone em conversa com eles"...
          Concluí com pesar : – o amigo descobrira o que ele próprio já sabia, o que já era do conhecimento de meio mundo. Uma pena. E compreendi porque dissera estar perigosamente feliz.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

CIRO QUER QU'EU SEJA "DE ESQUERDA"

          Imaginem vocês, parcos e rarefeitos leitores, que o meu amigo Ciro Ciarlini, homem de recursos intelectuais invejáveis e de recursos financeiros equivalentes, saiu-me com a seguinte pérola:
          –"Tens que ser 'de esquerda'! És funcionário público e funcionário público que se preza deve ser 'de esquerda'"!...
          Contudo, no minuto seguinte à admoestação de meu amigo, caí em mim e percebi a verdade incontestável: – o brasileiro conclui o que conclui com base em mitos e preceitos aceitos como verdades absolutas. Seria mais ou menos assim. 
          Se sou funcionário público, não tenho empresa, não sou empresário. Como não sou empresário, sou trabalhador. (Como se empresário não trabalhasse...) Sendo trabalhador, sou um explorado, um expoliado em minhas forças pelo rolo compressor do patronato. Eis, em pouquíssimas palavras, o raciocínio que leva meu amigo a concluir que devo ser 'de esquerda', custe o que custar.
          Hoje um jovem amigo quis saber de mim se eu gostaria de ter um negócio próprio ou se preferiria seguir sendo funcionário público. Disse-lhe, curto e grosso: –"Negócio próprio? Aqui não; lá fora sim". Eis os detalhes.
          Outro dia em acalorada conversa com meu amado amigo Gaudêncio Moreira Neto, dono de um negócio próprio, ele me relatava o calvário que é ser empresário neste país. A burocracia é irritante e o assédio do poder público sobre ele é implacável e recidivante. É como se o dono de um negócio fosse um criminoso, um meliante, um morfético lepromatoso do qual se tem asco. Ao final de seu relato, concluí sem delongas: – o governo vê esses donos de negócios como um mal a ser extirpado, como um tumor maligno que ameace a sua existência. Não resta outra explicação.
          Porém, vejam como é interessante. Ao ouvir o discurso de meu amigo, não pude deixar de sentir que ele, o discurso, parecia destoar da realidade. Os grandes negócios – entenda-se as grandes empresas – e os negócios "informais", como os vendedores ambulantes que criminosamente invadem nossas calçadas, ruas e avenidas, não parecem ser molestados pelo governo. Apenas os negócios menores, que atendem todas as exigências legais como o de meu amigo, são torturados diuturnamente. Ora, não sabemos se as grandes empresas são assediadas pelo governo, e é provável que o sejam, mas os negócios ilegais, que chamei acima de "informais", não o são com certeza. 
          Se todos os negócios formais são molestados pelo governo, conclui-se que continuamos a seguir a mesma cartilha que nos orientava já antes do desembarque de Dom João VI por aqui. Naquele tempo, ainda ao tempo do Brasil Colônia de Portugal, eram proibidos os negócios (a iniciativa privada), as escolas (não se construíam nem se permitiam as escolas) e as estradas que interligassem as províncias, tudo na intenção de evitar movimentos por independência. Assim, não surpreende que ainda hoje os governos brasileiros tenham horror aos negócios e aos que os têm, exceto aqueles ao qual seus agentes se aliam para lesar o erário e, em última análise, aqueles que pagam impostos com o suor de seu rosto.
          Os negócios "informais", eufemismo que denuncia os negócios abertos e funcionantes à margem das leis – não pagam impostos, funcionam em espaços de domínio público, e vendem, muitas vezes, produtos "piratas" –, são sarcasticamente e cinicamente permitidos por razões "humanitárias", em que a proibição e/ou punição dos infratores são consideradas medidas "impopulares" que acabariam por comprometer a carreira política do prefeito de plantão. Os honestos pagadores de impostos são acintosamente esquecidos por estes senhores.
          Assim, respondi ao jovem que, se morasse em país de verdadeira economia capitalista, preferiria ter o meu próprio negócio a ser empregado. Por aqui a regra mais fácil e mais simples é ser funcionário público. 
          O diabo era o Ciro Ciarlini insistindo a que eu fosse "de esquerda". Não entende o amigo que ser "de esquerda" requer, antes de tudo, uma mudança radical no caráter do indivíduo. Hoje, passados mais de 166 anos da publicação do Manifesto, e após as desastrosas e assassinas experiências comunistas, ser "de esquerda" resulta de uma de duas possibilidades: – ignorância inexplicável, já que abundam os relatos de seus resultados, ou malcaratismo mesmo. 
          Mas tudo se explica. Nossos homens de negócios, ao tempo do Brasil Colônia, eram escravagistas e gananciosos, o que não parece ter mudado ao longo da República; e o povo, sem oportunidades e dependente das benesses estatais, acomodou-se como o sujeito que se acomoda sentado ao banco onde há um prego a furar-lhe a bunda. O mundo se industrializou, riquezas foram produzidas, a ciência se multiplicou, mas o Brasil seguiu, impávido, sendo um país "em desenvolvimento". A industrialização veio tarde, as empresas idem, mas as ideias surgidas ao tempo da Colônia recalcitravam e teimavam. O capitalismo queria mercado e a abolição dos escravos, mas nós os procrastinamos até quando pudemos. O Manifesto já era uma consequência social do capitalismo àquela época selvagem, e veio como uma luva à nossa vocação malandra. Um brasileiro chegou a criar um "herói sem caráter" bem ao nosso gosto e semelhança. Tão sem estudos e sem iniciativa éramos que foi o governo o maior responsável pela criação de nossas grandes empresas; tanto que até hoje elas aí estão. Não viramos capitalistas e sempre, desde o início da República, tivemos a nos espicaçar e a nos rondar a ameaça comunista. Seria possível até dizer que ele, nosso desejado comunismo, é a soma de nosso "herói sem caráter" e nossa propensão à subserviência, educação medíocre e idolatria ao Estado.
          Não bastasse me sugerir a que me acanalhasse, Ciro era, nesse mesmo instante, assaltado por dúvida cruel. Não entendia o amigo o porquê de o FED, o banco central americano, baixar os juros em tempos de crise enquanto o nosso BC faz o oposto. Vejam a abissal diferença entre um país cuja economia está alicerçada na livre iniciativa e outro cuja economia está alicerçada no Estado provedor todo-poderoso. E saí eu, um pobre conhecedor dos labirintos da ciência econômica, a explicar a meu querido amigo que por lá baixar o custo do dinheiro surtia efeito positivo na recuperação da economia após uma crise. Baixar o custo do dinheiro, como se faz por lá e noutros países desenvolvidos, aumenta os investimentos por facilitar a captação de recursos pelas empresas e centros de pesquisa; aquelas começam a contratar e empregar pessoas e estes a promover o desenvolvimento da tecnologia, o que aumenta a produção e, em consequência, o consumo. A ideia é trazer a economia de volta a um círculo virtuoso.
          Por aqui é o contrário. Eleva-se o custo do capital, o que só tende a sufocar ainda mais a iniciativa privada. Como por aqui a atividade desta é uma formiguinha caquética diante da de nações desenvolvidas, e a pesquisa de ponta que faz a diferença é absolutamente inexistente, juros elevados só beneficiam os que têm dinheiro para emprestar. As empresas se retraem, não investem, demitem e eleva-se o desemprego, enquanto aguardamos que o mundo desenvolvido nos brinde com o resultado da ampliação do conhecimento científico. Resultado: – recessão. Vejam o pífio "crescimento" de nosso PIB (0,27%), resultado de juros elevados e inflação em alta. 
          Que nos resta? após a tragédia econômica e educacional que temos criado para nós mesmos durante toda a nossa existência enquanto nação?, perguntei ao meu amado Ciro Ciarlini. Ele, meio cabisbaixo e meio triste, calado estava, calado permaneceu, o que me obrigou a seguir em minhas lucubrações sobre política e ciência econômica. 
          Resta-nos, meu honroso discípulo de Asclepius, o assistencialismo, o crescente culto à ideia da existência de uma "dívida social impagável" que o sustenta e o resto da eternidade sendo o país "em desenvolvimento". Tudo o que for oposto a isso será obra do capital imperialista e dominador. E vá dormir com uma estória dessa a tirar o sossego de quem tem mais o que fazer...!

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

QUANTO VALE A VALE?

Estamos na era da informação e, por inferência, na era do conhecimento. De fato, o conhecimento sempre foi o grande divisor de águas entre os povos, na guerra ou na paz. Ter conhecimento e aplicá-lo leva à sabedoria. Conhecimento sem atitude leva a nada. Atitude sem conhecimento leva ao abismo.
          ​Nos tempos da obscuridade a miséria grassava no corpo e na mente. Não era permitido o conhecimento. Roma impedia o acesso ao conhecimento, e quando a ciência se aproximava do Criador a fogueira era quase uma certeza. Nem ao homem era permitido o conhecimento do Criador. “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento”, disse o Criador. Roma se dizia infalível e o que dela vinha era lei. Aos hereges restava o fogo a lhes consumir a carne. Os reis se dobravam para Roma. Após a revolução da indústria, a revolução do conhecimento e da informação. Quem os tem, tudo tem nas mãos.
​          Eis, contudo, que, por ter-se tornado o mais valioso dos metais, falseia-se o conhecimento ou, melhor, a informação. Como uma cédula falsa, propaga-se a informação incorreta. De mente em mente ela se alastra e se propaga; de tão longe que vai e de tanto que se a diz – Goebbels que o diga – passa a ser vista e sentida como a mais resistente e absoluta das verdades. Quanto mais longe vai, mais distante fica de sua antítese. Eis o grande perigo de/e em nossos dias.
          ​Ora, são cinco os níveis de uma informação: estatística, sintaxe, semântica, pragmática e apobética. A estatística e a sintaxe tratam, respectivamente, da freqüência e regras da disposição dos símbolos usados para transmitir a informação. A semântica é o seu significado, enquanto a pragmática a sua intenção. Por fim, a apobética – o resultado de uma informação.
​          Dizer que uma informação é falsa ou verdadeira pressupõe uma intenção e resultados opostos e mutuamente exclusivos. Uma informação não pode ser ao mesmo tempo falsa e verdadeira. Ou é uma coisa ou outra. Se 1 + 1 = 2 é uma informação, é ela falsa ou verdadeira? Seu oposto seria 1 + 1 # 2 ou 1 + 1 = 3 ou qualquer outro número. Vejam que para uma única informação verdadeira temos infinitas informações falsas. Notem também que a primeira hipótese, 1 + 1 = 2, não é uma versão sobre o resultado desta operação aritmética; é uma verdade absoluta, o único possível resultado desta operação. Qualquer tentativa aparentemente inteligente e genial de demonstrar o contrário trará necessariamente em seu escopo um falso raciocínio lógico. Quem achar ou pressupor que todo raciocínio lógico é obrigatoriamente verdadeiro, veja o paradoxo de Zenão.
​           Quem achar que 1 + 1 é qualquer outra coisa exceto 2, é doido . Há, entretanto, os neuróticos – sabem no fundo de sua alma que 1 + 1 = 2, mas não se conformam com isso.
​Eis que nos roda neste instante uma quantidade sem fim de informação. Qual a verdadeira? Quais as falsas? É um trabalho de Hércules. Não temos tempo de investigar, posto que nem todas sejam tão simples e óbvias como a simples operação matemática. Contudo, é sempre possível achar a informação correta. Que mapa consultaria se quiséssemos ir de carro até a Venezuela? Seguramente teríamos à mão um mapa do norte da América do Sul, e não um mapa do Irã. Há mapas de todos os tipos e para todos os gostos. Deve-se escolher o mapa adequado para se chegar onde se pretende. Se pretendermos chegar a algum lugar, devemos consultar avidamente os mapas corretos. Eles estão disponíveis em todas as fontes de informação. As informações que estão nos mapas são isentas da preferência de destino de quem os escreveu e desenhou. Ademais, as informações fornecidas no passado são um excelente guia da confiabilidade da fonte, caso sua intenção e resultado casem com a realidade que se seguiu.
          ​Uma amiga me escreveu para dizer que jamais votaria no partido que fez as privatizações. Lanço o seguinte desafio aos meus queridos amigos leitores. Respondam, a título de exemplo e após pesquisa em várias fontes de informação: a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale S.A., foi danosa para o Brasil? Não valem opiniões pessoais. Os dados de desempenho da empresa hoje e antes de sua privatização, em maio de 1997, são amplamente conhecidos. São também conhecidos os argumentos dos que foram contra o negócio, e os argumentos do governo.
          ​Mãos à obra. Informação é tudo.
Fernando Cavalcanti, 07.10.2010  

O MELHOR PARA O POVO?

Vejam – os números são fogo! Se alguém quiser fraudar um demonstrativo financeiro, por exemplo, terá que lhe atribuir números de seu interesse. Basta que apenas um deles esteja fora da verdade numa operação contábil e todo o resultado estará comprometido. Corrijam-me aí os contadores se estiver afirmando uma asneira.
          ​Contudo, e é aí que a vaca torce o rabo, se os números a servir nos cálculos estiverem corretos, teremos a verdade nua e cristalina de fatos sobre os quais o comum brasileiro deveria se debruçar. Tomemos como exemplo duas matérias publicadas hoje no jornal Diário do Nordeste, uma à página 11 do primeiro caderno, a outra à pagina 3 do caderno Negócios. Ambas expõem um estudo da Federação da Indústria do Estado do Rio (Firjan) que concluiu que 83% de 5.266 dos 5.563 municípios brasileiros “não consegue gerar nem 20% da receita de seu orçamento”, e que “apenas 95 prefeituras têm excelente gestão de finanças”.
         ​Para o glorioso estado do Ceará os números são um pouco piores. Diz a reportagem o seguinte: “85,5% das cidades cearenses não conseguem se sustentar com recursos próprios, dependendo diretamente das transferências realizadas pelos governos estadual e federal”. (É bom que se lembre que também os governos estaduais são destinatários de recursos da União.)
​          Por que o bom e comum brasileiro deveria se debruçar sobre um assunto tão tedioso e enfadonho quanto este da qualidade da gestão fiscal de seu município? Uma das razões a reportagem esclarece: ela “interfere diretamente na qualidade de vida dos munícipes”. A outra razão, que a reportagem omite, é que é o dinheiro dos impostos que o munícipe paga que não está dando para cobrir as despesas. O cidadão comum poderia dizer: “Ora, se já pago tantos impostos, para onde está indo toda essa montanha de dinheiro?”
         ​ Há mais. No Ceará, os municípios gastam em excesso com pessoal e não têm liquidez por “não possuir recursos suficientes para cobrir os restos acumulados a pagar de gestões anteriores”.
         ​ O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), senhor Paulo Ziulkoski, explica que 4.500 municípios brasileiros são de perfil econômico rural e a Constituição os impede de tributar a renda oriunda do campo, reduzindo bastante a base tributária, já que todos têm menos de 50 mil habitantes. Ou seja, esses 4.500 municípios só podem tributar a área urbana. O que é produzido no campo não paga imposto.
​          Como se vê, há um conjunto de fatores que, mantidos, perpetuarão esse estado de coisas nesse mundão chamado Brasil. É sabido que Brasília fica com mais de 60% do que é arrecadado em impostos.
          ​O que a reportagem quer dizer, trocando em miúdos, é que a economia dos municípios brasileiros, e particularmente a de nosso glorioso Ceará, gira em torno do serviço público. Quase todo mundo é funcionário público. As prefeituras recebem dinheiro do estado via Brasília para pagar as despesas com pessoal e dívidas deixadas por gestores que por lá já passaram. O prefeito de hoje está a pagar o papagaio do gestor de ontem. O que eles arrecadam em impostos municipais é muitíssimo pouco, já que a maioria deles não tem de onde tirar, e sua atividade agropecuária, que é a principal depois da dos salários dos servidores públicos, não é tributada. Arrecadam, talvez, do IPTU e de outras poucas mixarias.
​          Essa situação é a mão na roda para a perpetuação não somente da pobreza mas também das hegemonias políticas. O prefeito equipara-se ao mendigo diante do esmoler-mor. Como estão sempre querendo dinheiro, estão sempre mendigando em Brasília ou na capital de seu estado. Isso sem falar nas tais “emendas” ao orçamento, que são produto da ação de deputados e senadores em prol do reforço orçamentário dos prefeitos para as obras que dão voto. E, todos sabem, obras são feitas pela iniciativa privada; e iniciativa privada ao lado de políticos só pode dar em merda.
​          Nesse cenário está o povo não educado e povo não educado, além de se vender a preço de banana, não serve para trabalhar na eventual indústria que viria se instalar no município, e que não vem mais porque sai caro montar a indústria e ainda trazer de fora funcionários para nela trabalhar. Mas seriam as indústrias, as fábricas, as montadoras, etc., que gerariam empregos – se o povo fosse educado – e receitas em impostos ao município. Isso, é claro, se Brasília resolvesse que o Brasil deveria finalmente se tornar uma verdadeira república, uma verdadeira federação, e deixasse de lado esse negócio de permanecer um grande feudo cujo poder central tudo (des)controla e (des)manda.
          ​Assim, em duas pequenas matérias a imprensa cearense contribuiu de forma avassaladora e notável para o esclarecimento do porque de nossa pobreza eterna e renitente. Seria bom que o povo das esquerdas, mormente suas mentes mais brilhantes e apaixonadas, deixasse-lhe entrar na mente tão óbvias conclusões. O povo não educado não é burro – é mau caráter. Sabe, sente em suas entranhas mais centrais a responsabilidade que lhe caberia ao se “emancipar”. Já nossas brilhantes mentes da esquerda não podem se abstrair de um envolvimento mais profundo e real no problema. Não querem o melhor para o povo? É preciso lhes dar o melhor mesmo que não queira. Ou não?

Fernando Cavalcanti, 20.03.2012

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A VIDA É CURTA, A ARTE É LONGA... E O SISTEMA É PODRE!

          Outro dia falei dos sistemas. Preocupado sobre onde estaria inserido, fui ver o que seriam os sistemas. Está lá, no pai dos burros, sobre sistemas: "Combinação de partes reunidas para concorrerem para um resultado, ou de modo a formarem um conjunto". Assim, descobri que sou, junto a outras pessoas, uma parte de algo que pretende um resultado.
          Tendo visto a definição de sistema, concluí que nada há de errado fazer parte de um deles. O diabo é que uma palavra e, mais que uma palavra, uma idéia me chamou a atenção: – resultado. Sim, porque, se faço parte de um sistema, desejo ardentemente que esse seja um sistema vencedor, um sistema que produza bons resultados. Saí, tão logo a existência deste desejo se tornou clara em mim, a me perguntar se o resultado do sistema do qual faço parte é bom ou mau. Para minha mais absoluta tristeza e vergonha, concluí sem demora: – o sistema é podre.
          Tal constatação, longe de me incomodar, faz mais claras minhas ideias; ajuda-me a repensar o que faço, onde faço e porque faço; impele-me a pensar em soluções. Se há um problema – um sistema podre vai empodrecer você tão rápido que nem terá tempo de perceber –, há que se encontrar uma solução. A pergunta que me fazia era a seguinte: – se o sistema é podre, por que há ainda tantas pessoas fazendo parte? A resposta não é simples.
          A Primeira Lei do Movimento, de Newton, ajuda a que se dê uma primeira explicação. Diz ela que, na ausência de uma força, um corpo em repouso permanecerá em repouso, e um corpo em movimento permanecerá em movimento em linha reta e em velocidade constante indefinidamente. Diria, então, que as pessoas permanecem na podridão do sistema porque não há, ao que parece, nenhuma força que as retire desse estado. A analogia é tentadoramente perfeita.
          Ainda se utilizando da mecânica newtoniana, podemos supor uma origem para as possíveis forças que determinarão uma mudança nesse estado: – o "corpo" é dotado de um "motor" que o impulsiona em maior velocidade ou o impele em outra direção; ou, o "corpo" sofre a ação de uma força externa.
          No caso do indivíduo que faz parte de um sistema degenerado, a força externa é a demissão ou a exoneração, ao passo que o "motor" é a sua própria vontade seguida da decisão de abandoná-lo. A analogia entre corpos dotados de massa em movimento e as pessoas fazendo parte de um sistema é, sem dúvida, perfeita.
          Alguém poderia argumentar que há que se buscar soluções para esse sistema. (A solução da qual falei acima diz respeito à minha solução, a solução para o meu problema, porque se perceber fazendo parte de um sistema em frangalhos angustia e faz sofrer. Assim, fácil perceber, o meu problema é o sistema e, sendo assim, preciso resolvê-lo em meu esquema.) Há que se indagar também se, em contrapartida, não sou eu o problema, se não sou eu a contribuir para que o sistema não funcione e não produza os resultados a que se propõe.
          Após rigoroso e implacável exame de consciência, chego a conclusão de que não, não contribuo para a podridão do sistema. Antes, faço a minha parte e mais um pouco a fim de que ele funcione o mais próximo possível do ideal. Por outro lado, é fácil perceber que um sistema repleto de falhas e defeitos pode vitimar qualquer um que a ele pertença. Qualquer uma de suas peças pode ser responsabilizada por sua inoperância. Sim, porque em qualquer sistema mal funcionante uma única peça defeituosa é capaz de comprometer todo o seu resultado, como um órgão insuficiente que põe em risco a vida de todo um organismo. Em última análise, um sistema demonstra sua unidade justamente quando falha um ou mais de seus componentes.
          Assim, a solução do sistema é dever de todas as suas partes e não apenas daqueles que o gerem ainda que, muitas vezes, são estes os principais responsáveis por tal estado de coisas. Volta-se, então, ao conflito inicial o qual, com freqüência, atormenta aqueles já entrados em anos e que investiram toda uma vida no sistema que se tornou deplorável. Que fazer?, eis o grande tópico.
          Visto que "a vida é curta, a Arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganadora, e o julgamento difícil", que se deve fazer?, repito. A resposta parece clara feito água cristalina. Deve-se viver o que resta, abandonar a arte que já não é arte, fugir das ocasiões sem medo do engano da experiência e deixar o julgamento para os que forem ao funeral. Triste. Ou não.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

PERIGOSAMENTE FELIZ

          –"PERIGOSAMENTE FELIZ"..., foi a resposta que me deu o Amorim quando lhe perguntei como estava. As reticências ao fim da frase são uma pobre tentativa de entoná-la, de ajudar o leitor a perceber a música que há nela, já que a dizia no vigor da resignação e do conformismo. Dias antes, numa mensagem ao seu telefone portátil, fiz-lhe a mesma pergunta. Respondeu, usando a mesma entoação reticente: -"Estou apaixonado"...
          O que aconteceu foi o seguinte. A mulher fora passar as festas de fim de ano com a família, no interior. Demorou-se por lá quase vinte dias. Tão logo saiu do ônibus, na volta, disse-lhe: –"Não agüento mais essa vidinha"!... A ele pareceu que a mulher apenas estava a ruminar questiúnculas familiares, e seguiu a acomodar as malas no carro. Permaneceu mudo.
          Em casa, depois de um banho demorado, ela virou-se e esclareceu: –"Na próxima sexta vou-me embora". Era sábado. Ele, ainda que excessivamente autoconfiante, quis saber: –"Como assim, 'vou-me embora'"? Ela explicou: –"Isso mesmo que ouviste. Vou voltar pro interior, morar com meus pais. Contigo não dá mais"...
          Na madrugada ainda não conciliara o sono e, em suas lembranças, teve início o processo de montagem de um quebra-cabeça, qual seja, juntar as peças do significado do que ela já há algum tempo estava a dizer.
          Chegava do trabalho pelas 7 da noite e queixava-se: –"Trabalho mais quando chego em casa do que no emprego"! Referia-se a ter de fazer o serviço de casa, lavar, passar, cozinhar... Outro dia, ao chegar e jogando a bolsa no chão, retrucou: – não iria cozinhar nem pro Papa! Ele que se virasse, que comesse qualquer coisa.
          Como a situação financeira de meu amigo era a pior possível, quase não saiam nos fins de semana. Ela, 35 anos mais jovem, não perdoava; dizia: –"Não agüento mais ficar em casa"! Amorim tentava reavivar-lhe a memória: – a pensão dos filhos deixara seu salário bem minguado. Não tinha dinheiro para farras e restaurantes.
          De outra feita, ao chegar do serviço, a jovem decretou: -"Não vou mais trabalhar". Ele, em sua genética pusilanimidade, dizia, quase balbuciando: –"Não podes parar de trabalhar, fulana. O que ganho é muito pouco pra nós dois"... Ela não se dava ao trabalho de responder. "Foda-se", pensava; e ia dormir.
          O solução do quebra-cabeça era simples: – ela não mais estava disposta a viver com ele. Todos os indícios eram recentes, a poucos meses do fim do ano. Havia mais. Suas viagens ao interior haviam se amiudado. Como ele não pudesse bancar seus fins de semana, consentia deixá-la ir ver os pais no interior, à guisa de compensação. Depois de poucas viagens, começaram a chegar, em seu telefone portátil, mensagens comprometedoras. Amorim, ao surpreender uma delas, pô-la contra a parede. Quis saber da baixaria. Ela saiu-se com uma explicação esfarrapada que ele, como todo bom chifrudo, fez questão de engolir, não sem antes prantear ao telefone de um amigo como uma criança em cólicas. Agora, o anúncio da separação.
          E acontecia uma coisa curiosa. Apesar de marcada a data e hora do rompimento, ela o procurava para o amor. Amorim, exasperado, tentava entender:
          –"Estás louca? varrida? Como queres me amar se estás para me deixar"??
          Fulana se saia com uma explicação no mínimo autêntica, e não menos original:
         –"Deixa de ser besta! A gente devia era aproveitar o tempo que nos resta"!
         Na sexta marcada ela partiu. Na despedida asseverou: –"Não dá mais... É para sempre"... Amorim ainda fez a gentileza de levá-la à rodoviária. Para ele, em sua eterna passividade e cobardia, a jovem estaria apenas indo à casa dos pais para mais uma visita. Sua incredulidade só não era maior que sua falta de coragem. Na segunda-feira a ficha caiu.
          Tirara umas férias. Ao acordar e ouvir o burburinho da rua, ao ver o sol a pino, se deu conta de sua nova realidade: – levara um tremendo fora da companheira. Estava só, tão só como jamais estivera. Lembrou-se de seu casamento, há quatro anos desfeito justamente porque a esposa o flagrou no leito da amante, que também era a secretária do lar, nos limites sagrados do mesmo lar. Lembrou-se também dos filhos, ainda crianças pequenas. Sentia que uma distância enorme os separava: – a mãe, ao descobrir a pouca vergonha do marido, tudo fazia para dificultar o relacionamento entre eles.
          Verdade seja dita: – Amorim era reincidente. Durante todos os anos em que esteve casado, flertou e fornicou com quase todas as secretárias do lar. Só as mais velhas escaparam. E, além dessas, providenciara um plantel de amantes extra-domiciliares.
          (No mesmo erro não caiu a mulher do Berilo, cuja candidata ao cargo de secretária do lar exibia curvas traiçoeiras e simetrias faciais beirando a perfeição. Demitiu-a antes mesmo de contratá-la.)
          De tanto trair a mulher, passou a desconfiar de sua fidelidade. Como algumas de suas amantes eram casadas, cristalizou-se em sua consciência a certeza de que sua própria mulher também o traía. Nós tratados da ciência psicológica há de figurar a descrição desta entidade comportamental que explicará porque temos certeza de sermos vítimas de nossas próprias safadezas.
          Por isso, não contou pipocas: – contratou um detetive para averiguar o caso, ainda que não houvesse, até então, o menor indício de infidelidade da esposa. Autorizou o homem, inclusive, a instalar uma escuta no telefone de casa. Ela não perdia por esperar. Pensava que podia fazer e acontecer? "Vou fazer-lhe a cama", pensava. Um vizinho, tempos depois, jurava ter visto a mulher de cochichos com certo varão das redondezas. Era a evidência necessária.
          Como os dias se passassem sem que o investigador desse notícias, chegava a esquecer-se de que a própria mulher estava na alça de mira. Correu pouco mais de um mês quando o bisbilhoteiro veio ter com ele. Disse-lhe: –"Patrão, fique tranquilo. Sua mulher é honestíssima"! E ainda o aconselhou: –"Não se deixe enganar pelas más línguas"... Entregou em suas mãos a fita cassete – era no tempo da fita cassete – onde estavam gravadas todas as conversas travadas no telefone de casa, as da mulher, as dele mesmo, e as de todas as pessoas que lá residiam, inclusive as conversas das secretárias.
          Os gatos, criados em casas de quintais, coisa das mais raras aos dias de hoje, são, nesta condição, animais educadíssimos. Quando se sentem obrigados a fazer suas necessidades fisiológicas, vão ao quintal. Terminado o serviço, enterram-no sob um montinho de areia. Creio até que alguns espécimes cavam antes um pequenino buraco e ali despejam seus dejetos, cobrindo-os, ao final, com a quantidade de terra removida do lugar. Assim, fácil é comprovar o cuidado que esses felinos têm com a sujeira que produzem. Não desejam que outros as vejam. Escondem-nas elegantemente das vistas alheias.
          O mesmo não se pode dizer de Amorim. Livre do bitafe de corno, e esquecendo-se por completo de que suas conversas e conchavos com as amantes de alhures estavam registradas na mesma fita usada para surpreender a mulher em sua suposta atividade corneadora, lançou a prova de seus crimes ao fundo de uma gaveta qualquer, quiçá a do criado-mudo rente ao ninho do casal.
          Certo dia, dia de faxina, a mulher se depara com aquela fita há muito jogada feito lixo na gaveta do móvel, junto a outras quinquilharias.
          "Que diabos será isso, ó meu Santo Antônio"?, indagou a inocente dona de casa, segurando a mídia e exausta de tanto faxinar. Cuidadosa a não dar sumiço em documentos importantes, pôs- se a escutar-lhe a matéria com a pura alma dos que buscam o deleite de uma ária ou de um forró quebra-cadeiras. O resultado dessa infeliz audição foi a tragédia cujo clímax foi o mais recente flagrante: – escutou repetidas vezes e em detalhes as conversas do marido com as catirinas.
          O divórcio foi inevitável e fastiento. Por longos doze meses, Amorim ainda coabitou com a mulher, ao mesmo tempo que adotou a ex-secretária do lar, pivô imediato do desenlace final, como companheira e amante, sem dar a mínima ao currículo de engenheiro e ao fato de ela ser menor.
          Agora, passados quatro anos da convivência improvável, quem abandonava o lar era a pivô do divórcio, enquanto o amigo se esvaía em lágrimas e, depois, em apelos rastejantes a que ela retornasse. A visão da cena seria cômica não fosse a soma de tragédias que ainda estavam por vir e que, ao dia seguinte à partida, já se desenhavam no horizonte. Quem puder ler, lerá...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

UMAZINHA QUE FOSSE...

          Fazia tempo que não me aparecia o Amorim. Assim, causou-me surpresa quando ligou-me apreensivo e tenso àquela noite.
          Disse-me: –"Preciso conversar contigo..."
          Fez uma pausa e confessou: –"Fulana pediu o divórcio".
          Nem por uma fração de segundo hesitei. Disse-lhe que viesse logo, correndo.
          Ele e fulana estavam casados pelos últimos dez anos. Pareciam se dar bem; gostavam de farras e patuscadas intermináveis, dessas que acabam com o nascer do sol. À boca miúda comentava-se que a relação era aberta, que um não se incomodava com os eventuais casos do outro. Tudo, óbvio, no movediço terreno da especulação. Ninguém tinha certeza se era verdade. Muitas vezes, das noitadas faziam parte amigas da fulana e até se dizia: –"Amorim traça todas, a mulher e as amigas". Podia ser que assim não fosse, mas, como se sabe, as aparências são a roupagem dos fatos. Vezes há em que o sujeito se veste como rico, mas não tem onde cair morto.
          Por outro lado, fulana era simpática demais para uma mulher casada. Era muito "dada", como se costuma dizer. Para Amorim, nada disso era problema. O casal era aparentemente feliz com a vida que levava. Tinham filhos e não costumavam brigar. Com efeito, nunca se soube de briga entre eles.
          Depois de quase uma hora, ele chegou. Ao abrir-lhe a porta percebi sua enorme tristeza. Vinha sufocado, numa espécie de angústia. Diante de sua eterna felicidade matrimonial, que preenchia todos os outros aspectos de sua vida, era difícil imaginar a mulher pedindo o divórcio.
          Dali a pouco abria o jogo: – inexplicavelmente, de uma hora para outra, fulana veio com a péssima notícia. "Como assim 'inexplicavelmente'"?, eu quis saber. Inexplicavelmente, ora bolas! Ou, melhor, havia, sim, uma explicação bastante simples. Em casa, ontem, depois do expediente, chamou-o no quarto, e disse-lhe: -"Não te amo mais". Meio zonzo diante de tão inesperado comunicado, Amorim sentou-se à beira da cama do casal. Fulana, querendo comprovar que não estava para brincadeira, emendou: -"Quero o divórcio".
          O inusitado em tudo era o seguinte. Casara-se com fulana porque ela engravidara. Eram muito jovens, ela ainda menor. O senso de justiça do amigo prevaleceu: – fez questão de casar. Era uma questão de justiça e de honra para ele e, principalmente, para a jovem. Não seria capaz de deixá-la passar por tamanha vergonha.
          Havia, porém, um detalhe: – não estava apaixonado, não era apaixonado. Verdade seja dita: - não gostava da moça. Tudo não passara de uma aventura sexual adolescente que acabara mal. Apesar de tudo, agiu segundo seu senso de honestidade. Foram, então, às bodas.
          Durante os últimos dez anos viviam na paz e na festa, quando veio o que Amorim sequer supunha acontecer um dia. Tinha a mais absoluta certeza de que ela o amava e o amaria para sempre. Com a confissão da mulher, descobriu o que para ele revelou-se uma agradável mas tardia surpresa : – que a amava mais que tudo; que nos últimos dez anos seus olhos não enxergaram o que crescia em seu coração, o amor pela mulher com quem se casara sem sentimento algum. Justamente aí residia todo o drama.
          Terminado o relato do amigo, imaginei um sombrio prognóstico para seu casamento. Numa tosca tentativa de encorajá-lo, disse-lhe... Nem sei o que disse, mas, no fundo, sabia que era o fim. Uma mulher não se engana com essas coisas, pensei. Ficamos em silêncio alguns minutos e, após uns tapinhas nas costas, ele me abraçou e partiu.
          Foi doloroso lembrar que, vários anos antes, ele me procurara, um outro problema, justamente para desabafar e me relatar que a namoradinha engravidara e que ele iria desposá-la. Agora, a mesma namoradinha se despedia e partia, mulher feita, decidida, dona de si e de sua consciência, mãe de filhos, sem dar-lhe uma única chance, umazinha que fosse...