domingo, 20 de julho de 2014

AMIGOS: - TRIBUTO AO HOMEM SOLITÁRIO

          Por muito tempo valorizei os amigos. Imputava-lhes a mais elevada estima e consideração. Considerava serem eles a mais completa relação que se poderia ter. E por aí a coisa ia: ouvia e guardava-lhes os segredos; com cumplicidade encobria-lhes os erros e descalabros; resguardava-me de indiscrições incômodas; mantinha silêncio em seus momentos de introspecção e meditação; respeitava seus momentos de ira e zanga; alegrava-me imensa e verdadeiramente com seus sucessos; e sentia opressões no peito com suas desventuras e vicissitudes. E jamais pedia provas de amizade requerendo favores impossíveis. Guardava-me muitíssimo perto do amigo, mas tinha extremo cuidado a não interferir nos rumos de sua vida.
          Não direi que hoje lhes dou menor crédito ou valor, mas algo mudou, eu sei. Sim, já me faço a pergunta: quem é o amigo? Chamá-lo amigo verdadeiro seria um pleonasmo. Ou é amigo ou não é. A não ser que se queira dissertar sobre as mazelas da amizade paraguaia – que me perdoem os nativos daquela terra – permanece imutável e eterna a questão: quem é o amigo? Ele é o que está atrás da porta? Ou está na cozinha? Ou na casa vizinha? No trabalho? No meio da multidão? No cemitério? De fato, é possível que nem ainda tenha nascido, ou que more num país distante.
          Antes de tudo isso, julgava ser muito querido entre os amigos e pelas pessoas em geral. Por ser um sujeito dado às chacotas, pensava agradar a todos. Veio, então, o dia em que fui posto à prova. Com o firme propósito de sempre cultivar boas relações, me parecia inadmissível contrariar alguém de meu convívio. E o que aconteceu? Conheci o mau caráter. Dirá alguém que devo ser muito estúpido por ainda não o conhecer àquela altura de minha vida, mas essa é a verdade fatal. Ali, diante de mim, estava o mau caráter. Ora, eu tinha amigos que eram maus caracteres e não o sabia. Imaginava, em minha pusilânime e imperdoável inocência, que algumas pessoas, quase todas, o detestavam por ele ser um sujeito meio verborréico, meio fanfarrão. Ainda que me chegassem aos ouvidos histórias de suas canalhices diárias, eu o justificava de uma maneira ou de outra. Afinal, para que servem os amigos?
          Passei, então, a perceber que o mau caráter é exatamente assim: insidioso. Ele faz a patifaria, mas não se deixa ser visto. Aprendi, então, que o mau caráter tem uma de duas características, visto que são mutuamente exclusivas: ou todos o adoram, ou todos o detestam – exceto por um ou outro oligofrênico como eu. Conclusão: se todos gostam de mim sou, de alguma forma, mais um canalha a pulular por este mundo.
E foi justamente nisso que consistiu minha provação. Comecei a me trocar e a me indignar com pessoas que tinham comportamento reprovável com os doentes. Para minha felicidade, minha indignação me redimiu. Tenho ganhado, assim, alguns não-amigos. Inimigos? Não chega a ser o caso, posto que neste nível a morte de uma das partes passa a ser uma possibilidade bem definida.
Do campo profissional a coisa se alastrou para outros setores de minha curta vida. A essas alturas, tenho bem menos telefones em minha agenda, e a julgar pelo rumo dos acontecimentos, temo que já não seja mais necessário ter uma. Não que minha memória seja infalível, ou que eu seja a fina flor da perfeição e de modelo de caráter. Nada disso. Errar todos erram, cometer desatinos todos cometem. Somente a intensidade da tristeza que se instala no coração de um homem quando percebe seu erro ou prejudica alguém mede o seu valor e seu caráter. O resto é conversa fiada.

Fernando Cavalcanti, Rio, 04.01.1999 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A LUZ NO FIM DO TÚNEL

      Justo hoje conheci o Geraldo, o homem dos cinco casamentos. Há algum tempo escrevi sobre o amigo Chico e sua disputa ferrenha com a Liz Taylor. Se não me trai a memória, li outro dia que esta velha senhora estava para contrair núpcias junto a outro varão vigoroso; e vai deixando o querido Chico no chinelo. Justo ontem me entregam em casa a Veja com a matéria da capa que assegurava: “Casar faz bem”.
            Hoje, durante caminhada pela Avenida Beira-Mar, conheço, através de meu amigo João, o Geraldo. João muito dele já havia me falado. A propósito, essas caminhadas fazem bem ao físico por irem bem à fofoca, que é uma atividade apreciadíssima entre nós. A fofoca durante a caminhada aumenta a capacidade respiratória, o volume inspiratório final e a expansão pulmonar; e diminui o volume residual. Eu até diria que uma caminhada regada a fofoca equivale exatamente a uma corrida à média velocidade. O Geraldo já fora objeto de nossa fofoca. E ninguém teve o menor pudor em admitir: -“Esse aqui é o Geraldo, aquele dos cinco casamentos!”, soltou o João à língua frouxa. Geraldo abriu um sorriso amarelo. Depois soube que aquele sorriso embaçado não seria por constrangimento dos cinco casamentos. A razão era menos óbvia, e só vim a descobrir um pouco mais tarde, dali a alguns minutos: - Geraldo estava tão triste quanto um pavão ao olhar para os pés.
            Ora, se casar faz bem, o Geraldo entristecia-se por sua última separação, há três míseros meses. Fazia o maior sentido. Passei a pensar que o matrimônio faz tão bem, mas tão bem que, após cinco enlaces, o jeito era o Geraldo arranjar outro o mais rápido possível. Dir-se-ia ser feliz o Geraldo apenas e somente quando enfronhado em núpcias. Fora delas era um bolha, um trapo, um pano de chão. Geraldo, pelo que pude apurar, é desses varões estrogênio-dependentes, os quais não se contentam com pílulas e outros sintomáticos. Só uma coisa resolve: - a companhia de uma vistosa mulher vinte e quatro horas ao dia, sete dias por semana, trinta dias ao mês, com direito a mais um dia nos de trinta e um.
            João fazia considerações aqui e ali e, como a vir em socorro do amigo inconsolável, já confessava seu próprio e recente desgosto por ter flagrado a ex sua mulher com o atual namorado. Admitiu – uma corrente de frio lhe subiu a espinha à visão da cena. Definitivamente não lhe foi uma boa experiência. Também pudera!, assegurou: - não fazia sequer um ano do desenlace. Geraldo sorria o sorriso amarelento à intervenção cumpliciadora. Confessou mais: - tomava “remédios”. Foi quando o homem dos cinco casamentos mostrou a boca cheia de dentes – finalmente um sorriso aberto e legítimo para o fiel cúmplice de infortúnio. Cá entre nós – e baixamos a cabeça numa rodinha de três: -“Bebo todo dia!”, confessou o pobre diabo. E já desfazíamos aquele conluio público em pleno calçadão quando nos puxamos cada um pelo braço e, quase cochichando: - “E não cozinho, nem lavo, nem passo!” Concordância e cumplicidade geral: nem eu, nem eu, nem eu! Alguém – acho que eu – comentou: -“Lavo e enxugo a louça!” O Geraldo balançava a cabeça numa negativa veemente e raivosa, ainda que discreta.
            João sugeriu que o Geraldo se chegasse mais a mim. Segundo ele, sou um sujeito “bem relacionado”, conheço muita gente, e até os garçons gostam de mim. Geraldo sorria novamente como se enxergasse uma luz no fim do túnel onde, ao final, só haveria outra mulher e outro divórcio. E, ao que tudo indicava, por um desses lances mágicos do destino, justamente eu seria a luz do fim do túnel do Geraldo.
Sugeri começar apresentando-lhe os garçons. João queria que eu também lhe apresentasse as amigas. Ora, se lhe apresentasse as amigas, não demoraria muito e estaria casado. “Casar faz bem”, mas não ao Geraldo, quero crer. (Quase) todas as amigas querem casar, é ponto pacífico. Seria pôr as ovelhas sob a guarda do lobo. Ou seria juntar o pão e a manteiga numa combinação perfeita. Afinal, para que servem os amigos? O homem sofria cada vez mais a cada casamento desfeito. Seria possível que cinco mulheres fossem defeituosas e o Geraldo perfeito? Nem pensar em sugerir um psicanalista! O amigo era recente, podia mal interpretar a sugestão.
Se não eram os garçons nem as amigas, como a luz do fim do túnel ajudaria o Geraldo? Sugeri que, uma vez em casa, na solidão do divórcio, ligasse ao mesmo tempo a TV, o rádio, o liquidificador e que desse descarga nas privadas a cada cinco minutos. Mudei o intervalo de tempo das descargas tão logo percebi a gafe – tudo o que diz respeito ao algarismo ou número cinco lembra as cinco mulheres. Consertei: -“Dá descarga a cada sete minutos”. E fui além: - sugeri que, se as portas dos quartos rangessem, as abrisse e as fechasse, saindo de um aposento e entrando em outro. Aconselhei-o a abolir a música. Nunca, jamais, em hipótese alguma devia ouvir música. Música fala ao coração e o do Geraldo estava qual um pano de chão surrado e amarfanhado. A recaída seria inevitável. Portanto, música nem pensar! Ah! E ligasse o rádio à hora da propaganda eleitoral – nem sei se vai ao rádio – ou à Hora do Brasil. Melhor ainda: - se tivesse um antigo aparelho de som, poderia gravar a Hora do Brasil todos os dias, e ficar a ouvir o gostoso noticiário noite adentro.
E assim nos despedimos. Estava a brilhar a luz no fim do túnel. Do calçadão saí cheio de mim mesmo. Penso até em abrir um consultório de aconselhamento pós-matrimonial. Serei a luz do fim do túnel de uma penca de geraldos...!


Fernando Cavalcanti, 24.08.2010  

segunda-feira, 14 de julho de 2014

SEM OFENSA, MAS É CAGANDO E ANDANDO!

               Ontem encontrei nos corredores do HGF o meu querido Fernando Siqueira. Admoestou-me por não gostar de elogios. Falou que teve ímpetos de me escrever puxando-me as orelhas. Não é possível que um sujeito como eu não se permita um elogio por parte de terceiros. E quase entra a me elogiar, não fosse minha desconversação e minhas gargalhadas contagiantes. Não sabe ele que pior que o elogio por parte de terceiros é o autoelogio. Este é imperdoável. O sujeito que se elogia a si mesmo deveria ser preso ao tronco e levar cem chicotadas. Por não gostar de apanhar é que me atirei todos os adjetivos pejorativos de que dispus naquele momento. Admiti ser um canalha abjeto, um malfeitor, um conspirador, um sujeito sem eira nem beira. Não fosse tão pobre o meu conhecimento do vernáculo, mais adjetivos me daria.
                Ocorre que, outro dia, fui alvo de comentários pouco elogiosos por parte de um sujeito qualquer. Não tenho a mínima intenção, em represália, de denegrir-lhe o caráter ou a imagem. Por certo, ele é a fina flor da virtude. E, cá entre nós, qualquer um pensa o que quer. Já é passado o tempo em que me angustiava por querer me desculpar, ou me justificar, ou me explicar. E queria porque queria que as pessoas não pensassem isso ou aquilo a meu respeito. Buscava de todas as formas demonstrar-lhes que o meu ponto de vista era o correto, e sentia náuseas quando era contrariado. Como já disse, passou. Concluí que as pessoas escolhem o que pensar, como tudo na vida. Elas não percebem, mas a cada segundo estão escolhendo até o que sonhar. Escolhem como vão passar e como gastar o dia de amanhã. Escolhem aonde ir, o que vestir, o que fazer, o que não fazer, com quem querem estar, e assim por diante. A maioria acha que não, mas deveria saber que tudo o que lhe sobrevém é sua escolha. E também escolhem o que pensar. Portanto, preocupa-me hoje o que eu penso. Isso, sim, faz a diferença.
                Quando servi o Exército, o diretor do hospital militar me adjetivou, certa feita, de bisonho. E sabem por quê? Porque o deixei esperando ao telefone. Ele era tenente-coronel e eu era apenas um tenente. E por que o deixei esperando ao telefone? Porque o doente que chegara à emergência passava mal. Priorizei o atendimento ao doente. Ele, que se achava muito importante, se sentiu ofendido por eu o ter deixado esperando por mim, um reles tenente. Na cabeça dele o doente que se fodesse. Taxou-me de bisonho em plena reunião matinal dos oficiais. Gargalhada geral: - a horda de puxa-sacos queria agradar a autoridade máxima. Conclusão: - o tenente Fernando era mesmo bisonho. O doente que se fodesse. Nada disso mudou minha escolha. Escolhi atender o doente, e escolheria de novo. Eles escolheram pensar diferente. Fazer o quê? Na época eu não sabia nada disso de escolhas, mas depois percebi que tinha feito algumas. E querem saber? Fiquei envergonhado por ser bisonho. Hoje sei que o tenente-coronel "médico" escolheu o regulamento enquanto eu escolhi o juramento. Fazer o quê? Hoje sei que fiz a escolha certa dentro de minhas convicções. Talvez neste exato momento ele também esteja escrevendo um texto como este, contando suas memórias, lembrando do dia em que um tenente médico idiota o deixou esperando ao telefone para dar atendimento a um paciente que estava requerendo cuidados de emergência. E – ironia da verdura – minha inocência me fez escolher o que hoje julgo o verdadeiramente correto.
                Mas falo, e falo, e falo, e não vou ao ponto. O que eu queria dizer é que fiquei feliz por ser criticado por pessoa tão imbecil. Era recém egresso da residência de Cirurgia Geral e convivera com grandes nomes da Cirurgia do Ceará. Se eles me criticassem, eu estaria preocupado. Quem me criticava naquele momento era um energúmeno mentecapto. Em suma: - fiquei aliviado. Minha vergonha era da exposição. Fosse hoje eu faria como os bois da fazenda de meu amigo Feitosinha: - andando, e cagando, e mijando, e ruminando, e mugindo. É o que tenho feito. É uma questão de escolha.


Fernando Cavalcanti, 02.04.2008

sábado, 12 de julho de 2014

AMOR SÓ DE MÃE; ÓDIO TAMBÉM

                                                Casamento Suspenso

                Foi agressiva com ele. Queria saber por que demorara mais de uma hora do consultório até sua casa.
                -“Calma, minha filha!” - interveio o pai que estava no sofá e assistira a cena de ciúmes da filha com o noivo. O velho continuou: -“O doutor deve estar cansado. Passou o dia trabalhando.”
                Ele se explicou com o óbvio, não menos verdade: - o consultório terminara às sete. Eram oito agora. Pequenos afazeres, pagar a secretária, o trânsito. Nada que não se pudesse entender. Ela fora realmente grosseira sem a menor necessidade.
                O casamento seria dali a duas semanas. Os convites já haviam sido enviados, o buffet contratado e pago, o vestido de noiva pronto. Alguns presentes já entregues. Mobília comprada à espera no apartamento.
                A cerimônia religiosa seria conjugada ao casamento civil. Mas não na igreja, que a menina era pejada. Os padres se negavam. Iria um pastor protestante.
                Saiu da casa da noiva imerso em pensamentos indizíveis. A bem da verdade, não dormiu aquela noite. Revirou na cama atormentado. Os pensamentos foram partilhados com o pai, de manhã bem cedo:
                -“Vou cancelar o casamento.”
                O pai, homem velho e experiente, retrucou de supetão:
                -“Não achas meio tarde para tomar essa decisão?”
                Ele insistiu:
                -“Não tem jeito.”
                No dia seguinte, à noite, chamou o futuro sogro. Foi taxativo:
                -“Seu Fulano, não vai haver casamento.”
                O futuro sogro usou da paciência:
                -“É, meu filho... eu falei com a menina ontem, dei uns conselhos... acho que podemos adiar um pouco.”
                Ele cuidou que não ficasse no ar nenhum mal-entendido:
                -“O senhor não entendeu: - não vou mais casar com sua  filha. Nem agora, nem nunca.”
                O sogro endireitou-se no sofá e, olhando nos olhos do genro, fulminou:
                -“Em minha família não tem mulher descasada, moço. Ainda mais estando pejada. Em nossa terra  não aceitamos isso, não. Antes disso arranjamos a que se torne viúva, se é que o doutor me entende... ”
                “Paciência” - pensou ele ao sair, e sem mais nada dizer. Chegando à casa dos pais fez o comunicado definitivo. O pai sugeriu um descanso no interior, na terrinha. Ele, então, sumiu do mapa por uma semana, dez dias. Não atendia ao telefone, não recebia recados. E deu o assunto por encerrado.


                                             Jurado de Morte


                A menina não acreditou e surtou quando a mãe lhe deu a notícia da dissolução do futuro enlace. Literalmente rolou no chão em prantos e desespero, sob trajes íntimos. Dir-se-ia que nem Jó se maldisse tanto quando Deus permitiu ao demo lhe tomar toda a casa e filhos. Um espetáculo risível, não fosse lamentável ou ridículo; ou até por isso fosse cômico. Puxava os cabelos, e da cabeça saiam tufos  e mais tufos. Não se urinou não se sabe ainda por quê. A doméstica da casa se afeiçoara ao noivo e lhe telefonou para lhe participar o episódio fatídico. Há mais de vinte anos estava com a família. E aproveitou para fazer uma confissão de significado tremendo:
                -“Não case... Ela é doida, doutor!”
                No consultório, dias depois, recebeu um telefonema:
                -“O doutor não perde por esperar: vai aparecer com a boca cheia de mosca!”
                Recebia todos os dias recadinhos de conteúdo semelhante. Pelo sim, pelo não, resolveu se precaver e adicionou um trabuco ao conteúdo da mala. Um amigo sugeriu:
                -“Põe um bina no telefone, rapaz!”
                Ele, médico de cultura técnica, saltou surpreso: -“Bina? Que troço é esse? É de vestir ou de comer?” E o amigo foi explicar o que era um aparelho identificador de chamadas.
                Instalada a engenhoca, que à época era novidade, ficou à espera do próximo recado. Não tardou muito: - o sujeito jurou-lhe morte sofrida e lenta. Ele bateu o telefone e, com o número visível no aparelho revolucionário, tocou a chamada de volta. Disse a quem atendeu, num desses blefes medonhos, que sabia quem era, onde morava, o que fazia na vida; e arrematou:
               -“Quem vai aparecer com a boca cheia de mosca é você, cabra safado!” O sujeito desconversou dizendo não saber do que se tratava, e ameaçou ligar para a polícia e se queixar.
               –“Liga, que eu vou mostrar a eles a gravação de teus recadinhos"! O desconhecido bateu o telefone, e nunca mais o doutor recebeu jura de morte nenhuma.



                                                         Vingança na Filha


                Nunca permitiu que ele visse a filha. Afastou-a, desde o nascimento, do convívio paterno. Achava-se justificada pela vergonha que ele a fizera passar. Sofreria tudo o que ela sofrera. Mais: - a filha cresceria e seria educada à sombra do pai canalha, do pai ausente, do pai que a não criaria nem daria seu amor. Ainda que a procurasse em mais velha, seria rechaçado como um desconhecido, tal o ódio e o desprezo que plantaria em seu coração. Pintaria o pai em cores negras, monstruoso, hediondo, desumano. Dele só receberia o sustento.
                Anos mais tarde, tão logo a filha aprendeu a usar o telefone, ele tentou ligar para a criança que crescia longe de seu amor. Ouviu, então, uma voz infantil pronunciar frase que só adultos amargos  e repletos de ranço pronunciam:
                -“Não quero falar com você... Você me abandonou na barriga da mamãe.”
                As lágrimas desciam pesadas sobre a face do pai inacessível. O que fazer? Nada podia fazer. Não parecia haver um adulto próximo àquela mãe inconseqüente que a fizesse ver o mal que à própria filha fazia.
                Os anos endurecem o coração dos que sofrem, mas que ainda querem continuar a viver. Assim, ele se curou e se perdoou da culpa que não tinha. Hoje, aos 16 anos, a filha nunca conheceu seu pai, jamais gozou de seu amor; não sentiu a sua falta, não o chamou de pai. Obcecada em magoar o homem que a abandonou no altar, o que a mãe fez com sua filha?
                "Tudo passa sobre a Terra". Mesmo as tragédias que promovemos.


Fernando Cavalcanti, 12.09.2007

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A COPA DAS COPAS E O ÓBVIO DO ÓBVIO

               Falemos do óbvio. Ao contrário do que se pensa, faz um bem danado falar do óbvio. Por exemplo, nossa Seleção.
                Antes, porém, sou obrigado a confessar um pecado, o de há muito não acompanhar a vida futebolística do país e, acrescento, a vida futebolística mundial. Por isso me vejo instigado à uma nova confissão: - com exceção do Julio César, do Neymar e do Fred, não conhecia nenhum outro jogador do escrete brasileiro. Vi jogar o Marcelo no último jogo entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid. Deixou-me boa impressão, e não somente por ter feito um gol, uma “patada” do meio da rua. (Durante a Copa ele não acertou a “patada” que traria alegria aos fanáticos torcedores brasileiros.)
                Pois fora esses nomes, para mim todo o resto do plantel era de ilustres desconhecidos. Isso, como se pode facilmente inferir, não chega a ser uma tragédia nem mesmo para mim. A tragédia é a seguinte: - os jogadores brasileiros, que a mim se apresentaram nessa Copa do Mundo como desconhecidos, agora me são bastante conhecidos. Classifico uns como ruins e outros como medíocres. Na folha de São Paulo, há dois ou três dias, certo articulista argumentou que o Brasil jogou com que tinha de melhor; não havia alternativas; convocaram-se os melhores. A conclusão inevitável é a de que já não produzimos craques como outrora. O que antes era uma verdade inapelável e absoluta, hoje é um mito. Digo, fomos para a Copa crendo em mitos. No mundo real, na dura realidade dos fatos, a torcida brasileira acreditou no que quis e somente por isso chegou a vislumbrar a possibilidade do hexacampeonato mundial.
                Muitos estão a crucificar o técnico Felipão alegando que ele não montou uma equipe taticamente mais capaz. Querem com isso dizer que, apesar da ausência absoluta de craques – exceção talvez ao Neymar –, o treinador poderia compensar a deficiência técnica dos jogadores com um melhor esquema tático. Infelizmente, ou felizmente!, jamais saberemos se, uma vez isso feito, alcançaríamos de fato a vitória final. O máximo que se pode dizer sobre um esquema tático bem montado é que isso ampliaria nossas chances. Nada além disso. Mesmo bons esquemas táticos em seleções fracas e mesmo seleções fortes, entupidas de craques, já foram derrotados em Copas do Mundo. Imaginem uma seleção tecnicamente fraca e taticamente incompetente!... O que quero dizer é que o futebol é um esporte onde tudo pode acontecer, mesmo o mais inesperado.
                O problema é que, na Copa, apesar de uma competição de curta duração e poucos jogos, o número de jogos é alto o suficiente a não permitir que a sorte, ou o inusitado, ou o inesperado aconteça em cada um desses jogos, levando o bem aventurado escrete à vitória final. Acredita nisso quem quiser. Não se pode impedir uma multidão de acreditar no que quer, lastreada apenas em histórico de glórias passadas. Nossas grandes Seleções estão exatamente lá, no passado, incontestáveis e gloriosamente inolvidáveis. Na vitória ou na derrota, cobriram-se de glória. (Exceção talvez a ’98, cuja vergonha, pelo menos a mim, me acompanha como uma lúgubre memória...)
                Em ´50, por exemplo, não se culpou o escrete. Nossa derrota teve um nome: - Alcides Edgardo Ghiggia. Ele, aos 36 minutos do segundo tempo, calou as 200 mil almas presentes ao Maracanã numa partida em que o Brasil era o franco favorito contra o Uruguay, que precisava ganhar para ser campeão. Eles ganharam de virada. A perplexidade foi completa, mas o gol de Ghiggia pode ser visto como o evento inesperado e pontual que tudo muda numa partida de futebol. Ele foi o lampejo da equipe que estava preparada para “morder” de morte o adversário no momento crucial e decisivo.
                Não foi certamente o que ocorreu nesta Copa. Nesta a história já estava contada. Desde o início e progressivamente percebeu-se a enorme fragilidade da Seleção canarinha. Só não viu quem não quis; só não viu quem escolheu não ver; só acreditou noutra coisa quem escolheu acreditar noutra coisa. Essa, sim, é a atitude condenável do brasileiro médio: - escolher mal até mesmo no que vai acreditar. Ou, de outra forma, acreditar que sucessivos eventos fortuitos permitam chegar à vitória. Esquecem que isto simplesmente jamais irá acontecer. O resto é pura lucubração e conversa de bar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

OS ESCANDALIZADORES

         Podemos simplesmente supor a força de um paradigma. Nada mais, nada menos. E sabem por quê? Porque, de tão forte, não nos permitimos ao menos pensar sobre a possibilidade de sua revisão, de sua desconstrução, de seu desmonte. São crenças e modelos que, de tão misturados com nossa substância, fazem parte de nosso ser. São como um apêndice de nosso ser, como um braço, ou uma mão, ou nossa própria vida: - não nos vemos sem eles. Imaginemos o seguinte: - o sujeito não tem seu braço direito. Não mais tem algo que todos têm. Todas ou quase todas as pessoas têm braço direito, exceto esse infeliz.
​          O símbolo maior, entre nós, do impacto da perda de um paradigma é a morte. Escandalizamo-nos diante da morte. Nosso paradigma é a vida. A vida, mesmo diante da tão professada fé no além-túmulo, é agora. Não queremos arriscar trocar o certo pelo duvidoso: - o paradigma da vida é maior, bem maior, que o da fé. Se assim não fosse, não nos rasgaríamos em prantos escandalosos à beira das sepulturas. Então, sem guerras, sem catástrofes naturais, fomos poupados da visão diuturna da morte. Nem a violência que ora grassa em nosso meio, e que subtrai-nos inúmeras vidas em flor, nos amolece o coração para a resignação diante da existência da morte. Negamo-la até o fim, até a hora da campa aberta para as inumações diárias. Teimamos em não ver. Teimamos em manter o padrão, o modelo, o paradigma. O impacto de sua perda é aferido em nossos velórios e vigílias, em nossas missas de corpo presente, quando da selagem das lajes que cobrem as sepulturas, em nossas torturantes, vazias e superficiais missas de sétimo dia. Tanto negamos a morte que não nos debruçamos sobre o morto e seus direitos. Voltamo-nos ao vivo, ainda que assassino. O morto escandaliza a família eternamente. A sociedade, ao contrário, tem pressa em esquecê-lo, em omiti-lo, em negá-lo: - o morto é um escândalo e como tal deve ser camuflado, escondido. A abreviação de seu post mortem atende nossa ânsia pelo paradigma da vida. Ao assassino voltamo-nos para garantir-lhe a vida: - ele está vivo, é a essência de nosso paradigma. Não importa que se lhe impute a culpa. Nosso paradigma é a vida, é o vivo, é o que pulula. O morto nos aflige, nos agride, quebra nosso paradigma. Por isso nos insulta, nos desonra, nos desrespeita.
          ​Da mesma forma, torna-se menor o que perde o braço, ou a mão, ou a perna. Quebrou o paradigma. Ousou desatender o modelo. Tudo o que merece é a esmola do assistencialismo humilhante que se lhe impõe.
​          Da mesma forma, é nada o que envelhece entre nós. Deve contentar-se com a migalha da gratuidade do transporte público, enquanto seus filhos, netos e bisnetos lhes roubam a miserável pensão que recebem por ter envelhecido. Envelhecer é, para os afortunados, o estádio a anteceder o evento derradeiro que, para nós, é vergonhoso: - morrer. Por isso merecem as migalhas e os furtos. Não devem reclamar. Eis a verdade sobre nós.
​          Por tudo isso é que se escarnece também dos que quebram os paradigmas que vigem durante a vida. Assim como são em menor número os que perdem membros, também é minoria os que quebram rígidos paradigmas. Também estes sofrem as dores das recriminações, por ousar. São vítimas dos olhares de esguelha que lhes punem impiedosamente a audácia. São objetos de adjetivos indizíveis e de classificações absurdas. São alvos de dedos que lhes apontam às costas e de orações que suplicam seu fracasso e derrota. São-lhes imputadas todas as culpas, todos os males que se abatem sobre quem quer que seja. Estes, os ousados ruptores do status, causam pavor em reles mortais. São como a morte, mas representam a vida, tal como nunca se aventou vivê-la. São eles que vivem a vida que ninguém vive. São eles os arautos da liberdade incondicional. São eles os que terminam por dominar aquelas coisas que dominam os reles mortais - o medo, a dor, o amor, a paixão, o orgulho, o dinheiro, a terra e o ar. Acima de tudo, dominaram-se a si mesmos. Esmagaram seu inimigo mais feroz: - seu próprio senso de impossibilidade. Por isso escandalizam. Por isso são temidos.
          Ainda assim, e por isso mesmo, deles escarnecem. Zombam de seus feitos e ainda têm a criatividade de lhes imputar maldade no que fazem. Sob sua estreita fenda de visão da vida, medem-lhes as intenções e atitudes. Seu juízo implacável esconde-lhes o pavor de encarar a vida menor que levam, em seus pequenos compartimentos seguros de suas lúgubres zonas de conforto. Taxam-lhes de loucos, os que ousam romper as barreiras do lugar-comum. Dizem-lhes: -“Não conseguirão!” Torcem contra eles, põem-lhes olho gordo. A sorte destes está na escassez daqueles. Querem, por vezes, parecer que estão a romper os elevados muros de seus pobres domínios, mas só encontram guarida entre outros mais escandalizados. E assim seguem a viver suas parcas vidas para o bem dos que ousam – não há mesmo lugar para todos nos tronos de uma vida plena.
          Escandalizar pelo desmonte de um modelo serve para nos ensinar e alertar que há algo mais e maior que os lugares-comuns do dia a dia, e que tudo é possível se derrotarmos os monstros da vaidade pessoal, da autoestima sem humildade e do egoísmo. Quem o quiser fazer, ouça, leia e imite os “loucos” escandalizadores, não sem antes manter a mente aberta. Não há escolas para esse fim. As que existem ensinam apenas os modelos seculares, os mesmos que se querem desfazer.  

Fernando Cavalcanti, 11/08/2009

terça-feira, 8 de julho de 2014

ANACORETA!

          Tenho sido nos últimos tempos - ou por coincidência, ou por capricho do destino, ou por propósito dos que dizem me amar – alvo passivo de fenômeno preocupante. Tal fenômeno, longe de me excitar os brios científicos - que sou da estirpe que aprecia o estudo dos fenômenos naturais - está cada vez mais a me encher ora o saco, ora a paciência, quando não ambos.
​          Como bem deixa transparecer em seus escritos o meu querido amigo Fernando Cavalcanti, sou dos sujeitos reservados, frugal, e – devo dizer – entre um rega-bofe e uma boa leitura, fico com a leitura. Já se foram os anos em que me dava às patuscadas e aos prazeres da carne. Hoje, casado, faço das tripas coração para fugir das tentações mundanas. Não me converti a nada nem a religião qualquer. Prefiro viver intensamente a vida presente, já que a morte não tem turistas – de lá ninguém voltou para recomendá-la. Assim, hoje a intensidade de minha vida está entre os livros e o trabalho. Permito-me uns tragos à noite, vez ou outra, sem exageros, e em companhia da mulher. Mesmo os amigos tenho-os em pouca monta. Em suma, levo uma vida pacata, reservada, tranqüila. E é justamente aí que me apoquenta o demo, que este há de existir mesmo na ausência do Paraíso.
​          Vejam vocês o que ocorre: - tenho sido uma vítima constante dos convites. Além dos habituais atropelos do dia-a-dia, tenho tido que aturar o cerimonial dos malditos convites. É convite para casamento, convite para aniversário, convite para homenagear não sei quem, convite para bodas de prata de dois doidos insistentes, convite para bodas de ouro do vovô, e assim por diante. Eu – em minha abissal paciência – diria que até aí tudo bem, é tudo normal. A vida em sociedade tem dessas hipocrisias institucionais. Que se há de fazer? É preciso um mínimo de tolerância, reconheço.
          O que me leva no momento ao desespero, e já me preocupo de querer fazer uma besteira, é o objeto do último convite do qual fui vítima: - o aniversário de 1 ano de um primo em segundo grau de minha mulher. Eu, do alto de meus cinqüenta e tantos anos, estou sendo pressionado diuturnamente a comparecer a esta festa inenarrável. Querem, exigem, decretam que abdique do direito de ficar comigo mesmo para estar na jubilosa festa. Dizia outro dia o Fernando Cavalcanti que vivemos a ditadura da criança. E é verdade: - a criança já percebe sua hegemonia assim, bem cedo, na primeira festa de aniversário. Daí para a dominação total é um pulo. No caso em questão, é bem possível que já esteja eu às portas da morte quando esse fedelho virar gente, sendo bem provável que mande à merda quem o exigir que me vá aos funerais. Sequer lembrará que estive em seu primeiro aniversário, e que lá estive a soprar bexigas e tomar refrigerante. Ver-me-á como um velho caduco e banguela.
          Eu, por considerar o saldo do estoque de minha vida em notável queda, regozijo-me em minha própria companhia, com meus próprios afazeres. Depois dos quarenta, dizia o saudoso Casoba, qualquer quarto de hora faz falta. Então, escolho não ir aonde não quero ir. Resta-me estar disposto a pagar o preço: - ouvir da mulher a lengalenga, pacificamente, até que se vá a pilha.
          Consultei meu mais experimentado guru nestes assuntos matrimoniais, o meu querido Cavalcanti, que foi sumário: - devo receber a visita inesperada de um amigo meia hora antes de sair para a festa. Segundo seu estratagema, devo já estar todo paramentado, somente esperando a maquiagem da mulher. Chegando o amigo, mando-a na frente para ir em seguida, já que não é educado ausentar-se na presença de visitas. Não há como falhar. Não levo culpa alguma. A culpa é do amigo mal-educado, que vai à casa alheia sem avisar.
          O próprio Cavalcanti se apressou em escalar-se para a honrosa tarefa. Topei na hora, com uma condição:- que também ele se vá tão logo saia a mulher. Ele, sem papas na língua bem ao seu estilo, fuzilou: -“Seu anacoreta"!...E fui consultar o dicionário antes de mandá-lo à puta que o pariu.

Amorim, 19.08.2009  

BAHAMAS E VICTORIA SECRETS

          Estava em São Paulo para o congresso. Era um ás da medicina, um figurão, um pica-grossa, no dizer popular. Médico de renome. Conhecidíssimo por aqui. Não ia palestrar, mas queria saber das novidades científicas, conversar com os pares de alhures.
​          Queria chegar um dia antes, instalar-se no hotel, descansar da viagem e da semana de trabalho. A mulher chegaria dia seguinte ao meio-dia. Reservara quarto de casal.
​          À noite foi ao Bahamas, lupanar de caras e belas catirinas. A mulher andava surtando. “É bipolar!”, diagnosticava. Nada melhor que uma folga de poucas horas de sua convivência. Sim, o Bahamas seria ótimo! Além disso, notara: - a mulher só surtava no cartão de crédito. E ele que pagasse. Contas caras, dez, quinze mil. Na fase depressiva não dava. Trancava-se no quarto três dias. Ele que se virasse. Sem dúvidas, o Bahamas vinha bem a calhar.
​          Lá chegando se engraçou com uma das meninas. Era lindíssima, perfeita, um espetáculo, em suma. Queria saber quanto cobrava. Ela foi categórica: -“Seiscentos e cinqüenta a noite!” Ele quis negociar. Que deixasse por trezentos e cinqüenta. Era residente de cirurgia no Ceará. Ganhava pouco. Viera ao congresso aprender. (Em nenhum momento temeu ser denunciado pelas cãs.) E durou quase uma hora tentando convencê-la.
​          Até que, finalmente, ela concordou. Quis saber do hotel. Ele não podia mentir: -“Caesar Park!” Ela o fitou nos olhos, indignada: -“Residente de cirurgia do Ceará que nada! Caesar Park!” Ele saiu a argumentar numa seriedade desconcertante, dado o exaspero: -“Mas, meu amor” – já era íntimo da pequena – “quem está pagando é o hospital!” E passou-se mais meia hora até ela acabar por concordar novamente.
          ​No hotel foi tudo uma delícia. Três horas de sexo mais tarde, ela anunciou que era chegada sua hora de partir. Ele, que sempre gostava de sair no lucro, pediu que antes de sair lhe fizesse uma massagem. Ela não se opôs, e sacou da bolsa um desses hidratantes cujo odor apela aos mais lascivos pensamentos. Pondo-o de bruços, espalhou-lhe o creme por todo o corpo enquanto o massageava.
          ​Dormiu como um santo. Acordou tarde. Tinha pressa em assear-se. Queria assistir ao congresso. Mas, ao dirigir-se ao banheiro, passou a perceber no ar os olores do creme da pequena. Pior: - sentia-lhe o cheiro agradável no pijama. Despiu-se e o levou ao nariz, primeiro a parte de cima, depois a de baixo. Queria saber de onde vinha o cheiro do pecado. Concluiu sem sombra de dúvidas: - era de ambos.
          ​O relógio marcava quase nove e meia. A mulher chegaria ao meio-dia. Correu ao telefone e chamou a recepção, solicitando a troca do apartamento. Não seria possível, o hotel estava lotado. Pediu, então, que lhe enviassem a camareira com a máxima urgência. A moça chegou logo depois. Foi logo dizendo: -“Huuummm, doutor! Victoria Secrets!” Ele entrou em pânico, ainda que não fosse possível se perceber. Seu coração vinha à boca. Puxou uma nota de cinqüenta e ordenou à jovem que limpasse tudo e instilasse no ar tudo o que fosse possível para remover o cheiro do Victoria Secrets. E rápido!
          ​Ela deu conta do serviço, enquanto ele desceu ao desjejum. Com efeito, não se sentia mais o cheiro lúbrico do creme. Súbito, lembrou-se do pijama. Enviá-lo à lavanderia do hotel levantaria suspeitas na mulher, tinhosa por sabedora da peça com quem casara. Decidiu: - ele mesmo o lavaria ali, no banheiro do quarto, e o secaria à luz do abat-jour e à saída do condicionador de ar.
​          Meio-dia em ponto chega a mulher. Dali a pouco, mexe daqui, mexe dali, e encontra a calça do pijama ainda úmida. Quis saber. Antes de responder, por uma fração de segundo, pensou: “Mulher é um bicho que tem pacto com o demo!” Sofria de colite. Vez ou outra se esvaía em diarréias humilhantes. Acontecia com freqüência em viagens.
          ​-“Pois é, minha filha... eu não ia lhe contar. Mas, já que você perguntou, o que aconteceu foi o seguinte. Hoje ao acordar, deu uma daquelas vontades inadiáveis de correr ao banheiro. Você me acredita que não deu nem tempo??!! Tive uma daquelas que sai por cima e por baixo. O jeito foi lavar a roupa aqui mesmo. Tive vergonha de mandar a roupa à lavanderia...”
          ​Fazer o quê? Se farejou a essência delatora, guardou a impressão para si. Virou-se e abriu o refrigerante que tinha à mão. Pelo menos o quarto não cheirava a fossa.

Fernando Cavalcanti, 17.09.2009  

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O PLANO "CONSULTA ZERO"

          Ligou-me ontem à noite uma amiga para uma consultoria. Queria que eu a ajudasse a encontrar um neurologista que atendesse sua amiga em seu consultório particular. Hoje pela manhã fiz o que ela pediu. Indiquei um excelente neurologista a uma consulta no valor de duzentos reais. Ela deu um pulo: -“Nossa! Que coisa cara!” Eu, que sou terminantemente contra pechinchar a um prestador de serviço, retruquei calma e polidamente: -“Pelo contrário. Está muito barato!” E saí a enumerar os benefícios que a senhora sua amiga teria por fazer esta consulta. Coloquei-me à disposição caso ela necessitasse fazer exames complementares: eu os conseguiria no serviço público. Assim, ela não gastaria mais do que os duzentos reais.
​          Hoje vi no noticiário o lançamento, por parte de empresas que vendem planos de saúde, de um novo produto: o plano de saúde ambulatorial. É basicamente o seguinte: o sujeito tem direito a consultas e exames simples (sangue, urina, raios X simples, etc.), e mais nada. Vejam bem: mais nada. Se precisar de uma tomografia, não vai ter tomografia. Vai ter de se dirigir ao serviço público. Presumo que o valor da consulta pago aos profissionais que atendem esses pacientes seja o mesmo que é pago quando os profissionais atendem pacientes que têm planos que dão cobertura mais ampla. Para os profissionais médicos não muda nada. Vão ganhar seus quarenta, quarenta e cinco reais brutos e estamos conversados. Esses planos estão sendo vendidos a trinta e cinco, quarenta reais. Quem os comprar vai pagar uma mensalidade nesse valor.
          Para a consulta com um médico há o limite de uma consulta/mês por profissional, como nos demais planos. Limitam-se as consultas com outros profissionais da saúde a seis consultas ou sessões por ano.
          Sabe-se que o maior volume dos gastos em saúde é originado por exames complementares, sejam exames caros ou não. Sabe-se que esses gastos têm uma relação direta com a qualidade da consulta médica: quanto mais mal-feita a consulta, maiores os gastos com exames complementares. Entenda-se mal-feita a consulta em que não se estabelece uma relação de confiança e afetiva entre o médico e o paciente. Sem ela, temos dois inimigos potenciais frente a frente, prontos para o litígio caso haja o menor e mais insignificante deslize ou mal-entendido.
          Os médicos justificam a consulta mal feita por ganharem pouco. Precisam fazer volume de consultas: mais e mais consultas por mês. Atendem em série. Para atender às demandas de seu status correm o dia todo. Operam à noite e à madrugada, quando deveriam estar repousando ou se relacionando com a família e amigos. Vendem todo seu tempo à profissão num ciclo perverso. Fazem-no por dinheiro. Perderam de vista a missão.
Por um curtíssimo período de tempo a profissão médica no Brasil gozou de elevado respeito e reconhecimento, materializados em larga pecúnia pelos pacientes e suas famílias, aos notáveis clínicos e cirurgiões de outrora. Os diagnósticos eram clínicos. Quando se é bem pago, tem-se em vista a missão e esquece-se o dinheiro. Do contrário, esquece-se a missão. Perde-se o contato com a voz interior. Isso não deve ter durado mais de cinqüenta ou sessenta anos, quero crer.
          Aos poucos, com o sucateamento das instituições públicas de saúde, o aviltamento do salário do médico e dos profissionais de saúde servidores públicos e os crescentes custos com a saúde, aliados a políticas incompetentes para a prevenção de doenças e educação de qualidade, chegou-se onde estamos hoje. A violência crescente, a princípio uma epidemia, tornou-se endêmica e passou a constituir um ônus a mais para a saúde pública. Não é possível vislumbrar uma solução para esse estado de coisas em pelo menos uma ou duas gerações. Minha geração estará morta e esse estado de coisas ainda estará a viger, pela simples constatação da ausência completa da implantação das medidas sérias e necessárias que trarão a solução de todos esses descalabros. De fato – triste constatar – caminhamos em direção a eles, quando deveríamos tê-los evitado.
          Nossa petulância e tola vaidade nos levam a vibrar com resultados pontuais, como o programa que controla a SIDA e os transplantes. Transplantamos muito porque permitimos que nossos corações, fígados, rins e córneas se deteriorem com as doenças que deveríamos prevenir ou controlar. Transplantamos muito porque nossos jovens estão sendo trucidados em nossas ruas pela violência crescente, enquanto pagamos as multas que em nada mudam o cenário. Enquanto não se chega ao empedernido coração do homem pela educação e vislumbre da arte que o amolece, pode-se elevar o valor das multas que nos cobram: nada vai mudar. Nossas tolas autoridades seguem a colher os louros políticos de seus parcos feitos com a anuência de nosso pobre de espírito povo. Por quanto tempo durará esse esdrúxulo pacto?
          Fica claro, em ralação ao plano de saúde ambulatorial, que alguém teve a brilhante ideia de inventar uma solução para os elevados preços dos outros produtos. Certamente muitos o comprarão. Quando lhes apertar a necessidade de outros serviços, como internação e serviços de terapia intensiva, é provável que procurem algum direito que não têm. E nossos noticiários venderão muitos jornais com o imbróglio.
          Então, pergunto aos entendidos em planos e gestores de saúde: por que, em nome de Deus, não permitem a venda do plano de saúde que, a meu ver, pode resolver a mal feita consulta e os gastos maiores dos planos de saúde? Esse plano dá direito a tudo o que o paciente necessitar, exceto a consulta médica. Por que ninguém tem essa brilhante ideia? O que a faz parecer tão fora de propósito? Se não for um impedimento legal, o que falta? E se a lei o proíbe, por que não proíbe que se faça o oposto, esse tal de plano ambulatorial?
          Meus caros amigos, sou um sujeito burro, um energúmeno, um mentecapto, um troglodita. Preciso, necessito, imploro que alguém aí saia em meu socorro e me convença – porque sou teimoso, e não engulo as explicações superficiais – de que tal plano é inviável ou exclua algum cidadão brasileiro que tem a saúde garantida pela Constituição.
          Com a reclamação de minha amiga quanto ao preço da consulta, caí em mim. Por que a paciente iria ao neurologista? Ela precisava mesmo era de um excelente clínico geral. Quem está doente precisa mesmo é de um clínico geral. O clínico geral é “o médico”. Mandei-a procurar o meu querido e competentíssimo amigo e compadre Chico Heli, médico de alma branca e cuja missão ainda lhe espicaça o espírito. Cobrou setenta reais a consulta. Eis aí a beleza do plano “consulta zero”: cada um põe o preço sobre a mesa. O cliente escolhe o que lhe for mais conveniente. E quem cobra presta o melhor serviço. Suspeito que a amiga de minha amiga não vai precisar fazer exame algum ao sair do consultório do meu Chico Heli. Ele adora ajudar os outros. Essa é sua missão. Como vocês acham que ela se sentirá ao sair de lá?

Fernando Cavalcanti, 11.09.2009

quinta-feira, 3 de julho de 2014

LÚBRICO ARDIL

          Há de chegar o dia em que nada de novo se verá sob o sol. Ou não?
          Cresce em elegância a ciência que ensina que tudo o que ocorre, todo o fato, todo evento é um acontecimento ao acaso. Não há causalidades, nem determinismos. Esse aparente caos explica, por exemplo, porque um time de futebol ganha não por ser melhor que o adversário, mas por ser o resultado de cada partida um evento fortuito.
          Paul Davies em seu “Os três últimos minutos”, conjecturando sobre como serão os momento finais do universo em que vivemos, especula que todas as alternativas de uma possibilidade ocorrer serão fatos mais cedo ou mais tarde, porquanto o enorme tempo em escala universal assim permite. Para nós, que vivemos setenta, oitenta anos, não é assim – não há tempo a que tudo aconteça conosco. Nunca viveremos a experiência de todas as possibilidades. Não temos tempo. Assim, em termos universais, nada de novo se verá, exceto, talvez, as singularidades do início e do fim de tudo, e o excêntrico e temido buraco negro, outra singularidade. Dito de outro modo, podemos ser vítimas ou premiados do acaso, a depender do julgamento que se faça.
          Vejam vocês o Amorim. Tenho notícias dos diversos fatos dos quais foi personagem central. Entendam: - ser personagem principal de uma cena, ou de um engodo, ou de um acontecimento, não faz de ninguém exceção do acaso. É justamente o oposto – o acaso nos põe no lugar certo e na hora certa. Devo dizer que é também obra do acaso quando estamos na hora e no lugar errados. Então, conto o acaso que sucedeu e depois julguem a posição do Amorim, segundo lhes pareça.
          Um amigo lhe bate o telefone e o convida a vir a sua casa tomar um uísque, jogar conversa fora, ouvir boa música. Era noite de sábado, e o cearense da capital não gosta muito de sair no sábado. Prefere a sexta. Aos sábados muitos restaurantes já estão fechando à meia noite. Para uma cidade de quase três milhões de almas, tal constatação deve sinalizar algo. Entretanto, para um convite desses não há escapatória.
          Amorim foi-se abancando na sala de estar entre almofadas e lucivelos. O amigo serviu-lhe uma generosa dose de um legítimo escocês, sua bebida preferida. Punha-lhe uma mísera pedra de gelo, hábito que adquirira para evitar os assédios da mulher a lhe repreender as tendências alcoólatras. Dizia: -“É pra enganar a torcida!” Por ele não punha nada. Dali a pouco chega a dona da casa, em trajes que Amorim julgou um tanto afoitos. Não deu muita importância, apesar de a idéia lhe empertigar o juízo por alguns poucos minutos. Podia vestir-se como quisesse. Afinal, era a patroa.
          Amorim pensava ter ouvido o amigo dizer algo sobre ter convocado mais pessoas para o sarau, mas já estava ali há quase hora e meia e mais ninguém aparecera. Como apreciava uísque em demasia, a garrafa já lhe ia pela cintura. Na mesma proporção, não ligava se viria ou não mais alguém, ou se o amigo resolvesse pô-lo para fora na intenção de namorar a mulher, para quem já olhava com olhos de cachorro esfomeado.
          Súbito, vira-se o amigo para ele e pede licença – ia sair para comprar uma pizza. Nada tinha a oferecer. Esquecera este importante detalhe. Amorim não era dado aos prazeres culinários, de modo que o amigo se justificou com a própria fome. Amorim parecia um faquir bem nutrido de quase nada que comia, ao passo que o amigo, ao contrário, faria um excelentíssimo rei momo. A mulher transitava ali e acolá no pequeno apartamento, e veio sentar-se ao lado de Amorim tão logo o marido fechou a porta da feira atrás de si. Era notório que o uísque já lhe bolinava o juízo, pois que se aproximava ainda mais.
          Tudo foi muito rápido.
          A mulher e Amorim, seminus na sala, naquele tipo de sexo que permeia as fantasias mais eróticas da raça masculina, aos suaves acordes bossa nova, sob a luz trêmula de uma vela de chama bruxuleante - eis o quadro. Molhavam-se de beijos carnívoros e línguas serpentes, a se entrelaçar em bocas abertas devoradoras, ávidas de engolir o outro na sede daquele tesão insaciável. As mãos perdidas buscavam os botões, os fechos, os laços e cadarços, para depois sumirem entre pernas e gemidos. Ali mesmo no sofá. Ali mesmo na sala. Ali mesmo na casa do amigo, com a mulher do amigo.
          De repente, sem querer, ainda que a luz fosse pouca e o álcool embaçasse a visão, Amorim enxerga o marido, o amigo, parado por detrás da cortina ao lado da porta, a observar. De um salto, como atingido por descarga elétrica, Amorim se esquiva daquele corpanzil já a sentir os efeitos brochantes do medo e da vergonha, tentando ao mesmo tempo esconder com as mãos o sexo a meio mastro. Respirava sôfrego, em espasmos, e transpirava como se o sol estivesse a pino sobre ele.
          Ia balbuciar algo, mas o amigo, saindo do esconderijo improvisado e sem nenhuma pizza nas mãos, foi logo tranqüilizando: - “Calma, meu irmão... Pode continuar a lambança. Aqui não tem monotonia, não. Nós apreciamos”...
          Os dois são amigos até hoje e, vez ou outra, Amorim sai a visitá-los em noite de sábado – tomar um uísque, jogar conversa fora, ouvir uma boa música...
          De fato, nada há de novo sob o sol. E o acaso pode vir a ser só mais uma estranha combinação de felizes, ou funestas, coincidências.

Fernando Cavalcanti, 06.10.2009