quarta-feira, 27 de agosto de 2014

ONDE OS MENDIGOS AMAM

          Os amigos são aqueles cujas orelhas puxamos e ainda assim de nós não guardam mágoa. Óbvio é que a eles é também permitido o ato repreendedor, quando necessário. A amizade é uma via de mão dupla, bem como qualquer relação interpessoal saudável. 
          Pois quem viu, viu. E o que viu? Viu-me dar uns bons puxões de orelha no João, o João Milton Cunha de Miranda. Faço um breve resumo a fim de pôr os leitores a par do caso. Foi o seguinte.
          O João saiu de Fortaleza, no Brasil, e desceu do avião em Paris. (Ontem mo confessou pessoalmente: - levava consigo uma expectativa elevadíssima sobre a Cidade Luz.) Poucas horas após o desembarque está o João a caminhar pelas ruas da capital francesa. E o que vê? Respondo: – vê pessoas a mendigar pelas ruas da bela cidade. Segundo ele, uma penca de mendigos. Pouco depois, o João passa a ouvir. E o que ouvia? Ouvia alguém dizer, uma pessoa de seu grupo ou um outro brasileiro desgarrado a perambular, que havia furtos em Paris. E não somente furtos: – havia muitos furtos em Paris. 
          À noite, presumo, no hotel, o João se vale do computador pessoal e escreve na rede social tudo isso. Que Paris tem muitos furtos, que furtam lojas e pessoas; que bateram a carteira de alguém; e que há muitos mendigos nas ruas. Enfatizou tanto a ladroagem parisiense que chegou a supor: –"Paris deve ser a cidade do mundo onde mais se furta"! Eu, que lá já estive, ouvi falar de furtos e, confesso, conheci uma pessoa, um brasileiro, que teve sua bagagem furtada na estação de trens. Mas nunca, até então, ouvira falar de tantos furtos. Assim, causou-me estranheza a elevação – ou seria o rebaixamento? – de Paris ao posto de cidade onde mais se furta no mundo.
          Foi quando caí em mim e, em meu espanto, lembrei-me de que estive há um ano por lá e nada ouvira nem presenciara nas ruas fatos que corroborassem o que João estava a dizer sobre tamanha quantidade de furtos. E, sim, vi mendicância. Ainda por lá, deitei ao papel algumas impressões que, de fato, a relevam de todas as formas. Para se ter uma idéia, concluí, em suma, que é melhor ser cachorro em Paris do que ser gente em Fortaleza (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2013/07/sobre-caes-e-mendigos-parisienses.html). E por que relevei a mendicância parisiense? Resposta: – por tudo o que é Paris e por tudo o que não é Paris. Eis aí tudo.
          Pois de tanto ler o que escreveu o João na rede social "contra" Paris é que, da mesma forma, deitei ao papel as minhas impressões sobre o óptica de meu amigo. Nem me dei o trabalho de dissertar sobre o que é Paris, visto que ela é universalmente conhecida. Seus méritos são infinitamente superiores em número e grau a seus deméritos. Tratei de deixar claro aquilo que é dessas obviedades mais contundentes: –  Paris não se assemelha, nem minimamente, à nossa pobre, sofrida, aterrorizante e miserável Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/08/fortaleza-igualzinha-paris.html). E por que fui impelido a fazê-lo? Porque pelos relatos de meu querido João, repito, "Paris seria a cidade do mundo onde mais se furta". E mais: – porque, ao invés de ocupar-se de Paris, devia o João e todos nós pobres fortalezenses ocuparmos-nos de Fortaleza. Falou o meu amigo que lá está a ocorrer um "processo social complicado" que seria, em sua óptica, "irreversível". 
          Após a publicação do texto, João, no afã de provar sua tese, utilizou-se de vários relatos sobre a mendicância em Paris e de um único relato sobre os "batedores" de carteira parisienses, os chamados pickpockets. Em resumo, ao que parece há infinitamente mais mendigos do que pickpockets em Paris. E, coisa curiosa, como são doces e pacíficos os mendigos parisienses! Quase não falam. E não pedem. Põem a caixinha ao lado de si e dizem, à aproximação de alguém que olhe para eles: –"Bon jour, mademoiselle"...; ou: –"Bon jour, monsieur"...
          Assim, conclui-se que o mendigo parisiense ama, ao passo que o ódio grassa impavidamente em Fortaleza. Peço, então, encarecidamente e humildemente que – agora, sim! – o João faça uma profunda análise sociológica do que está a ocorrer aqui conosco. Se ele conseguir explicar por que se odeia tanto por essas paragens, prometo não mais puxar-lhe as orelhas, como tenho feito.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

FORTALEZA IGUALZINHA A PARIS!...

          O brasileiro é tudo. É médico, é advogado, é técnico de futebol... Observe-se que esse entendimento do tudo e de tudo é, como acabei de dizer, próprio do brasileiro. Diria até que ele já nasce sabendo a tabuada da raiz quadrada e a solução da equação do décimo primeiro grau. Ou seja, o brasileiro é, de todos os povos, o mais capaz e o mais inteligente. E mais. O brasileiro, quando viaja, seus meros e parcos 10 a 15 dias percorrendo zilhões de lugares, faz profunda análise sociológica das sociedades com as quais tem contato. Foi o que deduzi a partir da viagem recente de um amigo.
          (Não sei se diga quem é o amigo, mas minha vontade é confessá-lo sem dó nem piedade. Será que digo? Não sei... Acho que não direi... Pensando melhor, não há porquê omiti-lo. É bem provável até que ele queira que suas análises ganhem o mundo e sejam do conhecimento geral. Pois bem: - é o meu amigo João Milton Cunha de Miranda.)
          Eis que o João subiu aqui num avião e cruzou o Atlântico. Foi bater na capital francesa. Após algumas poucas horas, em seguida a um tour pela belíssima cidade, saiu o João a publicar, na rede social, seu parecer sobre a urbe.  
          "Paris deve ser a cidade no mundo que mais se furta. Muitas pessoas com muitas histórias de subtração de dinheiro por mágicos, ninguém sabe, ninguém viu. Apesar de alguns amigos postarem conceitos de cidadania do Brasil e da França, não vou entrar nesse mérito por questões históricas e óbvias.(?) Mas me causou extrema decepção social ver a França, desenvolvida e rica, com bandos de pedintes, moradores de rua e ladrões". (A interrogação é minha dada a completa incapacidade de entender o que quis dizer o amigo.)
          "Os prédios e os telhados são bonitos e maravilhosos, mas a cidade passa por um processo social complicado, eu diria irreversível"! (Novamente?)
          "Semana passada postei sobre o meu desapontamento com a quantidade de moradores de rua e pedintes de Paris, alguns amigos especialistas em assuntos franceses divergiram da minha análise, fato que não tem o menor problema, mas coincidência ou não a França acorda com uma reforma ministerial que atinge diretamente a área econômica"!
          A rede social é, como se costuma dizer, um espaço democrático, onde todos dizem de tudo e opinam sobre tudo. Assim, alguns amigos de João não se contiveram e fizeram contribuições à sua "análise".
          Certa senhora disse: –"... e fedorentos (referindo-se aos franceses), pois não gostam de tomar banho; por isso os perfumes são os melhores do mundo. Todos os turistas comentam que os franceses fedem..." 
          Outro senhor atalhou: –"É isso aí, João Milton, precisa viajar pra acabar com essa basbaquice de dizer: ISSO É BRASIL.(?) Às vezes o infeliz não saiu nem do Ceará..."(Novamente a interrogação se deve à minha incapacidade de entender.) 
          E, para terminar, o João me saiu com essa pérola: –"Na verdade, eu acho que vi muito pouco francês nativo, franceses africanos e muçulmanos você perde a conta!"
          Assim, ao ler o arremate de meu amigo uma espécie de catatonia se apoderou de mim. Os jornais não haviam anunciado a diáspora francesa; a imprensa televisiva idem.(Até então, dizia o meu amigo Olimar Carneiro, a diáspora dos sobralenses só perdia para a diáspora judaica. A se confirmar a francesa, superará, sem dúvida, aquela.) Até agora estou a me perguntar aonde terão ido os franceses nascidos em França. (Observe o leitor que aqui a dúvida sobre quem são os franceses nascidos e não nascidos em França não foi suscitada por mim, mas pelo João. Eu, em minha santa ignorância, julgava que o óbvio era que quem nasce na França é francês.) Ficamos todos sabendo, então, que quase não há mais franceses em Paris, já que o João quase não viu nenhum deles por lá. Já, já bato o telefone para o meu amigo Dennys Goudin, francês da gema e habitante de um lar à Rue Guillaume Tell no 17éme arrondissement, para saber se está vivo e onde se meteu.
          Ora, não entremos a falar de franceses e da completa e insana tentativa de falar mal de Paris. A análise de meu amigo, que julga que a cidade "passa por um processo social complicado", expõe, isso sim, um fragoroso e descarado Freudian slip porque, se não sabem, as cidades que estão a passar, de fato e sem a menor sombra de dúvidas, por um "processo social" complicadíssimo são as nossas. Embora o amigo tenha se valido de uma expressão pra lá de ambígua para tentar dizer que o parisiense está intranquilo, quem está apavorado é o fortalezense; quem vive enclausurado em casa é o fortalezense; quem é vítima contumaz de assalto e não de furto é o fortalezense; quem é frequente vítima de latrocínio é o fortalezense; quem enfrenta um trânsito caótico sem alternativa de transporte público de boa qualidade é o fortalezense; quem se mata nas periferias abandonadas, obscuras e escuras é o jovem fortalezense; quem consome e vende crack a céu aberto é o fortalezense; quem dispõe de uma única e mísera linha de metrô é o fortalezense... 
          Os furtos de Paris são o prejuízo mais grave que o incauto viajante vai experimentar nas gostosas ruas da Cidade Luz. Perto de nossas inúmeras e incontáveis mazelas, eles são, ou serão, apenas mais uma história para contar aos amigos e familiares. E, por uma obra e graça do destino, nem essa o João vai trazer para nos relatar. 
          O diabo é que me espicaça aqui a certeza de que o João estava doido para ser furtado em Paris apenas para apontar seu acusador dedo ufanista e se esgoelar dizendo: –"Viram? Paris é igualzinha a Fortaleza!!" E haveria, na rede social, uma penca de outros policarpos quaresmas a lhe fazer coro: –"É igualzinha! É igualzinha! É igualzinha!..."

domingo, 24 de agosto de 2014

BOAS LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA... (ASCLÉPIO AGUIAR)

Essa casinha, uma só porta
Janela e varandinha
É a casa do interior
De nosso indômito sertão.
Boas lembranças de infância
Retratam a realidade
Transmitem toda humildade
Imprimem amor e paz
E muita sinceridade.

Um pote coberto com pano
Água bem geladinha
Copo-alumínio no canto
A chamejar por aí pendurado
Limpo, brilhando, ariado.
Boas lembranças de infância
Retratam a realidade
Transmitem toda humildade
Imprimem amor e paz
E muita sinceridade.

Todo seu chão tocado na terra
Panelas soltas se batem nos pregos
Fogão a lenha, o cheiro do mato
Redes ao vento, armadores rangendo
Boas lembranças de infância
Retratam a realidade
Transmitem toda humildade
Imprimem amor e paz
E muita sinceridade.

O vento a bater com vontade
Banhos de chuva na relva
Latada atrás da cozinha
Pratos, canecos, panelas
Boas lembranças de infância
Retratam a realidade
Transmitem toda humildade
Imprimem amor e paz
E muita sinceridade.

Um pequeno canteiro e coentro
Tomate, alecrim e canela
Chuchu, cebolinha e panqueca
Ah! Como é bom e capaz
Adentrar por essa casinha
Boas lembranças de infância
Retratam a realidade
Transmitem toda humildade
Imprimem amor e paz
E muita sinceridade.

E logo o amigo pergunta
-Aceita um só cafezinho?
Com muito prazer e bondade
Sentimento, gratidão, caridade
Sentamos, então, no banquinho
Tiramos uma longa prosa
Tomamos o seu cafezinho
E fomos contentes simbora... 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O DESOCUPADO

               Outro dia falei sobre as vicissitudes de um desocupado. O desocupado é o sujeito a quem mais se perturba no mundo. Quer estorvar alguém? Procure um desocupado.
                O problema é encontrarmos um verdadeiro desocupado. Hoje em dia o que parece ser um desocupado provavelmente não o é de fato. É preciso investigar para se ter certeza. Portanto, se estás interessado em tirar o sossego de alguém que julgas desocupado, descobre primeiro se o alvo em vista é realmente um deles. Caso contrário, vais perturbar um sujeito que está muito ocupado, e isso só trará problemas para ele.
            A dificuldade em se ter certeza se alguém é desocupado é o paradigma recentemente criado de que o sujeito tem que estar sempre executando trabalho braçal para ser considerado ocupado ou, no caso do médico, atendendo em mutirões ou às multidões.
           Criou-se a noção, não se sabe tirada de onde, de que o médico só estará trabalhando se estiver atendendo uma penca de gente. Tudo baseado na ideia de que atender gente é como produzir motores numa fábrica, ou fabricar vários carros numa linha de montagem, ou coisa que o valha. Ou seja, o sujeito vai entrando e o médico já vai passando o remédio só em olhar-lhe as fuças. E já vai gritando: - “O próximo!”
          Exageros à parte, é exatamente isso o que acontece nos tempos atuais. Aquele médico cuja consulta com seu paciente durava sua boa hora e meia a duas horas já não existe. E todos reclamam. E todos estão certos em reclamar. Por quê? Porque não está correto. Não é uma questão de opinião. Não está certo porque os resultados desta prática são desastrosos. Ponto final.
          Pois vejam que eu estava muito desocupado ontem de manhã. É que havia visitado apenas dois doentes no hospital. Fui impelido a ouvir-lhes as queixas, os temores, os anseios, e isso não tem a menor importância, de acordo com o paradigma vigente. Que diachos tem um médico de estar a ouvir queixumes de doentes? Doentes só têm direito de se queixar sobre coisas diretamente relacionadas com sua doença atual tipo dor na operação, febre, incapacidade funcional, e por aí vai. A mim não interessa onde moram, se têm filhos, se se alimentam bem, se são felizes em seu trabalho, se seu casamento anda bem, se acreditam em Deus, se têm medo de morrer, ou qualquer outra dessas besteiras. A mim não importa se vão perder a perna, ou o braço, ou a vida. Por que devo confortá-los? Não devo nem mesmo auscultar-lhes o peito, palpar-lhes o abdome, examinar-lhes a face. Não é minha função.
               O gestor público há de me perdoar, mas ontem eu estava tão desocupado que fui obrigado a estar com os dois doentes da forma que ele detesta: - como verdadeiro médico. Entendo que o gestor deve estar certo: - isso não tem a menor importância. O gestor quer que eu, após o estupro em mim perpetrado, tenha orgasmos estuprando o doente da forma mais vil e abjeta. E, se errar, que me processem. O governo não tem nada a ver com isso.
               Mas, paremos com essa lengalenga que minha obsessão já me leva à desistência. Não foi com isso que sonhei. É problema meu.
               Saindo do hospital, resolvi voltar a pé para casa. Coisa de quem não tem o que fazer.
               Subo Barão do Rio Branco pelo lado direito e viro à direita por trás do Cine São Luís em direção à Praça do Ferreira. Vinha pensando em engraxar os sapatos. Certamente lá haveria um engraxate a quem pudesse confiar meus Scatamacchia. Viro à esquerda em direção a São Paulo. Os bancos estavam tinindo de gente. Não obstante, de longe já avistei a caixinha repleta de graxas, e ceras, e brilhos, e polidores, e escovas, e flanelas. As duas elevações de madeira para o cliente apoiar os pés eram inconfundíveis.
                  Era um homem negro e magro de cabelos brancos. Usava um boné e vestia uma camisa branca os botões todos abertos, exceto o último. Calça jeans surrada e sandálias havaianas gastas nos calcanhares completavam sua “farda”.
                -“Tá livre?”, perguntei. Ele se apressou em ajeitar um assento acolchoado que jazia sobre o banco de madeira, tangendo de cada lado os companheiros que lhe serviam de plateia, todos infinitamente mais desocupados do que eu.
                Sentei.
                À esquerda um jovem de seus vinte e poucos anos em bermudas lendo o jornal do dia; à direita um homem branco de seus setenta, interlocutor de meu engraxate.
                -”São só cinco reais”, respondeu ele já dando início ao trabalho. Suas mãos e dedos deslizavam com maestria pela superfície opaca de meus Scatamacchia, demonstrando elevado conhecimento do ofício.
                  Os dois homens retornaram à conversa que eu interrompera:
                -“Viste a roubalheira do INSS?”, perguntou o engraxate.
                -“A polícia federal prendeu uns quinze. Tudo gente de nível. Milhões de reais”!
                -“Tem jeito não, rapaz. Vês o que esta prefeita está fazendo com a cidade?”
                -“É um buraco em cada esquina, né?... Fortaleza não vê outro prefeito como o Juraci.”
                -“O povo é fogo…! Não sabe votar.”
                -“É capaz de reelegerem a loira.”
                Pausa. O homem idoso voltou, após ficar pensativo alguns poucos minutos:
               -“Rapaz, se eu pudesse voltaria ao trabalho. A saúde não permite. Tenho 73, mas ainda gostaria de estar na ativa. Trabalhei duro por 50 anos.”
                -“Eu já trabalho há 60...”
                -“Tens quantos anos, Pirrita?”
                Finalmente soube o nome do profissional da graxa.
                -“Sessenta e cinco. Trabalho desde os seis anos de idade”, respondeu ele com naturalidade.
                -“Lembro de ti nos anos 60... lavador de carros, né?”
                Nova pausa após o negro assentir afirmativamente. Desta vez foi ele quem reiniciou:
                -“Raimundo, tu eras funcionário da Esquisita, né?” Raimundo era o nome do mais velho.
            -“Isso. Sabias, Pirrita, que salvaste a minha vida naquele dia em que desligaste os cabos de vela daquele meu Volks?”
                 -“Mesmo? Taí qu’eu num sabia, não...”
             -“Foi, sim. Vou te contar. Foi o seguinte”, e se empertigou no banco como a buscar uma posição mais cômoda para o relato que viria em seguida.
              “Tinha uma dona que passava todo dia na frente da loja. Olhava pra mim e sorria. Uma morena jeitosa que só vendo. Um dia ela passou e eu a chamei: ‘Olha, meu amor, vem cá… já percebi que você nutre por mim uma simpatia. Eu te acho um estouro. Que tal a gente sair e conversar um pouco? ‘ Ela falou: ‘Acho que não, eu sou casada. Isso dá certo?’ Notei que ela ficou na dúvida. Falei: ‘Claro que dá. Vamos? ’ Ela topou. Quando entramos no carro, o bicho não pegava. Virei a chave num sei quantas vezes e nada... Acabei desistindo. Aí eu falei pra ela: ‘Olha, meu amor, não vai dar certo, não. Não sei o que há com esse carro. Vamos deixar pra outro dia. ’ Depois disso pensei melhor e de sair com ela. Já pensou se saio com a mulher e o marido fica sabendo? Poderia até levar um tiro, né não?!”
                 E continuou, convicto:
                 -“Se não desligas o cabo de vela depois da lavagem... sei não!”
          Quinze minutos depois os sapatos brilhavam mais do que espelho na luz. Pirrita caprichou. Vai engraxar bem assim no raio que o parta! Se quiserem experimentar, é bem ali na Praça do Ferreira, quase defronte ao São Luís para o lado norte. O segredo é ficar um pouquinho mais desocupado.

Fernando Cavalcanti, 25.06.2008     

AVÓ

Pode ser que haja um imbecil aos 70, mas não aos 90. Diga- se de passagem, cresce a população de imbecis aos 70. Vejam, por exemplo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Faz 69 este ano. É um apedeuta, e não somente um apedeuta: - é um imbecil de carteirinha. 
          Dizia o Nelson que antigamente os idiotas se sabiam idiotas e se recolhiam à sua insignificância. Perguntava o Nelson: -"Que faziam os idiotas de antigamente?" E ele mesmo respondia: -"Faziam filhos". Hoje que fazem os idiotas? Talvez o Nelson dissesse: -"Faz sucessores". E estaria certo mais uma vez. Basta ouvir um improviso de nossa excelentíssima Presidente da República, Dilma Rousseff. Fará em dezembro 68 anos de idade.
          Mas, como eu dizia, não há idiota, ou imbecil, aos 90. Perdoemos o Niemeyer que seu apego ao Fidel e ao Stalin foi um desses sentimentos inamovíveis à certa altura da vida. Não pega bem o sujeito admitir o erro em idade tão avançada. 
          Não é todo dia que se conhece alguém de 90 ou mais. Conheci alguns pessoalmente e garanto – são todos, sem exceção, pessoas notáveis. Sua característica mais marcante é a tranqüilidade e a paz que exalam. Nada temem. O tempo não mais lhes assusta, nem mais lhe apavora. São senhores do tempo. Sabem que o enganaram por toda a vida e estão calmos pela inexorabilidade do destino. 
          Deliciam-se ao encontrar um tolo como eu, que tudo pergunta e tudo quer saber. Mostram-me fotografias, comendas, títulos, diplomas, certidões, reconhecimentos... Falam do Liceu, do francês, do latim, dos golpes de Estado, da morte dos amigos e dos parentes... Tudo assemelha-se a uma aventura que viveram, a aventura de suas vidas.
          A primeira pessoa assim que conheci foi minha bisavó materna. Eu tinha lá meus 24 e já era pai de duas lindas crianças, seus tataranetos. Minha mãe cedo foi órfã de pai e sua família dela se distanciou. Eis que, certo dia, ela me liga e me convida a ir justamente à casa de minha bisavó, que sequer eu supunha ainda viver.  Era seu aniversário, seus 95 ou 96 anos.
          Sepultara 15 filhos e dois maridos. O primeiro marido, pai de minha mãe, morrera cedo, aos 39, de tuberculose. Era nas primeiras décadas do século XX e ela trabalhava, junto a um único funcionário, no cartório que lhe pertencia. Morto o marido, virou-se ao funcionário e disse-lhe que, se fosse seu desejo continuar trabalhando ali, seria melhor e necessário que a desposasse porque, do contrário, ficaria “falada”. O homem não queria perder o emprego, nem ela queria ficar “falada”. Assim, casaram-se.
          Ela era, definitivamente, uma mulher firme e lúcida. Disse-me, quando lhe perguntei sobre a vida: -“Estou cansada de viver, meu filho. Todos os dias vejo o sol nascer e se pôr e me pergunto quando partirei, se verei o fim do dia.” Eu quis saber por que e ela me explicou: -“Não conheço ninguém. Todos que conhecia morreram. Ninguém quer conhecer ou conversar com uma velha como eu. Além disso, que assunto poderia ter com alguém mais jovem? Estou muito cansada...” Dali a poucos meses ela escorregou, caiu, quebrou um osso da perna e morreu de pneumonia.
          Sobre muitas outras coisas falamos. Ela me causou uma impressão indelével e até hoje me pergunto por que não me levaram antes a conhecê-la. Ela era uma fonte inesgotável de sabedoria e experiências, pelo que pude avaliar, e eu me sentia um tolo ali, perto dela. Contudo, também sentia uma vontade insaciável de lhe inquirir, de lhe ouvir fatos da vida, saber de seus momentos distantes no passado... O pouco que me relatou só foi possível por breve período. Afinal, era seu aniversário e outras pessoas iam e vinham.
          Eu fui o culpado. Aos 24 o que somos? Idiotas, eis a verdade. Eu era um dos idiotas do Nelson. Nesta fase da vida estamos mais interessados em enaltecer nossa vaidade pessoal e exercitar nosso impulso sexual. Pensamos em coisas menores e estamos empenhados em construir uma “carreira”. Eu não teria achado um dia sequer para ir vê-la, como de fato não achei. Tive alguns meses de prazo e ponto final – ela encontrou o seu tão desejado repouso. Direi sem meias verdades: - dadas as circunstâncias, eu não teria tempo para ela, de fato. Um idiota não enxerga um palmo à frente do nariz.
          Poderia ter escrito muitas histórias sobre ela e sua rica vida, se fosse minimamente sensato, o que é virtualmente inviável aos 24. Em vez disso, eu estava ocupado com minha própria vida. Poderia ter-lhe dado a mão numa viagem a seu passado e com isso lhe proporcionar emoções revisitadas e revividas. Mas não... Não é isso o que nos ensinam? que sejamos idiotas? Não é isso que querem que façamos? 
          Por alguns dias estaríamos juntos numa experiência inigualável e inesquecível, para ela e para mim. Através dela teria conhecido meu avô paterno, fatos de sua vida, quem era ele, o que fazia... Mas, não. Estava envolvido demais com as minhas tolices, pensando no futuro, pensando em mim...
          Eu poderia tê-la amado com todas as minhas forças, com todo o meu afeto, com todo o meu ser, a beber dela o néctar que acalma os bebês de leite. É o que eu era diante dela – um bebê de leite. Não o fiz. Deixei passar. Mas não esqueci – adiantaria defender-me alegando uma precoce e suspeita falha de memória? Nunca me esqueço de minhas insensatezes e falhas imperdoáveis, embora me as perdoe para seguir vivendo. Como poderia seguir se não o fizesse?
          O que me esmaga é o arrependimento. Como sofro todas as vezes que me arrependo, essas lembranças enfronharam-se em torno de mim como os mosquitos hamatófagos que me não deixam em paz na madrugada. E sofrer não é definitivamente a minha sina. Mas continuo sendo o imbecil que erra como qualquer ser humano.
          Perdoa-me, 'vó, minha desleixada e inconsequente sombra em tua vida. Dorme em paz...

Fernando Cavalcanti, 25.03.2011

A LUZ (de meu Amigo ASCLÉPIO AGUIAR)

A Luz vem de tudo...
Vem da alma
É aguda.

É a mão que apalpa:
É felpuda;

É a mão e a palma
Que acalma

Só não é muda.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FERNANDO DA GATA, UM EPITÁFIO

                O ser humano é um eterno inconformado.  Se lhe damos as costas quando reclama o isolamento, se queixa; se nos chegamos mais perto quando deseja companhia, se maldiz; se lhe demonstramos desinteresse, implora; se não o amamos, odeia; se lhe dizemos não, vai ao juiz. E quando lhe contamos uma história, quer saber tudo nos menores detalhes, como se fôssemos seus autores, e não a vida. É o caso com a história do apelido que me puseram.
                Outro dia, há não mais de uma semana, bate o telefone e eu atendo. Do outro lado uma bonita voz feminina, após uma breve hesitação, pergunta: -“É o Fernando da Gata?”
                Desatei a rir. Ambos rimos gostosamente durante longos e eternos segundos. Os mais detalhistas hão de atentar para o detalhe do tempo e do porquê estarei eu a esmiuçá-lo. Ora, tento apenas criar a atmosfera, de modo a que todos se sintam na história e nela acreditem. 
                A amiga passou, então, a relatar como soubera que o tal Fernando da Gata havia sido um marginal da pior espécie, e como se surpreendera já que julgara que o apelido sugeria que eu fosse objeto do amor de uma bonita mulher.
                Ríamos diante de tal engano. Inevitável e imperioso lhe confirmar a história do bandido. Rimos tanto que não tive tempo de lhe contar os detalhes que fizeram perpetuar o nome desse famoso presepeiro através da escolha de meus mais diletos amigos, e que me aquilata o reconhecimento ante tantos fernandos desta geração.
                Fernando da Gata ganhou os hospitais, os bares, os restaurantes, os inferninhos, as praias, os plantões, as casas, os amigos e inimigos, conhecidos ou não. A mesma amiga do telefonema, não conformada com a risadaria, me escreveu depois dizendo: -“Fez a fama, deita na cama!” Portanto, a origem do “Fernando da Gata” merece ser do conhecimento geral e irrestrito. É chegado o momento. Aí vai, portanto.
                Era o princípio dos anos 80. Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, estava no auge. Em minha turma, na faculdade, um amigo branco, loiro, de olhos verdes lembrava a modelo na cor da tez, dos cabelos e dos olhos. É comum – as esquerdas imbecis diriam que é burguês – que a enumeração dessas características suscite em quem ouve ou lê a idéia de um indivíduo cinematográfico. 
               No entanto, para a frustração de todos devo confessar: o amigo era – e ainda é – muito feio. Eu, sacana de praxe, entediado com as explicações do professor sobre o processo inflamatório agudo numa aula de Patologia, virei-me e falei, apontando para ele: -“Xuxa!”
                A turma veio abaixo. Gargalhada geral. Gente pletórica de tanto rir . Em suma, um hilário pandemônio. O professor conseguia, a um custo exorbitante, segurar a gargalhada, inclusive a própria. Assim, o Xuxa tornou-se, naquele exato momento, o primeiro Xuxa do Brasil. Nenhum havia até então. Desnecessário salientar que o colega não gostou do apelido. Mas não houve jeito. Esqueceu-se o nome do homem; era Xuxa pra lá, Xuxa pra cá...! Ele, egresso do sertão, bicho brabo brejeiro, o mato ainda a lhe crescer dentro de si, passou a nutrir por mim o desejo dos homicidas por suas vítimas.
                Nesse meio tempo, fugia, pelo sertão mineiro, o Fernando da Gata legítimo, bandido cearense, assassino confesso, ladrão, estuprador, autor de tantos outros crimes. A polícia em seu encalço, todo santo dia a imprensa publicava um pega-não pega-pega-não pega mais feio do mundo. Até que, com efeito, o pegaram.  E mataram o homem. Foi a deixa que o colega esperava. 
               Não sei se lembram-se da propaganda de 1996 do Ministério da Saúde, incentivando o uso do preservativo masculino com o intuito de prevenir as doenças sexualmente transmissíveis. Para não usar termos considerados chulos ou agressivos, a agência de propaganda resolveu pôr um nome na genitália masculina. O nome escolhido foi "Bráulio". Pobres dos bráulios da época!... Se o sujeito se chamasse Bráulio, estava perdido; era foco de toda gozação e pilhéria. O Brasil inteiro passou, desde aquele instante, a tirar sarro de todos os bráulios, vivos e mortos.
                O colega, bem antes dessa época, percebeu o potencial do uso, como apelido, de um nome em destaque no momento histórico. No meu caso foi ainda mais fácil, dado o fato de eu ser homônimo do bandido. Tanto foi que, dali a alguns dias, no dia em que a imprensa noticiou a captura e morte do Fernando da Gata, ele virou para mim, no meio de uma aula, usando de minha própria "estratégia" e, apontando-me o indicador, gritou: -"Fernando da Gata"!
                Desnecessário dizer que a galhofa foi maior. Afinal, morria ali um Fernando da Gata, malfeitor até o semi-eixo, e nascia outro, bonachão, fanfarrista, brincalhão e dado à alegre algazarra, sonso até o semi- eixo, mas de boa índole e bom caráter: - eu! 
                Por ser meio “bandido”, o apelido me caía como uma luva. Vejam que o termo “bandido” aqui refere-se à minha personalidade inquieta, desapegada, meio porra-louca para um estudante de medicina. Era uma coisa meio controvertida, meio destoante para a época. Eu não estava muito preocupado com o que normalmente preocupa as pessoas, assim como não estou até hoje. Em verdade, não queria nem quero estar. Mas o meio, este meio em que vivo, é um teste perene, interminável. Ele é a prova viva da banalidade de nosso dia-a-dia, em que só os bons pagam. Acho que vem daí essa dubiedade que existe em mim. Cedo percebi a hipocrisia do meio. O falso ser. A necessidade do ter. O ter sem ser. O ter sem poder. A vaidade de falsamente ser sem ser de verdade. A pompa e o glamour do jaleco sem espelhar os meus sonhos. O destoar da realidade cotejada com meus castelos da mente, na busca de fazer a diferença para o que sofre. 
                Fernando da Gata era o bandido de minhas virtudes e o terror dos hipócritas de jalecos encardidos. Era o medo dos que faziam as provas estudando pelo caderno copiado nas aulas, contraposto às minhas leituras sinceras nos espessos livros de nossa bibliografia implacável. Era o “Regular” respondido do livro contraposto ao “Excelente” respondido do caderno limpinho e bem feitinho, quando a evidência dos métodos ginasiais no ensino superior me estuprava a inteligência e me entediava. 
                E, quando queria que se fodessem todos, o “Excelente” lido no livro para aplacar a soberba dos bestas e idiotas. Fernando da Gata foi a minha adaptação, meu modo de “ir ficando”, meu plasma comportamental. Parece até que foi um presságio, um alerta, um grande “CUIDADO!”. Ser Fernando da Gata me tornou desiludível. Como se quisesse sempre dizer que sou falível, e que assim quero continuar sendo. Fernando da Gata me manteve longe das rodas dos “grandes”, da fama fútil, da fama inútil, do desprazer de rir quando quero chorar. Sendo Fernando da Gata choro quando quero e sou sempre o mais humano que posso.
                O meu amigo Xuxa deixou de ser Xuxa em breve, e é um cara fantástico, médico de branco, homem de caráter, homem de família. Eu continuo sendo, embora cada vez menos reconhecido, o Fernando da Gata. Ainda que queiram me roubar a pureza, que queiram me roubar a infância adolescente já à beira dos 50, que queiram me tornar um adulto estúpido e insensível, quero continuar Fernando da Gata. Sinto-me mais à vontade, mais irreverente, mais humano.
                Por isso, aos mais íntimos amigos rogo: - por favor, não o esqueçam ao epitáfio...!

Fernando Cavalcanti, 20.02.2008

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FERNANDO DA GATA

          Olha, Casoba, o fato é que a doutora era gente boa; pessoa de têmpera leve, feliz, simpática... Sempre me tratou com alguma deferência. Lembra-me nosso tempo de residência médica, ela na Clínica, eu na Cirurgia. Os casos lá internados que se faziam cirúrgicos, ela me chamava. Para emitir pareceres também. Ou outras coisas menores, dissecar uma veia, puncionar uma subclávia, biopsiar uma lesão de pele... E nem era vistosa. Apreciando-se melhor, talvez tivesse alguma graça. Sabes que sou um sujeito extremamente complacente com as mulheres, ainda mais em se tratando de beleza. Ora, que não saltem de lá aqueles linguarudos que chamam homens como eu de “terra de cemitério”, ou “oncinha”! Não admitirei! Direi apenas que sou tolerante com uma ou outra imperfeição física feminina. Em outras palavras, sempre há de me parecer que toda mulher tem alguma beleza, seja lá onde for. A não ser pelos defeitos maiores, vá lá.
          Lembra-me também, ambos especializados, que levei meu pai a vê-la. Ele estava a trabalhar em demasia àquela época, e até na política se metera. Acabou dando com os burros n’água. Adoeceu e perdeu a eleição. Apareceu no hospital, eu de plantão, queixando-se de adinamia. Levei-o a vê-la e ela diagnosticou e tratou sua doença. Por isso afeiçoou-se a ela, sempre querendo notícias suas quando me encontrava. 
          Em tudo isso me foi muito solícita, muito atenciosa, como de praxe. Até que perdemos o contato. Sumiu do mapa a doutora. O mesmo ela deve ter pensado de mim. As forças centrífugas da vida nos movem para longe e, se não cuidamos, em breve longe estamos uns dos outros.  
          Por conseguinte, passaram-se os anos. Até que, certo dia – hás de lembrar-te – tu mesmo dela me deste notícias. Sem nada saber sobre minha ligação profissional com ela no passado, me perguntaste se eu lera o livro de certa doutora, assim, assim... Perguntei seu nome e tu: -“Fulana de Tal!” Ora, eis justamente que ela era a autora! E rasgastes panegíricos ao livro, à sua temática, ao seu estilo, à escorreita escrita. Curioso, comprei-o.
          Li-o numa tarde. Ele narrava a história de sua vida durante o tempo de nossa ausência mútua. A obra era intimista; lasciva em certos trechos, dramática em outros, sempre emocionante, meu bem-querer por minha antiga amiga reacendeu. Anelei encontrá-la e mandei-lhe uma mensagem do telefone portátil, parabenizando-lhe. Ela não respondeu. Conjecturei a possibilidade de ela não mais usar aquele número.
          Afinal, deixei a doutora lá, com seus afazeres. Pensei comigo que algum dia, em breve, nos reencontraríamos. Nossas especialidades têm muito em comum e poderíamos nos ajudar mutuamente com nossos pacientes, eventualmente. Regredi no tempo e imaginei nossa troca de expertise, a bem dos pacientes, como anos antes. Para mim a amiga estava guardadinha esperando a ajudar-me quando necessário.
          Um pouco mais de tempo e aconteceu. Precisei dela. Do consultório, com a paciente diante de mim, bati-lhe o telefone. Dessa vez certifiquei-me de ligar o número correto. Confiando em minhas credenciais de amigo, queria que ela visse a paciente o mais rápido possível. Identifiquei-me e expus a situação. 
          Para minha surpresa ela foi taxativamente seca. E, mais do que seca, ela foi fria. Invocando motivos que considerei menores e não levando na devida conta nosso passado de cooperação mútua, falou que não podia ajudar a paciente da forma que eu esperava. Ficou claro para mim uma mudança na essência de minha amiga.
          A paciente saiu e eu, inconformado, resolvi tocar-lhe novamente o telefone. Pareceu-me, no momento, que talvez ela não soubesse com quem estava falando, e me tomasse por outro Fernando. A abundância de "fernandos" em minha geração de médicos é conhecida à larga. 
          Sabes, Casoba, que tenho certo apelido que levarei ao túmulo. É certo que me hão de pô-lo ao epitáfio. Longe de me causar problemas, antes ele me identifica diante desses tantos “fernandos”. Lançar-lhe mão traz à memória dos mais incautos quem é o Fernando Cavalcanti. Assim, não me restou outra alternativa a não ser lançar mão deste "diferencial cognitivo": 
          -“Doutora, aqui quem fala é o seu amigo Fernando da Gata!” 
          Para minha frustração e decepção, seu coração seguiu empedernido. Dirás, Casoba, que estou a valorizar em demasia a minha futura inscrição sepulcral e direi que, sim, é bem possível. Mas, para que vejas como não minto, descrevo-te um episódio ilustrativo.
          Outro dia o meu amigo Grijalva bate o telefone para o ilustre professor Ribeiro, nosso mestre de Anatomia Humana dezessete anos antes na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Usando o viva-voz a fim de que eu eventualmente viesse a entrar na conversa, disse: -“Professor, eu tenho aqui em minha frente um candidato do IJF ao mestrado no ano que vem: o meu querido Fernando.” 
          Professor Ribeiro respondeu:
          -“Fernando... que Fernando?” 
          -“Fernando Cavalcanti.”
          -“Fernando Cavalcanti?...” 
          E o Grijalva, exasperado:
          -“ O Fernando da Gata, macho! ”
          Aliviado, o Professor respondeu: - “Ah, por que não disse logo?... o Fernando da Gata!”
          É inegável que a doutora não deu a mínima para o Fernando da Gata. Vê, Casoba, como é distante o caminho sem volta.

Por Fernando Cavalcanti, 16.02.2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A RUA DE MINHA INFÂNCIA - UMA SAUDADE SEM FIM

          (No tempo daquela rua a vida era pura magia, em tudo, por tudo, por todos.)
          Tenho uma enorme dificuldade em entender os motivos que levam tantas pessoas ao divã. O que me está claro é a razão dessa dificuldade. Dela eu bem sei.
          A razão de minha dificuldade em entender o desperdício na vida das pessoas deitadas ao divã é justamente a magia do tempo da rua de minha infância e tudo o que a ela se refere. Ainda agora, nessa madrugada serena, quente e pouco iluminada, a visão desse conjunto move em mim algo sagrado, indescritível, imponderável. Uma única palavra pode traduzir esse encanto: - saúde. Afetiva e psíquica. Aquele tempo me herdou saúde afetiva e saúde psíquica.
          Devo ser um sujeito muito pretensioso por julgar que somente naquele tempo se pôde herdar saúde afetiva e psíquica. É óbvio que estou errado. Digo então, após reconhecer meu crasso erro que, talvez por sorte ou qualquer outro motivo que não atino no momento, por obra e arte do acaso, aconteceu de, depois daquele tempo, ganharmos saúde afetiva e psíquica.
          (Ah, eu bem sei que aqui não há acaso!... aqui há família, princípios, moral.)
          Saúde afetiva é a consciência da importância maior do amor próprio e o exercício do amor que faz crescer para com outras pessoas. O amor que faz crescer não é, ao contrário do que possa parecer, um amor passivo, estático, permissivo; ele é, acima de tudo, o amor que ao outro questiona, que ao outro expõe. Por isso é possível que gere conflitos e iras. Ele pode representar o divã onde se deitam os pacientes da psicoterapia, hoje tão procurada. Quem tem pelo outro o amor que gera crescimento diz a verdade e está sujeito a também ouvi-la. Pena é que muitas vezes, ao ouvir a verdade que ninguém diz, quem diz se vê na iminência de ser alvo de verdades que são inverdades, revides do que julgam agressões àqueles que imputam infâmia naquilo que sabem ser de fato a verdade. Portanto, maturidade é necessária ao exercício do amor que faz crescer.
          O amor que faz crescer não é tolerante com a fraqueza, com a indulgência, com a pusilanimidade nem, e principalmente, com a falta de amor próprio. Não vê com bons olhos o egoísta nem os que não o têm ou o têm ao mínimo. Daí se pensar, como conseqüência, que não seja possível a amizade e a convivência destes com aqueles. A recíproca é absolutamente verdadeira. Os que não têm amor próprio detestam os que o têm e neles vêem um quê de petulância e pedantismo. Bem se vê como tende a ser conflituoso o relacionamento de uns com os outros.
          Um exemplo de saúde afetiva debilitada é o do adulto que se origina da criança que tudo tem, tudo recebe e a quem tudo é permitido. Cresce cada vez mais nessa criança a sensação de que não é amada, de que é, na verdade, temida. Sem o amor que cuida e que limita, não desenvolve o amor por si mesma, não desenvolve amor próprio. Sem ele não tem por outros o amor das relações, o amor que contribui para o engrandecimento do outro, o amor que faz crescer.
          Saúde psíquica é – não pretendo escrever um tratado discordando ou apoiando os estudiosos da mente e do comportamento humano – ter intactos e bem desenvolvidos os mecanismos mentais que protegem o ser dos ataques que visam diminuir-lhe o amor próprio. Em outras palavras, é saber minuto a minuto dos ataques que lhe são desferidos ao amor próprio e repeli-los incontinênti. Os seres humanos estão sempre empenhados em humilhar, diminuir e assustar o outro porque assim julgam conseguir “cooperação” ou subserviência; não se importam que tal manobra seja, no outro, causa de tristeza, frustração, culpa, dependência e medo. De fato, é precisamente o que querem que aconteça, pois somente assim conseguirão tê-lo como refém. Tais estratagemas, quando usados na infância, criam na adultícia verdadeiros ratos de consultórios de psicoterapia. O resultado é amplamente conhecido: - são doentes crônicos cuja cura está sempre além dos conhecimentos do pobre e empenhado terapeuta. E nem digamos que esses senhores não exercem para com seu paciente o amor que faz crescer, única chance real de eles se curarem definitivamente.
          Aquele adulto que brota da criança que não desenvolveu seu amor próprio é facilmente manipulado e dependente, e carrega no fundo de seu ser a culpa que lhe corrói a alma, a de ter nascido. Não desenvolve a saúde psíquica que lhe preserva o amor próprio pois não o tem para ser preservado.
          Aquela foi minha rua por quase onze anos. Dali saí para a vida de adulto repleto das ilusões e certezas que habitam a alma dos jovens. A vida comigo fez o que sempre faz a todos: - esmagou-me as ilusões e as certezas com sua natural frieza e passividade. A mim restou o início da compreensão de tudo o que me impelia ao desequilíbrio, à insanidade, à ansiedade, à angústia e ao menosprezo pela vida. Mais; anos depois tive que aprender a me perguntar com freqüência o que a vida estava querendo me ensinar com as peças que me pregava e com as sucessivas perdas que me abatiam. As respostas eram fáceis de descobrir, e sempre me impeliram a polir ainda mais minha saúde afetiva e psíquica. O mais eram considerações filosóficas e religiosas que a ninguém há de interessar. As ruas ensinam lições em cada casa e em cada esquina.

Fernando Cavalcanti, 07.03.2011

terça-feira, 5 de agosto de 2014

OZENAS DO PODER

​          Todos sabem que hoje se ri on-line, por escrito, usando-se cás e agás. Como se conversa por escrito, ri-se também por escrito. Há gargalhadas ferozes, e existem ainda aquelas risadas insossas e sem viço. Tudo por escrito e on-line, repito.
​          Aliás, faz-se quase tudo on-line: - faz-se sexo, compras, vendas, propaganda, cursos, etc. etc. etc. Ultimamente o que mais se faz on-line é mentir. Mas – pasmem! – esquece-se também on-line.  Sim! Na rede mundial de computadores dissemina-se o esquecimento, qualquer esquecimento. Vou tentar explicar, e já de antemão aviso: - não será fácil.
          É assim. Alguém, ou um grupo de “alguéns”, de tão apaixonado dissemina um rombo, uma lacuna na mente e na memória de milhões de pessoas. As pessoas, esses milhões delas, de tão atarefadas e empenhadas em suas vidas medíocres, estão agora com um oco em sua mente e simplesmente não se apercebem. Se lhes tirassem parte do cérebro numa lobotomia, não ficaria a cicatriz para lhes lembrar o ato. Nem anticonvulsivantes lhes seriam prescritos. Seria uma lobotomia silenciosa, sem rastro. De fato, dá no mesmo perder todo ou parte do cérebro, ou simplesmente não usá-lo.
          ​Nada contra se milhões de pessoas querem tirar o cérebro pelo nariz, como numa dessas inocentes corizas escarradas claras como água. Outros cérebros mais densos sairiam como verdadeiras ozenas.
          Ocorre que, ao perder parte do cérebro – há quem o perca quase que por inteiro –, perde-se também o homem. Nada contra que também se perca o homem. Quem quiser se perder, que apague suas lembranças e sua memória.
          ​Quem não desejar perder-se a si mesmo, que fique atento. Todo o cuidado é pouco porque as supostas mais brilhantes mentes são as que mais se encarregam da mutilação fatal. Vejam, por exemplo, o Saramago, o Dawkins, o Chávez, o Niemeyer e, mais recentemente, o Chico e o Gil. Abaixo de todos esses, outros e outros “intelectuais” e "sumidades" expressas e amplamente aceitas. Uma legião de cultos e amantes da democracia alinha-se para deflagrar o maior espirro de cérebros jamais visto, não sem antes terem, eles próprios, extirpado parte dos seus. Esqueceram-se. Não se lembram. E haja circunvoluções e giros a se perder em brancos e sedosos lenços de algodão!
​          Ninguém é perfeito, mas há que se cultivar e perseguir um mínimo de princípios básicos. Para o homem, nada é mais valioso do que a liberdade. Mesmo a saúde, tão cara ao homem, não é fundamental. De que vale ser saudável sem liberdade? Melhor uma tosse braba com liberdade a uma saúde de ferro sem ela. Ainda assim, dissemina-se o esquecimento desse princípio fundamental. E outros esquecimentos também grassam a galope. Todos os roubos, e dinheiros de origem desconhecida, e propinas, e tráficos, e enriquecimentos rápidos, e castelos, e conchavos entre imiscíveis de outrora, e desconhecimentos e, parece, até mesmo assassinatos foram esquecidos. Manifestou-se com ainda mais contundência nossa enorme propensão ao crime e ao delito nos altos círculos do poder.
​          Que pensar?, se as mais brilhantes mentes do país se curvam à súcia avassaladora? Esquecer também? Cegar? Não ver? Acreditar que tudo não passou de um pesadelo sem substrato na realidade? Tudo invenção? Aceitar que os fins – que não são lá esses balaios todos - justificam os meios? Ora, se o Dawkins e outros de seus comparsas insistem na evolução com gritantes evidências em contrário e ainda assim vende milhões de livros, lota platéias e é referenciado como a sumidade do momento, então tudo é possível. Não somente aqui se estão a esquecer as coisas. Se o Saramago morreu infligindo ao Senhor os maiores insultos e desdéns e ainda assim foi e ainda será por muito tempo comemorado e aplaudido, então tudo é possível. 
          Bem se vê que as massas são de tudo capazes. Nem falemos do Chico, do Gil e do Niemeyer, que esses são apenas passivos cúmplices de alto gabarito.

Fernando Cavalcanti, 22.10.2010